13 de julho de 2014

Silvana de Oliveira: «Relendo as naus portuguesas – ironia e paródia na obra de Lobo Antunes»

I

António Lobo Antunes lançou seus dois primeiros romances, Memória de elefante e Os cus de Judas, simultaneamente em 1979, com poucos meses de intervalo. A eles seguiu-se Conhecimento do Inferno (1980), obra que fecha um primeiro ciclo, que seria o de aprendizagem, segundo o autor. Começando por Explicação dos Pássaros (1981) e encerrando-se com as Naus, de 1988, seu sétimo romance, estabelece-se o ciclo seguinte que, de acordo com Lobo Antunes, é o das epopéias, "no qual o país é a personagem principal" [2] .

Para boa parte da crítica, no entanto, a protagonista recorrente nas obras desse escritor seria mesmo a linguagem, com parágrafos que se concentram em vários planos temporais, de pontuação rarefeita e diálogos sobrepostos. A narração, via de regra, dilui-se em acordes polifônicos, repletos de uma ironia muitas vezes corrosiva, sempre acompanhada de uma certa veia humorística e de uma desconcertante criação de imagens [3] .

Tal densidade estilística estaria associada, para alguns, ao próprio novo momento histórico em que se insere a escrita de Lobo Antunes, considerando-se o autor, indiscutivelmente, um dos maiores nomes da "Geração de Abril". Essa designação que se pode bem aceitar, ainda que apenas para fins de operacionalização analítica, é defendida por Maria de Lourdes Netto Simões, para indicar o grupo "de ficcionistas que vivenciaram o período revolucionário (antes, durante e depois) e que literariamente nasceram entre os anos sessenta e oitenta" [4] . Quer isso significar, principalmente, que esses escritores se voltaram para uma criação literária mais agudamente consciente de sua configuração como arte(-)fato, evidenciando-se o estímulo à própria elaboração do fazer literário, correspondendo, inevitavelmente, a um maior exercício de construção da própria leitura. Não quer isso dizer que, tanto quanto os ficcionistas precedentes, os da Geração de Abril não tenham passado por períodos iniciais do que se poderia considerar como um exorcismo dos horrores da ditadura, mas ainda assim o fizeram com uma postura mais "imediatamente" desencantada frente aos descaminhos da Revolução: um recrudescimento da violência revolucionária mantendo vivos os fantasmas do autoritarismo, o processo de descolonização tão dramaticamente vivido pelos africanos e pelos próprios colonos portugueses, os retornados, entre outros sérios problemas que se apresentavam.

Mencionem-se, ainda, os desencontros de expectativa e informação do processo revolucionário tal como foi recebido pelos diversos setores da sociedade portuguesa (questão colocada de forma exemplar por Lídia Jorge, em seu O dia dos prodígios) e mais uma vez ganha coerência a preocupação com uma prática literária desafiadora de seus próprios sentidos.

Os romances de António Lobo Antunes são também exemplares de todo esse contexto, que acaba desembocando na problemática da própria busca de identidade de um Portugal que agora precisa novamente voltar-se para si mesmo. Nesse sentido se efetivará a presente proposta de análise d'As Naus: diante de uma História por fazer-se, o futuro implica uma releitura do passado, mas uma releitura tão crítica quanto possa ser toda a sua desmitificação.

II

O "Regresso das caravelas" foi o título originalmente pensado para esse sétimo romance de Lobo Antunes, e só não se confirmou por problemas de registro autoral [5] . Embora não se tenha perdido nada, com certeza a denominação inicialmente desejada pelo autor apontava mais diretamente para a temática geral visada na obra, tal qual define João Medina:

o irônico confronto entre as naus pioneiras, henriquianas, e as traineiras que trouxeram, à matroca e no meio de um excruciante salve-se-quem-puder, os restos de uma colonização em fuga após a independência das antigas colónias africanas de Portugal -, retrato engenhosamente globalizante de toda a nossa aventura marítima colonial e do colapso da mesma após o fim das guerras coloniais posterior à revolução de 1974, verdadeira mise en abîme de toda a gesta e contra-gesta da nossa experiência ultramarina[6] .

Ao contrário, no entanto, da conclusão de Medina, que considera As Naus uma obra "pessimista e fúnebre", procurar-se-á demonstrar o quanto essa paródia irônica veicula uma chamada positiva e irrevogável à construção do futuro.

Tratando-se de uma verdadeira anti-epopéia como resposta e continuação ao Canto X d'Os Lusíadas, sentido reiteradamente apontado pela crítica, o romance está estruturado em 18 capítulos, não numerados, apenas divididos pelo espaçamento de quebra de páginas.

O romance abre com um narrador onisciente lembrando que Pedro Álvares Cabral "passara por Lixboa há dezoito ou vinte anos a caminho de Angola", quando então, junto aos pais,

passando por uma placa que designava o edifício incompleto e que dizia Jerónimos esbarrámos com a Torre ao fundo, a meio do rio, cercada de petroleiros iraquianos, defendendo a pátria das invasões castelhanas, e mais próximo, nas ondas frisadas da margem, a aguardar os colonos, presa aos limos da água por raízes de ferro, com almirantes de punhos de renda apoiados na amurada do convés e grumetes encarrapitados nos mastros do aparelhando as velas para o desamparo do mar que cheirava a pesadelo e a gardénia, achámos à espera, entre barcos e remos e uma agitação de canoas, a nau das descobertas [7] .

A citação é ilustrativa do procedimento básico do autor durante toda a obra: confluência de narração onisciente com narração em primeira pessoa; interpenetração do passado no presente sem maior definição temporal e, de certo modo, é o próprio resumo temático da obra: o fechamento, do processo de expansão portuguesa. Cabral, um dos grandes nomes do expansionismo, responsável pelo "achamento" oficial das terras brasileiras, é agora um dos retornados de África, derradeiro momento da colonização empreendida por Portugal.

Empobrecido, contudo, o descobridor do Brasil chega à Lis(x)boa acompanhado de sua mulher, mulata, e de seu filho (que permanecem anônimos durante toda a narrativa), afirmando ao funcionário da alfândega não possuir parentes na capital do "reyno": "Quase que aposto que morreram todos há séculos (...)" (p. 15). Seu destino, é então, a "Residencial Apóstolo das Índias", cujo proprietário é o próprio apóstolo, no caso, "o senhor" Francisco Xavier.

Também referenciado como "padroeiro de Setúbal" [8] o Santo Francisco Xavier é descrito, no romance, como um "indiano gordo de sandálias (...) cercado de uma dúzia de indianozinhos todos parecidos com ele (...)", dono de uma pensão decadente em uma área não menos degradada da cidade. Também ele um retornado, de Moçambique, sem escrúpulos, seu negócio é explorar os pobres recém-chegados: como Cabral não tem dinheiro para pagar a pensão antecipadamente, o padre não terá dúvidas em prostituir a mulher do navegador, alargando o seu exército de "tágides" [9] .

Impotente, Cabral inicialmente resigna-se. No residencial, faz amizade com Diogo Cão - o qual revelava que "há trezentos, quatrocentos ou quinhentos anos comandara as naus do Infante pela Costa de África abaixo" (...) "e de como era difícil viver nesse árduo tempo de oitavas épicas e de deuses zangados (...)" (p. 65). É interessante assinalar a continuação dessa passagem: "(...) e eu [Cabral] fingia acreditá-lo" (p. 65). A duplicação das personagens "históricas" é, portanto, outro recurso muito presente na narrativa - paralelamente, como espelhos disformes, convivem os ilustres antepassados com os miseráveis portugueses de uma época conturbada entre a realidade e o sonho, como foi o período mais imediato da Revolução dos Cravos. De certo modo, a confluência entre o real e o onírico tangenciou sempre a "gloriosa" história portuguesa [10] . Como se pode ver na passagem em que o Infante acaba por desfazer-se do Brasil, mais uma "chatice" para administrar (p. 69), "esse monstro esquisito de carnavais, papagaios e cangaço" (p. 68), e "quem viesse depois que tramasse com aquilo" (p. 69), dando a entender que, ao fim e ao cabo, o Brasil nunca "pertencera" ao Império português, acabando apenas por restar dessa descoberta "um papagaio morto a ressequir-se na almofada"(p. 71), onde dormitava o ébrio descobridor do Congo.

Depois de não mais agüentar a exploração de Francisco Xavier, Cabral decide imigrar para Paris, como havia sugerido Diogo Cão, tanto mais que a sua mulher o abandonara para ser amante de luxo do dono da discoteca onde trabalhava: o não pouco ilustre Manoel de Souza de Sepúlveda. Sem dinheiro, vivendo da caridade dos salões paroquiais (onde serviam-se "refeições de batatas cozidas contra a promessa solene de conversões imediatas" - p. 171), Cabral fica conhecendo os "ciganos" Garcia Lorca e Luis Buñuel, com quem acerta o valor da passagem para fora do país. O dinheiro, vai buscá-lo junto à mulher, e segue viagem com os dois intermediários espanhóis.

Na fronteira, depararam-se com um grande destacamento militar e foram informados de que "o rei Filipe se reunira com os seus marechais na rulote do Estado-Maior a combinar a invasão de Portugal, porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba" (p. 179).

O tom explicitamente surrealista dessas últimas passagens, até pela participação de Lorca e Buñuel na trama, reforça a idéia de uma realidade de dimensão onírica, de viés mais psicalanítico, na qual os sonhos ganham as ruas, expondo toda repressão ao desejo de se viver plenamente o agora da vida. Da última citação acima, ainda, comente-se que não pode ser mais explícita a intenção de rebaixamento da mítica figura do "Encoberto", Rei D. Sebastião. Transformado em um adolescente hippie, inconseqüente e irresponsável, a própria morte lhe é motivo de desonra, não restando pedra sobre pedra para facultar qualquer caráter messiânico à tão pobre figura.

Para além disso, os episódios nos quais Cabral situa-se como personagem central suscitam algumas questões: o fato de ele "hospedar-se" na "Residencial Apóstolo" não é uma forma de reconhecimento de que as Índias foram mais importantes do que o Ocidente para Portugal? Pense-se que a pensão decadente de Francisco Xavier abriga os dois navegadores das rotas ocidentais - Cabral e Diogo Cão (Brasil e África, respectivamente).

