1 de fevereiro de 2015

Entrevista à LER Dezembro 2014 «O que importa é que a gente escreva»

Revista LER
Entrevista de Francisco José Viegas
Dezembro de 2014

Pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.

Depois da publicação de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, António Lobo Antunes já terminou um novo romance, A Natureza dos Deuses, e está a escrever outro. No entanto, diz, não há «sentimento de urgência» - pelo contrário, trata-se de serenidade e plenitude.



Veio agora da Holanda e da Bélgica, onde foram lançados livros seus em festivais literários. Li uma entrevista sua ao Diário de Notícias, na qual diz que queria regressar a Lisboa porque precisava de continuar a escrever o livro, esse que está aí. É como se tivesse um sentimento de urgência em relação ao livro que está a escrever. Isso é de agora ou é de sempre?
É de sempre. Porque já me aconteceu, por exemplo, interromper um livro por 15 dias e não ser capaz de retomá-lo. Tive de atirar o material todo fora. É que já tinha perdido o ritmo… No fundo, tinha perdido o livro. Porque eu não escrevo com um plano muito detalhado,  às vezes é uma coisa muito vaga, dispersa… E tinha perdido o livro, estava com medo. Em relação a este, que provavelmente não vai ser publicado, estou cheio de dúvidas e de reticências. Um livro precisa de atenção permanente, precisa de que o seu autor esteja ali, dedicado, à espreita, de sentinela. Enfim, é preciso escrevê-lo todos os dias.

Uma dedicação permanente.
Sim, mas eu penso que isso acontece com todos.

É por isso que tem esse método mais ou menos rígido, de escrever das dez à uma, das duas às seis, das dez à meia-noite? É uma dedicação inteira.
Sim. Tem de ser. Eu não sei muito bem como é que as outras pessoas trabalham, mas aqueles escritores que eu conheço melhor trabalham assim. Até me aconteceu estar em aviões com escritores, em viagem, e um deles virar-se para mim e dizer «agora tenho de trabalhar», voltar-se para o lado e começar a escrever. O García Márquez escrevia nos aviões.

O António precisa estar em casa?
Não, não. Escrevo em qualquer lado.

Mas reparei que esse sentimento de urgência não o angustia nada. Pelo contrário, deixa-o com um sentimento de plenitude…
E de culpabilidade também. Sinto-me culpado quando não o estou a fazer. O que é estranho, porque eu não sei  em relação a que é que me sinto culpado, mas sinto-me culpado. A sensação que eu tenho é a de me terem dado uma tarefa, de me terem dado um compromisso para assumir, e eu tenho de cumprir. Porque um livro é dado. E eu não posso falhar esse compromisso.

Quem é que dá?
Não sei.

O António dizia, numa entrevista magnífica à Isabel Lucas, que os livros nascem dentro de si, acontecem, é como se os tivesse guardado lá dentro. Isso é um pouco aquela ideia muito romântica de que o escritor transporta um génio, uma voz, um certo número de livros…
Eu acho que todos nós sentimos a mesma coisa. Que temos uma coisa dentro de nós. O meu problema é para começar a escrever. Por exemplo: eu sento-me a este mesa, preparado para escrever, mas é preciso que uma parte da cabeça se feche para abrir uma outra parte que, normalmente, nunca está aberta, e que só se abre para escrever. E julgo que isso se passa, mais ou menos, com quase todos.

Acho que isso explica que, desde os seus livros da década anterior se tenha aproximado cada vez mais da poesia e da linguagem da poesia…
Acha? Eu não sou poeta, infelizmente.

Este último livro é muito marcado pela linguagem poética. Ou pela procura de expressão poética…
Se disser «pela procura de uma expressão», estou de acordo. Mas «expressão poética», não tenho. Não posso ter essa pretensão, porque eu até aos 19 anos só escrevia poesia. E então descobri que era má, muito má. E não imagina o sofrimento que isso foi para mim. Sentia-me completamente perdido, era um miúdo que estava na faculdade, completamente perdido e depois, eu tinha para aí vinte, vinte e um… não sei que idade é que eu tinha, quando o Almeida Feria publicou o primeiro livro. Que era muito melhor do que aquilo que eu fazia. Todos eram melhores do que eu. E então comecei a tentar escrever outras coisas. Não sei se é um vício, se o que é, mas depois já não era capaz de largá-lo. Eu escrevia todos os dias desde os 12 ou 13 anos. Nunca pensei em publicar. Foi tudo por acaso, como sabe… Claro que na vida de um autor há também um compromisso com o editor, como aquele que eu tive a certa altura, ainda no princípio: tantos livros para escrever, uma pessoa recebe dinheiro por isso, o que me permitiu deixar a medicina bastante cedo. Esse até pode ser um motivo…

É o seu motivo?
Não. Eu vivo com muito pouco.

Eu queria dizer que a obrigação de escrever não tem a ver com a existência de um contrato…
Claro que não, eu escreveria de qualquer maneira, mesmo sem publicar. Aliás, é uma coisa em que penso muitas vezes. Escrever, escrever, e não publicar. Guardar.

Mas consegue planear os livros que tem que escrever durante os próximos anos?
Ah, isso não. Neste momento, só tenho este. Há pessoas que têm dois ou três livros na cabeça mas isso nunca me aconteceu, nunca tive nenhum na cabeça. Eu acabo e fico sem nada. Normalmente fico dois ou três meses à espera. Leio, leio para aí oito ou nove horas por dia, suponhamos, mas, ao fim de uma semana, uma pessoa está farta de ler oito horas. E fico à espera. Faço exactamente a mesma vida que fazia antes, sento-me à mesa, e fico à espera.

Fica à espera. Mas precisa ter companheiros par ao ajudarem a esperar. Antigamente tinha o José Cardoso Pires, por exemplo. Ele era uma presença quase diária na sua vida.
Saíamos todos os dias… O Zé era muito generoso. Nunca se falou de livros, é engraçado. Nunca. Só no fim, ele dava-me para eu ler e corrigir, digamos assim, e eu dava-lhe a ele. Ele entregava-me páginas e páginas com sugestões e… Faz-me muita falta. Tinha um outro amigo, precioso, que era o Eugénio [de Andrade], que dizia que não gostava de prosa mas que era um óptimo leitor. Óptimo. O meu mal, foi gostar sempre de homens vais velhos. E o Zé não morreu velho. Tenho muitas saudades dele… Ainda hoje, quando toca o telefone às 10 da manhã, penso que é o Zé, porque era a hora a que ele ligava. O Zé, você conheceu-o, era um homem muito rugoso… Difícil. Mas nunca discutimos, nunca discuti com um amigo, nunca tivemos uma desavença, nada, nunca. Foi uma amizade extraordinária. Andávamos de braço dado, ele dava-me o braço, ele que era um homem duro e pouco demonstrativo. Só de vez em quando falávamos sobre os outros escritores. Uma vez mostrou-me uma coisa muito íntima, pessoal: ele tinha uma grande admiração pelo Redol, uma grande admiração e amizade pelo Redol. Aliás, ele nunca dizia «Redol», dizia sempre «o António». E o António morreu com 59 anos numa cama do Hospital de Santa Maria, com um cancro. Eu vi-o lá. Estava a acabar o curso e a fazer o estágio. E ver o Redol numa cama de hospital fez-me muita impressão. Senti aquilo de uma maneira tão injusta. E é engraçado, porque toda a gente conheceu o Redol. O Eugénio falava dele com uma admiração extraordinária. E o Zé falava-me muito de um romance que ele achava muito bom, que era o Barranco de Cegos, e depois dizia-me «mas há outros livros, enfim». Aí temos opiniões diferentes, o problema do António era que ele documentava-se tanto que ficava atolado debaixo da documentação e não conseguia voa com aquele ciclo «Port Wine». Ficava atolado. E então o Zé mostra-me uma carta. Na altura ele estava em Londres, no King’s College, tinha fugido à polícia, e o Redol escreveu-lhe uma carta de despedida porque ia morrer. A carta era em papel timbrado de um hotel, com uma coisa muito barroca, e na carta ele despede-se do amigo. «Zé, vou morrer, queria dizer-te o quanto, o quanto gosto de ti…» e por aí fora. A carta é comovente. E depois, no fim, uma coisa assim: «PS: já viste papel de carta com mais mania?» Isto é extraordinário, não é? Eu nunca o conheci, nunca falei com ele. Só vi ali deitado. Mas pela forma como as pessoas falavam dele… Só ouvi dizer bem desse homem. E como escritor não acho que ele seja mau, como as pessoas estão sempre a dizer. Longe disso.

Há uma série de autores que desapareceram das livrarias, das escolas. Fala do Alves Redol, mas há outros, como o Soeiro Pereira Gomes, Namora, Ferreira de Castro, uma série de autores… Mas agora a responsabilidade é usa. A figura do cânone é sua. Já imaginou que tem essa responsabilidade?
Nunca pensei nisso. Mas às vezes falam-me de escritores que me imitam. Não sei se é verdade ou não. Não é só em Portugal. Em França, um bocado por todo o lado. Agora há Antunes por todo o lado. Isso não é bom. A gente tem que escrever contra o escritores de quem gosta.

Sente essa responsabilidade?
Não, só tenho que fazer aquilo que consigo fazer, e fazê-lo o melhor que posso. Não, não sinto nada disso, responsabilidade e isso. Por exemplo, esse Ricardo Adolfo, não tem nada a ver, e parece-me que esse rapaz, se fosse editado… Ele precisava era de um editor, que é uma coisa que não há cá e faz muita falta. Nunca tive um editor. Nunca tive. Por exemplo, na Alemanha, a editora faz um editing com a tradutora. E corrige o alemão e muda… Aqui, os escritores precisam disso. Qualquer escritor precisa. Há ali um livro espantoso chamado The Sons of Maxwell Perkins, que é a correspondência entre o Maxwell Perkins e três dos seus «filhos», Hemingway, Scott Fitzgerald e o Thomas Wolfe. As cartas dele são de uma delicadeza espantosa. Como ele consegue modificar o Great Gatsby sem nunca magoar o autor, é extraordinário… Vale a pena ler esse livro, não sei se conhece…

Não, não conheço.
The Sons of Maxwell Perkins, vale a pena ler.

E o António aceitaria esse trabalho de editor?
Claro que aceito. Tomara eu. Estou sempre à procura.

