7 de maio de 2015

PÚBLICO: Lobo Antunes, autor de adolescência de Maria Rueff | ANTÓNIO E MARIA NO CCB


Levando para palco a sua gratidão por um livro que lhe abriu o mundo, Maria Rueff atira-se para o palco do CCB com palavras de António Lobo Antunes. António e Maria estreia-se esta quinta, assente num universo feminino e numa heroicidade doméstica.
António e Maria. António é António Lobo Antunes. Maria é Maria Rueff. A peça que se estreia esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém é um encontro entre os dois, nascido da relação da actriz com o seu autor de adolescência.
“Não sou uma especialista, sou uma daquelas fãs tipo dos Beatles”, confessa Rueff. E, por essa mesma razão, por estar longe de quaisquer tentações académicas, propôs-se entrar no mundo do seu autor através do olhar de leitora, de uma leitora atraída “pelas vozes das mulheres e pelo humor” que encontra na escrita de Lobo Antunes. “Profundo conhecedor da alma feminina”, chama-lhe; “uma mão na tragicomédia que me encanta especialmente”, gaba-lhe.
Ainda hoje, muitos anos depois, se lhe pedem que nomeie o livro da sua vida, é fácil a Rueff colocar Memória de Elefante à frente de todos os outros. Foi um livro que lhe “abriu o mundo”. “O mundo”, concretiza, “no sentido de como a dor se pode transformar em acidez, ironia, de como se pode focar aquilo que nos interessa.” O que a interessou, desde então, não foi tanto a Guerra Colonial que parece estar sempre apensa ao nome do escritor, mas antes a forma como Lobo Antunes “dá heroicidade aos aparentemente simples e pouco importantes”. E lista, de cor e sem ordem particular: “a porteira, o taxista, a amante do capitão, a donazinha de boutique”. António e Maria é, por isso, uma peça de teatro real, uma confluência de vozes femininas que se instalam no corpo de Maria Rueff, mas também uma peça de teatro camuflada, uma forma menos evidente de a actriz manifestar a sua gratidão.
Rueff fala da passagem para o palco de um universo “doméstico”. Sentado à mesma mesa, o escritor Rui Cardoso Martins acrescenta-lhe um ponto: “doméstico sublime”. E o encenador Miguel Seabra, do outro lado da mesmíssima mesa, contribui com a ideia de que “Lobo Antunes mostra as feridas, as evidências – algumas incómodas – em que reparamos mas não vemos”. “Ou seja, põe a nu o macaco no nariz, aponta a remela, mas ao mesmo tempo diz que isso não é mais do que uma remela.” “Todos temos remelas”, desvaloriza Rueff. “Todos temos um armário cheio de pó e insectos mortos”, diz ainda Cardoso Martins.
Escrita com tesoura
Há cinco anos que Maria Rueff falara originalmente ao encenador do Teatro Meridional, Miguel Seabra, nesta sua vontade de se lançar para dentro dos livros de Lobo Antunes. Mas o projecto foi ficando no frigorífico. “Neste momento de vida em que tenho o caminho feito, como mulher e criadora”, justifica, “apeteceu-me voltar ao ringue, à escola, procurar que cordas não toquei até hoje. Uma das coisas que me assusta profundamente é a ideia de cristalizar e fazer mais do mesmo. E encontrei no Miguel um apoiante a este voo às estranhas.” O desafio respondia em pleno às características das produções do Meridional, cuja actividade se centra no recurso a textos de autores lusófonos, preferencialmente não teatrais e com uma forte ênfase na interpretação do actor.
O outro apoiante de Maria Rueff seria o autor Rui Cardoso Martins, amigo próximo de Lobo Antunes e a quem foi pedido que criasse um texto de teatro a partir daquela vastíssima escrita romanesca e cronista. Assim fez, declarando que escreveu este espectáculo com uma tesoura. “Peguei nos livros todos dele, num trabalho que se pode dizer que é mais ou menos a maneira como ele trabalha, coisas que saltam de um lado para o outro, numa linguagem muito simples.” E foi recortando as frases do mestre, até encontrar “uma única voz múltipla” que misturasse António e Maria “numa construção do mundo que tem muito que ver com Portugal, com os modestos, com os pobres”. Eis António e Maria. Ou António em Maria.

06.05.2015
texto de Gonçalo Frota
fotografia Público

6 de maio de 2015

António e Maria pelo Teatro Meridional - a partir da obra de António Lobo Antunes



Centro Cultural de Belém, Pequeno Auditório

Para os dias 7, 8, 9, 11, 14, 15 e 16 de Maio às 21h e no dia 10 às 16h

Monólogo de Maria Rueff a partir da obra de António Lobo Antunes

Encenação - Miguel Seabra
Interpretação - Maria Rueff

Autor - António Lobo Antunes
Dramaturgia e adaptação - Rui Cardoso Martins

Espaço cénico e figurinos - Marta Carreiras
Música original e espaço sonoro - Rui Rebelo
Assistência de encenação e direcção de cena - Vítor Alves da Silva
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Rafael Freire
Produção executiva - Natália Alves
Assessoria de gestão - Mónica Almeida
Direcção artística do Teatro Meridional - Miguel Seabra e Natália Luiza

Co-produção | CCB | Teatro Meridional

3 de maio de 2015

Silvie Špánková - dissertação sobre Auto dos Danados

Edição comemorativa 30 anos
1985-2015
PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA: CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO EM AUTO DOS DANADOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

da Introdução:

O romance Auto dos Danados de António Lobo Antunes foi publicado em 1985 e[,] como a primeira obra deste autor[,] foi aplaudido em unanimidade pela crítica, sendo galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O júri da APE, ao defender a escolha do livro de Lobo Antunes, afirmou que se tratava de um romance que abria novas perspectivas e inaugurava, no contexto da obra do autor, os processos de escrita inovadores.