Além disso, o sentido da mulher de Cabral ter sido prostituída por Xavier não poderá indicar o quanto, em nome da religião católica, mas principalmente da "vã cobiça", descobriu-se o Brasil, escravizaram-se africanos, ficando sempre o Ocidente "a serviço" do Oriente português? Esses questionamentos apenas ilustram a complexidade da proposta de releitura histórica presente em As Naus. A possibilidade de responder-se positivamente às perguntas é, no entanto, bastante tentadora por estabelecer um sentido crítico em relação à falta de percepção histórica dos governos lusitanos - justamente o fim do "Império" se dará naquelas terras que sempre foram "usadas" de forma mais violentamente exploratória, pensando-se, claro está, no continente africano.

Talvez seja esse um dos possíveis motivos para que Francisco Xavier protagonize mais de um capítulo na narrativa. Morando com a mãe e os filhos na pensão decadente que gerencia, transformou-se em um gigolô que não perde a oportunidade de também explorar sexualmente as prostitutas. No entanto, apesar da razoável prosperidade nos negócios, o desgosto de Francisco Xavier foi ter trocado, com o seu compadre de oitenta anos, a mulher, branca, loira e trinta e um anos mais moça, que lhe servia como verdadeira escrava, por uma passagem de avião para Lisboa.

Sendo poucas as referências ao personagem histórico propriamente [11] , sua relação com Fernão Mendes Pinto, porém, está bem presente no romance. Presença totalmente ficcionalizada, pois, na narrativa de Lobo Antunes, foi em Moçambique (Lourenço Marques = Maputo) que as personagens se conheceram, onde Pinto era o único branco do bairro, que "vendia bíblias, postais eróticos e gira-discos" (p. 100) e que fez Xavier de sócio no comércio dos evangelhos, além de permitir seu casamento com a filha adolescente.

Depois de seu retorno, será em Campolide, Lisboa, que o frade reencontra Fernão Mendes Pinto, o qual vive agora de uma "constelação de residenciais e pensões para fidalgos africanistas em desgraça (...) (p. 103). Nessa altura, o aventureiro Fernão mostra-lhe "o maço, já batido à máquina, das suas viagens caudalosas (Qualquer dia entrego esta bodega toda a um editor) (p. 104), e convida o padroeiro de Setúbal para administrar uma de suas sucursais - daí a Residencial Apóstolo das Índias. O negócio para ser lucrativo, dependeria, porém, de um "bom rebanho de tágides" (p. 105). O que facilmente conseguiu o "fradinho":

Se fossem necessárias provas, a certeza acabada de que Deus está comigo é que mandei segunda-feira, embelezadas de lantejoilas e de xailes, trinta e oito africanas para discotecas da Avenida Almirante Reis e do Martim Moniz, sem falar, ó servos do Senhor, nas que espalharam as ancas demoradas pelos jardins e pátios da cidade (...). Em pouco tempo, e graças à benção do Pai, um desmesurado rebanho de convertidas à Fé ocupava os bairros de Lixboa até às docas de Alcântara onde o ar era de celofane em julho (...). (p. 106).

Do trecho destaca-se, claramente, o caráter absolutamente profanador, a severa denúncia de toda a hipocrisia de grande parte do discurso catequizador da Igreja. Em nome dos mais santos princípios, essa instituição permitiu a escravização e mesmo a prostituição "espiritual" de muitos de seus súditos brancos e civilizados em nome da conquista, do lucro e do poder. Isso sem se levar em conta a própria situação de exploração das mulheres, tanto patrícias quanto nativas nesse processo de ambição colonialista. Além disso, é bastante elementar o que daí se pode concluir como crítica do posicionamento da Igreja frente à própria guerra colonial.

Assim, levando com determinação sua "missão", os negócios de Francisco Xavier iam muito bem, mas continuava saudoso da mulher, muito mais por seu orgulho ferido, quando ela se decidiu a ficar ao lado do velho e não aceitou reverter o acordo como o indiano chegou a propor. Com a determinação de buscá-la, de volta a Moçambique o que encontra é uma pessoa profundamente envelhecida, quase irreconhecível. O decepcionado apóstolo não titubeia no cumprimento de seu dever, levando a mulher para "trabalhar de puta em Lixboa" (p. 110).

Já a situação dos colonos portugueses em África, quem realmente "encarna", sentindo toda repercussão do processo, confuso e mesmo injusto, das independências africanas, é o casal anônimo que protagoniza dois capítulos do romance - o quinto e o décimo-segundo. Para António Quadros, a crítica situação dos retornados decorreu de uma descolonização sem referendo, sem garantia dos interesses portugueses e sem quaisquer concessões aos nossos colonos e assimilados, esses que mais tarde foram compelidos a fugir em massa das terras que desbravaram, das plantações que semearam e das cidades que edificaram, num dos êxodos mais pungentes e aviltantes da história contemporânea [12] .

Essa é a situação protagonizada pelo casal já idoso, que escuta, por acaso, na telefonia, em meio a um vendaval de ruídos, sobre a revolução em Lisboa (p. 51): aí, mais uma vez a temática sempre recorrente de que o conhecimento da Revolução era recebido com surpresa. Isso indica o quanto o processo revolucionário não foi efetivamente representativo [13] e daí o casal protagonizar uma das críticas mais fortes ao processo revolucionário e, sobretudo, ao processo de independências das colônias africanas:

(...) um coronel de artilharia, com uma tripla fita de condecorações na clavícula, lhes ofereceu de mão beijada, numa generosidade inexplicável, a possibilidade gratuita de tornar a Portugal. (...) Os oficiais de tripas puídas, debandaram do andar de baixo e tomaram o avião para a Europa. Batalhões completos, convulsos de amibas e lombrigas, com os furréis a cabecearem de doença do sono logo após a charanga e a bandeira, alçavam-se para navios ferrugentos carregando as suas armas e os seus mortos. Guerrilheiros descalços, de camuflado, colares ao pescoço e bafo canibal de gato selvagem, passeavam-se nas escadinhas da cidade chacinando mulatos à baioneta (p. 52).

............................

As naus aportavam vazias e partiam cheias, convexas de gente e de caixotes. Bissau despovoava-se de brancos e o início da estação das chuvas encontrou-os sem saber o que fazer numa terra de selvagens triunfais que estilhaçavam à metralhadora os postigos das fachadas (p. 53).

O primeiro excerto desvela a decrepitude em que já se encontravam os oficiais portugueses, bem como o absurdo da guerra com seu saldo de mortes e terror. Não passa despercebido, do mesmo modo, o quanto a "debandada geral" em que se configurou o retorno português das colônias africanas acabou estimulando as disputas das forças guerrilheiras locais, em nada contribuindo para o ideal democrático propalado pelo exército revolucionário em Lisboa.

O casal de velhos, além disso, como representante do povo anônimo português que se dirigira às terras africanas em busca de melhor vida, exemplifica em sua trajetória o fracasso de tal ilusão, pois os retornados, geralmente, chegavam tão ou mais pobres do que quando partiram.

Sendo assim, ao regressar, o casal é instalado, inicialmente e na companhia de dezenas de outras pessoas, num hotel, onde uma voz informou com ferocidade, damas e cavalheiros, informou com pompa senhoras e senhores, que se encontravam no Hotel Ritz por pura benevolência paternal das autoridades revolucionárias (...) até o Estado democrático, nascido com a ajuda da parteira mão castrense, do ventre putrefacto do totalitarismo fascista que durante tantos decénios nos garroteou e oprimiu, conseguir casas ou pré-fabricados para as vítimas da ditadura felizmente extinta, e que em nome, camaradas, da luta de classes e da construção do socialismo dirigida pela vanguarda política do exército, passariam a ser punidos com a forca, a decepação da mão esquerda, a extracção de vísceras pelas costas ou o degredo em Macau, os intoleráveis abusos de assar sardinhas nos lavatórios, engasgar os ralos com tornozelos de faisão, cozinhar refogados e fritos nas cerâmicas dos chuveiros, vender as torneiras (...), assim como servir-se das cortinas estampadas do hotel para blusas e adornos. (p. 62 - grifos nossos).

Não poderia ser mais irônico e cruel esse discurso, proferido com os devidos chavões marxistas, como indicam as passagens grifadas, denunciando a decadência total em que se encontravam os retornados de África. Foi essa a realidade enfrentada pelo casal anônimo que, mais tarde é removido para uma pensão horrível e, por fim, vai morar em uma casa identicamente arruinada, na região da Ericeira. A mulher, sem mais conseguir reconhecer a si mesma nesse presente caótico, submerge na alienação que a mantém nos tempos da infância. E os idosos terminam destruindo suas vidas, afastando-se: ele prefere viver a sua solidão em Lisboa, em um quarto alugado, onde passa também a alienar-se de tudo. Recebendo um magro salário-desemprego, lança fora, por último, o retrato de recém-casados "em que se adivinhava, com muito custo, uma fivela de cinto e um ângulo de véu (...). De repente sem passado, aboborou-se na contemplação pasmada dos pescadores da muralha e dos seus anzóis de inimaginável persistência, na mira de que mais cedo ou mais tarde uma tágide desgovernada pelas correntes de fevereiro abocanhasse a linha" (p. 144). Passagem de uma riqueza de imagens a compor um quadro desolador de pobre esperança tão pouco lúcida - só mesmo fora de rota poderia a inspiração novamente correr pelos mares de Lisboa, pois não há mais nada sobre o que se cantar.

Outro personagem histórico destacado na narrativa, Manoel de Souza Sepúlveda aparece como um homem de posses: propriedades em Loanda, vivenda no Bairro de Alvalade, apartamento na costa da Caparica - mas morava em Malange (Angola), onde, viúvo ("a mulher descansava o reumatismo no cemitério do Lobito, com um anjo de mármore funerário, de asas desfraldadas, assente no peito para obviar ressuscitações inoportunas" - p. 74), ganhava a vida trocando diamantes com um "amigo inspetor da PIDE", do qual recebia um cheque (da Holanda ou da Bélgica), quando a jóia chegava ao lapidador parente do policial.