É nisso que penso quando vejo os seus manuscritos… Como é que se passa desta folha minúscula, que não consigo ler, até à folha impressa? É um trabalho de minúcia. Como é que lê esta folha pequena, de um bloco do hospital?
Com uma lupa. Tem de ser com uma lupa, às vezes, mas foi assim que eu a escrevi. Depois vou trabalhar sobre esta [formato A4], não é? Normalmente, faço 10 revisões. Depois da prova ter sido passada à máquina, quando vem assim, direitinha, parece uma coisa escrita por outro, é mais fácil continuar a corrigir. E vou corrigindo e corrigindo. Depois entrego, e não vejo mais, nem provas, nem nada.

Há uma certa impiedade nisso, de não ler mais o livro. O António estava a dizer que não está a gostar do que está, neste momento, a escrever, e colocou a hipótese de deitar tudo fora…
É sempre uma a primeira hipótese que eu ponho, mas depois desisto da ideia e passo para a fase de corrigir tudo. E, finalmente, voltar a escrever tudo.

Essa ideia de deitar tudo fora não é demasiado cruel?
Se o livro não presta, não. Mas é sempre preciso voltar a escrever, uma e outra vez, e depois outra. Quando a gente pensa que só primeiro capítulo de Guerra e Paz tem 14 versões… É extraordinário. Uma editora espanhola publicou duas versões de Guerra e Paz, versões intermédias, que nada têm que ver com a versão definitiva. Estas versões já são muito boas, e o homem continuava a corrigir, a corrigir. E é um livro que ele publica aos 40 anos, sem parar de corrigir. Tenho ali fotocópias de páginas de Tchekhóv, e não há uma linha que não esteja corrigida. Uma linha.

Continua a apreciar Tolstói, os russos, Tchekhóv, o Turguenév… Balzac, também. Já o ouvi dizer coisas maravilhosas sobre Balzac. Mas, por outro lado, isso também é um pouco amargo. É como se tivéssemos perdido a grandeza do grande romance do princípio do século XX. Pelo menos em duas ou três entrevistas declarou uma grande saudade desse tempo, do tempo literário de Tolstói.
Isto não é um desporto de competição. E um bom livro é uma alegria enorme, venha de quem vier. Mesmo de uma pessoa com quem eu não simpatizo. Há escritores com quem não simpatizo e gosto da obra deles. E escritores de quem gosto muito – e não gosto da obra. Gosto da pessoa e não dos livros. Sabe, às vezes uma pessoa sente-se muito sozinha, e eu precisava de alguém que lesse os meus livros, que ajudasse a melhorar os livros. Tive a Tereza Coelho, que foi extraordinária e muito importante para mim. Ela dizia-me: «Isto não está bem, você pode melhorar aqui, você pode fazer isso de outra maneira». E tinha razão, normalmente. Enquanto trabalhámos juntos, ela foi extraordinariamente importante, ajudou-me muito a fazer coisas melhores e tinha razão nas coisas que dizia. Nós, às vezes, ficamos magoados, mas acho que aceito bem as críticas. Não gosto das críticas de jornal, que têm muito mais a ver com a simpatia e a não simpatia.

Mas o António tem dois bons leitores, o Steiner e o Bloom, por exemplo. Quem tem essa sorte não pode queixar-se de mais nada.
O Steiner era terrível, tivemos duas conversas, estávamos a falar de literatura inglesa. A certa altura eu disse que gostava de Emily Brontë [ou do seu único romance O Monte dos Vendavais], ele fez um silêncio muito comprido… Eu não sei se o conhece pessoalmente, mas estar com ele é espantoso, é um homem muito amável, um homem único, tudo o que faz é bom. Bom, menos os romances. Bom, eu digo isto da Emily Brontë, ele faz um silêncio comprido e pergunta: «Não acha que é um bocadinho histérico, o livro?» Isto nunca me tinha ocorrido. Então eu dei por mim a olhar para a Emily Brontë com os olhos do Steiner. Porque é um grande crítico. E, de facto, ele tem razão, o livro é um bocado histérico.

Por acaso, quando falou de literatura inglesa pensei que ia gostar mais de Orgulho e Preconceito
E gosto. Da Jane Austen eu gosto muito mas não sei porquê falou-se de Emily Brontë, e eu disse: «Olha, era uma mulher com quem eu nunca me casava.»

Mas ter dois leitores tão extraordinários, como Steiner e Bloom, isso não o deixa contente?
Deixa. Sobretudo o Steiner porque o conheço. Foi na LER que saiu uma entrevista. A cara dele, a maneira como ele se comportou comigo. Depois, chegar lá, olhá-lo… ele tinha um piano na sala: «Este piano era do Darwin.» Fiquei a olhar para o piano. A serenidade dele. A humildade. Aquele homem, eu sou só um postino, um carteiro… Ele é muito mais do que isso.

Mas é engraçado, porque tanto o Steiner como o Bloom, que não são amigos…
… O Bloom sente uma grande competição em relação ao Steiner. O Steiner provoca muita inveja.

Porque o Steiner é brilhante na capacidade de relacionar a literatura com outras coisas. Com a matemática, com a música…
E é um homem pequenino e aleijado. O braço direito dele é deste tamanho [metade do braço esquerdo]. E a mãe, que detestava a auto-piedade, obrigava-o, em criança, a escrever com a mão direita.

Bom, mas apesar de eles não se darem, não se conhecerem, tanto um como outro partilham a noção de que o romance de hoje tem pouca consistência.
E nós temos de concordar com eles.

Que a velocidade e o ressentimento têm destruído o próprio juízo sobre a literatura.
Qual dos dois?

Bloom…
Ah, logo vi. Essa é mesmo à Bloom. Bom, mas havia um crítico que eu prezava muito, um tipo espanhol, que morreu novo, e que escreveu algumas coisas maravilhosas, Rafael Conte. Em Itália, há um homem que escreveu sobre mim coisas extraordinárias, um tipo que eu admirava já há muito e nunca imaginei que ele pensava aquilo de mim: Claudio Magris. O tipo escreveu umartigo, no Corriere della Sera, tão inteligente e generoso. Tive essa sorte. Isto deixou-me um bocado aflito. Tenho um medo de os desiludir.

O António é o nosso decano?
Está a chamar-me velho?

Não. Estou a dizê-lo porque é um «autor forte» no sentido em que Bloom usa essa noção…
Eu não conheço muito bem a obra de Bloom. Do Steiner conheço toda, do Bloom dois ou três livros. E têm visões muito diferentes sobre a literatura.

Vamos então entrar neste livro…
Eu preferia que entrasse no que vem a seguir a este, e que está pronto. Julgo que é a melhor coisa que eu já fiz. Sairá talvez para o ano, no fim do ano que vem.

E já tem título?
Tem. A Natureza dos Deuses.

Como é que chega aos títulos?
Normalmente, chego ao fim e não tenho nenhum. Normalmente, é já no fim, mesmo no fim. Nunca comecei pelo título, mas gostava de começar. Este que estou agora a escrever, se chegar a ser livro, tinha pensado numa homenagem ao Bartók e ia chamar-lhe A Última Porta Antes da Noite. Não sei se é um bocadinho policial. Que é um dos meus sonhos, escrever um livro policial. Aliás, tinha combinado escrever um policial a meias com o Zé [Cardoso Pires], cada um com capítulos alternados. Não foi possível.

A certa altura, no meio das entrevistas que deu agora, disse uma coisa que me surpreendeu. Que foi, a certa altura da sua vida…
Posso só interromper? Eu queria que esta fosse a última e depois não houvesse mais entrevistas na minha vida. Em Portugal. Porque não faz sentido. As pessoas têm direito aos livros, mas aquilo que eu digo são banalidades.

Isso é diferente, um bocadinho, das apresentações. Já disse que não deve haver sessões de lançamento de livros, apresentações…
Sim, nunca mais fiz…

Mas há pessoas que querem falar consigo, ouvi-lo falar.
As pessoas têm direito aos livros, não têm direito a nós. Nós somos sempre uma desilusão. As pessoas esperam de nós coisas bestiais, que a gente diga coisas muito inteligentes. A maior parte das vezes não diz. Uma vez, um homem encontrou a Sarah Bernhardt na rua, reconheceu-a e perguntou: «Ah, Vossa Excelência é a Sarah Bernhardt?» Resposta: «Vou ser esta noite.» Quando nos pedem que digamos coisas inteligentes é como pedir a um acrobata para dar saltos mortais no meio da rua.

Ou que estejam sempre a falar dos seus livros. E que estejam sempre a falar de livros. Esta ideia de que os escritores só falam de livros é um bocadinho cansativa, também.
Com o Zé, nunca falávamos de livros. Às vezes, falávamos de outras pessoas, do género «gosto, não gosto». Não passávamos daqui. Por exemplo, ele não gostava do Scott Fitzgerald. Pronto. Dizia que não gostava, e acabou. Eu dizia que gostava e pronto, não andávamos muito mais do que isso. Eu gostava do Hemingway, mas eu não tenho, de maneira nenhuma, a paixão que ele tinha.

E gostava de Mailer.
O [Norman] Mailer é uma pessoa extraordinária. Estive uma semana em Gotemburgo com o Mailer e com o [Günter] Grass. Tinha um humor, aquele homem… O Mailer era engraçadíssimo e tinha um sentido de humor lixado. Eles não percebiam francês e o Mailer não falava francês, mas só discursava em francês. Um francês inventado por ele que ninguém percebia, e ficava tudo ali quieto, durante um quarto de hora, enquanto ele discursava, e no fim aplaudiam. E ele piscava o olhos para nós. Piscava o olho para nós e continuava. E os discursos eram todos assim, num francês que não existia, e depois vinha nos jornais suecos que ele tinha feito um discurso interessantíssimo sobre literatura. Ele não sabia dizer uma frase em francês.

Os Duros Não Dançam é um grande livro. Curiosamente, acho um livro muito contaminado pela poesia. É uma tentação em Mailer. Até naquele livro sobre a CIA, Harlot’s Ghost, 1400 páginas, há essa contaminação em muitas páginas… Sempre achei que as pessoas que não liam Mailer é que achavam que ele era o rei da insensibilidade.
Ele ficava muito contente, se tivesse ouvido isso. Estou a falar a sério. Ele vivia amargurado porque não era muito considerado por certa crítica poderosa, com razão ou sem ela. É difícil fazer juízos de valor sobre pessoas de que a gente gosta. Agora, um escritor é um escritor, e ele é muito bom. Essa questão da insensibilidade é muito interessante… Olhe, uma vez fui dar uma entrevista, daquelas que fazem na Public Library, em Nova Iorque. Era com duplas, éramos dois. E foi considerada a melhor entrevista do ano, fiquei todo contente. O meu parceiro era o Mike Tyson. Ganhámos os dois. Ele deu uma entrevista brilhante. A gente pensa que o Mike Tyson é uma besta, um monte de músculo e indiferença. Mas é de uma candura notável. Uma inteligência cândida. Mas é como os grandes jogadores de futebol: cândido mas não é ingénuo.