Na realidade, o romance Auto dos Danados mantém muitas características da escrita prévia do autor, sobretudo no que diz respeito, tematicamente, à observação minuciosa da sociedade portuguesa, focada nos seus aspectos mais desagradáveis e vulneráveis. Quanto ao tratamento formal, o presente romance revela inovações a nível da estrutura narrativa, em que assistimos a uma maior objectivação do mundo ficcional, conseguida pela técnica da multiplicação de perspectivas.

Para captar devidamente a mensagem deste romance de uma mundividência catastrófica que apresenta um mundo ficcional deformado e hiperbolizado, torna-se necessário decifrar os indícios que apontam para uma crítica mordaz, um ataque violento aos males e excessos da sociedade portuguesa pré-25 de Abril. Tais indícios formam uma rede de signos distribuídos pelos planos da história e do discurso da narrativa. Uma possibilidade da sua detecção poderia passar, segundo a nossa percepção, pela análise da categoria do espaço e das suas relações com a acção e personagens do romance.

Carlos Reis, no Dicionário da Narratologia, divide o espaço em físico, social e psicológico, em que o primeiro é definido pelas coordenadas espaciais estáticas, o segundo é configurado em função de tipos e figurantes, descrevendo ambientes que ilustram “vícios e deformações da sociedade” e o terceiro é constituído em função de “evidenciar atmosferas densas e perturbantes, projectadas sobre o comportamento das personagens”. A nossa análise leva em consideração esta divisão, embora não seja possível restringir toda a matéria a estudar a uma classificação tão limitada. Certo desequilíbrio existe na concepção do espaço psicológico que diz respeito, simultaneamente, a dois planos completamente diferentes: ao plano do discurso, em que o espaço psicológico é manifestado pelo monólogo (interior), e ao plano da história em que se movimentam as personagens nos ambientes que desta vez se projectam sobre os seus comportamentos e sensações.

Uma classificação satisfatória em relação à problemática da categoria do espaço na literatura foi oferecida por Janusz Sławiński que usa o termo de espaciologia literária, decomposta em vários tipos de reflexão (estudo da morfologia da obra literária, das relações semióticas entre literatura e cultura, do estudo dos arquétipos colocados na subconsciência colectiva humana etc.). Dentro desta problemática, Sławiński delimita uma área da reflexão sobre o espaço como um fenómeno que poderia ser explicado pela morfologia da obra literária e que compreende um dos princípios do plano de composição e da temática da obra literária. Consequentemente, Sławiński demarca uma subdivisão em descrição, cenário e valores adicionais. Para o nosso estudo será fundamental a categoria do cenário que adopta, na concepção de Sławiński, três funções: 1. Demarca e classifica a área de extensão da rede de personagens, 2. É um conjunto de localizações – de acontecimentos, situações, em que participam as personagens, 3. Representa um indicador de certa estratégia de comunicação no âmbito da obra. Nesta classificação, a primeira e segunda função pertencem, então, à problemática do espaço representado na obra (plano da história), enquanto a terceira aponta para as relações entre o espaço representado e a sua representação (plano do discurso). Tal distinção servirá de apoio metodológico para as nossas reflexões sobre o romance de Lobo Antunes, a fim de podermos verificar, em linhas gerais, como a configuração do espaço determina a interpretação da obra.


por Silvie Špánková
Universidade de Brno 
Studia Minora Facultatis Philosophicae Universitatis Brunensis
2006

2 de maio de 2015

Cannibale Claro sur Au bord des fleuves qui vont

Christian Bourgois (2015)
Une exaltation inédite

Dans Au bord des fleuves qui vont, le dernier roman d'António Lobo Antunes paru récemment en traduction, le lecteur est confronté à une défragmentation du récit d'une impressionnante subtilité. Le dispositif est le suivant: un homme, qui porte le nom de l'auteur, est traité à l'hôpital suite à la découverte d'une grosseur possiblement maligne – une "bogue". Abruti par les médicaments, éprouvé par l'opération, hanté par la peur de mourir, l'esprit du narrateur va alors se changer en kaléidoscope, et toutes les couleurs et nuances du passé – le sien, celui des siens, de ses ancêtres – seront projetés à même la page selon une alternance surprenante: à un paragraphe où les souvenirs s'enchâssent et se bousculent succède une phrase prononcée, dans le présent ou le passé, instaurant un rythme de contraction et de dilatation. Bien sûr, dit comme ça, on pourrait avoir l'impression d'une immense confusion. Mais précisément, c'est la confusion qui est ici au cœur du livre. Et c'est, pour un écrivain, un sacré défi: comment écrire la confusion sans qu'elle contamine jusqu'à la lecture elle-même? 

Plutôt qu'un flux de conscience, António Lobo Antunes travaille la pensée erratique de son double comme un mécanisme récepteur, qui capte des bribes, et dans le même temps s'interroge sur leur pertinence, la raison de leur surgissement, etc. Au fil des pages, des motifs se dessinent, qui reviennent, de plus en en plus net ou entêtant. Travail de précision qui permet au lecteur de discerner, dans la trame en apparence floue des souvenirs, les différents fils de la mémoire et de l'expérience. Ainsi de ce paragraphe qui contient en germe nombre des motifs récurrents:

"et on ne s'est pas soucié de sa souffrance ni de ses joues mouillées, il se souvenait du bruit de la terre sur le tambour de l'échine, d'un lombric devenu deux d'un coup de sarcloir et les deux se dévorant goulûment et du lézard apprenant à être pierre dans une brèche du mur et sur ce son père jouant au tennis à l'hôtel où logeaient les Anglais du wolfram et lui courant pour attraper les balles qui rebondissaient par-dessus le grillage, il a ramassé la dernière à côté de la piscine où se séchait une étrangère blonde et il est resté la balle contre la poitrine à apprendre à être pierre lui aussi dans une exaltation inédite"

Au bord des fleuves qui vont travaille le délitement de la conscience pour mieux explorer la magie des souvenirs, qui passent d'une génération à l'autre et tissent des toiles que le temps n'a de cesse de déchirer. On songe souvent à l'œuvre de Claude Simon, à cette façon de tâter la fragile couture entre les choses vécues et le souvenir des choses vécues, cette obsession pour la persistance des formes au cœur du chaos. La confusion comme forme d'exaltation: cela n'était possible, bien sûr, qu'au prix d'un travail patient et discret d'agencements, où fluidité et rupture sont les véritables protagonistes de ce voyage dans les limbes – voyage que la traduction  – magnifique – intense – précise – empathique – de Dominique Nédellec rend non seulement possible mais précieux, indispensable.


