28 de março de 2015

PASSATEMPO ANTÓNIO LOBO ANTUNES NA WEB & DOM QUIXOTE / LEYA


Anunciamos que o projecto António Lobo Antunes na Web está a promover um passatempo para os leitores de António Lobo Antunes em parceria com a editora Publicações Dom Quixote / LeYa cujo objectivo é premiar os participantes com livros autografados pelo nosso escritor. Convidamos-vos a participar nesta iniciativa tendo em conta o seguinte regulamento:

1. Para participar, os interessados apenas têm que responder a 3 questões (ponto 2.), com a condição de serem seguidores da nossa página de facebook em www.facebook.com/alanaweb.

2. As três questões envolvem os livros do escritor Sôbolos Rios Que Vão, Não É Meia Noite Quem Quer e Caminho Como Uma Casa Em Chamas, cujo enunciado é o seguinte:

Questão 1: Qual (ou quais) dos títulos foi, primeiro, publicado como título de uma crónica?
a) Não É Meia Noite Quem Quer
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Sôbolos Rios Que Vão

Questão 2: Qual (ou quais) dos títulos vem de um poema?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Não É Meia Noite Quem Quer

Questão 3: Qual (ou quais) dos títulos pode ser considerado como autobiográfico?
a) Caminho Como Uma Casa em Chamas
b) Sôbolos Rios Que Vão
c) Não É Meia Noite Quem Quer

3. Os participantes vencedores serão os três primeiros (seguidores da nossa página de facebook) a responder correctamente às três questões, por esta ordem:

1º prémio para o 1º participante que mais rapidamente responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas
- 1 exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer
- 1 exemplar de Sôbolos Rios Que Vão

2º prémio para o participante que em 2º lugar responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas
- 1 exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer

3º prémio para o participante que em 3º lugar responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Todos os livros serão autografados por António Lobo Antunes. Os títulos são da sua última edição por Publicações Dom Quixote, Lisboa, em português.

4. As respostas devem ser enviadas para o e-mail passatemposalanaweb@gmail.com, entre as 00H00 do dia 29 de Março (domingo) e as 24H00 do dia 2 de Abril (quinta-feira). Os participantes devem, além da resposta objectiva às 3 questões do enunciado, informar os seus dados de contacto:
- primeiro e último nome
- endereço do seu perfil de facebook
- telefone de contacto
- endereço postal onde pretendem receber os livros, caso sejam premiados

(nenhum destes dados será utilizado para qualquer outro fim senão para o apuramento dos resultados, anúncio dos vencedores e expedição dos prémios)

5. As primeiras três participações com as respostas correctas e cujos participantes sejam seguidores da nossa página de facebook serão os vencedores, pela ordem referida no ponto 3.

6. Os 3 vencedores do passatempo serão notificados via e-email durante o dia 4 de Abril (sábado), sendo essa informação de igual modo passada à editora que é quem se encarregará de enviar os livros autografados aos três premiados.

7. A editora Publicações Dom Quixote / LeYa fica encarregue de enviar os livros autografados para os participantes premiados durante o mês de Abril, via CTT ou outro serviço que lhe seja conveniente.

8. Os prémios expedidos que sejam devolvidos por endereço incorrecto ou insuficiente serão anulados e não podem ser reclamados, nem os vencedeores serão substituídos.

9. O projecto António Lobo Antunes na Web e a editora Dom Quixote / LeYa não se responsabilizam pelo extravio dos livros durante a sua expedição.

10. Qualquer participação que não reúna as condições explícitas nos pontos 1., 4. e 5. deste regulamento não será considerada.

Aguardamos as vossas participações! Boa sorte!

Com os nossos cumprimentos,

José Alexandre Ramos – António Lobo Antunes na Web
Maria da Piedade Ferreira – LeYa / Publicações Dom Quixote

[texto editado em 28.03.2015 com as condições finais; outra versão anterior deste regulamento é nula]

21 de março de 2015

Consuelo Triviño Anzola sobre Memória de Elefante

Fazia muito tempo que não escutava um escritor “de casta” falar de seu ofício, que para mim é aquele tipo de autor que assume o trabalho criador com todos os riscos. Não me refiro só aos que deixam uma carreira paralela para se dedicar a escrever como um profissional da escrita (escritores / escrevinhadores – Barthes); mas aos que se submergem nas águas do seu idioma e vão cada vez mais fundo, além da aparência das coisas, na tentativa de desvendar os seus mistérios. Escrever é traduzir o intraduzível, o gemido, a solidão, a angústia, a culpa, a felicidade, emoções que se expressam sem palavras, que assomam ao rosto, modificando com o gesto, o trejeito ou a observação, a nossa percepção do outro. Um nó de emoções nos funde ou nos salva, e o escritor é esse artesão paciente que desfaz a rede para que saibamos quão longa é a corda, de onde surge, até onde chega, o que aprisiona e porquê.

Porém, uma coisa é o que diz um autor, o que opina sobre a escrita, sobre a arte e a literatura; e outra é a forma como concretiza a sua postura vital na obra, o que transmite a nós os leitores. No caso de Lobo Antunes, é possível entender e inclusive viver nos seus livros esse esforço de querer "ir mais além" na procura de uma verdade que nos isente do peso de uma educação, de uma história, de um passado que limita a nossa ânsia de existir tal como somos e não como os outros esperam de nós.

Memória de Elefante, um livro que o autor diz apreciar pouco por ser dos primeiros, entranhou-se em mim como todos os primeiros livros que padecem dessas imperfeições que tanto os humanizam. A perfeição é desumana para muitos povos. De facto, até os fabricantes de tapetes deixavam um fio fora do tecido para que a geometria da forma se desfizesse.

A história é o que menos interessa, declarava Lobo Antunes na palestra dada [em 2011] no Instituto Cervantes de Madrid. O que importa em Memória de Elefante é a forma como o autor recorre à terceira pessoa para penetrar na consciência do seu alter ego, o psiquiatra sobre quem pouca informação temos, mas a suficiente, ao longo do relato.

É verdade que o discurso se torna difícil, enquanto nos vemos imersos nesse nó emocional que se dissipa à medida que entendemos as circunstâncias vitais de uma criatura que ama e não sabe como expressar esse sentimento; a rebeldia de alguém que se nega a seguir os ditames familiares, as rígidas normas sociais e que o faz perder tudo por não corresponder ao modelo imposto.

A sensação de abandono é maior quando se renuncia voluntariamente a quem se ama, sem saber como sustentar uma ponte. Talvez porque a solidão seja a condição do ser, como intui a personagem.

Guiados pela voz do narrador, que nos leva até ao outro extremo da corda por vias travessas, no meio de um emaranhado de sentimentos, concluímos que a ironia é a única arma com que se pode contar e com a qual nos podemos defender da pergunta "Que faria eu se estivesse em meu lugar?", a mesma com que o protagonista se questiona no final do relato.


por Consuelo Triviño Anzola
09.02.2011
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

17 de março de 2015

António Lobo Antunes no MOT - Festival de Literatura de Girona e Olot

António Lobo Antunes estará na 2ª edição do MOT, Festival de Literatura de Girona e Olot, que se realizará entre os dias 9 e 19 de Abril. O lema para o certame deste ano é "Escrever cidades". Segundo Laura Borràs, directora da 'Institució de les Lletres Catalanes', «as cidades têm a pele do asfalto e a pele feita pelos escritores com as suas palavras».

Em breve mais notícias deste evento que decorrerá nas duas cidades catalãs, Girona e Olot.






Notícia de Estandarte:

MOT, el Festival de Literatura de Girona y Olot, se celebrará en estas ciudades entre el 9 y el 19 de abril. Bajo el lema Escriure cuitas (Escribir ciudades), y comisariado por Mita Casacuberta —profesora de literatura contemporánea de la Universidad de Girona—, la segunda edición de MOT ha convocado a más de cuarenta escritores.
Los nombres internacionales brillan en esta escritura de ciudades que propone el MOT. El Londres de John Lanchester, el París de Eric Hazan, la Barcelona de Eduardo Mendoza, el México DF de Laura Restrepo, la Roma de Melania G. Mazzucco, el Berlín de Cees Nooteboom o el Beirut de Sorj Chalandon se reproducirán, mediante el encuentro con sus autores, en Girona y Olot.
La intención de MOT es, en palabras de Mita Casacuberta, conseguir que haya un intercambio de impresiones, que pongan en común su experiencia, para después abrir la conversación al público asistente. Según Laura Borràs, directora de la Institució de les Lletres Catalanes, las ciudades tienen la piel del asfalto y la piel que hacen los escritores con sus palabras. La primera edición del festival, en 2014, se dedicó a la literatura fantástica y aglutinó a más de dos mil persona como público.
Rafael Chirbes, Luis Goytisolo, Antonio Lobo Antunes o Petros Márkaris son otros de los nombres importantes con los que el público del MOT podrá encontrarse. Las conferencias y actividades del MOT en Olot se celebrarán en la Sala La Carbonera, del 9 al 11 de abril; por otra parte, del 13 al 19 de abril MOT ocupará la biblioteca Carles Rahola, en Girona.