Novamente, a notícia da Revolução chega ao acaso, dessa vez através de um engraxador de sapatos:

Informou-o de que haviam sucedido acontecimentos estranhos em Lixboa: o governo mudara, falava-se em dar a independência aos pretos, imagine, os clientes dos folhados de creme e das torradas indignavam-se (...) Manoel de Souza de Sepúlveda escutou a mesma conversa no barbeiro, no notário, na farmácia (...) e na semana seguinte era visto na África do Sul a tomar o avião para Lixboa (p. 76-77).

Como pode-se ler na passagem anterior, destaca-se em Sepúlveda a astúcia própria dos negociantes, com sua preocupação em não perder tempo diante das circunstâncias, não perder oportunidades sejam elas quais forem. Assim, a sua apressada partida tem como destino certo, inicialmente, a casa paterna, onde mora o irmão e a cunhada. Tudo o que encontra é decadência, da casa, do casamento do irmão, e decide-se a ir para seu apartamento na Costa da Caparica. No caminho, o cruzamento, mais uma vez, do passado com o presente: do táxi, avista os pedreiros construindo os Jerônimos (p. 80).

No entanto, surpresa mesmo terá ao entrar no imóvel e deparar-se com dezenas pessoas que ali estavam vivendo: a crítica ao processo revolucionário não poderia ser mais sarcástica do que o irônico discurso dos pobres miseráveis reclamando seu direito à propriedade:

Chegou agora de África, coitado, não vinha cá há séculos, explorava os camaradas pretinhos, julga que a casa é dele. Isso pertence ao povo, amigo, pertence à gloriosa vanguarda do proletariado, foi ocupada revolucionariamente, percebe?, se for à Câmara encontra lá o meu nome como dono e gerente deste centro de recuperação para doenças da espinha (...) (p. 85).

Novamente, a apropriação das palavras-de-ordem marxistas demonstra o quanto todo o processo não foi a sério, permitindo, ao contrário, todo tipo de oportunismo, diante da situação de grande miséria com a qual se defrontava o país. Diante desse real pesadelo, sem saber o que fazer, Sepúlveda adormece na praia, onde é assaltado. Restou-lhe, contudo, um cheque para recomeçar a vida: montou um bar, alugou uma casa e mais tarde conseguiu comprar a discoteca.

Interessa registrar uma passagem de grande significado simbólico: a prosperidade de Manoel de Souza de Sepúlveda chegou-lhe após ele se ter livrado da cabeça de touro que sempre acompanhara a sua família desde a infância. Segundo o simbolismo analítico de Jung, o sacrifício do touro representa o desejo de uma vida do espírito que permita ao homem triunfar sobre suas paixões animais primitivas e que, após uma cerimônia de iniciação, lhe daria a paz. Então, matar o touro é suprimir o pai, porque o touro seria a dominação perversa; domar o touro é sublimar os desejos instintivos [14] . A ironia de tudo isso está em que, refletindo-se sobre a "real" história de Sepúlveda, conhecida através da História Trágico-Marítima do século XVI, conclui-se pela total inversão dos acontecimentos: foi o instinto dos "selvagens' que não conseguiu "domar" o responsável por sua morte e a de toda sua família.

Nesse romance, subvertendo, portanto, a "real" trama histórica, Sepúlveda consegue sobreviver à crise geral e não só, pois enriquece. Tornou-se dono do bar Dona Leonor, assim batizado em homenagem à esposa morta, local freqüentado pelos vice-Reis da Índia depostos (p. 124) e onde igualmente aparece o Padre António Vieira, com "seus sermões de ébrio" (p. 124). Assinale-se que para bom resultado dos negócios, Sepúlveda não deixou de manter acordos com Fernão Mendes Pinto e Francisco Xavier sobre o recrutamento de mulatas para o estabelecimento (p. 125). Enriqueceu tanto o "naufragado" Sepúlveda que financiou a possibilidade de editar Os Lusíadas em bolso, publicada numa coleção de romances policiais, e ganhou tanta notoriedade que privava da companhia do Rei durante os autos de Gil Vicente (p. 129).

Restava-lhe, apesar de tudo, algo por conquistar: não conseguia comprar a última discoteca do Largo de Santa Bárbara, de propriedade de Nuno Álvares Pereira, assim descrito no romance:

Um homenzinho pequenino, de boné à Lenine na calva (...), que fora, na juventude, condestável do reyno, e a seguir religioso em São Domingos, antes de se cansar de missas e Te Deuns cantados a bater o queixal numa nave gelada, devolver à Ordem as sandálias que lhe aleijavam os pés e o burel que lhe causava urticária sem o defender do frio, recuperar a gabardina profana, pedir um empréstimo ao Duque de Bragança, seu genro, adquirir a Boite Aljubarrota na esquina da Avenida Almirante Reis com a primeira travessa do Largo, e enterrar-se na mesa mais afastada da porta a observar o escuro, na companhia de um capilé aguado, escutando, imune às repreensões da filha, a orquestra que tocava, num estradozito oblíquo, as cantigas de amigo do senhor D. Dinis (p. 130). 

Depreende-se do trecho acima o quanto o caráter historicamente intrépido de Nuno Álvares Pereira é colocado pelo avesso, pois aparece como uma figura nostalgicamente fragilizada. Ao mesmo tempo, porém, o perfil decidido do condestável desloca-se para sua recusa às propostas de Sepúlveda e à obsessão de seguidamente interromper a fala do negociante, para perguntar se o outro não ouvia "as trombetas do acampamento castelhano" (p. 131). O entrecruzamento do passado com o presente não poderia ser mais bem-humorado do que na frase do já irritado Sepúlveda lançada ao teimoso concorrente "— Trombones, uma ova, berrou ele possesso. Em que século é que você julga que vive?" (p. 132). E mais uma vez, o capítulo termina (no caso, essa parte de Sepúlveda e Nuno Álvares) com o espectro da invasão castelhana (p. 133).

No décimo capítulo aparece Vasco da Gama, e há toda uma inversão/invenção da sua biografia: nascido em Sines, o mais famoso navegador lusitano é, no romance, natural de Vila Franca de Xira. No regresso de Angola, é para lá que se dirige, encontrando o povoado, já normalmente empobrecido por essa época, às voltas com uma enchente. Consola-se, apesar disso, pois, enfim, sempre "nomearam-me conde!" (p. 114). O curioso é saber-se que recebeu, efetivamente, essa titulação, mas, na verdade, foi conde de Vidigueira, no Alentejo. Parece, assim, repetir-se o processo de duplicação, através do qual coexistem o Vasco da Gama, mito histórico, circulando impávido no imaginário do presente, com tantos outros Vascos, homens comuns que se confundem em seus fracassos e sucessos com esses monumentos do passado.

Sendo certo que um momento marcante do passado histórico português foi o que protagonizou o navegador de Sines, quando de sua partida para as Índias, as recordações sobre essa passagem são descritas como se Vasco da Gama contasse a "verdadeira" versão da história:

Lembrou-se do Restelo de manhã, à hora da partida dos veleiros, da corte instalada num palanque com um toldo de franjas para ver o largar, das aias que beliscava às cegas nos jardins do palácio, confundindo o seu odor de pedra-pomes com a essência de passiflora da rainha. Lembrou-se dos bispos paramentados a oiro, do núncio apostólico e dos seus óculos escuros de mafioso taciturno, das decotadas embaixatrizes de países longínquos, do mercado a assistir, suspenso, ao levantar das âncoras. Lembrou-se dos corvos que recitavam o Hino da Carta nas tabernas, lembrou-se do povo, ai, do povo, a acenar bandeirinhas verdes e encarnadas, da velha que me atirou uma bênção angulosa de profeta ao bolinarem já para as correntes da barra (...) (p. 113).

Note-se do trecho destacado o quanto a referência desse evento é sempre Os Lusíadas, mas reconfigurado em amarga ironia ao marcar a grande divisão social existente, restando ao povo o papel, não de representantes de um nacionalismo glorioso, mas de pobres ingênuos que, no final das contas, nada ganharam com tão magnânimos ideais de audaciosa expansão.

Entre a história e a ficção, enfim, "o conde entrou na Vila como os mortos nos sonhos" (p. 114). Com um humor corrosivo, assiste-se, então, ao sobrinho pedindo-lhe para não andar pelas ruas exibindo suas "suíças de Neptuno vestuto". E Vasco não se ofende, pois tem noção de que "nem o parvo do Rei julgava que eu voltasse". Como de resto, todo empreendimento expansionista foi feito de forma nada racional, como só poderia ser uma busca pelo que efetivamente se desconhece.

Referenciada uma passagem temporal indefinida, Vasco da Gama volta a encontrar o rei (fica-se sabendo que fazia quarenta e dois anos que eles não se viam), quando já "o mosteiro dos Jerónimos, concluído há decênios, transformara-se de imediato num monumento arcaico votado aos casamentos dos domingos e à patética celebração de glórias defuntas" (p. 117). Nesse contexto, a figura do rei não poderia ser mais decadente: "Encontrou um príncipe envelhecido afastando as moscas com o ceptro, de coroa de lata com rubis de vidro na cabeça e hálito de puré de maçã de diabético" (p. 117).

A decadência atinge toda glória passadista lusitana, pois "uma epidemia de moléstias ribeirinhas extinguira praticamente as tágides, reduzidas a um pequeno cardume de sereias grisalhas que se alimentavam dos esgotos de Chelas e do sedimento da Siderurgia, jogado às ondas por uma complicada rede de canais". Para mais, "Tágides a quem as hérnias da coluna mal consentiam nadar catavam-se de conchas perto do aparato da Petroquímica e do seu odor de tripas amoniacais" (p. 120). Dessa forma, sem as musas, sem as inspiradoras das epopéias, não há nem mesmo como Vasco contar suas aventuras ao Rei, (no caso aqui, as que viveu em Angola), pois vão desaparecendo as tágides: à medida que ia querendo narrar, elas "se evaporavam, uma após a outra" (p. 121). Por fim, o rei quer mesmo é dedicar-se a uma partida de sueca com Vasco da Gama pois, por um lado, de pouco adianta contar-se qualquer coisa e, de outro, tem-se uma crítica à desatenção dos reis para com os reais e complexos problemas do país que a seu tempo não resolveram, postergando para o futuro, sempre pouco refletido, as crises que vivenciam todos os naufragados do presente.