par Cannibale Claro
12.03.2015

30 de abril de 2015

Andreia Moreira - opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? em Goodreads

A quem diz que não gosta de ALA

Proponho-vos um desafio: ler António Lobo Antunes. Não se riam. É caso sério. Desistem assim sem uma tentativa, pelo menos? Vão estranhar se nunca o leram, é certo. Estou segura, porém, que uma vez enredados jamais o quererão abandonar. É um dos geniais autores portugueses cuja obra completa tenho, a par de outros tantos, a aspiração de conhecer inteiramente. Se tiverem em conta que uma existência não chegará para ler tudo quanto almejamos, conceberão quão grande é a atenção que lhe pretendo devotar durante esta vida (de livros).

Chegassem estas linhas aos seus olhos e discordaria de cada uma. Divino, remoto, do fundo dos seus olhos azuis implacáveis, condenando-me o atrevimento. Tenho sorte. Não o ofenderei, decerto, com a percepção que guardo desta sua Obra (Edição em 2009). Quanto a vocês, já que aqui estão, percam mais uns minutos comigo e depois apressem-se a lê-lo se vos consegui cativar.

Que somos senão abismos? Derrocadas pessoais. Desmoronamentos às prestações. Frustrações e perdas. Uns mais afortunados que outros, ainda assim, que é a vida se não o caminho que trilhamos inexoravelmente para a morte, quais condenados? “Que negrume...”, dirão. Não é optimismo o que encontrarão na narrativa que proponho. Tentava tão só preparar-vos. É possível tanta desgraça numa só família (de origens Ribatejanas)? Neste livro é. E, apesar de toda a dor e de toda a miséria humana retratadas, há beleza imensa a perpassá-lo. Como se fora possível sentirmo-nos bem - Em êxtase, até. - mergulhados numa tristeza profunda, definhando.

Ler este autor é como nadar contra a corrente. Esbracejamos, ofegamos, perdemos o pé. De que nos serve defrontarmos o mar? (A sua desmesurada força.) Na iminência do afogamento, há que permitir que as ondas nos devolvam à costa. É então, quando nos deixamos guiar, flutuando nas palavras deste Mestre da escrita, que nos salvamos e simultaneamente nos perdemos. Já o li sem nomes para as vozes que habitavam o romance. Tarefa hercúlea manter-me à tona. Admito. Neste, porém, (re)conhecerão as personagens, sentir-lhes-ão o pulso, alcançarão porque acabaram, ou imaginarão como hão-de recomeçar.

Ana, João, Francisco, Beatriz, Rita, Mercília, Pai, Mãe...

Cancro, toxicodependência, desamor, prostituição juvenil, sida, subserviência, escolha, desistência, mágoa, loucura, ausência, violência, desgosto, abusos, traição, medo, abandono, ingratidão, confissões, lamento(s)…

...«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»...
...«(…) vai morrer às seis horas»...

NOTA: Não quero deixar de referir que, apesar de tudo quanto o livro encerra e que venero, abomino as alusões às lides tauromáquicas. Mas isso são já outras convicções que me habitam e que nada têm que ver com literatura. 


por Andreia Moreira
13.05.2013

26 de abril de 2015

Margarida Contreiras - opinião sobre Memória de Elefante

Psyché é uma palavra de origem grega que se traduz na linguagem actual para mente. É neste tronco terminológico que encontramos as ramificações para os termos psicologia, psiquiatria, psicose, psicanálise, psicoterapia, todos eles viventes nas páginas deste livro. Na verdade, toda a história é contada com a objectiva presa à psyché de um médico, obrigando-nos a captar a realidade filtrada pelo seu olhar. Por isso, este é um livro peculiar.

O médico que protagoniza a história é um psiquiatra de um hospital lisboeta, cuja mente carece ela mesma também de terapia. A acção nasce na fonte sensorial e sentimental do protagonista e desenvolve-se à luz do sua experiência de vida e da consequente visão denegrida que tem do mundo. Ao virar as primeiras páginas, apercebemo-nos imediatamente que esta deturpação está profundamente ligada a uma distanciação familiar que revela, simultaneamente, necessidade de afastamento e aproximação. É por isso que as grandes sensações que fazem este livro são a frustração, a cobardia e o conformismo.

O narrador não corresponde à personagem principal por não encarnar assumidamente a sua alma, no entanto a consciência dos dois está tão próxima que podemos questionar se a narrativa se tratará de um auto-retrato na terceira pessoa. Por outro lado, as personagens secundárias são praticamente inexistentes, surgindo apenas pontualmente e como voz da consciência alternativa ressonante na cabeça do psiquiatra e actuando também elas como psiquiatras através dos seus juízos de valor. Existem sim muitos figurantes que passam pela acção da história como meio de ilustração corroborante do pensamento da personagem principal e que se traduzem, na narrativa em si, como resultado de uma observação reprovadora. Normalmente, estes figurantes agem com indiferença perante o protagonista, em movimentos frios como os dele mesmo.

O desenrolar da história é feito com marcada lentidão, concentrando-se no decorrer de apenas dois dias, e o enfoque da acção é centrado mais na descrição sensorial do que no desenvolver de acontecimentos. Esta descrição é extremamente particular: o autor descreve-nos, não a realidade com as suas cores e relevos, mas através das sensações que essas cores e relevos (eventualmente existentes) provocam no protagonista da história. Por outras palavras, o autor diz-nos o que aparenta ser em vez do que é, indicando-nos a consistência dos acontecimentos num entrançado de emoções e pensamentos, todos eles desembocando na distante memória da mulher e das filhas que nunca chegamos a perceber se é longa ou curta no tempo. A visão do protagonista através da qual assistimos à narrativa mostra uma perspectiva negra do mundo, em que é dada especial referência aos distúrbios e anomalias do âmbito da sexualidade: jovens mulheres seduzem homens velhos por interesse, prostituição, pedofilia, entre outros, embora estes sejam assuntos abordados apenas para uma representação de quimeras de um mundo simultaneamente real e abstracto e não porque sejam importantes para a acção central.

