16 de outubro de 2015

Premiada tradução em francês de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar, por Dominique Nedellec

Gulbenkian de Paris entrega prémio a tradução francesa de obra de António Lobo Antunes

A tradução francesa do livro "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?", de António Lobo Antunes, foi hoje distinguida, em Paris, com o Prix Gulbenkian Books da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta foi a primeira edição do prémio que distingue a melhor tradução de português para francês de uma obra de literatura em língua portuguesa, publicada em França nos últimos dois anos, sendo atribuído em parceria com a revista literária Books.

Dominique Dedellec
O júri decidiu distinguir Dominique Nedellec, o autor da tradução "Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer", editada em 2014 pela Christian Bourgois Éditeur, pelo "brio com que recriou em francês a prosa tão densa e sinuosa de Lobo Antunes, a sobreposição de vozes, as palavras e os pensamentos das suas personagens torturadas", declarou Suzi Vieira, membro do júri, durante o anúncio do prémio.

"Esta tradução, que considerámos admiravelmente fiel, conseguiu recriar a polifonia do romance e também o ritmo e estrutura musical em que se baseia a arquitectura da sua obra", justificou a porta-voz do júri, também jornalista na revista Books.

Dominique Nedellec, que acaba de entregar a sua quinta tradução de um livro de Lobo Antunes à sua editora, disse à Lusa que o prémio é "um incentivo para continuar a trabalhar em prol da genialidade da língua portuguesa e, neste caso, da genialidade de um autor único", sendo também "uma marca de reconhecimento do trabalho que mostra que as pessoas estão atentas" ao que fazem os tradutores "na sombra".

"Traduzir Lobo Antunes exige da parte do tradutor esquecer as referências de leitura que cada um de nós tem para se introduzir no universo e na língua dele, porque ele está a escrever numa língua que não é a língua canónica, que não é a língua normal. Ele está a criar uma língua muito pessoal, sui generis, muito peculiar. O meu objectivo é recriar na minha língua, o francês, a mesma estranheza, a mesma violência que ele introduz na língua portuguesa", acrescentou Dominique Nedellec que também já traduziu para francês várias obras de Gonçalo M. Tavares e de outros autores de língua portuguesa como Alice Vieira, José Jorge Letria ou Ondjaki.

[...]

O júri era composto por personalidades portuguesas e francesas do mundo académico e literário, nomeadamente o poeta Nuno Júdice, a escritora francesa Maylis de Kérangal, a professora associada da Université de Paris-Sorbonne Paris IV Maria-Benedita Basto, o titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade Paris Ouest-Nanterre José Manuel Esteves, o ensaísta alemão Sébastien Lapaque, a especialista em literatura lusófona Jacqueline Penjon e a jornalista da revista Books Suzi Vieira.

O objectivo do prémio Gulbenkian Books, no valor de 10.000 euros a dividir entre o editor e o tradutor, é promover a tradução de obras de língua portuguesa em França.

A iniciativa deverá repetir-se de dois em dois anos e o seu lançamento insere-se no programa do cinquentenário da Gulbenkian de Paris, o qual vai ter como pontos altos uma retrospectiva, no Grand Palais, da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, entre Abril e Julho de 2016, e uma mostra sobre os últimos 50 anos da Arquitectura Portuguesa, na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, de Abril a Agosto do próximo ano.


LUSA
15.10.2015
citado de SAPO Notícias
revisão do texto por José Alexandre Ramos

9 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso: António Lobo Antunes - Da Natureza do escritor

[...] a velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que digo continua a acontecer [...]
António Lobo Antunes, in Da Natureza Dos Deuses

Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela - enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram - que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efectivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de "conhecer a língua no exterior do poder", de exercer sobre a língua um "trabalho de deslocação", diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de "trapacear a língua", e não do comprometimento político nem do conteúdo doutrinal, que depende a liberdade da criação. E António Lobo Antunes (ALA) é, acima de tudo, um escritor de sensibilidades comprometido com a natureza mágica da palavra.

A sedução exercida pela obra de ALA reside, em parte, na constante busca do novo sem que este seja um fim em si mesmo, mas um processo continuado. E este livro não é excepção, prosseguindo um trabalho quer de reiteração quer de inovação da palavra, da frase e da narrativa tradicional para criar um novo romance (vejam-se, a este nível, os intricados, tais como: "não pronta a proteger-, palram pega e papagaio,-me, pronta a proteger o meu dinheiro", De Natura Deorum - ND -, p. 523). A reiteração é só aparente, pois a insistência temática é um modo de interpelar o leitor e de transfigurar o que foi dito.

Trata-se de uma transfiguração do mundo através do acesso à palavra (sublinhe-se aqui a importância das chaves "misteriosas, secretas", que, no capítulo inicial, abrem a livraria, em Cascais, e das coisas, inconfessáveis, que se passam na cave desse lugar), sendo esta compatível com o modo, quase autónomo, como as personagens se movem dentro da obra, contando ou escrevendo a sua versão dos acontecimentos, e, em simultâneo, movendo (e movendo-se) (n)o tempo como se este fosse uma teia única, ainda que com distintas texturas que se entretecem. 

Como dizia Marcel Proust (À Procura do Tempo Perdido II: À Sombra das Raparigas Em Flor, Relógio D'Água, 2003, pp. 191 e 225), "o tempo de que dispomos em cada dia é elástico", sendo a vida "pouco cronológica". Este conceito em tudo se conecta com a citação que usamos em epígrafe, pois na obra de ALA não devemos considerar a existência propriamente dita de um passado, antes de um presente em que tudo "continua a acontecer", ou seja, de um presente que congrega todos os passados, tantos quantas as versões que deles podemos fazer. 

Esta vivência pessoal e íntima do tempo é estruturante nos seus romances, e vem chocar com o tempo socialmente imposto, pois o tempo é uma construção do poder e a língua desloca-se no seu exterior. Portanto, ganha aqui assentimento cotejar a passagem de Proust com a de ALA por um segundo motivo: a velhice, condição que faz parte da natureza humana, consiste, não no facto de nos roubarem o futuro, mas em "terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram, a casa onde nasci desapareceu, nem um objecto me ficou na memória" (ND, p. 465).

