4 de dezembro de 2015

AM: Opinião de leitura sobre Da Natureza Dos Deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente, a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”. A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”. Joga ténis com personagens que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios”. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.


O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.

O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.

Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreensíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.

Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas) a interpretação que faço do livro, que poderá não ser a verdadeira.


por AM
01.12.2015

3 de dezembro de 2015

Isabel Lucas - crítica a Da Natureza Dos Deuses

Lobo Antunes e a busca da chave certa


Em Da Natureza dos Deuses, o escritor persegue um sentido original da linguagem enquanto modo de expressar um interior que se escapa sempre.


Uma personagem do mais recente romance de António Lobo Antunes interroga-se sobre a razão pela qual o marido a mantém no casarão, “uma espécie de paixão não no sentido de paixão, no sentido de paixão, compreendem, de amor não no sentido de amor, no sentido de amor, compreendem, porque a paixão e o amor não são paixão e amor, à força de usarmos as palavras modificámos-lhes o significado e estou apenas a tentar dar-lhes o significado que modificámos, dizer paixão no lugar de paixão e amor no lugar de…” A tentativa de chegar o mais perto possível de um sentido original da palavra, da linguagem enquanto modo de expressar um interior que lhe escapa sempre — porque a linguagem parece andar sempre atrás e o sentido das palavras se vai alterando pelo uso —, é cada vez mais evidente no trabalho de António Lobo Antunes. A procura desse sentido é tão arriscada quanto sinal da liberdade literária que o escritor persegue, partindo do que parece ser uma angústia central: e se a linguagem não chegar, e se o homem não for mais capaz de a usar para nomear o essencial?

A pergunta “o que acontece à linguagem com o tempo?” sucede a outra interrogação, mais humana: o que é que o tempo faz com o homem, como altera a sua percepção do mundo e o modo de comunicar nele e sobre ele? A angústia perante a perda da comunicação — ou da sua ineficácia, o que é o mesmo —, não como acessório burocrático mas como algo primordial, atravessa mais uma vez a escrita do escritor no seu 26.º romance, um romance irónico, amargo, melancólico. Da Natureza dos Deuses replica o título do livro de Cícero, escrito em 45 a.C. para retomar temas como memória, a velhice, a morte, o pós-colonialismo, a sexualidade, o divino, amor, o tempo (“que maldade incompreensível, o tempo”, pensa outra personagem) dando especial ênfase ao poder e à percepção que dele têm quem o exerce e quem é por ele dominado.

Num casarão entre Cascais e o Guincho, uma mulher, a Senhora, recebe periodicamente a visita de uma empregada de livraria que lhe entrega embrulhos com livros que ela não abre. Fátima é a confidente de uma história de família centrada na figura do Senhor Doutor, pai da Senhora, um déspota, agiota, que pediu a mão da mulher nos seguintes termos: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha.” E “o judeu a secar-se no lenço sem que o pai da Senhora reparasse nele, de cara a desaparecer da cara e expressão alguma, ruga alguma, apenas o bigode a hesitar, a mãe da Senhora quinze ou dezasseis anos, dezasseis…” Fátima, a empregada da livraria, ouve. Tem 36 anos, um filho de seis, o marido deixou-a, e ela vigia, com uma atenção que ultrapassa a mera curiosidade, o sem-abrigo que se alimenta da loja de hambúrgueres no centro de Cascais, bem perto da livraria. Fátima veio de África em criança e, como a Senhora, sabe que na vida “procuramos o que se segue e descobrimos o princípio”. É a velha história do passado que não larga e que tem alimentado tanto a literatura. William Faulkner colocou isso numa frase em O Som e a Fúria que tem sido traduzida com várias nuances: “O passado não está morto. Nem sequer passou.”

No início do romance, Fátima tem umas chaves nas mãos. “Mandaram-me pela primeira vez a casa da Senhora mais ou menos na altura em que encontrei o sem-abrigo a dormir no degrau da livraria e palavra de honra que só dei por ele no momento em que tirei a chave da carteira para abrir a porta, ou antes duas chaves na argola com um ursinho de pano a que faltava o olho direito, a boa, e uma segunda de que continuo a ignorar a serventia, desde pequena que as chaves me intrigam, misteriosas, secretas, introduzindo-as na fechadura abrem o quê, se lhes perguntasse…” No casarão, ela escuta a Senhora e interroga-se sobre as portas fechadas ao longo do corredor. Aquela casa é o centro do livro e, dentro da casa, o Senhor Doutor. Uma e outro atravessam o romance, como a figura do sem-abrigo a caminhar em direcção ao mar de Cascais, espécie de fantasma a cruzar o tempo. São permanências, enquanto os narradores se sucedem, personagens secundárias de uns, centrais na existência de outros, mas sobretudo na própria, e tantas vezes encerrados nela. Quem lê o Lobo Antunes das crónicas percebe que elas funcionam como um laboratório do romance. Há detalhes importados, personagens que se ensaiam, e o apurar do tal trabalho sobre a linguagem que persegue desde o primeiro livro, Memória de Elefante, publicado em 1979. Desde então, é como se Lobo Antunes andasse sempre às voltas com o mesmo livro, cada vez menos narrativo na concepção tradicional do termo — o contar da história —, e cada vez mais a procura da linguagem (num trabalho de arqueologia por vezes demasiado exposto) mais precisa e mais verdadeira face a um tempo, a uma emoção, a alguma coisa muito secreta porque nunca dita.

Em Da Natureza dos Deuses, um dos mais longos romances de Lobo Antunes, volta a haver muitas vozes; interpõem-se, atropelam-se, ecos de vários tempos históricos. E também, mais uma vez, a cronologia é a da memória, pouco obediente ao calendário, mas capaz de refazer percursos e, tanto quanto possível, resolver enigmas para contar uma história que é o presente de um país melancólico e velho: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram… “ No futuro, parece dizer Lobo Antunes pensando ainda em Faulkner, o passado existe.


por Isabel Lucas
02.12.2015

8 de novembro de 2015

Sérgio Rodrigues escreve sobre Não É Meia Noite Quem Quer

‘Não é meia-noite…’: Lobo Antunes no labirinto da memória


O novo lançamento do escritor português António Lobo Antunes no Brasil, o romance “Não é meia-noite quem quer” [...], publicado em Portugal em 2012, oferece munição tanto a seus fãs incondicionais quanto a seus detractores. Estamos falando de um velho embate da cultura lusitana, a polarização entre os que acreditam estar diante do único escritor genial em actividade na língua portuguesa e os que julgam ter sido o autor lisboeta de 73 anos engolido pela própria vaidade de malabarista das palavras, terminando por sucumbir ao vazio do exibicionismo formal.

Naturalmente, o leitor não precisa se alinhar com nenhum desses lados, mesmo porque há um pouco de verdade em ambos. Antes de se lançar à aventura do livro, contudo, deve saber que “Não é meia-noite…” é um romance exigente que demandará sua adesão incondicional, uma espécie de profissão de fé renovada a cada página (às vezes penosamente) na recompensa proporcionada por uma história que gira sobre si mesma.

