22 de novembro de 2016

Melina Balcazar Moreno sobre Da Natureza Dos Deuses

António Lobo Antunes ou o núcleo das trevas

Edição Christian Bourgois, 2016
tradução de Dominique Nédellec
«O mundo foi feito ao contrário», proferiu um dia um velho, num hospital psiquiátrico, a António Lobo Antunes.  Um homem a quem «os médicos chamavam «esquizofrénico» e que, atormentado por tais palavras que o torturavam, ofereceu ao jovem escritor a mais simples lição de escrita de sempre:  não se pode escrever senão a partir do que antecede as palavras. Ou seja, as emoções, as pulsões que lhe conferem forma e, ao mesmo tempo, deformam a memória. Assim, em «Receita para me lerem: «as palavras não passam de signos das nossas emoções, e as personagens, as situações, e as intrigas, pretextos aparentes para atingir o avesso escondido da alma. A verdadeira aventura que persigo é a de que narrador e leitor partilhem as entranhas do inconsciente, sede da alma humana» (Livre de chroniques III *). Uma vez que, e tal como Lobo Antunes faz questão de nos lembrar, não há nada de mais contingente, mais imprevisível, que o passado.

Em Da Natureza Dos Deuses, o seu último romance – ou talvez devêssemos antes dizer um longo poema, já que a fronteira entre os géneros parece tão frágil –, o escritor aborda o destino de uma importante família portuguesa, com fortes ligações ao poder e ao dinheiro. Uma história repleta de incertezas, lacunas, de sombras, contada de modo fragmentário por um cruzamento de vozes, tempos e de níveis de consciência. O leitor vê-se, por conseguinte, confrontado com frases sincopadas, marcadas pela ausência de vírgula ou de maiúscula, arrastado por esta sucessão de vozes, atormentadas por outras vozes, que se interrompem  e permanecem frequentemente em suspensão. Estes monólogos tendem, todavia, a dirigir-se à figura de um homem, que nunca será designado senão por «senhor doutor», detendo, porém, um poder de decisão sobre a sua vida, quer na qualidade de patrão, dono, marido, amante ou pai. Aliás, o próprio Senhor acabará, por sua vez, por tomar a palavra, deixando emergir a sua própria angústia perante a solidão e a morte: «se além dos bancos mandasse na vida das pessoas proibia-as de morrer». Mais do que uma reflexão sobre os mecanismos do poder, Lobo Antunes explora [neste romance] de forma magistral o seu avesso, a sua fragilidade, até mesmo a sua impotência.

Sobre a infância e o medo do escuro

A escrita de Lobo Antunes procura, pois, situar-se para além da narrativa, para se concentrar no modo como as recordações, em particular as da infância, se apoderam do presente, a ponto de o fazer vacilar. «veja-se o poder que a infância tem, enfia-se no interior da gente e, sem que se espere, zás, salta». Da Natureza Dos Deuses apresenta-se, assim, como «um espelho no qual nos vimos [reflectidos] tal qual somos, nus e sem  defesa». É sem sombra de dúvida o desafio mais importante lançado por este romance ao leitor, que se encontra incessantemente confrontado com as suas lembranças, com o seu (próprio) «núcleo de trevas», com a sua solidão: o que se encontra no âmago das personagens, no centro da sua fala, é evidentemente o ferrete que a infância neles deixou e que se prolonga pela sua vida adulta. Apesar dos conflitos e da violência patente nos seus relacionamentos, a hierarquia que rege a sua existência, esta infância continua a fermentar, a amadurecer, acabando mesmo por juntá-los. As alegrias e as feridas da infância emergem e minam silenciosamente o papel que (eles) desempenham nas representações sociais. É o caso do senhor doutor que, na intimidade, com a sua mulher, torna-se uma criança:
                                           
«despindo-se no outro canto do quarto e eu surpreendida de que os homens assim, imaginava-os menos indefesos, mais fortes e então dei-me conta de que não é connosco que estão, é a criança que foram, estendida ao meu lado sem se atrever a agarrar-me
– Não vais fazer-me mal pois não?
sou tão pequeno, protege-me, toma conta de mim, o meu marido, dono de bancos, de companhias, das empresas todas do mundo
– Não cresci
(…)
e o meu marido meu marido a pouco e pouco enquanto se vestia, ao apertar a gravata autoritário, feroz» 

O poder do sofrimento da infância e o medo do escuro é com efeito imenso. Toma de assalto o sujeito, fazendo-o regredir à vulnerabilidade própria desta idade: crianças submetidas ao domínio dos adultos, vítimas da sua indiferença, da sua violência, testemunhas silenciosas dos seus fracassos.

A infância tem também uma ligação única com a linguagem, que actua em profundidade com a questão da rememoração de que são feitas as personagens. São palavras que se «pegam, entranham-se, não nos deixam jamais», como aquela que o pai do senhor doutor lhe dirigia, «sevandija», e a que regressa incessantemente, pontuando a injustiça e a violência dos seus actos, cometidos apesar dele, como se nada mais fizesse que submeter-se, de algum modo, à infâmia do mundo.

Da ferida secreta de todo o ser

Por ocasião de uma  entrevista, António Lobo Antunes evoca um diálogo na obra de Dickens que lhe terá provocado uma forte impressão: um homem pergunta à sua mãe moribunda, «tens dores mamã?»; ao que ela responde: «tenho a impressão de que há uma dor no quarto, mas não sei se sou eu que a sinto». O mesmo parece ser uma das questões principais que atravessa este romance. A quem pertence, afinal, a dor que se sente? Porquanto se trata de uma dor que ultrapassa o sujeito, uma dor que se estende aos lugares, aos animais, e cuja presença se encontra tão impressa ao longo do livro: “muito choram alguns bichos, quebram-se no mesmo ruído do que as pedras, agonizam calados”. Homens, animais, crianças se parecem assim pela sua vulnerabilidade, pelo abandono e indiferença a que estão sujeitos: “a gaivota na estrada sem uma alma que a salvasse”.

Os fluxos de falas das personagens cristalizam-se então à volta de um núcleo de sofrimento, cuja origem remonta a um tempo ancestral que poderíamos descrever, com Georges Didi-Huberman, enquanto «jogo impuro, tenso, este debate das latências e das violências» que mina desde o interior a tirania da ordem social. E é sem dúvida o que a figura silenciosa, mais persistente, do sem abrigo que atravessa as narrativas das personagens e tenta fazer-nos compreender. Parece lembrar-nos esta solidão, esta lassidão originárias que, a exemplo dessas vozes do romance, tentamos ocultar por falsas aparências: «não podia tocar no sem abrigo no caso de ele passar por mim e verificar se era um anjo conforme o senhor doutor sugeriu uma vez, examinando-lhe as costas à procura de asas apesar de ele nunca próximo de ninguém, desviava-se sempre, da mesma forma que Deus nunca perto de mim em nenhuma época da vida, ora aí está outro que não calculo o que Lhe fiz para não me ligar».

Que permanece pois neste mundo abandonado pelos deuses? 

Permanece, apesar de tudo, este livro, que nos é aconselhado, entretanto, a deitar fora: «larguem o livro no lixo já que a sombra do voo dos pássaros lá fora escureceu as páginas». É certamente uma grande lição de trevas que Lobo Antunes nos oferece aqui, neste romance, e que finalmente nos deixa escutar o rumor dos mortos.


por Melina Balcazar Moreno
16.06.2016

tradução do francês por Olga Maria Carvalho Santos Fonseca revista por Dominique Nédellec
texto final traduzido revisto por José Alexandre Ramos

Nota da tradução:
* refere-se ao terceiro volume de crónicas publicado em França pela Christian Bourgois (Livre de chroniques III, traduzido por Carlos Batista), cuja compilação de textos não corresponde ao volume Terceiro Livro de Crónicas editado pela Dom Quixote em Portugal.

17 de outubro de 2016

Crítica de Bruno Vieira Amaral a Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

Que voz é esta, Lobo Antunes?