Lobo Antunes apresenta-nos uma escrita erudita e extremamente sensorial num livro que se lê sobretudo para o desfrute da palavra e da descodificação de uma mente turbulenta. Esta obra pode ser lida pelo leitor comum familiar com o mundo literário, no entanto, as suas potencialidades disparam até aos campos mais profundos da psicologia. O final será dificilmente conclusivo para um trivial leitor, convidando a uma análise desta memória de elefante que deverá ser feita de olhos semicerrados e mente aberta.


por Margarida Contreiras
08.11.2013

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

19 de abril de 2015

Maria Gonçalves - opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Caminho Como Uma Casa em Chamas: será possível ler Lobo Antunes sem que cada leitor faça a sua e particular leitura e entendimento? E que ainda assim lhe restem dúvidas e pedaços algo perdidos, como se de um filme complexo se pudessse reter tudo vendo-o apenas de uma só vez? 

Este é o sexto livro que leio deste autor e considero-o grandioso. Uma súmula apurada do seu estilo literário que me parece, aliás, ter-se ultrapassado. Dei comigo a pensar algo: por regra os seus personagens são de certo modo fatídicos e praticamente impotentes face às suas circunstâncias. Cogitam sobre várias formas do “se” no sentido de perceberam como alterar ou ainda efectuar algumas formas de melhoramento, mas, na verdade, vivem esmagados pela inacção, perante um passado que usurpa todos os tempos e oportunidades de vida, incluindo a alteração da mesma. O passado torna-se um presente ad eternum e o futuro é sempre o fim. O fim da infância, o fim da agilidade do corpo, o fim dos dias. Caminhar como uma casa em chamas é estar constantemente a aguardar a derrocada de todas as vigas, em particular das que ainda sustêm a estrutura.

Esta casa é um prédio cujos personagens vão sendo apresentados pelos respectivos andares de residência. Os capítulos são, portanto, o 1º esqº, o 1º dir, o 2º dir, ... até ao sotão onde, curiosamente, (não se sabe, nem ele próprio, se ainda é vivo, se ainda manda...), (sobre)vive Salazar e todas as caraminholas que alimentam medos, justificam o "cruzar de braços" e assaltam os pensamentos dos habitantes deste prédio cuja geração é a que hoje ainda guarda uma mente no passado: um passado inexorável e, portanto, impotente para o presente e para o futuro, qualquer que fosse a acção. 

Claro, e com todas as dúvidas de quem precisava ler este livro outra e outra e outra vez, esta não deixa de ser a minha própria leitura. Recomendo e reconheço ser este, dos livros que li do autor, um dos mais exigentes quanto à atenção do leitor.


por Maria Gonçalves
em Goodreads
04.01.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

6 de abril de 2015

António Lobo Antunes no MOT - Festival de Literatura Girona e Olot 2015


O escritor António Lobo Antunes é um dos convidados da II Edição do Festival de Literatura de Girona e Olot, na Catalunha, que decorre entre os dias 9 e 11 de Abril, e que este ano terá como tema de fundo “Escrever Cidades”. Trata-se de um programa que pretende explorar a relação entre o romance e a cidade contemporânea. Londres de Lanchester; Paris de Hazan; Barcelona de Mendonza e Pàmies; Bogotá de Restrepo; Roma de Mazzuco; Berlim de Nooteboom e Beirute de Chalandon são algumas das cidades selecionadas pela comissária do Festival, Mita Casacuberta, professora de Literatura Contemporânea na Universidade de Girona.

O nosso autor participará numa conversa com o escritor e crítico literário Jordi Galves, num encontro que terá lugar na próxima sexta-feira, dia 10, na Sala La Carbonera da Universidade de Girona, dedicada aos Mistérios de Lisboa, título de um dos últimos filmes de Raoul Ruiz, numa adaptação do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. Os 150 anos que separam ambas as obras, livro e filme, são os anos da construção da Lisboa contemporânea, para a qual contribuiu decisivamente António Lobo Antunes, desde o seu primeiro romance, Memória de Elefante (1979), até ao O Esplendor de Portugal (1997) ou ao Conhecimento do Inferno (1980), através do seu estilo sinuoso que esbate as fronteiras entre o passado e o presente.

A Dom Quixote publicará, em Outubro, o novo romance de António Lobo Antunes, Da Natureza dos Deuses.


fonte do texto: BIIS LEYA (ligeiramente adaptado)
imagem do programa do evento, disponível em formato pdf para consulta integral (por cortesia de Maria da Piedade Ferreira)

06.04.2015

4 de abril de 2015

Passatempo António Lobo Antunes na Web & Dom Quixote / LeYa - os premiados

No final de mês de Março, e com o apoio das Publicações D. Quixote, promovemos um passatempo junto dos leitores de António Lobo Antunes e seguidores da nossa página de facebook. Consistia em responder a três perguntas básicas sobre os livros escolhidos como prémio: Sôbolos Rios Que Vão, Não É Meia Noite Quem Quer e Caminho Como Uma Casa Em Chamas; e os três participantes que respondessem mais rapida e correctamente seriam apurados como vencedores, o primeiro premiado com os três livros, o segundo com os últimos dois títulos, e o terceiro recebendo o livro mais recente. Os participantes tinham ainda, como condição, serem seguidores da nossa página de facebook.

Encerrado o tempo de participação às 24H do passado dia 2, cabe-nos agora anunciar os 3 vencedores apurados de entre 33 participantes:

Tiago Pereira, de Braga
Beatriz Sousa, de Alverca do Ribatejo
Helena Bracieira, de Beja


Os premiados receberão os exemplares dos livros que lhes couberam, todos assinados por António Lobo Antunes, durante o mês de Abril, uma oferta da editora D. Quixote - LeYa. Para eles, os nossos parabéns e desejo de boa leitura. 

