5 de dezembro de 2015

Diário de Notícias, «Estou na recta final»

Diário de Notícias
05.12.2015
Entrevista de João Céu e Silva


«Estou na recta final»


Esta é uma entrevista de quem nada tem a perder. Do maior escritor de língua portuguesa vivo, que gosta de Putin mas despreza tanto os políticos saloios como a opinião da crítica portuguesa, e recusa ser vaidade o que sente pela própria obra. Que detesta quem lhe tenta morder as canelas por causa de uma entrevista ao El País, onde deitava abaixo Fernando Pessoa. E que não encontra concorrência entre os autores que têm aparecido na nossa literatura.

O mais recente romance de António Lobo Antunes marca o regresso a um dos pontos mais altos da sua narrativa que iniciou, em 1979, com o romance Memória de Elefante. Quase que se poderia caracterizar o registo deste livro como um romance policial - com a devida distância, claro -, tal é o modo como o argumento e as personagens se desenvolvem num cenário em que cada capítulo acrescenta mais uns pós à história, obrigando o leitor a avançar para saber o que se está a passar.

E de que trata o romance? Uma pergunta nem sempre fácil de responder, apesar de o autor achar que a sua narrativa é transparente e, ao mesmo tempo, garanta: "Nunca penso na história do livro." É sabido que António Lobo Antunes não aceita que se inscrevam os seus romances no formato típico da literatura - um protagonista e uma acção com contornos definidos. Mas, queira ou não, este é um romance em que o leitor antuniano que se tornou preguiçoso - o que diz "eu gosto é das crónicas dele" - volta a sentir-se desafiado na leitura de quase 600 páginas. Uma coisa é certa, há neste um paralelo com a dimensão monumental de Fado Alexandrino, de 1983.

Da Natureza Dos Deuses é também diferente porque introduz e aprofunda algumas das técnicas  de escrita que Lobo Antunes tem vindo a apresentar nos últimos trabalhos. A ser questionado, foge desse tema dizendo: "Para mim, o livro está acabado há dois anos. Depois disso já fiz mais um, A Última Porta Antes Da Noite, e agora estou a escrever outro." Prefere divergir e conversar sobre a má época que a literatura atravessa: "É um momento muito complicado, em que ninguém compra livros. Pelo menos no estrangeiro as editoras queixam-se." Curiosamente, a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas já está na quinta edição. Contrapõe a situação nacional: "Cá em Portugal as livrarias estão vazias, porquê?" Ensaia a resposta: "Mesmo aquelas pessoas que escrevem livros e que vendem muito estão com vendas muito menores. Até parece que é o princípio do fim e que chega a hora de novos nomes neste tipo de livros. Não cito nomes portugueses, mas o leitor acaba por ter razão quando dá uma vida curta a certos livros. Quem lê o Dan Brown ou a Profecia Celestina agora?" A conversa que se segue está reproduzida no tom em que aconteceu. Sem grandes alterações no registo.

Este seu novo romance vai vender?
Não pensei nisso, tanto assim que ainda não dei nenhuma entrevista e por mim nem falava mais.

Este não é um livro habitual...
O que é que uma pessoa pode dizer de um livro? O que podia dizer está escrito no livro. Esperava que nenhum romance fosse habitual, gostava que fosse uma surpresa para mim e para os leitores.

Enquanto o lia lembrei-me do seu pai reclamar sobre os seus livros e achar que só tinha feito um, o Fado Alexandrino.
Antes de escrever o Fado Alexandrino ele dizia isso... Este é mais ou menos um livro do mesmo tamanho, que no plano inicial tinha 40 capítulos e acabou com 37. Tirei três da última parte. Tenho sempre um plano muito vago e depois não sei o que vou escrever. Não faço a menor ideia do que vai acontecer neste que estou a escrever.

Se o seu pai lesse este livro diria que era um escritor?
Acho que a resposta dele era afectiva. Ficou muito surpreendido com Memória de Elefante, que lhe ofereci, tendo-me dito: "Isto é um livro de principiante." Pensei nunca mais lhe oferecer nenhum porque fiquei muito ofendido. Tinha 36 anos. Creio que já não lhe dei os outros, mas sei que os leu porque o disse aos meus irmãos. Sobre o Fado Alexandrino também não foi a mim que disse alguma coisa. Ele queria que eu fizesse um romance com a amplidão que estava na cabeça dele enquanto leitor. Ele tinha uma segunda edição de Mort à Crédit, de Louis-Ferdinand Céline, e passou-me aquilo para as mãos. E os livros do Céline eram grossos! Foi uma revelação ler aquilo.

Memória de Elefante ainda vende!
Vai em 30 e tal edições. No outro dia vi uma edição de um deles que estava na 17ª. São long sellers.

Mas era um livro de principiante?
É, na medida em que foi o primeiro livro que publiquei.

Que já tinha um registo próprio.
Nunca tinha publicado e um dia aquilo veio. Nunca li um livro meu e há uns anos saiu uma edição de bolso e, como tinha que almoçar sozinho, levei-a e pus-me a folhear aquilo. E fiquei pasmado! Claro que já não escrevo assim, nem deveria ter escrito assim, mas fiquei espantado com a força que aquilo tinha. E pensei: se fosse editor publicava isto? Sim, porque tenho a certeza do que este gajo pode vir a fazer. O rapaz que escreveu isto. Não pelo livro em si, mas porque está cheio de força, mesmo que ainda mal dominada. Tem um punch do caraças. O livro andou por aí a passear e ninguém queria aquilo, depois saiu e foi o que se sabe. É natural a surpresa porque as pessoas a seguir ao 25 de Abril estavam à espera das obras-primas guardadas nas gavetas por causa da ditadura e não apareceu nada. A primeira pedrada é em 1977 com o Dinis Machado e O Que Diz Molero. Que é um belíssimo livro. Os de antes continuaram a escrever como até então - ser escritor nessa altura devia ser terrível - e não foram capazes de se libertar. O leitor não aderia, não se vendiam muitos livros. Talvez o Fernando Namora, e olhe como ele desapareceu. Não sei se é injusto referir, mas quem é que lê o Vergílio Ferreira e esses escritores todos, que são tantos?

Não se sente um pouco abandonado e só na sua geração?
Ainda há muitos. A Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, a Teolinda Gersão... O problema é que um bom escritor é uma coisa muito rara e agora não os há. Três ou quatro no máximo no mundo inteiro. Não estava a pensar em Portugal, onde nas gerações mais recentes não há nenhum que entusiasme especialmente. Até porque estão muito abandonados e os editores não fazem o seu trabalho.

Aceita opiniões da sua editora?
Isso nunca se passou. Aceito as opiniões todas, mas depois faço o que me apetece. Muitas vezes até pode ser que as pessoas tenham razão.

Não se tem dado mal com isso?
Não, só sei que nunca foi dessa maneira. Julgo ter consciência do que valho e do que estou a fazer. Posso estar enganado. Faço uma primeira versão à mão, depois corrijo para outras folhas com dez correcções em cima, dou para dactilografar e volto novamente às revisões. Portanto, o livro é muito trabalhado.

Este será o próximo [uma pilha de folhas próxima]?
Será, se valer a pena.

Era capaz de pôr de lado um livro depois de estar pronto?
Claro. O problema é sempre o reescrever e corrigir. É como dizia aquele meu amigo, de quem tenho muitas saudades, o Eugénio de Andrade. Tem um livro que se chama Ofício de Paciência... Ele era muito lento a escrever e a poesia dele era muito trabalhada. Não interessa se era bom ou mau, o homem suava sangue para fazer uma linha. Nem o imagino de outra maneira. Basta ver os manuscritos de Tolstói, onde não há uma página sem ter correcções. Estive com um manuscrito do Cortázar na mão e está cheio de correcções. Aquilo parece que é feito como quem mija.