Em várias entrevistas no início da sua carreira literária, António Lobo Antunes afirmou que só publicou o primeiro livro quando encontrou uma maneira pessoal de dizer as coisas. Ao longo dessa carreira, que conta com vinte e sete romances e cinco livros de crónicas, a concepção que o escritor tinha da literatura e do seu ofício sofreu alterações. Na década de 80, dizia, por exemplo, que as suas referências eram os escritores norte-americanos, que sabiam contar uma história. Longe vão esses tempos. No entanto, aquela afirmação inicial não perdeu relevância. Lendo os livros – chamemos-lhes romances ou, como o autor, “exercícios de ambição” – torna-se claro que o escritor foi apurando – e também depurando – aquela maneira pessoal de dizer as coisas. Uma maneira pessoalíssima, única e, no entanto, contagiosa, ao ponto de uma geração inteira ter contraído, a certa altura, uma espécie de lobo-antunite, a olhar para o mundo da perspetiva de Lobo Antunes e a tentar descrevê-lo através daquela forma de expressão muito pessoal e, aparentemente, muito transmissível.

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera, vigésimo-sétimo romance de Lobo Antunes, é mais um capítulo desse labor contínuo. A certa altura, generalizou-se a ideia de que o escritor se repete e, no fundo, está a escrever o mesmo livro há muito tempo. É uma ideia popular, sobretudo junto daqueles leitores que se apegaram aos primeiros livros e, depois, desistiram ou não conseguiram acompanhar o ritmo de publicação de Lobo Antunes. Havendo um fundo de verdade nessa ideia – e lá chegaremos – o certo é que nenhum outro escritor contemporâneo trouxe tanto Portugal e tantos Portugais para os seus romances. Obedecendo à máxima de Balzac, que o próprio Lobo Antunes por várias vezes citou, segundo a qual o verdadeiro romancista tem de ter vasculhado toda a vida social porque o romance é a história privada das nações, o escritor português vasculhou e escreveu sobre o Portugal suburbano, a burguesia lisboeta das Avenidas Novas, a classe média urbana, a velha fidalguia rural, os esquecidos dos bairros periféricos, os pornograficamente ricos das moradias de luxo, os banqueiros e os delinquentes menores, os deslocados do campo para a cidade, os deslocados das colónias para a metrópole, as cabeleireiras e os empregados de balcão, os políticos, os enfermos, os traficantes de diamantes e de influências. Portanto, quer se fale dos temas ou do meio social retratado, a acusação de repetição não tem fundamento.

Aquela dicção inconfundível

Veja-se o caso deste romance. A protagonista da história (e estes termos têm de ser utilizados com cautela) é uma ex-actriz de setenta e oito anos que na juventude veio de Faro para Lisboa, onde conheceu um moderado sucesso nos palcos e foi casada por duas vezes, a primeira por conveniência económica e a segunda, digamos, por desinteresse. Agora, num processo de degenerescência mental, aos cuidados do sobrinho do marido e de uma senhora de idade, recorda o que lhe aconteceu, os tempos de infância no Algarve, os passeios com o pai, a carreira no teatro, os casamentos e olha para o mundo com a confusão de um cérebro devastado, incapaz de se lembrar onde é o quarto e com as memórias antigas mais vivas e luminosas do que nunca, como o pavio de uma vela que se aproxima do fim.

Então, a protagonista é esta, o cenário é este, a história é esta. O livro, bem, o livro é outra coisa. Porque aquelas coisas estão no interior do livro, mas são tanto o livro como um ser humano é o seu esqueleto. Estão no seu interior, mas não são a sua essência. Estão dentro mas, para o que interessa, são exteriores ao livro. O romance olha para muitas coisas lá fora, mas avança às ordens da voz que o constrói. Essa voz está no centro do romance e, ao mesmo tempo, paira sobre ele, organiza-o e, ao mesmo tempo, flui, arrastando para si as outras vozes – das personagens, da narradora, do autor – tornando-a uma só. Porque aqui não há polifonia, no sentido em que As Ondas, de Virginia Woolf, ou Na Minha Morte, de William Faulkner, são romances polifónicos. O que há é uma monofonia em vários tons em que a mesma voz atravessa todo o romance e atrai para si tudo o que encontra pelo caminho: os detritos e as pérolas, os trejeitos linguísticos que assinalam uma personagem e as imagens poéticas que denunciam o criador.

Por isso a narradora que numa página diz “derivado à doença” noutra fala de “uma casita de madeira onde me dava a impressão de ferver uma colmeia de horas”; numa, “o avental de não me sujar”, noutra, “a gravata um nó de suicida hesitante”; a certa altura diz “não entendo o motivo de se haver encrençado por mim” e, mais à frente, “um rafeiro parecia conversar erguendo uma pata traseira em confidências de pingos” sendo esta construção aquilo a que poderemos chamar de lobo-antunismo, uma forma peculiar de dizer, uma dicção inconfundível que, apesar de menos recorrente do que os excessos de virtuosismo metafórico das primeiras obras, continua a pontuar os romances do escritor, como uma assinatura. Há vários exemplos:

o meu cabeleireiro apagado com os capacetes de astronauta à espera das viajantes interplanetárias da manhã”; “as cadeiras de alumínio encaixadas umas nas outras numa procissão de vértebras”; “os uivos de bebé de uma ambulância na rua”; “tudo aquilo se despenhava num rebuliço de folhas”; “escolhia entre cápsulas em gestos de açucareiro com a pinça de dois dedos e engolia numa delicadeza de comunhão”.

Essa voz dobra o tempo, relativiza-o, amachuca-o, traz o passado para a porta de casa, intromete fiapos de diálogos nas frestas do discurso, faz assomar as recordações à janela da memória, sendo que a memória devastada da velha actriz torna credível o caos cronológico pois ela logo de início nos avisa que há muito que o tempo se fixou, “dá a ideia que se altera mas é o mesmo sempre e é no interior desse tempo que continuo a esmorecer devagar”. A voz, como tal, constrói o tempo e é também ela feita de tempo, um tempo que não é o tempo real (se é que tal coisa existe) nem é o tempo da ficção, não é o tempo da sanidade nem o da loucura, é uma amálgama de todos esses tempos derretidos. Essa voz que, mais do que construir um edifício narrativo, compõe um movimento musical (embora às palavras falte o rigor matemático das notas musicais), sustenta-se em motivos ou repetições. No caso deste livro, há o motivo do galgo do avental, do “motor” do gato, do comprimido, do relógio de cucos e do crucifixo a bater na parede como sinalizador do sexo, todos a marcar o compasso da voz e do tempo.

A realidade nos pormenores

Os romances de Lobo Antunes são, portanto, gestos radicais que não obedecem a nada que lhes seja exterior, apenas às exigências da voz, dessa forma voraz de ver, apreender e devolver o mundo. O maior problema dessa condição – e a razão de se acusar o escritor de escrever sempre o mesmo livro e de se repetir – é que, por muito diferentes que sejam as realidades que lhe servem de ponto de partida, todas elas são sacrificadas no altar da voz que as assimila e depois recita como se fossem idênticas. É como se a cada romance Lobo Antunes olhasse para diferentes realidades e as submetesse ao mesmo tratamento indistinto. É aqui que se trava o combate decisivo do escritor e, diria, de toda a literatura. Partindo do princípio que há uma realidade fora dos romances, realidade da qual eles partem (e é inegável que os romances de Lobo Antunes partem de realidades históricas e sociais concretas), até que ponto os romances se devem organizar em função dessa realidade? Nos romances de Lobo Antunes encontramos o Portugal real, com os naperons e os bibelôs, as Cátias do Seixal e as mulheres que tratam o marido pelo apelido, ou uma construção literária autónoma, um país de linguagem a que, por conveniência, chamamos de “Portugal”?

Sobre os romances, diria que o país neles retratado é uma construção daquela voz, embora semeada de pormenores colhidos na realidade e que, pela forma como são distribuídos pelo texto, dão a impressão de resultarem mais de um cruzamento do instinto, da capacidade de observação e da memória com a imaginação do que de uma investigação aturada, digamos, sobre os teatros de Lisboa ou sobre as ruas de Faro em meados do século XX, como acontece em Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera. Nos romances de Lobo Antunes, o real – o das personagens, o do país, o da humanidade – manifesta-se nos pormenores, nos pequenos gestos, objectos e frases que permitem que o leitor vislumbre o mundo que tem por realidade:

uma Nossa Senhora fosforescente numa prateleirinha”, “uma mulher de roupão a apanhar lençóis de um estendal guardando as molas no bolso”; o “carrito de rodas de pano de xadrez que vai saltando no passeio na sensação de quando era pequena e puxava um pato de brinquedo pelo cordel”; “a maneira de coçar uma perna com o tornozelo da outra”; “o interruptor junto à porta que deitava sempre faíscas”; “um tubo de pastilhas para a garganta destinado aos alfinetes”; o pai a correr e “a segurar as algibeiras do casaco com as palmas”; “uma capela onde se guardavam batatas” (diz a narradora de uma capela que, no entanto, só vê de passagem); “um albino de bicicleta com pinças de estendal a apertarem as calças”; “duas alianças na mão esquerda e portanto viúva”; “o peixe de baquelite que me punha na banheira”.

