3 de julho de 2015

«Ivo Ferreira filma as cartas de amor do alferes Lobo Antunes»

Notícia do Público




D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra compila as cartas que um alferes de 28 anos, destacado para Angola, escreveu à mulher. A voz de um namorado, pai e escritor em construção, hoje o autor António Lobo Antunes, tornada personagem colectiva num filme em rodagem.


O homem entrou em casa, de madrugada, avançou para o quarto, como que guiado pela voz da mulher grávida que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de amor que integram um livro: aquele que compila as cartas escritas por um alferes médico de 28 anos, destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa.

Esses dois homens existem, o mise-en-abyme não é pura ficção. São Ivo Ferreira, realizador, e António Lobo Antunes, escritor. O primeiro, que na tal noite entrou em casa e ouviu a mulher a ler ao bebé por nascer páginas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, volta – isto é, se pensarmos numa longa-metragem anterior, Águas Mil (2009) – a deixar a sua vida ser interceptada pelas biografias dos outros como quem tacteia fantasmas, segredos da História recente de Portugal, seguindo o fluxo das histórias contadas de pais para filhos e destes para os seus filhos. O segundo, o autor das cartas, um jovem médico com sonhos de escritor mas atirado para a guerra, refugiando-se nas cartas à mulher que o esperava em Lisboa, é hoje o autor António Lobo Antunes mas era ali, no livro e no filme que Ivo adapta e que por estes dias termina a rodagem, um autor, um pai, um marido em construção – personagem interpretada pelo actor Miguel Nunes.

“O filme tem a ver com coisas que me interessam, um país a agonizar no fascismo, mas nesse cenário algo que tem a ver com crescimento”, diz Ivo Ferreira, “o crescimento de um autor, de um pensador, alguém que caminha para ser melhor, como namorado, como marido, como pai” – foram as filhas do escritor, Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, que publicaram em [2005] a edição de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra por vontade expressa da mãe de ambas que morreu em [1999].

“Embora eu não tenha tido qualquer experiência biográfica, família em África ou pai que foi para a guerra, a verdade é que a guerra vive comigo há uma vida, até pela opção política dos meus pais, pelo exílio”, continua o realizador. “E parece que continuamos com pudor em filmar isso. Eu próprio, quando miúdo, achava que aqueles homens tinham ido para a guerra porque eram pessoas más, quando afinal tinham sido empurrados. O que me interessa é saber como é que um país pode atirar os seus homens para uma situação que não faz sentido.”

Com mais de quatro dezenas de personagens, esta produção O Som e a Fúria, a partir de um argumento de Ferreira e de Edgar Medina, teve uma primeira rodagem em Abril e Maio na província do Kuando Kubango, em Angola (“numa pequena aldeia onde não havia água, não havia nada, foi uma rodagem com acidentes, doenças e tragédias”) e está agora aquartelada no campo de tiro de Alcochete para a última semana de filmagens.

É um projecto que se afigura cheio de singularidades e delicadezas: é a adaptação de uma obra, constitui o passado biográfico de quem não só ainda pertence ao mundo dos vivos como se agigantou na esfera pública e, claro, tudo isso é material de que o realizador se quis apropriar. “Também é um filme sobre a forma como as cabras num monte dão lugar às girafas na selva.” E como filmar as cartas, como evitar a reiteração pelas imagens do que uma voz-off “escreve”?

“As cartas são a nossa estrela polar”, responde Ivo Ferreira – “nossa” porque é autor, com Edgar Medina, do argumento resultante de um trabalho de investigação histórica, de entrevistas a antigos combatentes, de recolha documental, iconográfica e musical do período. “Mas fomos buscar coisas aos primeiros livros [de Lobo Antunes, Memória de Elefante e Os Cus de Judas], porque há temas recorrentes. As cartas ajudam a estruturar a narrativa. Mas não é um filme com muita voz-off, e é uma voz colectiva. As cartas são um refúgio. Escreve-se pelo amor, é pelo amor que se sobrevive. As cartas de amor surgem aqui quando o presente não pode ser vivido.”

A delicadeza do projecto está, afinal, na possibilidade de negociação entre uma história que é património dos seus protagonistas e o desejo de apropriação de um realizador. “Sei que estava a pegar numa história de pessoas que eu conhecia e que falava das suas vidas, da história de amor entre o pai e a mãe. Só quereria fazer o filme se houvesse [da parte de Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes] desejo disso, mas simultaneamente se me deixassem livre. Tive uma primeira conversa com elas, imediatamente desenhei o filme, e a partir daí foi trabalhar no argumento. E ver até que ponto continuava o interesse delas. Estou consciente do imenso compromisso e da imensa responsabilidade de não trair a confiança que me foi depositada.”


fonte: Público
texto de Vasco Câmara
foto Público
02.07.2015

2 de julho de 2015

"Sugestões para o lar" a partir de António Lobo Antunes no palco em Gaia


A ideia de adaptar crónicas de António Lobo Antunes partiu da companhia As Boas Raparigas e Nuno Pino Custódio aceitou o desafio, cujo resultado vai estar em cena no Armazém 22, em Gaia, neste primeiro fim de semana de Julho.

A peça desenrola-se a partir de vários textos do escritor português como "O Natalzinho" ou "Crónica descosida porque me comovi", falando-se de "famílias que desembocam em casas numa felicidade que o autor descreve como 'assim-assim'", explicou aos jornalistas o responsável pela dramaturgia e encenação, Nuno Pino Custódio.

"Ainda estamos a descobrir que espectáculo é este", reconheceu o encenador da peça que volta a estar em cena de 10 a 27 de Setembro.

Notícia Lusa
01.07.2015

27 de junho de 2015

António Lobo Antunes na primeira edição do FIC - Festival Internacional de Cultura de Cascais


Organizado pela LeYa e pela Câmara Municipal de Cascais, o Festival Internacional de Cultura (FIC) decorre entre 3 e 12 de Julho, com a curadoria da escritora Lídia Jorge.

«Celebrar os livros olhando-os a partir da poesia, da música, do teatro, das actividades em família, dos percursos temáticos, das artes plásticas e de outras disciplinas» é o objectivo do Festival Internacional de Cultura 2015 (FIC), que decorre em Cascais de 3 a 12 de julho, sob a curadoria da escritora Lídia Jorge. O evento é inédito e integra a programação do Bairro dos Museus. A entrada é gratuita.