Na primeira metade de sua carreira, Lobo Antunes, psiquiatra de formação, perseguia algum equilíbrio entre a tessitura da prosa – que sempre foi caudalosa, musical e poética – e o enredo. Por exemplo: um romance como “As naus” (1988), fantasia em que os heróis das grandes navegações portuguesas voltam a “Lixboa” na ressaca pós-colonial dos anos 1970, tem uma linguagem de forte personalidade sem deixar o leitor à míngua de peripécias.

Foi em torno da virada do século que o autor passou a radicalizar técnicas de condensação, superposição e fragmentação de tempos e vozes narrativas a tal ponto que, neste romance, quase não faz sentido falar em “história”. Em todo caso, lá vai: uma mulher de 52 anos, professora, narra sua visita ao longo de um fim de semana à casa de praia onde passou a infância. A precisão cronológica anunciada pelos títulos das três partes do livro – uma para cada dia, começando com “sexta-feira, 26 de agosto de 2011” – é praticamente uma gozação.

Nos dez capítulos de cada parte, o último deles emprestado a outros personagens da história, a mulher permanece no mesmo lugar: o labirinto atemporal de suas memórias, em que tudo o que se passou em diferentes épocas é visitado e revisitado num fluxo de consciência que alterna momentos de grande intensidade poética (“Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar…”) e momentos de enfadonha monotonia.

Em meio a bordões, avanços e impasses, o leitor se vê montando um quebra-cabeça que, no entanto, não demora a se desenhar em linhas gerais, dispensando a isca do mistério. Lá estão a mãe pouco carinhosa, o pai alcoólatra e os três irmãos, dos quais um era mudo e arredio, o outro voltou maluco da guerra em Angola (que o autor lutou e transformou em tema recorrente) e o mais velho suicidou-se pulando de um penhasco à beira-mar.

Lá está também a melhor amiga de infância, que se afastou sem explicar a razão e que retorna como médica de frio profissionalismo quando a mulher é submetida a uma mastectomia. Lá estão o marido que a rejeita por causa da mutilação e a colega mais velha que, pouco se importando com o peito ausente, a seduz. Logo fica claro que a mulher entretém o plano de seguir os passos do irmão suicida: a frase de abertura do romance é “Acordava a meio da noite com a certeza do mar a chamar-me através das persianas fechadas…”.

Será que a personagem levará seu projecto a cabo? Eis o único fio de suspense que o autor concede ao leitor. Um fio frágil, pois tampouco é isso o que de facto importa. Mais do que no destino dos personagens, a ênfase recai sobre as próprias formas de representação literária da memória, que num modo de escrita próximo da livre associação revela-se uma memória particular sem deixar de ser também, corporificada na linguagem, colectiva.

Se houve uma progressiva radicalização de tais linhas de força na trajectória de Lobo Antunes, é inegável que há também coerência em seu projecto artístico. Em Fevereiro deste ano, [um] jornal português online [...] publicou uma reportagem tão longa quanto cruel, [...] na qual busca compreender a expressiva queda nas vendas do autor [...].

Convocados a opinar, críticos e jornalistas se dividiram entre culpar os leitores da nova geração, que estariam em busca de livros mais rasos, e responsabilizar o próprio autor, que teria abusado da boa vontade do público ao se promover ou permitir que o promovessem, ano após ano, como um boquirroto brigão sem rabo preso com o establishment literário, convencido do próprio génio e injustiçado pelo Prémio Nobel [...].

É provável que pouca gente tenha paciência hoje em dia para a arrogância do personagem Lobo Antunes, mas sua literatura nada tem a ver com isso. Se anda encontrando menos leitores do que na virada do século, isso se deve simplesmente ao facto de que é acessível a pouca gente mesmo, uma característica que o tempo acentuou.

Resenha publicada na edição da revista “Veja” 

por Sérgio Rodrigues
em Todo Prosa
07.11.2015

1 de novembro de 2015

O Estado de São Paulo «A ficção biográfica de Lobo Antunes»

Autor considera ‘Não É Meia-Noite Quem Quer’ sua obra mais pessoal


Do outro lado da linha, a voz soa acabrunhada – um dos mais importantes autores da língua portuguesa, António Lobo Antunes parece reforçar sua fama de não gostar de dar entrevistas. “Sobre qual livro vamos mesmo conversar?”, questiona e, depois de ouvir o título Não É Meia-Noite Quem Quer, a 28.ª obra de uma carreira notável, é quase possível vê-lo dar de ombros, mesmo estando em Lisboa. “Não tenho o que falar. Jamais releio meus livros e, ao final, são todos iguais para mim.”

O que poderia ser desanimador é, na verdade, um estímulo – aos 73 anos, Lobo Antunes é uma celebridade em Portugal, reconhecido onde quer que vá. Vários motivos explicam. Primeiro, sua literatura – para ele, a perfeição está longe de ser alcançada, daí sua escrita estar sob constante evolução, notadamente subversiva e radicalmente original. Não é para ser degustada e, sim, devorada.

Em segundo lugar, sua simpatia. Sim, António Lobo Antunes transborda charme. Já se tornou célebre a participação de Lobo Antunes na Flip de 2009. É essa mesma candura que move agora a conversa com o Estado. Como de hábito, Lobo Antunes relembra a importância da literatura brasileira em sua formação. “Meu avô nasceu no Brasil e, em sua biblioteca, aprendi muito com Monteiro Lobato, Machado de Assis, Raul Pompeia.”

Em seguida, relembra sua admiração por Drummond (“versos perfeitos”), cobra mais atenção à obra de Paulo Mendes Campos (“cronista exemplar”), Jorge de Lima (“Invenção de Orfeu é notável”) e Mário Quintana (“poeta brilhante, mas pouco lido”). Pergunta sobre o amigo Rubem Fonseca (“continua a caminhar por Copacabana?”), relembra com saudade de Jorge Amado (“um dos homens mais gentis que conheci”) e venera João Cabral de Melo Meto (“um poeta que não tem antecessores – parece que nasceu do nada”).

edição Alfaguara Brasil
Já tomado pela nostalgia e por seu natural lirismo, Lobo Antunes começa a falar mais detalhadamente sobre Não É Meia-Noite Quem Quer. Publicado em 2012 em Portugal, o livro provocou-lhe lágrimas enquanto era escrito. “Não porque me comovesse a história, mas porque as palavras fluíam, as frases saíam perfeitas. Tinha a sensação de que o livro me era ditado e que a esferográfica não tinha a mesma velocidade da voz que dizia as sentenças.”

Apenas uma vez tal milagre acontecera – em 1980, quando viajava da cidade de Aveiro para Lisboa, chegou com o livro Explicação dos Pássaros praticamente pronto. Lobo Antunes relembra com imenso prazer a sensação: era como se o enredo enchesse todo seu corpo, com as palavras correndo nas veias como o sangue.

Habitualmente, o processo é mais demorado, doloroso, com muita reescrita e fracasso. “Escrever é um trabalho que se faz por paixão, com muito sacrifício, com muitas olheiras”, já disse, certa vez, Lobo Antunes, que emenda, agora, com uma frase de Cardoso Pires: “É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha prazer”.