Eis-nos no cerne de Da Natureza Dos Deuses, livro denso (580 páginas, quatro partes, 37 capítulos), em que a densidade do poder se assemelha à densidade dos deuses, que impõem a (sua) estabilidade como suposta condição para a estabilidade social. A sustentação dos novos deuses passará, precisamente, por apagar, alterar ou roubar o passado. Lembre-se que George Orwell (in 1984, Antígona, 2012, p. 213) falava na "alteração do passado", que entendia ser "possível" por um "sistema de pensamento" designado "pela palavra duplopensar." Esta consiste na crença e aceitação simultânea de duas ideias, ainda que contraditórias. De facto, as personagens deste novo romance de ALA, mas também, por exemplo, as de Fado Alexandrino ou de As Naus, sentem que algo de muito precioso e irresgatável lhes foi roubado: o tempo. 

A sensação de perda é, pois, irresgatável e, na sua obra, nunca é colmatada por qualquer ganho, seja ele de que espécie for. Lobo Antunes vem, assim, abrindo novos paradigmas, que, em suma, se consubstanciam na ideia de que os portugueses têm sido amputados de um passado, o que coloca em causa a passagem da ditadura para a democracia e, em último plano, a possibilidade de um futuro. Na verdade, neste ND, sucessor de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014), são dois os donos de Portugal, e são eles que tudo decidem pelos portugueses, que são "os palhaços" desses senhores, com especial destaque para "o senhor doutor", herdeiro do poder da Banca:

"[...] ele o dono dos bancos, das companhias, das empresas, das fábricas, ele o dono de tudo e eu um palhaço entre tantos palhaços, dúzias de palhaços à sua volta nos jantares, no escritório, na casa, [...]" ( p. 217)

Só a personagem do "sem abrigo" parece colocar algo em causa, o que pode parecer absurdo, sobretudo se considerarmos que esta personagem está destituída de todo o tipo de bens materiais e, ainda, de relações que lhe dêem acesso ao poder. Mais do que isso: o "sem abrigo" não fala nem intervém em quaisquer dos núcleos narrativos. No entanto, esta personagem prefigura-se, ela própria, como o núcleo da narrativa, pois é em torno dela que se adensa o mistério (não se conhece a sua identidade), o silêncio (não fala nem dialoga) e a imutabilidade das coisas (não parece mudar). Errando por todo o lado, é visto de diferentes maneiras sob distintos olhares. Para uns não passa disso mesmo, de um simples sem abrigo, havendo outros que conjecturam que pode tratar-se de uma entidade celeste, o que lhe daria uma natureza divina:

"[...] entretido a espalmar a rolha na garrafa glorificando o Altíssimo, a voar às curvetas, com o seu disfarce de pedinte, na direcção do mar onde Cristo caminha, relacionada com Cristo uma outra questão se foi formando em mim acerca do sem abrigo, seria ele Jesus [...]" (p. 335)

Nesse sentido, o sem abrigo, que caminha em direção ao mar, parece ter algo da natureza dos deuses, o que vem contrapor-se aos que se julgam como tal, e que pretendem evitar a todo o custo que o seu poder naufrague. Amputado de História, o sem abrigo, como uma espécie de náufrago ou anjo caído, vive a pequenez do seu dia a dia sobrevivendo, dormindo no umbral da livraria (acesso, porventura inacessível, ao conhecimento, questionando-se aqui o poder dos livros, que saem da cave da livraria para cercar a casa do "senhor doutor"), indiferente ao que se passa no seu país. Ele será um palhaço pobre que viu transformada a utopia de navegar (a revolução do 25 de Abril) em sua própria distopia, e que considera a democracia com indiferença e desesperança, devido ao descrédito para com poder político, que se encontra submetido ao económico, cujo centro é uma casa "empoleirada" num "alto" (o novo Olimpo). 

Se nada muda neste país, António Lobo Antunes é um cicerone daquilo "que constantemente muda" (crónica "Adeus", in Visão, 18.10.2012): a natureza do romance como um caminho perceptível para resgatar o passado perdido e/ ou "roubado" e para, através dele, imaginar outra natureza para as coisas e para os sonhos. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras
publicado on-line em 07.10.2015

2 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso disserta sobre Da Natureza Dos Deuses

[texto publicado originalmente na Colóquio de Letras nº 190 de Setembro de 2015 e citado integralmente aqui por cortesia de Norberto do Vale Cardoso]

E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses


O espectro da continuidade 
Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida.
(Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.) 
Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral (conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas, sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sente esse movimento com espanto, o que lhe exige uma atitude de indagação do mundo. É isso que sucede com a leitura de Da Natureza dos Deuses, 26º sexto romance de António Lobo Antunes, que gera no leitor sentimentos ambivalentes, entre a sedução e a perturbação.

Neste romance o tempo parece suspenso, sujeito ao poder opressivo da política e do capitalismo dominantes. Esse tempo, que se assegura necessário para o estabelecimento de uma suposta ordem natural das coisas (sempre invertida na obra antuniana) é, na verdade, um constructo que visa criar uma inamovilidade aristotélicado mundo. Assim, os novos deuses exercem um domínio tacitamente aceite sobre quem os serve, por um lado porque os detentores do poder se julgam acima dos seus iguais e incólumes à passagem do tempo, e, por outro lado, porque os que carecem de poder, de recursos e de mecanismos para colocar em causa a ordem estabelecida, são impulsionados a aceitá-la e a ela se juntarem, abdicando, sem razão válida, dos seus sonhos: “porque motivo aceitamos ser palhaços dos homens, a rirmo-nos do que não tem graça e a acharmos fascinante, […]” (ND, 147). 

Neste romance não parece, pois, desenhar-se qualquer saída revolucionária (aliás in-existente na obra antuniana), vislumbrando-se, antes um espectro de continuidade.

II
O epicentro da mudança

Baseado no título homónimo da obra de Cícero, De natura deorum (45 a.C.), algumas das acções deste novo romance de António Lobo Antunes decorrem numa casa “empoleirada” num “alto”, onde se destaca a estátua de Vénus (símbolo do perene e do poder). O dono da casa, conhecido como “o senhor doutor”, vai “degolando gente pela vida fora”, o que o dota de um poder incontestável. A partir desse olimpo, “o senhor doutor” vai “dirigindo os palhaços e os maridos dos palhaços, o duque inglês, os alemães cada vez mais numerosos” (ND, 156). Aí se reúne com os seus “súbditos” (assessores, amantes e gente influente, que formam “ramalhetes sociais” (Proust, 2003: 99), ou seja, gente heterogénea) em torno de um jogo de ténis (que, como o campo de tourada em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, representa a arena moderna, onde a força não se liga à “raça”, mas àquele que tem o dinheiro para ter a força ou que tem a força para ter o dinheiro: veja-se a chantagem sobre o parceiro de jogo, que é ameaçado com o desterro para a província). Estes encontros provam que não há, neste tempo (as acções centrais decorrem durante o Estado Novo), ninguém livre, e que o Estado resulta da confluência dos poderes político e económico (Deleuze e Guattari, 2004: 276).