Juntando todas as actividades, o FIC promoverá também uma nova Feira do Livro de Cascais onde se pode encontrar os nomes mais marcantes da literatura portuguesa. Esta será também uma oportunidade do grande público privar com escritores, artistas e outras personalidades que marcam presença no festival sob curadoria de Lídia Jorge, para quem este festival irá fazer a diferença. “Aqui há uma proposta de enraizamento das actividades culturais ligadas a Cascais de forma multidisciplinar que vão, certamente, marcar o festival onde o livro é o elemento estrutural” revela a escritora.

O comunicado do festival anuncia ainda que o evento «começa com o ciclo "Escritores em Diálogo", com António Lobo Antunes a ser entrevistado pelo irmão, o neurocirurgião João Lobo Antunes».

Do programa: 

4 de Julho, 21h30, Casa das Histórias Paula Rego | Escritores em diálogo | ANTÓNIO LOBO ANTUNES Entrevistado por JOÃO LOBO ANTUNES | Colaboração: Teatro Meridional | Participação especial: Natália Luiza


26 de junho de 2015

Pedro Fernandes: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Certa vez, Miguel Real, uma das figuras mais lúcidas da crítica literária portuguesa, afirmou que António Lobo Antunes trata-se de um caso singularíssimo e alguém não igualado por ninguém, nem antes e nem na contemporaneidade, no cenário das letras portuguesas; “seus livros revelam uma nova dobra na língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta”, diz o crítico. Provam-no a extensa obra romanesca que tem escrito, o exercício da crónica, os mais singulares na literatura em língua portuguesa contemporânea. Muito recentemente, escreveu Caminho Como Uma Casa Em Chamas que, certamente, merecerá atenção por aqui, noutra ocasião. Este texto agora publicado é, no entanto, um conjunto de notas sobre um de seus romances mais conhecidos, e um dos mais densos e mais difíceis também (António Lobo Antunes não escreve para leitores comuns, aliás não escreve para, desafia-os).

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escurafoi publicado em 2000. E ao longo desse período tem já acumulado uma série de textos críticos, sobretudo teses de doutoramento e dissertações de mestrado, parte delas certamente encantadas com o acurado fôlego com que o escritor português dedica à língua e a destituição da natureza comum do romance ou ainda por certo hermetismo linguístico. É um texto que preferiu chamá-lo de poema (está como subtítulo da obra) e que amplia um exercício de interseção dos géneros que já demonstrei noutras ocasiões, quando falei sobre Auto dos Danados e Fado Alexandrino, dois romances que incorporam na sua estrutura elementos definidores do género textual que dão título à obra. Bem, no caso desse livro ora comentado, tudo corrobora para ser uma espécie de longo poema em prosa (a escrita versicular, a predominância do uso das minúsculas para início de frase e, sobretudo, a construção linguística capaz de produzir no leitor o contacto constante com blocos de texto que são exímia poesia).

Em Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura o escritor quase se aparta do contexto histórico e ergue um universo que é mônada no universo quotidiano. É evidente que não deixa de vir a lume certos fluidos da história recente portuguesa, temas de predilecção do escritor dos primeiros romances, mas, o que se amplia aqui é a capacidade de acompanhamento do travellingmental: uma linguagem surda, como disse certa vez, que aspira dizer tudo a uma só vez, assim como é cada vez mais impressionante a capacidade de provocar no leitor uma aproximação com as movimentações do nosso interior. É um romance que se faz pela intercalação de uma diversidade de acontecimentos e cuja estrutura é fracturada, assinalada por interrupções bruscas, os cortes, elipses, e entrecortar de vozes que ora aparecem ora se dispersam sem qualquer ligação aparente com um centro de comando de um facto principal.

O facto principal é a morte do pai da narradora. Situação do acaso, mas que ampliará a ruína da casa. Estamos, pois, diante de dois temas primordiais na obra de António Lobo Antunes. É o contacto com o fim que levará Maria Clara, primeiro, a futricar o passado do pai, sempre guardado a sete-chaves e sempre apresentado como o que não tem nada a esconder seja pelo excesso de cuidado com a aparência seja pela imagem de homem sério e provedor do lar. Mas, a narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura não é uma figura comum; tem parte com aquelas criaturas que diz confiar no que vê quando na verdade está em busca da primeira oportunidade para conseguir bisbilhotar o que não se revela a olho nu.

E todo [o] romance finda por ser uma tentativa sua de buscar reconstruir o passado da família (e logo reconstruir a si), sobretudo, o desse enigma que é a figura paterna, olhando-a desde as provas (coisa pouca) que reúne sobre ele (algumas fotografias, um registo de nascimento rabiscado, uma agenda com uma ou outra anotação, e um baú de notas fiscais e restos de armas que a leva a perscrutar sobre o trabalho escuso de Luís Filipe com o contrabando de armas). No final desse parêntesis, gostaria de abrir outro para justificar uma posição contrária às acusações de que, por se aproximar demais de um subjectivismo António Lobo Antunes tenha, desde então, produzido uma obra cujo interesse sobre a realidade histórica, social e política não se constitui em elemento para compreensão de sua obra.

A afirmativa corroborada muitas vezes por parte de uma crítica mesquinha é errónea, por vários factores: um deles, já evidenciado pela própria teoria da literatura, a de que não há obra literária fechada em relação ao contexto a que pertence, sobretudo, porque a linguagem, seu instrumento, é um aparelho histórico, político e social. Outro, evidenciado nessa suspeita costurada pela narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Não seria Luís Filipe um modo de denunciar certa parcela do capital que vive às custas da dor e do horror alheio? Não seria Luís Filipe uma figura sobre o que foram as relações escusas entre as Forças Armadas, a Indústria Armamentista e o Governo sempre juntos a dizer sobre a utilidade do conflito armado em África?

