26 de agosto de 2015

Las Cosas de la Vida, pela Editorial Universidade de Talca

A Editorial da Universidade de Talca, no Chile, tem vindo a publicar uma colecção que reúne os autores que foram distinguidos com o Prémio Iberoamericano de Letras «José Donoso».

O prémio tem o nome do que foi talvez o romancista chileno mais importante do século XX e um dos expoentes do chamado «boom» das letras latino-americanas.

António Lobo Antunes, que recebeu este prémio em 2006, vê agora publicado nesta colecção um volume, que reúne algumas das suas Crónicas, intitulado Las Cosas de la vida, que será apresentado em Lisboa no dia 3 de Setembro, no Auditório do Instituto Cervantes.



[informação partilhada pela editora Maria da Piedade Ferreira - LeYa]

22 de agosto de 2015

Frabizio Miliucci, opinião sobre O Arquipélago da Insónia

«Daqui a nada é manhã e não será manhã nunca». Com esta afirmação melancólica se encerra a obra de António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia (Arcipelago dell’insonnia - Feltrinelli, 2013), vôo de dimensão variável sobre a vida de uma família proprietária de terras em Portugal, desde o avô aos netos. Três gerações que contam, num lúcido lirismo, a crueldade de vivências ligadas aos instintos primários e prevaricadores,

12 de julho de 2015

Exposição de fotografia «O mundo de Lobo Antunes» de Ana Carvalho

Será inaugurada na próxima sexta-feira, dia 17 Julho, na Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos, a exposição «O mundo de Lobo Antunes», pela fotógrafa Ana Carvalho. O evento estará patente no local até 19 de Setembro.


Ana Carvalho nasceu no Porto e actualmente reside na Holanda, sendo casada com Harrie Lemmens, o tradutor holandês de António Lobo Antunes. Além de fotógrafa é também tradutora, sendo Master of Arts em literatura inglesa e alemã. Tem exposto desde 2009 e colabora em diversas revistas.

Esta exposição, que irá estar presente na Biblioteca Municipal Florbela Espanca de Matosinhos desde 17 de Julho até 19 de Setembro, vem, segundo nos adiantou Ana Carvalho, do prolongamento de uma outra que fez na Holanda a propósito da apresentação do livro Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas para holandês, pela mão do marido. «Como tinha outras fotografias que se enquadravam no ambiente da obra de Lobo Antunes, resolvi criar no meu website um tema justamente com o título da exposição (O mundo de Lobo Antunes). Mas já há muito que queria fazer qualquer coisa nesse contexto. O momento decisivo foi quando, depois de ler na Visão a crónica “O encontro” (e que eu vi sempre mais como um desencontro), a relacionei imediatamente com uma fotografia que tinha tirado antes no pátio do CCB com dois vultos que se cruzam sem se encontrar. Entretanto, fotografias minhas têm servido para ilustrar vários artigos que o Harrie escreveu sobre o Lobo Antunes. O tema da minha exposição é, portanto, algo que resulta de outros projetos e do meu fascínio, desde “Memória de Elefante", pela obra do António Lobo Antunes».

A entrada para a exposição é gratuita e Ana Carvalho terá gosto em receber-nos em Matosinhos, na próxima sexta-feira, para a sua inauguração (a partir da 18H30).


links:

6 de julho de 2015

Irmãos Lobo Antunes no Festival Internacional de Cultura em Cascais

Manos Lobo Antunes cruzam vidas no Festival de Cascais




O auditório da Casa das Histórias de Paula Rego ficou sem lugares para assistir à conversa sobre livros entre os dois irmãos. Que decorreu ora num tom de brincadeira entre irmãos adolescentes ora no de divergência de opiniões entre adultos. No primeiro caso, a deixa de João Lobo Antunes sobre o atraso de António Lobo Antunes: "A noiva chega sempre tarde". No segundo caso, a opinião sobre o pai. Nada que não provocasse gargalhadas na plateia, diga-se.

Esclareça-se que o encontro entre os manos fora anunciado mas até António chegar a Cascais a organização nunca pôde dar como certo a sua realização. A contagem decrescente terminou à hora marcada para o início e a partir daí tornou-se crescente, acompanhado de um abano dos leques [que] era cada vez mais frenético. Contaram-se os 15 minutos sobre o atraso dos manos. Contaram-se os 25 minutos. Quando ambos surgiram no topo das escadas, a plateia já estava aquecida para o grande momento. João desceu à frente, já de microfone colocado; António ficou lá por cima, olhando espantado para a sala repleta, antes de iniciar uma caminhada em que distribuía beijinhos para os rostos seus conhecidos. Ia começar o "improviso espontâneo" que, segundo João, fora acertado num minuto em conversa telefónica: "Decidimos começar pela infância." Logo aí se percebeu que o anunciado "diálogo entre escritores" se tornara uma conversa entre o irmão mais velho, António, e o irmão mais novo, João. O que se seguiu foi aquilo que no fim João Lobo Antunes, ao evocar Simenon, dizia sobre a mulher do inspector Maigret quando este ficava calado: "Era preciso mobilar o silêncio."

06.07.2015
texto (excerto) de João Céu e Silva
foto de Carlos Manuel Martins

*

Mais de 200 pessoas assistem a conversa "inédita" entre irmãos Lobo Antunes


O diálogo entre os dois irmãos, incluído no Festival Internacional de Cultura, que se realiza pela primeira vez, foi apontado como um dos grandes momentos de todo o evento, que arrancou na sexta-feira e decorre ao longo de dez dias.

Eram 22:00 de sábado, 30 minutos depois da hora prevista no programa, quando João Lobo Antunes lançou a conversa e desculpou-se pelo "atraso da noiva", referindo-se ao irmão António, arrancando logo uma gargalhada do público, que viria a repetir-se ao longo da noite.