Resta-nos ainda divulgar as respostas correctas ao enunciado que propômos:

Questão 1: Qual (ou quais) dos títulos foi, primeiro, publicado como título de uma crónica?
a) Não É Meia Noite Quem Quer
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Sôbolos Rios Que Vão

A resposta correcta é a) Não É Meia Noite Quem Quer e b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas. As crónicas foram publicadas na Visão mas também as temos reproduzidas na nossa página, a primeira e a segunda.

Questão 2: Qual (ou quais) dos títulos vem de um poema?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Não É Meia Noite Quem Quer

A resposta correcta é a) Sôbolos Rios Que Vão e c) Não É Meia Noite Quem Quer. O primeiro, verso de uma redondilha de Camões e o segundo, de um poema de René Char. Estas indicações aparecem referidas nos vários artigos neste blog sobre ambos os livros, bem como em entrevistas, etc.

Questão 3: Qual (ou quais) dos títulos pode ser considerado como autobiográfico?
a) Caminho Como Uma Casa em Chamas
b) Sôbolos Rios Que Vão
c) Não É Meia Noite Quem Quer

A resposta correcta é b) Sôbolos Rios Que Vão e c) Não É Meia Noite Quem Quer. O primeiro, porque trata do Senhor Antunes que recebe tratamento de um cancro e enquanto está no hospital revive a infância em Nelas (como o Antoninho); o segundo, porque foi o próprio escritor que o indicou (neste vídeo, por exemplo), embora as pistas autobiográficas no texto não sejam tão evidentes como no primeiro.

Todas as questões pediam respostas múltiplas, e o tema de cada uma podia ser facilmente pesquisado nos conteúdos do nosso acervo de opiniões, crítica, entrevistas, etc.

Agradecemos a todos os que participaram e também os que ajudaram a divulgar. Esperamos que continuem, pois com certeza teremos mais iniciativas deste género. Estejam por isso atentos!

Boa Páscoa!

José Alexandre Ramos

28 de março de 2015

PASSATEMPO ANTÓNIO LOBO ANTUNES NA WEB & DOM QUIXOTE / LEYA


Anunciamos que o projecto António Lobo Antunes na Web está a promover um passatempo para os leitores de António Lobo Antunes em parceria com a editora Publicações Dom Quixote / LeYa cujo objectivo é premiar os participantes com livros autografados pelo nosso escritor. Convidamos-vos a participar nesta iniciativa tendo em conta o seguinte regulamento:

1. Para participar, os interessados apenas têm que responder a 3 questões (ponto 2.), com a condição de serem seguidores da nossa página de facebook em www.facebook.com/alanaweb.

2. As três questões envolvem os livros do escritor Sôbolos Rios Que Vão, Não É Meia Noite Quem Quer e Caminho Como Uma Casa Em Chamas, cujo enunciado é o seguinte:

Questão 1: Qual (ou quais) dos títulos foi, primeiro, publicado como título de uma crónica?
a) Não É Meia Noite Quem Quer
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Sôbolos Rios Que Vão

Questão 2: Qual (ou quais) dos títulos vem de um poema?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Não É Meia Noite Quem Quer

Questão 3: Qual (ou quais) dos títulos pode ser considerado como autobiográfico?
a) Caminho Como Uma Casa em Chamas
b) Sôbolos Rios Que Vão
c) Não É Meia Noite Quem Quer

3. Os participantes vencedores serão os três primeiros (seguidores da nossa página de facebook) a responder correctamente às três questões, por esta ordem:

1º prémio para o 1º participante que mais rapidamente responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas
- 1 exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer
- 1 exemplar de Sôbolos Rios Que Vão

2º prémio para o participante que em 2º lugar responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas
- 1 exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer

3º prémio para o participante que em 3º lugar responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Todos os livros serão autografados por António Lobo Antunes. Os títulos são da sua última edição por Publicações Dom Quixote, Lisboa, em português.

4. As respostas devem ser enviadas para o e-mail passatemposalanaweb@gmail.com, entre as 00H00 do dia 29 de Março (domingo) e as 24H00 do dia 2 de Abril (quinta-feira). Os participantes devem, além da resposta objectiva às 3 questões do enunciado, informar os seus dados de contacto:
- primeiro e último nome
- endereço do seu perfil de facebook
- telefone de contacto
- endereço postal onde pretendem receber os livros, caso sejam premiados

(nenhum destes dados será utilizado para qualquer outro fim senão para o apuramento dos resultados, anúncio dos vencedores e expedição dos prémios)

5. As primeiras três participações com as respostas correctas e cujos participantes sejam seguidores da nossa página de facebook serão os vencedores, pela ordem referida no ponto 3.

6. Os 3 vencedores do passatempo serão notificados via e-email durante o dia 4 de Abril (sábado), sendo essa informação de igual modo passada à editora que é quem se encarregará de enviar os livros autografados aos três premiados.

7. A editora Publicações Dom Quixote / LeYa fica encarregue de enviar os livros autografados para os participantes premiados durante o mês de Abril, via CTT ou outro serviço que lhe seja conveniente.

8. Os prémios expedidos que sejam devolvidos por endereço incorrecto ou insuficiente serão anulados e não podem ser reclamados, nem os vencedeores serão substituídos.

9. O projecto António Lobo Antunes na Web e a editora Dom Quixote / LeYa não se responsabilizam pelo extravio dos livros durante a sua expedição.

10. Qualquer participação que não reúna as condições explícitas nos pontos 1., 4. e 5. deste regulamento não será considerada.

Aguardamos as vossas participações! Boa sorte!