Além disso encontra-se, nessa mesma parte da obra, mais uma dura passagem sobre a decadência geral de Portugal:

"O povo abandonava os castelos e mudava-se para o Luxemburgo ou a Alemanha, à procura de trabalho em fábricas de automóveis e de moldes de plástico. Os duques geriam sucursais de bancos na Venezuela. Os oficiais da escola de Sagres fumavam mortalhas de heroína e exploravam bares em Albufeira. E se os castelhanos invadissem o reyno topariam apenas com ingleses indiferentes no golfe de Estoril, sentinelas a caírem de sono no portão do Estado-Maior do Exército e mulheres vestidas de preto nas aldeias desertas, espalhando as saias em redor de banquinhos de pau, a olharem para o interior de si mesmas um oco absoluto" (p. 119).

Revelada no pensamento de Vasco, através da voz do narrador, essa avaliação tão negativa da realidade portuguesa demonstra o abandono a que se viu relegado um país paralisado economicamente, que não se organizou efetivamente para o futuro. De tal sorte, que nem mesmo os potenciais inimigos, castelhanos, teriam o que encontrar, a não ser a invasão inglesa, que desde o final do século XIX foi marcante e monotonamente vitoriosa. Some-se a esse quadro a própria desmoralização dos mitos, apontada de forma extrema nos episódios em que Vasco e o rei D. Manuel andam "com as roupas bizarras de um carnaval acabado", e "longas madeixas cheirando a orégão de copa, em que proliferavam parasitas de outros séculos", tendo como séquito um "cortejo de desocupados que os troçava" (p. 120) [15] .

Morando, agora, em uma vivenda no bairro econômico de Madre de Deus, que ganhou como pagamento por seus serviços, além de uma medalha e de um diploma, Vasco da Gama passa a receber a visita do rei D. Manuel, que o vai buscar para passeios de automóvel na praia do Guincho. Mas, tudo na sua vida e morada é deprimente e a figura de Vasco da Gama é totalmente rebaixada na passagem em que ele aparece como um velhinho vestindo pijama de criança:

Jantava água de barril e biscoitos de caravela e com todas as janelas cerradas e todas as damas recolhidas, subia a raspar as pantufas no soalho de tacos, despia-se, conforme as juntas deixavam, do cinto, do punhal, do gibão, da bóia de cacilheiro e dos restantes adereços de nauta sem idade (...), enfiava-se membro a membro num pijama de bolinhas de criança (...). (p. 183).

As visitas do rei D. Manoel contavam com um Ford "antiquíssimo, ferrugento e descapotável", para passearem "Marginal fora, a discutir o Oriente num rebolar coxo de bielas, envoltos em rolos de fumo escuro do motor" (p. 183). Em um desses passeios, acabaram presos quando foram interpelados por um policial que lhes pediu a documentação, passando a fazerem vizinhança à cela de António José da Silva, o judeu, o qual jogava batalha naval com Vasco da Gama, enquanto "esperava a visita soturna dos frades da Inquisição" (p. 188).

Passados dois dias, retiraram o conde e o rei da cela, mas sem lhes conceder um mínimo de higiene e dignidade em sua apresentação junto ao Tribunal da Polícia, nada que lhes garantisse a "sua condição de nobres" (p. 188). Arrastados para julgamento, eram assistidos pelo povo, curiosos e desempregados, o vosso povo, o pobre povo de Lixboa, Senhor, o que em mil quatrocentos e noventa e oito se amontoou na praia do Restelo para me ver partir, aquelas caras sérias lavradas pelo desengano da desgraça, aqueles olhos sem esperança, aquela roupa rasgada, o povo que não esperava nada de Vós ou de mim por não esperar nada de ninguém nem de milagre algum (...) (p. 188).

Há nesse trecho um desapontamento, uma desesperança que, à primeira vista, contradiz as lembranças de Gama sobre o momento de sua partida para as Índias. Só não se trata de uma contradição realmente pensando-se que aquelas recordações foram descritas logo de sua chegada em Lisboa; com o passar do tempo, com seu reconhecimento do que estava acontecendo mesmo no país, com o rumo de sua própria trajetória, agora sem nenhum reconhecimento, a impressão que passa a vigorar tem que ser efetivamente a descrença.

O navegador e D. Manuel são, por fim, enviados para um hospício, permitindo que se reflita o quanto, talvez, só mesmo os loucos para acreditarem em Vascos e Reis, numa altura em que nem a pátria os conhece mais. Reforce-se a seguinte idéia: em um presente onde o passado ainda se acha o mais poderoso dos tempos, perde-se a lucidez e não há lugar para o futuro.

Uma outra personagem muito especial na obra é Diogo Cão, o qual tem sua trajetória inicialmente relatada quando da sua convivência com Camões na Residencial Apóstolo das Índias. No entanto, sua "história" desenrola-se em dois capítulos próprios, dos quais o último é o maior de todo romance. Fato em si, menos relevante, não fosse o caso de se tratar do navegador que, justamente, alargou os conhecimentos portugueses sobre a África. Sabendo-se muito pouco de sua biografia, apenas restaram os registros de seus feitos, como ter ele realizado duas viagens durante o reinado de D. João II, estabelecendo contato com o rei do Congo, penetrando no Rio Zaire, atingindo a baía de Benguela, então o ponto mais ao sul das rotas portuguesas. Além disso, foi a partir de seus descobrimentos que se chegou à conclusão de que para contornar o sul da África era necessário que os navios se afastassem da costa, navegando em alto-mar. Para demarcar suas conquistas, utilizava padrões que se espalharam pelas praias africanas.

No romance, esse grandioso navegador, fervoroso e pleno de ousadia e coragem, aparece como um beberrão que, por causar tantas confusões nos bairros de prostituição à procura de uma "tágide" por quem se apaixonara, é enviado para Angola. No entanto, reconhecendo os serviços prestados por aquele que foi um navegador "como poucos" (p.151), o monarca ilude a frágil lucidez de Diogo Cão, dizendo-lhe que em África, seu cargo seria o de fiscal das Companhias das Águas, à procura das tágides, pois de acordo com o rei "é claro que toda gente quer que repovoemos o rio dessas pequenas" (p. 151). Quer dizer, se o objetivo é que se esqueça de Diogo Cão, juntamente deverá ser esquecer das tágides, das ninfas, das musas inspiradoras dos poemas gloriosos. E a realidade só evidencia o quanto não há mais o que cantar, sendo a África renegada, assim como não são bem-vindos os retornados.

Diogo Cão, segundo esta narrativa ficcional, viveu em Loanda por doze anos, sete meses e vinte e nove dias, como se essa (ou qualquer outra) precisão temporal tivesse algum sentido na obra - dá, isso sim, a ilusão de uma objetividade, de um testemunho que, em verdade, nada significa em si mesmo.

Em Angola, o navegador era motivo de chacota, por suas aventuras náuticas narradas com a eloqüência dos ébrios; somente uma velha prostituta, encarregava-se de cuidar dele. A fusão da decadência mais brutal com a inocência dos lunáticos faz com que se configurem, nessas passagens, a máxima expressão da humanidade profundamente fragilizada daquele que seria um dos grandes heróis portugueses.

Assim, no capítulo em que a meretriz procura por Diogo Cão na capital do "reyno", ninguém parece mais conhecer de quem se trata, e alguns, sem muita convicção, "confusos, numa voz escolar" perguntavam: "é por acaso o barbaças que descobriu a Madeira? E eu explicava-lhes pacientemente que não, meu menino, não descobriu Madeira nenhuma, é apenas um capitão de Áfricas, aquele que subiu a foz do Zaire com os navios de el-rei" (p. 199). Por aí se vê uma outra crítica: o passado não pode ser simplesmente ignorado, desconhecido, ainda que a verdade não esteja nos livros escolares. O passado deve ser reconhecido, e bem, para que se mantenha como referência à disposição de um olhar para trás que não impeça o avanço do presente.

Dando continuidade à procura de Diogo Cão, a velha instala-se no Terreiro do Paço, a questionar marujos e funcionários públicos sobre "o paradeiro dos heróis" (p. 199). E faz uma contundente contestação à situação presente: "Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos" (p. 200). A passagem fala por si na amargura que descreve.

Enfim, a prostituta encontra a triste figura do navegador de D. João II: " o seu corpo de neptuno apeado deteriorara-se nesses meses de abandono desde o regresso de Angola: possuía furúnculos e grandes peladas na cabeça, (...) conservava dois únicos dentes na gengiva inferior, e respirava de leve, como os pintos, em assopros dolorosos e velozes" (p. 207).

Interessa assinalar como o retorno à infância também aparece como um constante questionamento sobre as personagens do livro: numa leitura psicanalítica, muito genérica, as marcas do que se é repousa no que fomos e nos fizeram; assim como o presente de um país se entende pelo passado que o fez. São ilustrativas, por exemplo, a passagem em que Diogo Cão compara a velha à mãe, e vira "miúdo" - p. 213; mas também a própria narração do retorno de Sepúlveda à casa dos pais e a questão do touro; e, claro, os episódios em que Camões quer enterrar o pai, enfim.

Sintomática se faz, portanto, a aparição de uma galeria de personagens que marcaram, de alguma forma, o imaginário passadista português: Egas Moniz e seus filhos de baraço no pescoço; Santo António sermoneando atuns; Fernão Lopes fazendo apontamentos em cadernos espirais; Garret e suas pestanas irresistíveis, polígrafo e político; D. Fuas Roupinho pedindo dinheiro emprestado.

O contraponto que se estabelece vem com nova crítica da mulher à miséria: quando vão para a Apóstolo das Índias buscar os mapas do navegador, diz ela não se recordar, apesar da sua comprida existência de mulher da vida acostumada a mil penúrias de abismo e a um sem números de assombrosas desgraças (...), de uma pobreza como aquela a que assisti nessa tarde, com sujeitos a ressonarem uns sobre os outros em desvão de chiqueiros, crianças roendo baratas nos ângulos dos quartos, mulatas submissas inexistentes de magreza (...) (p. 227).

