4 de junho de 2016

antonioloboantunes.pt em outros idiomas




Olá!

Estamos a publicar vários textos no blog e facebook - artigos de opinião, crítica, entrevistas, etc - em outros idiomas, nomeadamente em castelhano, francês e inglês (também iremos publicar em italiano mais tarde) como o primeiro passo para a internacionalização do site antonioloboantunes.pt. Por favor espalhem a notícia!


¡Hola!

Estamos publicando varios textos en el blog y facebook - artículos de opinión, críticas, entrevistas, etc. - en otros idiomas, particularmente en castellano, francés e inglés (también vamos a publicar en italiano más adelante) como el primer paso hacia la internacionalización del sitio antonioloboantunes.pt. ¡Pasa la voz!


Salut!

Nous publions dans le blog et facebook divers textes - articles d'opinion, critiques, interviews, etc. - dans d'autres langues, notamment en espagnol, en français et en anglais (nous allons également publier en italien plus tard) comme la première étape vers l'internationalisation du site antonioloboantunes.pt. S'il vous plaît passez le mot!


Hello!

We are posting several texts on the blog and facebook - opinion articles, critics, interviews, etc. - in other languages, particularly in Spanish, French and English (we will also post in Italian later) as the first step towards the internationalization of the site antonioloboantunes.pt. Please spread the word!


Ciao!

Pubblichiamo alcuni testi sul blog e facebook - articoli d'opinione, critici, interviste, etc. - in altre lingue, in particolare in spagnolo, francese e inglese (ci sarà anche inviare in italiano più tardi) come il primo passo verso l'internazionalizzazione del sito antonioloboantunes.pt. Si prega di diffondere la parola!

2 de junho de 2016

Antoine Perraud, "Les voix du silence" (sur De la nature des dieux / Da Natureza Dos Deuses)

edition Christian Bourgois
L’enthousiasme désabusé, l’ironie macabre et le rythme envoûtant de l’immense écrivain portugais António Lobo Antunes, né en 1942, font merveille dans ce vingt-cinquième roman, annoncé comme le dernier par un prosateur qui ne résiste pas à jouer, entre autres, avec sa propre disparition. Voici, admirablement traduit par Dominique Nédellec, un magnifique da capo – mais l’auteur de Mon nom est légion, La Nébuleuse de l’insomnie, ou Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer ?, a-t-il jamais cessé de ressasser en pure poésie ?

Son écriture organise un réseau d’obsessions. Des soliloques se tressent. Impression de choralité. Polyphonie mais cohérence, en dépit d’une écriture multipliant les embardées, les tonneaux, ou les marches arrière. Une écriture hoquetant langoureusement le temps de phrases privées de ponctuation, grinçantes et douces à la fois, vibrantes de l’énergie du désespoir.

Une écriture contagieuse : les plus fervents lecteurs d’António Lobo Antunes se reconnaîtront peut-être un jour à psalmodier sur les places et sur les parvis ! Ils ne craindront plus d’entendre des voix ; à l’instar du romancier, jadis psychiatre, qui réverbère au long de son œuvre des récitatifs avec une technique de chef d’orchestre.

Cette musicalité radicalement énigmatique prend aux tripes, après un premier temps d’égarement face à la ronde carnavalesque ainsi instituée par un conteur hypnotique dans le sillage de Conrad. Et qui reprend, où Céline les avait laissées, des fulgurances chargées d’échos électrisants. Voici donc une houle de littérature nobélisable, on vous aura prévenus !

Splendide cantate éruptive d’impressions et de mots

Impossible à résumer, De la nature des dieux a pour épicentre, à Cascais, sur l’Atlantique, non loin de Lisbonne, une propriété entraînée dans une fin de cycle. Le roman compte quatre parties labyrinthiques. Il y a d’abord les visites de Fatima, chargée de livres que ne lira jamais Madame, qui se débat avec l’ombre du richissime Monsieur, son père hégémonique, dont nous découvrons ensuite les ravages, restitués par bribes, dans la bouche de ceux qui eurent à en souffrir, avant que Monsieur soi-même ne prenne part au débat, que viendra clore la parole d’une chanteuse populaire.

Le dispositif d’une telle répartition des voix évoque le Tuba mirum du Requiem de Mozart, où quatre chanteurs se passent le relais. Mais ici s’échappe, avec une puissance stylistique irrésistible, un monde chaotiquement cadenassé : ce qui pousse et tombe en ruine, les arbres et les oiseaux, le silence et le bruit du jardin, le craquement d’une marche d’escalier et le froid du marbre sous les pieds, les corps qui se déforment « avec une malveillance subtile », la mer dévorant les dunes, un désir de bleu inassouvi, les rencontres clandestines et les dominations officielles, « les douleurs de l’enfance et la peur du noir », le sans-abri lancinant comme un reproche, l’ombre de l’Afrique et les horloges omniprésentes comme toujours chez Lobo Antunes, les sourires qui se dissipent et les rictus qui se figent, la poussière qui nous guette tandis que nous hante « l’espoir de sentir un être vivant dans les parages »…

Splendide cantate éruptive d’impressions et de mots, témoignage des bouillonnements affranchissants de la langue qui travaille en chacun de nous, parti pris en faveur des femmes qu’il faudrait tout de même un jour décoloniser, réquisitoire contre la rapacité des rapports sociaux ou familiaux : ce roman, dont l’auteur sait s’effacer au profit de l’écriture, sème à foison des messages à première vue indéchiffrables.

De bout en bout, par exemple, un tournis de tours de clés compose une étrange et brutale poétique des battants qui s’ouvrent et se ferment. Comme si, par-delà Cicéron ­­ – auquel est emprunté le titre, De natura deorum –, António Lobo Antunes rendait hommage à Lucrèce. Lucrèce qui, dans son poème épique pionnier, De rerum natura, honorait Épicure pour avoir « désiré, le premier, forcer les verrous des portes de la nature ».

Voilà pourquoi le romancier portugais jamais ne capitule : toujours il récapitule !


par Antoine Perraud
en La Croix
02.06.2016

(merci a Dominique Nédellec pour la référence!)

27 de maio de 2016

Emma Rodriguez opina sobre Sôbolos Rios Que vão

edição em castelhano
 por Random House
Quando António Lobo Antunes participou [n]a Guerra de Angola se dedicava a escrever cartas; cartas nas quais falava de muitas coisas e que nasciam de sua necessidade de comunicar que estava vivo. Para o escritor português os romances que escreve também partem desse desejo. O que faz é colocar-se junto do leitor e dizer-lhe: “estou aqui, contigo, diante deste mistério que não compreendemos, um mistério que nos ultrapassa" e que, como dizia Lorca, nos faz viver”. Assim me contava numa conversa que mantivemos na época da publicação de O arquipélago da insónia. Agora, o meu retorno à sua obra se dá com Sôbolos rios que vão, um romance que seduz com aquela perseverança da memória, com os rumores de um passado que nunca desaparece, que se torna presente enquanto exista alguém que siga mantendo suas recordações.

Já ao iniciar a nova viagem estive consciente das atmosferas do velho casarão desse “arquipélago”, um casarão cheio de quadros fotográficos, mas vazio de vozes, gestos, das palavras que o habitaram; atmosferas que seguiam em mim com a força dessa literatura que se passa no fundo, com uma suave e imperceptível palpitação, até acabar convertendo-se numa espécie de fértil raiz. António Lobo Antunes volta às estâncias familiares de sua infância, sua infância de interior, mas desta vez a partir de uma circunstância excepcional, seu internamento num hospital, onde foi operado de um câncer há algum tempo, e onde percebeu a proximidade com a morte.

Da impressão de afrontar literariamente esse momento, de buscar a linguagem capaz de expressar suas emoções extremas, era algo essencial para este homem que exerceu a psiquiatria antes de dedicar-se inteiramente às letras e de se converter num explorador dessas pulsões e afectos que nos definem e irmanam na ampla viagem da humanidade; esses sentimentos permaneceram imutáveis e nos fazem sentir que não mudamos nada enquanto ao nosso redor, fora da essência, os planetas têm seguido girando e se hão forjado sociedades cada vez mais complexas, evoluídas, altamente tecnológicas. “Mas seguimos perguntando-nos pelo sentido da vida e sentindo-nos desconcertados ante a morte”, recorro a outra frase do escritor, noutro encontro, dessa vez quando da publicação de Meu nome é legião, um livro de cariz diferente, menos biográfico, mais colectivo, em que dá voz aos humilhados, aos marginalizados, aos despossuidos. Um livro em que indaga sobre a violência, uma de suas obsessões, e chega a constatar de novo o quão só estamos, o quão pequenos somos ante a imensidão do mundo.