Não se trata meramente de um artifício literário para assegurar a verosimilhança, para que o leitor diga “isto é mesmo assim”, é a prova de que a voz que arrasta tudo consegue, ainda assim, reparar nas pequenas coisas, segurá-las com delicadeza e oferecê-las generosamente. É, pois, uma questão de atenção, de vasculhar toda a vida social e trazer à superfície os fragmentos aparentemente insignificantes que a revelam.

Com este gesto, a voz que devora e anula as realidades que se propõe descrever, redime-se. Sem início, sem enredo e sem desfecho, o romance é uma voz que se acende e que, lida a última página, se extingue, deixando o leitor abandonado ao silêncio a que aquela voz, mais do que a qualquer tradição literária, mais do que a qualquer realidade, pertence. “A minha casa ergue-se no cruzamento de dois silêncios”, escreveu Antoine Blondin, escritor que Lobo Antunes já apontou como uma das suas grandes influências. O que está neste livro não é uma história – o autor já renunciou a essa missão – mas uma voz que se ergue entre dois silêncios, uma casa de sombra entre duas escuridões profundas. Nesse sentido, consideremo-los mais ou menos realistas, os romances de Lobo Antunes parecem-se muito com a vida.


por Bruno Vieira Amaral
17.10.2016

14 de outubro de 2016

Artigo de Norberto do Vale Cardoso sobre Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (publicado no Jornal de Letras)

António Lobo Antunes:

Os misteriosos matusaléns do escritor


O novo romance de António Lobo Antunes, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, realça um tema sobejamente importante na obra deste autor: a memória. Numa linha de continuidade, este romance retoma aspectos de obras anteriores, em constantes reenvios e alusões que devem ter em conta o corpus textual antuniano (constituído hoje por 27 romances publicados).
Alguns desses aspectos passam por: referência a cantilenas («– Pico pico sardanico quem te deu tamanho bico» ou «– Dança o cão dança o gato dança o feijão carrapato», que é título de uma crónica) e passagens bíblicas (a parábola do grão de mostarda, a título de exemplo), bem como intertextualidades (citação de excertos do poema “A lua de Londres”, de João de Lemos, autor do século XIX); e, acima de tudo, uma profusão de temas e lateralizações, quase sempre presentes nos romances de Lobo Antunes, tais como: o suicídio (de que encontramos, em Para Aquela…, três situações); a casa (lugar matricial, também aqui presente através da casa dos pais da protagonista, em Faro); alusões onomásticas (a prima da protagonista chama-se ‘Antonina’; o pai da personagem principal teria tido uma relação extra-conjugal com a ‘filha do Antunes’); a exclusão social (a homossexualidade, o travestismo e a miséria); a importância do voar (a entidade feminina recorda como a mãe lhe dava de comer enquanto ela voava) e da figura paterna (o pai era o único que a tratava por «- Filhinha» e não pelo nome próprio); as menções ao mundo do espectáculo (a protagonista foi actriz; o pai parece-se a um ‘Charlot’; um amigo do pai pertence a uma companhia de teatro ambulante); e a doença (a irmã chamava-se Corália e faleceu de difteria, o que intensificou a responsabilidade de viver da narradora que, aliás, também padece de uma doença).
Não obstante todos esses temas e micro-narrativas, é em torno da memória que gira a temporalidade da narrativa de Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, romance que não é estruturado apenas em narrativas descontínuas ou emaranhados, mas especialmente numa fruição da própria memória, feita, afinal, de descontinuidades, incertezas, interditos, elipses, avanços, recuos, esquecimentos e recordações. A protagonista e narradora do romance é de facto alguém que sofre de perdas de memória que a incapacitam para a vida profissional (era actriz e principia a esquecer-se das falas, tendo ‘brancas’ quando procura as palavras) e – paulatinamente - para a vida pessoal, o que a impede de viver sem o auxílio de alguém, aguardando-se, em última análise, o seu falecimento. A memória, como os três andamentos em que o romance se estrutura (tendo cada um deles oito capítulos), tem graus de velocidade e a personagem recorda, a partir da doença que a assola no presente, a infância passada em Faro, a relação entre os pais (com destaque para o ‘crucifixo’ que ora se move ora se silencia), um amigo que andara com o pai na tropa e que augurava para ela um futuro promissor nas artes dramáticas, os ex-maridos e uma coterie de objectos (animados e inanimados, mudando e suspendendo-se de forma a meio da noite, como a estatueta de uma rapariga agarrada a um cisne) que, entre a luz e as sombras da recordação, vai cruzando o mundo do espectáculo com o da memória.
A memória é, pois, o compasso que controla o ritmo do presente, tendo em conta que a ex-actriz padece de Alzheimer (palavra não pronunciada, sempre subentendida), oscilando entre perdas de memória e espantosas recordações. Podemos dizer que essa situação conduz ao que William Faulkner diz numa passagem de Uma Luz Em Agosto: «A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo que recorda, por mais tempo até que o conhecimento se interroga (…)» (ed. D. Quixote, 2016, p. 107). Assim, em Lisboa, ao cuidado de uma senhora de idade, sob a supervisão do sobrinho do marido já falecido, a voz feminina recorda todos os que estão mortos, mas, ainda assim, vivos dentro dela, como se constata: «que estranha forma de viver têm os mortos» (Para Aquela…, p. 74). Ora essa capacidade de a memória acreditar antes de o conhecimento recordar, leva a mulher a pensar que os seus pais (mortos há anos) tocam à campainha e se regozijam por ela estar prestes fazer setenta e oito anos. Estabelece-se aqui uma ligação entre a memória do que aconteceu e a memória do que se imaginou acontecer, potencializando-se, na escrita ficcional, um abalo na fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos:

[…] a senhora de idade para a minha mãe
– Não lhe pergunte seja o que for que ela para além de não falar
não se recorda de nada
o meu pai para a senhora de idade espantado
– Não se recorda de nada?
mortos há tanto tempo e no entanto aqui, como deram comigo em Lisboa no apartamento que não conhecem de uma rua que não conhecem também […]
(Para Aquela…, p. 263)

Esse esbatimento torna-se evidente quando se refere que a própria actriz faleceu antes dos pais (Para Aquela…, p. 311), o que coloca o leitor perante a impossibilidade de toda a narrativa memorialística. As fugas da memória conduzem a deslizamentos da verdade. A referência central poderá ser Pedro Páramo, de Juan Rulfo, que nos revela como a fronteira entre a vida e a morte é ténue na literatura. Em Pedro Páramo, a procura da mãe há-de traduzir-se num encontro insólito, para, no final, tudo ser colocado em dúvida. Ora em Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera, é a filha quem procura o pai, partindo da doença, que – não o descuremos – metaforiza o processo da criação romanesca, ligado à memória. Daí também a importância da noite ou do escuro, pois a entidade feminina procura o seu quarto no escuro da casa, acorda de manhã e apercebe-se de que as coisas mudam durante a noite, desde o olhar do gato (símbolo heterogéneo da ligação entre o terreno e o além) ao rosnar do galgo (o que lembra a raposa de A Ordem Natural das Coisas). Não há apenas rememoração, mas uma construção imagística.
Escrita, espectáculo e memória – três motivos interligados e centrais no romance. Ora a actriz foi perdendo as palavras até ficar muda, mesmo que no seu interior ela não acredite nessas perdas. Como em Pedro Páramo, o silêncio permite que se apaguem de nós os ruídos e as vozes dos outros para escutarmos a nossa própria voz, o que sucede com a entidade feminina que deixa de verbalizar o que, afinal, passa a falar interiormente. O sobrinho do marido e o médico acham que ela não fala, mas essa (in)aptidão para usar as palavras liga-se ao ofício da escrita como uma criação inquietante. Não deixa, pois, de ser curioso que, no romance de Lobo Antunes seja aquela que duvida e se esquece das coisas (a irmã existe e não existe; o gato morreu com uma injecção dada pelo veterinário; o galgo que desaparece e é apenas uma imagem num avental) quem se ocupe da escrita do livro (p. 193).
A escrita-espectáculo-memória aparece-nos em todo o seu esplendor quando Lobo Antunes encontra ligações entre elementos díspares. A título de exemplo, a mulher doente que vai ao cabeleireiro, que se pinta, que se reinventa para parecer e se sentir sã, é comparada ao travestismo; os aplausos do público no teatro são comparados aos do médico e do sobrinho por afinidade quando ela se lembra de algo que a doença parecia ter apagado em definitivo. Isto sem esquecermos que ela desejava que «as pessoas» aplaudissem o pai «ao aplaudirem-me» (Para Aquela…, p. 60), e também que, no final do romance, o pai é referido como um ‘palhaço’ e um ‘pateta’ na direcção de quem ela corre, pois deverá ser ele quem a espera no escuro. O jogo burlesco faz parte da mundividência antuniana, servindo de base para o entendimento do que é a memória:

– Há meses que não a via assim bem disposta a falar do teatro a
falar dos pais dá ideia que recuperou a memória lembra-se das traineiras das gaivotas
lembra-se de praticamente tudo o estafermo, que misteriosos os matusaléns, dão ideia que a cair e quando menos se espera arrebitam (Para Aquela…, p. 231)

Eis que a memória, definida como misteriosos matusaléns (recordando aqui o Livro do Génesis, onde se afirma que Matusalém viveu novecentos e sessenta e nove anos), será, afinal, a palavra que se deseja longeva, ou seja, a sobrevivência da literatura à passagem do tempo, às brancas que a memória possa ter no espectáculo da vida. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras nº 1201 (ano XXXVI)
Outubro de 2016

Este texto foi disponibilizado para o acervo de antonioloboantunes.pt por cortesia do seu autor.

7 de outubro de 2016

Bruno Carriço sobre Da Natureza dos Deuses

Quando estamos a dias do lançamento de mais um livro da já longa bibliografia de António Lobo Antunes (Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, 18 de Outubro), acabo de ler o seu mais recente romance editado, Da Natureza dos Deuses. Admirador confesso da escrita deste autor, admito que os últimos títulos que lhe li, com uma ou outra excepção, pareciam caminhar para uma espécie de autismo, para um universo cada vez mais fechado. Ia lá cabendo Lobo Antunes e iam-se apertando conforme possível os seus mais devotos leitores, aqueles que já dominam as particularidades da sua escrita, as suas vozes dispersas e sobreposições temporais. É o próprio escritor quem melhor define os seus livros, quando diz que estes não são para ser lidos, que são para se apanhar, como se apanha uma doença. É também ele o primeiro a afirmar que não lhe interessa contar uma história, que quer, isso sim, enfiar a vida entra a capa e a contracapa. E é por estes motivos que eu, mesmo apaixonado por esta escrita (com um ou outro desgosto, como em qualquer paixão), não recomende livros de Lobo Antunes a quem me pede sugestões de leitura. Simplesmente porque é preciso estar disposto a mais do que ler. Avançando até este Da Natureza dos Deuses, não há surpresa na prosa poética com que este se enche, não há surpresa no rendilhado de frases e pensamentos que o autor cria e interrompe a qualquer momento, para concluir adiante. A técnica narrativa é a que vem evoluindo ao longo de toda a obra do autor, com as palavras escolhidas a dedo e as metáforas a alcançarem, quase sempre, o espanto. A vida volta a caber toda num livro. Da pobreza ao triunfo, da solidão às relações, da infância ao envelhecimento e à doença. Do que parece ser aos olhos dos outros até ao que realmente é, ao mais profundo de cada personagem. O que poderá haver de surpreendente neste Da Natureza dos Deuses é a facilidade com que, apesar das inúmeras vozes que o compõem, dos muitos tempos em que é narrado, se segue com clareza a história (sim, aquela que nem sequer é pedra basilar das ideias do autor), feita das muitas histórias individuais (essas sim, uma preocupação de Lobo Antunes) das personagens.  Este será, ao contrário dos últimos títulos do autor, um livro mais aberto, mais à feição de leitores que não dispensem um fio condutor na narrativa. Lobo Antunes continua a explorar o poder da palavra, mas deixa bem visível o retrato de um país e de um tempo. A admirável galeria de personagens deste Da Natureza dos Deuses é, salvo  raras excepções, desprovida de nomes próprios. Portugal está nas mãos do senhor doutor, que representa o poder económico, e do senhor presidente, que será Salazar sem que em algum momento se diga que é Salazar. É um tempo em que o volfrâmio se negoceia com ingleses e alemães. Também procuram o poder o adjunto do senhor doutor, a secretária do senhor doutor e a secretária do adjunto do senhor doutor. Neste romance quase sem nomes, entre as raras excepções encontra-se Marçal, o empregado do casaco branco, único homem da confiança do senhor doutor. As personagens são muitas, mas todas elas se apresentam de forma única. Sobra uma sobre quem pouco se afirma e tudo se questiona, o enigmático sem abrigo, que eu tomei como a figura do leitor a surgir no livro, mas que pode muito bem ser apenas o sem abrigo, alguém que passa ao lado dos jogos de poder, despojado de haveres, um contraste. Sem revelar mais, por ter já revelado mais do que queria, afirmo que António Lobo Antunes tem, neste livro, um dos melhores livros que lhe li. Um livro Da Natureza dos Deuses. Dos Deuses que só poucos autores conseguem ser.


por Bruno Carriço
03.10.2016

27 de setembro de 2016

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera

 

Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera, o novo livro de António Lobo Antunes, estará disponível nas livrarias a partir de 18 de Outubro.

«Um livro perturbador sobre a memória – ou a perda da memória. Uma velha actriz luta com a idade e as suas contingências, enquanto as recordações do passado invadem os seus dias.»

Em pré-publicação no site da Leyaonline.

Capas: superior, edição normal, capa mole; inferior, edição limitada, capa dura


23 de setembro de 2016

Manual de Inquisidores, por Víctor Molinero

En este libro hay voces, un enjambre de voces que crean confesiones - acaso monólogos - para un entrevistador fantasma, que no se ve, que no aparece; acaso eres tú, preguntando por la causa de las cosas, por la razón que motivó que sucediera así. Todas esas voces engendran desde las palabras, desde frases redondas, desde adjetivos recónditos, desde verbos cúbicos; un bosque de huesos que van modelando esqueletos, que van cubriéndose de carne, de venas, manos, brazos, caras y de cabellos, hasta concebir la pequeña multitud de personas que pueblan el libro: gentío o, a veces, chusma, que nace y muere desde la figura de un ministro del dictador portugués Salazar. Ministro moderno con alma de Inquisidor viejo, que decide sobre la vida y la muerte, sobre la tortura o el calabozo en aquel añejo Portugal; hombre que arrastra su figura carnavalesca caída y vencida en su vida privada; que es germen, entonces, de este bosque de personajes que hablan de él y, a la vez, de ellos mismos y de sus propias mentiras, de sus medias verdades, del paso del tiempo, de sus miradas oblicuas, de sus perezas, de sus torpezas inherentes, de sus escasos triunfos… Confesiones que llenan huecos, a veces, como polvo antiguo, otras veces los rellenan con cemento que nace de la mezcla de la mentira y del olvido. En este libro hay puertas abiertas donde ya no entra nadie, hay puertas cerradas donde el pasado se ha quedado allí encerrado, repitiéndose una y otra vez, intentando volver a empezar de nuevo.

Lobo Antunes cuenta, desde la voz de muchos personajes, una visión de sus vidas y la de las personas que los rodearon; en un juego de “relato” de una historia y “comentario” como respuesta a aquel. Los personajes hablan, sí, de ellos mismos y también de un mundo esférico de protagonistas que orbitan alrededor de ese Ministro de Salazar. Recompone esas existencias como si fuera un rompecabezas que debe reconstruirse para ver el conjunto final. La particularidad del libro la pone esa combinación de historias y respuestas que permite ver a los personajes como si cruzaran en medio de dos espejos: por uno se ve su frente, por el otro su espalda, de tal modo que se verán todas las visiones: la triste, la enfadada, la realista y la irónica, hasta configurar una historia casi circular .