Neste livro usa novas técnicas. Há palavras cortadas a meio...
Isso já havia nos outros...

Mas neste é mais intenso.
Sim, há uns cogitus interruptus... Estava a tentar experimentar uma nova técnica, a ver se dava ou não, porque juntei isto das palavras cortadas a outras coisas. A técnica da escrita interessa-me cada vez mais. Na altura, quando entreguei o livro, pareceu-me que estava bem, mas como nunca o li não sei. Nunca leio um livro meu da primeira à última linha, tenho medo, mesmo que agora comece a sentir curiosidade. Porque, é claro, estou na recta final e é neste momento que temos de dar tudo.

Na recta final porquê. Não tem mais livros para escrever?
Não faço a menor ideia. Talvez porque nestes últimos dois anos a minha família tenha sido muito fustigada e morreram-me muitas pessoas. Da família, amigos muito grandes, como um meu camarada na guerra e o homem mais corajoso que conheci. As últimas palavras que lhe ouvi foram: "Amo-te, meu querido." A morte dele custou-me horrivelmente. E morreu também um soldado, a quem lhe aconteceu esta história quando estávamos em Marimba, na Baixa do Cassange: a população vinha até ao arame farpado pedir comida em latas velhas e enferrujadas e havia um miúdo de 5 anos que também aparecia. O José Mendes tinha pena do menino e metia-lhe comida na lata. Há relativamente pouco tempo, o menino apareceu-lhe em Lisboa, agora um homem muito rico que vive entre Angola e Portugal. É extraordinário como aquela criança andou 40 anos à procura de um rapaz de 20 anos que lhe dava de comer. Nunca o esqueceu.

No seu caso, está de boa saúde?
O Tolstói, a certa altura, escreve: "Lutei comigo para ser melhor do que o Shakespeare.E depois? Ser melhor que o Moliére. E depois?" Eu sei que esta obra vai ficar, Os Cus de Judas vão existir por milhares de anos. A obra fica e eu não serei nada. Por que carga de água a obra vai sobreviver e eu vou morrer? Ninguém está preparado para morrer, mesmo sabendo que está próximo. Nunca vi ninguém preparado para morrer, é uma surpresa e uma injustiça. Então, de que me serve? Já reparou que cada vez me vêem menos, que não apareço nos jornais e nada digo. Porque não tenho importância, mas os livros poderão ter independentemente do autor. Sabemos lá quem ele era!

Não é por mau feitio ou impaciência que não quer aparecer?
Não tenho muita coisa para dizer. Nos livros nem digo nada. Acho que escrevemos livros porque se sofre. E os intervalos entre os livros é um sofrimento ainda maior. Mas à medida que o tempo passa existem muitas coisas que começam a ser claras e a pessoa despe-se da vaidade. Não tenho dúvida em dizer que ninguém escreve como eu, mas não sou eu, é o António Lobo Antunes, que é uma pessoa que ninguém sabe quem é. Porque o eu é um menino assustado, muitas vezes com medo e por vezes perdido. A medicina ensinou-me que em qualquer idade que o homem esteja, quando está doente ou não, quer a mãe. A mãe vai salvá-lo, só a mãe. A  minha mãe morreu há pouco mais de um ano e, no outro dia, estava a escrever sozinho e de repente saiu-me da boca alto e em voz forte "Quero a minha mãe". É extraordinário como depois da morte as pessoas que criticávamos tanto e de quem achávamos que gostávamos pouco ficam diferentes. Temos saudades. Às vezes parece que sinto o cheiro dela. A sua presença. Mas não está cá, como tive a impressão de que ela nunca estivera a vida toda comigo. E vem o remorso, porque somos muito injustos e ingratos com pessoas que nos deram muita coisa. Só o compreendemos quando é tarde demais. Há uma frase do Joseph Conrad, no Coração das Trevas, em que deveríamos pensar mais: "Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela, que chega sempre tarde demais." Agora podia dizer "tenho muitas saudade de si, mãe, amo-a". Coisa que nunca fui capaz de lhe dizer antes. Vejo agora o que devo aos meus pais. A criarem aqueles filhos todos, a preocuparem-se que lessem e comessem. Havia pouco dinheiro. Era a minha mãe quem nos fazia a roupa, adaptava as dos meus tios. O meu pai ganhava pouco, estava sempre com o olho no microscópio e não era capaz de cobrar dinheiro aos doentes. Na altura eu não reparava. Fui egoísta, vaidoso nunca fui. O que é que deixo? Papel e palavras, é o que vai ficar de mim.

A sua mãe preocupava-se que acabasse a vender Bordas d'Água e pensos rápidos nas esplanadas...
Sim, queria que eu tivesse uma profissão em vez de inventar histórias e escrever versos. Não sei se ela conhecia escritores... Conheceu o professor Bento de Jesus Caraça em miúda e ficou maravilhada. Infelizmente, não tive na infância pessoas miraculosas - só mais tarde. Sentia-me sozinho, como o meu pai se sentia, sempre só. E os filhos herdaram um pouco disso.

Também não força a sua solidão?
Quando estou a escrever não tenho tempo. Isto come tudo. A sensação que sempre tive é que me tinham dado uma coisa que não me pertencia, esta coisa de escrever, e tinha a obrigação de a devolver em forma de livros. Era emprestada e a qualquer momento podiam tirá-la. Tenho de forçar quando não aparece nada e esperar que as coisas venham. Acabam sempre por vir. Ao mesmo tempo tive muita sorte porque quando toda a gente me atacava aqui em Portugal - o que não me interessa nada - os livros eram um sucesso. Logo que o primeiro livro saiu, um senhor que não conheço chamado Vasco Pulido Valente escreveu assim: "Um livro de um desconhecido publicado por uma editora desconhecida." ou "O herói romântico dos anos 70". Contra o Memória de Elefante foi logo pancadaria e bofetada de meia-noite. Era só uma história e essa animosidade levou vários livros. Percebo porquê: inveja. Ninguém sofre tanto como um invejoso com os sucessos do objecto da inveja. Eu era mais bonito, tinha mais talento, as mulheres andavam atrás de mim em quantidade que não acabava - sempre as tive, para que é que havemos de esconder isto? -, e três meses depois daquele sucesso louco sai Os Cus de Judas e aumentou ainda mais. Por mais que tentemos esconder no mais fundo de nós, a sensação de derrota dos outros é a nossa vitória.

Também sentiu isso em relação aos seus colegas escritores?
Não senti, porque sabia desde o princípio que era o melhor. Isto era evidente: eu era o melhor. E se não o era então, iria ser se me dessem mais livros e espaço. Não tinha motivo para ter ciúmes de ninguém, pois se escrevesse faria melhor. Isto dito assim parece um exercício de vaidade mas não é, até porque vou morrer. Não sei quando, mesmo que já tivesse tido a morte muito perto e continuasse a querer escrever. A seguir à primeira operação, garanto, a vaidade foi-se toda. Depois, há dois anos e tal, tive um cancro em cada pulmão e um tinha um prognóstico fodido, mas estou aqui e bem. Tive muita sorte. A quimio é um coice enorme, mas as pessoas com quem me encontrava lá ainda ficavam mais bonitas quando tiravam a cabeleira postiça.

Neste livro nota-se muita crueza...
Em que sentido?

O de ser um livro cruel...
Cruel implica um desejo de fazer sofrer as outras pessoas e não queria fazer sofrer ninguém.

Há personagens que o fazem...
Ficamos melhor quando passamos pela provação do sofrimento. Mais tolerantes. É evidente que este livro tinha uma ideia de partida que não pude concretizar.