Mas voltemos a Sôbolos rios que vão; deixemo-nos arrastar por suas correntes, sabedores de que o território de António Lobo Antunes não é um território de fácil e cómodo acesso. Nadar em suas águas é como adentrar-se no oceano e sentir a estranheza do primeiro momento, esse frio que nos faz tremer e que nos impulsa a voltar à areia quente. Mas há que seguir avançando, avançando sem parar até o instante em que se chega a perceber a plenitude do contacto com o mais profundo, o som da respiração, o azul do céu envolvente, o ritmo do movimento, o afastamento do ouvido e de tudo que não seja a sua própria voz. Vale a pena estar aí e ficar um tempo, como vale chamar à porta do escritor e sentir o privilégio de ser convidado a entrar.

É certo. Desloca um pouco a quem se aproxima dela pela primeira vez, porque é uma obra diferente, inclassificável às vezes, construída pela ruptura. É necessário acostumar-se à maneira de olhar do escritor, a esse tomar sair pela parte irracional, pelo que não pode ser domidador nem dominado. Neste romance, António Lobo Antunes viaja ao seu centro e se mostra nu, sincero, humilde, só e perdido ante a dor, o medo, a busca dessas palavras que, ainda não nascidas, ainda não ditas, da mesma maneira nem nunca na mesma ordem de antes, ajudem a entender o que está passando. Como acontece em outros livros do escritor, como O arquipélago da insónia, tudo parece um delírio, um sonho, uma alucinação, um desvario. O homem no hospital é consciente da gravidade de sua situação, olha a chuva cair por detrás da janela e viaja ao passado, à infância, aos diferentes lugares da vida vivida. Quantos destinos, quantas identidades, quantos trajectos até à desembocadura, até chegar a perceber com lucidez o que foi, o que deixou de ser, aquele que se tornou.

A enfermidade, o câncer, é como “um ouriço de castanheiro” que se meteu dentro do corpo, como o ouriço que de pequeno torna-se em árvore. O mecanismo das recordações se coloca em marcha, igual ao relógio que se dá corda, é tudo associações, imagens sobrepostas. A vida em forma de camadas, de substractos de emoções, de sensações, de fragmentos. O homem que jaz na cama, às expensas dos profissionais que cuidam dele, não pode frear a dor, do mesmo modo que o menino não pode frear a bicicleta na primeira vez que seu tio ensinou a conduzi-la. E o cheiro do piso da enfermaria é igual ao da farmácia do povoado onde escutava contar histórias de lobos no inverno. E a enfermeira que se aproxima para apagar a luz do cômodo lhe faz lembrar sua mãe aproximando-se da porta de seu quarto para fazer o mesmo.

A escuridão aparece e o homem está só, igual [como] quando pequeno ficava sozinho com seus medos. E aparecem os avós, o pai, toda essa gente que foi e que segue sendo no fundo de seu coração, como parte dele enquanto sua existência se prolonga. Todas as sensações voltam, se repetem, porque somos aquilo do que nos nutrimos, porque as primeiras experiências, as primeiras descobertas, os primeiros desejos, estão aí, no poço profundo, e emergem sempre, em situações similares.

“que misteriosa a vida, davam-lhe banho na selha da cozinha e o desconforto de estar nu à vista da empregada, pequeno, magro, submisso tal como na enfermaria pequeno, magro e submisso de novo”, sublinho este trecho comovedor.  “se a mãe encostasse a bochecha à dele, mesmo idosa, mesmo cega, a palavra filho a fazer sentido, não a palavra morte, enquanto ia caminhando com os rios sem nada que o estorvasse, acompanhado pelo pasodoble de um saxofone remoto, na direção do mar”, elejo esta outra passagem porque diz muito da maneira de narrar, de contar, de construir, do escritor. Um estilo de enorme plasticidade, não-linear, em desacordo com as sinalizações convencionais do texto, feito de interrogações em busca de respostas, de repetições que são como flashes de lucidez, à maneira de um poema. Um poema longuíssimo que cheio da potência das metáforas, de imagens, e ante o qual chegamos a perceber que tudo cobra sentido, que de alguma maneira se deu um pequeno milagre que nos conduz a um foco de luz capaz de iluminar traços de verdade que antes éramos incapazes de perceber.

Nesta ocasião a linguagem da poesia, do mais íntimo, se mistura com o frio vocabulário do hospital: das salas de cirurgias, de radiografias, sondas, soro, botijas de oxigênio, as receitas, análises, agulhas, diagnósticos, terapias. Uma mistura explosiva que funciona, enfrentados todos esses termos aos de outros dicionários, dicionários de sentimento, da natureza: veredas, árvores, perfume de eucaliptos, líquens e rochas do rio da infância... E o escritor impõe seus contrastes, seus ritmos, como quem dirige uma orquestra, um todo que nos faz girar, nos envolve e nos fascina.

O fluxo da memória de António Lobo Antunes é caudaloso e selvagem. E a melhor maneira de segui-lo é deixar-se levar pelo ritmo das ondas que se elevam e acabam sempre por cair, por essa prodigiosa melodia que se ascende e descende por sendas diversas, por pensamentos díspares, por uma sábia combinação de pausas e de silêncios. “Escrever é estrutura, por carne a um delírio”, volto a recuperar uma dessas falas em que me dizia que nunca partia de respostas, só de perguntas; que muitas vezes lhe parecia que estava caminhando por um sonho; que em ocasiões só tinha a impressão de que os livros estavam no ar, independentemente do autor que lhes desse forma; que a maior parte das vezes a escrita era uma ofício de paciência, mas que quando encontrava a palavra exata para expressar uma emoção, um sentimento, ele, que não era homem de lágrimas, não podia evitá-las.

Tampouco quem se aproxime de suas narrativas pode evitar as lágrimas. Lágrimas em certo sentido satisfatórias, refrescantes. No caso de Sôbolos rios que vão, ainda que partindo da dor, da enfermidade, não é a dureza do que se conta o que mais emociona. São os momentos de beleza que se alcançam, essa evocação do acontecido, nada sensível apesar de tingido com as cores da doçura e da melancolia, são forças de compreensão que se abrem em meio de uma memória ziguezagueante que em determinados momentos ganha espessura e bifurcações capazes de se tornar difíceis de decifrar. Não queiramos entender tudo, não busquemos argumentos. Acaso a vida tem um roteiro fixo? Acaso a memória responde como um guia?

“tentava dar nome às formas e não achava os nomes, estava e não estava acordado como quando parece compreendermos o sentido do mundo que no instante de o compreendermos se esfuma”, divaga o protagonista. “devolvam-me os pinheiros, a serra, a infância que trouxe para o hospital e me pertence”, emite seu grito mudo. Tudo sucede em seu interior, um longo monólogo que só escutam os mortos, os que se foram. Eles são mais reais que as visitas. Eles enviam mensagens reveladoras, acompanham-no por paisagens onde aprendeu a intuir o sublime, a descrever o desejo, a paulatina transformação do seu corpo, o despertar do sexo. O sorriso do jovem de dezesseis anos que foi e aí retorna.

Parece que não acontece nada no romance, mas na verdade se revelam muitas coisas nesse transcorrer da memória em que o protagonista manuseia em busca de si próprio. “Entenderás quando cresceres”, lhe diziam na infância. Parece que não acontece nada, mas dessa imersão sai a frota dos afetos que não ficaram esquecidos; as primeiras decepções, por exemplo, a do pai que engana sua mãe com a criada e a quem nunca voltará a gostar da mesma maneira de antes, os primeiros abandonos, o do tio querido que vai para a Espanha para trabalhar e nunca mais regressa. E as mortes dos mais queridos que não voltam do outro lado, do invisível. E as recordações desse primeiro amor que o abandonou e que segue como importante no traçado de sua biografia, de sua existência. 

São os acontecimentos-chave na vida, mas além das circunstâncias de trabalho, dinheiro ou êxitos, aqueles que têm realmente um valor verdadeiro. Esses momentos capazes de iluminar tudo. “Tantos segredos e tanto assunto suspenso”, pensa o narrador enquanto recolhe os fragmentos de toda uma vida. “que coisa impossível de entender o tempo”, o escutamos dizer. “O quarto não mudou, as luzes permaneciam iguais, os enfermeiros ocupavam-se dele no ritmo do costume com as palavras do costume e no entanto a impressão de se achar no centro do que não sabia o que era e de que a vida dependia, sem nada que ver com a doença e tão apagado pelos anos que não lograva encontrá-lo, a chave capaz de girar na porta que conduzia a ele mesmo...”, seguimos.

edição brasileira Alfaguara
Alheio a modismos, às listas de mais vendidos, António Lobo Antunes ergueu um particularíssimo território, seu oceano, título a título, encontro após encontro. É por isso que pode descer até esses fundos no que ainda é temor, vingança, o sentimento de indignação, de humilhação. Frente a uma sociedade que dá às costas ao que dói, que segue adiante sem deter-se ante os que sofrem, ele se atreve olhar de frente aos rostos da solidão e a atravessar com palavras a ponte até a morte. Pode fazer porque foi tocado com o dom da escrita e, sobretudo, porque aposta pela vida, pela vida consciente.