“Manual de inquisidores” es la constatación escrita, casi documento notarial, de la podredumbre que rodea a las dictaduras; es la radiografía en la que se ve que la gangrena se extiende por un estrato social y va invadiendo a todas las personas que toca, como un gesto de afirmación de los que sustentan el poder con los pobres, de los importantes con los débiles, de los que se creen que son algo con los que no pueden serlo… aún. Pero ser poderoso, ser hijo de poderosos, ser el amigo o la favorita de los poderosos, no te impide que puedas ser partícipe de su caída, de la mayor de las derrotas; allí donde la ola se ha alzado alta como una casa, es desde donde cae en un hervidero de espumas, maderas podridas y peces muertos. El poder tampoco evita fracasos personales, casi los provoca en ese hartazgo que se produce cuando el pequeño dios, el sátrapa del oeste atlántico,  es visto en zapatillas, con olor a sudor y tabaco pasado, con la baba derritiéndose en su barba. El libro es una oscura visión no solo del hombre como depredador político, es también la mirada sombría, con los ojos bajos, de la vida de las gentes en busca de amor, sea el de pareja, sea el del deseo nunca correspondido. Y es también un manifiesto contra las consecuencias del paso del tiempo, del olvido que lo rodea, y de la soledad que con ello se soporta.

Los universos propios que se mueven en estas páginas se van cruzando, entrechocando, fundiendo, repeliéndose y moviendo a lo largo del tiempo y del tiempo. Esas vidas que cuenta son vistas desde el pasado y el futuro, en lugares diferentes, en situaciones diferentes, en derrotas y victorias, en locuras y verdades, en la dictadura y el revolución, en los calabozos y en los hospitales, en el desprecio y en el amor, en todas esas cosas en las que se debe fijar un narrador para describir la vida; nuestra vida, vuestra vida o la vida de un plenipotenciario, duro y, después, decrépito ministro de una dictadura tan degenerada que pudrió su mundo.

Pero “Manual de inquisidores” es tan oscuro en lo que cuenta en sus temas, en todos esos personajes perdidos, abandonados por la historia, o por su familia, o por el amor, o por la simple vida; es tan cerrado en sus ubicaciones de casas pequeñas y pobres o en casas ricas pero rodeadas de odio, o en la quinta del ministro rica y derrotada a la vez; como hermoso en cómo lo cuenta. Cada una de las partes en las que se divide el libro, esas entrevistas, monólogos o confesiones; son una larga frase en la que aparece la poesía; pero no es esa poesía de rima y verso, ni siquiera es prosa poética, es esa que nace de la combinación exacta de ocurrencias iluminadas, de frases y palabras hermosas, atadas con ideas y visiones extrañamente bellas y rápidamente originales para el tema del que trata. Y en el que, como si un rezo fuera, alguna frase se repite como los misterios de un rosario profano en los que el mundo de cada personaje en ese instante se circunscribiera a esa locución, a esa pregunta o a esa exclamación que va y vuelve en el texto como si fuera las luz de un faro.

Siempre estaré buscando la solución al enigma, el perfecto secreto, por el que las cosas más terribles o las visiones más tristes, pueden ser contadas de la forma más bella; ese contraste que solo se halla en las tormentas en el mar, en los relámpagos más brillantes, en las fauces más abiertas, en algunos cuadros de Caravaggio, en algún Requiem, como el de Fauré; y que aquí aparece, simplemente, en el reverso y en el anverso de unas hojas unidas con pegamento.


por Víctor Molinero
en Libros y Literatura
03.09.2016

15 de setembro de 2016

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

Os 26 livros até 2015, sem os volumes das crónicas (capas das 1ªs edições)

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava

– Tu

até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se embora a pensar. Do lado da serra um canavial, um sapo grande debruçado no parapeito de si mesmo, severo, a pensar também. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. E, a partir desse momento, não escrevo mais. Deixo de existir, claro que deixo de existir: já não sou mais necessário.

Que vida foi a minha, fiz o quê? A casa cresce, o número de degraus da escada do jardim para o primeiro andar aumentam. No lava-loiças um pingo de torneira, de longe em longe, nos pratos. Treme, alonga-se, cai, desaparece. Uma vassoura encostada à parede. O fogão negro, negro. Moscas no fio da lâmpada, as da infância que nunca se foram embora, uma porta a bater lá em baixo. Quem? Antes do sol o horizonte lilás.

Que vida foi a minha para além deste trabalho com as pedras? O sapo deve ter-se movido porque continua parado. Um gato, no muro, lambe a sombra de uma folha da pata, intriga-o não poder engoli-la. Que vida foi a minha? Andei em aulas, andei em hospitais. De vez em quando ia para longe, voltava. Senti-me feliz na Transilvânia, nas montanhas. As pedras tinham menos peso já, por essa altura, mas ainda necessitava de muito tempo porque as palavras demoram a impregnar as coisas, entram devagarinho; a ideia da minha morte começa a parecer-se com a minha morte. Às vezes o meu corpo gela, às vezes uma pedra levanta-se. Faltam muitas, ainda. Quando todas forem mais leves do que a água então sim, podem ler-me, escrevi o que era preciso escrever. Há um livro, pronto há um ano, que sai em outubro, chamado “A última porta antes da noite”, outro a publicar no fim do ano que vem, quase pronto, “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera”, ficam a faltar três, que desejo que Deus me dê vida e saúde para fazer e depois calo-me para sempre. As pedras estarão mais leves que a água, o círculo fechado e será possível compreender a unidade do trabalho começado com a Memória de Elefante. O resto são estas cronicazinhas, de que se imprimiram algumas coleções, que não pretendem mais do que distrair as pessoas e que sejam agradáveis de ler. Não gostaria que as coleções fossem republicadas como não gostaria que aquelas que se seguiram aparecessem em volume. Tudo o que quero que permaneça são apenas os livros, nos quais joguei a minha vida, a minha saúde e a minha esperança, e onde julgo haver conseguido o que me propus. No seu conjunto constituem uma única obra. Como disse ao princípio não são histórias, não são romances. São um trabalho de desmedida ambição que levará tempo a ser entendido e acerca do qual me referi sempre de uma forma voluntariamente desajeitada e incompleta. Cada título é uma parte de um todo que deveria idealmente ser lido pela ordem em que os diversos segmentos foram publicados, de modo a compreender-se a sua unidade e a forma como cada um deles se encaixa no todo. Claro que exigem muito do leitor mas exigiram muito mais de mim. Não é uma comédia Humana à Balzac, com todo o respeito que por ele tenho, nem uma Recheche como a de Proust, nem um Decameron. Longe disso. É, na minha cabeça, o Livro Total, e não voltarei mais a este assunto. A partir de agora, mesmo com os tais cinco volumes que faltam, os dois acabados e os três últimos a seguir, apenas eles existirão. Eu pouco importo a não ser para a meia dúzia de pessoas que espero que gostem de mim. Quereria que no futuro a obra fosse publicada sem nenhum prefácio, sem nenhum comentário. Está completa. Qualquer palavra mais, quer minha quer de outra pessoa seria supérflua. E, por estar completa, não faz sentido nenhuma dedicatória em nenhum tomo. O último, em princípio, será publicado em 2020. Depois, se continuar vivo, irei extinguir-me como quando, em criança, comecei: a escrever poemas que desaparecerão no cesto dos papéis conforme aqueles que compunha, menino, em segredo, em silêncio, já sem o meu irmão João, que partilhava o espaço comigo porque há muito tempo que, infelizmente, deixámos de viver no mesmo quarto. Não imaginas mano, as saudades que tenho desse tempo. Se por acaso viesses tudo voltava a ser como dantes: tu a estudares e eu estendido na cama a olhar o tecto, levantando-me para encher páginas de versos que tinha pudor em te mostrar. Sempre achei que isso acabaria por nos acontecer. Anos depois passámos uma noite na casa da praia, no mesmo quarto, nas mesmas camas. Não calculas o que me comoveu estarmos de novo juntos. Acordei antes de ti e fiz-te uma festa na cabeça. Como desde sempre soubemos o que o outro sentia tenho a certeza que te lembras disso. Agora, a esta distância, acho que fomos felizes durante aqueles anos. Não me digas que não para eu não ficar triste.