13.03.2015

15 de março de 2015

José Miguel Lopes - Cinco (possíveis) razões para ler António Lobo Antunes


António Lobo Antunes, escritor natural de Lisboa, é nome unânime quando se fala nos autores mais importantes do século XX – em Portugal e não só. Afinal, são da sua autoria alguns dos livros mais marcantes das últimas décadas como, por exemplo, “Os Cus de Judas”. E que dizer das várias distinções literárias que o autor já recebeu – como o Prémio Jerusalém ou o Prémio Camões?

Quando, todavia, o tema de uma conversa é António Lobo Antunes, não é raro haver quem de imediato invoque o nome de José Saramago. Por vezes, fazem-no numa alusão à rivalidade que houve entre estes dois homens das letras – em cujas comparações, o escritor lisboeta tende a sair algo menosprezado, em favor dos feitos do autor de “Memorial do Convento”. E há quem fale, ainda, de Lobo Antunes como um homem de alegado mau-feitio, que escreve de uma forma desnecessariamente complexa e ‘chata’.

Quer se aprecie a obra de Lobo Antunes ou não, difícil será negar o seu impacto e valor na literatura nacional. Mas, sendo assim, o que haverá de tão valioso na escrita e nos livros deste médico que, desde a infância, disse querer ser escritor? Motivos haverá vários. Aqui ficam cinco razões, dadas por quem começou a explorar a obra ‘antuniana’ há pouco tempo e dá por si a percorrer o quarto livro do autor.


1) A capacidade de desconstrução

Se há mérito que atribuem a José Saramago é que ele ensinou os seus leitores a seguir uma narrativa de forma diferente. Afinal, o aparente desrespeito pela gramática trouxe um modo mais dinâmico de se seguir os acontecimentos de uma estória, sem formalidades ou intervalos desnecessários. Os mesmos leitores que tanto apreciam essa capacidade de desconstruir o discurso terão, igualmente, muito que apreciar em Lobo Antunes, já que também nele reside o bichinho da desconstrução.

Em “Explicação dos Pássaros”, por exemplo, o leitor é convidado a percorrer não só a narrativa que decorre naquele preciso momento, como o próprio passado e futuro das diferentes personagens. Tudo isto sem que o narrador forneça avisos prévios ou anuncie pausas para novos parágrafos. Do mesmo modo que muitos dos pensamentos do ser humano assumem uma forma irregular, confusa e até incoerente, também a narração de Lobo Antunes nos apresenta essa ‘falha’ humana em que – enquanto leitores – deixamos de distinguir o que é realidade e o que já pertence à fantasia ou ao pensamento das suas personagens.

Ainda neste mesmo livro, é dada ao leitor uma rara dualidade de perspectivas: afinal, somos convidados a acompanhar muitas das cognições da personagem central do livro apenas para, de tempos a tempos, darmos por nós próprios já a seguir os acontecimentos na terceira pessoa do singular. Estas técnicas de desconstrução acrescentam um novo vigor e intensidade à narrativa.


2) O modo como a escrita está trabalhada

Na obra de Lobo Antunes não encontramos necessariamente o mesmo português que vemos nos jornais, nas televisões, no ecrã do computador ou até noutros livros. As palavras são as mesmas, claro está, mas o signo e o significado são-nos apresentados num interessante e belo jogo: até para os objectos banais que coexistem numa casa – ou aquando da constatação da degradação física, moral ou espiritual de uma personagem – são usados períodos longos, onde sobressaem teias de metáforas e personificações que dão uma vida própria a tudo o que é narrado.

Em suma, os objectos ganham vida, as personagens surgem-nos mais transparentes e todo o texto de Lobo Antunes pode ser lido como um manual não-oficial de formas de se usar a língua portuguesa, bem como os recursos de que esta, felizmente, se pode munir.


3) A essência do livro não está (necessariamente) na estória/enredo

Ao contrário de muitos autores que fazem um forte uso de um enredo bem trabalhado – e que depois se limitam a narrar os acontecimentos em palavras e sucessões de diálogos banais – em Lobo Antunes, a estória dos acontecimentos tende a ser simples. O ambiente em que as coisas decorrem, os conflitos que se travam e os demais elementos que devem constituir uma estória coerente são um mero pretexto para António Lobo Antunes nos mostrar a complexidade e a especificidade do ser humano.

Por outras palavras, o que mais importa ao escritor é narrar as cognições, os estados de espírito, os medos ou os vestígios dos sonhos que as suas personagens – tipicamente em estado de auto-destruição – atravessam. Caso para se dizer que há uma estória por detrás da estória ‘oficial’.


4) As suas personagens são humanas, frágeis e credíveis

Há séculos que a humanidade ouve falar de homens nobres e valentes que conseguem chegar ao fim da sua demanda e atingir a glória absoluta – embora não sem muitas batalhas e sacrifício pelo meio. Do mesmo modo, as mulheres belas de uma inocência cândida e os vilões demoníacos e tresloucados sempre fizeram parte do rol de personagens de que desde tenra idade ouvimos falar.

Em Lobo Antunes, todavia, é rara a presença de personagens tão carismáticas, bidimensionais ou ‘típicas’ como estas. Em vez disso, existem homens e mulheres com angústias interiores, sonhos por cumprir, descontentamentos face ao futuro ou que, simplesmente, estão a um passo desse desastre certo a que apelidamos de loucura. Pouco de carismático haverá, com certeza, nos últimos quatro dias de vida de um homem que constata, impotente, o falhanço da sua vida antes do inevitável suicídio (e não, não há aqui nenhum spoiler, visto que a morte da personagem é entregue de antemão no começo do livro).

Estas personagens, tão distantes do homem/mulher valente e física, mental e/ou moralmente inquebrável, permitem-nos ver, reflectidos, os próprios fantasmas e erros da nossa existência e constatar que a dor, o medo e a infelicidade são, também eles, uma característica inata do ser humano. É caso para dizer que aprendemos bem mais sobre nós mesmos com esta gente imperfeita, defeituosa e amalucada do que com muitas das ‘modelos’ perfeitas e heróicas da literatura.


5) Há uma sensibilidade social nos livros

Pelo que até aqui foi dito, parece que Lobo Antunes vive (e escreve) no seu próprio mundo – um universo degradado e depressivo que se revela essencialmente introspectivo. Mas importa referir que, em muitos dos seus livros, há um Portugal também ele decadente, que é a causa implícita de tudo isto.

Em “Os Cus de Judas” há a denúncia da futilidade da Guerra no Ultramar que, a ter um efeito verdadeiramente prático, foi o de estropiar mentalmente muitos dos soldados enviados para o chamado cu de judas – o meio do nada. Já em “Auto dos Danados”, temos alguns indícios do ambiente que se vivia no pós-revolução de Abril. Abrindo a “Memória de Elefante” – uma das obras mais autobiográficas do autor – vemos o dogma de um país onde os filhos eram forçados a herdar a profissão dos pais e onde o incentivo à arte era diminuto.

No fundo, podemos aferir que as obras de Lobo Antunes são, também elas, o reflexo e uma crítica implícita ao Portugal que as viu nascer, funcionando como mais um documento histórico para melhor compreendermos o pensamento e o sentido por detrás das evoluções sociais do Portugal da segunda metade do século XX.

Não é em vão que as pessoas falam num escritor complexo, que fabrica uma prosa plena de frases longas e mudanças de direcção narrativa. Mas, se a confusão e a angústia inicial forem ultrapassadas pelo percorrer das páginas, pode ser que muitos outros venham a descobrir, tal como eu, um encanto muito especial por detrás das palavras de um dos escritores mais importantes da actualidade. Leia-se “Os Cus de Judas” ou a “Explicação dos Pássaros”. Garanto que não se vão arrepender!


por José Miguel Lopes
03.12.2013

14 de março de 2015

Le Temps (Suiça), crítica a Sôbolos Rios Que Vão - António Lobo Antunes no país da infância

António Lobo Antunes no país da infância


Au bord des fleuves qui vont, tradução
em francês de Sôbolos Rios Que Vão
(Christian Bourgois, 2015)
Após ter sido internado num hospital, o escritor português fez de Sôbolos Rios Que Vão um dos seus melhores romances

Em 2007, António Lobo Antunes, então com 67 anos, foi operado a um cancro no intestino num hospital de Lisboa. Como jovem médico, cumpriu a sua obrigação militar em Angola, durante a guerra colonial. Há pouco tempo teve de ser novamente operado, desta vez aos pulmões. Contudo, foi entre esses meses de Março a Abril de 2007 que tomou consciência da sua finitude, do pouco tempo que ainda tem. Em 2010 publicou o seu 22º romance, Sôbolos Rios Que Vão. O livro parece assumir a forma de um diário – desde 21 de Março a 4 de Abril de 2007. No hospital, o corpo é o palco de um coro de vozes que misturam o presente com um passado longínquo, através de uma polifonia que Lobo Antunes tem vindo a desenvolver ao longo de uma vintena de títulos, uma sinfonia que é sua marca indelével. Durante aquele tempo, entre o sono da anestesia e choque de uma doença grave, esta pauta de reminiscências produz um acorde mais ajustado, mais restrito e despojado das grandes arquitecturas de livros anteriores – Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? ou O Arquipélago da Insónia

Trata-se de um romance autobiográfico? Não parece que existam muitas duvidas, porém os elementos estão recompostos, são e não são o que parecem,  transfigurados pela memória, pela dor e pelo trabalho da escrita: «[…] era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre […]». A igreja, as árvores, a casa da família em Nelas, no centro de Portugal, toda uma paisagem da infância vem em auxílio do homem velho, o Senhor Antunes, e o Antoninho de então que lhe faz companhia: «O passado nunca morreu. Nem nunca passou», disse Faulkner, com quem Lobo Antunes é muitas vezes comparado.