Com os nossos cumprimentos,

José Alexandre Ramos – António Lobo Antunes na Web
Maria da Piedade Ferreira – LeYa / Publicações Dom Quixote

[texto editado em 28.03.2015 com as condições finais; outra versão anterior deste regulamento é nula]

21 de março de 2015

Consuelo Triviño Anzola sobre Memória de Elefante

Fazia muito tempo que não escutava um escritor “de casta” falar de seu ofício, que para mim é aquele tipo de autor que assume o trabalho criador com todos os riscos. Não me refiro só aos que deixam uma carreira paralela para se dedicar a escrever como um profissional da escrita (escritores / escrevinhadores – Barthes); mas aos que se submergem nas águas do seu idioma e vão cada vez mais fundo, além da aparência das coisas, na tentativa de desvendar os seus mistérios. Escrever é traduzir o intraduzível, o gemido, a solidão, a angústia, a culpa, a felicidade, emoções que se expressam sem palavras, que assomam ao rosto, modificando com o gesto, o trejeito ou a observação, a nossa percepção do outro. Um nó de emoções nos funde ou nos salva, e o escritor é esse artesão paciente que desfaz a rede para que saibamos quão longa é a corda, de onde surge, até onde chega, o que aprisiona e porquê.

Porém, uma coisa é o que diz um autor, o que opina sobre a escrita, sobre a arte e a literatura; e outra é a forma como concretiza a sua postura vital na obra, o que transmite a nós os leitores. No caso de Lobo Antunes, é possível entender e inclusive viver nos seus livros esse esforço de querer "ir mais além" na procura de uma verdade que nos isente do peso de uma educação, de uma história, de um passado que limita a nossa ânsia de existir tal como somos e não como os outros esperam de nós.

Memória de Elefante, um livro que o autor diz apreciar pouco por ser dos primeiros, entranhou-se em mim como todos os primeiros livros que padecem dessas imperfeições que tanto os humanizam. A perfeição é desumana para muitos povos. De facto, até os fabricantes de tapetes deixavam um fio fora do tecido para que a geometria da forma se desfizesse.

A história é o que menos interessa, declarava Lobo Antunes na palestra dada [em 2011] no Instituto Cervantes de Madrid. O que importa em Memória de Elefante é a forma como o autor recorre à terceira pessoa para penetrar na consciência do seu alter ego, o psiquiatra sobre quem pouca informação temos, mas a suficiente, ao longo do relato.

É verdade que o discurso se torna difícil, enquanto nos vemos imersos nesse nó emocional que se dissipa à medida que entendemos as circunstâncias vitais de uma criatura que ama e não sabe como expressar esse sentimento; a rebeldia de alguém que se nega a seguir os ditames familiares, as rígidas normas sociais e que o faz perder tudo por não corresponder ao modelo imposto.

A sensação de abandono é maior quando se renuncia voluntariamente a quem se ama, sem saber como sustentar uma ponte. Talvez porque a solidão seja a condição do ser, como intui a personagem.

Guiados pela voz do narrador, que nos leva até ao outro extremo da corda por vias travessas, no meio de um emaranhado de sentimentos, concluímos que a ironia é a única arma com que se pode contar e com a qual nos podemos defender da pergunta "Que faria eu se estivesse em meu lugar?", a mesma com que o protagonista se questiona no final do relato.


por Consuelo Triviño Anzola
09.02.2011
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

17 de março de 2015

António Lobo Antunes no MOT - Festival de Literatura de Girona e Olot

António Lobo Antunes estará na 2ª edição do MOT, Festival de Literatura de Girona e Olot, que se realizará entre os dias 9 e 19 de Abril. O lema para o certame deste ano é "Escrever cidades". Segundo Laura Borràs, directora da 'Institució de les Lletres Catalanes', «as cidades têm a pele do asfalto e a pele feita pelos escritores com as suas palavras».

Em breve mais notícias deste evento que decorrerá nas duas cidades catalãs, Girona e Olot.






Notícia de Estandarte:

MOT, el Festival de Literatura de Girona y Olot, se celebrará en estas ciudades entre el 9 y el 19 de abril. Bajo el lema Escriure cuitas (Escribir ciudades), y comisariado por Mita Casacuberta —profesora de literatura contemporánea de la Universidad de Girona—, la segunda edición de MOT ha convocado a más de cuarenta escritores.
Los nombres internacionales brillan en esta escritura de ciudades que propone el MOT. El Londres de John Lanchester, el París de Eric Hazan, la Barcelona de Eduardo Mendoza, el México DF de Laura Restrepo, la Roma de Melania G. Mazzucco, el Berlín de Cees Nooteboom o el Beirut de Sorj Chalandon se reproducirán, mediante el encuentro con sus autores, en Girona y Olot.
La intención de MOT es, en palabras de Mita Casacuberta, conseguir que haya un intercambio de impresiones, que pongan en común su experiencia, para después abrir la conversación al público asistente. Según Laura Borràs, directora de la Institució de les Lletres Catalanes, las ciudades tienen la piel del asfalto y la piel que hacen los escritores con sus palabras. La primera edición del festival, en 2014, se dedicó a la literatura fantástica y aglutinó a más de dos mil persona como público.
Rafael Chirbes, Luis Goytisolo, Antonio Lobo Antunes o Petros Márkaris son otros de los nombres importantes con los que el público del MOT podrá encontrarse. Las conferencias y actividades del MOT en Olot se celebrarán en la Sala La Carbonera, del 9 al 11 de abril; por otra parte, del 13 al 19 de abril MOT ocupará la biblioteca Carles Rahola, en Girona.

13.03.2015

15 de março de 2015

José Miguel Lopes - Cinco (possíveis) razões para ler António Lobo Antunes


António Lobo Antunes, escritor natural de Lisboa, é nome unânime quando se fala nos autores mais importantes do século XX – em Portugal e não só. Afinal, são da sua autoria alguns dos livros mais marcantes das últimas décadas como, por exemplo, “Os Cus de Judas”. E que dizer das várias distinções literárias que o autor já recebeu – como o Prémio Jerusalém ou o Prémio Camões?