O mais instigante é que, ao ver as prostitutas da Residencial Apóstolo da Índia, a velha meretriz apiedou-se foi dos homens a quem serviam: ora, se elas são as tágides que restaram, se, portanto, não há mais inspiração, o triste fica mesmo é para os leitores; tristeza consubstanciada no final da trajetória de Diogo Cão, vendo a Terra transformada em um deserto seco de ondas e tágides.

Por certo que o maior cantor da epopéia portuguesa se faz presente nesses episódios "naufragados". Como segunda personagem do romance, é assim apresentado: "Era uma vez um homem de nome Luís a quem faltava a vista esquerda" (p. 19). Tendo-lhe morrido o pai durante a guerra colonial em Angola pouco antes de embarcar de volta para o "reyno", traz a mortalha consigo no navio de regresso. Durante a viagem, em alojamentos miseráveis, faz amizade com Vasco da Gama e Miguel de Cervantes, também retornados e assim apresentados: o primeiro "um reformado amante de biscas e suecas"; e o segundo, "um maneta espanhol que vendia cautelas em Moçambique (...) sempre a escrever em folhas soltas de agenda e papéis desprezados um romance intitulado, não se entendia porquê, de Quixote, quanto toda a gente sabe que Quixote é apelido de cavalo de obstáculos (...)" (p. 20).

No entanto, estabelece uma maior proximidade com o Gama, o qual passa a Camões o endereço em que residirá em Vila Franca, e o poeta não titubeia em decorá-lo para uma visita na Páscoa, já que "não conhecia ninguém em Portugal (...)" (p. 24).

Então "à segunda ou terceira semana e após muitas naus de descobertas" (p. 89), ainda está Camões no cais de Alcântara, procurando uma forma de realizar o enterro. Tendo trocado o esquife por uma embalagem de cartão, segue "com o pai debaixo de braço" (p. 91), a procurar por um cemitério onde possa enterrar o falecido, furtivamente, à noite. No meio do caminho, acaba parando na Gare Santa Apolônia, onde pega a caneta esquecida de um funcionário e começa "a primeira oitava heróica do poema..." (p. 97). Evidentemente: Os Lusíadas é a epopéia de um país já defunto em sua glória passadista.

Segue Camões escrevendo oitavas, quando trava conhecimento com Garcia da Orta, o qual, no romance, trabalha como garçon no bar da estação: "um fulano amargo, de meia-idade, radioamador, que morava no Bairro Alto com a esposa, cinco descendentes e o sogro inválido (...)[que] criava plantas medicinais na varanda" (p. 157). Garcia da Orta propõe que Camões lhe venda o pai como adubo, ao que o outro acaba consentindo: não se enterra, assim, o passado glorioso de Portugal; ao contrário, ele segue alimentando a "natureza" do país, ainda que seja uma natureza artificialmente criada e mantida como experimentos que garantam a descoberta de novos remédios para os males portugueses. Mas, essa natureza é muito perigosa, carnívora e acaba devorando praticamente toda família do botânico, com exceção da mulher, que se vai embora, abandonando-o. Acabam nas ruas de Lisboa, Orta e Camões; o primeiro some-se pelas ruas noturnas, enquanto Camões foi "moendo episódios heróicos, parando a tomar notas nas retrosarias iluminadas, até desembocar na praça de minha estátua, mãe, com centenas de pombos adormecidos nas varandas em atitudes de loiça e cães que alçavam a pata no pedestal da minha glória (...)" (p. 166).

Nessas imediações, chamando o testemunho dos leitores, Camões avista o "cortejo de tochas e de risos de pagens", em que surge D. Sebastião, "rodeado de validos, arcebispos e privados, vestido de uma armadura de bronze e de um elmo de plumas, e desapareceu para as bandas do pelourinho da Câmara, seguido pelo espanto dos polícias e guardas-nocturnos, a caminho de Alcácer Quibir" (p. 166).

Como também não poderia ser de outra forma, Camões é o protagonista do final do romance. Vivendo em um hospital para tuberculosos, desocupado pelo governo para servir de alojamento aos retornados, lá, o homem de nome Luís, a quem apesar da ausência de sintomas obrigaram a um roupão de moribundo, obteve autorização para um intervalo de uma hora fora da cerca do hospício, escoltado por um servente que carregava o penico de loiça destinado aos bacilos da hemoptise que tardava (p. 237).

Pensando-se que a tuberculose, de certa forma, é considerada uma doença "da miséria", nada mais corrosivamente crítico do que a imagem de uma legião de tísicos (a)guardando o futuro do país:

Amparados uns aos outros para partilharem em conjunto do aparecimento do rei a cavalo, com cicatrizes de cutiladas nos ombros e no ventre, sentaram-se nos barcos de cascos ao léu (...). Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos (...) um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço (...) enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital (...) aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível (p. 247).

Tal cena desconstrói qualquer espírito messiânico: não há mais lugar para a imobilidade mortal e alienada de um futuro que não se fizer construir na certeza de seu presente. O passado, de tão grandioso, acaba, por sua presença maciça, soterrando as expectativas de construção de uma vida nova. D. Sebastião não retornou, a Revolução não se fez, e mesmo o poeta, que ainda finge acreditar minimamente na lira, sabe, muito bem, que o cavalo passadista é impossível de ser mensageiro das necessárias mudanças.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A derrota de Alcácer Quibir levou à perda da independência, transformando-se em mito; a derrota na guerra colonial levou à queda da ditadura, mas com um processo revolucionário que se fez ilusão, que ainda está por se cumprir. Para isso é preciso, antes de mais, quebrar os mitos. Processo feito em As Naus através, principalmente com a humanização dos "heróis", levada às últimas conseqüências: seu rebaixamento. Não se tratando de homens melhores, mas piores do que são, o trágico dá lugar ao riso, sem dúvida bastante amargo, mas remetente de uma crítica ao presente, visto não como sem saída — porque já não se tem, e felizmente, dogmatismos a serem seguidos — mas um presente a fazer-se, em um futuro que já não pode mais ser adiado. O chamado do poeta ecoa distante: "É a hora!", mas com um sentido totalmente renovado, porque já não há mais nada para ser esperado, a não ser a extrema ousadia de humanizar o passado, desglorificar os heróis e desacreditar, com muito bom humor, todas as verdades históricas que não desconfiem de si mesmas.

Tal proposta desmitificadora implica, também, a desmitificação de uma identidade que se reconhece como forjada, construída exemplarmente, por certo, e de tão exemplar tão pouco "verdadeira". Com isso apenas se quer referir o quanto o texto de Lobo Antunes aponta para o terceiro nível da ideologia, de acordo com as proposições de Paul Ricoeur [16] : toda ideologia é integradora, é o fundamento de um grupo que se identifica, que se reconhece como tal. É o molde de todas as identidades sociais e nacionais. Nesse sentido, resguardando-se seu caráter positivo, não se perde de vista, contudo, o traço sempre conservador da ideologia. Pode-se questionar, então: de certo modo, apontar para a artificialidade de uma identidade nacional mitificada, não significa, ainda assim, continuar buscando um sentido mais apropriado de identidade? Reconhecer o fracasso da glorificação ufanista não tem, igualmente, o sentido de afirmar a vitória da lucidez, potencialmente nunca perdida, de que não existe um fim da história? De que o processo histórico assim se denomina por sua inexorável e paradoxal permanência sob o signo da mudança?

Às respostas não se pode furtar um claro posicionamento igualmente ideológico, primeira óbvia constatação, quando se defende um sonoro sim para todas elas; posição de empenhamento que não abre mão de ver na literatura a capacidade sempre renovada de engendrar criticamente, acima de tudo, o presente. O cerne dessas problematizações está em que o presente nada mais é do que a contingência da época de nascimento dessa obra, de toda obra literária (e artística, em geral, sem dúvida), para além e sempre da contingência de todos os presentes possíveis de sua "leitura" (aqui sinônimo de decodificação interpretativa/construtiva).

Por essa razão, entende-se que o romance em foco veicula uma noção positiva de ideologia: a fragmentação de qualquer identidade sólida, estacionária em seu reconhecimento, nada mais faz do que reclamar a construção de um projeto minimamente estruturado de nacionalidade. Como já disse a protagonista de Lucialima, "ter um país é ter para onde voltar" [17] - e não é essa justamente a grande procura dos retornados e dos que os recebem na mesma terra que se tornou estranha a todos?

Assim, a essa concepção de ideologia como base positivamente integradora, corresponde uma visão de utopia que se apresenta como construtiva, como também positivamente configuradora. Porque urge reconhecer-se o país, na provisoriedade inexorável de qualquer afirmação dialética, torna-se do mesmo modo urgente o não abrir mão da utopia.

Poder-se-ia afirmar ser o sebastianismo, certamente, já uma visão utópica. No entanto, o messianismo que o impregna constrói um futuro que no máximo está ressuscitado dos mortos o que, na imponderabilidade de todo milagre, amarra o futuro numa visão do passado e, assim, torna-se tudo, menos efetivamente vivo e pulsante. A utopia revigorada no romance de Lobo Antunes aponta, sim, para o desejo de construção de uma pátria portuguesa tão mais habitável quanto maior for a possibilidade de se sonhar com o que nem se imagina que possa ser sonhado. 