Dono de bancos, quintas, casas com piscinas e minas de volfrâmio, colecionador de automóveis, com contas em offshores, o “sevandija” (ND, 320) visita, aos domingos, “o senhor presidente” (alusão aos encontros entre o líder do clã Espírito Santo e Salazar), num colóquio entre aqueles que “mandam em Portugal” (ND, 207). Esse (geo)poder, indiferente à História porque se considera a si próprio «a História», representa as forças que se movem para, afinal, nada se alterar: 
eu dono de quase tudo e ele dono do resto, do que a gente chama Pátria ignorando o que é a Pátria, chama História ignorando o que é a História, ou chama egrégios avós ignorando o que são egrégios e avós […] (ND, 418) 
Recorde-se, a este propósito, o descrédito e a caoticidade em que é colocada a revolução de Abril em Fado Alexandrino. Nesse romance, como em As Naus, a revolução é vista como um naufrágio (cf. Carvalho, 2014:99). A mudança é, pois, aparente ou, como se diz em À la Recherche du Temps Perdu, “A única coisa que não muda é que parece sempre que existe «alguma coisa que mudou em França»”. (Proust, 2003: 95) Este nihil novi sub sole (Eclesiastes, 1, 10), que faz parte da mundividência antuniana, torna difícil discernir como pode o mundo mover-se de facto, pois se o mundo devia ser feito da natureza ou da matéria dos sonhos, não é somenos verdade que é nos meandros do poder que se decide o curso dos acontecimentos. No romance de Lobo Antunes, a casa de Cascais é o epicentro dessas decisões (lugar a partir do qual todos os negócios se movem para que nada se mova), tendo na livraria situada no centro da vila (e que pode encontrar na “Livraria Galileu” um elemento referencial, onde a cave se destaca como lugar imagético, tão relevante quanto o sótão na obra deste autor) o seu contraponto, precisamente por nela nada se decidir.

A discussão sobre os deuses, levada a cabo em Da Natureza dos Deuses, de Túlio Cícero, perspectiva-se eterna. Se Balbo acredita que tudo tem uma ordem precisa, que nada há de fortuito, porque tudo depende dos deuses (Cícero, 2004:85), a discussão prossegue em Lobo Antunes, dado que, hoje, o lugar dos deuses mortos é ocupado por novos deuses: os homens que, tendo o governo dos seus iguais, não se julgam feitos da natureza humana (mesmo que esta seja a natureza do que muda). Todavia, a assunção de que nada muda não é definitiva na obra de António Lobo Antunes. Efectivamente, mesmo que o poder se estabeleça e perdure, o romance antuniano vem garantindo que (recordando a frase atribuída a Galileu no século XVII) «eppur si muove».

Ora no romance Da Natureza dos Deuses a mudança principia precisamente no lugar mais improvável, a livraria, pois esta representa a apologia do hermético, quer devido às chaves “misteriosas, secretas” (que, no capítulo inicial, abrem a porta desse lugar, ND, 13), quer fruto das coisas, aparentemente proibidas, que aí se passam na cave. Essas chaves serão, mutatis mutandis, as “chaves” de que necessita o leitor do romance antuniano para decifrar o romance (SLC, 113), e que vêm com o próprio texto, significando este aspecto que o leitor tem de recusar a “sua chave”. Aqui, como na filosofia, o ponto de partida será a ignorância (Cícero, 2004: 19). 

A livraria será, em suma, um lugar compatível com a “magia da palavra” (é nela que Fátima se apercebe que o eixo da terra se move) que deveria mudar o mundo. A cave (lugar oposto ao topo onde se situa a casa do “dono do país”) representa o «conhecimento do inferno», um conhecimento para o qual parece já não existir lugar num mundo desencantado, dado que o saber (que reside nos livros) foi suplantado pelo poder.


III
A natureza da Obra 

Os livros são feitos da verdadeira matéria humana: os sonhos. Aqueles que sonham podem não mudar a História, sendo, não raras vezes, os que dela são vítimas (vítimas do poder másculo - como a empregada da livraria, que é violada, ou a Senhora, que é aprisionada no alto da casa -, do poder político - como o adjunto do senhor doutor -, da doença - como a cantora -, ou do desespero – como Marçal, o servente e, por vezes, duplo do senhor doutor porque este o obrigava a cumprir as suas obrigações conjugais com a Senhora). Essas dramatis personae não são as que participam da História, mas, antes, “da pequena história do dia-a-dia” (Seixo, 2002: 126), que é a que mais interessa na obra antuniana, de entre as quais se destaca o “sem abrigo”, que vemos errar incessantemente.

Ainda que não se dilucide a identidade desta personagem enigmática, que mantém um silêncio indecifrável, a sua indiferença para com todos os movimentos sociais torna-se numa ameaça ao estilo de vida dos deuses. Como um corte para com a narrativa, o misterioso é o incontrolável, pois a passividade dessa personagem parece ter laivos do transcendentalismo norte-americano, que encontramos em Thoreau. De resto, essa personagem que, na obra de Lobo Antunes, a par de outras marginalizadas (consubstanciadas na figura do palhaço pobre, cf. Carvalho, 2014: 174-176), adquire a predilecção dos narradores, surge logo no incipit do romance a dormir no degrau da livraria.

Esta personagem marginal liga-se à paródia, que é, em suma, a subversão imposta pelo próprio romance. Tecida de mistérios, a obra de arte tem um carácter enigmático, e por isso ela “macaqueia à maneira de um clown” (Adorno, 2008: 186). Como palhaço pobre, o “sem abrigo” toma banho nos chuveiros da praia e faz malabarismos com bolas. Desprovido de todo o tipo de bens materiais, sem acesso ao poder, circula em silêncio num mundo tenebroso de homens poderosos cujo único propósito parece ser enriquecer para ter poder e ter poder para enriquecer. Descomprometido e livre, sem desejos inconscientes de grupo (Deleuze e Guattari, 2004: 268), o “sem abrigo” recusa-se a aceitar o desejo de desejar ter poder. Ele não será um Deus ex machina, mas um homem que, não podendo intervir no curso da História, vai sendo mais humano. Esta expressão significará, de outro modo, mais próximo da natureza dos deuses.