Quando, todavia, o tema de uma conversa é António Lobo Antunes, não é raro haver quem de imediato invoque o nome de José Saramago. Por vezes, fazem-no numa alusão à rivalidade que houve entre estes dois homens das letras – em cujas comparações, o escritor lisboeta tende a sair algo menosprezado, em favor dos feitos do autor de “Memorial do Convento”. E há quem fale, ainda, de Lobo Antunes como um homem de alegado mau-feitio, que escreve de uma forma desnecessariamente complexa e ‘chata’.

Quer se aprecie a obra de Lobo Antunes ou não, difícil será negar o seu impacto e valor na literatura nacional. Mas, sendo assim, o que haverá de tão valioso na escrita e nos livros deste médico que, desde a infância, disse querer ser escritor? Motivos haverá vários. Aqui ficam cinco razões, dadas por quem começou a explorar a obra ‘antuniana’ há pouco tempo e dá por si a percorrer o quarto livro do autor.


1) A capacidade de desconstrução

Se há mérito que atribuem a José Saramago é que ele ensinou os seus leitores a seguir uma narrativa de forma diferente. Afinal, o aparente desrespeito pela gramática trouxe um modo mais dinâmico de se seguir os acontecimentos de uma estória, sem formalidades ou intervalos desnecessários. Os mesmos leitores que tanto apreciam essa capacidade de desconstruir o discurso terão, igualmente, muito que apreciar em Lobo Antunes, já que também nele reside o bichinho da desconstrução.

Em “Explicação dos Pássaros”, por exemplo, o leitor é convidado a percorrer não só a narrativa que decorre naquele preciso momento, como o próprio passado e futuro das diferentes personagens. Tudo isto sem que o narrador forneça avisos prévios ou anuncie pausas para novos parágrafos. Do mesmo modo que muitos dos pensamentos do ser humano assumem uma forma irregular, confusa e até incoerente, também a narração de Lobo Antunes nos apresenta essa ‘falha’ humana em que – enquanto leitores – deixamos de distinguir o que é realidade e o que já pertence à fantasia ou ao pensamento das suas personagens.

Ainda neste mesmo livro, é dada ao leitor uma rara dualidade de perspectivas: afinal, somos convidados a acompanhar muitas das cognições da personagem central do livro apenas para, de tempos a tempos, darmos por nós próprios já a seguir os acontecimentos na terceira pessoa do singular. Estas técnicas de desconstrução acrescentam um novo vigor e intensidade à narrativa.


2) O modo como a escrita está trabalhada

Na obra de Lobo Antunes não encontramos necessariamente o mesmo português que vemos nos jornais, nas televisões, no ecrã do computador ou até noutros livros. As palavras são as mesmas, claro está, mas o signo e o significado são-nos apresentados num interessante e belo jogo: até para os objectos banais que coexistem numa casa – ou aquando da constatação da degradação física, moral ou espiritual de uma personagem – são usados períodos longos, onde sobressaem teias de metáforas e personificações que dão uma vida própria a tudo o que é narrado.

Em suma, os objectos ganham vida, as personagens surgem-nos mais transparentes e todo o texto de Lobo Antunes pode ser lido como um manual não-oficial de formas de se usar a língua portuguesa, bem como os recursos de que esta, felizmente, se pode munir.


3) A essência do livro não está (necessariamente) na estória/enredo

Ao contrário de muitos autores que fazem um forte uso de um enredo bem trabalhado – e que depois se limitam a narrar os acontecimentos em palavras e sucessões de diálogos banais – em Lobo Antunes, a estória dos acontecimentos tende a ser simples. O ambiente em que as coisas decorrem, os conflitos que se travam e os demais elementos que devem constituir uma estória coerente são um mero pretexto para António Lobo Antunes nos mostrar a complexidade e a especificidade do ser humano.

Por outras palavras, o que mais importa ao escritor é narrar as cognições, os estados de espírito, os medos ou os vestígios dos sonhos que as suas personagens – tipicamente em estado de auto-destruição – atravessam. Caso para se dizer que há uma estória por detrás da estória ‘oficial’.


4) As suas personagens são humanas, frágeis e credíveis

Há séculos que a humanidade ouve falar de homens nobres e valentes que conseguem chegar ao fim da sua demanda e atingir a glória absoluta – embora não sem muitas batalhas e sacrifício pelo meio. Do mesmo modo, as mulheres belas de uma inocência cândida e os vilões demoníacos e tresloucados sempre fizeram parte do rol de personagens de que desde tenra idade ouvimos falar.

Em Lobo Antunes, todavia, é rara a presença de personagens tão carismáticas, bidimensionais ou ‘típicas’ como estas. Em vez disso, existem homens e mulheres com angústias interiores, sonhos por cumprir, descontentamentos face ao futuro ou que, simplesmente, estão a um passo desse desastre certo a que apelidamos de loucura. Pouco de carismático haverá, com certeza, nos últimos quatro dias de vida de um homem que constata, impotente, o falhanço da sua vida antes do inevitável suicídio (e não, não há aqui nenhum spoiler, visto que a morte da personagem é entregue de antemão no começo do livro).

Estas personagens, tão distantes do homem/mulher valente e física, mental e/ou moralmente inquebrável, permitem-nos ver, reflectidos, os próprios fantasmas e erros da nossa existência e constatar que a dor, o medo e a infelicidade são, também eles, uma característica inata do ser humano. É caso para dizer que aprendemos bem mais sobre nós mesmos com esta gente imperfeita, defeituosa e amalucada do que com muitas das ‘modelos’ perfeitas e heróicas da literatura.


5) Há uma sensibilidade social nos livros

Pelo que até aqui foi dito, parece que Lobo Antunes vive (e escreve) no seu próprio mundo – um universo degradado e depressivo que se revela essencialmente introspectivo. Mas importa referir que, em muitos dos seus livros, há um Portugal também ele decadente, que é a causa implícita de tudo isto.

Em “Os Cus de Judas” há a denúncia da futilidade da Guerra no Ultramar que, a ter um efeito verdadeiramente prático, foi o de estropiar mentalmente muitos dos soldados enviados para o chamado cu de judas – o meio do nada. Já em “Auto dos Danados”, temos alguns indícios do ambiente que se vivia no pós-revolução de Abril. Abrindo a “Memória de Elefante” – uma das obras mais autobiográficas do autor – vemos o dogma de um país onde os filhos eram forçados a herdar a profissão dos pais e onde o incentivo à arte era diminuto.