A Joyce Carol Oates gostava dele.
Por causa do boxe. Mas eu para o boxe já não tenho muita paciência.

O Normam Mailer tinha aqueles textos sobre o boxe…
Ah, esse livro é fundamental, extraordinário. Aquele sobre o combate em África [The Fight]. É um grande livro.

Não gostava de fazer uma grande reportagem? Um livro-reportagem.
Andei a pensar nisso, sobre a Volta a Portugal. Mas há um livro do Dino Buzzati sobre o Giro, e acho que já não vale apena. Era no tempo do [Gino] Bartali e do [Fausto] Coppi. E tenho ali um livro também sobre a primeira Volta à França que é muito bom, muito bem feito. Uma reportagem feita por um escritor. Isso tinha vontade de fazer. O problema é que eu escrevo muito devagar. Quem escreveu maravilhosamente sobre isso foi o [Antoine] Blondin, que é um autor que está agora a ser recuperado, de repente. É um francês a quem ninguém liga. E sem o Blondin não tinha havido Memória de Elefante nenhuma. As pessoas apontam grandes nomes como influências para esses meus primeiros livros, andam à procura não sei de quê, mas eu acho que é o Blondin. Tenho dificuldade em distinguir qual dos livros dele me marcou mais, tenho para ali o Blondin todo porque foi muito importante para mim. Na adolescência e ainda hoje. Foi uma porta tão feliz.

Lembro-me dele, muito envelhecido, de boina…
Ah, horrível e feio…

… e lembro-me de uma entrevista. Uma conversa fantástica.
Uma grande facilidade de expressão, quando falava e quando escrevia. Mas estava tão alcoolizado e destruído… Morreu novo. Viu fotografias dele em novo? Era de uma grande beleza física. É um homem bonito. Os seus últimos anos foram vividos com o cancro, até já não dizer coisa com coisa. Mas este homem para mim, foi decisivo. A gente pensa que são os Shakespeares que são importantes para nós… Para mim foram estes escritores que eu ia descobrindo com 14, 15 anos.

Quem são esses escritores? Além de Blondin.
O Blondin foi decisivo. Ninguém falou do Blondin porque não o lêem, nem aqui nem em França. Um outro livro que foi decisivo para mim, e que se nota é de um autor de quem estão a fazer a reedição da obra, e estão a sair biografias: foi o A Queda, do [Albert] Camus. Esse livro foi muito importante para mim, lido para aí com 15 anos. E continua a ser importante.

Passados estes livros todos, o António não pode dizer que escreve porque não pode dançar como o Fred Astaire…
Isso é evidente.

Então para que serve tudo isto?
Cada vez para menos. Eu tive três cancros nos últimos sete anos. Tive um há sete anos. Nos intestinos. Cheguei lá e perguntei: «Que chances é que eu tenho? Trinta, quarenta por cento?» O meu sentimento era de espanto. Nesse mesmo dia, disseram-me que tinha ganho o Camões. Eu queria lá saber do Camões para alguma coisa. Foi uma operação complicada. Estive 18 dias em Santa Maria. Era horrível. E era exactamente como Proust contava: passava as noites à espera da manhã. Como se a manhã me fosse salvar de qualquer coisa. Não me salvou de nada. E depois a quimio. Tudo aquilo. Há um ano e tal, dois anos, um cancro em cada pulmão. Um tinha cinco milímetros e o outro oito. Foi a minha sorte. Falei com o oncologista, que é um professor da faculdade, que é muito bom. Segundo o Professor Sobrinho Simões, é o nosso melhor oncologista, Luís Costa. Um homem novo, com 50 anos. Fui operado. Tiraram-me os dois tumores. Ele disse: «Vou fazer-lhe uma quimioterapia muito dura. Que pode dar barraca. Se não der barraca, você fica curado.» Então, os meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro do ano passado foram quatro meses a fazer quimioterapia. Depois daquilo, eu não podia sequer mexer-me. E fiquei curado. Agora estou à espera da próxima. Isto tudo relativizou muito a importância da literatura. Percebi que, sim senhor, ia haver imortalidade, mas que eu ia morrer como um cão. E vou morrer como um cão, como toda a gente. E eu pensava sempre: «Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros.» Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos grandes dramaturgos de que Aristóteles fala, não sobra nada. E não estão lá o Sófocles, nem o Ésquilo, nem o Eurípedes, nem outros nomes que se perderam completamente entretanto. Mesmo do Ésquilo restam fragmentos. Vai desaparecer, enquanto o Euclides vai continuar vivo. De qualquer forma, por muito bom que seja o nosso trabalho, ele vai acabar por desaparecer. É uma questão de tempo.

Neste livro há uma personagem que diz: «Não aguento a ideia do fim.» Todas as suas personagens temem a ideia do fim?
Como toda a gente. Estou a lembrar-me do Professor Luís Sobrinho, da Faculdade de Medicina, que me disse várias vezes: «Ninguém está preparado para morrer.» Ninguém. E se nós pensarmos um bocadinho, é verdade. Nós vivemos pequenas eternidades. E pensamos que não vamos morrer nunca. Estamos certos de que não vamos morrer nunca. Mas vamos morrer. E o que vai acontecer à nossa obra? Por outro lado: isso será importante? Quando eu estava doente não era importante.

O que era importante?
Viver. Olhar, ver o sol, andar. A primeira vez que saí, que fui à rua. Mal podia andar, amparado às duas miúdas. Mas andava. E depois, a humilhação da doença. Por exemplo, estarmos numa cama de hospital e vir a enfermeira e levantar-me as partes para limpar o rabo. Eu estava com fraldas. Como se fosse uma coisa qualquer. E era uma coisa qualquer. Isso mudou muito a minha maneira de olhar para as coisas.

Mudou muito a sua forma de escrever?
Isso eu não sei dizer. Acha que também mudou?

Mudou. Por isso é que falei desta ideia. Não queria falar da sua doença, mas há um crescimento na direcção da poesia. Muito mais na direcção da poesia.
Das coisas anteriores às palavras?

E aparece Deus, curiosamente. Nessa altura, o António disse que não queria que Deus o salvasse da morte. E eu pensei: «Ele não quer que Deus o salve da morte porque não quer ficar a dever-lhe nada.»
Isso é maldoso, porque é verdadeiro. Sabe como me aproximei de Deus? Foi através dos físicos. Dos grandes físicos, matemáticos, etc. Eram homens profundamente crentes. Simplesmente, o Einstein dizia: «É completamente estúpido, porque temos a ideia de um deus  vertebrado e gasoso» - o que eu acho uma definição espantosa. Que é uma coisa que Deus não é. E também não temos o direito de pedir a Deus, porque Deus tem mais do que fazer do que ocupar-se de nós. Há um provérbio húngaro, que diz que «na cova de um lobo não há ateus». E quando perguntaram a Hemingway se ele acreditava em Deus, lembra-se da resposta dele? «Às vezes, à noite.» Não tem necessariamente que ver com a morte, mas todas as religiões, mesmo as religiões sem Deus, garantem a vida eterna. A gente não consegue viver sem o corpo, sem os sentidos. Como será isso? Não sei. Lembre-se de Tolstói, no diário: «Lutei para ser melhor do que Moliére. E sou. E depois?» O que há de angústia naquele homem, que era tão vaidoso… O Gorki conta, nas recordações sobre escritores, que estava em Yasnaya Polyana para passear com o Tolstói; a certa altura aproximaram-se de um bando de cavalos selvagens e o Tolstói continuava a aproximar-se dos animais, e o outro disse: «Leon Nikoláievich, pára aí!» Mas não: «Os cavalos afastam-se para Tolstói passar». Ele tinha perfeita consciência do que estava a fazer. No fundo, não há ninguém que escreva, que não ache que é o melhor do mundo. Tem que achar que é o melhor, senão não escrevia. É inevitável. Tem de ser. Senão, para quê este trabalho todo?

E com quem é que, nessa altura, se vai comparar?
Com ninguém, porque nessa altura se percebe melhor aquilo que eu dizia: isto não é desporto de alta competição. E há muitas maneiras diferentes de se ser muito bom. Isso tudo (a doença, a angústia desse período, mas também a sensação de liberdade) foi óptimo para mim, porque me deu uma coisa boa, um sentimento que eu cada vez acho melhor em mim: a capacidade de admirar pessoas diferentes de mim, que não têm nada que ver com o que eu faço, ou comigo. De perceber que escritores de que eu não gosto, são bons. Por exemplo, o [Robert] Musil chateia-me de morte, mas é bom; o Thomas Mann chateia-me de morte, mas é bom. E há escritores de quem eu gosto, e que são maus. Eu não tenho dificuldade, agora, em dizer isso. E faz-nos ganhar, ao mesmo tempo, uma humildade, uma distância, uma vaidade diferente – porque não vai ficar nada. Ficar nos livros, de que é que serve?

Não vai ficar nada? Acho que não pensa mesmo isso…
De nós ficam as saudades dos amigos. Como eu sinto do Melo Antunes, do José Cardoso Pires, por aí fora, dos poucos amigos que tive. A morte de um amigo é uma perda tão grande. E que um amigo não seja lido também é uma dor enorme. Quem é que lê o Zé agora? E os livros do Zé são fantásticos. Há um de que gosto muito: a Balada da Praia dos Cães. É muito bem montado. Muito bem construído. Ele não merecia estar tão esquecido. Ele e outros.

E esse novo livro, aquele que já terminou e que vai sair no próximo ano… Que inquietações é que o levaram a escrevê-lo?
Foi um livro que veio. Podia ter feito aquilo de forma diferente. E gostava de continuar naquele tema. É  um livro acerca de uma grande família, muito poderosa, cheia de ramificações… Acho que é uma coisa bem feita. O melhor livro que escrevi, para ser honesto. Deixo as máscaras, para quê? Acho que é um livro do caraças.