Depois de Luís Filipe, a obsessão de Maria Clara, o leitor encontrará Amélia, sua mãe, a irmã Ana Maria, a avó Margarida, sempre torrando o exíguo património com os jogos de roleta no casino, Adelaide, uma figura das mais emblemáticas do romance e peça-chave no imbróglio narrativo que Clara tenta erguer e talvez uma das melhores figuras de empregada desde a Juliana de Eça de Queirós, entre outros. É um romance para envolver-se, não é dado para mentes preguiçosas. O romancista exige a presença do leitor na extensa bricolage de situações a fim de construir uma linha de enredo que, desde então, o adopte para compreender a obra sobre algum acontecimento, mesmo sabendo que a literatura antuniana não é registo, é provocação.

Por fim, e os romances que sucederam a esse cada vez mais provam isso, depois do lugar do crítico mordaz da realidade histórica e um revelador da hipocrisia que vela os mais variados recantos da sociedade e o torna para os indivíduos em pura aparência, António Lobo Antunes instala-se, agora, ao modo do que fizeram os escritores realistas, na mínima unidade institucional que é a família. Depois percorrer outras instituições, como as forças armadas e o aparelho médico, como já disse, esse núcleo parece servir de medida certa na elaboração de uma metonímia através da qual pode observar o pormenor de uma sociedade à beira de um colapso ou fim agonizante de uma civilização.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
25.06.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

21 de junho de 2015

Tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas finalista do Europese Literatuurprijs (Prémio da Literatura Europeia)

Harrie Lemmens com António Lobo Antunes
foto de João Céu e Silva - Diário de Notícias
Harrie Lemmens, tradutor holandês de António Lobo Antunes, está nomeado para o Europese Literatuurprijs - Prémio da Literatura Europeia -, que é atribuído anualmente na Holanda ao melhor livro traduzido do ano anterior publicado num país europeu.

Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, de António Lobo Antunes, pela mão de Harrie Lemmens, está na shortlist dos 6 títulos escolhidos de entre a primeira selecção dos 20 melhores títulos traduzidos que fora anunciada em Março. Esta shortlist foi conhecida no passado dia 9 de Junho e um mês depois, a 9 de Julho, será revelado o vencedor do prémio.

O semanário holandês De Groene Amsterdammer, um dos organizadores do prémio, publicou críticas aos títulos seleccionados logo após o anúncio da lista em 9 de Junho. Citamos de seguida excertos da crítica a Als een brandedend huis, feita por Christiaan Weijts. Estes excertos foram traduzidos por Ana Carvalho.

Relembramos que a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas foi a estreia mundial para a primeira publicação deste livro de António Lobo Antunes, semanas antes de ser publicado pela Dom Quixote o texto original em português, em Outubro de 2014.

*

A alma das coisas (excerto)


Uma pintura camada a camada, pensamentos que emergem para logo desaparecer, recordações, impressões, sonhos, farrapos de diálogos. Por vezes, repetições literais que, sendo temas recorrentes, reforçam a musicalidade. Este ziguezaguear sem pontuação procura imitar a ininterrupta corrente interior que é um misto de pensar, sentir, falar, sonhar e recordar.

Traduzir um livro destes requer uma mão extremamente segura, um ouvido musical e uma sensibilidade especial para encontrar o ritmo certo. O tradutor Harrie Lemmens dispõe visivelmente de todas essas qualidades, tendo sabido criar uma linguagem que traz à superfície uma camada de energia singularmente íntima.

Surpreendentamente, esta linguagem não é, de modo algum complicada. Até mesmo a gramática, embora algo caprichosa, não descamba em nenhum momento em poesia experimental conhecida pelo seu carácter impenetrável. Contrariamente ao que se poderia pensar na primeira abordagem, esta obra é justamente o oposto de impenetrável e confusa. É uma prosa certeira, esmerada, que, através de detalhes concretos, penetra naquilo que Flaubert diz ser “a alma das coisas”.


por Christiaan Weijts
em De Groene Amsterdammer
10.06.2015
[traduzido do holandês por Ana Carvalho]

13 de junho de 2015

Francisco Venâncio - opinião sobre Memória de Elefante

edição brasileira Folha de S. Paulo,
2012
[...]

O título do texto ora resenhado é bem sugestivo: trata da memória. Alguns críticos o classificaram como um texto fragmentado cuja narrativa é recheada de rememorações autobiográficas e fantasmagóricas. De facto, o texto é extremamente fragmentado, como o próprio título sugere e pode ser interpretado como uma autobiografia, pois assim como o protagonista desta história, Lobo Antunes também se formou em Medicina Psiquiátrica e exerceu sua actividade durante a guerra colonial em Angola.

A narrativa tece-se no decorrer de um dia e uma noite em torno da trajectória de um médico psiquiatra que trabalha no Hospital Miguel Bombarda: o nome do hospital não é fictício, este é o mesmo hospital no qual Lobo Antunes trabalhou. O texto tem início com a sua chegada ao hospital e término na madrugada do dia seguinte em seu apartamento no Monte Estoril. O médico psiquiatra, recém-divorciado da esposa, tem duas filhas e se mostra um sujeito deprimido, irónico, angustiado com a vida e apaixonado pela ex-esposa - dentre as declarações de amor uma que destaco:

Amo-te tanto que não sei te amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio”.

Trata-se notoriamente de uma tragédia, conforme a definição de trágico contida na Poética de Aristóteles, para quem tragédia é a imitação de uma acção acabada e inteira. Na concepção do crítico grego, inteiro é aquilo que tem começo, meio e fim, assim se um dia inteiro é composto por vinte e quatro horas, logo um texto trágico se passa no decorrer deste período, isto é, um texto trágico se passa no decorrer de um único dia. Daí, podermos afirmar que o médico psiquiatra encontra-se em uma tragédia. Também pela tessitura das acções, dramáticas e levemente melancólicas. A acção trágica dar-se-á na perda do amor: ao término do dia o médico psiquiatra “cai no canto da sereia” e se deixa enganar pelo amor superficial de uma prostituta.

Afora os detalhes apontados até aqui, Memória de Elefante é um texto excelente para quem deseja passear pelas ruas de Portugal sem sair de casa. O olhar atento e observador de António Lobo Antunes é capaz de nos transportar para além-mar em questão de minutos e conhecer não só Portugal, mas seus grandes nomes.


por Francisco Venâncio
em Indique um livro
18.05.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

23 de maio de 2015

Denis Leandro - dissertação sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


“Quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo várias interrogações que se colocam de um modo especial num travesti.”[1] Assim António Lobo Antunes resume [o] seu 15º romance, Que farei quando tudo arde?, publicado em 2001 [...]. O livro é, de facto, uma narrativa sobre a identidade e, sendo sobre a identidade, é também sobre o passado, sobre a origem e todo o emaranhado inextrincável que essa questão arrasta consigo.