Se é um anjo ou um deus, o que não se pode discernir por completo, o errante é (como o romance será) aquele que foge aos cânones estabelecidos (isto é, aos focos do poder). De facto, para além deste “sem abrigo” só o próprio romance (metonimicamente representado pela livraria, que, na cave, contém todos os livros de todos os temas) se move: Fátima, como “caixeira da livraria”, parte para a casa da Senhora carregada de livros, ainda que a Senhora, mais do que ler, procure alguém que a oiça em silêncio contemplativo. São, aliás, tantos os pacotes de livros que Fátima transporta para a casa de Cascais que esta parece ser invadida e ficar “cercada”. Esta situação alude à bibliomaquia que ameaça o poder, como se tudo fosse efémero, menos as grandes obras, que são as que se movem intemporalmente. Portanto, o sem abrigo (que não fala) e os livros (que a Senhora não lê enquanto Fátima não fala), parecem ser feitos de uma outra natureza, “da natureza do silêncio e do mistério”, veios de um texto que se move silenciosamente, ora revelando, ora ocultando-se, criando ruturas aparentemente imperceptíveis e sentidos frequentemente obscurecidos (vejam-se as palavras truncadas), talvez porque o próprio autor seja, tão-só, um mensageiro:
e aguentar o quê se a voz nem a si mesma obedece quanto mais a mim que a não fiz, não passo de um carteiro a entregar encomendas que não escrevi nem recebo, passaram-mas assim […] (ND, 532)  
Para muitos ficará, certamente, a proximidade deste romance de Lobo Antunes a factos conhecidos da vida nacional: referimo-nos, evidentemente, ao ocorrido com o Banco Espírito Santo. Todavia, é de referir que este romance, escrito antes desses acontecimentos, faz parte de uma Obra cuja mundividência tende a privilegiar a concepção do texto em relação ao mundo, pois é com palavras que o mundo se pode verbalizar (cf. Seixo et al., 2008:415 e ss). Assim, mesmo que não rejeite aspectos históricos, e com eles se conecte, anunciando que o sistema financeiro, político e social português faliu (como falira a República no tempo de Cícero), este romance (como parte de uma Obra) pretende, acima de tudo, transcender(-se) enquanto palavra que se move, isto é, que se renova a si mesma. O “romance de páginas de espelhos”, que António Lobo Antunes disse um dia projectar (LC, 52), seria aquele em que o leitor visse o passado, o presente e o futuro. A transcendência de uma Obra resulta, antes de mais, do facto de as grandes Obras serem “antecipação de um em-si que ainda não existe” (Adorno, 2003:124). É isso que as aproxima da natureza dos deuses.


Bibliografia:

ANTUNES, António Lobo, Da Natureza dos Deuses (ND) (provas gentilmente cedidas pelo autor e pela editora), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015. 
___________Livro de Crónicas (SLC) 9ª edição/edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2013 [1998]. 
___________Segundo Livro de Crónicas (SLC) 2ª edição/ 1ª edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [2002].
ADORNO, Theodor, Teoria Estética (trad. Artur Mourão do original Aesthetische Theorie), Lisboa, Edições 70, 2008.
CAMMAERT, Felipe, L’ Écriture de la Mémoire Dans L’Oeuvre d’António Lobo Antunes et de Claude Simon, Paris, L’Harmattan, 2009.
CARVALHO, Susana João, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Lisboa, Texto, 2014.
CÍCERO, Marco Túlio, Da Natureza dos Deuses (trad. e notas Pedro Braga Falcão) Lisboa, Nova Veja, 2004.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 [1972]. PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas Em Flor (Volume II de À Procura do Tempo Perdido), tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio D’ Água, 2003.
SEIXO, Maria Alzira, Os Romances de António Lobo Antunes, Lisboa, D. Quixote, 2002.
SEIXO, Maria Alzira, ABREU, Graça, CABRAL, Eunice, AFONSO, Maria Fernanda, SOUSA, Sérgio Guimarães de, e VIEIRA, Agripina Carriço, Dicionário da Obra de António Lobo Antunes(volume II), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.


por Norberto do Vale Cardoso
texto publicado na Revista Colóquio/Letras, n.º 190, Set. 2015, p. 131-135

[revisão segundo ortografia antes de AO90 por José Alexandre Ramos]

19 de setembro de 2015

El País - António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

El País - Entrevista de Javier Martín
19.09.2015

António Lobo Antunes: «Os meus livros nascem do lixo»

foto de João Henriques
O eterno candidato português ao Nobel publica em Espanha Comissão das Lágrimas

Os livros devoram as paredes. "Já não cabem. Tenho de mudar-me para um andar ainda maior". E porque não retira alguns? "Nunca; a maior parte são muito maus, mas não posso. Tenho muito respeito pelos livros". A casa de António Lobo Antunes enche-se apenas com as traduções da sua trintena de livros. Há um professor canadiano especializado que escreve sobre a sua obra. Na Holanda, o seu último livro Caminho Como Uma Casa Em Chamas já vai na quarta edição. Agora em Espanha publica-se Comissão das Lágrimas, pela Random House, um retrado da condição humana, ambientada na guerra de libertação de Angola. Como em cada um dos seus livros, quando Lobo Antunes escreve, dói; e quando fala, também.

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa.
Não sou admirador de Pessoa.

Como assim!?!? O Livro do Desassossego... !
O livro do não sei o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Vergílio. Questiono-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.

Não há nada novo em Portugal?
Não se trata de um problema de Portugal ou de Espanha. O problema é que hoje não existem grandes escritores na Europa - na Irlanda, talvez -, mas não em Inglaterra ou em França, que no século passado tinha dois génios, Proust e Céline. No século XIX havia 20 ou 30 génios na Europa...

Nem sequer na América?
Na América latina, sim; nos Estados Unidos, não; ainda que goste de Cormac McCarthy. É um problema geral, basta ver os que ganharam os últimos prémios Nobel.

O senhor não.
Não, nunca o ganharei, ainda que me veja sempre no meio das apostas, como os cavalos. Ganhei quase todos os prémios, mas o que me interessa neles é o dinheiro.