“O que de verdade me inquieta é a resignação. Esse momento em que alguém decide parar. Meu pai morreu no em que parou e se sentou numa cadeira olhando o mar. Algo dentro dele mudou. Penso nos esquimós que sentam no gelo e penso na maior parte da gente que está sentada no gelo. Essa gente morta sem saber. Que vidas tão mal empregadas! Somos casas com muitos quartos, mas só somos capazes de viver em dois ou três. Temos muito medo do que está dentro de nós”, recupero agora parte do que me disse o escritor numa conversa distante.

O que ele tinha medo, que medo pode ter um homem que não se senta no gelo?, lembro que lhe perguntei. E me respondeu que tinha medo da sua violência interior, uma violência que não soube que existia até ir para a guerra, quando se encontrou com tanta gente jovem e boa, mas com uma enorme capacidade de causar dano se fosse o caso. “Então aprendi que a maldade convive com a bondade. Aprendi a ser muito prudente na hora de emitir juízo sobre os outros”, disse. Foram palavras, apreciações que se prenderam em mim num momento em que percebia que estava rodeada de gente no gelo, ainda não era capaz de lhe dizer as palavras justas. 

A literatura de António Lobo Antunes tem a capacidade de colocar essas palavras justas, iluminadoras, como recém-nascidas em suas mãos que juntas transformam sentidos. Seus livros são uma aposta pela vida, sim, uma intenção de percorrer todas esses quartos sobre os quais fala. “sua vida cheia de passados e não sabia qual deles o verdadeiro, memórias que se sobrepunham, recordações contraditórias, imagens que desconhecia e não sonhava pertencerem-lhe”,  lemos em Sôbolos rios que vão. Um romance em que novamente o escritor avança por estas instâncias sem medo de ir abrindo portas. Detrás dessas portas pode haver monstros ou demônios, mas também o sorriso franco do jovem de dezesseis anos com tudo por descobrir, capaz de transmitir o valor necessário para prosseguir o caminho, andando, avançando até o momento em que o rio abre os braços ao mar.


texto original de Emma Rodriguez
em Lecturas Sumergidas, 2014
texto citado da tradução livre de Pedro Fernandes em Letras In.verso e Re.verso
10.05.2016

[revisão da tradução do texto para PT-BR por José Alexandre Ramos]

26 de maio de 2016

Pedro Fernandes opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer

edição brasileira Alfaguara
«não temos certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida». Este fragmento colectado de Não É Meia Noite Quem Quer (*) bem poderia servir de síntese temática sobre esse romance ou ainda de chave de leitura sobre os títulos da obra mais recente de António Lobo Antunes, estes que foram lidos pelo próprio escritor como a revisão obsessiva de um mesmo livro. A razão para tanto – a da síntese – é também enunciadora dessa afirmativa que o português faz sobre a sua obra.

Novamente, estamos diante do limiar da condição humana – território sobre o qual tão bem a literatura antuniana tem se construído. A voz que domina esse complexo labirinto de idas e vindas da memória ou esses lapsos que surgem numa e desaparecem noutra vez do pensamento é de uma mulher marcada por uma diversidade de perdas; o conjunto de iluminações nasce do seu reencontro com [o] passado através da visita à casa onde viveu até antes do casamento. É um fim de semana tomado pela revisão sobre grande parte dos episódios de um tempo quando o pai ainda vivo é um palerma, a mãe uma mulher visceral que não despreza a traição com os funcionários de grande monta que visitam a casa quando na ausência do companheiro sempre a se queixar do filho surdo – sua cruz, o irmão surdo que costura a narrativa com um refrão que também será síntese da obra – “Ata titi ata” (uma das variantes) e o irmão que foi para a Guerra [colonial] em África (ou não foi?) e suicidou-se jogando-se do penhasco para o mar, o que torna em figura obsessiva nos reflexos dessa narradora; narradora que está num casamento apagado, interrogando-se sobre sua própria sexualidade pelo suspeitoso envolvimento com a amiga Tininha, com a vida marcada pela perda de um seio para o câncer e do aborto de um filho – para citar outros três dramas maiores.

De facto, a presença do irmão suicida é a mais forte entre os frangalhos de recordação, que é afinal o corpo da obra; está alinhavada por uma extensa quantidade de trivialidades do dia-a-dia comum de uma menina de forte pendor introspectivo, às voltas na invenção de diálogos com e entre as árvores de próximo à casa onde vive ou inquieta ante o ir e vir dos pássaros, o fluxo do mar e, além da paisagem, também os objectos que estão no seu entorno; de uma menina que lembra continuamente determinadas situações, aquelas que ficam presas e vão e vêm como flashs toda vez que se confronta com o passado: uma ida à praia, os passeios de bicicleta com o irmão mais velho, as trapalhadas do irmão surdo, as queixas da mãe, o silêncio do pai envolvido pela bebida, as idas à venda do bairro, o contacto com os poucos vizinhos, etc. É afinal um passeio entre ruínas cujo interesse é coisa nenhuma; não estamos, por exemplo, ante uma personagem como é Maria Clara de Não entres tão depressa nessa noite escura, interessada em construir a história de seu passado a fim de se compreender na figura que é no presente da recordação. Não É Meia Noite Quem Quer é um fluxo contínuo do que vem à memória de alguém que depois de tanto tempo é confrontado com um passado que jurava apagado, mas está apenas adormecido. 

Por citar Não entres tão depressa nessa noite escura e este romance, é válido pensar na presença da noite como traço simbólico de aproximação e distinção das obras. No primeiro, o apelo é propulsor da acção contrária: uma viagem aos confins de noite, que é a um só tempo esse passado que assume a vida da personagem e a escuridão de seu próprio eu. No título ora lido, a afirmativa é quase uma tese a ser corroborada pela extensa visita a uma existência tomada pela presença recorrente da perda. Note-se, entretanto, que o tema perda é recorrente num e noutro romance; é a obsessão contínua de António Lobo Antunes com sua literatura. Em Não É Meia Noite Quem Quer é como se o autor estivesse interessado em dizer, depois de compreender a biografia de sua personagem, que nem todos estão condenados à escuridão da existência mas é para os que estão que devemos (ou a literatura deve) virar sua atenção. Isto é, o escritor irmana-se com parte mais frágil da humanidade, essa que é margem e passa despercebida aos olhos dos que estão imersos demais na correria da vida contemporânea e já não são mais capazes de ver os tragados pelo peso de existir ou o que a existência lhe reservou de contínua dor.

A sugestão do tema só estará nascida na leitura integral do romance e é uma poderosa estratégia ou desafio que o escritor lança para o leitor do mesmo lugar habitado pela poesia; não é o título de um poema uma fresta pela qual se espreita o volume de sua forma dada na leitura integral da peça? Pela recorrência nessa estratégia chamada pelo escritor de contra-epopeia, talvez seja exagero nenhum dizer que António Lobo Antunes se afirma com um autor de exímios poemas em prosa, já que sua narrativa nos propicia a mesma obsessão interior experimentada pela personagem; obriga-nos à posição de desassossego no sentido mais sincero dessa palavra. 

Se lembrarmos que do passado toda a grande literatura se manteve porque cultivou o verso ou que essa era a forma perfeita para traduzir também uma totalidade da existência e olharmos para o presente para ver que ao verso reduziu-se o conteúdo da lírica marcadamente descontínua e fragmentada também não será exagero dizer que o retorno feito pelo escritor português é uma resposta de, no mesmo desejo que sustentou a narrativa – o de melhor dizer sobre a realidade – melhor dizer sobre os movimentos internos do eu, única maquinaria que, fraca, resiste complexamente frente a um mundo de indivíduos e que já não é mais campo de aventura e experimentação para o homem.

É preciso dizer que a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer, assim como a de nenhuma obra contemporânea, não está feita apenas se esbarrarmos na compreensão do cerzido das histórias engendradas pela narrativa (no caso do romance ora lido, trazidas pela memória da narradora); é preciso que o leitor tenha a mesma disposição aventureira de singrar por esse labirinto verbal para instalar algumas curiosidades que o permitam sair do universo aberto do romance a fim de buscar na possível rede de diálogos construídos pela obra e melhor sentir as filigranas da narrativa. Alguém terá dito sobre a poesia de Ezra Pound e a de T. S. Eliot que são tessituras marcadas pelo enigma estrategicamente arquitetado pelos poetas a partir da transfiguração de suas próprias Babel; na outra margem alguém terá chamado isso de incompetência poética porque uma vez decifrada a charada, o que sobraria do texto, se não uma velharia de palavras? Mas, será que os dessa margem terão conseguido tornar o poema em sucata ou terão sido sucateados pelo tempo? 