O título do romance vem dos versos de uma redondilha do poeta Luís de Camões: “Sôbolos rios que vão / em Babilónia me achei». Um exílio, portanto: de si mesmo, do corpo que o traiu em silêncio, da infância que não fora um verde paraíso, antes um território cercado de ameaças e medos, embora num tempo longe da finitude. Como dizia Fernando Pessoa, por quem Lobo Antunes não nutre grande afinidade, seria como “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto».

Sôbolos Rios Que Vão é um livro repleto de silêncios, desenhando uma “cartografia das emoções”, que reúne todos os sentidos: o ruído do vento sobre as árvores, o cheiro das compotas na despensa, a picada de um alfinete, o sabor do rato de chocolate, a lembrança de uma bochecha encostada à sua.  As imagens são recorrentes: a tia que tocava harpa, o pingo num sapato, os mineiros doentes, estes também, com os cheiros do volfrâmio, uma estrangeira loira, o ténis no hotel dos ingleses, o suicídio fracassado do tio. Tudo se torna profecia, oráculo:  «não se lembrar do nome da governanta do senhor vigário preocupou-o, lembrava-se do avental, dos chinelos, do riso, não se lembrava do nome e por não se lembrar do nome não iria curar-se […]».

Os corpos da mesma forma se definham: «De quem são estas mãos?», questiona o doente. Quando o avô guarda os óculos nos bolsos também deixa cair alguns dos seus dedos. E o pai, surpreendido em adúlteros actos amorosos – como quando com a criada: «Nunca mais acaba senhor?» - embaraçado a recompor-se, ridicularizado até mais não. O corpo do doente, ao cuidado dos seus médicos, alia-se ao da criança que o avô alimentava, dando de comer com uma colher, arredondando a boca ao mesmo tempo, como se faz com as crianças ainda hoje. O tempo é abolido: ora estamos em Março, com a chuva batendo nas vidraças, ora estamos em Agosto, sob um eterno verão.

A questão recorrente - «isto existe?» significando «o “eu” existe?» - não terá resposta. No último dia, «Agora sim finalmente», as dúzias de andorinhas  na janela do hospital, a dor desaparece, desligam-se os ecrãs dos aparelhos de suporte à vida, as personagens encontram-se ao redor da cama, para uma reconciliação ou um velório, não o sabemos: «à esquina de um freixo e a própria serra ausente, um pássaro no sentido da barragem quer-se dizer não um pássaro, a ideia de um pássaro, teria estado no hospital ou o hospital uma invenção como as outras […]».  No final, como num palco, «Exeunt omnes». Todos os actores saem de cena, a representação terminou. E assim termina um dos melhores livros de Lobo Antunes. Não é, porém, uma despedida: três outros romances foram publicados entretanto, depois de 2010.


por Isabelle Rüf
em Le Temps
28.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

[citações do romance no texto original em português: Sôbolos Rios Que Vão, Publicações Dom Quixote, 2010, 1ª edição ne varietur]

7 de março de 2015

Imagens distorcidas de um espelho: Uma leitura autobiográfica de Sôbolos Rios Que Vão, de António Lobo Antunes

edição brasileira Alfaguara (2012)
RESUMO: O trabalho faz uma leitura autobiográfica da obra Sôbolos rios que vão, do escritor português Lobo Antunes, a partir de textos teóricos a respeito das escritas de si. É necessário especular a possível vinculação do romance a essas narrativas devido às semelhanças e fatos encontrados no texto que remetem à vida do autor.

Sôbolos rios que vão, título que retoma os primeiros versos de “Babel e Sião”, de Luís de Camões, é o vigésimo segundo romance de António Lobo Antunes. Assim como no poema, o descontentamento com a situação do presente faz com que sejam trazidas à tona as lembranças de um passado saudoso porém inalcançável. Ao contrário do eu-lírico de “Babel e Sião”, que se sente desolado ao relembrar esse passado perdido, o narrador de Lobo Antunes consola-se em suas memórias e acolhe-se nelas para suportar as dores que lhe cercam, provenientes de uma luta fervorosa contra um câncer.

Como poema e romance compartilham a mesma temática geral, a efemeridade da vida que passa despercebida assim como os rios que se vão, a partir da primeira estrofe de Camões  entende-se o que o romance compreenderá: uma saudade nostálgica do que já foi vivido, saudade de “Sião do tempo passado”, da infância tranquila na vila dos avós, confrontando a agonia da “Babilônia ao mal presente”, dos sofrimentos de um paciente no hospital. O curso do rio também simboliza os caminhos da vida e, ao longo da distância que é percorrida, todos os elementos que se agregam a ele, outros rios que fortalecem seu tamanho, afluentes, memórias, marcas e pessoas, até que, finalmente, alcança um espaço final onde desemboca, e o caminho percorrido é reconstruído através de reflexões a respeito da própria existência.

[...]

Certamente a mais autobiográfica de suas obras, Sôbolos rios que vão é uma coletânea de registros confessionais que fazem uma reconstrução via memória da infância do personagem que, no ano de 2007, vive momentos de angústia, solidão e medo perante a morte quando levado a um hospital de Lisboa para a retirada de um cancro no intestino. Na forma de um diário ficcional, que relata os acontecimentos desde a internação até a retirada do tumor e a recuperação do protagonista, em um período que abrange nove dias entre 27 de março e 04 de abril daquele ano, um narrador descreve, na terceira pessoa, as fraquezas do corpo doente enquanto relembra uma infância tranquila em uma con(fusão) de duas realidades temporais [...]



por Maria Inácio Peixoto Quaresma
em Darandina, revista da Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil)
[não datado]

[texto não revisto segundo a norma ortográfica amtes do AO90 para português europeu, mantendo a grafia português brasil]

[referências a António Lobo Antunes na Web alteradas; por favor consultar notas após download do ficheiro; em caso de dúvida enviar e-mail para jalexramos@gmail.com]

5 de março de 2015

AM - opinião de leitura sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Este livro, último de António Lobo Antunes, tem como capítulos os diferentes apartamentos. É descrito a várias vozes, os vários narradores e a polifonia tão característicos da sua escrita.

Segundo direito. "sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados...e um bêbado  com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa...um prédio sem elevador nem garagem". "Até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que falta uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo". " Nem no meu casamento bebi, apesar de tão aflito não bebi"." Não sei se sou infeliz, como se mede a infelicidade, devo ser infeliz..."

Segundo esquerdo. Juíza maltratada por todos os namorados mais novos. O marido deixou-a quando as crianças eram pequenas. 59 anos. Morou em Castelo Branco. Com peso a mais. Acha-se feia: "demoro-me numa loja até os espelhos me expulsarem, o rosto que se alterou, a cintura que já não tenho, a forma de andar que não acredito ser minha". Usa placa. Os filhos desprezam-na: "os meus filhos não telefonam, não escrevem, a indiferença deles magoou-me, não me magoa já", ... " os meus filhos adormeciam com o meu dedo na mão e hoje nem um postal me escrevem quanto mais um telefonema ou um retrato". Pedem-lhe dinheiro emprestado. Sente-se sozinha: "em certas noites quando as vozes do silêncio nos inquietam". A quem os namorados batem e chamam "pudim de banhas". E velha: "o meu cheiro a velha porque a pele se alterou, o cabelo grisalho, as rugas, a coluna...". "A idade roubou-ma, a minha pele, o meu marido, o meu avô, quase tudo, não refiro os filhos porque não são nossos, emprestam-nos e vão-se, os meus emprestaram-mos durante vinte anos e a seguir perdi-os, primeiro custou, depois habituei-me, hoje é-me igual, estiveram aqui, não estão aqui, não me pertencem mais". Tem um piano que frequentemente interrompe o silêncio. 

Primeiro esquerdo. Bêbado. "Bebe para espertares miúdo". "Aceitava por obediência porque me ardia na garganta, depois calor, depois os ossos fosforentes, depois o corpo que demorava a tornar a ser meu e o coração no umbigo"."O silêncio depois de pancadas e gritos". "Nunca encontrei degraus tão complicados, sempre a mudarem de posição e cada vez mais altos". "Na altura não era do sabor que gostava, era de sentir-me feliz, bastava-me um golinho para conseguir voar, tão simples tudo, tão real! Se me perguntassem qualquer matéria na escola não falhava um resposta". Tem uma filha chamada Alexandra. A mulher e a filha riscaram-no do mapa, se se cruzarem na rua não se conhecem.