Porquê?
Por razões que não têm que ver com literatura. Adorava poder agarrar em certas pessoas que existiram e existem e escrever sobre elas uma coisa absolutamente demolidora, mas não o posso fazer porque iria magoar pessoas - sobretudo uma que me é muito próxima. Não o posso fazer, mas aquele material daria um romance extraordinário. Tenho muita pena, mas não quero magoar pessoas de quem gosto.

Não quer ser cruel?
Não quero magoar. É claro que me agradaria escrever um livro com estas pessoas... E não me seria difícil. Ou, por exemplo, um livro sobre políticos. Também não seria difícil, mas são tão reles que me enojam. Tinha de tomar banho após escrever. Não consigo conceber uma pessoa que toma decisões irrevogáveis e que não as cumpre. Isto é um exemplo. Podia multiplicá-los.

Agora tem um novo governo...
Claro que estou mais contente, já estava farto de mentiras e de mediocridade de quem nem português sabe falar. Isto é um grande pecado. Os meus avôs era os dois de direita feroz, salazaristas e monárquicos, no entanto eram as pessoas mais doces, democratas e tolerantes que encontrei. Quando estava com o George Steiner em Cambridge, lembro-me de ele dizer: "Nenhum dos bons alunos daqui vai para a política." Realmente, quem está agora na política é medíocre. Todos, não importa se são de direita, centro ou esquerda. Compare-se este François Hollande ou Mariano Rajoy com Olaf Palm, Willy Brandt, De Gaulle ou Churchill... No meio disto, a senhora Merkel é um génio. E nós levamos lá uns saloios, no sentido antigo da palavra porque saloio sou eu que venho de Benfica. Não é no sentido social mas mental. O que Eça de Queiroz diria desta gente, ou o Herculano? Discursos, ideias e personalidades miseráveis.

Sente-se mais um escritor do mundo do que de Portugal?
Eu sou português, é para eles que escrevo. Nunca imaginei que me iriam alguma vez traduzir. E com estes prémios todos, até na China. Agora foram cinco livros para os Estados Unidos. Está por todo o lado. Na Suécia, há duas editoras a publicar-me. É muito estranho isto que se passa comigo! Foi lento, depois aquela explosão em França, com os teatros a darem durante seis meses António Lobo Antunes. Logo eles que são tão chauvinistas, que nos consideram um povo de mulheres-a-dias. Fiz mais por Portugal do que estes políticos juntos, pus a bandeira nos mastros das principais capitais da Europa. Vaidade não é, trata-se do que aconteceu. Da Áustria a Isarael, e com o meu nome vem Portugal. Eu pouco interesso, é o país. Ainda hoje dava a vida pelo meu país - não na guerra de África, onde não tínhamos razão nenhuma -, mas se houvesse uma como a Primeira Guerra Mundial. É o meu país, deu-me tanto, gosto tanto dele. Não é o Portugalzinho do meu amor! Ou o daquela quantidade de parvos que se entretém a escrever sobre mim. No El País disse que não era possível ser bom escritor sem se ter fodido. É o que penso, mas não daquela maneira, nem naquele contexto. Tudo quanto é cachorro vadio andou a tentar morder-me as canelas. Vão para a puta que os pariu. Porque têm de saltar muito alto para chegar aos meus pés. É evidente que aquilo era dito num determinado contexto e sentido. Fui logo avacalhado. Parece que há pessoas que não suportam o talento dos outros quando deveriam era ficar contentes. Eu só não fico contente quando o Sporting ganha, porque prefiro que seja o Benfica.

Não reconhece valor a Pessoa?
Não gosto e sou capaz de fundamentar, mas não me parece importante falar disso. Continuem a morder-me, é-me indiferente. Insultaram-me e não respondi a nada. Podem ladrar à vontade. A mim não me ouvem dizer mal de ninguém.

Quando publica um livro e lê as críticas não se irrita com a recepção nesse "Portugalzinho"?
Não, não sei como é por cá porque não as leio. Há países onde não tenho críticas, são mais adjectivos, e também não as leio.

Qual é a língua em que mais estranhou que o quisessem ler?
A Etiópia e o Irão surpreenderam-me. Agora sou viral, como dizem os parvos! Há certos países e pessoas que funcionam como referências, e se eles falam é-se replicado por todo o lado. Nos Estados Unidos é O Harold Bloom, em Inglaterra o Steiner. Opiniões decisivas.

Porque não participa nos muitos festivais literários em Portugal?
Não vou porque falta tempo. Agora recusei um convite para Buenos Aires. Tantas horas de viagem! As viagens são muito compridas e tenho de estar sempre a responder às mesmas perguntas. E nos jantares ficam a ver como pego nos talheres. Tenho sempre os olhos em cima!

É o terrorismo que o preocupa?
Nunca pensei nisso. Uma bomba no avião? Nisso não penso, até porque gosto muito da comida dos aviões. Faz-me voltar  à infância! Como vou em executiva é óptimo porque tem talheres, imensas coisas para abrir e vermos o que há lá dentro. Gosto muito de andar de avião! Devia haver um restaurante que servisse comida de avião naquelas bandejas. Tem um lado de brincar aos jantarinhos que gosto.

Voltemos aos festivais literários em Portugal. Porque não vai?
É a mesma coisa que me faz não ir a Munique agora. E a minha editora alemã é muito preocupada com as traduções, porque já lá vai o tempo em que os livros eram traduzidos do francês, como faziam o João Gaspar Simões e a Isabel da Nóbrega. Podemos ficar com uma ideia do livro, mas é impossível traduzir Tchekhov! E a língua deles é lindíssima, veja-se como é bonita a língua russa falada pelo Putin. Aliás, uma das coisas que os russos admiram nele é o seu russo, o modo como maneja a língua com aquela voz bonita. É quase impossível traduzir e quanto melhor é um escritor mais simbólica é a sua língua.

Então, vamos ao simbolismo. Se está tão fechado em casa, como é que sabe do mundo que aparece em Da Natureza Dos Deuses?
Viajei bastante até agora e não me fecho ao mundo. Não tenho é tempo fora dos livros.

Vai buscar muito ao passado?
Sei lá onde vou buscar...

Então, as viagens deste livro não são só do passado?
Ir a Cascais não é uma grande viagem, são 20 minutos. Só se formos a pé e descalços.

Repito. Porquê um livro tão cruel?
Eu não sou um homem cruel.

Falo das personagens.
Ah são... Vou tentar lembrar-me delas... Sim, algumas são. Há o homem que fecha a mulher no quarto. É um monstro mas é um desgraçado, um infeliz que pede ao criado para fazer o filho por ele. É esse, não é? Queria concentrar nessa figura várias pessoas, 15 ou 20 homens diferentes, que gostava de ter podido espalhar por outras personagens. Mas isso é um coisa que não posso fazer. O Thomas Mann pôde escrever Os Buddenbrook, mas eu não posso. Talvez o faça num livro para ser publicado depois da morte, sobre pessoas que não quero que sofram com isto. Não farei, chateia-me escrever um livro e ficar por publicar. Mas haverá alguma coisa de real nas pessoas e vozes que habitam os livros. Vêm de onde? Ninguém é como aquela gente, mas há pessoas pelas quais tenho dificuldade em sentir piedade. Temos a mania de que a inteligência é a maior virtude, mas a bondade é maior. O meu irmão João diz isso: "O pior defeito que um homem pode ter é a ingratidão."

As mulheres sofrem muito neste livro. Qual é a razão?
Elas sofrem muito em todos os livros. Sobretudo, na vida. Porque as coisas mais pesadas caem sobre elas. O tempo tem-me ajudado a respeitar as mulheres, mesmo que nenhum homem as conheça bem.

É um livro que tem uma particularidade literária: os decotes das mulheres. Mais ou menos abertos conforme são as personagens!
Os decotes. Não reparei nisso.