Sobre o abismo da origem lança-se Paulo, narrador privilegiado no texto, que elege como pai um travesti de nome Soraia – que quando livre das plumas, lantejoulas e cabeleira postiça, dos enchumaços nas nádegas e no peito e da boca pintada, chama-se Carlos. A origem está já rasurada, tão indefinida e insondável, tão improvável como a sexualidade de Carlos/Soraia, a origem “suposta”.

O romance conta a conturbada história da personagem-narradora, atravessada por uma infância caótica, marcada pela indiferença paterna, pela dor e revolta de aperceber-se filho de um pai desajustado a este papel. Filho de um “palhaço” – como ele próprio afirma – sempre a remexer estojos e frascos de silicone, atormentado por uma sexualidade imprecisa, e de uma mãe ausente, aprisionada pela memória de um marido que nunca teve: Carlos casou-se com Judite, uma ex-professora primária que, no presente da enunciação, é uma decaída prostituta de 44 anos, alcoólatra e solitária. A infância surge, pois, em imagens dialéticas: é o lugar da perda e da morte – da negatividade, portanto –, mas também único espaço possível de retorno, sem, contudo, apontar para uma tentativa de recuperação, de plenitude do passado ou do que quer que seja. Como positividade, a infância é, aqui, um “desejo da infância”, muito mais que a sua idealização enquanto um “paraíso perdido”.

As histórias apresentadas no romance passam-se em espaços nunca pacíficos: o Bico da Areia é o lugar da saudade, mas também da ruptura, de onde Paulo foi tirado dos pais e levado ao casal de velhos que o criou, nos Anjos, e com o qual estabelece uma relação ambivalente, de amor e de resistência a este amor; o Príncipe Real – onde o pai passa a viver após embarcar na camioneta de Lisboa e abandonar a família, levando consigo no braço apenas o que se afigurou um casaco de mulher – é o local no qual Carlos atende seus clientes e recebe seus amantes: em sua casa não há lugar para Paulo e nela este será sempre um intruso. Espaços, portanto, profundamente marcados pela perda e morte dos mitos e afectos do passado ou pelos desencontros, incompatibilidades e cortes nas relações do presente.

O romance é a história dessa família lacerada, mas é também a história de diversas outras personagens que caminham, igualmente, por esse universo esfacelado pela dor e pela ausência: é a história de Gabriela, jovem namorada de Paulo, que perde o pai e se sente eternamente desamparada por essa perda; de Rui, órfão de pai e mãe, tratado com indiferença pela tia e que procura repouso no vício da heroína; ou a de Dona Amélia, velha de 73 anos que gasta os dias a vender [rebuçados] e cigarros na casa nocturna onde Soraia se apresenta; é também a história de um jornalista decadente de 62 anos, que todas as noites põe o prato de sua ex-mulher à mesa e se põe, igualmente, a sua espera, à espera do que não virá; é ainda a história de Luciano, médico lumbago e hipertenso que vê todos à sua volta como caveiras ambulantes e cuja amante, bem mais jovem que ele, nunca responde a seus gestos de carinho e atenção; ou ainda a história de Dona Helena e de seu marido – pais adoptivos de Paulo –, cuja filha, Noémia, morta aos onze anos de meningite, acaba por morrer uma segunda vez quando aquele que seria seu substituto – substituto para a dor trazida pela sua morte – vai-se embora de casa.

Em todos esses excertos de histórias, as personagens, as relações interpessoais e os espaços – notadamente as casas, esse locus familiar por excelência – são inscritos sob o signo da finitude e do precário: ao que parece, os anti-heróis de Lobo Antunes, não somente quando morrem, mas ainda e principalmente quando vivem, é pelo espaço da morte que transitam e é nele que cumprem suas atitudes, é ao tempo indefinido do morrer que eles pertencem.

Configurando-se como uma espécie de não-romance ou um romance às avessas, o livro divide-se em 32 capítulos não enumerados ou intitulados, compostos de fragmentos de histórias e suas variadas versões apresentadas fora de qualquer lógica convencional de cronologia, histórias repletas de avanços e recuos no tempo, numa torrente vertiginosa que desconhece pontuação, sintaxe ou paragrafação, valendo-se, inclusive, de procedimentos típicos da linguagem poética, como a metáfora e a metonímia, fazendo com que a narrativa esteja sempre a meio caminho entre a prosa e a poesia.

O livro obriga o leitor a uma revisão dos procedimentos de leitura empregados [n]um romance convencional: nada é aqui claramente determinado, nem o tempo, nem o espaço, nem as próprias histórias que apresentam, quase todas, versões diferentes e mesmo antagónicas sobre os destinos das personagens – que podem, com a mesma plausibilidade, ter morrido de [SIDA], ou se afogado, ou ainda se suicidado nas águas escuras do Tejo. Assim, a fragmentação do sujeito ocorre no texto – que não responde a um projecto totalizante, não havendo, pois, uma solução narrativa para tantas versões inconciliáveis e dispersas dos fragmentos de histórias apresentadas – e se dá, também, na própria superfície da página, com frases interrompidas e inacabadas e as intromissões constantes de vozes narrativas sem qualquer demarcação.

A literatura contemporânea, sem dúvida, tem aqui um d[os] seus representantes mais audaciosos e competentes no que concerne aos procedimentos de referencialização e construção textual, como talvez nunca antes se viu na história da  literatura de Língua Portuguesa. Estamos, sim, diante de uma outra forma de narrar, muito diferente daquela do romance tradicional do século XIX: uma narrativa que parece supor, em si mesma, uma certa conivência com a morte e o efémero, uma escrita que tem sua morada, paciente e perseverante, no desmoronamento. Narra-se contra a verossimilhança e a representação, num esvaziamento da mimese que parece instar por uma “apresentação” das coisas.