A infância, o pai, a mãe, a medicina, a morte, mas sobretudo os livros foram os temas abordados, num regresso às memórias dos dois irmãos que, sem nunca se atropelarem, apoderaram-se equilibradamente da palavra.

Sob o olhar atento de quem assistia, muitas das pessoas em pé, não se ouviu burburinho e a atenção estava toda centrada em João e António que, unidos pelos livros, como os próprios disseram, foram contando episódios de família e da austeridade dos pais, que, desde sempre, impuseram o hábito pela leitura.

"A mãe fazia duas coisas: ou lia, ou cozinhava", contou João.

"Às vezes também dizia: cala o bico", acrescentou António, que reconheceu também "a dívida para com o pai que é o amor pelas coisas belas".

Numa família de médicos, João era "o filho bom" e António "a nódoa", segundo o escritor que confessou nunca ter tido vocação para a medicina e que, aos nove anos, comunicou à família que queria ser escritor.

Num momento de troca de elogios, João disse que António "era um grande criador da Língua Portuguesa", mas o escritor reconheceu que "escrever é um tremendo sofrimento e o sucesso, quando se tem, é uma coisa tão passageira".

A conversa desviou-se ainda para a morte, tendo por base os livros que chegaram a motivar a discórdia entre os irmãos.

"Há uma diferença grande entre nós na apreciação de alguns escritores", disse João, enquanto António insistia: "se é uma porcaria, digo que é uma porcaria".

Ao fim de mais de uma hora e dois cigarros fumados por António, João Lobo Antunes deu a conversa por terminada, arrancando uma ovação do público.

A escritora Lídia Jorge, curadora do Festival Internacional de Cultura (FIC), tinha apelidado este como "um dos grandes momentos" do evento e, segundo contou à Lusa, isso "cumpriu-se".

"Foi um encontro muito especial. Este diálogo entre eles foi um momento único, foi uma conversa inédita", disse Lídia Jorge.

A curadora considerou que a "casa cheia" de [sábado] é um bom augúrio para todo o festival e sublinhou que o sucesso do evento irá determinar a periodicidade das próximas edições, garantindo que o "FIC é para ficar".


06.07.2015
texto Lusa

*

Pode ouvir a conversa entre os irmãos no programa da A Ronda da Noite, de Luís Caetano na Antena 2. Eis os links da RTP Play:

1ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201660/a-ronda-da-noite (aos 7 minutos)
2ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201809/a-ronda-da-noite (aos 11 minutos)

3 de julho de 2015

«Ivo Ferreira filma as cartas de amor do alferes Lobo Antunes»

Notícia do Público




D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra compila as cartas que um alferes de 28 anos, destacado para Angola, escreveu à mulher. A voz de um namorado, pai e escritor em construção, hoje o autor António Lobo Antunes, tornada personagem colectiva num filme em rodagem.


O homem entrou em casa, de madrugada, avançou para o quarto, como que guiado pela voz da mulher grávida que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de amor que integram um livro: aquele que compila as cartas escritas por um alferes médico de 28 anos, destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa.

Esses dois homens existem, o mise-en-abyme não é pura ficção. São Ivo Ferreira, realizador, e António Lobo Antunes, escritor. O primeiro, que na tal noite entrou em casa e ouviu a mulher a ler ao bebé por nascer páginas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, volta – isto é, se pensarmos numa longa-metragem anterior, Águas Mil (2009) – a deixar a sua vida ser interceptada pelas biografias dos outros como quem tacteia fantasmas, segredos da História recente de Portugal, seguindo o fluxo das histórias contadas de pais para filhos e destes para os seus filhos. O segundo, o autor das cartas, um jovem médico com sonhos de escritor mas atirado para a guerra, refugiando-se nas cartas à mulher que o esperava em Lisboa, é hoje o autor António Lobo Antunes mas era ali, no livro e no filme que Ivo adapta e que por estes dias termina a rodagem, um autor, um pai, um marido em construção – personagem interpretada pelo actor Miguel Nunes.

“O filme tem a ver com coisas que me interessam, um país a agonizar no fascismo, mas nesse cenário algo que tem a ver com crescimento”, diz Ivo Ferreira, “o crescimento de um autor, de um pensador, alguém que caminha para ser melhor, como namorado, como marido, como pai” – foram as filhas do escritor, Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, que publicaram em [2005] a edição de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra por vontade expressa da mãe de ambas que morreu em [1999].

“Embora eu não tenha tido qualquer experiência biográfica, família em África ou pai que foi para a guerra, a verdade é que a guerra vive comigo há uma vida, até pela opção política dos meus pais, pelo exílio”, continua o realizador. “E parece que continuamos com pudor em filmar isso. Eu próprio, quando miúdo, achava que aqueles homens tinham ido para a guerra porque eram pessoas más, quando afinal tinham sido empurrados. O que me interessa é saber como é que um país pode atirar os seus homens para uma situação que não faz sentido.”

Com mais de quatro dezenas de personagens, esta produção O Som e a Fúria, a partir de um argumento de Ferreira e de Edgar Medina, teve uma primeira rodagem em Abril e Maio na província do Kuando Kubango, em Angola (“numa pequena aldeia onde não havia água, não havia nada, foi uma rodagem com acidentes, doenças e tragédias”) e está agora aquartelada no campo de tiro de Alcochete para a última semana de filmagens.

É um projecto que se afigura cheio de singularidades e delicadezas: é a adaptação de uma obra, constitui o passado biográfico de quem não só ainda pertence ao mundo dos vivos como se agigantou na esfera pública e, claro, tudo isso é material de que o realizador se quis apropriar. “Também é um filme sobre a forma como as cabras num monte dão lugar às girafas na selva.” E como filmar as cartas, como evitar a reiteração pelas imagens do que uma voz-off “escreve”?