No caso de António Lobo Antunes há ainda outra linha que é necessário avivar entre os nomes que melhor terão dado ao texto o fôlego para tornar seus leitores tomados pela incapacidade de vencer integralmente as malhas do texto: a de sempre nos dá um novo texto – não só pela revisão da interpretação porque passa os sentidos de todo leitor mas pela possibilidade de descobrir outras narrativas igualmente possíveis ante a que formamos na primeira leitura ou a que nos é entregue pelas sinopses em notas como estas. O escritor faz o texto prolongar-se no infinito. Uma continuidade alimentada toda vez que despertamos [d]os seus livros e sobre a qual nunca temos controle. Um exemplo? O citado caso da ida ou não do irmão dessa narradora de Não É Meia Noite Quem Quer para a Guerra em África. Alguém poderá perguntar, afinal, qual importância tem isso para o andamento do romance e basta pensar que uma coisa é o suicídio ter sido um não definitivo à imposição de ir ao front e outra coisa é o suicídio ter sido depois de haver estado num inferno na terra. Há no primeiro gesto uma atitude de heroísmo muito cara às personagens antunianas, em grande parte, fiapos de gente teimando em alçar algum vôo a partir do convívio doloroso com o passado e o presente; essa personagem do romance ora lido, é um exemplo, não será alguém cujos sentidos se voltam cada vez para o irmão porque assim se vê em sua condição existencial? Já se a atitude tiver sido fruto do pós-guerra, amplia-se o legado medonho, a crítica ao Estado facínora, capaz de tornar homens em zumbis tal como é aquele soldado atormentado em Os cus de Judas.     

Sobre a necessidade de visitar outros lugares com os quais flertam essa narrativa, fiquemos com o título e a informação oferecida pelo romancista na epígrafe de que esta é uma frase de René Char; depois veremos, frase não, um verso do poema “De relance”, do poeta que integrou por um tempo os vultos do surrealismo francês, René Char: “Semeio com minhas mãos, / Planto com os meus rins; // É muda a chuva fina. // Numa estrada estreita, / Escrevo o meu segredo. // Não é meia noite quem quer // O eco é meu vizinho, / A bruma, a minha sequência”. Essas informações e a leitura do poema são, como vê, esclarecedoras sobre o romance: à medida que compreendemos o traço ou o tônus surrealista que corre de uma ponta a outra a narrativa, sabemos estar ante uma narradora que exercita-se na compreensão íntima (e pública quando somos seu espectador) de seus segredos feitos de ecos do passado e imprecisos da mesma maneira que uma bruma, incapaz de se rever como uma imagem pura e limpa porque isso não é o que somos, sobretudo quando somos noites. Agora, isso desaba o edifício verbal que é a obra? De maneira alguma. Amplia-o, permite ao leitor renovar o encanto pela narrativa e reinaugurar seu itinerário por ela.

(*) Apesar de ter sido publicada no Brasil como "Não é meia-noite quem quer", decidi usar a grafia original do título.


por Pedro Fernandes
em Letras In.verso e Re.verso
09.02.2016

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

21 de maio de 2016

Bebel Lye opina sobre Os Cus de Judas

edição brasileira Alfaguara
Calma! Os cus de Judas é uma expressão portuguesa que equivale ao nosso dito popular "onde Judas perdeu as botas". 

Olá lyevráticos! Tudo bem com vocês? Quem segue o blog no Instagram sabe bem que o livro Os Cus de Judas, do autor António Lobo Antunes, deu trabalho para mim. O post de hoje  além de resenha, será uma conversa franca sobre esta obra. Bem, para começar adianto que se você for um leitor iniciante ou ainda não tiver uma boa bagagem literária, é interessante evitar este trabalho. Por um motivo muito simples: complexidade. 

ENREDO
O narrador - que é o personagem principal - é português, reside em Lisboa e é mandado para a guerra na África - local que ele denomina cus de Judas (onde Judas perdeu as botas) - para servir como médico. Na realidade a histórica começa com o próprio narrador contando sua experiência na guerra a uma moça num restaurante em Lisboa. Conta de seus medos, das tragédias que viu, das mulheres que teve, das noites que se masturbou, da esposa que sentiu saudade, da filha que não viu nascer...

Toda a história é em formato de monólogo e confesso que não achei o ápice do enredo - aquele momento crucial. É um livro de não tão simples compreensão, porque o tempo não é cronológico e sim, psicológico. O narrador é criança, de repente já está na guerra, depois volta a ser adolescente... Outra dificuldade são os fluxos de consciência e memória. Eles se sobrepõem à história sem nenhuma marcação nítida: o narrador está na guerra combatendo doenças num parágrafo e no outro já está em casa com sua filha em Lisboa, depois volta à guerra. 

Eu li a versão em ebook, que contém 91 páginas muito bem organizadas. Não perde em nada para a versão impressa - tive acesso as duas. Uma observação interessante vai para a escrita: se você for o tipo de leitor que não gosta de ler obras com palavrão, evite esse livro. Por ser num contexto de guerra, por falar bastante dos desejos sexuais dos homens e etc. e etc... A história tem muitos palavrões. Particularmente não gostei da forma com que o livro trata e retrata as mulheres, mas isso seria assunto para outro post.

O lado positivo - sim, o livro tem muita beleza! - na minha opinião é a forma com que o autor descreve a Guerra da África, a escravidão, o período fascista em vigor, as citações que faz sobre Salazar... Essa descrição, cheia de humanidade é linda. Sem dúvidas, isso é o que faz o livro ser uma verdadeira obra de arte. O narrador é muito marcante. 


por Bebel Lye
15.05.2016

30 de abril de 2016

«Uma Via Láctea de Galos», crónica com ilustrações de Nicoleta Sandulescu


          E, de manhã, tínhamos os galos. Uma Via Láctea de galos, neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos
pendurados e discussões à noite, de forma que o único sem cantar era aquele que a minha avó segurava pelas asas para lhe cortar o gasganete, e o bicho, sem cabeça, a remexer-se activísssimo.
Depois desistia, depois a minha avó despia-o e o galo afinal esquelético, duas, três penas castanhas e azuis permaneciam a bailar no pátio, às vezes sumiam-se a tremer por cimas das nespereiras, cheguei a recuperá-las, séculos depois, na lama do inverno, sujas, sem cor alguma, reduzidas a meia dúzia de filamentos tristes. Portanto, de manhã os galos, o gato a escorrer a sua seda furtiva no intervalo dos móveis: se me chegava a ele tornava-se dúzias de unhas que assobiavam uma chaleira de ódio antes de se transformar num pulo, deixando de existir a meio do salto. Os galos, o gato, eu a avançar com a muleta porque o joelho murchou. Encheu-se de água, o enfermeiro deu-me uma injecção e os ossos secaram: recusam a dobrar-se mas não sofro muito com isso e a muleta, além do mais, dá-se ao respeito. Conheço vários que me invejam, fico importante e trágico como um soldado que sobreviveu à guerra, as mulheres gostam de acompanhar comigo, sobretudo a viúva do despachante: de quinze em quinze dias encosto-lhe a muleta à cabeceira, resolvo o assunto, fumo um cigarrinho e andor. A minha avó
          – Cheiras a drogaria que tresandas
          dado que não é grande espingarda em perfumes franceses,
dos caros, dos finos, que a viúva comprava em garrafões na drogaria, com o rótulo  made in Paris e a torre Eiffel por cima dos Jerónimos. Com os trocos do perfume abastecia-se de pó-de-arroz em caixinhas de folha com Napoleão na tampa, isto é uma palma na barriga e um bvaque atravessado. A minha avó indignava-se porque as nódoas do pó-de-arroz Napoleão eram dificílimas de tirar do colarinho, quer-se dizer saíam com facilidade das bochechas da viúva para a camisa, a viúva tornava-se pálida e com rugas, quase mãe dela mesma, mas largarem a popeline está quieto. Sem o pó-de-arroz a viúva parecia um drácula na aurora, toda olheiras e pêlos, e, graças às olheiras e aos pêlos, dei conta que apesar da muleta eu não faria má figura numa corrida de velocidade: há certos estímulos a que as muletas respondem, de modo que chegava a casa a tempo da Via Láctea dos galos e da minha avó a censurar-me
          – Vens do espantalho, não é?
         com a faca esquecida a meio de um gasganete na agonia. O gato, que em geral não me ligava nenhuma, aproximava-se a farejar-me, interessado: sacudia-o com a muleta antes da chaleira e das unhas.
          Quando penso nessa época acho que podia ter sido feliz. A
viúva tratava-me por
          – Meu pombinho
         dava-me chá de macela, volta não volta enfiava-me uma nota no bolso, juntamente com um bilhetinho simpático assinado com o nome completo, trazia a campa do despachante num asseio que dava gosto e quando eu chegava voltava-lhe, por delicadeza, o retrato para a parede:
          – Nunca se sabe
          explicava ela e nesse ponto dou-lhe razão: nunca se sabe de facto e há mortos que não brincam em serviço. Pelo sim pelo não continuo a evitar o cemitério. Podia ter sido feliz. A minha avó e a viúva foram-se embora uma atrás da outra, no espaço de um mês, aminha avó de um problema no sangue, disse o médico, que a envenenou e a tornou negra num instante, a mostrar-me os carvõezinhos das mãos e a gritar
          – Olha isto
          a viúva porque o garrafão de perfume francês caiu, em má hora, de uma prateleira alta. O cabo da Guarda desconfiou de mim
          – Foste tu com a muleta?
          por a ter encontrado na cama com uma camisinha azul transparente e aboca, coitada, tentando um
          – Meu pombinho
          derradeiro. De garrafão espalmado na cara não se lhe notavam as rugas nem os pêlos: colocaram-na ao lado do despachante que parece não a ter recebido mal. Eu fiquei por aqui
mais o galos. Uma Via Láctea de galos neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos pendurados e discussões à noite. A rua foi deixando de cheirar a perfume francês, nunca tive as camisas tão limpas. De tempos a tempos o cabo da Guarda para mim
          – Empurraste o garrafão com a muleta, diz lá
          e, embora já não faça diferença, eu moita. Podia contar-lhe que não aprecio que me tratem por
          – Meu pombinho
          mas moita. Sento-me no jardim a assistir às abelhas, o cabo da Guarda cala-se. Dúzias de abelhas. Quais dúzias: centenas. Só tenho medo que a minha avó me apareça, toda negra
          – Olha isto
          a mostrar-me os carvõezinhos das mãos, e me corte o gasganete de um golpe. Não acredito: tirando as manchas do pó-de-arroz Napoleão não nos dávamos assim tão mal.