António Lobo Antunes
crónica na Visão
Agosto 2016

14 de setembro de 2016

A opinião de um leitor sobre D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra)

António Lobo Antunes é, para mim, o maior e melhor autor português contemporâneo; tenho praticamente todos o livros que ele escreveu, já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida. Naturalmente, quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme. Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido há tempos mas ainda não o tinha lido. A publicação deste livro é curiosa: apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) quem as publicaram após a morte da sua mãe, a pedido desta.

António Lobo Antunes, em Janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina há pouco mais de um ano, casado há menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alferes médico para cumprir os dois anos de serviço militar em pleno auge da guerra colonial. Como todos os outros militares, embarca no navio Vera Cruz em direcção a Angola e logo no navio começa a imensa escrita da correspondência entre ele e a esposa. Apenas interrompida quando da ida de férias a Lisboa e quando da vinda da esposa e da filha para Angola (quando foi colocado em Marimba em Abril de 1972), sendo retomada no período em que a esposa foi internada em Luanda devido a uma hepatite entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, terminando nessa altura, quando tem alta e regressa para Marimba para junto do marido, voltando todos para Lisboa em Março de 1973. António Lobo Antunes, quando chega a Angola, é colocado na zona leste do país, na cidade de Gago Coutinho, uma área isolada, junto da fronteira com a Zâmbia onde a guerra era particularmente dura.

Como atrás disse, António Lobo Antunes praticamente desde o primeiro dia iniciou a sua correspondência com a mulher e é essa correspondência que nos é dada a ler, sem qualquer tipo de censura. Nela António Lobo Antunes mostra todo o seu amor e desejo pela esposa, o sofrimento por estar longe, separados por milhares de quilómetros, a saudade e a angústia. Porém, mais que todo esse amor, saudade e desejo, António Lobo Antunes mostra-nos também a guerra, a vida militar em Angola, o stress da guerra, o isolamento, estar constantemente em alerta, não dormir e não conseguir descansar durante dias seguidos, comer mal, não ter água e condições mínimas de higiene, as idas aos aquartelamentos longínquos, participar em acções de guerra, assistir a ferimentos graves e a mortes tanto de um lado como do outro. Apesar de tudo isto, António Lobo Antunes também relata o seu dia a dia, o seu relacionamento com os outros militares, com a sociedade civil (portuguesa e angolana), os seus serviços extras como médico a dar consultas à população, mostra também a sua preocupação com as coisas materiais, a procura de casa em Lisboa para viverem, a falta de dinheiro, os exames da faculdade da esposa e, evidentemente, a sua gravidez, e a relação com a restante família. Também a parte literária não é esquecida. Nestas cartas pede livros, dá a sua opinião sobre esses mesmos livros e autores, e fala já com a sua ironia da vida literária em Portugal, mas acima de tudo vai confidenciando à sua esposa como lhe vai correndo a escrita de um seu primeiro livro.

É um livro muito emocionante, são as palavras de um apaixonado que é colocado numa situação extrema, de separação, isolamento e dureza incomparável, e é ao mesmo tempo duro e assertivo, um testemunho de um período tenebroso que milhares de jovens, tal como António Lobo Antunes, tiveram de atravessar e do qual muitos não regressaram ou então regressaram com feridas profundas, tanto físicas como psicológicas [...].

Recomendo a leitura deste livro, mesmo para quem não aprecie os livros de António Lobo Antunes, é totalmente diferente da sua ficção; aqui foi (e ainda é) a realidade...


por Nuno Martins
13.09.2016

[revisão do texto original por José Alexandre Ramos]

8 de setembro de 2016

Colecção ALA-Ensaio: António Lobo Antunes: As Formas Mudadas, por Norberto do Vale Cardoso

A partir de 20 de Setembro estará diponível mais um volume - o sétimo - da colecção ALA Ensaio, dirigida pela Prof.ª Maria Alzira Seixo, e editada pela Texto. É o segundo livro da autoria de Norberto do Vale Cardoso nesta colecção .


«Contemporânea e clássica, certamente multímoda, a obra de António Lobo Antunes é aquela que pretende “mudar a arte da escrita”.

Em António Lobo Antunes: As Formas Mudadas, título que retoma uma das obras que mais tem influenciado a cultura ocidental, as Metamorfoses de Ovídio, percorremos os caminhos da obra que nunca se fixa, que se constrói em avatares constantes, seja nas várias tendências estéticas, nos temas, na mundividência, na sensibilidade, na concepção e/ou composição da escrita, em suma, na sua “poética” (a importância do lateral, dos interstícios, da transfiguração verbal, do indecidível, do fragmentário, do suspenso, da metaficção).

Em António Lobo Antunes: As Formas Mudadas verificamos que a obra de António Lobo Antunes é aquela que se adianta ao seu próprio tempo, mas é, de igual modo, aquela que não desdenha a herança dos clássicos, com os quais contacta em permanência, para “sobreviver ao tempo,
ao ferro e ao fogo”.

Nenhum ensaio estabelece interpretações definitivas – muito menos em literatura. António Lobo Antunes: As Formas Mudadas, volume 7 da Colecção António Lobo Antunes/Ensaio, pretende tão-só interrogar-se sobre os sentidos da arte e, com ela, da vida. Afinal, e parafraseando o próprio António Lobo Antunes, “Como se pode agarrar, digam-me lá, o que constantemente muda?” »

Maria Alzira Seixo

> consulte aqui os outros volumes desta colecção <

24 de agosto de 2016

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.


Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.

Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, e por isso é irresistível voltar a ela ou começar por ela...), guarda um potencial anunciador que parece regenerar-se sempre que é de novo contada: a intimidade (do cineasta) como espaço de transmissão de uma memória da História portuguesa – para o já singular Águas Mil, longa-metragem anterior do realizador (2009), em que Gonçalo Waddington corria atrás de quem guardava as memórias das aventuras revolucionárias do pai, Ivo M. Ferreira já deixara a sua vida ser tocada, interceptada, por histórias que não viveu, pelas biografias e memórias dos outros que fez suas.

A questão era saber se a singularidade e a delicadeza tinham resistido no que aí vem, o filme Cartas da Guerra (estreia na próxima quinta-feira, dia 1 de Setembro, mas com antestreia marcada para esta quarta-feira). Porque era um projecto cheio de armadilhas: adaptação literária, figura pública (e seus guardiões) a condicionar, directa ou indirectamente, um património simbólico e figurativo e a obrigar, provavelmente, a negociações várias, e a imaginação do espectador (quando não mesmo a liberdade do realizador) a poder ser afectada por uma presença intimidante, bigger than life. Ou seja, facilmente o filme e as suas expectativas seriam reduzidas ao biopic de prestígio, de interesse escolar, ilustrativo.

As notícias do Festival de Berlim, onde Cartas da Guerra esteve a concurso, foram razoavelmente ambíguas, aliás: mais ou menos entusiásticas, mais ou menos reservadas, pareciam dar conta de um filme que não se libertava das prisões que tinha criado para si próprio, como que vergado pelo seu peso. Como se as suas mais-valias fossem os obstáculos que criara e que não conseguira ultrapassar: a saber, uma voz-off e um trabalho fotográfico esmagadores – de João Ribeiro. Havia, além disso, uma contiguidade incomodativa com outro filme português, da mesma produtora, O Som e a Fúria, também a preto e branco, também com vozes, também memória das Áfricas: Tabu, de Miguel Gomes, que estivera em concurso no mesmo festival e que, disse-se, por pouco não chegou mais alto no palmarés final da edição de 2012 (teve o prémio Alfred Bauer pela sua contribuição artística inovadora). Como se Cartas da Guerra fosse, então, uma “jogada” e uma possibilidade de remake.

Correndo o risco de súmula injusta do que se escreveu, avizinhava-se então a chegada de uma natureza morta.

E eis que nos devemos preparar para um filme que foge das armadilhas colocadas no percurso e, mais surpreendente ainda, que tacteia no escuro atrás da sua vida interior, permanecendo fiel à voz que ouve. É filme simultaneamente delicado e temerário. Por isto: aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António (interpretada por Miguel Nunes) e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Aventura-se a criar e organizar o (seu) mundo, como se não houvesse pré-existências.