“As cartas são a nossa estrela polar”, responde Ivo Ferreira – “nossa” porque é autor, com Edgar Medina, do argumento resultante de um trabalho de investigação histórica, de entrevistas a antigos combatentes, de recolha documental, iconográfica e musical do período. “Mas fomos buscar coisas aos primeiros livros [de Lobo Antunes, Memória de Elefante e Os Cus de Judas], porque há temas recorrentes. As cartas ajudam a estruturar a narrativa. Mas não é um filme com muita voz-off, e é uma voz colectiva. As cartas são um refúgio. Escreve-se pelo amor, é pelo amor que se sobrevive. As cartas de amor surgem aqui quando o presente não pode ser vivido.”

A delicadeza do projecto está, afinal, na possibilidade de negociação entre uma história que é património dos seus protagonistas e o desejo de apropriação de um realizador. “Sei que estava a pegar numa história de pessoas que eu conhecia e que falava das suas vidas, da história de amor entre o pai e a mãe. Só quereria fazer o filme se houvesse [da parte de Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes] desejo disso, mas simultaneamente se me deixassem livre. Tive uma primeira conversa com elas, imediatamente desenhei o filme, e a partir daí foi trabalhar no argumento. E ver até que ponto continuava o interesse delas. Estou consciente do imenso compromisso e da imensa responsabilidade de não trair a confiança que me foi depositada.”


fonte: Público
texto de Vasco Câmara
foto Público
02.07.2015

2 de julho de 2015

"Sugestões para o lar" a partir de António Lobo Antunes no palco em Gaia


A ideia de adaptar crónicas de António Lobo Antunes partiu da companhia As Boas Raparigas e Nuno Pino Custódio aceitou o desafio, cujo resultado vai estar em cena no Armazém 22, em Gaia, neste primeiro fim de semana de Julho.

A peça desenrola-se a partir de vários textos do escritor português como "O Natalzinho" ou "Crónica descosida porque me comovi", falando-se de "famílias que desembocam em casas numa felicidade que o autor descreve como 'assim-assim'", explicou aos jornalistas o responsável pela dramaturgia e encenação, Nuno Pino Custódio.

"Ainda estamos a descobrir que espectáculo é este", reconheceu o encenador da peça que volta a estar em cena de 10 a 27 de Setembro.

Notícia Lusa
01.07.2015

27 de junho de 2015

António Lobo Antunes na primeira edição do FIC - Festival Internacional de Cultura de Cascais


Organizado pela LeYa e pela Câmara Municipal de Cascais, o Festival Internacional de Cultura (FIC) decorre entre 3 e 12 de Julho, com a curadoria da escritora Lídia Jorge.

«Celebrar os livros olhando-os a partir da poesia, da música, do teatro, das actividades em família, dos percursos temáticos, das artes plásticas e de outras disciplinas» é o objectivo do Festival Internacional de Cultura 2015 (FIC), que decorre em Cascais de 3 a 12 de julho, sob a curadoria da escritora Lídia Jorge. O evento é inédito e integra a programação do Bairro dos Museus. A entrada é gratuita.

Juntando todas as actividades, o FIC promoverá também uma nova Feira do Livro de Cascais onde se pode encontrar os nomes mais marcantes da literatura portuguesa. Esta será também uma oportunidade do grande público privar com escritores, artistas e outras personalidades que marcam presença no festival sob curadoria de Lídia Jorge, para quem este festival irá fazer a diferença. “Aqui há uma proposta de enraizamento das actividades culturais ligadas a Cascais de forma multidisciplinar que vão, certamente, marcar o festival onde o livro é o elemento estrutural” revela a escritora.

O comunicado do festival anuncia ainda que o evento «começa com o ciclo "Escritores em Diálogo", com António Lobo Antunes a ser entrevistado pelo irmão, o neurocirurgião João Lobo Antunes».

Do programa: 

4 de Julho, 21h30, Casa das Histórias Paula Rego | Escritores em diálogo | ANTÓNIO LOBO ANTUNES Entrevistado por JOÃO LOBO ANTUNES | Colaboração: Teatro Meridional | Participação especial: Natália Luiza


26 de junho de 2015

Pedro Fernandes: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Certa vez, Miguel Real, uma das figuras mais lúcidas da crítica literária portuguesa, afirmou que António Lobo Antunes trata-se de um caso singularíssimo e alguém não igualado por ninguém, nem antes e nem na contemporaneidade, no cenário das letras portuguesas; “seus livros revelam uma nova dobra na língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta”, diz o crítico. Provam-no a extensa obra romanesca que tem escrito, o exercício da crónica, os mais singulares na literatura em língua portuguesa contemporânea. Muito recentemente, escreveu Caminho Como Uma Casa Em Chamas que, certamente, merecerá atenção por aqui, noutra ocasião. Este texto agora publicado é, no entanto, um conjunto de notas sobre um de seus romances mais conhecidos, e um dos mais densos e mais difíceis também (António Lobo Antunes não escreve para leitores comuns, aliás não escreve para, desafia-os).

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escurafoi publicado em 2000. E ao longo desse período tem já acumulado uma série de textos críticos, sobretudo teses de doutoramento e dissertações de mestrado, parte delas certamente encantadas com o acurado fôlego com que o escritor português dedica à língua e a destituição da natureza comum do romance ou ainda por certo hermetismo linguístico. É um texto que preferiu chamá-lo de poema (está como subtítulo da obra) e que amplia um exercício de interseção dos géneros que já demonstrei noutras ocasiões, quando falei sobre Auto dos Danados e Fado Alexandrino, dois romances que incorporam na sua estrutura elementos definidores do género textual que dão título à obra. Bem, no caso desse livro ora comentado, tudo corrobora para ser uma espécie de longo poema em prosa (a escrita versicular, a predominância do uso das minúsculas para início de frase e, sobretudo, a construção linguística capaz de produzir no leitor o contacto constante com blocos de texto que são exímia poesia).