António Lobo Antunes
em Terceiro Livro de Crónicas, 2005, 1ª edição. pp 213-215

Ilustrações de Nicoleta Sandulescu, do trabalho realizado como aluna da disciplina de ilustração na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, sob orientação do Professor Pedro António dos Santos Saraiva. Estas ilustrações foram gentilmente cedidas pela sua autora, e faz parte das 18 ilustrações interpretativas do texto de António Lobo Antunes.

24 de abril de 2016

«Lobo Antunes: folha branca não é tão branca como a pintam», por Fátima Pinheiro


Dia do Livro, ontem. No rescaldo, hoje ponho António Lobo Antunes. Conheci-o numa conferência. Até então sabia: de dois livros; passagens de outros; muitas crónicas; de familiares; de prémios (mas nisto estou, em parte, com ele, o mais importante no prémio é o dinheiro); que se acha que devia ser Nobel. Convidaram-me para ir ouvi-lo. Uma surpresa e um desafio, uma lide e um milagre. Entre os dois, e não foi de cernelha.

A curiosidade era grande e, se posso e vejo razões, tiro chinelos e corro: muitas vezes descalça. Tinha dele uma escrita "grande", ciclónica, novelo que não se desenrola nunca, repetitiva, embriagante, fatigante.  E uma atração por "uma coisa" maior que o livro, que nas entrelinhas está lá. Contudo, um escrever muito a empatar ou a adiar qualquer coisa.  É escritor? Não é escritor? Não se pode desligar a obra do seu autor, da carne e do osso. Ver os olhos, o olhar. Tocar se puder. Para mim é natural. Conclusão: conheci um escritor e desde esse dia "deu-me a mão". Porquê? Respondo com as minhas palavras, repetindo as dele, grande entertainer e de humor inconfundível - às vezes cru, mas certeiro, a desmontar as máscaras, todas mesmo; não há cinismo que lhe escape; o dele, se é que o tem, é-lhe íntimo, não o conheço assim tão bem...

Disse que escrever é dar um passo mais longe, e a certeza de que se é escritor é experimentar que não se pode viver sem escrever. Que a escrita são as perguntas milenares e a "última" pergunta tem diante de si um abismo. Bem lhe perguntamos, no final, se continuar a escrever é pressupor que há resposta, ao que ele deixou um composto e desenvolvido "não sei porque escrevo", "não lhe sei responder"... Determinante para ele, reconheceu, foi a mão que segurou a sua mão, antes da operação que fez quando lhe diagnosticaram um cancro. A mão que agarrou a sua, até à anestesia. Nunca mais se vai esquecer, repetiu. E que continua a escrever para viver e a viver para escrever. "O segredo para ser escritor?", perguntaram-lhe. Embora tenha citado muitos autores e contado histórias hilariantes sobre o tema, a prova está em que vida e escrita se confundem e que não há fórmulas: o eu diante do touro está sozinho, frisou, silenciando os risos que nunca faltaram, ritmados, a quem o ouviu naquela sala. E que ninguém desce de uma cruz vivo. E que o escritor sofre mais que os outros homens, e que sofrer é horrível.

Chegou a altura dos olhos, do olhar e do tocar. Foi no jardim. Tive então a  certeza de estar diante de um homem que sabe até onde quer ir. Sabe pôr e tirar a "máscara" muito bem, quando lhe apetece e quando quer. Dotado de uma inteligência fabulosa sabe mais do que diz, e sabe que sabe que não diz tudo o que sabe. E isto, diante da angustiante famosa folha branca, às vezes não tão branca como a pintam.

O abismo de que falou na conferência: "é preciso saltar?", pergunto e respondo. Ele responde em silêncio com os olhos fixos em mim, e em quem me acompanhava, "mas quem são vocês?!" É que nós não lhe pedimos o autógrafo, ficamos para o fim, tão só para estar com eleSó se pode saltar, disse eu, na certeza de que  uma mão  que nos vai agarrar. Tal como no Hospital. O eu e o touro não estão totalmente sozinhos...

A vida, volto às suas palavras,  não tem sentido sem escrever, e apesar de já estar tudo escrito, o homem tem tendência para se esquecer. Por isso, António continua a escrever"A melhor maneira de dizer as coisas é única boa." Os grandes livros são um milagre, acrescentou. A certa altura, dos lindos olhos que tem, saiu um olhar sem qualquer máscara e eu tive o privilégio de ver um homem (acho que ele se "descaiu"...). Um "eu" como o meu, que anda neste lide, às vezes distraído, mas que vê a vida consolada quando alguém lhe pega a mão, ou se "pegam" as mãos. Não precisamos de estar (quem sabe quando?) à beira da faca ou da morte. E do que sei do meu toureio a pé ou das "pegas" de todos os dias, experimento - e nisso a natureza não falha- que o material tem sempre razão: se há razões para investir (o mesmo é: saltar o abismo), é avançar. Só assim o  sofrimento se torna humano e a escrita uma beleza. 

Não é preciso enrolar tanto. Como ele disse a certa altura, precisamos de ser "mais" crianças. Da sua simplicidade. Rápida. Inteligente. De olhos impressionados - uma expressão da qual ele fez, aliás, um pequeno e certeiro exercício fenomenológico. O que mostra que o tempo pode ser um instante. Como cada cigarro que fumava enquanto falava, enquanto mostrava e escondia o olhar. É um touro de raça. Como um bom livro. A literatura é afinal uma bela tourada.


por Fátima Pinheiro
24.04.2016
(por cortesia da autora, e conforme original)
foto de José Alexandre Ramos

21 de abril de 2016

Bruno (em GoodReads): opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Num regresso à polifonia exteriorizada, António Lobo Antunes constrói neste romance uma nova iteração do seu universo literário. Desta vez, a tempestade de vozes e rememorações fundamenta-se num prédio residencial algures em Lisboa. A revelação da narrativa transporta o leitor num vagar irregular de um andar ao outro, de apartamento em apartamento, até que eventualmente se conhecem os oito (mais um) protagonistas: Judeus vitimados pela Segunda Grande Guerra; um comunista atropelado pela fúria do Estado Novo; uma funcionária pública exilada pela censura da sua obesidade; um bêbado, sacrificado pelas próprias falhas e excomungado pela família; Joaquim, um viúvo que sempre se sentiu aquém das expectativas, que nunca conseguira ser um homem; uma juíza que tenta evadir o tempo e o envelhecimento; Augusto, um antigo militar em Angola que se sente incapaz de resistir a nostalgia e a saudade; e, entre parentes, no sótão, uma transfiguração de um Salazar que tenta sobreviver, mesmo que numa condição atenuada, mesmo que numa total decrepitude. 