Não É Meia-Noite Quem Quer é a história de uma mulher, cujo nome não é revelado. Professora, separada, 52 anos, vítima do câncer de mama, ela decide, em um fim de semana, despedir-se da casa em Peniche, onde cresceu ao lado dos irmãos. Ao chegar, é tomada pelas memórias, relembrando desde impressões da infância como o suicídio do irmão mais velho. A acção se passa em três dias, divididos em dez capítulos em que Lobo Antunes se aproveita do irregular fluxo de memória da personagem para exercitar seu estilo precioso – sem qualquer preocupação com a evolução cronológica da história, apresentando os personagens à medida em que são evocados pela lembrança.

Lobo Antunes considera-o seu livro mais autobiográfico. “Minha impressão é a de que estive a falar o tempo todo de mim, do princípio ao fim. Fiquei com a sensação de que me conheço melhor”, comenta ele, que se confessa leitor compulsivo. “Os livros dizem muito sobre nós mesmos. Com o tempo, aprendi que os livros maus falam, os bons, ouvem.”

Apaixonado por seu ofício, Lobo Antunes jura ter muito respeito pelos artistas. Afinal, a herança de um povo é sua cultura. “Os heróis nacionais não são políticos ou economistas – são Shakespeare, Camões, Cervantes.”


31.10.2015
texto de Ubiratan Brasil

27 de outubro de 2015

«Da Natureza Dos Deuses: uma sopa de letras», por Norberto do Vale Cardoso

António Lobo Antunes e Da Natureza Dos Deuses:
 Uma sopa de letras

Norberto do Vale Cardoso [i]

Na vasta e complexa obra de António Lobo Antunes destaca-se a importância do que parece fragmentário e lateral. Efectivamente, na obra deste autor não podemos ater-nos aos aspectos mais evidentes e tradicionais da narrativa, porque esta, como um mar imenso, está repleta de micronarrativas que funcionam como “microclimas” a perscrutar, exigindo ao leitor uma atenção redobrada. Essas “funduras”, onde tudo se subsume (e de onde tudo reemerge), funcionam como um “avesso”, noção que pode possuir várias componentes sémicas. Ora em Da Natureza Dos Deuses (ND) julgamos importante abordar três aspectos “submersos” na narrativa: as questões do poder, da paternidade e da linguagem.  
Em Da Natureza Dos Deuses, romance em que, uma vez mais, somos levados a percorrer os “corredores sombrios” (ND, p. 346) do poder, confrontamo-nos com uma questão central da identidade, veiculada através de uma dicotomia entre os “deuses” e os “homens” (vistos como “palhaços”). O tema não é novo na obra de Lobo Antunes, até porque “o circo […] é uma imagem catalisadora e sempre actuante nos romances” deste autor (Susana Carvalho, A Desordem Natural do Olhar, 2014, p. 171), mas interessa-nos particularmente porque Lobo Antunes vem encontrando outros modos de dizer para dizer também outras coisas.
Assim, os “deuses” serão representados pelo “senhor doutor” e pelo “senhor presidente” – que se reúnem em consílio aos domingos -, enquanto os homens-palhaço se fazem representar, grosso modo, pela figura do sem abrigo (que recorda a personagem de “As mãos são as folhas dos gestos”, incluída no Quinto Livro de Crónicas).

Poder e paternidade:
O senhor doutor, dono do volfrâmio, de empresas, fábricas, casas e carros (ND, p. 217), vê que o seu poder vai aumentando sem freios: “o senhor doutor comprava quadros aos alemães, cristais, pratas, continuava a aumentar a casa até ao pinhal, fez recuar as dunas, transformou as ondas em rochas” (ND, p. 238). Ele é, de facto, o capital, uma espécie de pai global. Todavia, não tem o poder da criação, pois, logo após o casamento, teve conhecimento de que não poderia ser pai. Como julga que o dinheiro compra tudo, procura médicos nos Estados Unidos, na Suécia e na Áustria, mas nenhum especialista encontra uma solução (ND, p. 355). Incrédulo, começa a sentir repulsa pelo seu corpo (ND, p. 355), e essa perda da paternidade (tema muito reiterado na obra de Lobo Antunes), que é uma questão de identidade, leva-o a nomear Marçal, o servente, para o substituir: “[…] minha filha que não é filha de mais ninguém senão minha, mandei o Marçal fazer-ma” (ND, p. 324). Este jogo de substituição eu/ outro, que se coaduna com os motivos circenses, em particular com a dialética palhaço rico/ palhaço pobre, é relevante na medida em que destaca a (im)potência do dono de todas as coisas, colocando em causa os alicerces do poder e da identidade. No fundo, o retirar da máscara deixa à vista a sua “imperfeição”, a “humanidade sofredora”, o “grotesco” do mundo (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 131).
Para tentar suprir as carências efectivas, o sentimento de posse do “senhor doutor” traduz-se em prepotência para com todos os que o rodeiam. Vejam-se, a esse propósito: o modo como encarcera a Senhora num quarto, de onde esta observa o jogo de ténis, que o marido converte em jogo de sedução e manipulação; a ameaça de desterro do sargento para a província (de Cascais a Chaves, ND, p. 342); ou a posse física da secretária do adjunto, que toma para si como quando em miúdo se agarrava aos animais do carrossel (ND, pp. 352, 353), outro elemento que conecta a infância (como tempo irremediavelmente perdido) ao jogo entre ser e não ser. Portanto, o poder e a posse são, na verdade, substitutos de uma carência, aparentemente resolvida através da menorização dos outros, sempre vistos como “imbecis” (ND, p. 353) e “palhaços”.
As mulheres são as maiores vítimas do poder másculo e patriarcal que o senhor representa: “- Todas as mulheres são palhaços”, diz-se a determinada altura (ND, p. 76). Tal apodo justifica-se na medida em que o palhaço representa, a nível simbólico, “o rei assassinado”, “a inversão das propriedades reais” (Chevalier/Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, 1994, p. 502), que aquele “que manda em Portugal” (ND, p. 486) teme. O espelho invertido leva-o a olhar os outros com desprezo e a usá-los, ao ponto de estes dependerem totalmente dele, nem que seja por medo. Veja-se o relato cruel da senhora:

“[…] o meu marido […] sem olhar para mim, já não tenho pinturas, nem adereços, nem vestidos, o roupão somente, eu para o meu marido
– De certeza que não me preferias palhaço?
[…]
– Ainda sou a tua vaca não sou?
eu
– Ainda sou a tua cadela não sou?
eu
– Ainda sou a tua puta?
eu, com mais ímpeto
– Ainda sou a tua puta?
enquanto as bolas de ténis para um lado e para o outro da rede” (ND, pp. 227-228)

Esse domínio traduz-se num enfastiamento do “senhor doutor”, que usa e substitui as pessoas que o rodeiam, ainda que, na verdade, o problema esteja em si próprio. Essa alteridade é usada pelo romance de Lobo Antunes+ para se referir, mutatis mutandis, à condição do artista (e do escritor em particular):