Em Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura o escritor quase se aparta do contexto histórico e ergue um universo que é mônada no universo quotidiano. É evidente que não deixa de vir a lume certos fluidos da história recente portuguesa, temas de predilecção do escritor dos primeiros romances, mas, o que se amplia aqui é a capacidade de acompanhamento do travellingmental: uma linguagem surda, como disse certa vez, que aspira dizer tudo a uma só vez, assim como é cada vez mais impressionante a capacidade de provocar no leitor uma aproximação com as movimentações do nosso interior. É um romance que se faz pela intercalação de uma diversidade de acontecimentos e cuja estrutura é fracturada, assinalada por interrupções bruscas, os cortes, elipses, e entrecortar de vozes que ora aparecem ora se dispersam sem qualquer ligação aparente com um centro de comando de um facto principal.

O facto principal é a morte do pai da narradora. Situação do acaso, mas que ampliará a ruína da casa. Estamos, pois, diante de dois temas primordiais na obra de António Lobo Antunes. É o contacto com o fim que levará Maria Clara, primeiro, a futricar o passado do pai, sempre guardado a sete-chaves e sempre apresentado como o que não tem nada a esconder seja pelo excesso de cuidado com a aparência seja pela imagem de homem sério e provedor do lar. Mas, a narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura não é uma figura comum; tem parte com aquelas criaturas que diz confiar no que vê quando na verdade está em busca da primeira oportunidade para conseguir bisbilhotar o que não se revela a olho nu.

E todo [o] romance finda por ser uma tentativa sua de buscar reconstruir o passado da família (e logo reconstruir a si), sobretudo, o desse enigma que é a figura paterna, olhando-a desde as provas (coisa pouca) que reúne sobre ele (algumas fotografias, um registo de nascimento rabiscado, uma agenda com uma ou outra anotação, e um baú de notas fiscais e restos de armas que a leva a perscrutar sobre o trabalho escuso de Luís Filipe com o contrabando de armas). No final desse parêntesis, gostaria de abrir outro para justificar uma posição contrária às acusações de que, por se aproximar demais de um subjectivismo António Lobo Antunes tenha, desde então, produzido uma obra cujo interesse sobre a realidade histórica, social e política não se constitui em elemento para compreensão de sua obra.

A afirmativa corroborada muitas vezes por parte de uma crítica mesquinha é errónea, por vários factores: um deles, já evidenciado pela própria teoria da literatura, a de que não há obra literária fechada em relação ao contexto a que pertence, sobretudo, porque a linguagem, seu instrumento, é um aparelho histórico, político e social. Outro, evidenciado nessa suspeita costurada pela narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Não seria Luís Filipe um modo de denunciar certa parcela do capital que vive às custas da dor e do horror alheio? Não seria Luís Filipe uma figura sobre o que foram as relações escusas entre as Forças Armadas, a Indústria Armamentista e o Governo sempre juntos a dizer sobre a utilidade do conflito armado em África?

Depois de Luís Filipe, a obsessão de Maria Clara, o leitor encontrará Amélia, sua mãe, a irmã Ana Maria, a avó Margarida, sempre torrando o exíguo património com os jogos de roleta no casino, Adelaide, uma figura das mais emblemáticas do romance e peça-chave no imbróglio narrativo que Clara tenta erguer e talvez uma das melhores figuras de empregada desde a Juliana de Eça de Queirós, entre outros. É um romance para envolver-se, não é dado para mentes preguiçosas. O romancista exige a presença do leitor na extensa bricolage de situações a fim de construir uma linha de enredo que, desde então, o adopte para compreender a obra sobre algum acontecimento, mesmo sabendo que a literatura antuniana não é registo, é provocação.

Por fim, e os romances que sucederam a esse cada vez mais provam isso, depois do lugar do crítico mordaz da realidade histórica e um revelador da hipocrisia que vela os mais variados recantos da sociedade e o torna para os indivíduos em pura aparência, António Lobo Antunes instala-se, agora, ao modo do que fizeram os escritores realistas, na mínima unidade institucional que é a família. Depois percorrer outras instituições, como as forças armadas e o aparelho médico, como já disse, esse núcleo parece servir de medida certa na elaboração de uma metonímia através da qual pode observar o pormenor de uma sociedade à beira de um colapso ou fim agonizante de uma civilização.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
25.06.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

21 de junho de 2015

Tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas finalista do Europese Literatuurprijs (Prémio da Literatura Europeia)

Harrie Lemmens com António Lobo Antunes
foto de João Céu e Silva - Diário de Notícias
Harrie Lemmens, tradutor holandês de António Lobo Antunes, está nomeado para o Europese Literatuurprijs - Prémio da Literatura Europeia -, que é atribuído anualmente na Holanda ao melhor livro traduzido do ano anterior publicado num país europeu.

Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, de António Lobo Antunes, pela mão de Harrie Lemmens, está na shortlist dos 6 títulos escolhidos de entre a primeira selecção dos 20 melhores títulos traduzidos que fora anunciada em Março. Esta shortlist foi conhecida no passado dia 9 de Junho e um mês depois, a 9 de Julho, será revelado o vencedor do prémio.

O semanário holandês De Groene Amsterdammer, um dos organizadores do prémio, publicou críticas aos títulos seleccionados logo após o anúncio da lista em 9 de Junho. Citamos de seguida excertos da crítica a Als een brandedend huis, feita por Christiaan Weijts. Estes excertos foram traduzidos por Ana Carvalho.