Mesmo com toda a subversão do realismo tradicional que o texto  opera, fisga-se ainda, como não poderia deixar de ser, alguns alinhavos de real: o romance teria sido escrito a partir da história de Ruth Bryden – grande ícone do travesti em Portugal que, semelhantemente à personagem Carlos, casou-se, teve um filho, separou-se e morreu tragicamente em 1999. O nome do narrador é o mesmo do namorado de Ruth, Paulo Oliveira, que se suicidou na praia da Fonte da Telha, aliás, mesmo lugar onde Rui, namorado de Soraia e quinze anos mais jovem que ela, é encontrado morto pela polícia. Mas o romance de Lobo Antunes afirma-se como ficção e os fragmentos de histórias nele narrados não adentram trilhas biográficas.

No “último” capítulo do livro – espécie de epílogo para todas as  histórias –, o leitor reencontra em Paulo a figura do pai, numa identificação que parece revelar uma certa dimensão cíclica das coisas ou, mais ainda, a sua permanência desde o início: as coisas não exactamente retornam porque, na verdade, nunca saíram de lá, permanecem sempre presentes, em profundidade, algumas vezes diluídas e apagadas, quase esquecidas, outras absurdamente pesadas e visíveis. A escolha de Paulo pelo nome Soraia é sua derradeira homenagem ao pai, cujo lugar passa a ocupar, numa transformação/revelação anunciada, em verso, desde a epígrafe do livro: 

Eu sou tu e tu és eu; onde estás eu estou e em todas as coisas me acho disperso. Seja o que for que encontres é a mim que encontras: e, ao encontrares-me, encontras-te a ti mesmo.[2]

As indagações que as personagens lançam, incansavelmente, a si mesmas e ao Outro em seus imensos monólogos permanecem, quase sempre, sem resposta, ecoando, incessantemente, pelo texto. Talvez porque, nesse universo de Lobo Antunes, nesse mundo de órfãos irredimidos onde absolutamente tudo arde, não há verdade alguma possível e perguntar seja, em si mesmo, um acto inacabado e sem pouso. À belíssima pergunta-título do livro segue-se, em 637 páginas, uma única certificação: de que “passamos a vida a fazer perguntas. E vamos morrer sem saber as respostas” [3].


[1] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.
[2] ANTUNES, 2001. p. 9. 
[3] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.

Referências bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. Que farei quando tudo arde? Lisboa: Dom Quixote, 2001.
Visão, Lisboa, n. 450, 18 Out. 2001.


por Denis Leandro
em Revista do Centro de Estudos Portugueses
2005

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

Mário Santos - crítica a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

A água nas trevas


António Lobo Antunes tem toda a razão ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Obra de um virtuoso, e dos mais extraordinários.

O mais difícil é começar. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"[...] , começa assim: "O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago" (p. 15). O mais difícil é acabar. Mais de 500 páginas depois, o 14º romance de António Lobo Antunes acaba assim: "Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim. [...] À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro." (pp. 550/551). 

À sombra, ou à luz, destas duas citações podia instalar-se  talvez, sem dúvida, má iluminada, precária, sombriamente redutora  uma leitura deste livro. Falar-se-ia então de todas aquelas imagens que o percorrem, remetendo para o campo metafórico do olhar, dos espelhos, dos reflexos: "lagoa de sombras" (p. 293), "ovo de penumbra" (p. 327), "a luz acesa no espelho antes de se acender na parede" (p. 400), " a chaminé não completa, quebrada como um lápis na água" (p. 428), "quando os reflexos na janela eram mais nítidos que nós" (p. 515), "os três espelhos do toucador perguntando ao mesmo tempo, uma mãe de frente, duas mães de perfil e nenhuma / que estranho / parecida com as restantes" (p. 532), "cada vez que um peixe à superfície mil pedaços de jardineiro numa tremura de água" (p. 533). O espelho em que a narradora protagonista deste livro, Maria Clara, tenta rever-se estilhaçou-se (como terá acontecido com todos nós). O que sobra é um "puzzle" de reflexos para sempre fragmentários, um labirinto de vozes que se disputam, sobrepõem e se calam. Para sempre. Mas é preciso, e é quase sempre vital, não acreditar nisso. À tentativa apaixonantemente pueril de harmonizar esses ruídos nocturnos costuma chamar-se vida. Ou ficção. Por isso, Maria Clara convoca o bafo de outras vozes, que vem embaciar o que ela vai escrevendo (talvez com o dedo sujo de investigar a vertigem da vida) na "tremura de água" da memória. Nas migalhas do espelho.

O método, cremos que se diz polifónico (sendo que neste livro a tonalidade é dada pela voz de Maria Clara), não é novo em Lobo Antunes. Não é novo, pura e simplesmente. Outra coisa é reconhecer que Lobo Antunes o executa com raríssima afinação, donde a alegada vaidade do autor, não sendo pecado algum, é ainda inteiramente justificada.Mas tudo isto, que daqui já nos parece muito, não chega para explicar por que é que este livro  esta escrita  é viciante, perigosamente viciante, fazendo de António Lobo Antunes um virtuoso, e dos mais extraordinários. Busquemos então outro sentido, que não ecoando com a mesma variedade metafórica, não é menos estruturante (perdão?) e decisivo: a audição. 

No mar oceano de palavras que é qualquer livro de António Lobo Antunes (que é sempre, mais do que um rio ou um lago, um mar, uma praia, onde morrem e renascem sucessivas ondas de palavras faiscando minúsculos relâmpagos na areia das páginas), nós somos peixes cativos daquela encantatória "vozinha em anzol" (p. 314) que nos pesca a atenção como se pingasse, profana litania, "uma torneira nas trevas" (p. 307). E é por isso, sonoramente por isso, que tem toda a razão o autor, ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Ou melhor: a várias vozes altas. É um livro para ler com os ouvidos (arte em desuso), com orelhas que olham, com "olhos de quem escuta" (p. 342). Mais do que invenção ao nível das figuras de linguagem, trata-se de uma forte e belíssima (ou seja: eficaz) estrutura poética. Coisa desusada, portanto.