Porque é que esse livro é tão maravilhoso? Porque é que vai ser tão bom? Porque é a melhor coisa que já escreveu?
Ao nível da escrita. Acho que consegui ir mais longe do que das outras vezes. Faz-me lembrar um crítico francês muito maldoso que, quando o Malraux publicou Les Noyers de l’Altenburg, disse: «Malraux está, finalmente, na plena posse de todos os seus defeitos.»

Quer isso dizer que é um «livro definitivo»?
Que é uma coisa a que eu cheguei muito tarde. Eu andei anos, e anos, e anos a dizerem-me que toda a gente andava a fazer coisas melhor do que eu. Levei anos até ganhar confiança. E foi tudo à custa de trabalho. No Scott Fitzgerald aquilo parece cristal de rocha. E eu tenho que conquistar isso. Consegui isto. No caso de Fitzgerald os livros estão trabalhados porque o Malcolm Cowley o obrigava a trabalhar e a trabalhar, mas ele tinha 29 anos quando do seu melhor livro. Era uma criança, quase. Não tinha atingido a maturidade. E há outra coisa de que eu tenho medo, que é o declínio, os últimos livros, as últimas tentações. Já falei do Tolstói, mas angustia-me aquela período de Ressureição e todos os textos finais. E a gente não ter consciência disso. Como o Jorge Amado não tinha. O Amado era um homem maravilhoso e a quem devo muito, muito, pessoalmente. Dava-me beijos. E a mulher perguntava-lhe: «Porque estás sempre a beijá-lo?» ‘Eu gosto de lamber os meus filhotinhos.» E depois tinha frases extraordinárias, assim em conversa… Estávamos a falar de mulheres e lembro-me de ele dizer: «A última mulher que andou na linha, o trem matou.» Era um homem alegre.

Na sua «galeria de personagens», o António tem uma grande ternura para com os derrotados da História. Aqueles que perderam os combates.
Mas não é esse o nosso destino? Encaminharmo-nos para a derrota. Havia um mestre de psiquiatria francês, que nunca conheci, mas tive que estudar pelo tratado dele. Chamava-se Henry Ey, e dizia que nós triunfamos na derrota. Nas nossas vidas não podemos triunfar na vitória. Triunfamos na derrota. Porque vem sempre o fim, a ameaça do fim. Não estou a ser pessimista, e acho que estar vivo é um privilégio tão grande, podermos estar aqui a conversar. Só o facto de estar sentado passou a ser uma alegria na minha vida. E comecei a ter pequenas alegrias que não tinha. E que são tão grandes. Um dia de sol. Um dia tão grande para mim. E eu não tinha estes prazeres. Antes de ter estado doente, não tinha. E julgo que isso me ajudou a escrever. Por exemplo, o sentimento da inveja, aquele sentimento tão rasca, julgo que deixei de ter, e fiquei melhor pessoa. Não se podia dizer mal em casa do meu pai, fosse de quem fosse, mesmo de pessoas de quem ele não gostava. Não se podai falar da vida dos outros. «Quem és tu para julgar?», perguntava ele. Eu, realmente, não sou ninguém. Que direito tenho eu de julgar? E, então, em literatura, que é a nossa vida… Sem a literatura nós não vivíamos. Não vivia bem. E a literatura não é uma coisa de gente que viveu bem, porque a angústia é permanente. E o sofrimento é permanente. E está cá sempre dentro.

Mas diz que a doença…
… me tornou mais alegre. É a primeira vez que eu estou a falar nisto. Se um dia for comigo à sala de quimioterapia do Hospital de Santa Maria, não vê uma pessoa a chorar. É um hospital do Estado, há pessoas pobres, mas as pessoas sorriem, dizem «boa tarde», conversam, têm esperança. Devem sofrer muito, mas não são tristes. Nunca ouvi uma queixa. Foi uma grande lição. Quando estava a fazer radioterapia, no primeiro cancro (aquilo é uma sala enorme com gente à espera), estava lá um homem, vindo da província. Naquela altura ainda os podiam trazer de ambulância, agora não podem porque as câmaras não têm dinheiro, e as pessoas morrem… Era um senhor de oitenta e tal anos, de fatinho de vir ao médico, de uma ladeia do Alentejo. O fato estava cheio de nódoas, muito velho, não tinha gravata, e quando chamavam o nome dele, avançava como um príncipe. E eu nunca vi uma gravata tão bonita como aquele que ele não tinha. E a gente fica com uma admiração pelas pessoas, pelos portugueses. As pessoas são extraordinárias. A coragem, a dignidade. Sentia-me rodeado de príncipes quando lá estava, e pensava: «Eu não chego aos calcanhares destes tipos.» Então, comecei a pensar que não podia esmorecer, nem que seja em nome desta dignidade, desta coragem. Quando lá vou, vejo pessoas que não conheço de parte alguma, pessoas que ficam tão contentes com uma palavra. Sabe, antes de ser operado da primeira vez (foi uma operação muito comprida, de bastantes horas, porque tiraram o intestino e também o apêndice, a vesícula, aquilo já tinha apanhado várias coisas, bexiga e por aí fora), eu estava na sala para entrar, na maca, à espera da anestesia final e, de repente, sinto que me estão a dar a mão. Era o cirurgião. Não imagina como foi importante para mim. Ele ficou de mão dada comigo até eu adormecer. E, então, pensei: «Bolas, a função da literatura é esta: estar ali com uma mão apertada na nossa.» Um bom livro é isso. É uma coisa que nos dá a mão. E é uma fonte de alegria, de prazer. Há uma frase do Faulkner de que gosto muito. É quando ele diz: «Descobri que escrever é uma coisa extremamente nobre, faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É tão bonito, isto. E tão verdadeiro. Quando nós lemos um escritor de que gostamos, um livro de que gostamos, é isto que a gente sente. Ou ouvimos um músico. Ou vemos um quadro. Quando eu vejo um quadro de Rothko fico logo mais importente. E é isso que a literatura me tem dado nestes últimos tempos. Depois da doença, esta frase do Faulkner começou a fazer muito sentido para mim. «Faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É preciso admirar os escritores, é preciso amá-los. Eu teria imensa dificuldade em fazer crítica, porque, acho que não era capaz de dizer mal de um livro. Porque nós nos confundimos com o livro. Porque nós escrevemos para ser amados.

Mas é como se me dissesse que a doença e o confronto com a morte nos podem tornar melhores – mas, provavelmente, não o amor…
Ainda não tínhamos falado do amor. O amor é uma coisa tão privada… É muito diferente da literatura.

No seu plano, nunca pensou em escrever as memórias?
A minha vida não tem nada. Quando a Tereza estava a fazer aquela fotobiografia foi falar com o meu pai. Falar com a família e tal… Então apanhou o meu pai. «Vai fazer uma coisa sobre o António? Mas ele não tem nada. São só livros e a guerra. O resto, não lhe aconteceu mais nada, passou o tempo todo a escrever.» E tem uma certa razão.

Conheceu pessoas. Tem a memória destes anos todos, desde 1979 até agora, como autor. Ainda sente alguma tensão quando fala da guerra?
Não falo da guerra. Mas, por exemplo, a minha mãe morreu há um mês, e voltaram-me os sonhos da guerra. Tudo misturado com muito remorso. Nunca tive uma relação muito quente com ela. Achava que não gostava muito dela. Pus ali o retrato dela, na sala. Afinal, gostava dela.

E, portanto, nunca pensou em escrever as memórias?
Não, não tenho nada para contar. É isto. É estar sentado a uma mesa a fazer isto. De onde é que vem, aquilo que acontece nos livros? Não sei. Este livro [em manuscrito] é sobre gente muito pobre. Uma aldeia qualquer que nem tem nome. De onde é que eles vêm? De que parte de nós? Não sei. E também não sou um bom entrevistado, não digo coisas muito interessantes. Este livro comecei-o a 15 de Maio. Ainda falta tanto. Esse é o problema, não tenho tempo. Não tenho tempo. Não tenho tempo. Tal como o Mozart escrevia no Requiem, à margem: não tenho tempo, não tenho tempo. E o Évariste Galois, o prodígio da matemática, que passou a noite antes do duelo em que morreu, a escrever, a escrever. Escreveu as descobertas dele, que levaram a dividir a matemática entre antes de Galois e depois de Galois. Com 19 anos e aquele tipo morre. E é assim. A vida é uma coisa, os comentários sobre ela são sempre tão imperfeitos.

Por isso eu achei extraordinária essa urgência, aquela coisa de dizer: «Quero voltar para casa, quero voltar hoje, quero ir-me embora porque quero escrever…»
Eu costumo levar o livro quando é mais tempo. Mas era pouco tempo e ia com a Cristina. É difícil. Quando viajo sozinho, é mais fácil, peço sempre ao editor que me dê quatro horas para escrever…

Mas essa ideia, essa tranquilidade, esse gosto em andar, o gosto em ver a manhã, acho-o numa espécie de plenitude sem mágoa.
Eu fui muito afortunado. Até na doença. Tive doenças muito graves. Tive uma meningite, tuberculose, três cancros. E fui muito afortunado. E tenho amigos, poucos. A gente dá-se cada vez com menos gente, o nosso universo parece ficar cada vez mais pequeno. E fazer novos amigos é muito difícil. Embora a amizade seja como o amor: é instantânea e absoluta. É do Faulkner, também. Que é um belo escritor. Como diz o Steiner, «quem não é influenciável pelo Faulkner»?

E dos seus livros, quais são aqueles de que mais gosta?
Sinceramente, não tenho nenhum…. Eu não os li.

Contou-me que, outro dia, releu o Memória de Elefante
Não foi reler… Vi assim, a correr, enquanto almoçava. É curioso como foi um livro importante, porque veio a Revolução e a gente estava à espera das obras-primas que estavam nas gavetas e que os autores não podiam publicar (e depois apareceu quase nada…). Mas nessa altura os cenários eram coisas distantes, países da Antiguidade, imaginários, tudo de ficção pura. Como Walt, do Fernando Assis Pacheco. E aquilo foi, praticamente, um primeiro livro. Tinha havido antes O Que Diz Molero, que é um livro de que eu continuo a gostar. E era muito amigo do Dinis [Machado], como sabe. Que era um homem extraordinário, espertíssimo. O Molero continua um belo livro. E nós ficámos sem amigos porque, quando o livro saiu, em 1979, convidaram-me para ir à Associação Portuguesa de Escritores, que era ali na Rua do Loreto. Aquilo estava cheio, tudo queria conhecer o António Lobo Antunes. Para mim foi importante também porque estava lá o Dinis. E ficámos amigos para a vida. Estavam lá todos.