Relembramos que a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas foi a estreia mundial para a primeira publicação deste livro de António Lobo Antunes, semanas antes de ser publicado pela Dom Quixote o texto original em português, em Outubro de 2014.

*

A alma das coisas (excerto)


Uma pintura camada a camada, pensamentos que emergem para logo desaparecer, recordações, impressões, sonhos, farrapos de diálogos. Por vezes, repetições literais que, sendo temas recorrentes, reforçam a musicalidade. Este ziguezaguear sem pontuação procura imitar a ininterrupta corrente interior que é um misto de pensar, sentir, falar, sonhar e recordar.

Traduzir um livro destes requer uma mão extremamente segura, um ouvido musical e uma sensibilidade especial para encontrar o ritmo certo. O tradutor Harrie Lemmens dispõe visivelmente de todas essas qualidades, tendo sabido criar uma linguagem que traz à superfície uma camada de energia singularmente íntima.

Surpreendentamente, esta linguagem não é, de modo algum complicada. Até mesmo a gramática, embora algo caprichosa, não descamba em nenhum momento em poesia experimental conhecida pelo seu carácter impenetrável. Contrariamente ao que se poderia pensar na primeira abordagem, esta obra é justamente o oposto de impenetrável e confusa. É uma prosa certeira, esmerada, que, através de detalhes concretos, penetra naquilo que Flaubert diz ser “a alma das coisas”.


por Christiaan Weijts
em De Groene Amsterdammer
10.06.2015
[traduzido do holandês por Ana Carvalho]

13 de junho de 2015

Francisco Venâncio - opinião sobre Memória de Elefante

edição brasileira Folha de S. Paulo,
2012
[...]

O título do texto ora resenhado é bem sugestivo: trata da memória. Alguns críticos o classificaram como um texto fragmentado cuja narrativa é recheada de rememorações autobiográficas e fantasmagóricas. De facto, o texto é extremamente fragmentado, como o próprio título sugere e pode ser interpretado como uma autobiografia, pois assim como o protagonista desta história, Lobo Antunes também se formou em Medicina Psiquiátrica e exerceu sua actividade durante a guerra colonial em Angola.

A narrativa tece-se no decorrer de um dia e uma noite em torno da trajectória de um médico psiquiatra que trabalha no Hospital Miguel Bombarda: o nome do hospital não é fictício, este é o mesmo hospital no qual Lobo Antunes trabalhou. O texto tem início com a sua chegada ao hospital e término na madrugada do dia seguinte em seu apartamento no Monte Estoril. O médico psiquiatra, recém-divorciado da esposa, tem duas filhas e se mostra um sujeito deprimido, irónico, angustiado com a vida e apaixonado pela ex-esposa - dentre as declarações de amor uma que destaco:

Amo-te tanto que não sei te amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio”.

Trata-se notoriamente de uma tragédia, conforme a definição de trágico contida na Poética de Aristóteles, para quem tragédia é a imitação de uma acção acabada e inteira. Na concepção do crítico grego, inteiro é aquilo que tem começo, meio e fim, assim se um dia inteiro é composto por vinte e quatro horas, logo um texto trágico se passa no decorrer deste período, isto é, um texto trágico se passa no decorrer de um único dia. Daí, podermos afirmar que o médico psiquiatra encontra-se em uma tragédia. Também pela tessitura das acções, dramáticas e levemente melancólicas. A acção trágica dar-se-á na perda do amor: ao término do dia o médico psiquiatra “cai no canto da sereia” e se deixa enganar pelo amor superficial de uma prostituta.

Afora os detalhes apontados até aqui, Memória de Elefante é um texto excelente para quem deseja passear pelas ruas de Portugal sem sair de casa. O olhar atento e observador de António Lobo Antunes é capaz de nos transportar para além-mar em questão de minutos e conhecer não só Portugal, mas seus grandes nomes.


por Francisco Venâncio
em Indique um livro
18.05.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

23 de maio de 2015

Denis Leandro - dissertação sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


“Quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo várias interrogações que se colocam de um modo especial num travesti.”[1] Assim António Lobo Antunes resume [o] seu 15º romance, Que farei quando tudo arde?, publicado em 2001 [...]. O livro é, de facto, uma narrativa sobre a identidade e, sendo sobre a identidade, é também sobre o passado, sobre a origem e todo o emaranhado inextrincável que essa questão arrasta consigo.

Sobre o abismo da origem lança-se Paulo, narrador privilegiado no texto, que elege como pai um travesti de nome Soraia – que quando livre das plumas, lantejoulas e cabeleira postiça, dos enchumaços nas nádegas e no peito e da boca pintada, chama-se Carlos. A origem está já rasurada, tão indefinida e insondável, tão improvável como a sexualidade de Carlos/Soraia, a origem “suposta”.

O romance conta a conturbada história da personagem-narradora, atravessada por uma infância caótica, marcada pela indiferença paterna, pela dor e revolta de aperceber-se filho de um pai desajustado a este papel. Filho de um “palhaço” – como ele próprio afirma – sempre a remexer estojos e frascos de silicone, atormentado por uma sexualidade imprecisa, e de uma mãe ausente, aprisionada pela memória de um marido que nunca teve: Carlos casou-se com Judite, uma ex-professora primária que, no presente da enunciação, é uma decaída prostituta de 44 anos, alcoólatra e solitária. A infância surge, pois, em imagens dialéticas: é o lugar da perda e da morte – da negatividade, portanto –, mas também único espaço possível de retorno, sem, contudo, apontar para uma tentativa de recuperação, de plenitude do passado ou do que quer que seja. Como positividade, a infância é, aqui, um “desejo da infância”, muito mais que a sua idealização enquanto um “paraíso perdido”.