Voz-off? Não, a voz não vem de fora a sublinhar ou a demonstrar, impossibilitando assim a vida própria dos planos. A voz vem de dentro, é o próprio filme a construir-se, a falar (-se). É voz in, à procura de um lugar out. Isto vale para Cartas da Guerra e vale para António – as cartas são o desejo de um encontro erótico com uma mulher (Margarida Vila Nova), num espaço que anule a guerra, que a derrote, que faça o mundo, que é essa história de amor, recomeçar do zero. A personagem e o filme querem estar num outro lugar.

Muito cedo António deixa de ser prisioneiro das expectativas “criadas” pelo facto de ser o escritor António Lobo Antunes quando jovem e parte para a sua própria aventura de personagem. Quer ganhar corpo. Figura frágil, inicialmente presença diáfana, vai conquistando progressivamente (o seu) espaço, a consciência política, a dimensão como escritor. Essa é exactamente a aventura de Cartas da Guerra: filme à procura de si próprio, de um corpo que chame seu. Este corpo a corpo filiam-no menos no Tabu de Miguel Gomes do que, por exemplo, nas aventuras malickianas. Há um filme para que este remete, se assim o quisermos, A Barreira Invisível/The Thin Red Line. Mas mais do que um título em especial, é com a experiência da criação do mundo que está nos filmes de Terrence Malick – como se todas as matérias se organizassem num caos inicial, e o filme fosse o testemunho vivo, a prova, de um nascimento – que Ivo M. Ferreira caminha. De forma desassombrada, aliás. Por isso a meia hora final de Cartas da Guerra pode mesmo ser qualquer coisa de triunfante. É um filme que não só sobrevive a si próprio, como se ergue. É uma personagem que se afirma. A guerra foi de Ivo M. Ferreira, o filme é dele.


citado do site do Público
texto de Vasco Câmara
24.08.2016

15 de agosto de 2016

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.

A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.

No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.

Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles algumas benesses.

E assim correm quase seiscentas páginas em que, basicamente, andam alguns com umas cenouras a acenar a muitos que poderão apanhá-las. Se, se e se muitos ses se cumprirem. Há um personagem diferente, o sem abrigo, de quem todos falam mas que só é avistado, ninguém o agarra ou interpela e no final há quem diga que é um anjo. É a fantasia-personagem, a liberdade, ninguém sabe quem é, aparece aqui e ali o tempo suficiente para ir semeando curiosidades e devaneios.

O escritor António Lobo Antunes, para além de ser um vulto da nossa literatura, conhece a nossa raça, sabe do que fala. Porque raio é que entre tantas palavras não lhe deu para falar dos flashes felizes que todos temos da infância, ou das memórias doces enquanto crescemos? Ou dos mundos paralelos que criamos com a imaginação, enquanto adultos? E do amor que nos faz sentir e ver mais alto, mais perto das nuvens, tantas vezes a troco de um sorriso ou de uns dedos que se entrelaçam nos nossos? De vez em quando, que a lucidez não aguenta muito tempo a máscara, por isso digo, de vez em quando, para não nos matar a esperança de uma vida melhor? Ele, que através de um personagem diz que este livro conta uma história de amor. Para mim o que sobressai é o jogo de interesses, a falta de ética e o desamparo. Falta de alegria e de dignidade. Apenas a sobrevivência.

Mas, talvez, com esta narrativa niilista ele tenha pensado que o melhor mesmo é pôr tudo em cacos, com o mundo neste caos tão óbvio já não é possível atamancar, há que recomeçar do zero. Talvez seja isso.


por Bia Couto
em Agalma
14.08.2016

4 de agosto de 2016

Fátima Bento sobre Memória de Elefante... ou sobre António Lobo Antunes?

Ui, escrever sobre ALA é um risco; para mim e para os outros. Para mim porque me perco, para os outros porque ficam nauseados da admiração que transborda em qualquer texto que escrevo com alusão ao autor.

Escritor com E grande.

A ver se consigo cingir-me ao essencial sem pegar nas palavras do seu primeiro livro,
os meus livros não são autobiográficos. Não escrevo sobre mim nos meus livros pois não Piedade*? Não... bem, escrevi os primeiros, o Memória de Elefante e Os Cus de Judas são autobiográficos, mas foi só. Não escrevo sobre mim nos meus livros...
 assumidamente autobiográfico e desatar a dissertar sobre o que penso, acho e sinto.

ALA escreve, mais que ao correr da pena, ao correr do pensamento. E se nós começamos por pensar no bolo de chocolate que vamos fazer para o lanche de domingo, e de enfiada, às tantas acabamos a recordar o último dia de praia do verão de 2001, e tudo faz sentido na nossa cabeça, o que é que a escrita do autor tem? que o transforma no 'bicho-papão' dos livros-difíceis-de-ler-e-compreender,
Os meus livros não são difíceis. Acha, que os meus livros são difíceis? Não, não são difíceis...
que se compram e deixam na estante, pequeninos que nos sentimos em face a uma obra de tal envergadura, a olhar para a lombada como se temêssemos que ao lhe pegarmos, ele nos engula de um trago. Isso e se oferecem no Natal, peito cheio de presunção intelectualóide para o pai, o tio, o senhor doutor, o último livro do Lobo Antunes!, porque fica bem - e a Dom Quixote sabe, que escolhe dezembro para lançar o novo, o último, que está nos escaparates dois meses antes, mas assim reacendem-se os ânimos e recorda-se a resposta fácil à prenda difícil.

Quanto ao livro que dá titulo ao post, é o primeiro que ALA escreveu. Ou melhor, publicou, que quando lemos as cartas de Angola que escreveu à mulher, entendemos que escrever, sempre escreveu, mas nada que considerasse suficientemente bom para publicar, e lá estou eu a perder-me nas curvas outra vez, dizia então que é o primeiro livro que escreveu - e eu ainda não tinha lido, apesar de o ter recomendado a não sei quantas pessoas que me diziam o habitual, que-ALA-é-difícil-por-isso-só leio-as-crónicas, então começa pelo inicio, nem tentes agarrar num dos últimos, que é mergulhar de cabeça sem conhecer o rio e a profundidade do mesmo.
As pessoas dizem que a minha escrita é difícil de entender porque pegam no livro e querem entendê-lo usando a SUA chave; ora cada livro tem a sua própria chave, e temos 'de nos deixar ir' até a encontrar...
Memória de Elefante dá-nos uma chave para o estilo de escrita/leitura das obras de ALA: seguimos a linha de pensamento do narrador, com as suas subidas, descidas, curvas e contracurvas, com memórias em mistura com expetativas... como cada um de nós pensa. Sem UMA forma concreta à laia de sujeito e predicado, mas a perder-se nas pregas da memória, nos arrebites da vontade caprichosa que a mente exige como prerrogativa.

Memória de Elefante é o primeiro na prateleira. Outros se lhe seguem, perfilados como soldadinhos de chumbo à espera da troada de carga!! saída dos pulmões de um general em miniatura.

E é isto.

António Lobo Antunes deixa-me à deriva nas palavras, perdida na ideia que quero passar. Se o livro é bom? Não mo vão perguntar, pois não?

Opiniões há que apontam ALA como o menino bem a desmultiplicar-se na arte do palavrão fácil, e que reduzem a sua escrita a um exagero de metáforas alinhavadas entre si por um discurso inútil. Quem advoga tais argumentos, nunca o leu, mesmo que tenha ido da primeira à última página de todos os livros que publicou.

ALA não se lê palavra a palavra: sente-se nos espaços.


Nota de rodapé:
em itálico, parafraseadas, frases de António Lobo Antunes aquando do lançamento de 'Da Natureza dos Deuses', em dezembro último. 
*nome da sua editora, que o acompanhava na mesa, aquando do referido lançamento, e a quem se dirigia como que ancorando-se à presença (re)conhecida numa sala cheia de admiradores desconhecidos.
{e assim passo três horas e meia, a polir o que queria perfeito. Ler ALA faz-me disto...}


por Fátima Bento
em Porque eu posso
02.08.2016

21 de julho de 2016

Nathaniel, from Senegal, wrote about «Act of the Damned» in Goodreads.com

Grove Press edition, 1996
Act of the Damned” is an absolute lunatic novel. The disturbingly besotted and predatory air of Antunes’s work is reminiscent of dark and frenetic passages from Hunter S. Thompson, Ignacio de Loyola Brandao, Boris Vian and perhaps the creepiest bits of Roald Dahl. This is to say that the prose is unusually visceral, coarse, disorganized, playful and interested in avoiding pretention in favor of a swaggering strangeness.