Primeiro direito. Judeus. "Falam em estrangeiro".

Terceiro esquerdo vive o tenente velhote, xenófobo e racista: "não se conhece a razão, alguns pretos dedicam-se, não pedem, não reclamam, não falam, acompanham a gente e obedecem", "mesmo mulatos alguma coisa lhes há-de entrar na cabeça até os animais aprendem".

Sótão: "uma tosse, um cochicho", "oiço-lhe os passos". "Contam que Salazar não faleceu, se esconde por aí continuando a mandar".

Terceiro. A actriz "lançando flores invisíveis ao público invisível". "Adoram-me". "Sou uma estrela", "encho plateias". "Mostra a esse vizinho simpático o cartão que o Salazar me enviou". " jantamos uma sopa e para chegarão fim do mês é o cabo dos trabalhos". A actriz tem 91 anos. Há muito tempo que não sai de casa, vive com a pseudo sobrinha amarradas pela pobreza. Poupam na luz para não gastar electricidade. Delírio puro: "tanto ruído no interior de mim onde actualmente silêncio que só os aplausos à minha tia que não é minha tia interrompem, tanta gente de pé na sala deserta e ela a sorrir para a direita e para a esquerda enviando beijos".

Os personagens e as vozes alternam entre o bêbado, os judeus, o cego, a actriz decadente que acha que o Salazar tem um fraquinho por ela, a cuidadora da actriz: "mora com uma velha maluca a cair da tripeça e trata-la por tia...dama de companhia de uma actriz que foi quase esposa de Salazar"), o militar, maus tratos infligidos pelos filhos, violência doméstica... Um universo de solidão ("Manhãs mais compridas, tardes curtas, noites longuíssimas", "apesar de tudo prefiro as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhado"), decadência, depressão, envelhecimento que é comum a todos os personagens ("esses fluidos dos idosos...que o corpo não segura, cuspos, suores, gotas no nariz, misérias, pingos vermelhos sem relação com as lágrimas...não choram, babam-se apenas", " o suplício das escadas, sapatos que se elevam puxados pelas gruas das pernas". Todos eles vivem amarrados ao passado. Alguns com terror do passado. Gente psicótica com a mania da perseguição. Gente com muita falta de afecto. A temática da guerra sempre presente, mesmo que de forma subtil. Há, também, sempre um médico. A maioria dos personagens não tem nome. A narrativa do livro parece passar-se no outono, não por acaso, a mais triste das estações do ano.

António Lobo Antunes parece usar as suas memórias reais, como por exemplo, o seu pai, professor conceituado de Medicina e assistente de Egas Moniz, quando consultou Salazar aquando da sua  célebre queda da cadeira: "-Salazar um gigante - disse o professor. - Vi-o como daqui para aí." E dos tempos de aluno de Medicina: "cerebelo hipotálamo calcâneo". O prédio situa-se algures em Lisboa. O enredo  divide-se, ou refere-se pontualmente, a Castelo Branco, Portalegre, Carcavelos, Barreiro ou a "genérica" província ("todas as terras da província se assemelham mais igreja menos igreja").

Sempre com pormenores detalhados sobre o comum quotidiano e sempre com um revivalismo e saudosismo dos anos 70/80: "a lavar a marquise com a esfregona". "O horror dos domingos quando as vozes da infância nos visitam". Os poucos nomes de personagens, alguns são pindéricos: Sofia Rosa. Descreve sempre situações com uma memória fotográfica surpreendente. A descrição pormenorizada de sensações como a náusea: "o corredor às voltas, no quarto um abismo e eu agarrado ao colchão". Analepses e prolepses constantes entre a infância e o presente.


por AM
04.03.2015

1 de março de 2015

Marco Caetano sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia (em 2008)

Trata-se do primeiro livro lido por Marco Caetano (de quem temos outras duas opiniões), que adquiriu por impulso quando, ao visitar a Feira do Livro de Lisboa de 2008, viu uma fila enorme para uma sessão de autógrafos de António Lobo Antunes, e não quis desperdiçar a oportunidade. 

É (também) de opiniões simples dos leitores que este projecto se sustenta. Por que é uma partilha, entre todos nós, leitores, de que se trata António Lobo Antunes na Web.

*

Aconteceu magia na Feira do Livro de Lisboa [de 2008]. Algo que ainda hoje tenho dificuldade de explicar ou até mesmo de perceber. Quando passeava no recinto do grupo Leya em busca de novidades, vi uma fila enorme para autógrafos. Surpresa das surpresas, era António Lobo Antunes. Não resisti e apesar de saber que teria um largo tempo de espera à minha frente, fui escolher um livro ao calha para, também eu, garantir o meu autógrafo. Foram talvez cinco minutos apenas, mas asseguro que foram muito intensos... Uma experiência que gostaria de repetir... 

Escolhi Ontem Não te Vi em Babilónia. Porquê? Não sei, havia algo que me dizia que deveria ser este o primeiro. Sinceramente não sei se fiz uma boa escolha. O próprio António Lobo Antunes me questionou se era o primeiro livro dele que iria ler. Quando lhe respondi que sim, falou-me um pouco do enredo e alertou-me que iria ser difícil de ler, mas que valeria a pena pois no final iria perceber. Será que percebi? Quero acreditar que sim, mas do que tenho a certeza é que serviu para me apaixonar pela sua escrita. 

Sobre o título, Ontem não te vi em Babilónia, li algures que o autor disse que também poderia ser Ontem Não Te Vi No Corte Inglês ou tão-somente Ontem Não Te Vi. De facto não poderia estar mais de acordo, mas a magia de António Lobo Antunes também passa pela forma superior como baptiza as suas obras. Nunca vi outro autor com tamanha capacidade de escolher os títulos. 

Numa noite de insónias, várias pessoas com medo de falar, relatam o seu ontem. Entre a meia-noite e as cinco da manhã cada uma delas dá o seu testemunho, mente, inventa, mostra os reflexos de uma sociedade, mostra um pouco do autor. Verdadeiros quebra-cabeças que teimam em atormentar quem apenas quer esquecer o passado. 

Ana Emília quer esquecer a morte da filha, um suicídio quando tinha apenas 15 anos. Alice, outrora enfermeira, quer esquecer a infância, mas quer também esquecer o presente. Quer esquecer Osvaldo, o seu marido, tuberculoso, que dorme no quarto ao lado. Não dorme, está também acordado, também ele querendo esquecer a morte da mãe quando era ainda uma criança. 

A noite vai avançando e vão-se descobrindo laços que ligam intimamente as personagens. Como num bailado de andorinhas que procuram o ninho sem caminho certo, também a cabeça do leitor procura o fio condutor que permite atingir o final do livro. Aí também nós passamos por uma insónia, por um pesadelo. 

No meu caso o “pesadelo” foi ler pela primeira vez este mestre. Parece que se institucionalizou que António Lobo Antunes é imperceptível e apenas para sobredotados. Talvez de facto eu ainda não estivesse preparado. Se achei confuso? Difícil? Provavelmente, mas tenho a certeza que vou repetir.

[...] António Lobo Antunes exerce sobre mim um fascínio difícil de explicar... Ainda assim não é um autor que eu recomende quando alguém me pede sugestões... Acho que merece ser descoberto! Só assim faz sentido.


por Marco Caetano
22.07.2008

28 de fevereiro de 2015

«O prodígio do prodígio», opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra

António Lobo Antunes: Eu Hei-de Amar Uma Pedra  - O prodígio do progídio

Precisamente quando eu achava que "O Manual dos Inquisidores" seria sempre o meu romance preferido de António Lobo Antunes, "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" vem contrariar-me. "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" é, desde logo, um romance diferente no processo de escrita. Em vez de uma história imaginada, tem como enredo uma história verídica. António Lobo Antunes encontrava-se a escrever num gabinete de hospital, quando um colega seu, psiquiatra o chamou para ouvir o relato da bizarra história de amor de uma mulher. Descrita no livro como

"Doente de 82 anos, sexo feminino, idade aparente coincidindo com a real, Orientada no tempo e no espaço, alo e heteropsiquicamente, memória conservada de acordo com os parâmetros etários, contacto adequado, sintónico embora retraído, com dificuldade em verbalizar o motivo da consulta"
é a sua história que faz "Eu Hei-de Amar Uma Pedra".

A mulher, cujo nome nunca sabemos, conhece o homem, de quem também não conheceremos o nome, quando ambos são ainda jovens. Posteriormente, ela é internada num sanatório em Coimbra. Ele escreve-lhe, ela responde-lhe, mas as cartas não são enviadas. Ele deduz que ela morrera.

Casa. Tem duas filhas. Vive em Lisboa, com a família, quando reencontra a mulher, que saíra do Sanatório, e era agora costureira. Iniciam uma bizarra relação.