As histórias apresentadas no romance passam-se em espaços nunca pacíficos: o Bico da Areia é o lugar da saudade, mas também da ruptura, de onde Paulo foi tirado dos pais e levado ao casal de velhos que o criou, nos Anjos, e com o qual estabelece uma relação ambivalente, de amor e de resistência a este amor; o Príncipe Real – onde o pai passa a viver após embarcar na camioneta de Lisboa e abandonar a família, levando consigo no braço apenas o que se afigurou um casaco de mulher – é o local no qual Carlos atende seus clientes e recebe seus amantes: em sua casa não há lugar para Paulo e nela este será sempre um intruso. Espaços, portanto, profundamente marcados pela perda e morte dos mitos e afectos do passado ou pelos desencontros, incompatibilidades e cortes nas relações do presente.

O romance é a história dessa família lacerada, mas é também a história de diversas outras personagens que caminham, igualmente, por esse universo esfacelado pela dor e pela ausência: é a história de Gabriela, jovem namorada de Paulo, que perde o pai e se sente eternamente desamparada por essa perda; de Rui, órfão de pai e mãe, tratado com indiferença pela tia e que procura repouso no vício da heroína; ou a de Dona Amélia, velha de 73 anos que gasta os dias a vender [rebuçados] e cigarros na casa nocturna onde Soraia se apresenta; é também a história de um jornalista decadente de 62 anos, que todas as noites põe o prato de sua ex-mulher à mesa e se põe, igualmente, a sua espera, à espera do que não virá; é ainda a história de Luciano, médico lumbago e hipertenso que vê todos à sua volta como caveiras ambulantes e cuja amante, bem mais jovem que ele, nunca responde a seus gestos de carinho e atenção; ou ainda a história de Dona Helena e de seu marido – pais adoptivos de Paulo –, cuja filha, Noémia, morta aos onze anos de meningite, acaba por morrer uma segunda vez quando aquele que seria seu substituto – substituto para a dor trazida pela sua morte – vai-se embora de casa.

Em todos esses excertos de histórias, as personagens, as relações interpessoais e os espaços – notadamente as casas, esse locus familiar por excelência – são inscritos sob o signo da finitude e do precário: ao que parece, os anti-heróis de Lobo Antunes, não somente quando morrem, mas ainda e principalmente quando vivem, é pelo espaço da morte que transitam e é nele que cumprem suas atitudes, é ao tempo indefinido do morrer que eles pertencem.

Configurando-se como uma espécie de não-romance ou um romance às avessas, o livro divide-se em 32 capítulos não enumerados ou intitulados, compostos de fragmentos de histórias e suas variadas versões apresentadas fora de qualquer lógica convencional de cronologia, histórias repletas de avanços e recuos no tempo, numa torrente vertiginosa que desconhece pontuação, sintaxe ou paragrafação, valendo-se, inclusive, de procedimentos típicos da linguagem poética, como a metáfora e a metonímia, fazendo com que a narrativa esteja sempre a meio caminho entre a prosa e a poesia.

O livro obriga o leitor a uma revisão dos procedimentos de leitura empregados [n]um romance convencional: nada é aqui claramente determinado, nem o tempo, nem o espaço, nem as próprias histórias que apresentam, quase todas, versões diferentes e mesmo antagónicas sobre os destinos das personagens – que podem, com a mesma plausibilidade, ter morrido de [SIDA], ou se afogado, ou ainda se suicidado nas águas escuras do Tejo. Assim, a fragmentação do sujeito ocorre no texto – que não responde a um projecto totalizante, não havendo, pois, uma solução narrativa para tantas versões inconciliáveis e dispersas dos fragmentos de histórias apresentadas – e se dá, também, na própria superfície da página, com frases interrompidas e inacabadas e as intromissões constantes de vozes narrativas sem qualquer demarcação.

A literatura contemporânea, sem dúvida, tem aqui um d[os] seus representantes mais audaciosos e competentes no que concerne aos procedimentos de referencialização e construção textual, como talvez nunca antes se viu na história da  literatura de Língua Portuguesa. Estamos, sim, diante de uma outra forma de narrar, muito diferente daquela do romance tradicional do século XIX: uma narrativa que parece supor, em si mesma, uma certa conivência com a morte e o efémero, uma escrita que tem sua morada, paciente e perseverante, no desmoronamento. Narra-se contra a verossimilhança e a representação, num esvaziamento da mimese que parece instar por uma “apresentação” das coisas.

Mesmo com toda a subversão do realismo tradicional que o texto  opera, fisga-se ainda, como não poderia deixar de ser, alguns alinhavos de real: o romance teria sido escrito a partir da história de Ruth Bryden – grande ícone do travesti em Portugal que, semelhantemente à personagem Carlos, casou-se, teve um filho, separou-se e morreu tragicamente em 1999. O nome do narrador é o mesmo do namorado de Ruth, Paulo Oliveira, que se suicidou na praia da Fonte da Telha, aliás, mesmo lugar onde Rui, namorado de Soraia e quinze anos mais jovem que ela, é encontrado morto pela polícia. Mas o romance de Lobo Antunes afirma-se como ficção e os fragmentos de histórias nele narrados não adentram trilhas biográficas.