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[1] Departamento de Letras - UNIFRA
[2] A "trilogia do Benfica", com Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992) e A morte de Carlos Gardel (1994), seria seu terceiro ciclo, de acordo com entrevista que o autor concedeu a Rodrigues da Silva, para o JL de 13 de abril de 1994. Demais obras do autor são: Manual dos inquisidores (1996), O esplendor de Portugal (1997), O livro de crônicas (1998) e Exortação aos Crocodilos(1999).
[3] A definição de autor "barroco" não poucas vezes o acompanhou, embora não o agradasse. Ver, por exemplo, entrevista no JL de 5-11 de abril de 1988, n. 300.
[4] SIMÕES, Maria de Lourdes Netto. As razões do imaginário. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/EDITUS, 1998, Anexo I, p. 2.
[5] "Mesquita Brehm, assinando Vitoria Kali, através da Sociedade Portuguesa de Autores, comunica a Publicações D. Quixote e ao autor [António Lobo Antunes] que havia registado a seu favor aquele título na Direção Geral de Espetáculos e do Direito de Autor, no dia 24 de Agosto de 1987, registo que lhe foi deferido a 20 de Outubro de mesmo ano". JL - Jornal de Letras, Artes e Idéias, Ano VII, n. 297, 15/21 de maio de 1988, p. 2.
[6] MEDINA, João. "O mito sebastianista hoje. Dois exemplos da Literatura Portuguesa Contemporânea: Manuel Alegre e António Lobo Antunes". Revista Municipal de Cascais, 1997, v. 4, p. 204.
[7] ANTUNES, António Lobo. As naus. Lisboa: Publicações D. Quixote/Círculo de Leitores, 1988, p. 10-11. Todas as citações posteriores do romance serão retiradas desta edição, passando-se a indicar somente o número das páginas respectivas.
[8] "Fundada canonicamente a Companhia de Jesus, o Padre Francisco Xavier é nomeado Superior de toda a Missão da Índia Oriental, desde o Cabo da Boa Esperança até a China. (...) A 25 de outubro de 1605 é beatificado por Paulo V e Gregório XV canoniza-o a 12 de Março de 1622. A Igreja festeja-o todos os anos no dia 3 de Dezembro. É padroeiro de Setúbal". Conforme verbete encontrado emwww.lasa.pt/xavier.htm#Padroeiro .
[9] A relação tágides/prostitutas será analisada mais profundamente a seguir.
[10] Em entrevista a Luis Medina Martins, Lobo Antunes afirma que a criação de As Naus "teria o sentido de uma tentativa de dar, sob forma onírica, o retrato desse país, em que o presente e o passado se misturam". JL - Ano VIII, n. 3000, 5 a 11/04/88, p. 8-10.
[11] "Recordei-me de quantas vezes, em pequeno, olhei aquelas ondas a lembrar-me de Goa" (p. 47). E em outro capítulo em que aparece (o nono), diz que Deus sabe do íntimo de suas intenções - já que o acompanha desde a Índia (p. 99).
[12] QUADROS, António. A arte de continuar português. Lisboa: Templo, 1978, p. 31-32.
[13] Para Eduardo Lourenço, a questão dessa surpresa generalizada a respeito da Revolução deveu-se ao grande atraso da sociedade portuguesa, subjugada, desinformada, enganada, enfim, desrespeitada em seus elementares direitos de cidadania pela regime ditatorial. Ver, sobre o assunto, seu livro, O complexo de Marx: Lisboa: Dom Quixote, 1979 (p. 186-187).
[14] CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. RJ: José Olympio, 1996, p. 894.
[15] Além dessa passagem, na qual se torna explícita a referência à carnavalização, todo o romance, de certa forma, joga continuamente com esse recurso. Em concordância com Michelle Giudicelli: "Pour mettre em oeuvre cette carnavalisation, l'auteur a recours à plusieurs procédés, dont le principal consiste à superposer les deux époques, celle correspondant aux périodes de gloire et le Portugal du XXe siècle, invitant par là à une lecture á plusieurs étages, dont le premier se caractérise par um anachronisme voulu qui confère au texte um aspect ludique". GIUDICELLI, Michelle. "As naus, d'António Lobo Antunes et la carnavalisation de l'Histoire officielle". In: PIWNICK, Marie-Hèléne (Org). Regards sur deux fins de siécle (XIX e XX). Colloque Franco-Portugais. Bordeaux: Maison des Pays Ibériques, 1996, p. 31.
[16] RICOEUR, P. Ideologia e utopia. Lisboa: Edições 70, 1991.
[17] COSTA, Maria Velho da. Lucialima. Lisboa: Dom Quixote, 1983, p. 251.


por Inara de Oliveira Rodrigues [1]
2002

7 de julho de 2014

Citações

Enquanto não renovamos a rubrica "citações", e para quem usa o facebook, convidamos a visitar o álbum de fotografias criado para o tema. Basta clicar na foto abaixo.


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16 de junho de 2014

Universidade Babeș-Bolyai (Roménia) nomeia António Lobo Antunes para distinção Doctor Honoris Causa

A Universidade Babeș-Bolyai, em Cluj-Napoca, na Roménia, nomeou António Lobo Antunes para a atribuição das insígnias de Doctor Honoris Causa, em cerimónia a realizar-se em Outubro. 

Segundo aquela instituição e do seu comunicado feito ao escritor, a que tivemos acesso por cortesia de Maria de Piedade Ferreira (editora da LeYa), esta distinção deve-se ao «contributo excepcional» que António Lobo Antunes presta à «literatura mundial e à divulgação da cultura portuguesa no mundo».

Outras personalidades já foram distinguidas com o mesmo grau por esta Universidade, como o escritor Mario Vargas Llosa, o químico Jean-Marie Lehn e o biólogo George Palade (os três tendo alcançado o Prémio Nobel nas suas categorias), os historiadores Jacques Le Goff e Harald Zimmermann, e ainda a chanceler alemã Angela Merkel e o cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).

Mais adianta o comunicado que a obra de António Lobo Antunes é bem conhecida e bastante apreciada pelos estudantes e professores daquela universidade.

O escritor português estará então presente na cidade de Cluj-Napoca (a 3ª maior cidade romena) para a cerimónia de imposição das insígnias que ocorrerá nos dias 6 e 7 de Outubro.

31 de maio de 2014

Sessões de autógrafos na 84ª Feira do Livro de Lisboa, Praça LeYa


Segundo a informação recolhida aqui, prevê-se que António Lobo Antunes visite a Feira do Livro de Lisboa, para as sessões de autógrafos na Praça LeYa, entre as 15H00 e as 19H00 dos sábados dias 7 e 14 de Junho. Se outra informação nos chegar, logo divulgaremos.

30 de maio de 2014

Crónica de quando começou a escrever Caminho Como Uma Casa Em Chamas, em 2012

Crónica sobre a angústia de não conseguir avançar depois de Não É Meia Noite Quem Quer, e o resultado da espera que vem a ser o novo livro já pronto a publicar em Outubro próximo:


Caminho como uma casa em chamas
Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava
- Agora sei como se faz um livro
e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava
- Sequei
em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava
- Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se
mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me
- Se calhar encontrei
e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava
- Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada
embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão.
Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me
- Será isto?
a responder-me
- Não deve ser isto mas vou continuar
sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso.
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
insistia ele
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

Visão
23.02.2012

24 de maio de 2014

Béatrice Putégnat sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Leitura em apneia

Ao orquestrar o seu romance como uma tourada, António Lobo Antunes disseca o ritual da tradição portuguesa para contar a decadência e ruína de uma família de criadores de touros de lide. Os filhos aguardam a morte da mãe; vão abordando memórias. O desafio do presente? Saber do passado, talvez...

A princípio, abrir [este] romance de António Lobo Antunes é um pouco como mergulhar em apneia tendo como reserva de oxigénio apenas palavras, a escrita. Uma verdadeira experiência de leitura que nos leva ao profundo da mente humana, além da temporalidade, por lugares quase assombrados, povoados por objectos quotidianos aflorados como restos de vidas. Dito assim, o leitor suspirá dizendo para si mesmo: mais um romance ilegível ... Nada disso! A partir do momento em que mergulha de cabeça no livro, não mais o deixará. As vozes assombrosas das personagens levá-lo-ão por toda a parte. A construção é rigorosa. Assenta-se sobre a estrutura de uma tourada com sete capítulos: Antes da Corrida, Tércio de Capote, Tércio de Varas, Tércio de Bandarilhas, A Faena, A Sorte Suprema... Depois da Corrida. E, como nas touradas, tudo se resume a ferimentos, agonia e morte. Como a da mãe que se prevê na narrativa: num domingo de Páscoa, chuvoso, brevemente serão as seis horas, brevemente teremos a estocada final. Os seus filhos zelam, vigiam e dissecam interiormente os seus passados. As falhas, os segredos, vão sendo revelados manchando este fim da vida, o fim do reinado de uma família próspera feito por suas ganadarias. Até que tudo acaba e, em redundância, "como é triste esta casa às três horas da tarde". Ascensão e queda ... Por sua vez, durante cada fase da tourada, as personagens vão dedicando-se, por cada uma, de forma pratiamente ritualizada, aos seus motivos obsessivos. Como o ‘refrão infantil’ que dá título ao romance: "que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Ele assombra o discurso de Beatriz, a infeliz nos casamentos, a da incerteza e do pânico. Francisco, o filho rabugento, atormentado pela frustração e pelo ressentimento. Amaldiçoou o pai por desperdiçar a fortuna da família no casino. 17, número fetiche desse pai obcecado. Ana, a mais feia, vagueia pelos baldios em busca de sua dose de pó. João é consumido pela doença do amor por jovens rapazes. Finalmente, pouco a pouco, é revelado o segredo de Mercilia. Fruto do abuso sofrido pela sua mãe com o bisavô Marques. Tratada como criada, é ela quem conhece a intimidade das pessoas e dos lugares. Arrasta-se pela casa como uma sombra incómoda e indesejável. As narrativas sucedem-se dentro de um mesmo capítulo. Cada um dá livre curso ao seu delírio interior, aos meandros da sua memória. Como um marionetista, António Lobo Antunes agita os fios sob os olhos do leitor. Introduz-se no mesmo processo de escrita. Malicioso, conhece as personagens assim como estas o conhecem... Então deixo a Mercilia a palavra final desta história e deste artigo. Como um tributo ao seu criador ou provacação do autor para consigo mesmo: "o António Lobo Antunes esperando que as cheias do Tejo nos cobrissem a todos, sem ânimo de ler estas frases".


por Béatrice Putégnat
30.03.2014
Librairie Pages après Pages
Page
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

19 de maio de 2014

Sílvia Andrade: António Lobo Antunes e As Naus – Um olhar autocrítico para o redescobrimento de si mesmo

No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

António Lobo Antunes é um escritor lisbonense nascido no ano de 1942. Filho primogênito, advindo de uma família burguesa, foi criticado na juventude pelo pai ao manifestar sua vontade em se graduar em Letras. O pai pensava que a vida do filho seria difícil, pois provavelmente actuaria como mestre, sendo mal remunerado em algum liceu. Assim, Lobo Antunes resolve ingressar no curso de Medicina, especializando-se em psiquiatria.