A few scattered sentences like, “After endless nights of talk and drink and syringes, of God knows how many grams of pills and heroin, I return to the world at two or three in the afternoon, surrounded by your collection of old hats, the overflowing ashtrays and the smell of urine from the Siamese that struts over the covers while we sleep, I return with the weariness of a septuagenarian frog, my kidneys splitting with pain as I flounder in a swamp of algae” made me feel like I could imagine what sort of influences went into the scattershot construction of this multi-generational festival of avarice, decay and retardation. 

The novel is challenging, not least of all because there are at least nine different narrators (members of the family, the family’s doctor, a hapless notary), many of them unannounced and few of them in absolute control of their chapters. A reader suddenly realizes, based on rare instances of direct address in imbedded dialogue, that someone new inhabits the first person perspective, around whose discomfort and frustration Antunes layers his ubiquitous, over-the-top prose. (He could be faulted for failing to differentiate these narrative voices more clearly.).

For long stretches, Antunes will also narrate several things at once, overlaying them in alternating sentences. Sometimes it is clear that he is doing this to show how the surroundings (usually noise, heat and squalor) are so oppressive and irritating that they literally intrude upon the happenings and at other times, it seems to a bit more haphazard and “cut up.” For instance, “ ‘Wackawackawacka,’ said my cousin in Turkish to the Saint Bernard, who immediately withdrew his submissive finger. The mongoloid finished her oatmeal in a typhoon of soggy morsels, and the maid used the torn shirt to wipe her clean before unstrapping her. The procession trampled over the already twisted, tortured lanes to the accompaniment of clarinets, trombones, and tambourines in a heart-rending display of miserable splendour. The fireworks burst into luminous flakes in the air and we only heard them once they were fading in powdery threads. ‘What are you nosing around her for?’ asked my aunt, her eyelids heavy with rage. ‘We got you that cabin and bought you the looms on the condition that you never again set foot in this house.’”

Antunes is also quite comfortable, cobbling together virtuosic sentences that, with the addition of the retards, had me thinking of a more substance-addled, more embittered and less fussy William Faulkner, “My shotgun was tucked under my armpit and my cartridge belt held four or five dangling birds that had interrupted their flight (the hounds fetched their riddled corpses) to fan my haunches, and I arrived at the bedroom door trailing dust from my boots on the carpet and smelling of gunpowder, the earth, the woods and the blood of rabbits and turtle-doves, and my wife, who didn’t look at me, was pulling dresses from the closets and laying them on the bedspread, folding blouses, gathering up her underwear and shoes, and tugging on the leather straps of the open suitcases, knowing I was watching her—my gun in hand and my navel crowned with partridges, looking like a holy card of Our Lady surrounded by murdered angels—watching her move forward and backwards and sideways in the mirrors, as if it were twelve instead of one that I’d married, until I asked, ‘What the hell’s going on?’” 

I’m letting Antunes’ prose speak for itself. While it fits into the cluster of authors I mentioned at first, it is unique and will either repel a reader within five pages or make him tolerate heaps of cruelty, mockery of retards, incest, random violence, scheming and confusions. As I read the novel, I was, at times, unsure what I thought of it and unsure of whether or not I would read Antunes again. In retrospect, I may just have been too overwhelmed and off-track to enjoy it properly. Skimming it again and reviewing the passages that I marked, made me certain that I will tackle another of this man’s books.


by Nathaniel
in Goodreads.com
23.05.2008

Sue, from Whispering Gums, about «The Natural Order of Things»

Grove Press edition, 2001
Virtuosic? Tour de force? These are such clichéd terms to use in a review – and yet, I can find no other words to better describe Portuguese writer António Lobo Antunes’ 1992 novel, The natural order of things. This is one of those beautifully written, but rather challenging, books that you know you really should read again to get all those nuances, relationships, and connections that you sense but can’t quite fully grasp. If that puts you off reading the book, so be it, but in doing so you’ll miss something quite special.

As you might expect the title is ironic – there is very little natural order here. The novel does not follow the “natural (aka chronological) order” either of fiction or of life. The characters – including a middle-aged man living with a schoolgirl, a miner who “flies” underground, a girl/woman who spends her life in an attic, an ex-secret policeman who teaches hypnotism by correspondence – do not fit the “natural order” either.

The imagery is rich, evocative and effective in building up a picture (mostly of disorder and decay) and a feeling (mostly of melancholy, if not despair). The rhythm – produced by repetition, and by run-on paragraphs that don’t begin with new sentences – compels you on. The characters are convincingly drawn despite their often mad-sounding confusions. The mixing of the surreal with the real works – as does the weaving of two scenes from different points in time in the same sentence, not to mention the telling of a story by two voices in the same sentence. Somehow he makes it work. Here is an example:

…and eleven months later I met Mr Valadas at a restaurant and liked his double chin, he wasn’t as handsome as the skin doctor who hated Verdi, but I felt sorry for him, always by himself, eating lunch all alone,
and my sister Teresa, who kept looking at you and shaking as if she’d been hit by the world’s worst tragedy, “When is the wedding Fernando?” [p. 186]

Two voices alternating in one long run-on sentence – and for some reason, you go with the flow and know who’s speaking when. But that is the thing to do with this book – go with the flow.

So, what is it about? In superficial terms it’s about, as the blurb on my back cover says, “two families and the secrets that bind them”. But really, there’s not a strong plot, though several stories are told. The novel comprises 5 books, each of which is broken into chapters told from two alternating points of view, resulting in 10 voices. The stories are set between 1950 and around 1990 and deal, in their various ways, with post-1974 Carnation Revolution Portugal and the resultant disintegration of Portuguese society (not only in Portugal but in its African and Timorese colonies). This said, the over-riding sense of the book is one of personal stories, of past, present and the way memory works, and not of politics:

Relax, don’t lose your temper, I swear I’m doing the best I can, but that’s how memory is, it has its own laws, its own rhythm, its own whims, … (p. 23)

In a bit of self-consciousness that brings us back to earth, the second last voice in the book, the dying Maria Antonia, says:

I amused myself by imagining that the redheaded girl was the sister of my neighbours at the Calçada do Tojal, I moved her to the house of the Vacuum Oil employee and the imprisoned army officer … my nephew announced with a smile , “You’re going to live forever, Aunt Antonia”, and I nodded so as not to upset him, I stuck a Tyrolean hat on his head and place him in Hyacinth Park of Alcântra, married to a diabetic girl from Mozambique or … [p.263] 
because we who are from here but are not from here, who are from a here that no longer exists, have filled up these buildings with the silt of mementos and albums and letters and faded pictures from the past, and our present is occupied by these ruins of memory, not only the memory of those who preceded us, but the memory of ourselves, because we also forget, because names and images and faces get lost in a fog that makes everything equally blurry, … [p. 274] … with me will die the characters of this book that will be called a novel, which I’ve written in my head, fraught with a fear I won’t talk about, and which one of these years someone, in accord with the natural order of things, will repeat for me in the same way that Benefica will be repeated in these random streets and buildings, and I, without wrinkles or gray hair, will water my garden with the hose in the late afternoon, and the palm tree at the post office will grow again, … [p.277-8] … even if we’re not very large trees, and even if they knock us down, we’ll remain in photos, in scrapbooks, in mirrors, in the objects that prolong and remember us, … [p. 278]

And so here is made clear what should already be clear through the way the book is written and structured – though the repetition of phrases, the recurrence of bird and tree images, and the intertwining of stories and voices –  and that is that the present and past intermingle and repeat each other, that the real and the unreal both have a place, that nothing really ends or begins, and that, perhaps, no matter how bad things are there is hope. What also seems to be made clear is that this has all been the fabrication of Maria Antonia – or has it? After all it is not she but the redheaded girl (Julieta) who has the last say. Read it and decide for yourself.


by Sue
08.09.2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...