No “último” capítulo do livro – espécie de epílogo para todas as  histórias –, o leitor reencontra em Paulo a figura do pai, numa identificação que parece revelar uma certa dimensão cíclica das coisas ou, mais ainda, a sua permanência desde o início: as coisas não exactamente retornam porque, na verdade, nunca saíram de lá, permanecem sempre presentes, em profundidade, algumas vezes diluídas e apagadas, quase esquecidas, outras absurdamente pesadas e visíveis. A escolha de Paulo pelo nome Soraia é sua derradeira homenagem ao pai, cujo lugar passa a ocupar, numa transformação/revelação anunciada, em verso, desde a epígrafe do livro: 

Eu sou tu e tu és eu; onde estás eu estou e em todas as coisas me acho disperso. Seja o que for que encontres é a mim que encontras: e, ao encontrares-me, encontras-te a ti mesmo.[2]

As indagações que as personagens lançam, incansavelmente, a si mesmas e ao Outro em seus imensos monólogos permanecem, quase sempre, sem resposta, ecoando, incessantemente, pelo texto. Talvez porque, nesse universo de Lobo Antunes, nesse mundo de órfãos irredimidos onde absolutamente tudo arde, não há verdade alguma possível e perguntar seja, em si mesmo, um acto inacabado e sem pouso. À belíssima pergunta-título do livro segue-se, em 637 páginas, uma única certificação: de que “passamos a vida a fazer perguntas. E vamos morrer sem saber as respostas” [3].


[1] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.
[2] ANTUNES, 2001. p. 9. 
[3] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.

Referências bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. Que farei quando tudo arde? Lisboa: Dom Quixote, 2001.
Visão, Lisboa, n. 450, 18 Out. 2001.


por Denis Leandro
em Revista do Centro de Estudos Portugueses
2005

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

Mário Santos - crítica a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

A água nas trevas


António Lobo Antunes tem toda a razão ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Obra de um virtuoso, e dos mais extraordinários.

O mais difícil é começar. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"[...] , começa assim: "O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago" (p. 15). O mais difícil é acabar. Mais de 500 páginas depois, o 14º romance de António Lobo Antunes acaba assim: "Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim. [...] À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro." (pp. 550/551). 

À sombra, ou à luz, destas duas citações podia instalar-se  talvez, sem dúvida, má iluminada, precária, sombriamente redutora  uma leitura deste livro. Falar-se-ia então de todas aquelas imagens que o percorrem, remetendo para o campo metafórico do olhar, dos espelhos, dos reflexos: "lagoa de sombras" (p. 293), "ovo de penumbra" (p. 327), "a luz acesa no espelho antes de se acender na parede" (p. 400), " a chaminé não completa, quebrada como um lápis na água" (p. 428), "quando os reflexos na janela eram mais nítidos que nós" (p. 515), "os três espelhos do toucador perguntando ao mesmo tempo, uma mãe de frente, duas mães de perfil e nenhuma / que estranho / parecida com as restantes" (p. 532), "cada vez que um peixe à superfície mil pedaços de jardineiro numa tremura de água" (p. 533). O espelho em que a narradora protagonista deste livro, Maria Clara, tenta rever-se estilhaçou-se (como terá acontecido com todos nós). O que sobra é um "puzzle" de reflexos para sempre fragmentários, um labirinto de vozes que se disputam, sobrepõem e se calam. Para sempre. Mas é preciso, e é quase sempre vital, não acreditar nisso. À tentativa apaixonantemente pueril de harmonizar esses ruídos nocturnos costuma chamar-se vida. Ou ficção. Por isso, Maria Clara convoca o bafo de outras vozes, que vem embaciar o que ela vai escrevendo (talvez com o dedo sujo de investigar a vertigem da vida) na "tremura de água" da memória. Nas migalhas do espelho.

O método, cremos que se diz polifónico (sendo que neste livro a tonalidade é dada pela voz de Maria Clara), não é novo em Lobo Antunes. Não é novo, pura e simplesmente. Outra coisa é reconhecer que Lobo Antunes o executa com raríssima afinação, donde a alegada vaidade do autor, não sendo pecado algum, é ainda inteiramente justificada.Mas tudo isto, que daqui já nos parece muito, não chega para explicar por que é que este livro  esta escrita  é viciante, perigosamente viciante, fazendo de António Lobo Antunes um virtuoso, e dos mais extraordinários. Busquemos então outro sentido, que não ecoando com a mesma variedade metafórica, não é menos estruturante (perdão?) e decisivo: a audição. 

No mar oceano de palavras que é qualquer livro de António Lobo Antunes (que é sempre, mais do que um rio ou um lago, um mar, uma praia, onde morrem e renascem sucessivas ondas de palavras faiscando minúsculos relâmpagos na areia das páginas), nós somos peixes cativos daquela encantatória "vozinha em anzol" (p. 314) que nos pesca a atenção como se pingasse, profana litania, "uma torneira nas trevas" (p. 307). E é por isso, sonoramente por isso, que tem toda a razão o autor, ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Ou melhor: a várias vozes altas. É um livro para ler com os ouvidos (arte em desuso), com orelhas que olham, com "olhos de quem escuta" (p. 342). Mais do que invenção ao nível das figuras de linguagem, trata-se de uma forte e belíssima (ou seja: eficaz) estrutura poética. Coisa desusada, portanto.

Maria Clara, um nome que é claramente obscuramente simbólico, revê o passado no Estoril. E o passado, já se sabe, tem muitos nomes presentes. Nomes que recordam nomes, ou pensam recordar, ou pensamos que recordam. Por vezes com uma nostalgia pungente, "como se tivesse saudades de haver sido árvore" (p. 437), tudo "tão frágil, tão de ossos tenros sob a pele" (p. 543). "Escrever frases umas sobre as outras na esperança que ninguém compreendesse o que sinto" (p. 442), diz a voz obscura de Maria Clara. E isto não é só um resumo da poética de António Lobo Antunes, mestre (citemos o dicionário: "o artífice que era dado como apto em algum ofício e só depois o podia exercer publicamente") na arte de "calibrar palavras"  "horas e horas de trabalho a calibrar palavras" (p. 297). É o resumo de uma ética. Que por vezes incomoda "como um cisco na pálpebra" (p. 305). Para que serve um romance? Para que serve perguntar? Para que serve uma mãe que "apenas nos retratos nos pegava ao colo" (p. 181)? Um romance é o único sítio onde podemos avistar um "pássaro de rio saltitando em seixos de palavras sem se molhar nunca" (p. 534).