Durante a Guerra Colonial (período de 1961 a 1974), António vai clinicar em Angola e lá se depara com imagens degradantes da guerra. O médico, então, começa a escrever; a literatura surge como um modo de o escritor se distanciar de uma possível depressão. Em 1979, publica dois livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Após esses lançamentos, o autor não parou de escrever, totalizando mais de 20 títulos publicados. António Lobo Antunes é vencedor de vários prêmios literários, entre eles estão: Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, Prêmio Camões entre outros. Os temas mais recorrentes de sua literatura são a solidão, a vida, a morte, a guerra, a crítica à sociedade e  a presença e a ausência do amor. Para muitos leitores, Lobo Antunes não é um autor palatável, pois sua escrita é, muitas vezes, labiríntica, hermética e densa.

Em 1988, António Antunes publica um livro de teor crítico e labiríntico: As Naus. A história é uma narrativa de regresso à pátria, no caso, Portugal. Nesse texto, há inúmeras observações e constatações sobre o passado “vitorioso” do país. No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

Sobre esse prisma, a narrativa vai tecendo-se através de um narrador que não é fixo, às vezes está em primeira pessoa e, em outras, em terceira pessoa. O tempo narrativo é uma combinação entre passado e presente; ao passo que há ilustrações pretéritas, há, como contraponto, imagens actuais.

De forma bastante original, o escritor utiliza como personagens “celebridades” históricas de Portugal: Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, D. Sebastião entre outros. Dessa maneira,  Antunes faz um resgate do passado dito glorioso e o compara ao resultado actual: uma pátria que vive de histórias idas e que está estagnada. Isso se atribui ao que o escritor José Mattoso escreve em A Identidade Nacional:
 “A transposição da História para a epopeia deu-lhe, porém, a força do mito, não só para a gente pouco instruída, mas também para muitos dos autores mais cultos do século XIX, que continuaram a imaginar a gesta dos Descobrimentos a partir de “Os Lusíadas”. A sobreposição da História e do mito agravou o sentimento da decadência nacional”. (página 283)
A população portuguesa, vivendo desse passado mítico, é chamada à realidade em As Naus. O processo de decadência nacional é representado através da parodização. Lobo Antunes sugere a queda dos mitos, tornando-os seres sem nenhum vestígio de glória. Sobre a função da parodização, Affonso Romano de Sant’Anna escreve:
 “A paródia é um efeito de deslocamento. Há uma deformação. É de caráter contestador. A paródia foge ao jogo de espelhos denunciando o próprio jogo e colocando as coisas fora de seu lugar ‘certo’.” (página 28)
O autor faz esse jogo como forma de reinterpretar o passado, criticar tantas “vitórias” e chegar ao resultado de tudo isso: um novo meio de conscientização nacional. A colonização portuguesa na África, pois, é condição crucial em As Naus. O livro é  narrativa de retorno, retorno de portugueses que vivem no continente africano e regressam à pátria mãe. Lobo Antunes inicia seu relato nos prelúdios da história lusa e chega até a pós-Revolução dos Cravos, período no qual se inicia o processo de descolonização do continente Africano. A pátria mantinha, nessa época, a política colonialista representada por Salazar, última resistência aos movimentos liberais africanos. Muitos portugueses, que discordavam da ditadura, foram exilados na África e lá viveram muitos anos. De certa forma, As Naus é um relato pessoal, pois o próprio autor Lobo Antunes viveu tal experiência.

Todo esse processo histórico custou um preço alto. Muitos negros foram mortos e explorados. Os rendimentos dos países africanos eram destinados aos cofres portugueses, assim como, em suas terras, começaram a imigrar vários europeus estimulando a segregação racial. Em A Descolonização Tardia, de Maria Yedda Linhares, lemos:
 “Um certo boom econômico, estimulado pela conjuntura internacional, favoreceu a imigração branca e a urbanização onde se acentuava a demarcação pela cor, entre os habitantes da cidade e os da periferia, entre europeus e africanos. As cidades cresciam e eram embelezadas. Portugal se orgulhava do dinamismo de suas províncias ultramarinas.” (página 101)
A descolonização, obviamente, gera ao povo, até então colonizado, uma satisfação inigualável de independência, mas, ao povo colonizador, obriga-o a rever seu significado de nação.

Questionamentos importantes como: quem fomos?, quem somos?, quem seremos? são abordados nas entrelinhas de As Naus: essa necessidade de um olhar autocrítico para um redescobrimento de si mesmo.


por Sílvia Andrade
17.05.2014

18 de maio de 2014

Pedro Fernandes: opinião sobre Fado Alexandrino

Uma coisa é certa: essas notas aqui dispostas sobre este romance de António Lobo Antunes são falhas. Elas não conseguirão dizer, no total, o que é este livro; elas não conseguirão fazer entendê-lo. A razão disso é simples, há que lê-lo para ter essa totalidade; há que relê-lo para se fazer entender. E as notas são recolhas para uma primeira impressão sobre o romance.

1. Este é na linha horizontal da obra do escritor português o seu quinto romance; vem depois da trilogia Memória de elefante, Os cusde Judas e Conhecimento do infernoe de A explicação dos pássaros. Se sobre o último romance arrisquei-me dizer que estava diante de novo lugar temático na literatura de Lobo Antunes, reafirmo esta visão, agora ainda mais acesa, diante do quinto romance. Estamos aqui situados no tempo imperfeito – não no sentido do modo verbal e sim na já característica superposição dos tempos que nos romances antunianos compõe uma amálgama de acontecimentos reinventando um estágio temporal outro, alheio ao tempo comum e muito próximo do movimento de rememoração. Sabe-se apenas que estamos numa situação: um grupo de amigos retornados há pouco mais de dez anos da África sentam-se num jantar e vão, cada um à sua maneira, segurado pelo braço da memória dá contas de como foi esse retorno e o que se sucedeu a eles no correr da última década. Fora o retorno do continente africano outro fato histórico que tem servido de lugar comum à literatura portuguesa de depois da década de 1970, a Revolução dos Cravos, ponto culminante da derrocada do Estado Novo.

2. As cinco personagens são representativas dos dois principais momentos da história portuguesa – são todas militares: um tentente-coronel, um alferes, um comandante, um soldado e um tenente, este que pouco aparece na narrativa e está mais como um sujeito ouvinte.  Todas as personagens estão em declínio, não apenas porque o tempo do militarismo está em falta, mas porque o destino pelo qual lutaram parece não tê-los convencidos tampouco lhes dado razões para o triunfalismo prometido. É, pois, um encontro de desilusões, de reflexões sobre um fim e uma glória perdida num lugar empoeirado qualquer da memória.

3. Dividido em três partes – “Antes da Revolução”, “A Revolução” e “Depois da Revolução” – o livro é uma multiperspectiva sobre os mesmos acontecimentos. Muito embora seja esta uma leitura do próprio Lobo Antunes, o leitor, alheio a esta informação só tomará consciência exata desse movimento da narrativa na segunda parte, na qual os acontecimentos são descritos em sua grande parte na terceira pessoa e com poucos desvios da linearidade. Na primeira parte o leitor é confrontado com um intercâmbio de fatos e uma oscilação entre a primeira e a terceira pessoa que dá uma confusão mental custosa de resolução: até mesmo para encontrar o lugar das vozes das personagens é coisa que só conseguirá, parcialmente, já na segunda parte do romance. Num primeiro momento todos relembram o retorno de África, no segundo o que foi/como foi a Revolução dos Cravos e no terceiro momento, todos estarão confrontados com um acontecimento que mudará os seus futuros, no fim do jantar, entre prostitutas, ocorre um assassinato.

4. Aclamado como um dos mais brilhantes livros do escritor, Fado alexandrino merece, sim, o epíteto: não apenas porque os modos de experimentação do autor são aí utilizados em sua plenitude, como não deixa de existir o rumorejar reinventivo em torno da linguagem do romance como vimos notando nos quatro primeiros romances. Tenho comigo que uma das perguntas mais irresponsáveis a se fazer a um escritor é “qual o seu processo de criação”, mas como incipiente nos jogos de narrar desenhados por Lobo Antunes, se me fosse dada a oportunidade, não hesitaria em fazê-la. Sim, porque é um projeto de engenharia muito bem desenhado: e surpresa maior é que, do caos narrativo, todos não saem ilesos, mas conseguem no fim, ter um suspiro sobre os acontecimentos. Digo isto porque mesmo em Proust, em Virginia Woolf, em Joyce, escritores que são utilizados para aproximar como ilustradores do arquitetado por Lobo Antunes, apenas se assemelham, pelas breves leituras que já fiz desses escritores. No fim, o escritor português é qualquer coisa de novo pela capacidade reinventiva da própria forma narrativa.

5. Fado alexandrinoé o romance de um tempo parado. Todo volteio dado em torno do mesmo ponto, e sempre pela matéria do caótico – até o desfecho, com o crime e seu ocultamento – dão notas de que o tempo de fezes (para reproduzir uma expressão do poema de Carlos Drummond de Andrade) não está no passado, mas prolonga-se num presente que não consegue se desvencilhar do peso desse tempo nele incrustado. Está implícita aí uma ausência de alegria, porque toda vez que colocado diante da reflexão acerca de si e do que está a sua volta as personagens dão sempre com uma paralisia que as sufoca, corrói-lhes as perspectivas e no fim de tudo não há outro sentimento sobre o mundo do que a mágoa, o ponto de uma revolta.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
28.12.2012

9 de maio de 2014

PRÉ-PUBLICAÇÃO: CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


O novo livro de António Lobo Antunes, Caminho Como Uma Casa Em Chamas, será publicado em Outubro deste ano pela Dom Quixote, duas semanas após a sua «estreia mundial», com a publicação pela editora holandesa AMBOS ANTHOS (com tradução de Harrie Lemmens). O livro, segundo havia adiantado o DN em 28.10.2013 (pela altura do dia do escritor no Centro Cultural de Belém - ler artigo), «passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos».