Há um broche que fecha a vista...
Não tenho nada contra os decotes. Falo muito em decotes?... Elas podem ter muitas toiletes, mas isso não lhes compensa a solidão.

Quando elabora as personagens...
... Eu não as elaboro, elas já chegam inteiras.

Então, distrai-se a vesti-las?
Falo muito em roupa? Não me lembro... Não é assim na vida também? Se é, então não está mal.

Tem mais personagens do que é habitual e dá-lhes nome. É para se orientar?
Não é nada premeditado, eram muitos e as pessoas podiam confundi-los. Quanto à escolha dos nomes, é de grande dificuldade. Nas classes mais altas é assim: o Senhor ou a Senhora. Os empregados é que têm nome. Neste livro que estou a escrever agora, nenhuma tem nome. É sobre gente muito pobre. Este, é da burguesia.

A palavra mais repetida neste livro é "puta". Porquê?
Puta? Tem a certeza? E não é sempre a mesma pessoa a dizer isso? Terá que ver com os habitantes do livro e da maneira como olham para as mulheres. É uma determinada classe social que as vê como coisas que se utilizam e deitam fora. Encontrei pessoas assim, todas da mesma classe social. E as mulheres são objectos, com ambição, que de certa maneira se comportam como eles. É um livro sobre uma certa camada social, onde as relações homem/mulher não são como as entendemos, mas muito diferentes.

É uma relação de poder?
O poder que elas têm só existe se forem provocantes numa forma primitiva, através dos brincos, dos anéis e das roupas. Esses homens só pensam em cobri-las de joias e não percebem que o empregado é mais amado do que eles. Este é um livro sobre os senhores do mundo em Portugal. Eles não obrigam só as mulheres a obedecer, também os homens que estão abaixo deles, até quando entram para a família são humilhados. É o poder que vem com o dinheiro. Não é em vão que tem havido tanto escândalo financeiro em Portugal. Eles dão dinheiro aos partidos antes das eleições mas desprezam as pessoas. Continua a haver uma oligarquia na sombra que é quem realmente manda. Havia determinadas pessoas que nos últimos governos tinham lá três/quatro ministros que lhes pertenciam. Podia ser ministro mas era apenas um empregado. O poder deles é quase ilimitado e não é exercido frontalmente, chega por trás até quem de direito. Era empurrado, dava três cambalhotas e caía num ministério. Só lendo o livro é que se percebe do que estamos a falar. E não vale a pena estar a empurrar-me para essa questão porque não quero ir mais longe.


05.12.2015
texto de João Céu e Silva

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

4 de dezembro de 2015

AM: Opinião de leitura sobre Da Natureza Dos Deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente, a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”. A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”. Joga ténis com personagens que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios”. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.


O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.

O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.

Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreensíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.

Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas) a interpretação que faço do livro, que poderá não ser a verdadeira.


por AM
01.12.2015

3 de dezembro de 2015

Isabel Lucas - crítica a Da Natureza Dos Deuses

Lobo Antunes e a busca da chave certa


Em Da Natureza dos Deuses, o escritor persegue um sentido original da linguagem enquanto modo de expressar um interior que se escapa sempre.


Uma personagem do mais recente romance de António Lobo Antunes interroga-se sobre a razão pela qual o marido a mantém no casarão, “uma espécie de paixão não no sentido de paixão, no sentido de paixão, compreendem, de amor não no sentido de amor, no sentido de amor, compreendem, porque a paixão e o amor não são paixão e amor, à força de usarmos as palavras modificámos-lhes o significado e estou apenas a tentar dar-lhes o significado que modificámos, dizer paixão no lugar de paixão e amor no lugar de…” A tentativa de chegar o mais perto possível de um sentido original da palavra, da linguagem enquanto modo de expressar um interior que lhe escapa sempre — porque a linguagem parece andar sempre atrás e o sentido das palavras se vai alterando pelo uso —, é cada vez mais evidente no trabalho de António Lobo Antunes. A procura desse sentido é tão arriscada quanto sinal da liberdade literária que o escritor persegue, partindo do que parece ser uma angústia central: e se a linguagem não chegar, e se o homem não for mais capaz de a usar para nomear o essencial?

A pergunta “o que acontece à linguagem com o tempo?” sucede a outra interrogação, mais humana: o que é que o tempo faz com o homem, como altera a sua percepção do mundo e o modo de comunicar nele e sobre ele? A angústia perante a perda da comunicação — ou da sua ineficácia, o que é o mesmo —, não como acessório burocrático mas como algo primordial, atravessa mais uma vez a escrita do escritor no seu 26.º romance, um romance irónico, amargo, melancólico. Da Natureza dos Deuses replica o título do livro de Cícero, escrito em 45 a.C. para retomar temas como memória, a velhice, a morte, o pós-colonialismo, a sexualidade, o divino, amor, o tempo (“que maldade incompreensível, o tempo”, pensa outra personagem) dando especial ênfase ao poder e à percepção que dele têm quem o exerce e quem é por ele dominado.

Num casarão entre Cascais e o Guincho, uma mulher, a Senhora, recebe periodicamente a visita de uma empregada de livraria que lhe entrega embrulhos com livros que ela não abre. Fátima é a confidente de uma história de família centrada na figura do Senhor Doutor, pai da Senhora, um déspota, agiota, que pediu a mão da mulher nos seguintes termos: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha.” E “o judeu a secar-se no lenço sem que o pai da Senhora reparasse nele, de cara a desaparecer da cara e expressão alguma, ruga alguma, apenas o bigode a hesitar, a mãe da Senhora quinze ou dezasseis anos, dezasseis…” Fátima, a empregada da livraria, ouve. Tem 36 anos, um filho de seis, o marido deixou-a, e ela vigia, com uma atenção que ultrapassa a mera curiosidade, o sem-abrigo que se alimenta da loja de hambúrgueres no centro de Cascais, bem perto da livraria. Fátima veio de África em criança e, como a Senhora, sabe que na vida “procuramos o que se segue e descobrimos o princípio”. É a velha história do passado que não larga e que tem alimentado tanto a literatura. William Faulkner colocou isso numa frase em O Som e a Fúria que tem sido traduzida com várias nuances: “O passado não está morto. Nem sequer passou.”

No início do romance, Fátima tem umas chaves nas mãos. “Mandaram-me pela primeira vez a casa da Senhora mais ou menos na altura em que encontrei o sem-abrigo a dormir no degrau da livraria e palavra de honra que só dei por ele no momento em que tirei a chave da carteira para abrir a porta, ou antes duas chaves na argola com um ursinho de pano a que faltava o olho direito, a boa, e uma segunda de que continuo a ignorar a serventia, desde pequena que as chaves me intrigam, misteriosas, secretas, introduzindo-as na fechadura abrem o quê, se lhes perguntasse…” No casarão, ela escuta a Senhora e interroga-se sobre as portas fechadas ao longo do corredor. Aquela casa é o centro do livro e, dentro da casa, o Senhor Doutor. Uma e outro atravessam o romance, como a figura do sem-abrigo a caminhar em direcção ao mar de Cascais, espécie de fantasma a cruzar o tempo. São permanências, enquanto os narradores se sucedem, personagens secundárias de uns, centrais na existência de outros, mas sobretudo na própria, e tantas vezes encerrados nela. Quem lê o Lobo Antunes das crónicas percebe que elas funcionam como um laboratório do romance. Há detalhes importados, personagens que se ensaiam, e o apurar do tal trabalho sobre a linguagem que persegue desde o primeiro livro, Memória de Elefante, publicado em 1979. Desde então, é como se Lobo Antunes andasse sempre às voltas com o mesmo livro, cada vez menos narrativo na concepção tradicional do termo — o contar da história —, e cada vez mais a procura da linguagem (num trabalho de arqueologia por vezes demasiado exposto) mais precisa e mais verdadeira face a um tempo, a uma emoção, a alguma coisa muito secreta porque nunca dita.