“[…] fui o palhaço que me mandaram ser, não fui, fui a tolinha que exigiram de mim, não fui, ao fim de certo tempo substituem-se os artistas, não é, o meu marido substituiu os artistas, conserva-me nesta casa por ele, não por mim, pela sua filha, talvez, reparem que não digo pela minha filha, digo pela sua filha, talvez, porque aceitei dar-lhe a filha, fica com ela, entrega-lhe um marido, tanto faz qual, os palhaços não escolhem o público, uma voz, não adivinho de quem
– Os artistas são todos portugueses” (ND, p. 222)

O artista:
 Como referimos, do outro lado encontra-se o sem abrigo, que, carente de todas as coisas (do emprego à posição social), é tão-só aquele que caminha, indiferente, junto ao mar de Cascais, como se a fímbria do mar representasse a margem social em que se encontra. No entanto, ninguém há de mais misterioso que ele, o que desperta o interesse do senhor doutor: “por que razão a gente, os deste livro, nos inquietamos com o sem abrigo, o que será ele, quem será ele, quem somos nós que não nos abandona nunca” (ND, p. 324). Desapossado, o sem abrigo, como figura desfigurada, representará o “desfavorecimento de classe dos artistas e a dureza do trabalho e do esforço exigido no que aparece, aos olhos do público, como cómico.” (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 130) Não obstante, se Marçal é levado ao suicídio (“enforcou-se sem aviso na estufa”, ND, p. 424) porque é conduzido a uma dissolução moral pelo dono de todas as coisas, o sem abrigo é indiferente aos jogos de poder. De certo modo, ele parece ser o antigo contador de histórias, que emudeceu perante um mundo onde impera o dinheiro e se descura a experiência do outro (Walter Benjamin, Linguagem, Tradução e Literatura, 2015, p. 148).  
Nesta óptica, no seu auto-exílio, o sem abrigo liga-se à importância da linguagem, da palavra e da composição do próprio romance. Sobre esse aspecto destacamos, primeiro, um lugar (uma livraria), depois, uma personagem (a mãe estrangeira da dona da livraria, “exprimindo-se num português cheio de rodas dentadas”, ND, p. 76), e, finalmente, uma acção. Referimo-nos ao momento em que o “senhor presidente” come a sopa de letras, que é símbolo da pluralidade e, enquanto tal, da “palavra do enigma” (Benjamin, ibidem, p. 41). Não é, aliás, despiciendo que as letras da sopa formem as iniciais “L” e “A”, significando, de certo modo, a natureza subsumida da criação artística, formada letra a letra, com paciência. Afinal, o homem não se alimentará exclusivamente de poder, porque até os que o têm acabam por desejar ter um outro poder, o de “construir uma palavra”:

“[…] a governanta, de colher em riste, depois de lhe prender um guardanapo com o escudo nacional ao pescoço
– Não é bonito o guardanapo senhor doutor?
lhe ia dando um caldinho, a apanhar o que escorria dos cantos dos lábios com o bico da colher e o senhor presidente a chupar o bico, demorando a mastigar
– Ainda não engoli
os pedacinhos de frango e as letras da massa, o senhor presidente, satisfeito, pescando um L e um A da língua
– Olha um L olha um A
com vontade de construir uma palavra” (ND, p. 549)


Deucalião:
Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados ou As Naus, são romances onde António Lobo Antunes põe em cena a carnavalização do mundo, absorvida e usada parodicamente para caracterizar o nosso tempo. Este novo romance, Da Natureza dos Deuses, revela-nos o rosto oculto sob a máscara porque estas figuras representam o “perpétuo desacerto” e a “aparente normalidade” (Carvalho, ibidem, pp. 176 e 180) em que vivemos neste país, um lugar onde não há homens-deuses, mas onde coexistem homens que vivem vidas muito diversas.
O escritor que se assume (ironicamente) como um “artista” facilmente substituível ou como um “sem abrigo” à margem do todo, não será certamente um deus capaz de restabelecer a ordem para o caos em que vivem os homens. Mas no todo desorganizado que é (qual sopa de letras) o romance, levanta-se a questão intemporal sobre a utilidade da criação artística, da linguagem e do romance. Talvez a resposta tenha sido encontrada por Eduardo Lourenço, pelo menos no que à obra de António Lobo Antunes diz respeito. Num texto intitulado “Sob o signo de Deucalião” (in Público, 15.11.2003, p. 7), o ensaísta considera que “[…] a ficção de António Lobo Antunes lembra o gesto de um deus que se tivesse suicidado na sua criação”, mas sem criar o caos, porque ele se encontra “inteiro em cada um dos fragmentos dessa longa frase”.




[i] Norberto do Vale Cardoso é autor de A Mão-de-Judas: Representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes (Texto, 2011).

*
em exclusivo para António Lobo Antunes na Web
26.10.2015

16 de outubro de 2015

Premiada tradução em francês de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar, por Dominique Nedellec

Gulbenkian de Paris entrega prémio a tradução francesa de obra de António Lobo Antunes

A tradução francesa do livro "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?", de António Lobo Antunes, foi hoje distinguida, em Paris, com o Prix Gulbenkian Books da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta foi a primeira edição do prémio que distingue a melhor tradução de português para francês de uma obra de literatura em língua portuguesa, publicada em França nos últimos dois anos, sendo atribuído em parceria com a revista literária Books.

Dominique Dedellec
O júri decidiu distinguir Dominique Nedellec, o autor da tradução "Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer", editada em 2014 pela Christian Bourgois Éditeur, pelo "brio com que recriou em francês a prosa tão densa e sinuosa de Lobo Antunes, a sobreposição de vozes, as palavras e os pensamentos das suas personagens torturadas", declarou Suzi Vieira, membro do júri, durante o anúncio do prémio.

"Esta tradução, que considerámos admiravelmente fiel, conseguiu recriar a polifonia do romance e também o ritmo e estrutura musical em que se baseia a arquitectura da sua obra", justificou a porta-voz do júri, também jornalista na revista Books.

Dominique Nedellec, que acaba de entregar a sua quinta tradução de um livro de Lobo Antunes à sua editora, disse à Lusa que o prémio é "um incentivo para continuar a trabalhar em prol da genialidade da língua portuguesa e, neste caso, da genialidade de um autor único", sendo também "uma marca de reconhecimento do trabalho que mostra que as pessoas estão atentas" ao que fazem os tradutores "na sombra".

"Traduzir Lobo Antunes exige da parte do tradutor esquecer as referências de leitura que cada um de nós tem para se introduzir no universo e na língua dele, porque ele está a escrever numa língua que não é a língua canónica, que não é a língua normal. Ele está a criar uma língua muito pessoal, sui generis, muito peculiar. O meu objectivo é recriar na minha língua, o francês, a mesma estranheza, a mesma violência que ele introduz na língua portuguesa", acrescentou Dominique Nedellec que também já traduziu para francês várias obras de Gonçalo M. Tavares e de outros autores de língua portuguesa como Alice Vieira, José Jorge Letria ou Ondjaki.

[...]