Durante as férias de Verão que o homem passa em Tavira, Algarve, a mulher está sentada dois toldos adiante, tapada com um interminável crochet. Olham ocasionalmente um para o outro. Ás quartas feiras encontram-se numa pensão rasca na Graça, e, na Primavera, encontram-se por vezes num hotel em Sintra, de onde observam as acácias em flor.

Depois, o homem morre, e a mulher decide consultar um psiquiatra, dado o estado de perfeita melancolia em que mergulha.

É o tipo de história bonita que nunca pensei que António Lobo Antunes fosse escrever. Não me interpretem mal, a dureza e crueza e realismo que são a imagem de marca deste escritor continuam lá, mas agora inseridos numa comovente história de amor.

Analisando as situações através de fotografias, consultas (no psiquiatra), visitas e narrativas, vai modelando os seus personagens, cada um com o seu lado bom, e com o seu lado negro.

A personagem da mulher da praia, é introduzida de uma forma tão discreta que, mais tarde, quando percebemos que se trata da protagonista, é difícil acreditar.

O último capítulo, e o único em que a narradora é essa mulher, é de uma beleza tocante, poética mesmo, e única no contexto dos romances de António Lobo Antunes.

Não é um livro perfeito apenas por perder demasiado tempo com a vida do psiquiatra, que, para o enredo, não interessa rigorosamente nada, mas essa é uma marca a que Lobo Antunes há muito nos habituou, e, devo dizer, não é de todo mau, uma vez que descentraliza o romance, e torna-o mais vívido, mais real, por explorar também a vida de uma pessoa que não está directamente envolvida na intriga principal.

É bonito ver uma relação que durou sessenta anos, que vivia destas pessoas se olharem as tardes que passavam na praia nas férias, e as tardes de quarta-feira numa pensão perdida na capital. Quantos de nós poderiam ter uma relação assim, tão forte, tão estoica? Era verdade que, com tão pouco tempo juntos, acabavam por disfrutar apenas do bom lado da relação, uma vez que não tinham sequer tempo para discutir; mas se virmos bem, esta mulher deu a sua vida toda a este homem, não casou com outro, nunca aceitou dinheiro deste "porque o amava", ou seja, arriscou tudo por ele.

E, sinceramente, não resisto em transcrever apenas um pouquinho do final, como se um poema fosse, porque se não é, poderia ser...

"Se calhar Tavira já não existe. Nem Sintra. Há quanto tempo isto foi? Terei inventado tudo? Sonhado tudo? Demoro na resposta, mas penso que não..."

por Supermassive Black-Hole
20.05.2006

27 de fevereiro de 2015

Ana Paula Arnaut disserta sobre O Arquipélago da Insónia

O Arquipélago da Insónia: litanias do silêncio


[...]

As páginas de O Arquipélago da Insónia não ecoam só personagens, temas e motivos dos romances anteriores; nelas, António Lobo Antunes parece ter conseguido o silêncio, o intimismo, (quase) completo, absoluto, que, em diversas ocasiões, disse querer alcançar. Esta sensação não decorre apenas do facto de as personagens parecerem falar para dentro de si mesmas, ou de os substantivos “silêncio” e “fantasmas” percorrerem todo o romance, ou, ainda, de a determinado momento, pela voz do autista, ficarmos a saber que “isto não é um livro, é um sonho”... e os sonhos não têm sons. Para o silêncio a que nos referimos concorre, ainda, o uso de uma linguagem substancialmente despojada do que muitos leitores classificam como ruído e que o próprio Lobo Antunes designa por “gordura” ou “banha”, referindo-se à excessiva utilização do palavrão, de metáforas, comparações, adjectivos, advérbios de modo, etc. Ao contrário dos livros anteriores, principalmente daqueles publicados até A Morte de Carlos Gardel (1994), onde proliferam imagens de variável ousadia linguística e semântica, este romance mostra um autor que, finalmente, parece ter conseguido alcançar o desejo de reduzir o livro ao osso.

[...]

Ler a dissertação completa descarregando o ficheiro pdf no seguinte link: Ana Paula Arnaut, O Arquipélago da Insónia: litanias do silêncio.


por Ana Paula Arnaut
Faculdade de Letras /
Centro de Literatura Portuguesa
Universidade de Coimbra

[não datado]
do site: Plural Pluriel

25 de fevereiro de 2015

Ana Fernandes sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas (blog Delfos)

Até a pedra mais pequena encerra um mundo em si. Até a mais corroída pela erosão, até a mais invisível. Ver o que está para lá dessa pedra desgastada, observar os seus mundos em conflito, saber que esses mundos existem, é o que a literatura nos pode ensinar. A partir daí, para mim, todas as discussões sobre o que a literatura pode ou não pode, deve ou não deve, não têm importância nenhuma.

Se para João Botelho o cinema se resume “a luzes e sombras e seres-humanos aflitos no meio”, a literatura não é muito diferente uma vez que todas as personagens procuram um lugar ao sol para se aquecerem. Mesmo as mais comuns, mesmo as que vivem no mais banal dos prédios no mais banal dos bairros. Ir além da aparente erosão dos rostos, além do que transbordam para fora, significa encontrar um mundo não menos verdadeiro nem menos válido. Só alguém com mestria é que o consegue descrever com uma tal sensibilidade que põe tudo a descoberto e desarma. A literatura também é isso, desarmar e ganhar o péssimo vício de se ver tudo de todos os ângulos. Olhar para alguém, virá-lo do avesso, desarrumá-lo e ver o seu todo. Presas entre o desencanto, o passado e o presente, entre a solidão e as desilusões, entre os desejos e ilusões, as personagens que se dão a conhecer na primeira pessoa em ‘Caminho como uma casa em chamas’, de António Lobo Antunes, reflectem isso mesmo – mundos desfragmentados que pertencem a um quotidiano demasiado perto de nós. Mundos demasiado fortes a oscilarem pelo tempo desconexo sem, no entanto, deixarem de ser comuns e palpáveis. Mundos que poderiam, muito bem, habitar no prédio em que vivo. Este é um dos livros em que, estranhamente, há uma familiaridade que fala mais alto, uma acessibilidade que o leitor sente quase de forma invasiva porque todos nós cabemos ali. Se as personagens têm um lado pitoresco e se escondem na sua sombra e ilusão? Claro que sim. O que temos são mundos fechados em si mesmos, afastados do seu presente e quotidiano, afastados do que já não podem ter. Não deixa de ser curioso, no entanto, que seja um pouco desse lado pitoresco que nos aproxima delas. Somos nós, enquanto sociedade portuguesa, que ali estamos. Desde a juíza, passando  pelo combatente da  Guerra Colonial, até ao simples bêbado (este último protagonista da melhor e mais comovente narrativa que já li), estas pessoas, embora perdidas na sua sombra, carregam consigo o desejo mais democrático, humano, concreto e palpável que há — a necessidade de amor. Por instantes, é como se estivéssemos a olhar para crianças grandes e desajeitadas, com os braços no ar, a pedir da melhor forma que sabem, ‘ama-me, fica comigo’. É o reconhecimento dessa necessidade que não escolhe formas nem feitios e a mestria em descrevê-la que torna A.L.A um escritor da humanidade, de toda a humanidade, daquela palpável e banal que se cruza connosco nas ruas de todos os dias.


por Ana Fernandes
23.01.2015

22 de fevereiro de 2015

António Carinha - O Manual dos Inquisidores: a escrita com música, a casa sem telhado

Há uma família rica. O pai é ministro, recebe a visita do professor Salazar, que o ouve para decidir os destinos do país, têm criadas e uma governanta, uma quinta com boa casa, jardins cuidados, uma boa vida.

Há uma família pobre. O filho vive numa casa destelhada, com janelas sem vidraças, recebe a visita da filha para ralhar com ele, nos jardins cresce capim, as cuecas misturam-se com os talheres na gaveta da cozinha.

A família é a mesma. A casa também. Os tempos é que mudaram. A família rica vivia no tempo da ditadura. A família pobre surgiu com a revolução que, em Portugal, no dia 25 de abril de 1974, tornou os portugueses livres.

- Livres de quê?
já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia
[…], cansaram-se de besuntar os muros a giz, o do café desistiu do acordeão, os doentes do hospital continuavam na cerca a sua procissão de agonizantes […]

Nesta obra, António Lobo Antunes expõe as glórias e as misérias de uma família que conheceu a degradação em proporção inversa ao poder do passado. Poder que fazia com que o senhor doutor, ministro de Salazar, mandasse prender ou colocar em liberdade, com um rápido telefonema, quem o seu humor do momento indicasse. Mas que também o levavam a ter atitudes de afirmação bacoca, no íntimo do seu lar e, muitas vezes, no íntimo da servidão e dos corpos das suas empregadas.

O meu pai de mão aberta na nuca da filha do caseiro, uma adolescente descalça, suja, ruiva, suspensa das tetas das vacas acocorada num banquinho de pau, a filar-lhe o cachaço e a obrigá-la a dobrar-se para a manjedoura sem largar os baldes de leite, o meu pai outra vez escarlate a esmagar-lhe o umbigo nas nádegas, de cigarrilha acesa apontada às vigas do tecto sem que a filha do caseiro protestasse, sem que o caseiro protestasse, sem que ninguém protestasse ou imaginasse protestar, o meu pai tirando a mão da minha nuca e designando com desprezo a cozinha, os quartos das criadas, o pomar, a quinta inteira, o mundo
– Faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.