Em Da Natureza dos Deuses, um dos mais longos romances de Lobo Antunes, volta a haver muitas vozes; interpõem-se, atropelam-se, ecos de vários tempos históricos. E também, mais uma vez, a cronologia é a da memória, pouco obediente ao calendário, mas capaz de refazer percursos e, tanto quanto possível, resolver enigmas para contar uma história que é o presente de um país melancólico e velho: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram… “ No futuro, parece dizer Lobo Antunes pensando ainda em Faulkner, o passado existe.


por Isabel Lucas
02.12.2015

8 de novembro de 2015

Sérgio Rodrigues escreve sobre Não É Meia Noite Quem Quer

‘Não é meia-noite…’: Lobo Antunes no labirinto da memória


O novo lançamento do escritor português António Lobo Antunes no Brasil, o romance “Não é meia-noite quem quer” [...], publicado em Portugal em 2012, oferece munição tanto a seus fãs incondicionais quanto a seus detractores. Estamos falando de um velho embate da cultura lusitana, a polarização entre os que acreditam estar diante do único escritor genial em actividade na língua portuguesa e os que julgam ter sido o autor lisboeta de 73 anos engolido pela própria vaidade de malabarista das palavras, terminando por sucumbir ao vazio do exibicionismo formal.

Naturalmente, o leitor não precisa se alinhar com nenhum desses lados, mesmo porque há um pouco de verdade em ambos. Antes de se lançar à aventura do livro, contudo, deve saber que “Não é meia-noite…” é um romance exigente que demandará sua adesão incondicional, uma espécie de profissão de fé renovada a cada página (às vezes penosamente) na recompensa proporcionada por uma história que gira sobre si mesma.

Na primeira metade de sua carreira, Lobo Antunes, psiquiatra de formação, perseguia algum equilíbrio entre a tessitura da prosa – que sempre foi caudalosa, musical e poética – e o enredo. Por exemplo: um romance como “As naus” (1988), fantasia em que os heróis das grandes navegações portuguesas voltam a “Lixboa” na ressaca pós-colonial dos anos 1970, tem uma linguagem de forte personalidade sem deixar o leitor à míngua de peripécias.

Foi em torno da virada do século que o autor passou a radicalizar técnicas de condensação, superposição e fragmentação de tempos e vozes narrativas a tal ponto que, neste romance, quase não faz sentido falar em “história”. Em todo caso, lá vai: uma mulher de 52 anos, professora, narra sua visita ao longo de um fim de semana à casa de praia onde passou a infância. A precisão cronológica anunciada pelos títulos das três partes do livro – uma para cada dia, começando com “sexta-feira, 26 de agosto de 2011” – é praticamente uma gozação.

Nos dez capítulos de cada parte, o último deles emprestado a outros personagens da história, a mulher permanece no mesmo lugar: o labirinto atemporal de suas memórias, em que tudo o que se passou em diferentes épocas é visitado e revisitado num fluxo de consciência que alterna momentos de grande intensidade poética (“Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar…”) e momentos de enfadonha monotonia.

Em meio a bordões, avanços e impasses, o leitor se vê montando um quebra-cabeça que, no entanto, não demora a se desenhar em linhas gerais, dispensando a isca do mistério. Lá estão a mãe pouco carinhosa, o pai alcoólatra e os três irmãos, dos quais um era mudo e arredio, o outro voltou maluco da guerra em Angola (que o autor lutou e transformou em tema recorrente) e o mais velho suicidou-se pulando de um penhasco à beira-mar.

Lá está também a melhor amiga de infância, que se afastou sem explicar a razão e que retorna como médica de frio profissionalismo quando a mulher é submetida a uma mastectomia. Lá estão o marido que a rejeita por causa da mutilação e a colega mais velha que, pouco se importando com o peito ausente, a seduz. Logo fica claro que a mulher entretém o plano de seguir os passos do irmão suicida: a frase de abertura do romance é “Acordava a meio da noite com a certeza do mar a chamar-me através das persianas fechadas…”.

Será que a personagem levará seu projecto a cabo? Eis o único fio de suspense que o autor concede ao leitor. Um fio frágil, pois tampouco é isso o que de facto importa. Mais do que no destino dos personagens, a ênfase recai sobre as próprias formas de representação literária da memória, que num modo de escrita próximo da livre associação revela-se uma memória particular sem deixar de ser também, corporificada na linguagem, colectiva.

Se houve uma progressiva radicalização de tais linhas de força na trajectória de Lobo Antunes, é inegável que há também coerência em seu projecto artístico. Em Fevereiro deste ano, [um] jornal português online [...] publicou uma reportagem tão longa quanto cruel, [...] na qual busca compreender a expressiva queda nas vendas do autor [...].

Convocados a opinar, críticos e jornalistas se dividiram entre culpar os leitores da nova geração, que estariam em busca de livros mais rasos, e responsabilizar o próprio autor, que teria abusado da boa vontade do público ao se promover ou permitir que o promovessem, ano após ano, como um boquirroto brigão sem rabo preso com o establishment literário, convencido do próprio génio e injustiçado pelo Prémio Nobel [...].

É provável que pouca gente tenha paciência hoje em dia para a arrogância do personagem Lobo Antunes, mas sua literatura nada tem a ver com isso. Se anda encontrando menos leitores do que na virada do século, isso se deve simplesmente ao facto de que é acessível a pouca gente mesmo, uma característica que o tempo acentuou.

Resenha publicada na edição da revista “Veja” 

por Sérgio Rodrigues
em Todo Prosa
07.11.2015

1 de novembro de 2015

O Estado de São Paulo «A ficção biográfica de Lobo Antunes»

Autor considera ‘Não É Meia-Noite Quem Quer’ sua obra mais pessoal


Do outro lado da linha, a voz soa acabrunhada – um dos mais importantes autores da língua portuguesa, António Lobo Antunes parece reforçar sua fama de não gostar de dar entrevistas. “Sobre qual livro vamos mesmo conversar?”, questiona e, depois de ouvir o título Não É Meia-Noite Quem Quer, a 28.ª obra de uma carreira notável, é quase possível vê-lo dar de ombros, mesmo estando em Lisboa. “Não tenho o que falar. Jamais releio meus livros e, ao final, são todos iguais para mim.”

O que poderia ser desanimador é, na verdade, um estímulo – aos 73 anos, Lobo Antunes é uma celebridade em Portugal, reconhecido onde quer que vá. Vários motivos explicam. Primeiro, sua literatura – para ele, a perfeição está longe de ser alcançada, daí sua escrita estar sob constante evolução, notadamente subversiva e radicalmente original. Não é para ser degustada e, sim, devorada.

Em segundo lugar, sua simpatia. Sim, António Lobo Antunes transborda charme. Já se tornou célebre a participação de Lobo Antunes na Flip de 2009. É essa mesma candura que move agora a conversa com o Estado. Como de hábito, Lobo Antunes relembra a importância da literatura brasileira em sua formação. “Meu avô nasceu no Brasil e, em sua biblioteca, aprendi muito com Monteiro Lobato, Machado de Assis, Raul Pompeia.”

Em seguida, relembra sua admiração por Drummond (“versos perfeitos”), cobra mais atenção à obra de Paulo Mendes Campos (“cronista exemplar”), Jorge de Lima (“Invenção de Orfeu é notável”) e Mário Quintana (“poeta brilhante, mas pouco lido”). Pergunta sobre o amigo Rubem Fonseca (“continua a caminhar por Copacabana?”), relembra com saudade de Jorge Amado (“um dos homens mais gentis que conheci”) e venera João Cabral de Melo Meto (“um poeta que não tem antecessores – parece que nasceu do nada”).

edição Alfaguara Brasil
Já tomado pela nostalgia e por seu natural lirismo, Lobo Antunes começa a falar mais detalhadamente sobre Não É Meia-Noite Quem Quer. Publicado em 2012 em Portugal, o livro provocou-lhe lágrimas enquanto era escrito. “Não porque me comovesse a história, mas porque as palavras fluíam, as frases saíam perfeitas. Tinha a sensação de que o livro me era ditado e que a esferográfica não tinha a mesma velocidade da voz que dizia as sentenças.”