Certo, como quando lhe comunicaram que tinha ganho o Juan Rulfo, respondeu: "Quanto é?"
Fui terrível. Anunciaram-me por vídeo conferência em directo [numa conferência de imprensa local]; e os jornalistas mexicanos partiram-se a rir. Foram cem mil euros.

E o prestígio do prémio não lhe interessa?
O prestígio são os escritores que dão ao prémio, não ao contrário.

Sendo psiquiatra, foi escritor tardio; até aos 37 anos, quando saiu Memória de Elefante (1979), nunca tinha publicado.
Ninguém me queria; nem em Portugal nem em parte alguma; mas um editor americano, que não leu o livro, publicou-o. Fez primeira página no The New York Times, no Los Angeles Times e no Washington Post e quando se tem estes jormais, tem-se o mundo. O primeiro que me chamou em Espanha foi Jacobo [Martínez de Irujo], da Siruela, com quem comecei a publicar. Passei semanas a escrever na sua casa do Ampurdán.

Aquele livro baseava-se nas suas experiências enquanto psiquiatra, Comissão das Lágrimas bebe do seu passado militar em Angola.
Não me interessa escrever romances de guerra por respeito aos mortos. Interessam-me as pessoas em circunstâncias extremas. Pensei em desertar quando lá estive, mas o meu capitão disse-me: "Não vás que a revolução se faz por dentro, não nos cafés de Paris".

E teve razão.
Sim, não há nada mais duro que uma guerra. Aos 18 anos decretei que viria a ser um génio, mas chegas à guerra e isso desaparece imediatamente; és apenas um entre muitos. Há duas coisas magníficas do espectáculo da guerra: a beleza da coragem física e, o mais horrível, a covardia. Após sessenta anos continuas a ter pesadelos por causa das coisas horrível em que participaste. O que me espanta é a ausência de culpabilidade, por que é tão fácil matar e morrer.

A crítica disse que Comissão das Lágrimas trata das torturas feitas a Virinha, a capitã do Movimento de Libertação de Angola.
Não se entendeu bem, na realidade é sobre a morte de Jonas Savimbi num atentado cometido pelos serviços de inteligência portuguesa, israelita e norte-americano que o localizaram pelo telefone móvel.

Era uma vida sempre em alerta.
Quase sempre. Quando jogava o Benfica, escutávamos os jogos na rádio e orientávamos os altifalantes do quartel para o exterior. Durante 90 minutos não faziam nem um tiro. Os guerrilheiros eram do Benfica, como nós.

É do Benfica?
E do Atlético de Madrid, duas equipas do povo. Estou muito contente de tenha voltado El Niño. Já não é o que era, mas demonstrou ser um homem de palavra, que é coisa rara entre os homens.

Compromisso, coragem, covardia... Fixa-se muito nos valores básicos das pessoas.
E a honestidade. O escritor tem que ser honesto. Mario Vargas Llosa, por exemplo, é um escritor honesto e um prémio Nobel merecido. Dizia Frank Sinatra: "Posso ser um canalha, posso ser mafioso, mas quando canto sou completamente honesto".

Gosta muito de música.
Gosto muito, mas já não ouço os agudos, não ouço os violinos.

Diga-me que gosta do fado.
Não me interessa muito. Depois de ouvir dois torna-se monótono.

E o flamengo?
Ah!, isso sim, muitíssimo. Aquela sensualidade, aquela beleza; Jacobo [Martínez de Irujo] costumava chamar-me quando descobria um novo cantor para que fôssemos ouvi-lo juntos. Aprendi mais com alguns saxofonistas de jazz como John Coltrane ou Charlie Parker do que com escritores.

Aprendeu o quê?
O frasear, a musicalidade do frasear. Ao fim e ao cabo sou um ladrão, um homem que procura coisas no lixo. Os meus livros nascem do lixo.

E não encontrou um livro que lhe tenha mudado a vida?
Sim, quando jovem, não sei como, caiu-me nas mãos Nueve Novísimos Poetas Españoles (José María Castellet, 1970). Li-o e percedi que não podia continuar a escrever a merda que escrevia. Cada um dos nove era melhor que eu. Como poderia comparar-me a Oda a la Venecia ante el Mar de los Teatros de Pere Gimferrer?

E hoje, que livro salvaria da sua obra?
Nunca falo dos livros que acabei. Não leio as provas nem o que é publicado. Quando os entrego, esqueço-os. Acabou-se. Não pense mal de mim, mas orgulho-me da minha obra.

Não lê as críticas?
Eu sei o que escrevo. Não preciso de lê-las. Nem as de Harold Bloom, ainda que nesse sentido acho mais importante Steiner, o maior génio que existe. Sabe que em casa tem o piano de Darwin? É frequente confundir os nossos gostos com as nossas paixões. Borges é bom, mas não gosto; Roberto Bolaño é bom, mas não compreendo o fenómeno, talvez seja porque morreu jovem, talvez não goste porque o conheci. É esse o problema da crítica. Se coincide com os teus gostos, é bom; se não, é mau.

Escreveu trinta livros em trinta e sete anos. Não vai parar?
Que posso fazer? Quando não escrevo não me sinto bem, sinto uma angústia; uma coisa física difícil de explicar. Tenho a impressão que fui feito para escrever.


19.09.2015
texto de Javier Martín

traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz
foto de João Henriques - fonte: site do El País
capa da edição em castelhano de Comissão das Lágrimas, Random House, 2015

14 de setembro de 2015

5 de setembro de 2015

"Portugueses estão a ser tratados como cães", afirma António Lobo Antunes - Esquerda.net

Durante a apresentação do livro Las Cosas de la Vida, que reúne alguns dos seus textos, o escritor português lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Nove anos após ter sido distinguido com o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso, atribuído pela Universidade de Talca, no Chile, António Lobo Antunes recebeu esta quinta-feira das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, que reúne algumas das suas crónicas.

Na cerimónia, que teve lugar no Instituto Cervantes, em Lisboa, o escritor português criticou os últimos anos de governação da maioria de direita, salientando que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a ser tratados como cães". "São os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", acrescentou.

Assinalando a importância que as principais figuras da cultura da América Latina, como Juan Rulfo, tiveram na sua formação e no prazer da leitura, lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Lobo Antunes foi o primeiro escritor europeu a receber este prestigiado prémio literário que tem o nome de um dos mais importantes romancistas chilenos do século XX.