Como recorda agora esses momentos? Qual era a sensação? O António era muito tímido mas, por outro lado, estava na força da idade…
E sou, sou tímido na mesma, sou mais ainda. Não me vê em parte nenhuma. Na altura tinha 30 anos, saía, andava, escrevia… E apaixonava-me. Saía à noite. Depois tive uma altura muito difícil, que foi o vício do jogo. Aí, durante um ano não escrevi. Tinha muitos doentes, tinha 30 anos mas tive a sorte de ter professores que gostavam de mim e me mandavam os doentes que não queriam. Então, eu saía do consultório e, como nessa altura morava no Monte Estoril, passava pelo Casino. Todas as noites ficava ali. Para largar aquilo foi horrível. Eu tinha lido O Jogador [Dostoiévski], mas não acreditava que fosse tão difícil sair daquilo. Eu vi-me à brocha para sair daquela merda. E agora não entro.

Eram conhecidos os seus jantares desse tempo…
Nessa altura morava num apartamento pequenino, que tinha uma sala e um quarto. Sozinho. Não tinha telefone. E atravessar gripes sozinho era uma chatice. Depois, jantávamos à sexta ou ao sábado. Era com o Zé, com o Dinis e com o Artur Semedo. Nunca conheci muitos escritores, quer dizer, conhecia-os todos de apertar a mão. Eu ria-me o tempo inteiro porque eles tinham muita graça. O Artur tinha imenso humor. O Zé tinha um humor frio mas às vezes tinha mau vinho, era uma chatice. Ele era muito corajoso e era valente. O Artur chamava ao Dinis «o magala». «Dinis, és um magala, filho. És um magala.» Isto num bar que estava muito na moda – porque eles bebiam e eu não – que era o Procópio. E o Artur era um bonito homem, com uma voz tonitruante, às vezes alta demais. «O minete é uma coisa muito difícil, toda a gente fala em boas fodas, quem fala em bons minetes?» Tudo a olhar. «É uma coisa como uma concha, pões as mãos nas nádegas e bebes». E no entanto, era um homem que vivia para a mulher, só para a mulher. Interrompia as filmagens para ir dar o almoço à mulher. A mulher morreu, ele meteu-se na cama e morreu passados meses. E foi assim desde que a conheceu: até ao fim da vida, o Artur nunca mais dormiu com mulher nenhuma. Eu tinha uma inveja daquilo. Tinha uma tuberculose, estava em casa, e era o Artur que tomava conta dela. E aquele homem que dormiu com toda a gente, com a Amália Rodrigues, com actrizes do seu tempo, que teve para aí romances tórridos com senhoras da sociedade, em barda, ficou rendido à Pilar até ao fim da vida. Lia muito. Parecia inculto, mas não era nada. Espertíssimo.

Ainda se lembra dessa sessão na Associação Portuguesa de Escritores?
Lembro-me muito bem. Estava tanta gente, tanta gente. E eu muito espantado, porque não conhecia ninguém. Não conhecia escritores. Ficava ali a olhar para eles, na Cervejaria Coral, quando vinha do liceu para casa, e lembro-me de ver lá o David Mourão-Ferreira, que era um homem de quem gostei muito. Era um homem bom, generoso, extraordinariamente sedutor. Ele fez bem a tanta gente, foi generoso para tanta gente, desde o Urbano à Maria Alzira Seixo, sei lá, tanta gente. Depois em 1985 deram-me aquele prémio que, na altura, fazia vender muito, o prémio da APE – e eu disse que não havia crítica em Portugal, aquelas coisas… Estava ali cheio de tesão, a querer afirmar-me, coisas da época… E o David disse: «O António, ao dizer isso, já está a tomar uma posição crítica…» Tinha toda a razão. Ele sabia dizer as coisas, nunca era agressivo. Era um senhor, uma cavalheiro, e um bom poeta.

Fala cada vez mais de poetas…
Sempre foi a minha fixação. Aquela estante [aponta] é só poesia. A poesia continua a ser, para mim, uma fonte de prazer. A quantidade de poemas que eu sei de cor. E depois descobri umas coisas. O João Luís Barreto Guimarães é muito bom. E nós temos grandes poetas. Agora, grandes ficcionistas já é outra conversa. Mas isto é um problema mundial. Os editores perguntam-me: «Diz lá alguém que valha a pena editar, para a gente comprar.» E um gajo vê-se à rasca para dizer um nome.

A que atribui essa falência na ficção?
Não sei. Não percebo. Será o computador? Já viu como é dramático? Porque, dantes, a gente sabe a visa do século XVIII, XIX, pelas cartas. Os diários. Aquelas cartas intermináveis que eles escreviam uns aos outros. A correspondência do Balzac, isto e aquilo. O que vestiam, o que comiam. Agora são e-mails, que são coisas mais orais. Ninguém vai saber nada de nós. Bom, há as entrevistas… Agora estou a ler as entrevistas da Paris Review. Quase todos eles são muito melhores a escrever do que a responder às perguntas. As respostas são muito mais pobres do que os livros deles. Eles entrevistaram centenas de escritores. Não há um que me tenha enchido de entusiasmo. Há coisas pequeninas que eles contam. Mas, de resto, são fracas. Mesmo quando eles as revêem, como a do Saul Bellow. Eu não sou grande fã do Bellow, mas os seus livros são muito superiores. E há uma, a do Borges… Olhe, aí está. É um bom escritor. Eu não gosto, mas ele é bom. O cabrão é bom. Há uns anos, eu diria «não presta». Mas é bom.

O que se alterou na sua leitura de Borges?

Deve ter sido a minha experiência como leitor. E perceber como é difícil fazer aquilo que ele faz, e que parece tão simples na mão dele. Eu acho que o tempo nos traz uma disponibilidade muito maior. Ficamos mais selectivos, mas ficamos mais humildes. E, sobretudo, uma coisa óptima, que é perceber que não estamos sozinhos. Que há pessoas a fazer o mesmo trabalho. Com o mesmo sofrimento, com as mesmas dores, com resultados diferentes. Que o tempo julgará. Mas pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.



Revista LER
nº 136 - Dezembro 2014

transcição e revisão do texto original por José Alexandre Ramos
ligações nossas
fotografia sobre o interior da publicação por José Alexandre Ramos

25 de janeiro de 2015

Claudio Magris disserta sobre a obra de António Lobo Antunes (Il Corriere della Sera)

António Lobo Antunes: o Minotauro no seu labirinto

Claudio Magris, ensaísta e escritor italiano
sugerido para o Prémio Nobel
As grandes ficções do séc. XX, escreveu Raffaele La Capria, são "obras falhadas". Não por culpa dos seus autores, certamente - em que se encontram o maiores escritores de cada época - Musil, Kafka, Faulkner, Joyce, Svevo e muitos outros mais, entre eles alguns latino-americanos -, mas precisamente pela grandeza e verdade de tais obras. São essas grandes narrativas que têm enfrentado, narrado e assumido, na sua própria estrutura, a verdade da sua época e da nossa, a degradação do mundo, o eclipse de um signo central capaz de dar unidade e racionalidade às vicissitudes individuais e colectivas, a desconstrução linear do tempo. O romance da nossa vida é um vasto oceano conradiano; um redemoinho que absorve, separa e dispersa as histórias e do eu que as vive. Abriu-se um abismo entre a História e escrever histórias. O historiador e as pessoas comuns, quando se trata de entender o que lhes sucedeu e vai-lhes sucedendo, mais não pode fazer que tentar ordenar os factos e o seu significado; mas quando se narra como o faz o sujeito individual - de acordo com as palavras de Manzoni -, o eu vive esses acontecimentos e acaba ou integrado ou desagragado por eles. O narrador não é capaz por narrar a História vivida senão através desse pesadelo a que Joyce se refereria ou como na inconexa série de acontecimentos de O Tambor [de Günter Grass].

A linguagem racional com que devemos tentar falar, por exemplo, da crise económica, não pode ser a mesma com a que se narra a história de um indivíduo aniquilado por tal crise, tendo em conta a sua angústia e os seus delírios. No romance do séc. XIX, maior ou menor, a acção do indivíduo era narrada numa história difícil mas não absurda; e o escritor novecentista, quando criava as suas histórias, confiava numa escrita semelhante à que com a qual travava as suas batalhas políticas. A escrita de Victor Hugo em Os Miseráveis não é muito diferente da que usava nas suas querelas com Napoleão III. Contrariamente, Kafka não teria escrito A Metamorfose ou O Processo com o mesmo estilo de uma comunicação quotidiana ou de qualquer declaração política. A história de Elsa Morante é apenas a grande e irrepetível excepção. Este contraste é, ainda hoje, e até cada vez mais, a nossa verdade, que reencontramos, não obstante a distância de quase um século, em O Homem Sem Qualidades [Musil] ou em Absalão, Absalão! [Faulkner], e certamente não a vemos na retrógada restauração do romance bem feito, que tende ir ao encontro do leitor em vez de desafiá-lo, em pé de igualdade, no conflito com o mundo. Actualmente, citando, num outro sentido, o título de um livro de Corrado Stajano, os mestres só podem ser mestres do dilúvio, esse dilúvio universal no qual, observava perspicazmente Santo António de Pádua, unicamente os peixes estão a salvo da morte. António Lobo Antunes é, na actualidade, um desses prodigiosos e fascinantes mestres.

Psiquiatra nascido em Lisboa no ano de 1942, Lobo Antunes conheceu, viveu, e da sua própria experiência, das suas reacções sentimentais conscientes e inconscientes, e, por fim, da sua escrita, o coração das tenebrosas últimas guerras coloniais portuguesas em África, redemoinho de uma História como uma artéria obstruída pelo seu próprio sangue, proliferação cancerígena de tragédias, violências, dores, doces sentimentos perdidos, personagens, paixões e pensamentos narrados com uma poderosa força fantástica, que emergem de uma confusa noite à qual se voltam a fundir. A guerra em África influi numa trilogia que vai desde Memória de Elefante (1979) a Conhecimento do Inferno (1980) e várias outras obras posteriores como Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo (2003), sendo um pano de fundo obscuro sempre presente mesmo não sendo formalmente evocada. Como um antigo clássico, Lobo Antunes reune e dita a memória histórica do seu país, Portugal: Explicação dos Pássaros (1981) e O Esplendor de Portugal (1997) ilustram, num outro registo, os anos entre a queda da ditadura de Salazar e uma nova realidade ainda por se valorizar. Na História se fundem também as histórias das personagens de As Naus (1988) ou de O Manual dos Inquisidores (1996). Porém, esta memória, total e por sua vez dispersa num pó composto de detalhes, ferozes e dolorosamente insensatos, é como que areia movediça, ou quase como uma monstruosa planta carnívora, engolindo acontecimentos, homens e palavras.