No fundo, podemos aferir que as obras de Lobo Antunes são, também elas, o reflexo e uma crítica implícita ao Portugal que as viu nascer, funcionando como mais um documento histórico para melhor compreendermos o pensamento e o sentido por detrás das evoluções sociais do Portugal da segunda metade do século XX.

Não é em vão que as pessoas falam num escritor complexo, que fabrica uma prosa plena de frases longas e mudanças de direcção narrativa. Mas, se a confusão e a angústia inicial forem ultrapassadas pelo percorrer das páginas, pode ser que muitos outros venham a descobrir, tal como eu, um encanto muito especial por detrás das palavras de um dos escritores mais importantes da actualidade. Leia-se “Os Cus de Judas” ou a “Explicação dos Pássaros”. Garanto que não se vão arrepender!


por José Miguel Lopes
03.12.2013

14 de março de 2015

Le Temps (Suiça), crítica a Sôbolos Rios Que Vão - António Lobo Antunes no país da infância

António Lobo Antunes no país da infância


Au bord des fleuves qui vont, tradução
em francês de Sôbolos Rios Que Vão
(Christian Bourgois, 2015)
Após ter sido internado num hospital, o escritor português fez de Sôbolos Rios Que Vão um dos seus melhores romances

Em 2007, António Lobo Antunes, então com 67 anos, foi operado a um cancro no intestino num hospital de Lisboa. Como jovem médico, cumpriu a sua obrigação militar em Angola, durante a guerra colonial. Há pouco tempo teve de ser novamente operado, desta vez aos pulmões. Contudo, foi entre esses meses de Março a Abril de 2007 que tomou consciência da sua finitude, do pouco tempo que ainda tem. Em 2010 publicou o seu 22º romance, Sôbolos Rios Que Vão. O livro parece assumir a forma de um diário – desde 21 de Março a 4 de Abril de 2007. No hospital, o corpo é o palco de um coro de vozes que misturam o presente com um passado longínquo, através de uma polifonia que Lobo Antunes tem vindo a desenvolver ao longo de uma vintena de títulos, uma sinfonia que é sua marca indelével. Durante aquele tempo, entre o sono da anestesia e choque de uma doença grave, esta pauta de reminiscências produz um acorde mais ajustado, mais restrito e despojado das grandes arquitecturas de livros anteriores – Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? ou O Arquipélago da Insónia

Trata-se de um romance autobiográfico? Não parece que existam muitas duvidas, porém os elementos estão recompostos, são e não são o que parecem,  transfigurados pela memória, pela dor e pelo trabalho da escrita: «[…] era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre […]». A igreja, as árvores, a casa da família em Nelas, no centro de Portugal, toda uma paisagem da infância vem em auxílio do homem velho, o Senhor Antunes, e o Antoninho de então que lhe faz companhia: «O passado nunca morreu. Nem nunca passou», disse Faulkner, com quem Lobo Antunes é muitas vezes comparado.

O título do romance vem dos versos de uma redondilha do poeta Luís de Camões: “Sôbolos rios que vão / em Babilónia me achei». Um exílio, portanto: de si mesmo, do corpo que o traiu em silêncio, da infância que não fora um verde paraíso, antes um território cercado de ameaças e medos, embora num tempo longe da finitude. Como dizia Fernando Pessoa, por quem Lobo Antunes não nutre grande afinidade, seria como “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto».

Sôbolos Rios Que Vão é um livro repleto de silêncios, desenhando uma “cartografia das emoções”, que reúne todos os sentidos: o ruído do vento sobre as árvores, o cheiro das compotas na despensa, a picada de um alfinete, o sabor do rato de chocolate, a lembrança de uma bochecha encostada à sua.  As imagens são recorrentes: a tia que tocava harpa, o pingo num sapato, os mineiros doentes, estes também, com os cheiros do volfrâmio, uma estrangeira loira, o ténis no hotel dos ingleses, o suicídio fracassado do tio. Tudo se torna profecia, oráculo:  «não se lembrar do nome da governanta do senhor vigário preocupou-o, lembrava-se do avental, dos chinelos, do riso, não se lembrava do nome e por não se lembrar do nome não iria curar-se […]».

Os corpos da mesma forma se definham: «De quem são estas mãos?», questiona o doente. Quando o avô guarda os óculos nos bolsos também deixa cair alguns dos seus dedos. E o pai, surpreendido em adúlteros actos amorosos – como quando com a criada: «Nunca mais acaba senhor?» - embaraçado a recompor-se, ridicularizado até mais não. O corpo do doente, ao cuidado dos seus médicos, alia-se ao da criança que o avô alimentava, dando de comer com uma colher, arredondando a boca ao mesmo tempo, como se faz com as crianças ainda hoje. O tempo é abolido: ora estamos em Março, com a chuva batendo nas vidraças, ora estamos em Agosto, sob um eterno verão.

A questão recorrente - «isto existe?» significando «o “eu” existe?» - não terá resposta. No último dia, «Agora sim finalmente», as dúzias de andorinhas  na janela do hospital, a dor desaparece, desligam-se os ecrãs dos aparelhos de suporte à vida, as personagens encontram-se ao redor da cama, para uma reconciliação ou um velório, não o sabemos: «à esquina de um freixo e a própria serra ausente, um pássaro no sentido da barragem quer-se dizer não um pássaro, a ideia de um pássaro, teria estado no hospital ou o hospital uma invenção como as outras […]».  No final, como num palco, «Exeunt omnes». Todos os actores saem de cena, a representação terminou. E assim termina um dos melhores livros de Lobo Antunes. Não é, porém, uma despedida: três outros romances foram publicados entretanto, depois de 2010.


por Isabelle Rüf
em Le Temps
28.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

[citações do romance no texto original em português: Sôbolos Rios Que Vão, Publicações Dom Quixote, 2010, 1ª edição ne varietur]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...