O júri era composto por personalidades portuguesas e francesas do mundo académico e literário, nomeadamente o poeta Nuno Júdice, a escritora francesa Maylis de Kérangal, a professora associada da Université de Paris-Sorbonne Paris IV Maria-Benedita Basto, o titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade Paris Ouest-Nanterre José Manuel Esteves, o ensaísta alemão Sébastien Lapaque, a especialista em literatura lusófona Jacqueline Penjon e a jornalista da revista Books Suzi Vieira.

O objectivo do prémio Gulbenkian Books, no valor de 10.000 euros a dividir entre o editor e o tradutor, é promover a tradução de obras de língua portuguesa em França.

A iniciativa deverá repetir-se de dois em dois anos e o seu lançamento insere-se no programa do cinquentenário da Gulbenkian de Paris, o qual vai ter como pontos altos uma retrospectiva, no Grand Palais, da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, entre Abril e Julho de 2016, e uma mostra sobre os últimos 50 anos da Arquitectura Portuguesa, na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, de Abril a Agosto do próximo ano.


LUSA
15.10.2015
citado de SAPO Notícias
revisão do texto por José Alexandre Ramos

9 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso: António Lobo Antunes - Da Natureza do escritor

[...] a velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que digo continua a acontecer [...]
António Lobo Antunes, in Da Natureza Dos Deuses

Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela - enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram - que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efectivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de "conhecer a língua no exterior do poder", de exercer sobre a língua um "trabalho de deslocação", diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de "trapacear a língua", e não do comprometimento político nem do conteúdo doutrinal, que depende a liberdade da criação. E António Lobo Antunes (ALA) é, acima de tudo, um escritor de sensibilidades comprometido com a natureza mágica da palavra.

A sedução exercida pela obra de ALA reside, em parte, na constante busca do novo sem que este seja um fim em si mesmo, mas um processo continuado. E este livro não é excepção, prosseguindo um trabalho quer de reiteração quer de inovação da palavra, da frase e da narrativa tradicional para criar um novo romance (vejam-se, a este nível, os intricados, tais como: "não pronta a proteger-, palram pega e papagaio,-me, pronta a proteger o meu dinheiro", De Natura Deorum - ND -, p. 523). A reiteração é só aparente, pois a insistência temática é um modo de interpelar o leitor e de transfigurar o que foi dito.

Trata-se de uma transfiguração do mundo através do acesso à palavra (sublinhe-se aqui a importância das chaves "misteriosas, secretas", que, no capítulo inicial, abrem a livraria, em Cascais, e das coisas, inconfessáveis, que se passam na cave desse lugar), sendo esta compatível com o modo, quase autónomo, como as personagens se movem dentro da obra, contando ou escrevendo a sua versão dos acontecimentos, e, em simultâneo, movendo (e movendo-se) (n)o tempo como se este fosse uma teia única, ainda que com distintas texturas que se entretecem. 

Como dizia Marcel Proust (À Procura do Tempo Perdido II: À Sombra das Raparigas Em Flor, Relógio D'Água, 2003, pp. 191 e 225), "o tempo de que dispomos em cada dia é elástico", sendo a vida "pouco cronológica". Este conceito em tudo se conecta com a citação que usamos em epígrafe, pois na obra de ALA não devemos considerar a existência propriamente dita de um passado, antes de um presente em que tudo "continua a acontecer", ou seja, de um presente que congrega todos os passados, tantos quantas as versões que deles podemos fazer. 

Esta vivência pessoal e íntima do tempo é estruturante nos seus romances, e vem chocar com o tempo socialmente imposto, pois o tempo é uma construção do poder e a língua desloca-se no seu exterior. Portanto, ganha aqui assentimento cotejar a passagem de Proust com a de ALA por um segundo motivo: a velhice, condição que faz parte da natureza humana, consiste, não no facto de nos roubarem o futuro, mas em "terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram, a casa onde nasci desapareceu, nem um objecto me ficou na memória" (ND, p. 465).

Eis-nos no cerne de Da Natureza Dos Deuses, livro denso (580 páginas, quatro partes, 37 capítulos), em que a densidade do poder se assemelha à densidade dos deuses, que impõem a (sua) estabilidade como suposta condição para a estabilidade social. A sustentação dos novos deuses passará, precisamente, por apagar, alterar ou roubar o passado. Lembre-se que George Orwell (in 1984, Antígona, 2012, p. 213) falava na "alteração do passado", que entendia ser "possível" por um "sistema de pensamento" designado "pela palavra duplopensar." Esta consiste na crença e aceitação simultânea de duas ideias, ainda que contraditórias. De facto, as personagens deste novo romance de ALA, mas também, por exemplo, as de Fado Alexandrino ou de As Naus, sentem que algo de muito precioso e irresgatável lhes foi roubado: o tempo. 

A sensação de perda é, pois, irresgatável e, na sua obra, nunca é colmatada por qualquer ganho, seja ele de que espécie for. Lobo Antunes vem, assim, abrindo novos paradigmas, que, em suma, se consubstanciam na ideia de que os portugueses têm sido amputados de um passado, o que coloca em causa a passagem da ditadura para a democracia e, em último plano, a possibilidade de um futuro. Na verdade, neste ND, sucessor de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014), são dois os donos de Portugal, e são eles que tudo decidem pelos portugueses, que são "os palhaços" desses senhores, com especial destaque para "o senhor doutor", herdeiro do poder da Banca:

"[...] ele o dono dos bancos, das companhias, das empresas, das fábricas, ele o dono de tudo e eu um palhaço entre tantos palhaços, dúzias de palhaços à sua volta nos jantares, no escritório, na casa, [...]" ( p. 217)

Só a personagem do "sem abrigo" parece colocar algo em causa, o que pode parecer absurdo, sobretudo se considerarmos que esta personagem está destituída de todo o tipo de bens materiais e, ainda, de relações que lhe dêem acesso ao poder. Mais do que isso: o "sem abrigo" não fala nem intervém em quaisquer dos núcleos narrativos. No entanto, esta personagem prefigura-se, ela própria, como o núcleo da narrativa, pois é em torno dela que se adensa o mistério (não se conhece a sua identidade), o silêncio (não fala nem dialoga) e a imutabilidade das coisas (não parece mudar). Errando por todo o lado, é visto de diferentes maneiras sob distintos olhares. Para uns não passa disso mesmo, de um simples sem abrigo, havendo outros que conjecturam que pode tratar-se de uma entidade celeste, o que lhe daria uma natureza divina:

"[...] entretido a espalmar a rolha na garrafa glorificando o Altíssimo, a voar às curvetas, com o seu disfarce de pedinte, na direcção do mar onde Cristo caminha, relacionada com Cristo uma outra questão se foi formando em mim acerca do sem abrigo, seria ele Jesus [...]" (p. 335)

Nesse sentido, o sem abrigo, que caminha em direção ao mar, parece ter algo da natureza dos deuses, o que vem contrapor-se aos que se julgam como tal, e que pretendem evitar a todo o custo que o seu poder naufrague. Amputado de História, o sem abrigo, como uma espécie de náufrago ou anjo caído, vive a pequenez do seu dia a dia sobrevivendo, dormindo no umbral da livraria (acesso, porventura inacessível, ao conhecimento, questionando-se aqui o poder dos livros, que saem da cave da livraria para cercar a casa do "senhor doutor"), indiferente ao que se passa no seu país. Ele será um palhaço pobre que viu transformada a utopia de navegar (a revolução do 25 de Abril) em sua própria distopia, e que considera a democracia com indiferença e desesperança, devido ao descrédito para com poder político, que se encontra submetido ao económico, cujo centro é uma casa "empoleirada" num "alto" (o novo Olimpo). 