Entusiasta comunista durante algum tempo, Lobo Antunes conheceu o protesto desperado, não a esperança da redenção. História e sociedade tragam os indivíduos, empuram-nos para a inexistência ou para um delírio autista como sucede ao protagonista de Explicação dos Pássaros; a denúncia dos maus tratos nos hospitais psiquiátricos é, sem dúvida, uma implacável denúnica politico-social mas também a denúnica do viver. Para Lobo Antunes, a escrita é um rio que transborda, uma agitação de tantas obras que é quase impossível enumerá-las ao lado da lista de todos os seus tradutores. Memória de Elefante, a par da sua obra-prima O Arquipélago da Insónia (2008), é uma surrealista e perturbadora abolição do tempo. As personagens não se distinguem dos seus retratos; as gerações convivem, para além da casualidade da vida e da morte, numa co-presença atemporal: todas as palavras proferidas ao longo de anos e décadas, as acções e as violências cometidas por um patriarca e por demais senhores contra os oprmidos, irrepetíveis na sua dor mas idênticas como que folhas caídas e putrefactas, eternamente presentes como se contam os anos pelos círculos dos troncos das árvores.

Lobo Antunes leva quase ao extremo a dilatação e a contracção do tempo, foice inexorável e oxidada, o redemoinho do monólogo interior e do fluxo de consciência que tudo absorve e avassala. A perspectiva narrativa, a pontuação, a unidade da frase, a sintaxe, o mesmo espaço gráfico, tudo colocado numa diferente ordem dessa nova argamassa que é a vida inteira. Tudo é uma aglomeração de fragmentos nos quais está sempre presente o todo; não existe diferença entre vivos e mortos, como no romance Pedro Páramos do grande mexicano Juan Rulfo e, quem sabe, na mente de Deus, na qual não há diferença entre ontem e amanhã. Antunes é um grande épico uma vez que apanha o pleno, a totalidade. Sejam dadas graças a tradutores como Vittoria Martinero e Rita Desti, sempre culpavel e ignorantemente esquecidos - como acontece com todos os tradutores da nossa incultura -, que nos permitem ler em toda a sua força um grande escritor visionário; tradutores que demosntram uma criatividade linguística tão digna como a do escritor.

ALA, duque de Crocodilos
do Reino de Rendonda
Apenas por uma vez, em Barcelona, me encontrei fugazmente com Lobo Antunes, apesar de sermos ambos duques do fantástico Reino de Redonda em cujo trono se senta Javier Marías; [Lobo Antunes] o duque de Crocodilos, e eu duque de Segunda Mão. Creio que para ele, viver é escrever, só escrever, sempre escrever, tecer uma enorme teia de palavras esperando nunca poder sair dela; viver para escrever e escrever para não viver, construir labirintos sem necessidade de um minotauro no centro, já que a vida está cheia de minotauros; estão por todos os lados prontos a devorar as suas vítimas. Talvez o escritor, dentro do labirinto das suas palavras, seja, precisamente, o Minotauro.


artigo de Claudio Magris
22.01.2014

traduzido do italiano para castelhano por María Teresa Meneses
traduzido do castelhano para português por Joana de Paulo Diniz

ligações e fotos resultantes da tradução para português


Agradecemos a Cristina Ferreira de Almeida e Maria da Piedade Ferreira pela notificação a este artigo na versão em castelhano de Maria Teresa Meneses no site Milenio

17 de janeiro de 2015

Daniel Osiecki - Sôbolos Rios Que Vão: emparedamento metafísico

edição brasileira Alfaguara
A polifonia não é novidade nos romances de António Lobo Antunes que, através de painéis narrativos intrincados, se desenvolve nos segmentos da prosa poética  e de fluxos de consciência extremamente precisos. O estilo não linear de Lobo Antunes passou a se evidenciar a partir de romances como As Naus (1988), Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992), O manual dos inquisidores (1996), O esplendor de Portugal (1997) e tantos outros.

Com o passar do tempo a desconstrução da forma romanesca tradicional e a ruptura de elementos sintáticos em suas narrativas se tornaram mais evidentes, como a ausência de diálogos estanques em um plano temporal objetivo que dá lugar a devaneios, delírios e lembranças. As narrativas mais recentes de Lobo Antunes são compostas por solilóquios e monólogos irredutíveis sob perspectivas variáveis de personagens repletos por neuroses e obsessões.

As experiências na guerra colonial em Angola serviram como pano de fundo para vários romances de Lobo Antunes evidenciando um tom autobiográfico, mas em toda sua trajetória ele nunca foi tão direto e desprovido de amarras como no livro Sôbolos rios que vão (2010). Lobo Antunes teve câncer há sete anos atrás e depois de lidar (mais uma vez) com a experiência da morte iminente, fez uma espécie de balanço de sua vida. No romance, lembranças se misturam com delírios  e acontecimentos nebulosos envoltos numa atmosfera onírica e soturna.

A ação de Sôbolos rios que vão é bastante fragmentada, como é recorrente em livros anteriores de Lobo Antunes, mas nessa breve, mas densa, narrativa, os estilhaços polifônicos assumem proporções maiores que em outras obras; há, assim, vozes distintas de um mesmo narrador, como a voz do protagonista ainda na infância em sua aldeia natal e a voz do protagonista delirando em um leito num hospital em Lisboa. A doença submete o indivíduo à mais humilhante derrota, que é tornar-se vítima ou prisioneiro do próprio corpo. Os embates metafísicos são intensos durante toda narrativa. 

Vale ressaltar que o brainstorm que de certa forma aprisiona e liberta o narrador, que é o próprio António Lobo Antunes, se mistura frequentemente ao plano do delírio. A voz do avô é recorrente durante todo o romance, como um eco do fundo das eras que se repete durante várias passagens da vida de António. A voz do avô une-se à sua e vários labirintos estilísticos e narrativos começam e acabam no mesmo parágrafo. E em momento algum o narrador se assume como ele próprio, ou seja, não assume ser ele mesmo porque não há referência ao fazer literário ou a qualquer indício de que um texto de fato esteja sendo escrito. Mas há a autocitação, ou seja, António Lobo Antunes além de autor modelo é personagem, mas não vem a ser autor empírico.

António Lobo Antunes deixa bastante claro durante todo o romance uma das máximas do existencialismo, que é tentar explicar a inverossimilhança da vida diante do absurdo da morte. A morte não pode ter mais sentido do que a vida. Isso acontece quando a memória, que é o único e último recurso do protagonista, começa a falhar. Essa falha simbólica é o primeiro indício claro da finitude e da fragilidade humana. 

...e a ausência de memória a apequená-la de angústia, a sua voz de súbito numa energia que a espantou... (p. 184)

Ao passo em que a narrativa (ou as narrativas) vai chegando ao fim, Lobo Antunes evidencia ainda mais uma espécie de tragédia iminente, como um momento nevrálgico inevitável. Nota-se que há a preparação de um acerto de contas com a vida. Há um tom de prenúncio de tragédia que permeia seus últimos dias no hospital.

- Ninguém quer saber de nós
dias a fio sozinho tal como eu nesta cama com a mesma fúria de partir e incapaz de partir, partem as visitas pela gente, se tivesse um filho podia ser que, não, se tivesse um filho ia-se embora com os outros, o que vale este pai e talvez fosse o que meu pai queria dizer fitando o balanceio dos líquenes ou o avô a atravessar o jornal na varanda não se importando com as notícias, a minha avó
- Foi sempre distraído
e não era distracção, era a falta de coerência da vida...

(p. 168)

António Lobo Antunes leva muito a sério o fato de não contar uma história. Ele tenta reproduzir na escrita a angústia de seres, em sua maioria, decadentes. Decadentes se não moralmente, fisicamente. O que é relatado acaba por ficar em um segundo plano, evidenciando-se mais como relatar, como contar, como inventar. Esses artifícios experimentados por Lobo Antunes são compostos em uma prosa poética labiríntica, ou seja, as angústias e devaneios dos personagens sofrem uma espécie de emparedamento metafísico. No caso do protagonista, além do emparedamento metafísico, há também um emparedamento físico, pois está preso à cama de um hospital. A forma romanesca de Lobo Antunes é um labirinto que deve ser penetrado pelo leitor com argúcia, com cuidado mas com audácia. Sôbolos rios que vão é um belo exemplo da densidade e do experimentalismo praticados por Lobo Antunes como se fosse uma síntese de toda sua obra.


por Daniel Osiecki
01.06.2014

Gonçalo Mira opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer, em Fragmagens

Uma mulher regressa à casa onde cresceu, entretanto abandonada e prestes a ser vendida, para uma última visita. E é nessa casa abandonada que as recordações de infância a assaltam, remexendo no passado e questionando o presente. Estas são as linhas gerais da história de uma professora com um casamento desgastado e sem filhos, mas não é aqui que Não é meia noite quem quer se esgota. Pelo contrário. Com António Lobo Antunes a regra é quase sempre essa, a estrutura a fazer de acessório ao que realmente importa, ao que as personagens sentem, pensam e sofrem. Quando a personagem principal do romance explora a casa, o que interessa é que o leitor explore a personagem. Tem três dias para o fazer, que é o tempo em que a narrativa (nunca fico satisfeito com a aplicação deste termo a livros de Lobo Antunes) se desenrola. A escrita é a de sempre, de frases que pedem contemplação e de metáforas que fazem pensar. Não é meia noite quem quer não é muito diferente de outros livros de Lobo Antunes, mas é mais uma oportunidade de sentir a prosa de um autor incomum.



por Gonçalo Mira
02.04.2014

11 de janeiro de 2015

João Tunes - opinião de leitura sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Mais Lobo Antunes e nós

No último romance de Lobo Antunes ("Caminho como uma casa em chamas", Dom Quixote), o seu sempre igual olhar pessimista de lucidez que primeiro dói e depois nos envolve e aquece porque somos animais de carne quente mas, no caso, com o culminar da maturidade feita obra maior. E tal como aos velhos e aos camponeses, aos escritores maduros também se lhes topam as manhas desde que se saiba dar-lhes a volta ou perceber essas neles. Assim, Lobo Antunes, com a sua cena pessimista, já a poucos "enganará". Ele vai por aí, pelo descarnar das nossas misérias e descrenças, para nos chegar ao osso e ao nervo. E depois, sabichão é o tipo, sabe bem que não temos outro remédio que para sairmos daquele mau estado na fotografia do que voltarmos a nós, que se temos sombras (e temo-las, é claro) é porque não nos falta luz. E, no final (não do livro, mas de cada parágrafo, senão não sobrava fôlego), recompomos as coisas dizendo para nós (e para o escritor): «pois, dás-me um lado porque sabemos, nós e tu, que há outro, o que achas desnecessário mostrar».