O júri, que escolheu o escritor por unanimidade, destacou a sua “crítica forte à identidade portuguesa, não isenta, no entanto, de amor ao país”, bem como a sua capacidade de captar “com profundidade e originalidade o papel das culturas periféricas no mundo contemporâneo”.

Foram ainda assinaladas “a grande variedade de temas, linguagens e estruturas” da sua obra, a “singular sensibilidade” de Lobo Antunes para “explorar a complexidade psicológica das suas personagens” e a forma como “dá conta de experiências que correspondem de muitas maneiras a um contexto semelhante ao dos conflitos da América Latina”.

O escritor é autor de mais de cerca de 50 títulos, entre crónicas, poesia e romances.

No ano passado, recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade Babes-Bolyai, o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, em Cluj-Napoca, na Roménia, e o Prémio Nonino Internacional, em Udine, em Itália.

Lobo Antunes foi ainda distinguido, entre outros, com os prémios France Culture de Literatura Estrangeira (1996), Médicis Para o Melhor Livro Estrangeiro (1997), Literatura Europeia do Estado Austríaco (2000), Rosalía de Castro (2001), Internacional da União Latina (2003), Ovídio (2003), Jerusalém (2004), Juan Donoso (2006), Camões (2007), Terence Moix (2008), Juan Rulfo (2008) e da Extremadura Para a Criação (2009).


04.09.2015

4 de setembro de 2015

Las Cosas de la Vida, em Cerimónia no Instituto Cervantes de Lisboa

foto de Gerardo Santos /Global Imagens
Lobo Antunes: "Portugueses tratados como cães"

Nove anos após ter recebido o Prémio José Donoso, António Lobo Antunes tem desde ontem um volume com textos seus na colecção com o nome do mais importante escritor chileno, editada pela Universidade de Talca. Em cerimónia em Lisboa, o autor recebeu das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, entre elogios à obra do escritor português que desde 2006 integra uma lista de 16 artistas que receberam o Prémio José Donoso.

Em resposta às afirmações da comitiva chilena, Dom António Lobo Antunes, como era referido amiúde, agradeceu e num final de cariz político disse que "são os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", após ter referido que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a serem tratados como cães", numa alusão aos últimos anos de governação.

Durante a sessão, Lobo Antunes enumerou as principais figuras da cultura da América Latina e explicou a importância que tiveram na sua formação e no prazer da leitura. Jorge Luis Borges não é o seu preferido, ao contrário de Juan Rulfo e do seu livro Pedro Páramo, que disse já ter lido umas cinquenta vezes. Quanto ao Prémio, lamentou que no nosso país não existam galardões destes para homenagear artistas estrangeiros: "Só temos prémios para portugueses darem a portugueses. É uma pena."


fonte: Diário de Notícias
04.09.2015
texto de João Céu e Silva [revisto por José Alexandre Ramos]

2 de setembro de 2015

Quem sou eu? Ensaios sobre António Lobo Antunes - colecção ALA Ensaio, 6º volume

Já se encontra disponível o 6º volume da colecção ALA- Ensaio, da Texto Editora. O autor é Sérgio Guimarães de Sousa.


O livro de Sérgio Guimarães de Sousa, é o mais recente volume de uma colecção de estudos universitários e de outras proveniências que tentam estabelecer uma ponte de acessibilidade entre a obra de António Lobo Antunes e todos os tipos de leitores, atendendo a graus diversos de formação.
Dirigida por Maria Alzira Seixo, esta colecção tem por objectivo ajudar a compreender e iluminar o universo muito próprio de António Lobo Antunes.

26 de agosto de 2015

Las Cosas de la Vida, pela Editorial Universidade de Talca

A Editorial da Universidade de Talca, no Chile, tem vindo a publicar uma colecção que reúne os autores que foram distinguidos com o Prémio Iberoamericano de Letras «José Donoso».

O prémio tem o nome do que foi talvez o romancista chileno mais importante do século XX e um dos expoentes do chamado «boom» das letras latino-americanas.

António Lobo Antunes, que recebeu este prémio em 2006, vê agora publicado nesta colecção um volume, que reúne algumas das suas Crónicas, intitulado Las Cosas de la vida, que será apresentado em Lisboa no dia 3 de Setembro, no Auditório do Instituto Cervantes.



[informação partilhada pela editora Maria da Piedade Ferreira - LeYa]

22 de agosto de 2015

Frabizio Miliucci, opinião sobre O Arquipélago da Insónia

«Daqui a nada é manhã e não será manhã nunca». Com esta afirmação melancólica se encerra a obra de António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia (Arcipelago dell’insonnia - Feltrinelli, 2013), vôo de dimensão variável sobre a vida de uma família proprietária de terras em Portugal, desde o avô aos netos. Três gerações que contam, num lúcido lirismo, a crueldade de vivências ligadas aos instintos primários e prevaricadores,

12 de julho de 2015

Exposição de fotografia «O mundo de Lobo Antunes» de Ana Carvalho

Será inaugurada na próxima sexta-feira, dia 17 Julho, na Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos, a exposição «O mundo de Lobo Antunes», pela fotógrafa Ana Carvalho. O evento estará patente no local até 19 de Setembro.


Ana Carvalho nasceu no Porto e actualmente reside na Holanda, sendo casada com Harrie Lemmens, o tradutor holandês de António Lobo Antunes. Além de fotógrafa é também tradutora, sendo Master of Arts em literatura inglesa e alemã. Tem exposto desde 2009 e colabora em diversas revistas.

Esta exposição, que irá estar presente na Biblioteca Municipal Florbela Espanca de Matosinhos desde 17 de Julho até 19 de Setembro, vem, segundo nos adiantou Ana Carvalho, do prolongamento de uma outra que fez na Holanda a propósito da apresentação do livro Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas para holandês, pela mão do marido. «Como tinha outras fotografias que se enquadravam no ambiente da obra de Lobo Antunes, resolvi criar no meu website um tema justamente com o título da exposição (O mundo de Lobo Antunes). Mas já há muito que queria fazer qualquer coisa nesse contexto. O momento decisivo foi quando, depois de ler na Visão a crónica “O encontro” (e que eu vi sempre mais como um desencontro), a relacionei imediatamente com uma fotografia que tinha tirado antes no pátio do CCB com dois vultos que se cruzam sem se encontrar. Entretanto, fotografias minhas têm servido para ilustrar vários artigos que o Harrie escreveu sobre o Lobo Antunes. O tema da minha exposição é, portanto, algo que resulta de outros projetos e do meu fascínio, desde “Memória de Elefante", pela obra do António Lobo Antunes».