O poder no seu lado mais obscuro, o poder das atitudes no recanto do lar, o poder que ninguém ousava contestar, é aqui muito trabalhado e alcança mais profundidade do que o poder da governação, mau grado os anseios do senhor doutor, que desejava ter sido ele a substituir Salazar. Quando recebe Caetano, que ocupou o lugar do velho ditador, trata-o com desprezo.

o senhor doutor numa cadeira de braços apontando ao professor Caetano uma cadeira sem braços, e se eu rodava a maçaneta a aparecia com o tabuleiro do bule e das chávenas e o prato das torradas afastava-me com as costas da mão antes de o professor Caetano poder abrir a boca
– Este Presidente do Conselho não bebe chá Titina

É o desprezo de que também irá sofrer, causado pelo filho, que também será desprezado, pela vida, que não lhe reconhece o estatuto de antigo ministro, pelas ordens que deixa de dar, essencialmente na privacidade das suas empregadas, na cozinha da casa, na urgência de uma vaca que quer parir.

Titina é a velha governanta que lamenta nunca ter sido assediada pelo patrão. Mais tarde, esquecida num lar da Misericórdia de Alverca, também desprezada, aguarda o dia em que o filho do senhor doutor chegará para levá-la.

[…] um destes dias vem a Alverca buscar-me, entra pela Misericórdia dentro com aquela segurança, aquela majestade, aquela autoridade, afastando a terapeuta ocupacional como se afasta um moscardo aborrecido

A terapeuta ocupacional é uma das vozes que contribuem para a riqueza polifónica de O Manual dos Inquisidores. Comentando a sua vida pessoal e profissional para o autor de um livro, explica o seu processo de divórcio e propõe uma obra ao autor que a escuta. Com ironia, Lobo Antunes brinca com a peculiar fama dos advogados, com a vizinha, médica, que fazia muito barulho nas suas brincadeiras sexuais num prédio onde tudo se ouvia, e com a proposta aparentemente ingénua da terapeuta que quer fazer relatos da sua vida numa «estalagenzinha no norte».

a médica que o ano passado acabou por engravidar, calar-se e trazer paz a Odivelas que os restantes condóminos são normaizinhos benza-os Deus, dois ou três impulsos a despachar que já não é nada mau e chega, e só tornei à cama derivado ao Adérito se embeiçar por uma rapariga lá da agência de viagens […], ainda me foram ambos a Odivelas na esperança de levarem metade da mobília e as prendas de casamento da família dele e eu acompanhada pelo advogado, a erguer a ceifeira
– Tira daí o sentido
o advogado que esse sim me ficou com a mobília e as prendas de casamento na conta que me apresentou a seguir ao divórcio, se quando terminar este livro lhe apetecer escrever um romance de advogados traga o gravador, vamos para um sítio calmo, uma estalagenzinha no norte, eu dito-lhe num fim-de-semana do primeiro ao último capítulo
[…]

Lobo Antunes usa a carnavalização para acentuar caraterísticas ou até para, embora com menos frequência, provocar o leitor, ou melhor, provocar no leitor a sensação de que cada pessoa tem, não o seu mundo, mas os seus mundos, construídos com as vicissitudes da vida, com as revoluções, com as surpresas, com monstros, com as vontades e os telefonemas do senhor ministro.

Quando o senhor ministro ligou às sete da manhã a mandar-me ir à quinta por ter uma vitela a parir, a minha mulher, acordada pelo telefone que atirei ao chão ao estender o braço para o aparelho, acendeu o candeeiro do lado dela, começou a fazer-me sinais para tapar o bocal
– Quem é Luís?
e de repente dei conta que vivia há trinta e cinco anos com um monstro
[…] o sapato vazio à espera de um Natal que não havia e se houvesse a melhor prenda que me podia dar era tornar-me viúvo, eu para a inquietação da fronha
– O ministro por causa de uma vaca ainda não foi a tua mãe descansa
a claridade de Setúbal nos estores igual ao âmbar da morgue onde o Cristo com cara de passador de droga, falecido de overdose, aguardava a autópsia na parede, as cortinas semelhantes a toalhas mortuárias
[…], a minha mulher a amainar devagarinho como um polvo adormece, mergulhando os tentáculos na areia do lençol
– Que alívio

Quem se confronta, pela primeira vez, com a escrita de António Lobo Antunes pode ficar admirado com a pontuação. Mas quando se entra na história parece inconcebível que a mesma pudesse ter sido pontuada de outra forma. É toda uma cadência e uma musicalidade que encaixam nas palavras que vão e vêm e nos tempos que se alternam. Noutros romances do autor acrescentar-se-ia a polifonia a este encaixe musical. Em O Manual dos Inquisidores a polifonia é extremamente forte mas, por outro lado, está muito bem organizada. As diferentes vozes estão muito mais claras e definidas do que em outras obras de Lobo Antunes. Mas a atenção continua a ser tão necessária para a leitura deste romance como de outros do escritor. «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão» é uma frase repetida algumas vezes. O leitor desatento julgará estar a repetir a página lida. O leitor concentrado sabe que é o senhor ministro que talvez tenha regressado ao estábulo. Ou, desta vez, talvez à cozinha.

– A gente tem instruções do tribunal para selarmos tudo
para selar os corvos, o vento, as rãs, os eucaliptos, os murmúrios e as vozes do passado, selar a cozinheira estatelada de costas no altar e o meu pai de calças pelos tornozelos
– Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão

«Selar os corvos, o vento, as rãs, os eucaliptos» e tudo o mais até ao ministro com as calças pelos tornozelos, era selar um passado. Mas selar o passado não é possível. O passado pode ser desprezado, pode ser reconstruído, pode ser maltratado. Mas não pode ser banido. E chega ao presente muito mais do que em simples memórias. Lobo Antunes exibe de maneira magistral este entrelaçado de tempos. A narrativa não apresenta um tempo linear. Vai e vem. Não encerra nenhum período de forma estanque. É aberta. E é de forma aberta que termina o romance. Sem final. Sem, sequer, ponto final.
   
como hei-de explicar-lhe, como hei-de tornar isto claro, dizer ao pateta do meu filho que posso não ter sido mas que, posso ter falhado mas que, dizer ao pateta do meu filho, você compreende, dizer ao pateta do meu filho
peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu


por António Carinha
21.02.2013

21 de fevereiro de 2015

Alice Ferney em Le Figaro - «Ser e ter sido» crítica a tradução francesa de Sôbolos Rios Que Vão

Ser e ter sido

António Lobo Antunes - O escritor conta a sua estadia no hospital durante o tratamento de um cancro. Desconcertante e sublime.

capa da tradução francesa (por Dominique
Nédellec), publicada pela editora
Christian Bourgois em 19.02.2015
As obras-primas, disse Proust, são escritas numa língua estrangeira. Falam a língua de uma forma como nunca se havia entendido. Constroem no centro da sintaxe contradições, combinações, silêncios, que despertam os nossos olhos para um nunca visto. Como Céline, a quem escrevera na sua juventude, o escritor português António Lobo Antunes pertence a essa espécie de criadores da escrita. Ninguém escreve como ele, e ele não escreve como ninguém.

Resumir este grande livro é quase um ultrage: Sôbolos Rios Que Vão [Au bord des fleuves qui vont] (os rios míticos, os rios de Portugal, as torrentes de emoções que em nós fluem, os rios da memória e do tempo) relata os quinze dias do Senhor Antunes num hospital de Lisboa, onde é operado a um cancro, «o ouriço». Sendo nada mais que isso, é contudo dentro de um oceano, de um abismo, de uma floresta densa ou, na realidade, dentro da mente de um homem onde o leitor se entranha.

Desde o início, a ubiquidade do doente, da qual permite o seu livre espírito de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é-nos anunciada: o Senhor Antunes não está na sua cama de doente, ele está na serra, onde em criança pode ver sua avó. O corredor do hospital é como na aldeia, o enfermeiro deita o olho ao quarto como outrora o fazia a mãe... Os momentos, os lugares, os rostos que se cruzaram na sua vida misturam-se num mesmo instante. A memória toma conta do tempo, anula-o, deixa de existir passado, presente e futuro, tudo está concentrado na alma do Senhor Antunes. E este romance da sua agonia acaba por ser o romance da própria vida. A aventura cirúrgica, a dor, a angústia, as palavras do médico, cortam o fio condutor destas recordações às portas da consciência. O diagnóstico sibilado por frases no meio de uma profusão de sons, de cheiros, de gestos, de fantasmas em torno do doente, somente observando. Ele delira, afirma o enfermeiro, e o leitor sorve esse delírio.