Maria Clara, um nome que é claramente obscuramente simbólico, revê o passado no Estoril. E o passado, já se sabe, tem muitos nomes presentes. Nomes que recordam nomes, ou pensam recordar, ou pensamos que recordam. Por vezes com uma nostalgia pungente, "como se tivesse saudades de haver sido árvore" (p. 437), tudo "tão frágil, tão de ossos tenros sob a pele" (p. 543). "Escrever frases umas sobre as outras na esperança que ninguém compreendesse o que sinto" (p. 442), diz a voz obscura de Maria Clara. E isto não é só um resumo da poética de António Lobo Antunes, mestre (citemos o dicionário: "o artífice que era dado como apto em algum ofício e só depois o podia exercer publicamente") na arte de "calibrar palavras"  "horas e horas de trabalho a calibrar palavras" (p. 297). É o resumo de uma ética. Que por vezes incomoda "como um cisco na pálpebra" (p. 305). Para que serve um romance? Para que serve perguntar? Para que serve uma mãe que "apenas nos retratos nos pegava ao colo" (p. 181)? Um romance é o único sítio onde podemos avistar um "pássaro de rio saltitando em seixos de palavras sem se molhar nunca" (p. 534).

Frases que se esfumam numa vírgula, ou nem isso. Ecos sem saída. Vozes como nuvens "sem contornos, mudando de forma" (p. 365). Mudando de voz na mesma frase, na mesma voz. Ou nem isso. E nenhuma capaz de "distrair a dor" (p. 411), esse "vazio de bolor com que as casas [...] lentamente, morrem" (p. 364). E nós lá dentro. Dentro do livro. Personagens "doentes / de desilusão" (p. 313), habitando "um passado defunto onde um piano desafinava episódios e vozes" (p. 407). Que guardamos como aquela roupa antiga que deixou de servir e não deitamos fora. A memória nunca deixa de servir, nunca deixa de se servir de nós. E atordoa. E confunde. Como aquele "caramanchão impresso ao contrário no lago atordoava os peixes" (p. 147). E eis outra figuração do espelho.

Entre a dor e o nada, os personagens de António Lobo Antunes escolhem o ardor sem remédio da infância, desse tempo em que se adivinhavam as tardes "pela cor do limoeiro" (p. 440). Sim, "embalem-me mais depressa para o caso de eu chorar" (p. 369). A vida uma doença que se não pode prevenir. "Rage, rage against the dying of the light", diz um verso de Dylan Thomas, de quem procede o título deste livro. Agora que "o coração do linho" já não afasta "os animais de sombra" da infância, e disso fala o poema de Eugénio de Andrade no limiar do poema (em prosa?) de António Lobo Antunes. A infância, os nomes da infância dos nomes. Sim, somos todos desde sempre suficientemente idosos para morrer. Sim, como aquela a quem António Lobo Antunes dedica "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", também o leitor "há-de encontrar maneira de ler este livro". Que a leitura não é tarefa que se possa delegar sem prejuízo próprio e vaidade alheia. Como o não é a morte. Nem a vida. O mais difícil não é acabar.


por Mário Santos
04.11.2000

[nota: as citações do livro são da sua primeira edição em 2000, sendo que as páginas referidas não estão de acordo com a (1º) edição ne varietur]

Emanuel Moreira - opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Em sete actos Deus criou o Universo e a Terra, e nesses sete actos criativos o autor criou a Maria Clara. Maria Clara, o homem da casa, Clarinha, menina, e tudo menos Clara.

Ao longo do livro há toda uma sucessão de criação e destruição, cenários idílicos de um universo de fadas que alberga uma quantidade imensa de fotões no meio de uma real noite escura, onde manchas de óleo, que não óleo, impregnam o universo da narradora. Falar do enredo pouco importa em Lobo Antunes, Maria Clara, entre o psicólogo e o seu diário dá espaço a que toda a sua história tome lugar nas mais variadas perspectivas, e no balanço do enleio fica difícil perceber até que ponto a Clarinha não é apenas louca. Um sotão com um passado supostamente fechado. Um pai no hospital em que vai ser operado ao coração, acordando, uma lâmpada no tecto. A irmã, Ana Maria, que tão bela, loira, e ao contrário da Clarinha, tão filha de sua mãe. Uma avó que se perde no vício do jogo e do álcool e que para a empregada Adelaide, menina, ao contrário da sua filha, mãe de Maria Clara, que Senhora, não suporta o cheiro da pobreza. O avô a cegar, com uma bengala que quase varinha de condão. Tudo isto são meros traços, não necessariamente verdadeiros. 

Afinal, como é habitual em ALA o leitor é que tem de usar a sua chave para aceder às respostas. Tal como a Maria Clara contava as voltas na fechadura do sotão, no fim é díficil não sermos nós também a tocarmo-nos no vidro.


por Emanuel Moreira
23.04.2015

16 de maio de 2015

Sinopse de Comissão das Lágrimas (para a edição brasileira Alfaguara)


Tido como o maior autor vivo na literatura de Portugal, António Lobo Antunes tem uma abordagem detalhada, em diversos de seus romances, sobre factos marcantes na década de 1970. Em seu (...) romance, Comissão das Lágrimas, ele utiliza a história verídica de uma guerrilheira presa e executada em Angola como ponto de partida para uma narrativa sobre dor, memória e identidade.

Nascida no país africano e paciente de uma clínica psiquiátrica em Lisboa, Cristina é uma mulher cuja história é repleta de sofrimento. Afastada de Luanda aos cinco anos, ela tem vagas lembranças de seus pais na infância: a mãe, portuguesa, havia partido para a turbulenta Angola como dançarina. Ela se relacionara com um homem local, ex-padre e membro do emancipatório Movimento Popular pela Libertação de Angola.

O envolvimento do pai de Cristina com a Comissão das Lágrimas - tribunal responsável pela execução sumária dos que haviam supostamente ajudado na tentativa de derrubar o governo revolucionário do MPLA - revela à moça os horrores da família e de um país que tanto lutara pela independência. Lobo Antunes entrelaça as vozes da protagonista, da mãe e do pai, revelando o retrato de um país fraturado pela guerra.

Tomada por uma angústia que mistura passagens omníricas, realidade e memória, Cristina busca recordar o que a levou à sua condição actual, deitada na clínica lisboeta. Ao costurar factos históricos e uma inventividade ficcional, Lobo Antunes constrói um romance denso, mesclando diferentes personagens e camadas narrativas, sobre um período marcante - e sombrio - da recente história africana.