A entrada para a exposição é gratuita e Ana Carvalho terá gosto em receber-nos em Matosinhos, na próxima sexta-feira, para a sua inauguração (a partir da 18H30).


links:

6 de julho de 2015

Irmãos Lobo Antunes no Festival Internacional de Cultura em Cascais

Manos Lobo Antunes cruzam vidas no Festival de Cascais




O auditório da Casa das Histórias de Paula Rego ficou sem lugares para assistir à conversa sobre livros entre os dois irmãos. Que decorreu ora num tom de brincadeira entre irmãos adolescentes ora no de divergência de opiniões entre adultos. No primeiro caso, a deixa de João Lobo Antunes sobre o atraso de António Lobo Antunes: "A noiva chega sempre tarde". No segundo caso, a opinião sobre o pai. Nada que não provocasse gargalhadas na plateia, diga-se.

Esclareça-se que o encontro entre os manos fora anunciado mas até António chegar a Cascais a organização nunca pôde dar como certo a sua realização. A contagem decrescente terminou à hora marcada para o início e a partir daí tornou-se crescente, acompanhado de um abano dos leques [que] era cada vez mais frenético. Contaram-se os 15 minutos sobre o atraso dos manos. Contaram-se os 25 minutos. Quando ambos surgiram no topo das escadas, a plateia já estava aquecida para o grande momento. João desceu à frente, já de microfone colocado; António ficou lá por cima, olhando espantado para a sala repleta, antes de iniciar uma caminhada em que distribuía beijinhos para os rostos seus conhecidos. Ia começar o "improviso espontâneo" que, segundo João, fora acertado num minuto em conversa telefónica: "Decidimos começar pela infância." Logo aí se percebeu que o anunciado "diálogo entre escritores" se tornara uma conversa entre o irmão mais velho, António, e o irmão mais novo, João. O que se seguiu foi aquilo que no fim João Lobo Antunes, ao evocar Simenon, dizia sobre a mulher do inspector Maigret quando este ficava calado: "Era preciso mobilar o silêncio."

06.07.2015
texto (excerto) de João Céu e Silva
foto de Carlos Manuel Martins

*

Mais de 200 pessoas assistem a conversa "inédita" entre irmãos Lobo Antunes


O diálogo entre os dois irmãos, incluído no Festival Internacional de Cultura, que se realiza pela primeira vez, foi apontado como um dos grandes momentos de todo o evento, que arrancou na sexta-feira e decorre ao longo de dez dias.

Eram 22:00 de sábado, 30 minutos depois da hora prevista no programa, quando João Lobo Antunes lançou a conversa e desculpou-se pelo "atraso da noiva", referindo-se ao irmão António, arrancando logo uma gargalhada do público, que viria a repetir-se ao longo da noite.

A infância, o pai, a mãe, a medicina, a morte, mas sobretudo os livros foram os temas abordados, num regresso às memórias dos dois irmãos que, sem nunca se atropelarem, apoderaram-se equilibradamente da palavra.

Sob o olhar atento de quem assistia, muitas das pessoas em pé, não se ouviu burburinho e a atenção estava toda centrada em João e António que, unidos pelos livros, como os próprios disseram, foram contando episódios de família e da austeridade dos pais, que, desde sempre, impuseram o hábito pela leitura.

"A mãe fazia duas coisas: ou lia, ou cozinhava", contou João.

"Às vezes também dizia: cala o bico", acrescentou António, que reconheceu também "a dívida para com o pai que é o amor pelas coisas belas".

Numa família de médicos, João era "o filho bom" e António "a nódoa", segundo o escritor que confessou nunca ter tido vocação para a medicina e que, aos nove anos, comunicou à família que queria ser escritor.

Num momento de troca de elogios, João disse que António "era um grande criador da Língua Portuguesa", mas o escritor reconheceu que "escrever é um tremendo sofrimento e o sucesso, quando se tem, é uma coisa tão passageira".

A conversa desviou-se ainda para a morte, tendo por base os livros que chegaram a motivar a discórdia entre os irmãos.

"Há uma diferença grande entre nós na apreciação de alguns escritores", disse João, enquanto António insistia: "se é uma porcaria, digo que é uma porcaria".

Ao fim de mais de uma hora e dois cigarros fumados por António, João Lobo Antunes deu a conversa por terminada, arrancando uma ovação do público.

A escritora Lídia Jorge, curadora do Festival Internacional de Cultura (FIC), tinha apelidado este como "um dos grandes momentos" do evento e, segundo contou à Lusa, isso "cumpriu-se".

"Foi um encontro muito especial. Este diálogo entre eles foi um momento único, foi uma conversa inédita", disse Lídia Jorge.

A curadora considerou que a "casa cheia" de [sábado] é um bom augúrio para todo o festival e sublinhou que o sucesso do evento irá determinar a periodicidade das próximas edições, garantindo que o "FIC é para ficar".


06.07.2015
texto Lusa

*

Pode ouvir a conversa entre os irmãos no programa da A Ronda da Noite, de Luís Caetano na Antena 2. Eis os links da RTP Play:

1ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201660/a-ronda-da-noite (aos 7 minutos)
2ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201809/a-ronda-da-noite (aos 11 minutos)

3 de julho de 2015

«Ivo Ferreira filma as cartas de amor do alferes Lobo Antunes»

Notícia do Público




D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra compila as cartas que um alferes de 28 anos, destacado para Angola, escreveu à mulher. A voz de um namorado, pai e escritor em construção, hoje o autor António Lobo Antunes, tornada personagem colectiva num filme em rodagem.


O homem entrou em casa, de madrugada, avançou para o quarto, como que guiado pela voz da mulher grávida que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de amor que integram um livro: aquele que compila as cartas escritas por um alferes médico de 28 anos, destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa.