Neste romance, obra de mais velho, Lobo Antunes repete o estilo da "escrita incompleta" pronta para ser feita a quatro mãos, ele e o leitor. E só assim se consegue lê-lo. Ou seja, ele como que come nas palavras (aparentemente, sim) para que nós, os leitores, possamos também completar-lhe o livro. Em resultado, ler Lobo Antunes dá trabalho mas premeia, e que bem, o esforço em o ler, levando-nos para dentro do acto literário. Ele não nos dá leituras grátis. Só lhe podemos agradecer por isso. A quem quiser leitura sossegada deixo-lhe uma dica de amigo: parece que o Miguelito (também conhecido como MST) pariu mais um livrito para vender como prendinha de natal.


por João Tunes
13.12.2014

9 de janeiro de 2015

Ecos de silêncio numa casa em chamas - artigo de Agripina Vieira no Jornal de Letras

Que melhor maneira poderia um escritor ter de comemorar a atribuição de um doutoramento honoris causa (mais um), neste caso pela Universidade Babes-Bolyai de Cluj, na Roménia, e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, de que oferecer aos seus leitores mais um dos seus admiráveis textos? Foi exactamente isso que António Lobo Antunes fez, dando-nos a oportunidade de mergulhar novamente no mundo ficcional, intenso e envolvente, por ele criado.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, [...] o autor propõe-nos uma visita guiada aos diferentes apartamentos de um prédio com quatro andares e um sótão, levando-nos a descobrir a existência dos vários inquilinos (dois em cada piso), que em discurso na primeira pessoa desvendam não só as suas angústias, medos e emoções, mas igualmente a percepção que têm da vida dos seus vizinhos. Desta visita fica arredado o ocupante do sótão que, apesar de diversas vezes referido (a vizinha do primeiro direito diz ouvir passos mesmo não acreditando numa presença, o militar do terceiro esquerdo percebe uma tosse e um cochicho, enquanto o irmão da criada da actriz do terceiro direito fala em “sonzinhos mínimos”), só se faz ouvir no derradeiro capítulo.

Desta breve apresentação ressalta desde logo a presença de ecos inter-textuais com a obra excepcional de Georges Perec, La vie mode d’emploi, com a qual Caminho como uma Casa em Chamas tece indeléveis ligações, ao nível da arquitetura da diegese e também da construção das personagens.

A partir desses espaços fechados (o prédio; os apartamentos) e pelo poder da memória, a efabulação alarga-se a tempos anteriores e a espaços outros, convocando acontecimentos, objectos e indivíduos que marcaram decisivamente as existências dos habitantes do prédio. A importância da memória para a economia da narrativa está espelhada em inúmeros trechos, como na seguinte constatação do judeu do rés-do-chão direito: “Que curioso o tempo, volta e meia marcha ao contrário recuperando cenas perdidas”.

São, pois, essas cenas perdidas, que se apresentam como fragmentos de uma vida passada, peças de puzzle de um mosaico que na narrativa vai tomando forma, que as personagens vão recordando. Embora estejamos em presença de histórias individuais, a efabulação ganha um sentido mais preciso através do diálogo que entre si entretecem, já que a narrativa da história individual se completa e consolida através do olhar e da percepção que os outros dela têm.

A construção da diegese alicerça-se, assim, numa alternância de vozes que, sucessivamente, vão relatando os acontecimentos à luz das suas vivências, dando corpo a uma narração fragmentada e polifónica. Neste jogo de vozes e de olhares sobre o mundo, somos guiados de apartamento em apartamento, o mesmo é dizer de vida em vida, por uma entidade que apenas surge mencionada pontualmente pelo viés da referência à sua actividade, a de estar a registar as falas das personagens ou de pedir para que façam o seu registo, patente como nos seguintes excertos: “ponham anuir que impressiona”; “não escrevo que uma gargalhada, escrevo que divertido”; “não arranjei  maneira de escrever isto bem mas espero que entendam”; “ia escrever violência e acertou em cheio”; “não me obriguem a escrever isso”.

Lobo Antunes recupera deste modo a composição discursiva já utilizada em O Manual dos Inquisidores, que decorre de um processo de questionamento ou inquirição, o qual dá azo a que as diferentes narrativas apareçam como testemunhos ou respostas a uma voz que não se faz ouvir, mas cuja existência está implícita nas respostas obtidas pelas outras personagens, que deste modo revivem um passado, que muitas vezes prefeririam esquecer ou calar.

Cada um dos moradores dos oito apartamentos, a que se associa uma panóplia de personagens ímpares que com eles (con)vivem ou (con)viveram, traz para o presente da narração recordações obsidiantes, nas quais reencontramos os grandes temas que marcam o universo ficcional do escritor; a guerra colonial, o processo de descolonização, o governo do Estado Novo, a desagregação da família, a solidão. A estes junta-se uma temática menos presente no universo romanesco antuneano: a II Guerra Mundial e o seu cortejo de horrores e perseguições, que surge associada à história dos ocupantes do rés-do-chão direito.

Apesar de terem tido percursos de vida assaz diferenciados, o homem doente do segundo direito, a juíza do segundo esquerdo, o ex-militar do terceiro esquerdo, o bêbedo do primeiro esquerdo, os dois irmãos judeus do rés-do-chão direito, o comunista forçado a colaborar com a polícia do rés-do-chão esquerdo, a funcionária das finanças do primeiro direito, a velha actriz do terceiro direito e até “o eco atenuado de uma autoridade extinta, no caixote do sótão” (no qual reconhecemos a representação da figura de Salazar) partilham uma semelhante angústia e uma igual dor, a solidão, que leva o bêbado a afirmar: “caminha-se como uma casa em chamas, caminhamos todos como casa em chamas e o telhado do cérebro a arder”. 

É porque “as vozes do silêncio [a] inquietam”, que a juíza se deixa explorar por um jovem funcionário do tribunal a troco de uma ilusão de sedução e carinho, depois de ter sido abandonada pelo marido e pelos filhos. Também o inquilino do rés-do-chão esquerdo, o comunista/colaborador, prefere “as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhado”. Se todos padecem de igual temor, é pela voz da velha e louca actriz que encontramos a mais pungente constatação do tormento que a solidão causa: “ - Só necessito de um bocadinho de companhia amigo / não palavras, não comida, não conforto, uma presença apenas, outros passos além dos seus no soalho e outra voz mesmo que eu não falasse consigo, um estar ali que parecendo que não tranquiliza”.

A clausura que determina e condiciona a existência destas personagens é tanto mais ampla quanto diferenciada, já que sendo antes de mais física (os moradores estão confinados ao espaço fechado do prédio) é também, e sobretudo, emocional. Cada um dos indivíduos que habita o prédio (“que prédio este caminhando como uma casa em chamas”) vive enclausurado na solidão, nos segredos e nas recordações que incessantemente presentificam um passado.

Particularmente expressiva é a “presença atenuada de uma autoridade extinta” que se adivinha no sótão do prédio. Apesar de encontrarmos referências subtis e dúbias a essa figura ao longo de toda a obra, a sua identidade apenas toma contornos mais definidos nos dois últimos capítulos do romance, revelando-nos um Salazar decrépito, pobre e só, que vive da benevolência da criada da actriz louca do terceiro direito que lhe leva todos os dias um prato de sopa. Na construção desta personagem perpassa uma trágica ironia, confinando a um espaço que é por excelência de clausura e de isolamento quem pautou as suas atitudes e decisões por ideários de conservadorismos e pequenez, condenando um país a um enclausuramento político, social e até cultural.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, António Lobo Antunes propõe aos seus leitores mais uma viagem aos sótãos das (nossas) existências, oferecendo-nos um texto que se abre à complexidade identitária do indivíduo, numa efabulação que se constitui como uma interrogação da nossa vida, uma inquirição das nossas práticas enquanto indivíduos mas sobretudo enquanto sociedade.


por Agripina Vieira
15 a 28.10.2014

texto do artigo disponibilizado por cortesia do Jornal de Letras (na pessoa de Leonor Nunes) e de Agripina Vieira.

[revisão do texto por José Alaexandre Ramos]

3 de janeiro de 2015

Milu Pereira: "A todo o tempo dar tempo", reflexão de uma leitora de António Lobo Antunes

“A única pessoa que pode mudar de opinião é aquela que tem alguma.”
EDWARD WESTCOTT

A singela e despretensiosa abordagem que efectuei acerca do livro “O Esplendor de Portugal” de António Lobo Antunes, [...] suscitou alguns comentários que considero bastante interessantes, na medida em que representam o importante universo das pessoas que fazem da leitura um hábito salutar nas suas vidas. E como gosto de dizer coisas, decidi aproveitar esta oportunidade inesperada, para fazer o gosto ao dedo e vir para aqui escrevinhar sobre os meus pensamentos, tal como já vem sendo habitual.