Frases que se esfumam numa vírgula, ou nem isso. Ecos sem saída. Vozes como nuvens "sem contornos, mudando de forma" (p. 365). Mudando de voz na mesma frase, na mesma voz. Ou nem isso. E nenhuma capaz de "distrair a dor" (p. 411), esse "vazio de bolor com que as casas [...] lentamente, morrem" (p. 364). E nós lá dentro. Dentro do livro. Personagens "doentes / de desilusão" (p. 313), habitando "um passado defunto onde um piano desafinava episódios e vozes" (p. 407). Que guardamos como aquela roupa antiga que deixou de servir e não deitamos fora. A memória nunca deixa de servir, nunca deixa de se servir de nós. E atordoa. E confunde. Como aquele "caramanchão impresso ao contrário no lago atordoava os peixes" (p. 147). E eis outra figuração do espelho.

Entre a dor e o nada, os personagens de António Lobo Antunes escolhem o ardor sem remédio da infância, desse tempo em que se adivinhavam as tardes "pela cor do limoeiro" (p. 440). Sim, "embalem-me mais depressa para o caso de eu chorar" (p. 369). A vida uma doença que se não pode prevenir. "Rage, rage against the dying of the light", diz um verso de Dylan Thomas, de quem procede o título deste livro. Agora que "o coração do linho" já não afasta "os animais de sombra" da infância, e disso fala o poema de Eugénio de Andrade no limiar do poema (em prosa?) de António Lobo Antunes. A infância, os nomes da infância dos nomes. Sim, somos todos desde sempre suficientemente idosos para morrer. Sim, como aquela a quem António Lobo Antunes dedica "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", também o leitor "há-de encontrar maneira de ler este livro". Que a leitura não é tarefa que se possa delegar sem prejuízo próprio e vaidade alheia. Como o não é a morte. Nem a vida. O mais difícil não é acabar.


por Mário Santos
04.11.2000

[nota: as citações do livro são da sua primeira edição em 2000, sendo que as páginas referidas não estão de acordo com a (1º) edição ne varietur]

Emanuel Moreira - opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Em sete actos Deus criou o Universo e a Terra, e nesses sete actos criativos o autor criou a Maria Clara. Maria Clara, o homem da casa, Clarinha, menina, e tudo menos Clara.

Ao longo do livro há toda uma sucessão de criação e destruição, cenários idílicos de um universo de fadas que alberga uma quantidade imensa de fotões no meio de uma real noite escura, onde manchas de óleo, que não óleo, impregnam o universo da narradora. Falar do enredo pouco importa em Lobo Antunes, Maria Clara, entre o psicólogo e o seu diário dá espaço a que toda a sua história tome lugar nas mais variadas perspectivas, e no balanço do enleio fica difícil perceber até que ponto a Clarinha não é apenas louca. Um sotão com um passado supostamente fechado. Um pai no hospital em que vai ser operado ao coração, acordando, uma lâmpada no tecto. A irmã, Ana Maria, que tão bela, loira, e ao contrário da Clarinha, tão filha de sua mãe. Uma avó que se perde no vício do jogo e do álcool e que para a empregada Adelaide, menina, ao contrário da sua filha, mãe de Maria Clara, que Senhora, não suporta o cheiro da pobreza. O avô a cegar, com uma bengala que quase varinha de condão. Tudo isto são meros traços, não necessariamente verdadeiros. 

Afinal, como é habitual em ALA o leitor é que tem de usar a sua chave para aceder às respostas. Tal como a Maria Clara contava as voltas na fechadura do sotão, no fim é díficil não sermos nós também a tocarmo-nos no vidro.


por Emanuel Moreira
23.04.2015

16 de maio de 2015

Sinopse de Comissão das Lágrimas (para a edição brasileira Alfaguara)


Tido como o maior autor vivo na literatura de Portugal, António Lobo Antunes tem uma abordagem detalhada, em diversos de seus romances, sobre factos marcantes na década de 1970. Em seu (...) romance, Comissão das Lágrimas, ele utiliza a história verídica de uma guerrilheira presa e executada em Angola como ponto de partida para uma narrativa sobre dor, memória e identidade.

Nascida no país africano e paciente de uma clínica psiquiátrica em Lisboa, Cristina é uma mulher cuja história é repleta de sofrimento. Afastada de Luanda aos cinco anos, ela tem vagas lembranças de seus pais na infância: a mãe, portuguesa, havia partido para a turbulenta Angola como dançarina. Ela se relacionara com um homem local, ex-padre e membro do emancipatório Movimento Popular pela Libertação de Angola.

O envolvimento do pai de Cristina com a Comissão das Lágrimas - tribunal responsável pela execução sumária dos que haviam supostamente ajudado na tentativa de derrubar o governo revolucionário do MPLA - revela à moça os horrores da família e de um país que tanto lutara pela independência. Lobo Antunes entrelaça as vozes da protagonista, da mãe e do pai, revelando o retrato de um país fraturado pela guerra.

Tomada por uma angústia que mistura passagens omníricas, realidade e memória, Cristina busca recordar o que a levou à sua condição actual, deitada na clínica lisboeta. Ao costurar factos históricos e uma inventividade ficcional, Lobo Antunes constrói um romance denso, mesclando diferentes personagens e camadas narrativas, sobre um período marcante - e sombrio - da recente história africana.


[autor desconhecido]
2013

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...