Se nada muda neste país, António Lobo Antunes é um cicerone daquilo "que constantemente muda" (crónica "Adeus", in Visão, 18.10.2012): a natureza do romance como um caminho perceptível para resgatar o passado perdido e/ ou "roubado" e para, através dele, imaginar outra natureza para as coisas e para os sonhos. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras
publicado on-line em 07.10.2015

2 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso disserta sobre Da Natureza Dos Deuses

[texto publicado originalmente na Colóquio de Letras nº 190 de Setembro de 2015 e citado integralmente aqui por cortesia de Norberto do Vale Cardoso]

E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses


O espectro da continuidade 
Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida.
(Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.) 
Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral (conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas, sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sente esse movimento com espanto, o que lhe exige uma atitude de indagação do mundo. É isso que sucede com a leitura de Da Natureza dos Deuses, 26º sexto romance de António Lobo Antunes, que gera no leitor sentimentos ambivalentes, entre a sedução e a perturbação.

Neste romance o tempo parece suspenso, sujeito ao poder opressivo da política e do capitalismo dominantes. Esse tempo, que se assegura necessário para o estabelecimento de uma suposta ordem natural das coisas (sempre invertida na obra antuniana) é, na verdade, um constructo que visa criar uma inamovilidade aristotélicado mundo. Assim, os novos deuses exercem um domínio tacitamente aceite sobre quem os serve, por um lado porque os detentores do poder se julgam acima dos seus iguais e incólumes à passagem do tempo, e, por outro lado, porque os que carecem de poder, de recursos e de mecanismos para colocar em causa a ordem estabelecida, são impulsionados a aceitá-la e a ela se juntarem, abdicando, sem razão válida, dos seus sonhos: “porque motivo aceitamos ser palhaços dos homens, a rirmo-nos do que não tem graça e a acharmos fascinante, […]” (ND, 147). 

Neste romance não parece, pois, desenhar-se qualquer saída revolucionária (aliás in-existente na obra antuniana), vislumbrando-se, antes um espectro de continuidade.

II
O epicentro da mudança

Baseado no título homónimo da obra de Cícero, De natura deorum (45 a.C.), algumas das acções deste novo romance de António Lobo Antunes decorrem numa casa “empoleirada” num “alto”, onde se destaca a estátua de Vénus (símbolo do perene e do poder). O dono da casa, conhecido como “o senhor doutor”, vai “degolando gente pela vida fora”, o que o dota de um poder incontestável. A partir desse olimpo, “o senhor doutor” vai “dirigindo os palhaços e os maridos dos palhaços, o duque inglês, os alemães cada vez mais numerosos” (ND, 156). Aí se reúne com os seus “súbditos” (assessores, amantes e gente influente, que formam “ramalhetes sociais” (Proust, 2003: 99), ou seja, gente heterogénea) em torno de um jogo de ténis (que, como o campo de tourada em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, representa a arena moderna, onde a força não se liga à “raça”, mas àquele que tem o dinheiro para ter a força ou que tem a força para ter o dinheiro: veja-se a chantagem sobre o parceiro de jogo, que é ameaçado com o desterro para a província). Estes encontros provam que não há, neste tempo (as acções centrais decorrem durante o Estado Novo), ninguém livre, e que o Estado resulta da confluência dos poderes político e económico (Deleuze e Guattari, 2004: 276).

Dono de bancos, quintas, casas com piscinas e minas de volfrâmio, colecionador de automóveis, com contas em offshores, o “sevandija” (ND, 320) visita, aos domingos, “o senhor presidente” (alusão aos encontros entre o líder do clã Espírito Santo e Salazar), num colóquio entre aqueles que “mandam em Portugal” (ND, 207). Esse (geo)poder, indiferente à História porque se considera a si próprio «a História», representa as forças que se movem para, afinal, nada se alterar: 
eu dono de quase tudo e ele dono do resto, do que a gente chama Pátria ignorando o que é a Pátria, chama História ignorando o que é a História, ou chama egrégios avós ignorando o que são egrégios e avós […] (ND, 418) 
Recorde-se, a este propósito, o descrédito e a caoticidade em que é colocada a revolução de Abril em Fado Alexandrino. Nesse romance, como em As Naus, a revolução é vista como um naufrágio (cf. Carvalho, 2014:99). A mudança é, pois, aparente ou, como se diz em À la Recherche du Temps Perdu, “A única coisa que não muda é que parece sempre que existe «alguma coisa que mudou em França»”. (Proust, 2003: 95) Este nihil novi sub sole (Eclesiastes, 1, 10), que faz parte da mundividência antuniana, torna difícil discernir como pode o mundo mover-se de facto, pois se o mundo devia ser feito da natureza ou da matéria dos sonhos, não é somenos verdade que é nos meandros do poder que se decide o curso dos acontecimentos. No romance de Lobo Antunes, a casa de Cascais é o epicentro dessas decisões (lugar a partir do qual todos os negócios se movem para que nada se mova), tendo na livraria situada no centro da vila (e que pode encontrar na “Livraria Galileu” um elemento referencial, onde a cave se destaca como lugar imagético, tão relevante quanto o sótão na obra deste autor) o seu contraponto, precisamente por nela nada se decidir.

A discussão sobre os deuses, levada a cabo em Da Natureza dos Deuses, de Túlio Cícero, perspectiva-se eterna. Se Balbo acredita que tudo tem uma ordem precisa, que nada há de fortuito, porque tudo depende dos deuses (Cícero, 2004:85), a discussão prossegue em Lobo Antunes, dado que, hoje, o lugar dos deuses mortos é ocupado por novos deuses: os homens que, tendo o governo dos seus iguais, não se julgam feitos da natureza humana (mesmo que esta seja a natureza do que muda). Todavia, a assunção de que nada muda não é definitiva na obra de António Lobo Antunes. Efectivamente, mesmo que o poder se estabeleça e perdure, o romance antuniano vem garantindo que (recordando a frase atribuída a Galileu no século XVII) «eppur si muove».

Ora no romance Da Natureza dos Deuses a mudança principia precisamente no lugar mais improvável, a livraria, pois esta representa a apologia do hermético, quer devido às chaves “misteriosas, secretas” (que, no capítulo inicial, abrem a porta desse lugar, ND, 13), quer fruto das coisas, aparentemente proibidas, que aí se passam na cave. Essas chaves serão, mutatis mutandis, as “chaves” de que necessita o leitor do romance antuniano para decifrar o romance (SLC, 113), e que vêm com o próprio texto, significando este aspecto que o leitor tem de recusar a “sua chave”. Aqui, como na filosofia, o ponto de partida será a ignorância (Cícero, 2004: 19). 