[autor desconhecido]
2013

7 de maio de 2015

PÚBLICO: Lobo Antunes, autor de adolescência de Maria Rueff | ANTÓNIO E MARIA NO CCB


Levando para palco a sua gratidão por um livro que lhe abriu o mundo, Maria Rueff atira-se para o palco do CCB com palavras de António Lobo Antunes. António e Maria estreia-se esta quinta, assente num universo feminino e numa heroicidade doméstica.
António e Maria. António é António Lobo Antunes. Maria é Maria Rueff. A peça que se estreia esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém é um encontro entre os dois, nascido da relação da actriz com o seu autor de adolescência.
“Não sou uma especialista, sou uma daquelas fãs tipo dos Beatles”, confessa Rueff. E, por essa mesma razão, por estar longe de quaisquer tentações académicas, propôs-se entrar no mundo do seu autor através do olhar de leitora, de uma leitora atraída “pelas vozes das mulheres e pelo humor” que encontra na escrita de Lobo Antunes. “Profundo conhecedor da alma feminina”, chama-lhe; “uma mão na tragicomédia que me encanta especialmente”, gaba-lhe.
Ainda hoje, muitos anos depois, se lhe pedem que nomeie o livro da sua vida, é fácil a Rueff colocar Memória de Elefante à frente de todos os outros. Foi um livro que lhe “abriu o mundo”. “O mundo”, concretiza, “no sentido de como a dor se pode transformar em acidez, ironia, de como se pode focar aquilo que nos interessa.” O que a interessou, desde então, não foi tanto a Guerra Colonial que parece estar sempre apensa ao nome do escritor, mas antes a forma como Lobo Antunes “dá heroicidade aos aparentemente simples e pouco importantes”. E lista, de cor e sem ordem particular: “a porteira, o taxista, a amante do capitão, a donazinha de boutique”. António e Maria é, por isso, uma peça de teatro real, uma confluência de vozes femininas que se instalam no corpo de Maria Rueff, mas também uma peça de teatro camuflada, uma forma menos evidente de a actriz manifestar a sua gratidão.
Rueff fala da passagem para o palco de um universo “doméstico”. Sentado à mesma mesa, o escritor Rui Cardoso Martins acrescenta-lhe um ponto: “doméstico sublime”. E o encenador Miguel Seabra, do outro lado da mesmíssima mesa, contribui com a ideia de que “Lobo Antunes mostra as feridas, as evidências – algumas incómodas – em que reparamos mas não vemos”. “Ou seja, põe a nu o macaco no nariz, aponta a remela, mas ao mesmo tempo diz que isso não é mais do que uma remela.” “Todos temos remelas”, desvaloriza Rueff. “Todos temos um armário cheio de pó e insectos mortos”, diz ainda Cardoso Martins.
Escrita com tesoura
Há cinco anos que Maria Rueff falara originalmente ao encenador do Teatro Meridional, Miguel Seabra, nesta sua vontade de se lançar para dentro dos livros de Lobo Antunes. Mas o projecto foi ficando no frigorífico. “Neste momento de vida em que tenho o caminho feito, como mulher e criadora”, justifica, “apeteceu-me voltar ao ringue, à escola, procurar que cordas não toquei até hoje. Uma das coisas que me assusta profundamente é a ideia de cristalizar e fazer mais do mesmo. E encontrei no Miguel um apoiante a este voo às estranhas.” O desafio respondia em pleno às características das produções do Meridional, cuja actividade se centra no recurso a textos de autores lusófonos, preferencialmente não teatrais e com uma forte ênfase na interpretação do actor.
O outro apoiante de Maria Rueff seria o autor Rui Cardoso Martins, amigo próximo de Lobo Antunes e a quem foi pedido que criasse um texto de teatro a partir daquela vastíssima escrita romanesca e cronista. Assim fez, declarando que escreveu este espectáculo com uma tesoura. “Peguei nos livros todos dele, num trabalho que se pode dizer que é mais ou menos a maneira como ele trabalha, coisas que saltam de um lado para o outro, numa linguagem muito simples.” E foi recortando as frases do mestre, até encontrar “uma única voz múltipla” que misturasse António e Maria “numa construção do mundo que tem muito que ver com Portugal, com os modestos, com os pobres”. Eis António e Maria. Ou António em Maria.

06.05.2015
texto de Gonçalo Frota
fotografia Público

6 de maio de 2015

António e Maria pelo Teatro Meridional - a partir da obra de António Lobo Antunes



Centro Cultural de Belém, Pequeno Auditório

Para os dias 7, 8, 9, 11, 14, 15 e 16 de Maio às 21h e no dia 10 às 16h

Monólogo de Maria Rueff a partir da obra de António Lobo Antunes

Encenação - Miguel Seabra
Interpretação - Maria Rueff

Autor - António Lobo Antunes
Dramaturgia e adaptação - Rui Cardoso Martins

Espaço cénico e figurinos - Marta Carreiras
Música original e espaço sonoro - Rui Rebelo
Assistência de encenação e direcção de cena - Vítor Alves da Silva
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Rafael Freire
Produção executiva - Natália Alves
Assessoria de gestão - Mónica Almeida
Direcção artística do Teatro Meridional - Miguel Seabra e Natália Luiza

Co-produção | CCB | Teatro Meridional

3 de maio de 2015

Silvie Špánková - dissertação sobre Auto dos Danados

Edição comemorativa 30 anos
1985-2015
PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA: CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO EM AUTO DOS DANADOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

da Introdução:

O romance Auto dos Danados de António Lobo Antunes foi publicado em 1985 e[,] como a primeira obra deste autor[,] foi aplaudido em unanimidade pela crítica, sendo galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O júri da APE, ao defender a escolha do livro de Lobo Antunes, afirmou que se tratava de um romance que abria novas perspectivas e inaugurava, no contexto da obra do autor, os processos de escrita inovadores.

Na realidade, o romance Auto dos Danados mantém muitas características da escrita prévia do autor, sobretudo no que diz respeito, tematicamente, à observação minuciosa da sociedade portuguesa, focada nos seus aspectos mais desagradáveis e vulneráveis. Quanto ao tratamento formal, o presente romance revela inovações a nível da estrutura narrativa, em que assistimos a uma maior objectivação do mundo ficcional, conseguida pela técnica da multiplicação de perspectivas.