Entre estas reduções e simplificações esconde-se (e revela-se) tudo o que realmente sempre importa nos romances antunianos: a força da memória, a morte, as sobreposições espácio-temporais, a melancolia, o silêncio, a história e as histórias, a cultivação inovadora da linguagem, a cuidadosa elaboração da diegese e, enfim, as tragédias das nossas vivências tão nuas e cruas perante a nossa vontade tão forte de as ignorarmos. Desde os detalhes mais minuciosos da cultura portuguesa que patenteiam o tanto que nos une, mesmo quando nos revemos tão distintos, aos rompimentos metaficcionais que projectam um simples livro para patamares mais profundos e reveladores, está tudo presente, tudo o que, livro após livro, cimenta António Lobo Antunes como um caso à parte da literatura portuguesa. 

Esqueçam as polémicas, as entrevistas, os soundbytes, as produções mediáticas inerentes à ultra comercialização da literatura contemporânea, deixem-se, ao invés, submergir nesta maré puramente literária e verão que, mais do que o conhecimento alheio, encontrarão o caleidoscópio do vosso próprio ser. Há algo mais valioso que isto?


por Bruno
06.02.2016

13 de fevereiro de 2016

José Mário Silva, crítica a Da Natureza Dos Deuses

Invenção da Melancolia


Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.

A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.

No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).

Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.

Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).

A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».


por José Mário Silva
09.02.2016
originalmente publicado na revista E do Expresso de 06.02.2016

24 de janeiro de 2016

«O Antunes pega-se?» - artigo de Isabel Lucas no Público

O Antunes pega-se?


Qual é a marca dele em quem escreve? Seis escritores falam de uma influência, apontam a excelência e a fragilidade, sublinham a presença indelével da biografia na obra de um escritor que ousou revelar-se “furiosamente” e aprendeu a esconder-se num jogo que parece o de um eterno aperfeiçoamento.




“Cuidado que o Antunes pega-se”, ou talvez se apanhe, “como uma gripe”. Não estamos num romance, mas quase parece possível escutar nestas metáforas a voz que atravessa, em muitos múltiplos, os livros de António Lobo Antunes. Mais biográfica no início, mais elaborada e esquiva nos livros mais recentes, e apontando para muitas outras possíveis. Como no último, Da Natureza dos Deuses, quando através da fala de uma mulher se interpõem outras hipóteses de ser, de falar: “… felizmente nasci em Lisboa apesar de correr o risco de não ser esta, se calhar sou mais bem tratada do que esta, se calhar casei-me, se calhar toquei violino ou morri de amor por um veterinário, qual será o meu nome, gosto de Irene, não gosto de Noémia, faz-me lembrar uma colega da escola que se chamava Lucinda mas tinha tudo de Noémia, até a cova do queixo e as sardas dos braços, apontem-me uma Noémia gorda que não encontro nenhuma, a da capelista um pau de virar tripas, uma das dactilógrafas do escritório enchumaços no peito, que ela encaixa melhor convencida de que não topamos, prefiro Irene ao meu nome, ou Cândida, ou Ester, que deixam sabores diferentes na boca, o meu insonso como a palavra dióspiro ou a palavra lâmpada, pronunciamo-las para dentro, a imaginar que sim, e deitadas cá para fora monótonas, o que as fantasias enganam…” 

“Cuidado que o Antunes se pega” ou se apanha “como uma gripe” podiam ser mais uns ecos dessa voz. Talvez sejam. São frases já algumas vezes ditas pelo escritor António Lobo Antunes sobre o autor António Lobo Antunes, quando o escritor se interpõe no que faz o autor, se comenta e aqui lembradas. Uma por Rui Cardoso Martins e outra por Ana Margarida Carvalho para os auxiliar descrever um estilo marcado ao qual é difícil ficar indiferente, sobretudo quando se é em simultâneo leitor de Antunes e escritor na mesma língua.

“Não se pode não ficar diferente depois de ler um livro seu”, diz Ana Margarida Carvalho, autora do romance Que Importa a Fúria do Mar. “É uma reacção parecida à de quando se lê Guimarães Rosa, por exemplo, a gente pousa o livro e continua com aquela cantilena na cabeça, as inconcordâncias das frases imperfeitas, usando o gerúndio… Com Lobo Antunes é assim, pousa-se o livro, e aquela prosa torrencial inunda-nos, persegue-nos e continua lá. A melodia, o ritmo, a ladainha, às vezes infantil, às vezes funesta, das vozes – como ele diz, ‘o meu ofício é traduzir vozes’ –, prosseguem nas nossas cabeças. É difícil de explicar, mas é quase viciante, e tem um poder quase hipnótico. A leitura de António Lobo Antunes deixa-nos sempre em estado de assombro, ou de incómodo, fica-nos, nem que seja, uma emoção puramente estética. Julgo que foi o próprio que disse, mas aplica-se à sua obra: os livros são coisas que se apanham, como uma gripe.”

Aí está a metáfora, a característica mais destacada quando se fala da marca literária de Lobo Antunes numa altura em que o escritor de 73 anos acaba de publicar um dos seus romances mais poderosos, 37 anos depois de se estrear com Memória de Elefante, em 1979, e em vésperas de se apresentar na competição do Festival de Cinema de Berlim (de 11 a 21 de Fevereiro) Cartas da Guerra, o filme de Ivo Ferreira, que adapta o livro D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra. Publicado em 200[5] pelas duas filhas mais velhas do escritor, reúne as cartas do então alferes António, com 28 anos, à sua mulher Maria José. No teatro, regressa a peça António e Maria, uma produção do Centro Cultural de Belém estreada em Maio do ano passado e desde 14 de Janeiro no Teatro Meridional, em Lisboa. Interpretada por Maria Rueff, com dramaturgia de Rui Cardoso Martins a partir de textos de Lobo Antunes, recria em palco algumas das personagens femininas mais fortes do escritor, com sublinhado para o seu trágico-cómico desespero doméstico. Tudo isso quando estão escritos 26 romances e as suas crónicas reunidas em cinco volumes.

A marca

Que escrita é essa que “se pega”? Qual a sua principal marca? Que influência exerce em quem escreve? Porque é que a obra dificilmente se demarca da biografia do autor, suscitando reacções apaixonadas entre o elogio e a crítica feroz? Porque é que se fala de uma espécie de duplo feito daquele que cria e do que fala da sua criação. António Guerreiro, numa crónica publicada neste jornal, falava do escritor como de alguém que reclama a si uma “concepção teológica da criação literária” sempre que dá uma entrevista; de alguém que fala de si – autor – como que “mediado por uma divindade”, fazendo do acto criador um mistério a que parece alheio. “Tenho um medo permanente de isto ter acabado”, afirmou Lobo Antunes numa entrevista pouco antes dessa crónica. “Isto” é o que motiva a escrita. Depois disso já publicou um romance que tinha concluído por essa altura – Da Natureza dos Deuses – e começara outro que há-[d]e sair no final deste ano, como em quase todos os finais de ano. Diz-se que os seus livros estão cada vez mais fechados, herméticos, fala-se também em menos leitores. Será? E quem o lê e também é escritor? Tem entre eles seguidores confessos? Herdeiros literários?  

Seis escritores portugueses, leitores de António Lobo Antunes, assumem uma influência. Mais pessoal e directa nuns casos, noutros porque se sentem parte de um colectivo ao qual a sua literatura trouxe mudanças. Pelo uso da linguagem, pela forma, pelo método, porque a sua leitura altera quem o lê, ou mesmo por um estímulo para começar. Isto é, pela tal marca literária.

“É a forma. É a forma que traz o conteúdo. E usar palavras simples, que todos reconhecemos, numa construção de sons. Muito musical, muito sinfónico, e o cuidado de nada estar mal no seu sítio, como se a escrita se pudesse partir por uma palavra mal posta. Uma palavra estraga página toda. E acho que cada página tem sempre um grande achado, uma grande imagem, uma grande metáfora”, refere Rui Cardoso Martins, o autor de E Se Eu Gostasse Muito de Morrer (2006), Deixem Passar o Homem Invisível (2009), Se Fosse Fácil era para os Outros (2012) e O Osso da Borboleta (2014). “É a metáfora. É o romancista português mais surpreendente (e desconcertante) na construção de imagens. A metáfora é porventura a competência técnica mais poderosa ao dispor de quem escreve”, diz Valério Romão, autor de Autismo (2012), O da Joana (2013) e Da Família (2014). “A escrita é torrencial, elíptica, a bruma demora a dissipar-se, as vozes sobrepõem-se, acotovelam-se, interrompem-se, desorienta-se a melodia, desconexa na partitura por momentos, para se voltar a encontrar num refrão mais adiante, no sítio exacto, no momento certo – talvez por isso António Lobo Antunes fale tanto em compor um romance, no sentido de composição. As frases desorganizam-se num delírio com nexo, um caos composto com uma mestria incrível, com um poder de abstracção e de concentração notáveis. Indistinguem-se o tempo e o espaço, ele desobedece ao princípio, meio e fim, ao habitual conceito de narrativa, à própria gramática, se for preciso”, salienta Ana Margarida Carvalho.   