Apenas uma vez tal milagre acontecera – em 1980, quando viajava da cidade de Aveiro para Lisboa, chegou com o livro Explicação dos Pássaros praticamente pronto. Lobo Antunes relembra com imenso prazer a sensação: era como se o enredo enchesse todo seu corpo, com as palavras correndo nas veias como o sangue.

Habitualmente, o processo é mais demorado, doloroso, com muita reescrita e fracasso. “Escrever é um trabalho que se faz por paixão, com muito sacrifício, com muitas olheiras”, já disse, certa vez, Lobo Antunes, que emenda, agora, com uma frase de Cardoso Pires: “É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha prazer”.

Não É Meia-Noite Quem Quer é a história de uma mulher, cujo nome não é revelado. Professora, separada, 52 anos, vítima do câncer de mama, ela decide, em um fim de semana, despedir-se da casa em Peniche, onde cresceu ao lado dos irmãos. Ao chegar, é tomada pelas memórias, relembrando desde impressões da infância como o suicídio do irmão mais velho. A acção se passa em três dias, divididos em dez capítulos em que Lobo Antunes se aproveita do irregular fluxo de memória da personagem para exercitar seu estilo precioso – sem qualquer preocupação com a evolução cronológica da história, apresentando os personagens à medida em que são evocados pela lembrança.

Lobo Antunes considera-o seu livro mais autobiográfico. “Minha impressão é a de que estive a falar o tempo todo de mim, do princípio ao fim. Fiquei com a sensação de que me conheço melhor”, comenta ele, que se confessa leitor compulsivo. “Os livros dizem muito sobre nós mesmos. Com o tempo, aprendi que os livros maus falam, os bons, ouvem.”

Apaixonado por seu ofício, Lobo Antunes jura ter muito respeito pelos artistas. Afinal, a herança de um povo é sua cultura. “Os heróis nacionais não são políticos ou economistas – são Shakespeare, Camões, Cervantes.”


31.10.2015
texto de Ubiratan Brasil

27 de outubro de 2015

«Da Natureza Dos Deuses: uma sopa de letras», por Norberto do Vale Cardoso

António Lobo Antunes e Da Natureza Dos Deuses:
 Uma sopa de letras

Norberto do Vale Cardoso [i]

Na vasta e complexa obra de António Lobo Antunes destaca-se a importância do que parece fragmentário e lateral. Efectivamente, na obra deste autor não podemos ater-nos aos aspectos mais evidentes e tradicionais da narrativa, porque esta, como um mar imenso, está repleta de micronarrativas que funcionam como “microclimas” a perscrutar, exigindo ao leitor uma atenção redobrada. Essas “funduras”, onde tudo se subsume (e de onde tudo reemerge), funcionam como um “avesso”, noção que pode possuir várias componentes sémicas. Ora em Da Natureza Dos Deuses (ND) julgamos importante abordar três aspectos “submersos” na narrativa: as questões do poder, da paternidade e da linguagem.  
Em Da Natureza Dos Deuses, romance em que, uma vez mais, somos levados a percorrer os “corredores sombrios” (ND, p. 346) do poder, confrontamo-nos com uma questão central da identidade, veiculada através de uma dicotomia entre os “deuses” e os “homens” (vistos como “palhaços”). O tema não é novo na obra de Lobo Antunes, até porque “o circo […] é uma imagem catalisadora e sempre actuante nos romances” deste autor (Susana Carvalho, A Desordem Natural do Olhar, 2014, p. 171), mas interessa-nos particularmente porque Lobo Antunes vem encontrando outros modos de dizer para dizer também outras coisas.
Assim, os “deuses” serão representados pelo “senhor doutor” e pelo “senhor presidente” – que se reúnem em consílio aos domingos -, enquanto os homens-palhaço se fazem representar, grosso modo, pela figura do sem abrigo (que recorda a personagem de “As mãos são as folhas dos gestos”, incluída no Quinto Livro de Crónicas).

Poder e paternidade:
O senhor doutor, dono do volfrâmio, de empresas, fábricas, casas e carros (ND, p. 217), vê que o seu poder vai aumentando sem freios: “o senhor doutor comprava quadros aos alemães, cristais, pratas, continuava a aumentar a casa até ao pinhal, fez recuar as dunas, transformou as ondas em rochas” (ND, p. 238). Ele é, de facto, o capital, uma espécie de pai global. Todavia, não tem o poder da criação, pois, logo após o casamento, teve conhecimento de que não poderia ser pai. Como julga que o dinheiro compra tudo, procura médicos nos Estados Unidos, na Suécia e na Áustria, mas nenhum especialista encontra uma solução (ND, p. 355). Incrédulo, começa a sentir repulsa pelo seu corpo (ND, p. 355), e essa perda da paternidade (tema muito reiterado na obra de Lobo Antunes), que é uma questão de identidade, leva-o a nomear Marçal, o servente, para o substituir: “[…] minha filha que não é filha de mais ninguém senão minha, mandei o Marçal fazer-ma” (ND, p. 324). Este jogo de substituição eu/ outro, que se coaduna com os motivos circenses, em particular com a dialética palhaço rico/ palhaço pobre, é relevante na medida em que destaca a (im)potência do dono de todas as coisas, colocando em causa os alicerces do poder e da identidade. No fundo, o retirar da máscara deixa à vista a sua “imperfeição”, a “humanidade sofredora”, o “grotesco” do mundo (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 131).
Para tentar suprir as carências efectivas, o sentimento de posse do “senhor doutor” traduz-se em prepotência para com todos os que o rodeiam. Vejam-se, a esse propósito: o modo como encarcera a Senhora num quarto, de onde esta observa o jogo de ténis, que o marido converte em jogo de sedução e manipulação; a ameaça de desterro do sargento para a província (de Cascais a Chaves, ND, p. 342); ou a posse física da secretária do adjunto, que toma para si como quando em miúdo se agarrava aos animais do carrossel (ND, pp. 352, 353), outro elemento que conecta a infância (como tempo irremediavelmente perdido) ao jogo entre ser e não ser. Portanto, o poder e a posse são, na verdade, substitutos de uma carência, aparentemente resolvida através da menorização dos outros, sempre vistos como “imbecis” (ND, p. 353) e “palhaços”.
As mulheres são as maiores vítimas do poder másculo e patriarcal que o senhor representa: “- Todas as mulheres são palhaços”, diz-se a determinada altura (ND, p. 76). Tal apodo justifica-se na medida em que o palhaço representa, a nível simbólico, “o rei assassinado”, “a inversão das propriedades reais” (Chevalier/Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, 1994, p. 502), que aquele “que manda em Portugal” (ND, p. 486) teme. O espelho invertido leva-o a olhar os outros com desprezo e a usá-los, ao ponto de estes dependerem totalmente dele, nem que seja por medo. Veja-se o relato cruel da senhora:

“[…] o meu marido […] sem olhar para mim, já não tenho pinturas, nem adereços, nem vestidos, o roupão somente, eu para o meu marido
– De certeza que não me preferias palhaço?
[…]
– Ainda sou a tua vaca não sou?
eu
– Ainda sou a tua cadela não sou?
eu
– Ainda sou a tua puta?
eu, com mais ímpeto
– Ainda sou a tua puta?
enquanto as bolas de ténis para um lado e para o outro da rede” (ND, pp. 227-228)