É preciso dar conta da nossa perturbação. Para além das suas deslumbrantes elegâncias, a escrita de Lobo Antunes torna real essa ideia de que somos a cada instante todos aqueles que já fomos. O Senhor Antunes é, ao mesmo tempo, o adulto doente, o filho e o neto, Antoninho. A vida que tivemos não se perde, permanece em nós até ao final. E nós somos espíritos eternos, dizem os últimos capítulos, em que a morte do doente, incerta, não suspende o fluxo das imagens. Seja claro que se trata de uma prosa desconcertante, literalmente: não existe fio narrativo, que se dispersa num labirinto de memórias. A oração, a lógica, a habitual lineariedade resultam fracassadas. Como nos sonhos, o espaço e o tempo já não se impõem. O discernimento impacienta-se: de que estamos a falar? O que o inquieta? Onde estamos agora?

Tudo se move. Da mesma forma excitante e desgastante como o Guignol's Band de Céline, Lobo Antunes se afirma. Ele é um artista, não um contador de histórias. A sua matéria de escrita não é uma ideia da vida, antes das suas sensações, percepções, terrores e apetites. Se a concentração do leitor se mantiver, libertando o raciocínio, e se deixar levar-se pelas palavras, então a emoção atingirá o seu auge.


por Alice Ferney
19.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

14 de fevereiro de 2015

Entrevista de 2001, ao El Cultural - «Em literatura gosto de sentir o sangue»

Uma entrevista com treze anos, dada a um jornal espanhol, nunca publicada aqui, mas que agora passa a fazer parte do nosso acervo. António Lobo Antunes falava de temas de que viria a voltar em entrevistas posteriores (até mesmo nas mais recentes), mas é curioso ler da sua posição iberista versus a europeísta; da sua parca experiência como candidato comunista; da sua conhecida obsessão em desmitificar o papel do escritor, e também dos prémios literários, como o Nobel; da sua paixão pelos clássicos; e, enfim, da sua irreverência em pequenos detalhes que muito gostaríamos de ver reunidos num suposto livro de memórias suas. Posições e afirmações em (quase) oposição ao que tem proferido em entrevistas recentes. 



«Em literatura gosto de sentir o sangue»

El Cultural
Entrevista de Martín López-Veja
07.11.2001


Lobo Antunes escreve com esferográfica. Pousa-a no papel e pelo rio de tinta navegam as personagens de um mundo ora real, ora ficcional, um mundo de trágicos dias em Angola e nos trilhos de Benfica que levam sempre às mesmas pessoas.

Deixou a psiquiatria (sua anterior ocupação principal) a partir do momento em que pode viver da literatura. No entanto, continua passando pelo seu consultório de um hospital lisboeta onde trabalhou. Foi ali que conversámos com ele, interrompidos apenas pela sua filha. «Nunca cá vem, mas viu o meu carro estacionado e veio dar-me um beijo». Em Portugal publica agora o seu romance Que Farei Quando Tudo Arde? e, em Espanha, na semana que vem, será publicado o livro de entrevistas de María Luisa Blanco, Conversas com António Lobo Antunes.


O seu novo romance acrescenta certas novidades à sua obra.
Acha? Aprofunda o trabalho com a prosa que tenho vindo a fazer com os anteriores. É o livro que me parece mais bem acabado, o que mais gosto até hoje. Este mês comecei outro romance, que continua nessa procura da linguagem. Talvez seja novidade pelo tema em si, pelas personagens (trata do tema do travestismo), mas é a mesma procura.

O título vem do verso de um soneto de Sá de Miranda, que falava de um amor contrário à razão.
Nunca tenho um título antes de terminar um livro, e ao terminar este apareceu o maravilhoso soneto de Sá de Miranda. A ideia é: não somos mais do que um desejo intenso. Desde que o homem existe, as perguntas, os problemas, são sempre os mesmos. Por isso são tão actuais Quevedo, Cervantes, Camões.

As perguntas são as mesmas mas, de vez em quando, somos sacudidos com acontecimentos como o atentado em Nova Iorque.
Um acontecimento trágico, sem dúvida, mas enquanto vivemos, os bombardeamentos continuam, e tão violentos que de alguma forma nos afectam. Tudo isto é extremamente complexo para nós, ibéricos, que tanto devemos aos árabes. Exerce em nós uma terrível divisão interior. Não é agradável ver bombardear um país onde quase todos são inocentes.

Homens à medida de Deus

Tudo isto tornou necessária a reposição do papel do escritor na sociedade actual?
O escritor deve dar a sua opinião como cidadão, e escrever.

Há uma dimensão ética na sua literatura.
Sim, claro. Faz uns dois anos, na Feira do Livro de Madrid, que veio ter comigo um homem para que lhe autografasse um livro. Quando lhe perguntei o nome, disse: «Miguel de Unamuno». Fiquei perplexo, claro. Era um neto. Unamuno é o melhor exemplo de dimensão ética da literatura. Não apenas os seus livros, também a sua vida. O seu discurso em Salamanca perante Millán Astray é um grande exemplo. De vez em quando, Deus faz homens à sua medida.
Se fores um bom escritor deves ensinar os teus leitores a ler; se dizes algo novo, ao princípio vai haver uma resistência natural por parte do leitor, o que é preciso é vencê-la, é preciso seduzir o leitor: a literatura é a arte do rigor. Pouca vezes falei mal de outros escritores: quando o fiz foi porque lhes senti uma ausência de sentido ético na sua forma de escrever. Não podes dedicar-te a repetir uma fórmula de êxito: cada novo livro deve ser um desafio novo. É a única maneira de seres honesto para contigo mesmo, e para com os leitores.

Portugal  é sempre o cenário da sua obra: a Revolução dos Cravos, a Guerra de Angola, a história íntima do bairro de Benfica… Mas sempre com uma perspectiva crítica. Até mesmo o título de O Esplendor de Portugal é muito irónico. O que entende por ser português?
Precisava de um cenário para ambientar os meus livros, inventar uma língua. O meu país não é esse chamado Portugal. O meu país é o país de Tchékov, de Beethoven. Em Angola, na guerra, senti na minha pele todos esses substantivos elevadíssimos, Pátria, Honra, Identidade… Merda, esse é que é o verdadeiro sentido dos nacionalismos. Não acredito em nacionalismos. Amigos meus espanhóis vêm a Portugal e dizem: «É igual a Espanha». A mim também me parece. Torga, de quem tenho imenso respeito, insistia nessa ideia: eu sinto-me, como ele, ibérico. Em Madrid, na Galiza, sinto-me como que em casa. São bairros da minha cidade. Mas já não sinto o mesmo na Alemanha ou em Inglaterra. Por essa razão me inquietava o fraco êxito dos meus livros em Espanha; porque sempre me pareceu que o público espanhol faz parte do meu público natural.
Graças a Deus que não sou político. Só posso dizer uma coisa: do mesmo modo que afirmo que me sinto ibérico, posso afirmar que não me sinto europeu. Quando estive em África, sentia-me mais próximo daquelas gentes do que quando estive na Suécia. No europeísmo há uma certa tendência de menorizar o que fazemos. Iremos falar todos inglês daqui a 50 anos? Soa a exagero, mas quem sabe… Da mesma forma que há que evitar os nacionalismos estéreis, há também que saber valorizar o que fazemos. Creio que o nível médio da poesia e romance que se escrevem em Espanha está acima do que tem vindo a ser feito no resto da Europa, qualquer país gostaria de ter um Javier Marías, um Marsé, uma Ana María Moix. E tem excelentes pintores, arquitectos. Eu sinto-me como parte disso, muito mais do que se passa em outros países.

Antes africano que europeu.
Dumas questionava por que é que há tantas crianças inteligentes que acabam por se converter em adultos imbecis. É o resultado de uma castração educativa tipicamente europeia que impõe tantas proibições que acaba por fazer paralisar.

A dignidade e a guerra

As suas personagens vêem-se enredadas nos becos da História portuguesa.
Sim… Mas eu escrevo romances, “epopeias líricas”, como alguém disse. Os meus romances estão cheios de erros, de lapsos históricos, mas isso não me importa. Dá-me medo cair no documentário, na reportagem: isso é coisa para gente sem talento.

Não gosta de falar da sua experiência na guerra de Angola.
Sabe o que é que mais me espanta? Não ter qualquer sentimento de culpa pelas coisas horríveis em que participei. Questiono-me muitas vezes e não o entendo. Uma vez, na Alemanha, um jornalista perguntou-me o que tinha sentido ao matar gente e se não sentia vergonha por isso. Nessa noite tive pesadelos. Mas só nessa. Gostava daquele povo, não entendo por que é que não sentia algo de mal.

Uma vez referiu-se à sua relação com Ernesto [Melo Antunes], o seu capitão em Angola, de que a filha dele vos dizia: «Como podem dois amigos passar o dia sem dizerem nada um ao outro?»
O Ernesto era um homem realmente admirável, o mais corajoso que vi debaixo de fogo, o único capitão que era contra a guerra, o único que foi candidato contra as listas da União Nacional. «A revolução faz-se por dentro», dizia. Partilhámos muitas coisas, entre elas o amor pela literatura. Era um modelo de coragem, de dignidade. Pouco antes de morrer, disse-me: «Esta noite acordei mijado. Não me deixes morrer sem dignidade».