Esses dois homens existem, o mise-en-abyme não é pura ficção. São Ivo Ferreira, realizador, e António Lobo Antunes, escritor. O primeiro, que na tal noite entrou em casa e ouviu a mulher a ler ao bebé por nascer páginas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, volta – isto é, se pensarmos numa longa-metragem anterior, Águas Mil (2009) – a deixar a sua vida ser interceptada pelas biografias dos outros como quem tacteia fantasmas, segredos da História recente de Portugal, seguindo o fluxo das histórias contadas de pais para filhos e destes para os seus filhos. O segundo, o autor das cartas, um jovem médico com sonhos de escritor mas atirado para a guerra, refugiando-se nas cartas à mulher que o esperava em Lisboa, é hoje o autor António Lobo Antunes mas era ali, no livro e no filme que Ivo adapta e que por estes dias termina a rodagem, um autor, um pai, um marido em construção – personagem interpretada pelo actor Miguel Nunes.

“O filme tem a ver com coisas que me interessam, um país a agonizar no fascismo, mas nesse cenário algo que tem a ver com crescimento”, diz Ivo Ferreira, “o crescimento de um autor, de um pensador, alguém que caminha para ser melhor, como namorado, como marido, como pai” – foram as filhas do escritor, Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, que publicaram em [2005] a edição de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra por vontade expressa da mãe de ambas que morreu em [1999].

“Embora eu não tenha tido qualquer experiência biográfica, família em África ou pai que foi para a guerra, a verdade é que a guerra vive comigo há uma vida, até pela opção política dos meus pais, pelo exílio”, continua o realizador. “E parece que continuamos com pudor em filmar isso. Eu próprio, quando miúdo, achava que aqueles homens tinham ido para a guerra porque eram pessoas más, quando afinal tinham sido empurrados. O que me interessa é saber como é que um país pode atirar os seus homens para uma situação que não faz sentido.”

Com mais de quatro dezenas de personagens, esta produção O Som e a Fúria, a partir de um argumento de Ferreira e de Edgar Medina, teve uma primeira rodagem em Abril e Maio na província do Kuando Kubango, em Angola (“numa pequena aldeia onde não havia água, não havia nada, foi uma rodagem com acidentes, doenças e tragédias”) e está agora aquartelada no campo de tiro de Alcochete para a última semana de filmagens.

É um projecto que se afigura cheio de singularidades e delicadezas: é a adaptação de uma obra, constitui o passado biográfico de quem não só ainda pertence ao mundo dos vivos como se agigantou na esfera pública e, claro, tudo isso é material de que o realizador se quis apropriar. “Também é um filme sobre a forma como as cabras num monte dão lugar às girafas na selva.” E como filmar as cartas, como evitar a reiteração pelas imagens do que uma voz-off “escreve”?

“As cartas são a nossa estrela polar”, responde Ivo Ferreira – “nossa” porque é autor, com Edgar Medina, do argumento resultante de um trabalho de investigação histórica, de entrevistas a antigos combatentes, de recolha documental, iconográfica e musical do período. “Mas fomos buscar coisas aos primeiros livros [de Lobo Antunes, Memória de Elefante e Os Cus de Judas], porque há temas recorrentes. As cartas ajudam a estruturar a narrativa. Mas não é um filme com muita voz-off, e é uma voz colectiva. As cartas são um refúgio. Escreve-se pelo amor, é pelo amor que se sobrevive. As cartas de amor surgem aqui quando o presente não pode ser vivido.”

A delicadeza do projecto está, afinal, na possibilidade de negociação entre uma história que é património dos seus protagonistas e o desejo de apropriação de um realizador. “Sei que estava a pegar numa história de pessoas que eu conhecia e que falava das suas vidas, da história de amor entre o pai e a mãe. Só quereria fazer o filme se houvesse [da parte de Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes] desejo disso, mas simultaneamente se me deixassem livre. Tive uma primeira conversa com elas, imediatamente desenhei o filme, e a partir daí foi trabalhar no argumento. E ver até que ponto continuava o interesse delas. Estou consciente do imenso compromisso e da imensa responsabilidade de não trair a confiança que me foi depositada.”


fonte: Público
texto de Vasco Câmara
foto Público
02.07.2015

2 de julho de 2015

"Sugestões para o lar" a partir de António Lobo Antunes no palco em Gaia


A ideia de adaptar crónicas de António Lobo Antunes partiu da companhia As Boas Raparigas e Nuno Pino Custódio aceitou o desafio, cujo resultado vai estar em cena no Armazém 22, em Gaia, neste primeiro fim de semana de Julho.

A peça desenrola-se a partir de vários textos do escritor português como "O Natalzinho" ou "Crónica descosida porque me comovi", falando-se de "famílias que desembocam em casas numa felicidade que o autor descreve como 'assim-assim'", explicou aos jornalistas o responsável pela dramaturgia e encenação, Nuno Pino Custódio.

"Ainda estamos a descobrir que espectáculo é este", reconheceu o encenador da peça que volta a estar em cena de 10 a 27 de Setembro.

Notícia Lusa
01.07.2015

27 de junho de 2015

António Lobo Antunes na primeira edição do FIC - Festival Internacional de Cultura de Cascais


Organizado pela LeYa e pela Câmara Municipal de Cascais, o Festival Internacional de Cultura (FIC) decorre entre 3 e 12 de Julho, com a curadoria da escritora Lídia Jorge.

«Celebrar os livros olhando-os a partir da poesia, da música, do teatro, das actividades em família, dos percursos temáticos, das artes plásticas e de outras disciplinas» é o objectivo do Festival Internacional de Cultura 2015 (FIC), que decorre em Cascais de 3 a 12 de julho, sob a curadoria da escritora Lídia Jorge. O evento é inédito e integra a programação do Bairro dos Museus. A entrada é gratuita.

Juntando todas as actividades, o FIC promoverá também uma nova Feira do Livro de Cascais onde se pode encontrar os nomes mais marcantes da literatura portuguesa. Esta será também uma oportunidade do grande público privar com escritores, artistas e outras personalidades que marcam presença no festival sob curadoria de Lídia Jorge, para quem este festival irá fazer a diferença. “Aqui há uma proposta de enraizamento das actividades culturais ligadas a Cascais de forma multidisciplinar que vão, certamente, marcar o festival onde o livro é o elemento estrutural” revela a escritora.

O comunicado do festival anuncia ainda que o evento «começa com o ciclo "Escritores em Diálogo", com António Lobo Antunes a ser entrevistado pelo irmão, o neurocirurgião João Lobo Antunes».

Do programa: 

4 de Julho, 21h30, Casa das Histórias Paula Rego | Escritores em diálogo | ANTÓNIO LOBO ANTUNES Entrevistado por JOÃO LOBO ANTUNES | Colaboração: Teatro Meridional | Participação especial: Natália Luiza


Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...