Esse domínio traduz-se num enfastiamento do “senhor doutor”, que usa e substitui as pessoas que o rodeiam, ainda que, na verdade, o problema esteja em si próprio. Essa alteridade é usada pelo romance de Lobo Antunes+ para se referir, mutatis mutandis, à condição do artista (e do escritor em particular):

“[…] fui o palhaço que me mandaram ser, não fui, fui a tolinha que exigiram de mim, não fui, ao fim de certo tempo substituem-se os artistas, não é, o meu marido substituiu os artistas, conserva-me nesta casa por ele, não por mim, pela sua filha, talvez, reparem que não digo pela minha filha, digo pela sua filha, talvez, porque aceitei dar-lhe a filha, fica com ela, entrega-lhe um marido, tanto faz qual, os palhaços não escolhem o público, uma voz, não adivinho de quem
– Os artistas são todos portugueses” (ND, p. 222)

O artista:
 Como referimos, do outro lado encontra-se o sem abrigo, que, carente de todas as coisas (do emprego à posição social), é tão-só aquele que caminha, indiferente, junto ao mar de Cascais, como se a fímbria do mar representasse a margem social em que se encontra. No entanto, ninguém há de mais misterioso que ele, o que desperta o interesse do senhor doutor: “por que razão a gente, os deste livro, nos inquietamos com o sem abrigo, o que será ele, quem será ele, quem somos nós que não nos abandona nunca” (ND, p. 324). Desapossado, o sem abrigo, como figura desfigurada, representará o “desfavorecimento de classe dos artistas e a dureza do trabalho e do esforço exigido no que aparece, aos olhos do público, como cómico.” (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 130) Não obstante, se Marçal é levado ao suicídio (“enforcou-se sem aviso na estufa”, ND, p. 424) porque é conduzido a uma dissolução moral pelo dono de todas as coisas, o sem abrigo é indiferente aos jogos de poder. De certo modo, ele parece ser o antigo contador de histórias, que emudeceu perante um mundo onde impera o dinheiro e se descura a experiência do outro (Walter Benjamin, Linguagem, Tradução e Literatura, 2015, p. 148).  
Nesta óptica, no seu auto-exílio, o sem abrigo liga-se à importância da linguagem, da palavra e da composição do próprio romance. Sobre esse aspecto destacamos, primeiro, um lugar (uma livraria), depois, uma personagem (a mãe estrangeira da dona da livraria, “exprimindo-se num português cheio de rodas dentadas”, ND, p. 76), e, finalmente, uma acção. Referimo-nos ao momento em que o “senhor presidente” come a sopa de letras, que é símbolo da pluralidade e, enquanto tal, da “palavra do enigma” (Benjamin, ibidem, p. 41). Não é, aliás, despiciendo que as letras da sopa formem as iniciais “L” e “A”, significando, de certo modo, a natureza subsumida da criação artística, formada letra a letra, com paciência. Afinal, o homem não se alimentará exclusivamente de poder, porque até os que o têm acabam por desejar ter um outro poder, o de “construir uma palavra”:

“[…] a governanta, de colher em riste, depois de lhe prender um guardanapo com o escudo nacional ao pescoço
– Não é bonito o guardanapo senhor doutor?
lhe ia dando um caldinho, a apanhar o que escorria dos cantos dos lábios com o bico da colher e o senhor presidente a chupar o bico, demorando a mastigar
– Ainda não engoli
os pedacinhos de frango e as letras da massa, o senhor presidente, satisfeito, pescando um L e um A da língua
– Olha um L olha um A
com vontade de construir uma palavra” (ND, p. 549)


Deucalião:
Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados ou As Naus, são romances onde António Lobo Antunes põe em cena a carnavalização do mundo, absorvida e usada parodicamente para caracterizar o nosso tempo. Este novo romance, Da Natureza dos Deuses, revela-nos o rosto oculto sob a máscara porque estas figuras representam o “perpétuo desacerto” e a “aparente normalidade” (Carvalho, ibidem, pp. 176 e 180) em que vivemos neste país, um lugar onde não há homens-deuses, mas onde coexistem homens que vivem vidas muito diversas.
O escritor que se assume (ironicamente) como um “artista” facilmente substituível ou como um “sem abrigo” à margem do todo, não será certamente um deus capaz de restabelecer a ordem para o caos em que vivem os homens. Mas no todo desorganizado que é (qual sopa de letras) o romance, levanta-se a questão intemporal sobre a utilidade da criação artística, da linguagem e do romance. Talvez a resposta tenha sido encontrada por Eduardo Lourenço, pelo menos no que à obra de António Lobo Antunes diz respeito. Num texto intitulado “Sob o signo de Deucalião” (in Público, 15.11.2003, p. 7), o ensaísta considera que “[…] a ficção de António Lobo Antunes lembra o gesto de um deus que se tivesse suicidado na sua criação”, mas sem criar o caos, porque ele se encontra “inteiro em cada um dos fragmentos dessa longa frase”.




[i] Norberto do Vale Cardoso é autor de A Mão-de-Judas: Representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes (Texto, 2011).

*
em exclusivo para António Lobo Antunes na Web
26.10.2015

16 de outubro de 2015

Premiada tradução em francês de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar, por Dominique Nedellec

Gulbenkian de Paris entrega prémio a tradução francesa de obra de António Lobo Antunes

A tradução francesa do livro "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?", de António Lobo Antunes, foi hoje distinguida, em Paris, com o Prix Gulbenkian Books da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta foi a primeira edição do prémio que distingue a melhor tradução de português para francês de uma obra de literatura em língua portuguesa, publicada em França nos últimos dois anos, sendo atribuído em parceria com a revista literária Books.

Dominique Dedellec
O júri decidiu distinguir Dominique Nedellec, o autor da tradução "Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer", editada em 2014 pela Christian Bourgois Éditeur, pelo "brio com que recriou em francês a prosa tão densa e sinuosa de Lobo Antunes, a sobreposição de vozes, as palavras e os pensamentos das suas personagens torturadas", declarou Suzi Vieira, membro do júri, durante o anúncio do prémio.

"Esta tradução, que considerámos admiravelmente fiel, conseguiu recriar a polifonia do romance e também o ritmo e estrutura musical em que se baseia a arquitectura da sua obra", justificou a porta-voz do júri, também jornalista na revista Books.

Dominique Nedellec, que acaba de entregar a sua quinta tradução de um livro de Lobo Antunes à sua editora, disse à Lusa que o prémio é "um incentivo para continuar a trabalhar em prol da genialidade da língua portuguesa e, neste caso, da genialidade de um autor único", sendo também "uma marca de reconhecimento do trabalho que mostra que as pessoas estão atentas" ao que fazem os tradutores "na sombra".

"Traduzir Lobo Antunes exige da parte do tradutor esquecer as referências de leitura que cada um de nós tem para se introduzir no universo e na língua dele, porque ele está a escrever numa língua que não é a língua canónica, que não é a língua normal. Ele está a criar uma língua muito pessoal, sui generis, muito peculiar. O meu objectivo é recriar na minha língua, o francês, a mesma estranheza, a mesma violência que ele introduz na língua portuguesa", acrescentou Dominique Nedellec que também já traduziu para francês várias obras de Gonçalo M. Tavares e de outros autores de língua portuguesa como Alice Vieira, José Jorge Letria ou Ondjaki.

[...]

O júri era composto por personalidades portuguesas e francesas do mundo académico e literário, nomeadamente o poeta Nuno Júdice, a escritora francesa Maylis de Kérangal, a professora associada da Université de Paris-Sorbonne Paris IV Maria-Benedita Basto, o titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade Paris Ouest-Nanterre José Manuel Esteves, o ensaísta alemão Sébastien Lapaque, a especialista em literatura lusófona Jacqueline Penjon e a jornalista da revista Books Suzi Vieira.