Ora bem, o que tenho hoje para dizer?:

Muito se tem escrito sobre António Lobo Antunes e acerca do seu talento como escritor. É uma verdade insofismável, já que reúne o consenso de todos, que as suas crónicas são francamente apaixonantes e que nos enlevam a alma tão alto que quase deixamos de respirar, enquanto as lemos extasiados. Contudo, as opiniões exteriorizadas a respeito dos seus livros são controversas, algumas pouco abonatórias. No meu simples e modesto jeito de ver as coisas, julgo que podem ser destacados diferentes tipos de reacção perante a alusão à densa e labiríntica prosa que caracteriza o escritor. Há quem demonstre conviver grandemente com a obra do escritor, daí o notável à-vontade na elaboração do comentário. No lado oposto estão os que nada querem com a escrita de António Lobo Antunes, que consideram enfadonha e nada estimulante. No ponto intermédio, encontram-se todos aqueles que já tiveram um qualquer desencanto com o estilo literário deste autor, do qual até certo ponto se mantiveram arredios, mas que, ainda assim, estão na disposição de mudar drasticamente de ideias. É neste ponto que eu própria me encontro, embora esta minha postura seja devida a um recente acontecimento que me levou a essa conclusão. Eis então:

O primeiro livro do autor que li sem esforço foi “As Naus”, se digo que foi sem esforço é porque disso tenho a certeza, se não tê-lo-ia posto de lado, tão certo como dois mais dois serem quatro. O segundo livro que li, vorazmente, que disso também tenho a certeza, porque me escangalhei a rir com ele, foi “Memória de Elefante". Quanto ao terceiro “O Meu Nome é Legião”, simplesmente não fui capaz de o ler. Ao cabo de algumas páginas fiquei com a sensação de que andava por ali a patinar sempre no mesmo, ainda para mais o livro é um autêntico calhamaço, o que além de não acrescentar qualquer entusiasmo, ainda acabou mas foi por tirar o pouco que ainda restava para poder prosseguir. Por fim desisti de uma vez e fiquei sem vontade de tentar ler mais algum livro do mesmo autor. Até que um dia destes, alguém me emprestou “O Esplendor de Portugal”, a cuja leitura dei início, até porque sou uma pessoa que nunca toma decisões definitivas praticamente acerca de nada. Quanto a mim é sempre tempo de arrepiar caminho, quando se trata de mudar de ideias. Escusado será dizer que mais uma vez pensei desistir, principalmente no início, mas como não havia por que ter pressa, fui lendo sempre mais um pouco, até que me adaptei a este estilo de escrita densa e pesada que é a do escritor António Lobo Antunes. E acabei a leitura deste livro com a sensação que travei uma dura batalha mas da qual saí vencedora. Mas a noção de que verdadeiramente tinha terminado de ler “um peso pesado” da literatura mundial contemporânea, foi-me dada sentir quando constatei por estes dias, que ao folhear uns quantos livros relativamente recentes, de outros autores, muitos deles assomaram-se-me aos olhos como uns livrinhos de histórias de cacaracá! Histórias sem grande substância e nem sempre muito bem escritas! É que isto de escrever bem, é exactamente como diz o autor aqui citado – “É preciso ter sofrido muito”! Faço minhas estas palavras, porque na verdade, é preciso levar muita lambada da vida e muito pontapé, uns daqui e outros dacolá, para ganhar alma e assim ter algo que dizer ao Mundo! E foi nesses instantes que me ocorreu à ideia, que terei muito a ganhar se continuar a ler António Lobo Antunes, embora ainda não me sinta suficientemente segura para afirmar, que tornarei a tentar ler “O Meu Nome é Legião”. Mas há mais livros deste escritor! Muitos mais! Quando hoje me aprestei aqui a contar esta minha experiência foi no intuito de incentivar outras pessoas a desejar sentir o mesmo que eu! É que depois de lermos uns quantos livros de António Lobo Antunes, não há mais livro nem autor que meta medo!


por Milu Pereira
16.01.2010

[links nossos]

1 de janeiro de 2015

Rui Fonseca: "Um país como uma casa em chamas"

Há neste 25º. romance de A Lobo Antunes uma casa habitada por personagens condenados à amargura das suas vidas desesperadas. Conversas dispersas, suspensas, cruzadas, no tempo e no espaço, interrompidas, inacabadas, compõem uma colagem que obriga o leitor a uma identificação, frequentemente labiríntica, dos fios com que o autor tece um texto amargo do princípio ao fim ainda que pontuado por notas de humor cáustico, por vezes divertido. 

É uma metáfora do país que habitamos neste final de 2014? 
Em certo sentido sim. Mas não me parece que essa identificação, que já vi referida numa ou outra apreciação crítica, possa ser transposta do tempo do romance (meados do século passado) para o Portugal de hoje sem alguma ressalva. Certamente que aqueles personagens enclausurados num espaço comum repartido caracterizam uma sociedade que subsiste ainda que os fantasmas que as habitam tenham mudado de pele e de nome. Mas não são estes os personagens que ocupam a cena deste país em chamas que habitamos hoje, não são estes zombies que atearam o fogo e colocaram uma parte da população em fuga. 

"Caminho como uma casa em chamas", repete obsessivamente o autor, num quadro onde as alusões, os traumas dos residentes da casa (Quem manda, quem manda, quem manda, Salazar, Salazar, Salazar, repetições que lhe retiram intemporalidade) não remetem para o Portugal actual, saqueado por políticos sem escrúpulos, banqueiros gananciosos, crápulas com máscaras que ninguém, por mais que o deteste, confundirá com o ditador de Santa Comba.

Portugal caminha como uma casa em chamas. É do título que destaco a maior actualidade desta obra de A Lobo Antunes.


por Rui Fonseca
31.12.2014

13 de dezembro de 2014

Erika - opinião sobre As Naus

[ Desafio Literário | Junho: Viagem no Tempo ]

Sinopse

Neste romance magistral, António Lobo Antunes subverte as formas narrativas tradicionais, sobrepõe tempos e figuras históricas para narrar o retorno dos heróis e navegadores portugueses a Lisboa (aqui denominada Lixboa), em plenos anos 1970, desiludidos com o fim da malfadada colonização africana.

Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama – esses e outros nomes, inclusive estrangeiros, como Miguel de Cervantes – retornam a Portugal como pessoas comuns, com seus vícios e fraquezas, numa espécie de epopeia às avessas. Lobo Antunes reconta suas vidas na África, diferentes em todos os sentidos das versões consagradas, e os coloca, ao longo de sua narração vigorosa, como jogadores de cartas, beberrões, aproveitadores.

Suas desventuras trágicas, por vezes burlescas, fazem de As naus um clássico na obra de Lobo Antunes, e um dos livros mais originais da ficção contemporânea.

[...] a escrita de António Lobo Antunes já é, por si só, um baita desafio. Afora a exigência extrema do poder de dedução para entender construções com palavras que nunca vi na minha vida (porque seu eu recorresse ao dicionário a cada dúvida, não terminaria a leitura nunca!), o texto de As Naus é impregnado por uma atmosfera surrealista que desafia – estou abusando desse termo – o entendimento do leitor. Desafia, mas também diverte.

Já faz alguns anos que tive o primeiro contacto com a prosa singular de Lobo Antunes. Foi em 2009, quando li Os Cus de Judas para a prova de ingresso no mestrado. Agora, lendo As Naus [...], eu me recordei de quão singular é a experiência de passar páginas e páginas perseguindo um fluxo de raciocínio intenso, com ideias amontoando-se em cima de ideias e sem chance de perder um detalhe, pois cada detalhe, neste caso, faz toda a diferença. Em resumo: ler Lobo Antunes, pelo menos para mim, é dificílimo, mas, como leitora, trata-se de um desafio [...] indispensável.

Agora imagine ler uma prosa com essas características enfocando uma história que se desloca no tempo e no espaço. Então.

Lobo Antunes publicou As Naus em 1988, 14 anos após a Revolução dos Cravos, e o que ele mais faz em seu livro é justamente dialogar com a formação da identidade nacional, revisitando a história e contrapondo o passado glorioso de Portugal a um presente decadente. Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Luís de Camões, Diogo Cão, Fernão Mendes Pinto e tantos outros heróis do país são “resgatados” de suas posições históricas e retornam a um Portugal do século XX que não lhes dá a mínima importância. As naus mencionadas no título da obra são o elo entre o Portugal Império e o Portugal pós-colonial – são elas que trazem de volta ao país vários desses heróis que estavam na África e na Ásia – este último explorado por meio da faceta mais humana de seus heróis, então destituídos de sua aura mítica.

Assim, o autor de facto brinca com seus personagens (como na passagem em que o rei D. Manuel é julgado por uma série de infracções de trânsito, abordado pela polícia quando levava nada mais nada menos do que Vasco da Gama no banco do carona), mistura datas, eventos e minimiza a relevância de tudo aquilo que a história regista com pompa e circunstância. Olha aí mais um exemplo de como Lobo Antunes flerta com seu enredo, ridiculariza heróis de seu povo e dobra o fluxo da história sem a menor cerimónia, em trecho narrado por Pedro Álvares Cabral:

Foi então que topámos com um grande aparato militar de castelhanos protegendo uma tenda alumiada de barraca de feira, centenas de estandartes, bandeiras e cozinhas de campanha, cirurgiões que amolavam bisturis e ilusionistas que divertiam a tropa, e uma sentinela nos informou que o rei Filipe se reunira com os seus marechais na rulote do Estado-maior a combinar a invasão de Portugal, porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba.” (pág. 133)

O tempo todo é possível perceber esse “pé lá e pé cá” estabelecido pela constituição de uma narrativa baseada numa viagem no tempo e no espaço. Um exemplo disso é a grafia de palavras como Lisboa, Luanda e reino, grafadas no texto do escritor português como “Lixboa”, “Loanda” e “reyno”, obedecendo à ortografia do século XVI, época compreendida no período das Grandes Navegações.

A questão do narrador também é algo a ser observado. Não sou especialista em António Lobo Antunes, nem em história portuguesa – por isso me fizeram falta diversas referências as quais precisei pesquisar por fora no decorrer da leitura –, mas as duas experiências que eu tive lendo as obras desse autor me deixaram fortes impressões sobre a singularidade de um narrador que, além de frequentemente se valer de um fluxo de ideias intenso, é composto por uma mistura de vozes de personagens, ou seja, trata-se de um narrador colectivo, que se reveza sem maiores avisos ao leitor.

A leitura de As Naus não foi nada fácil para mim e talvez por isso mesmo tenha me motivado tanto. No decorrer do processo, achei outros livros relacionados directa e indirectamente ao tema da história de Portugal para engrossar a minha lista de leituras, além de artigos sobre o livro que guardei para ler agora, que já finalizei a resenha e organizei minhas ideias sobre essa obra de Lobo Antunes. E esses desdobramentos são óptimos, porque significam acima de tudo que o livro me cutucou de verdade, que fez diferença no meu exercício de leitura e que o desafio [...] de entendê-lo me impulsionou a buscar outras fontes de informação sobre esse tema.

[...]

por Erika
29.06.2012
[texto revisto por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...