“A repetição de vozes e a circularidade da narrativa parecem-me pontos essenciais do seu modo de fazer. Ainda assim, define-o melhor se falarmos em ecos, em desdobramentos incessantes do que é residual num carácter (o das personagens), em pontos da sensibilidade que vão sendo pressionados com maior ou menor afinco para servir os propósitos da memória transviada, que é, no final de contas, o grande coração desta escrita”, afirma Frederico Pedreira, poeta e autor do volume de contos Um Bárbaro em Casa (2014). “É a liberdade de escrita. Uma escrita solta, luminosa, aparentemente pouco cuidada. Quando o li impressionou-me a linguagem, as metáforas, as comparações e a maneira como ele fazia a adjectivação. Por exemplo: ‘a solidão é uma escova de dentes na casa de banho’. Imagens destas…”, sublinha José Riço Direitinho, autor de A Casa do Fim (1992), Breviário das Más Inclinações (1994), Relógio do Cárcere (1997), Históricas com Cidades (2001) e Um Sorriso Inesperado (2005). “Não conheço ninguém que escreva em português de forma tão elegante e capaz de pôr em palavras o indizível”, diz Dulce Maria Cardoso, para quem, no entanto, há nos romances de Lobo Antunes uma arquitectura que não entende. Admite: “Não vou estar à procura da chave para a decifrar. É verdade que ele consegue escrever o indizível como mais ninguém, mas depois torna isso um clube fechado, como se estivesse reservado o direito de admissão. E é aí que não me identifico e sou cada vez menos leitora. O que acho mais interessante é haver camadas, conseguir chegar ao leitor mais e menos treinado. Leio os seus livros cada vez mais como uma garimpeira e de vez em quando encontro umas pepitas.”

É uma escrita colada à biografia – sobretudo nos livros iniciais e nas crónicas – que faz da sua leitura uma experiência também íntima, pessoal. “A experiência de ler Lobo Antunes serviu-me não tanto como inauguração pessoal de uma escrita diferente, mas mais como modo de validação na língua portuguesa dessa mesma diferença que já percebera em autores maiores estrangeiros”. Como Céline ou Faulkner. Autorizou-o também a “um género de liberdade expressiva que, a par de outros com modulações diferentes dessa liberdade – Jorge de Sena, Almeida Faria, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Nuno Bragança ou Rui Nunes -, facilitou e aprofundou a respiração prosódica e vocabular em língua portuguesa”. É como “uma canção íntima”, continua, e é na “fidelidade” de Lobo Antunes a essa canção, que, segundo Pedreira, se jogam os pontos “mais fortes e ao mesmo tempo os mais fracos da sua escrita”. Ou seja, “um traço inigualável e extremamente apetecível – quando a música não encrenca, geralmente nos livros maiores – ao olhar guloso do leitor paciente que, se tiver a particularidade de ser também escritor, não raras vezes acaba por se achar na obrigação de se desenvencilhar da sedução dessa escrita.” E conclui: “A biografia do autor, mesmo quando espicaçada pelo fulgor verbal, não dá para tudo. É importante parar uns tempos e sobretudo desconfiar se a mão vai em piloto automático. A escrita indica antes de mais, cisão, deslocamento íntimo, e não deve soar à revalidação de competências.”       

Com Lobo Antunes, mais uma vez sobretudo no inicial, estamos numa espécie de subgénero actualmente com muitos adeptos, o da autoficção, e onde se cruzam poesia, ficção, ensaio, memória. Com ele, sobre ele, andamos sempre entre autor e escritor, criador e personagem, confundindo-se tantas vezes porque um e outro são também, outras quantas vezes, indissociáveis. “Se eu não tivesse lido os livros do Lobo Antunes duvido que tivesse começado a escrever. Os livros do Lobo Antunes abriram-me um bocado essa janela de que podemos falar de nós, e quase abertamente”, diz Direitinho. A influência pode estar também numa decisão sem dúvida, a de que “toda a escrita (a minha) tem de ser bela, para além de funcional. E que não pode haver concessões em relação a isso”, afirma Valério Romão, autor de livros onde a experiência do “eu” surge romanceada num exercício de autobiografia, no entanto, distinto do de Lobo Antunes, porque as suas biografias não são confundíveis. “É impossível dissociá-lo” – refere Romão sobre o autor Antunes – “da experiência da guerra colonial ou da prática da psiquiatria. Estas duas vivências marcam indelevelmente a escrita, seja nos romances que se atêm de forma mais vincada à biografia (Memória de Elefante, Os Cus de Judas), seja naqueles que menos parecem ter como suporte a experiência vital (Que Farei Quando Tudo Arde?, A Morte de Carlos Gardel)”.

E se imaginássemos toda a sua obra como o grande romance – ou autoficção – de Lobo Antunes? Parece uma pergunta subjacente. Para Frederico Pedreira, a questão da biografia não só é inseparável da obra antuniana - como do que entende como literatura, seja de que género for. “Agrada-me quando numa escrita com ambições literárias se nota a espécie de bicho estranho que o autor naquele momento é. Melhor é quando essa transparência (que não tem nada a ver com biografismos ou realismos, mas sim com a mão do autor – as suas tremuras e nervuras no diálogo com o suporte criativo a que se propõe) se deixa entrever sem pejo. No aspecto mais ou menos bizarro da vida do outro – a do autor trasvestido na escrita, que se mostra na sua transfiguração estilística – poderei movimentar-me melhor, com novas luzes, no aspecto da minha.”

Dulce Maria Cardoso elabora de outra forma: “Só chegamos ao outro mostrando-nos” e foi essa “vontade furiosa de chegar ao outro, uma fúria de se rasgar e mostrar” que encontrou no momento em que leu pela primeira vez António Lobo Antunes. A autora de Campo de Sangue (2001), Os Meus Sentimentos (2005), O Chão dos Pardais (2009), O Retorno (2011) e das antologias de contos Até Nós (2008) e Tudo São Histórias de Amor (2014) descobriu Lobo Antunes na mesma altura em que leu José Saramago. “Alguns amigos indicaram-me os dois. Falava-se em novos escritores portugueses e eles eram coincidentes nesse tempo. Interessei-me pela ficção de Saramago e pelo estilo de Lobo Antunes”, conta. O primeiro que leu de Lobo Antunes foi Os Cus de Judas (1979) e entre esse – ou esses primeiros – e os mais recentes encontra uma diferença abismal: “Acho que já estava tudo nos primeiros – o poder de síntese, as metáforas –, mas em bruto, menos trabalhado. Ele foi apurando. É exímio nas metáforas. Do ponto de vista formal, não encontro nada fora do sítio”, afirma, antes de falar em possíveis influências, ou de se saber o que a separa, por exemplo, neste caso, do escritor Rui Cardoso Martins, que adaptou recentemente Lobo Antunes para o teatro e o releu com outro olhar. “É verdade, os livros que o lançaram são muito autobiográficos. Um escritor sem memória não pode escrever. Não há criação literária sem memória”, acrescentando que o que mais o influenciou nele “foi o método e não ter medo de entrar nos assuntos”, mesmo os mais dolorosos e talvez por isso pessoais. Dulce nunca falou com Lobo Antunes. Cardoso Martins é próximo do escritor e nesta conversa não esconde a cumplicidade pessoal, “o privilégio” de assistir à sua oficina onde destaca “o profundo grau de concentração” que ele atinge, “desde aquelas formiguinhas minúsculas”, quando escreve a primeira versão em antigas folhas de receita do Hospital Miguel Bombarda, onde foi médico, “até ir arredondando a letra e transformando aquilo, sempre a cortar, a limpar. É a escola do cortar”.