A livraria será, em suma, um lugar compatível com a “magia da palavra” (é nela que Fátima se apercebe que o eixo da terra se move) que deveria mudar o mundo. A cave (lugar oposto ao topo onde se situa a casa do “dono do país”) representa o «conhecimento do inferno», um conhecimento para o qual parece já não existir lugar num mundo desencantado, dado que o saber (que reside nos livros) foi suplantado pelo poder.


III
A natureza da Obra 

Os livros são feitos da verdadeira matéria humana: os sonhos. Aqueles que sonham podem não mudar a História, sendo, não raras vezes, os que dela são vítimas (vítimas do poder másculo - como a empregada da livraria, que é violada, ou a Senhora, que é aprisionada no alto da casa -, do poder político - como o adjunto do senhor doutor -, da doença - como a cantora -, ou do desespero – como Marçal, o servente e, por vezes, duplo do senhor doutor porque este o obrigava a cumprir as suas obrigações conjugais com a Senhora). Essas dramatis personae não são as que participam da História, mas, antes, “da pequena história do dia-a-dia” (Seixo, 2002: 126), que é a que mais interessa na obra antuniana, de entre as quais se destaca o “sem abrigo”, que vemos errar incessantemente.

Ainda que não se dilucide a identidade desta personagem enigmática, que mantém um silêncio indecifrável, a sua indiferença para com todos os movimentos sociais torna-se numa ameaça ao estilo de vida dos deuses. Como um corte para com a narrativa, o misterioso é o incontrolável, pois a passividade dessa personagem parece ter laivos do transcendentalismo norte-americano, que encontramos em Thoreau. De resto, essa personagem que, na obra de Lobo Antunes, a par de outras marginalizadas (consubstanciadas na figura do palhaço pobre, cf. Carvalho, 2014: 174-176), adquire a predilecção dos narradores, surge logo no incipit do romance a dormir no degrau da livraria.

Esta personagem marginal liga-se à paródia, que é, em suma, a subversão imposta pelo próprio romance. Tecida de mistérios, a obra de arte tem um carácter enigmático, e por isso ela “macaqueia à maneira de um clown” (Adorno, 2008: 186). Como palhaço pobre, o “sem abrigo” toma banho nos chuveiros da praia e faz malabarismos com bolas. Desprovido de todo o tipo de bens materiais, sem acesso ao poder, circula em silêncio num mundo tenebroso de homens poderosos cujo único propósito parece ser enriquecer para ter poder e ter poder para enriquecer. Descomprometido e livre, sem desejos inconscientes de grupo (Deleuze e Guattari, 2004: 268), o “sem abrigo” recusa-se a aceitar o desejo de desejar ter poder. Ele não será um Deus ex machina, mas um homem que, não podendo intervir no curso da História, vai sendo mais humano. Esta expressão significará, de outro modo, mais próximo da natureza dos deuses.

Se é um anjo ou um deus, o que não se pode discernir por completo, o errante é (como o romance será) aquele que foge aos cânones estabelecidos (isto é, aos focos do poder). De facto, para além deste “sem abrigo” só o próprio romance (metonimicamente representado pela livraria, que, na cave, contém todos os livros de todos os temas) se move: Fátima, como “caixeira da livraria”, parte para a casa da Senhora carregada de livros, ainda que a Senhora, mais do que ler, procure alguém que a oiça em silêncio contemplativo. São, aliás, tantos os pacotes de livros que Fátima transporta para a casa de Cascais que esta parece ser invadida e ficar “cercada”. Esta situação alude à bibliomaquia que ameaça o poder, como se tudo fosse efémero, menos as grandes obras, que são as que se movem intemporalmente. Portanto, o sem abrigo (que não fala) e os livros (que a Senhora não lê enquanto Fátima não fala), parecem ser feitos de uma outra natureza, “da natureza do silêncio e do mistério”, veios de um texto que se move silenciosamente, ora revelando, ora ocultando-se, criando ruturas aparentemente imperceptíveis e sentidos frequentemente obscurecidos (vejam-se as palavras truncadas), talvez porque o próprio autor seja, tão-só, um mensageiro:
e aguentar o quê se a voz nem a si mesma obedece quanto mais a mim que a não fiz, não passo de um carteiro a entregar encomendas que não escrevi nem recebo, passaram-mas assim […] (ND, 532)  
Para muitos ficará, certamente, a proximidade deste romance de Lobo Antunes a factos conhecidos da vida nacional: referimo-nos, evidentemente, ao ocorrido com o Banco Espírito Santo. Todavia, é de referir que este romance, escrito antes desses acontecimentos, faz parte de uma Obra cuja mundividência tende a privilegiar a concepção do texto em relação ao mundo, pois é com palavras que o mundo se pode verbalizar (cf. Seixo et al., 2008:415 e ss). Assim, mesmo que não rejeite aspectos históricos, e com eles se conecte, anunciando que o sistema financeiro, político e social português faliu (como falira a República no tempo de Cícero), este romance (como parte de uma Obra) pretende, acima de tudo, transcender(-se) enquanto palavra que se move, isto é, que se renova a si mesma. O “romance de páginas de espelhos”, que António Lobo Antunes disse um dia projectar (LC, 52), seria aquele em que o leitor visse o passado, o presente e o futuro. A transcendência de uma Obra resulta, antes de mais, do facto de as grandes Obras serem “antecipação de um em-si que ainda não existe” (Adorno, 2003:124). É isso que as aproxima da natureza dos deuses.


Bibliografia:

ANTUNES, António Lobo, Da Natureza dos Deuses (ND) (provas gentilmente cedidas pelo autor e pela editora), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015. 
___________Livro de Crónicas (SLC) 9ª edição/edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2013 [1998]. 
___________Segundo Livro de Crónicas (SLC) 2ª edição/ 1ª edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [2002].
ADORNO, Theodor, Teoria Estética (trad. Artur Mourão do original Aesthetische Theorie), Lisboa, Edições 70, 2008.
CAMMAERT, Felipe, L’ Écriture de la Mémoire Dans L’Oeuvre d’António Lobo Antunes et de Claude Simon, Paris, L’Harmattan, 2009.
CARVALHO, Susana João, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Lisboa, Texto, 2014.
CÍCERO, Marco Túlio, Da Natureza dos Deuses (trad. e notas Pedro Braga Falcão) Lisboa, Nova Veja, 2004.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 [1972]. PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas Em Flor (Volume II de À Procura do Tempo Perdido), tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio D’ Água, 2003.
SEIXO, Maria Alzira, Os Romances de António Lobo Antunes, Lisboa, D. Quixote, 2002.
SEIXO, Maria Alzira, ABREU, Graça, CABRAL, Eunice, AFONSO, Maria Fernanda, SOUSA, Sérgio Guimarães de, e VIEIRA, Agripina Carriço, Dicionário da Obra de António Lobo Antunes(volume II), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.


por Norberto do Vale Cardoso
texto publicado na Revista Colóquio/Letras, n.º 190, Set. 2015, p. 131-135

[revisão segundo ortografia antes de AO90 por José Alexandre Ramos]

19 de setembro de 2015

El País - António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

El País - Entrevista de Javier Martín
19.09.2015

António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

foto de João Henriques
O eterno candidato português ao Nobel publica em Espanha Comissão das Lágrimas

Os livros devoram as paredes. "Já não cabem. Tenho de mudar-me para um andar ainda maior". E porque não retira alguns? "Nunca; a maior parte são muito maus, mas não posso. Tenho muito respeito pelos livros". A casa de António Lobo Antunes enche-se apenas com as traduções da sua trintena de livros. Há um professor canadiano especializado que escreve sobre a sua obra. Na Holanda, o seu último livro Caminho Como Uma Casa Em Chamas já vai na quarta edição. Agora em Espanha publica-se Comissão das Lágrimas, pela Random House, um retrado da condição humana, ambientada na guerra de libertação de Angola. Como em cada um dos seus livros, quando Lobo Antunes escreve, dói; e quando fala, também.