Nunca falavam da guerra?
Nunca, jamais depois de regressar de Angola.

Nunca?
Mais só no fim, quando o cancro já o tinha tomado. Mas depois vinha a sua mulher e então dizia: «Não falemos mais». Jogávamos xadrez, conseguíamos passar muitas horas sem trocar uma só palavra. Às vezes a amizade é tão perfeita que não faz falta falar para que se diga tudo.

Outro grande amigo seu era o escritor José Cardoso Pires.
Outro homem duro, que sofreu muito durante o fascismo. Ligava-me todas as manhãs e passados cinco minutos voltava a ligar e dizia-me: «Que se passa contigo? Pareces-me triste». Eram homens muito másculos sem vergonha de mostrar o seu lado feminino, o seu lado maternal. Na amizade não há ciúmes, não há inveja, não é como no amor. Aceito a infidelidade no amor, mas nunca a aceitaria na amizade.

O poder e a literatura

Esteve metido na política, inclusive foi candidato pelo Partido Comunista.
Sofri uma grande desilusão. O Partido Comunista carecia de democracia interna, havia por todo o lado um certo espírito conspirativo. Foi como com a literatura: tinha uma ideia muito romântica e descobri que, por dentro, todos os partidos são execráveis. Só existem projectos de poder pessoal, um jogo de partidas e contrapartidas. Chegaram a dizer-me: se ajudares o partido, o partido apoiará a tua carreira literária. Mas o escritor deve ser sempre um contrapoder. Gostava de ser do Partido Comunista, mas para mim era impossível. Há um lado eclesiástico no partido que me repugna.

Parece muito empenhado em desmistificar a figura do escritor.
Sim, desde cedo. Repugna-me a ideia do escritor como entidade superiora, por muito talento que tenha. Conta-se da actriz Sarah Bernhard que ia certo dia pela rua e um homem a interpela. «Você é Sarah Bernhard?», ao  que ela terá respondido: «Serei esta noite, quando subir ao palco». Celaya dizia num poema da importância que é estar no meio das pessoas, mas também só às vezes.  Eu sou António, e, somente nos livros, Lobo Antunes. Claro que nem sempre são maus os efeitos secundários de ser-se um escritor. Um amigo meu dizia: fiz-me escritor para estar rodeado de mulheres bonitas. Porém, as mulheres bonitas acabam sempre preferindo os banqueiros ricos e barrigudos.

Converteu Lisboa, nos seus romances e nas suas crónicas, num “território literário”: Lisboa aparece muito diferente depois de lê-lo, mais verdadeira, mesmo que, se calhar, a sua opinião seja diferente.
[Risos] Bem, as ruas existem, não lhes mudei o nome, e aparecem tal como são, não mudei as casas de sítio. Há uns anos, apareceu na Alemanha um livro intitulado Geografia de Lisboa no qual se reconstruia, através dos meus romances, a cidade. Já lhe disse, ruas, casas, tudo é, geograficamente falando, precisamente igual, nos meus livros. Outra coisa é o que ocorre nesses ambientes, inclusive que o espírito das minhas personagens seja realmente o da cidade. Mesmo assim, é claro, tudo isso, sendo talvez ficcionado, não é mais que o resultado do que a vida  deixou em mim, a vida em Lisboa.

Mas você conhece bem Lisboa.
Não, não acredite nisso. Eu cresci em Benfica, uma bairro periférico que no tempo dos meus pais nem sequer fazia parte de Lisboa. Eu ia estudar para a cidade. Benfica era um microcosmos diferente. Ia-se ao cinema a Lisboa, à discoteca com os amigos quando havia dinheiro, às livrarias… Em Benfica conhecia-se toda a gente. Passava a linha do comboio e parecia que se encontravam as mesmas pessoas. Como se fosse um cenário, seguindo um caminho circular onde estavam os mesmos actores ou figurantes. Lisboa é uma palavra muito grande. Prefiro falar de algumas ruas, de algumas esquinas…

Portugal visto por um português

Disse que detesta o fado, que não gosta de Pessoa… Não deixa um símbolo português de pé.
Estou farto do fado. Cansa-me o seu saudosismo, é reacionário. Era a canção do regime, e ainda é. Quanto a Pessoa, não negaria que é um grande poeta, mas não me maravilha. Prefiro Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto. Na literatura (e na arte em geral), gosto de sentir o sangue, e Pessoa era muito intelectual. A arte que é somente trabalho cerebral não consegue apaixonar-me.
Portugal é injusto. Cada século vão encontrando um poeta melhor que Camões.  Mas todos passam e Camões fica. Foi ele que inventou o nosso idioma, tal como o falamos hoje. Ele é o grande poeta português.

Às vezes dá a impressão de que fala mais de futebolistas portugueses do que de escritores.
O desporto sempre foi muito importante para mim. Tinha um colega no liceu (hoje prestigiado crítico literário) a quem eu via com os seus amigos, muito inchados, falar de literatura enquanto eu jogava hóquei. Não faziam desporto, não iam a putas. Tinham uma vida asséptica. Não sujavam as mãos de merda, de esperma. Esse modo de vida nunca me interessou.
Lembro-me de ir patinar para o Jardim Zoológico, todas aquelas miúdas vestidas de branco, fazendo piruetas debaixo das árvores… Pareciam anjos.

Muitos defendem que o Nobel português devia ter sido seu.
Bom, há que desmitificar um pouco esse prémio. Não é Deus quem o atribui, mas uns quantos senhores que se reúnem uma vez por ano. Há tantos escritores de quem gosto (Tolstói!) que nunca o receberam… e depois há casos absolutamente ridículos, como o de Cela. Os prémios são agradáveis e aleatórios. Antes a minha vida era um tormento a partir de Setembro. Depois ficou mais sossegada, quando o deram ao Saramago, mas agora está a voltar o tormento. Não penso nisso. Foi divertido há três ou quatro anos, na Holanda. Estavam todos convencidos que me seria dado, e estava rodeado de jornalistas. Assim que se desfez o engano, desapareceram. Divertido e absurdo. Continuamos a ser o mesmo escritor com ou sem o prémio, não? Naipaul conheci em Londres. Não o admiro especialmente, na verdade. Mas o prémios… Coisas como o tema dos prémios Planeta, que levantam muitas reservas não só intelectuais, mas também morais.

Não se pode queixar, o seu êxito em Portugal foi rápido, mesmo sendo um romancista tardio.
Publiquei o primeiro romance tinha eu 37 anos, mas na altura já o haviam recusado vários editores e eu estava a escrever o terceiro. Após a queda da ditadura, toda a gente esperava a publicação das obras-primas que até então se julgava estarem escondias nas gavetas; mas essas obras nunca existiram. E depois, aqueles que escreviam submetidos à censura não superaram os vícios que foram adquirindo: narrativas situadas na antiguidade, em países imaginários. Não conseguiam falar sobre a actualidade. Penso que essa foi uma das razões para o meu êxito. Houve quem me elogiasse mas também quem me insultasse frontalmente, o que me pareceu bastante estranho. Era apenas um romance!

Mesmo assim, hoje existe unanimidade sobre a sua obra.
Em Portugal agora há um certo sentimento de má consciência a meu respeito, por certas atitudes do passado. Agora sou qualquer coisa assim como “o escritor”. Publicam-se estudos sobre mim, este ano sairá uma fotobiografia… Acaba por ser divertido, porque eu não mudei. No princípio, a minha atitude chocava. Lembro-me de uma entrevista na televisão. O apresentador dizia-me: «Natália Correia disse que a poesia serve para comer», ao que eu respondi: «Por isso ela está tão gorda». Coisas assim. Não era caso para tanto, mas vieram pedir-me contas. O meu prestígio em Portugal vem do meu prestígio lá fora. Nunca aceitei jogos com o poder, como os aceitou, e os aceita, Saramago…

Agora vai a Espanha para participar nas jornadas “Perfil de Portugal”, sobre o seu país. Parece-lhe necessário este tipo de jornadas?
Não. Aos escritores é preciso lê-los, não ouvi-los. A reputação de um escritor consegue-se publicando-o, lendo-o… Vou porque gosto de Espanha, porque me sinto como que em casa, porque sempre me receberam muito bem. Quem são os outros escritores? Carlos Reis é um pesado. E mais que escritores, há portugueses que apenas escrevem livros… Bom, será divertido.

Ainda se lembra daquele poema de Drummond que fala do envelhecimento?
Sim. Conhece-o?


«Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
«Desejo de voltar mais cedo para casa». É muito bonito esse poema. A única coisa que me dá medo é não ter tempo para escrever o que quero escrever. Somente mais dois romances, dois, e estará tudo feito. Um sobre seitas religiosas e, finalmente, outro autobiográfico… E então partirei a esferográfica. Espero que pelo menos tenha tempo para isso…


07.11.2001
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]


nota de edição: apesar de estarmos a partilhar a entrevista após treze anos da sua publicação original, ela será indexada no nosso acervo de acordo com a ordem cronológica: portanto, entre as entrevistas que disponibilizamos do ano de 2001.

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