O objectivo do prémio Gulbenkian Books, no valor de 10.000 euros a dividir entre o editor e o tradutor, é promover a tradução de obras de língua portuguesa em França.

A iniciativa deverá repetir-se de dois em dois anos e o seu lançamento insere-se no programa do cinquentenário da Gulbenkian de Paris, o qual vai ter como pontos altos uma retrospectiva, no Grand Palais, da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, entre Abril e Julho de 2016, e uma mostra sobre os últimos 50 anos da Arquitectura Portuguesa, na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, de Abril a Agosto do próximo ano.


LUSA
15.10.2015
citado de SAPO Notícias
revisão do texto por José Alexandre Ramos

9 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso: António Lobo Antunes - Da Natureza do escritor

[...] a velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que digo continua a acontecer [...]
António Lobo Antunes, in Da Natureza Dos Deuses

Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela - enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram - que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efectivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de "conhecer a língua no exterior do poder", de exercer sobre a língua um "trabalho de deslocação", diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de "trapacear a língua", e não do comprometimento político nem do conteúdo doutrinal, que depende a liberdade da criação. E António Lobo Antunes (ALA) é, acima de tudo, um escritor de sensibilidades comprometido com a natureza mágica da palavra.

A sedução exercida pela obra de ALA reside, em parte, na constante busca do novo sem que este seja um fim em si mesmo, mas um processo continuado. E este livro não é excepção, prosseguindo um trabalho quer de reiteração quer de inovação da palavra, da frase e da narrativa tradicional para criar um novo romance (vejam-se, a este nível, os intricados, tais como: "não pronta a proteger-, palram pega e papagaio,-me, pronta a proteger o meu dinheiro", De Natura Deorum - ND -, p. 523). A reiteração é só aparente, pois a insistência temática é um modo de interpelar o leitor e de transfigurar o que foi dito.

Trata-se de uma transfiguração do mundo através do acesso à palavra (sublinhe-se aqui a importância das chaves "misteriosas, secretas", que, no capítulo inicial, abrem a livraria, em Cascais, e das coisas, inconfessáveis, que se passam na cave desse lugar), sendo esta compatível com o modo, quase autónomo, como as personagens se movem dentro da obra, contando ou escrevendo a sua versão dos acontecimentos, e, em simultâneo, movendo (e movendo-se) (n)o tempo como se este fosse uma teia única, ainda que com distintas texturas que se entretecem. 

Como dizia Marcel Proust (À Procura do Tempo Perdido II: À Sombra das Raparigas Em Flor, Relógio D'Água, 2003, pp. 191 e 225), "o tempo de que dispomos em cada dia é elástico", sendo a vida "pouco cronológica". Este conceito em tudo se conecta com a citação que usamos em epígrafe, pois na obra de ALA não devemos considerar a existência propriamente dita de um passado, antes de um presente em que tudo "continua a acontecer", ou seja, de um presente que congrega todos os passados, tantos quantas as versões que deles podemos fazer. 

Esta vivência pessoal e íntima do tempo é estruturante nos seus romances, e vem chocar com o tempo socialmente imposto, pois o tempo é uma construção do poder e a língua desloca-se no seu exterior. Portanto, ganha aqui assentimento cotejar a passagem de Proust com a de ALA por um segundo motivo: a velhice, condição que faz parte da natureza humana, consiste, não no facto de nos roubarem o futuro, mas em "terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram, a casa onde nasci desapareceu, nem um objecto me ficou na memória" (ND, p. 465).

Eis-nos no cerne de Da Natureza Dos Deuses, livro denso (580 páginas, quatro partes, 37 capítulos), em que a densidade do poder se assemelha à densidade dos deuses, que impõem a (sua) estabilidade como suposta condição para a estabilidade social. A sustentação dos novos deuses passará, precisamente, por apagar, alterar ou roubar o passado. Lembre-se que George Orwell (in 1984, Antígona, 2012, p. 213) falava na "alteração do passado", que entendia ser "possível" por um "sistema de pensamento" designado "pela palavra duplopensar." Esta consiste na crença e aceitação simultânea de duas ideias, ainda que contraditórias. De facto, as personagens deste novo romance de ALA, mas também, por exemplo, as de Fado Alexandrino ou de As Naus, sentem que algo de muito precioso e irresgatável lhes foi roubado: o tempo. 

A sensação de perda é, pois, irresgatável e, na sua obra, nunca é colmatada por qualquer ganho, seja ele de que espécie for. Lobo Antunes vem, assim, abrindo novos paradigmas, que, em suma, se consubstanciam na ideia de que os portugueses têm sido amputados de um passado, o que coloca em causa a passagem da ditadura para a democracia e, em último plano, a possibilidade de um futuro. Na verdade, neste ND, sucessor de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014), são dois os donos de Portugal, e são eles que tudo decidem pelos portugueses, que são "os palhaços" desses senhores, com especial destaque para "o senhor doutor", herdeiro do poder da Banca:

"[...] ele o dono dos bancos, das companhias, das empresas, das fábricas, ele o dono de tudo e eu um palhaço entre tantos palhaços, dúzias de palhaços à sua volta nos jantares, no escritório, na casa, [...]" ( p. 217)

Só a personagem do "sem abrigo" parece colocar algo em causa, o que pode parecer absurdo, sobretudo se considerarmos que esta personagem está destituída de todo o tipo de bens materiais e, ainda, de relações que lhe dêem acesso ao poder. Mais do que isso: o "sem abrigo" não fala nem intervém em quaisquer dos núcleos narrativos. No entanto, esta personagem prefigura-se, ela própria, como o núcleo da narrativa, pois é em torno dela que se adensa o mistério (não se conhece a sua identidade), o silêncio (não fala nem dialoga) e a imutabilidade das coisas (não parece mudar). Errando por todo o lado, é visto de diferentes maneiras sob distintos olhares. Para uns não passa disso mesmo, de um simples sem abrigo, havendo outros que conjecturam que pode tratar-se de uma entidade celeste, o que lhe daria uma natureza divina:

"[...] entretido a espalmar a rolha na garrafa glorificando o Altíssimo, a voar às curvetas, com o seu disfarce de pedinte, na direcção do mar onde Cristo caminha, relacionada com Cristo uma outra questão se foi formando em mim acerca do sem abrigo, seria ele Jesus [...]" (p. 335)

Nesse sentido, o sem abrigo, que caminha em direção ao mar, parece ter algo da natureza dos deuses, o que vem contrapor-se aos que se julgam como tal, e que pretendem evitar a todo o custo que o seu poder naufrague. Amputado de História, o sem abrigo, como uma espécie de náufrago ou anjo caído, vive a pequenez do seu dia a dia sobrevivendo, dormindo no umbral da livraria (acesso, porventura inacessível, ao conhecimento, questionando-se aqui o poder dos livros, que saem da cave da livraria para cercar a casa do "senhor doutor"), indiferente ao que se passa no seu país. Ele será um palhaço pobre que viu transformada a utopia de navegar (a revolução do 25 de Abril) em sua própria distopia, e que considera a democracia com indiferença e desesperança, devido ao descrédito para com poder político, que se encontra submetido ao económico, cujo centro é uma casa "empoleirada" num "alto" (o novo Olimpo). 

Se nada muda neste país, António Lobo Antunes é um cicerone daquilo "que constantemente muda" (crónica "Adeus", in Visão, 18.10.2012): a natureza do romance como um caminho perceptível para resgatar o passado perdido e/ ou "roubado" e para, através dele, imaginar outra natureza para as coisas e para os sonhos. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras
publicado on-line em 07.10.2015

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