Para captar devidamente a mensagem deste romance de uma mundividência catastrófica que apresenta um mundo ficcional deformado e hiperbolizado, torna-se necessário decifrar os indícios que apontam para uma crítica mordaz, um ataque violento aos males e excessos da sociedade portuguesa pré-25 de Abril. Tais indícios formam uma rede de signos distribuídos pelos planos da história e do discurso da narrativa. Uma possibilidade da sua detecção poderia passar, segundo a nossa percepção, pela análise da categoria do espaço e das suas relações com a acção e personagens do romance.

Carlos Reis, no Dicionário da Narratologia, divide o espaço em físico, social e psicológico, em que o primeiro é definido pelas coordenadas espaciais estáticas, o segundo é configurado em função de tipos e figurantes, descrevendo ambientes que ilustram “vícios e deformações da sociedade” e o terceiro é constituído em função de “evidenciar atmosferas densas e perturbantes, projectadas sobre o comportamento das personagens”. A nossa análise leva em consideração esta divisão, embora não seja possível restringir toda a matéria a estudar a uma classificação tão limitada. Certo desequilíbrio existe na concepção do espaço psicológico que diz respeito, simultaneamente, a dois planos completamente diferentes: ao plano do discurso, em que o espaço psicológico é manifestado pelo monólogo (interior), e ao plano da história em que se movimentam as personagens nos ambientes que desta vez se projectam sobre os seus comportamentos e sensações.

Uma classificação satisfatória em relação à problemática da categoria do espaço na literatura foi oferecida por Janusz Sławiński que usa o termo de espaciologia literária, decomposta em vários tipos de reflexão (estudo da morfologia da obra literária, das relações semióticas entre literatura e cultura, do estudo dos arquétipos colocados na subconsciência colectiva humana etc.). Dentro desta problemática, Sławiński delimita uma área da reflexão sobre o espaço como um fenómeno que poderia ser explicado pela morfologia da obra literária e que compreende um dos princípios do plano de composição e da temática da obra literária. Consequentemente, Sławiński demarca uma subdivisão em descrição, cenário e valores adicionais. Para o nosso estudo será fundamental a categoria do cenário que adopta, na concepção de Sławiński, três funções: 1. Demarca e classifica a área de extensão da rede de personagens, 2. É um conjunto de localizações – de acontecimentos, situações, em que participam as personagens, 3. Representa um indicador de certa estratégia de comunicação no âmbito da obra. Nesta classificação, a primeira e segunda função pertencem, então, à problemática do espaço representado na obra (plano da história), enquanto a terceira aponta para as relações entre o espaço representado e a sua representação (plano do discurso). Tal distinção servirá de apoio metodológico para as nossas reflexões sobre o romance de Lobo Antunes, a fim de podermos verificar, em linhas gerais, como a configuração do espaço determina a interpretação da obra.


por Silvie Špánková
Universidade de Brno 
Studia Minora Facultatis Philosophicae Universitatis Brunensis
2006

2 de maio de 2015

Cannibale Claro sur Au bord des fleuves qui vont

Christian Bourgois (2015)
Une exaltation inédite

Dans Au bord des fleuves qui vont, le dernier roman d'António Lobo Antunes paru récemment en traduction, le lecteur est confronté à une défragmentation du récit d'une impressionnante subtilité. Le dispositif est le suivant: un homme, qui porte le nom de l'auteur, est traité à l'hôpital suite à la découverte d'une grosseur possiblement maligne – une "bogue". Abruti par les médicaments, éprouvé par l'opération, hanté par la peur de mourir, l'esprit du narrateur va alors se changer en kaléidoscope, et toutes les couleurs et nuances du passé – le sien, celui des siens, de ses ancêtres – seront projetés à même la page selon une alternance surprenante: à un paragraphe où les souvenirs s'enchâssent et se bousculent succède une phrase prononcée, dans le présent ou le passé, instaurant un rythme de contraction et de dilatation. Bien sûr, dit comme ça, on pourrait avoir l'impression d'une immense confusion. Mais précisément, c'est la confusion qui est ici au cœur du livre. Et c'est, pour un écrivain, un sacré défi: comment écrire la confusion sans qu'elle contamine jusqu'à la lecture elle-même? 

Plutôt qu'un flux de conscience, António Lobo Antunes travaille la pensée erratique de son double comme un mécanisme récepteur, qui capte des bribes, et dans le même temps s'interroge sur leur pertinence, la raison de leur surgissement, etc. Au fil des pages, des motifs se dessinent, qui reviennent, de plus en en plus net ou entêtant. Travail de précision qui permet au lecteur de discerner, dans la trame en apparence floue des souvenirs, les différents fils de la mémoire et de l'expérience. Ainsi de ce paragraphe qui contient en germe nombre des motifs récurrents:

"et on ne s'est pas soucié de sa souffrance ni de ses joues mouillées, il se souvenait du bruit de la terre sur le tambour de l'échine, d'un lombric devenu deux d'un coup de sarcloir et les deux se dévorant goulûment et du lézard apprenant à être pierre dans une brèche du mur et sur ce son père jouant au tennis à l'hôtel où logeaient les Anglais du wolfram et lui courant pour attraper les balles qui rebondissaient par-dessus le grillage, il a ramassé la dernière à côté de la piscine où se séchait une étrangère blonde et il est resté la balle contre la poitrine à apprendre à être pierre lui aussi dans une exaltation inédite"

Au bord des fleuves qui vont travaille le délitement de la conscience pour mieux explorer la magie des souvenirs, qui passent d'une génération à l'autre et tissent des toiles que le temps n'a de cesse de déchirer. On songe souvent à l'œuvre de Claude Simon, à cette façon de tâter la fragile couture entre les choses vécues et le souvenir des choses vécues, cette obsession pour la persistance des formes au cœur du chaos. La confusion comme forme d'exaltation: cela n'était possible, bien sûr, qu'au prix d'un travail patient et discret d'agencements, où fluidité et rupture sont les véritables protagonistes de ce voyage dans les limbes – voyage que la traduction  – magnifique – intense – précise – empathique – de Dominique Nédellec rend non seulement possible mais précieux, indispensable.


par Cannibale Claro
12.03.2015

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...