A oficina

É essa oficina que lhe permite “aperfeiçoar o uso da linguagem de uma forma extraordinária”, salienta José Riço Direitinho, que lhe admira sobretudo “a confusão de vozes”, desde o primeiro livro que leu, Memória de Elefante. E cada vez mais. “A uma primeira leitura parece sempre a mesma voz, mas é polifónico… E de as histórias terem sempre várias perspectivas. Isso é talvez o que acho menos conseguido, mas também não sei se é menos conseguido. Os livros dele não são para uma leitura à superfície. Nos primeiros quatro havia a tal literatura do eu, quase exposto. Mais tarde começou a esconder aquilo tudo e a transferir muita coisa para as personagens. Nos últimos livros já não é tão descarado nessa auto-exposição. É sempre ele, mas está tudo coberto. Nos primeiros não, e os primeiros foram os que chocaram mais. O Fado Alexandrino (1983) é talvez aquele onde dá o salto. É um livro diferente dos anteriores, quase o começo do que vem a seguir.” Antes de O Manual dos Inquisidores (1996), o livro preferido, dos que leu, de Dulce Maria Cardoso, um dos preferidos de Valério Romão, juntamente com A Morte de Carlos Gardel (1994). “São romances muito bem estruturados, que não fazem parte de trilogias, que abrem e encerram em si próprios. E destaca Álvaro, uma das personagens de A Morte de Carlos Gardel. “É um autêntico tratado de composição: conseguimos sentir-lhe a derrocada interior sem nunca ver os fios pelos quais se move”, conclui o autor de Da Família.

Ana Margarida Carvalho e Rui Cardoso Martins gostam do último, Riço Direitinho vai buscar As Naus (1988), “não foi bem aceite, mas é um grande livro”, e O Auto dos Danados (1985), ambos pela liberdade narrativa e de linguagem. Mas O Manual dos Inquisidores é também um dos romances que Frederico Pedreira destaca na obra de Lobo Antunes. Também com A Morte de Carlos Gardel, Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno (1980), “precisamente pela ruptura estilística que estes livros deixam antever, e que não é plástica – como já me parece em livros recentes – mas óssea, fulgurante, própria de um homem que não se esquece que para seduzir os outros com o sangue da biografia – por mais efabulada que ela seja – é preciso ter algo que sangrar”, justifica. Há um porquê? implícito, “uma pergunta que o aspecto geral da obra, se for boa, nos sugere”, continua. Nesses livros, com esse porquê, “há busca de um homem que se escuta, cheio de tiques, manias e miopias de percepção” e que “ainda está muito longe do fim”.

Rui Cardoso Martins lembra que foi Dinis Machado quem sugeriu o título Fado Alexandrino, “o primeiro livro – e agora é Riço Direitinho que fala – em que ele se deixa ir e a coisa parece ganhar fôlego”. É o livro “depois dos livros jovens”, talvez que os mais influenciaram os escritores que se seguiram, incluindo o próprio Direitinho, que quando o leu sentiu o que Dulce Maria Cardoso descreve como uma das funções da literatura: “diminuir a solidão” – e de que Lobo Antunes parece ir esquecendo enquanto praticante literário, depreende-se das palavras da escritora. “Nem que seja por momentos”, continua Dulce Maria, “o autor só é autor quando existe leitor e a arte é para chegar ao outro e diminuir a solidão”, mesmo se a ideia de outro não exista quando se cria ou sem tentar fazer concessões de gosto. Não é isso. É saber que há a “inteligência do outro”. “Li-o e senti que também podia”, refere Riço Direitinho, a liberdade que aquilo me dava para eu falar do que sentia e que na altura eram problemas de adolescência, o facto de ser tímido, de não conseguir dizer certas coisas. O Lobo Antunes funcionava mesmo em termos psicológicos”. Ri. “Ler um livro de ALA era um grande alívio, aqueles primeiros livros dele…”

No DN Jovem, onde começou a escrever com muitos escritores da sua geração, José Riço Direitinho fazia “muitas coisas a la Lobo Antunes. Era irresistível”. Foi durante muito tempo. “Com o Saramago mostrou-me que podia quebrar regras, e no caso dele, revelar-me”. E ele viu-o e recomendou-o a uma editora. Foi assim que publicou o primeiro livro, na Asa. E fala da mancha na página, outra marca de Lobo Antunes que muitos “imitaram” ou seguiram, incluindo ele. O corte da frase, numa palavra, num diálogo. Ele não era o único a fazê-lo em português. “A brasileira Hilda Hilst [1930-2004] tem coisas assim. Eu fiz isso em Um Sorriso Inesperado, todas as minhas histórias aí têm a mancha dele, a página cortada. Dulce Maria Cardoso também refere essa mancha, admite uma influência. “Em Os Meus Sentimentos isso aparece um pouco porque é um livro sobre memória que me surgiu assim, de forma fragmentada., mas o conteúdo não tem nada a ver com o universo de Lobo Antunes. Li-o numa altura de formação, como li muitos outros escritores, e não posso tirar o eu li da cabeça. Isso não me preocupa no momento da escrita, preocupo-me sim em encontrar um registo para o que estou a fazer.” Em O Retorno, onde se poderia, porventura, falar de um encontro pelo menos temático, Dulce salienta que o facto de estarem em lados opostos de uma realidade. “Pensei em muitos escritores por essa altura, mas não em ALA; apesar de termos partilhado o mesmo território geográfico, a realidade dele não é a minha. A minha realidade é doméstica, a dele é o contrário, era o soldado. Eu fui desterrada aqui em criança e não lá, um adulto. África, para mim era casa.”

A propósito da influência pessoal de Lobo Antunes, Riço lembra como conheceu José Cardoso Pires. Foi em Frankfurt, em 1998. Ele disse: “Esse gajo é um epígono do António.” Salienta o tom de desprezo. “Só tinha lido as minhas coisas no DN Jovem. Depois leu os meus livros e deixou de ter essa opinião. A influência no início passa quase sempre por uma imitação de estilo, ou por uma imitação de alguns tiques estilísticos. O assunto pode ser completamente diferente, Mas falo de influência, não de imitação. A imitação é outra coisa e não tem valor.” Ana Margarida Carvalho refere a “impossibilidade de ficar indiferente perante a prosa de Lobo Antunes”, porque “ele tem essa espécie de ouvido absoluto para apanhar as nossas fraquezas lexicais, as nossas redundâncias e lugares comuns, ridículos e estafados” que se manifestam nos leitores que também são escritores. “Acredito que os escritores são muito mais aquilo que leram do que aquilo que escrevem. Por isso a enorme tentação ou o enorme atrevimento de verter para o papel essa melodia que nos fica depois de ler os seus livros. É como se, acabado o livro, ele nos continuasse a ser ditado por dentro, e nós, leitores, ficamos necessariamente em estado de influência… Claro que não pode quem quer, mas quem consegue. E o que sai são umas reles aproximações…” Valério Romão admite uma influência em duplo sentido. “Ainda há Lobo Antunes em mim, felizmente agora em níveis pouco mais que homeopáticos – e não refiro isto por menosprezar a qualidade e a influência, mas por não achar salutar a ideia de estilo que ‘faz escola’”, e conclui: “não tenho dúvidas de que seremos muitos muito devedores de Lobo Antunes. Colocou-nos a excelente dificuldade de almejar a excelência.”

Quando em 2014 publicou o seu livro de contros, Frederico Pedreira ouviu várias vezes a observação de que “sabia a Antunes”. Não refuta a ideia. “Gostava de acreditar que a influência de Lobo Antunes noutros escritores tem sido do mesmo género que a minha: enquanto sugestão de liberdade e como certificação de modos de fazer em que prevalece a diferença – absolutamente intrínseca ao compromisso do autor com o seu meio de expressão –, por mais que esses modos pareçam estar rodeados de contra-indicações epocais.”

Rui Cardoso Martins refere outro tipo de influência: a do incentivo pessoal. Foi Lobo Antunes e Cardoso Pires – que nunca conheceu – quem o incentivaram a escrever outras coisas além das crónicas que publicava semanalmente no Público. “Um dia ele chegou ao pé de mim e disse-me ‘Boa noite, escritor’. Foi num sítio público e fiquei nervoso. Depois disse que eu era escritor e tinha de escrever”, conta, acrescentando que o leu desde Memória de Elefante. “Ia lendo, como ia lendo os russos. Tudo o que é bom influencia. Aprendi o modo como observa o país, mas somos diferentes. Gosto do modo como capta o se[r] humano, como consegue entender as mulheres. É verdade, há escritores que se pegam e outros que não se pegam. Ele, de facto, pega-se. Às vezes acontece, mas acho que não me aconteceu ainda, e se me acontecesse, enfim, seria bem-vindo. Mas não é assim que escrevo.” Faz uma pausa. “O António é uma grande figura e um grande escritor. Se eu não fosse herdeiro do António não seria herdeiro de coisa nenhuma.” 


texto de Isabel Lucas
fonte: Público
23.01.2016

[revisão do texto por José Alexandre Ramos
a fonte da foto com que ilustramos esta entrada, da qual não conseguimos identificar o seu autor, não é a mesma da do texto]

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