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa.
Não sou admirador de Pessoa.

Como assim!?!? O Livro do Desassossego... !
O livro do não sei o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Vergílio. Questiono-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.

Não há nada novo em Portugal?
Não se trata de um problema de Portugal ou de Espanha. O problema é que hoje não existem grandes escritores na Europa - na Irlanda, talvez -, mas não em Inglaterra ou em França, que no século passado tinha dois génios, Proust e Céline. No século XIX havia 20 ou 30 génios na Europa...

Nem sequer na América?
Na América latina, sim; nos Estados Unidos, não; ainda que goste de Cormac McCarthy. É um problema geral, basta ver os que ganharam os últimos prémios Nobel.

O senhor não.
Não, nunca o ganharei, ainda que me veja sempre no meio das apostas, como os cavalos. Ganhei quase todos os prémios, mas o que me interessa neles é o dinheiro.

Certo, como quando lhe comunicaram que tinha ganho o Juan Rulfo, respondeu: "Quanto é?"
Fui terrível. Anunciaram-me por vídeo conferência em directo [numa conferência de imprensa local]; e os jornalistas mexicanos partiram-se a rir. Foram cem mil euros.

E o prestígio do prémio não lhe interessa?
O prestígio são os escritores que dão ao prémio, não ao contrário.

Sendo psiquiatra, foi escritor tardio; até aos 37 anos, quando saiu Memória de Elefante (1979), nunca tinha publicado.
Ninguém me queria; nem em Portugal nem em parte alguma; mas um editor americano, que não leu o livro, publicou-o. Fez primeira página no The New York Times, no Los Angeles Times e no Washington Post e quando se tem estes jormais, tem-se o mundo. O primeiro que me chamou em Espanha foi Jacobo [Martínez de Irujo], da Siruela, com quem comecei a publicar. Passei semanas a escrever na sua casa do Ampurdán.

Aquele livro baseava-se nas suas experiências enquanto psiquiatra, Comissão das Lágrimas bebe do seu passado militar em Angola.
Não me interessa escrever romances de guerra por respeito aos mortos. Interessam-me as pessoas em circunstâncias extremas. Pensei em desertar quando lá estive, mas o meu capitão disse-me: "Não vás que a revolução se faz por dentro, não nos cafés de Paris".

E teve razão.
Sim, não há nada mais duro que uma guerra. Aos 18 anos decretei que viria a ser um génio, mas chegas à guerra e isso desaparece imediatamente; és apenas um entre muitos. Há duas coisas magníficas do espectáculo da guerra: a beleza da coragem física e, o mais horrível, a covardia. Após sessenta anos continuas a ter pesadelos por causa das coisas horrível em que participaste. O que me espanta é a ausência de culpabilidade, por que é tão fácil matar e morrer.

A crítica disse que Comissão das Lágrimas trata das torturas feitas a Virinha, a capitã do Movimento de Libertação de Angola.
Não se entendeu bem, na realidade é sobre a morte de Jonas Savimbi num atentado cometido pelos serviços de inteligência portuguesa, israelita e norte-americano que o localizaram pelo telefone móvel.

Era uma vida sempre em alerta.
Quase sempre. Quando jogava o Benfica, escutávamos os jogos na rádio e orientávamos os altifalantes do quartel para o exterior. Durante 90 minutos não faziam nem um tiro. Os guerrilheiros eram do Benfica, como nós.

É do Benfica?
E do Atlético de Madrid, duas equipas do povo. Estou muito contente de tenha voltado El Niño. Já não é o que era, mas demonstrou ser um homem de palavra, que é coisa rara entre os homens.

Compromisso, coragem, covardia... Fixa-se muito nos valores básicos das pessoas.
E a honestidade. O escritor tem que ser honesto. Mario Vargas Llosa, por exemplo, é um escritor honesto e um prémio Nobel merecido. Dizia Frank Sinatra: "Posso ser um canalha, posso ser mafioso, mas quando canto sou completamente honesto".

Gosta muito de música.
Gosto muito, mas já não ouço os agudos, não ouço os violinos.

Diga-me que gosta do fado.
Não me interessa muito. Depois de ouvir dois torna-se monótono.

E o flamengo?
Ah!, isso sim, muitíssimo. Aquela sensualidade, aquela beleza; Jacobo [Martínez de Irujo] costumava chamar-me quando descobria um novo cantor para que fôssemos ouvi-lo juntos. Aprendi mais com alguns saxofonistas de jazz como John Coltrane ou Charlie Parker do que com escritores.

Aprendeu o quê?
O frasear, a musicalidade do frasear. Ao fim e ao cabo sou um ladrão, um homem que procura coisas no lixo. Os meus livros nascem do lixo.

E não encontrou um livro que lhe tenha mudado a vida?
Sim, quando jovem, não sei como, caiu-me nas mãos Nueve Novísimos Poetas Españoles (José María Castellet, 1970). Li-o e percedi que não podia continuar a escrever a merda que escrevia. Cada um dos nove era melhor que eu. Como poderia comparar-me a Oda a la Venecia ante el Mar de los Teatros de Pere Gimferrer?

E hoje, que livro salvaria da sua obra?
Nunca falo dos livros que acabei. Não leio as provas nem o que é publicado. Quando os entrego, esqueço-os. Acabou-se. Não pense mal de mim, mas orgulho-me da minha obra.

Não lê as críticas?
Eu sei o que escrevo. Não preciso de lê-las. Nem as de Harold Bloom, ainda que nesse sentido acho mais importante Steiner, o maior génio que existe. Sabe que em casa tem o piano de Darwin? É frequente confundir os nossos gostos com as nossas paixões. Borges é bom, mas não gosto; Roberto Bolaño é bom, mas não compreendo o fenómeno, talvez seja porque morreu jovem, talvez não goste porque o conheci. É esse o problema da crítica. Se coincide com os teus gostos, é bom; se não, é mau.

Escreveu trinta livros em trinta e sete anos. Não vai parar?
Que posso fazer? Quando não escrevo não me sinto bem, sinto uma angústia; uma coisa física difícil de explicar. Tenho a impressão que fui feito para escrever.


19.09.2015
texto de Javier Martín

traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz
foto de João Henriques - fonte: site do El País
capa da edição em castelhano de Comissão das Lágrimas, Random House, 2015

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