O livro, o 25.º romance do autor, tem como fio condutor um prédio algures em Lisboa e as vidas das pessoas que nele vivem, mas este é apenas um pretexto para António Lobo Antunes nos maravilhar com a sua escrita única e a sua descida cada vez mais fundo ao que de mais íntimo há em cada um de nós.

Por sugestão e cortesia de António Lobo Antunes e da sua editora Maria da Piedade Ferreira (LeYa), foi-nos cedido o texto que abaixo citamos, como pré-publicação das primeiras páginas do primeiro capítulo deste novo título, o 30ª na bibliografia oficial.

* * * * * * * * * * * * 
ANTÓNIO LOBO ANTUNES | CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


Segundo Direito

     Não gosto do apartamento porque não me encontro, pequeno,a brincar na marquise, alugámo-lo ao casar e o resultado estes filhos, a tua asma, sobretudo eu tão desajeitado, tão fraco, em solteiro a minha mãe protegia-me não do meu pai que nem me via, das minhas irmãs e do meu irmão, gabava-me às visitas
     – Tira os óculos para a dona Adelaide reparar nesses olhos azuis
     o mundo uma névoa difusa, a dona Adelaide surpreendida
     – Quem havia de dizer que são lindos?
     e logo a seguir com dó
     – Que pena tantas dioptrias
     não gosto do apartamento nem dos móveis, a água da jarra mais murcha que as flores, gritos de obrancelhas rápidas na janela a que chamam andorinhas, a minha mãe de súbito nova
     – Primavera miúdo
     como se a primavera se visse, talvez um tinir de faiança nas folhas ou mais raparigas lá fora e eu inexistente para elas, as sobrancelhas do professor subiam do caderno até à minha cara sumindo-se a desprezarem-me nos telhados
     – Em cada frase três asneiras
     não gosto do quarto de que não tirei a poltrona na qual te sentavam com a máscara de oxigénio, um chinelo num pé, o segundo perdido, eram as tuas pálpebras que respiravam sobre a máscara, não os pulmões, as tuas pálpebras dois sapos com barrigas de pregas zangados comigo
     – Nunca valeste nada
     sob o cabelo também mais murcho que as flores, uns caulezitos cinzentos, umas pétalas húmidas, o pé do chinelo teu, o pé sem chinelo de uma estranha, durante meses a fio devolveste-me as cartas onde em cada frase três asneiras
     – Que teimosia escrever-me
     o pé sem chinelo desconhecido, vermelho, inchando e desinchando igualmente ao ritmo das pálpebras, o que não inchava e desinchava aqui, as paredes, a cama, os trinta anos que passámos juntos, escrevo-lhe porque aprecio a menina e não fui capaz de melhor que esta prosa idiota, não desejava ofendê-la, não gosto do quarto consoante não gosto do quarto dos meus filhos, foram-se embora e o contorno dos armários permanece no reboco, sinto-lhes e não lhes sinto a falta, não lhes sinto a falta, a janela deles para as traseiras, outrora um descampado com cordeiros a mastigarem o som dos badalos e agora um largo, a farmácia, Farmácia Salutar que nome, uma agência de viagens, o teu ombro num sorriso de troça
     – Se lhe apetece continuar a escrever é consigo
     de óculos como eu, nem sequer bonita, nem sequer simpática, o que achei em ti, não gosto do cão de loiça comprado num armazém de velharias no meio de estribos, lanternas, aparadores, foste direitinha ao animal
     – Que giro
     e embora não fosse giro calei-me, calei-me sempre, a cabeça do bicho a acenar
     – Palerma
     desde o primeiro dia até hoje
     – Palerma
     um buldogue com as bochechas pendentes da dona Adelaide, no caso de lhe perguntar
     – Disseste o quê?
     uma pausa perplexa, o queixo que hesita, reflecte, se decide por fim
     – Palerma
     sacudia-se a barriga oca e um parafuso a tilintar enquanto a água da jarra murchava, animava-se com o sol e tornava a murchar, não gosto do apartamento à noite porque tenho a certeza de ir morrer sozinho, o meu filho mais velho exige dinheiro que não há, a impressão que a minha mãe a chamar-me num agosto de outrora, no norte
     – Joaquim
     os meus cunhados na varanda, depois da varanda a vinha a descer, troçavam-me
     – Tótó
     e o meu pai não os desmentia, nos bolsos dele dúzias de palitos, a minha mãe indignada
     – Qualquer dia não te sobra um dente na boca
     e não me recordo de lhe assistir a um sorriso, lia o jornal o tempo inteiro ou seja na minha opinião não lia nada, não conversávamos ele e eu, a vinha e sem neblina os candeeiros de Manteigas ao longe, conversar de quê, tão parecidos, desajeitados, fracos, o que fez você de útil pai, o que se aproveita, o que fiz eu de útil pai, o que se aproveita, fitamo-nos e vazio, se ao menos a gente, para quê dizer, não interessa, moro neste segundo direito desde que casámos, a minha mulher sem óculos a descer as escadas da igreja agarrada ao meu braço
     – Há mais algum degrau?
     na sala o tapete que vai perdendo a cor, o sofá que me crava molas nas costas e a bandeja de cobre para o correio na arca da entrada, a lua de mel numa hospedaria em Sintra com estrangeiros para cá e para lá no corredor, a vergonha dos meus ossos saídos
     – Não repares em mim
     Sintra à noite, Manteigas à noite, o meu cunhado arquitecto
     – Não é Manteigas é Seia
     a minha mulher admirada
     – Afinal é só isto?
     apanhando os óculos da mesinha de cabeceira
     – Só isto?
     a camisa de dormir com laçarotes e rendas que a tua mãe te obrigou a dobrar na bagagem
     – Os homens pescam-se com truques assim
     e pescar-me-ias se eu um homem a sério, pernas em excesso que me embaraçavam, um botão solto
     – Só isto?
     pronto a esconder-se numa frincha e uma lasca de madeira a enterrar-se-me na palma, tiraste-a com a pinça dos pêlos
     – Não sejas maricas não dói
     de mistura com o
     – Não sejas maricas
     os estrangeiros sem descanso no corredor, Seia ou Gouveia, o meu cunhado médico
     – Pelos meus cálculos Gouveia
     e tu
     – Não pode ser só isto
     a cuba puxada do poço junto à cozinha, o bule de prata com pega de mogno e três malmequeres em relevo por cima, a minha mãe de mão na pega e o indicador da outra mão na tampa
     – Mais chá senhor Fonseca?
     chá para eles, leite para mim, o pires de biscoitos
     – Não te sirvas antes dos crescidos
     a minha palma
     – Uma lasca que mal se nota não sejas maricas
     a retirar-se amuada, quando segredos com as amigas e eu entrava a minha mulher
     – Vamos mudar de conversa
     e soslaios de escárnio
     – Não é homem não é homem
     a água, então viva na jarra, a espreitar-me como elas, ao despedirem-se gargalhadinhas no patamar, suspiros da minha mulher antes de mais gargalhadinhas
     – Tomara eu
     a minha mãe pronta a pegar-me ao colo salvando-me
     – Joaquim
     dizer
     – Mãe
     e continuar a dizer
     – Mãe
     até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que faltava uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo, o meu cunhado médico para o meu cunhado arquitecto
     – É capaz de ser Seia
     candeeiros não fixos, indo e vindo, como o norte respira, uma via láctea de grilos campos fora cada qual com uma lanterna invisível de som, Gouveia ou Seia, grilos ou ralos, os sons alcançam distâncias infinitas nas trevas, olha a Beira Alta inteira a cantar, olha o cajado do louco de capote a quem os cães ladravam mais escanzelados que eu, comem galinhas, coelhos, Salazar não foi um ditador, foi, no vestíbulo um par de apliques de velas tortas, endireitava-as e inclinavam-se de novo, foi um patriota que pôs este país na ordem, em Portugal precisamos de um governo firme, não se tratava de eu haver perdido o emprego, com os funcionários do ministério a insultarem‑me
     – Fascista fascista
     tratava-se do abandono de África entregue de mão beijada aos comunistas, o teu pé sem chinelo de outra pessoa, a ausência de patriotismo, o desrespeito, a anarquia, por sorte os meus pais não assistiram
     – Porque teima em escrever-me?
     quando em cada frase três asneiras, aquilo em que esta terra se tornou, a tua família mais modesta que a minha, um dos meus avôs general, os teus não me contaste, a tua mãe a que a minha chamava senhoreca, mínimos em argola encaracolando-lhe os gestos, instalava‑se na borda das cadeiras cerimoniosa, lenta, a escolher palavras difíceis, os meus cunhados em coro Susana se sair saia só sim? Sou só seu Serafim Sá Sousa e eu envergonhadíssimo, a dona Susana numa amabilidade furibunda
     – Que divertido
     enquanto pelo ângulo da boca
     – Parvalhões
     idêntica ao meu filho mais velho se não lhe dou dinheiro
     – Parvalhão
     de modo que eu não em Lisboa com vocês, na varanda do norte agarrado ao leão, o marido da dona Susana de chapéu com peninha, palavra de honra, a partir de certa altura as árvores não verdes, azuis e após a linha do comboio, no início da encosta, quase negras, o café num cruzamento, a merceariazita, a estação e de repente surgiu-me
     na cabeça o setembro das gralhas, não supunha que os eucaliptos, a minha mãe para a tua, não uma senhora, uma senhoreca e a filha daqui a vinte anos a mãe chapadinha
     – Os meus genros adoram brincar conhece algum homem que tenha crescido não ligue
     não supunha que os eucaliptos, o avô general de condecorações na moldura, importantíssimo
     – Uma senhoreca sem cura e a tua noiva uma senhoreca também
     aguentassem dúzias de gralhas, centenas, milhares que não imitam só os outros pássaros, nos imitam a nós, no setembro das gralhas eu ainda mais desajeitado e elas a macaquearem-me
     – Mamã
     não
     – Mãe
     como as minhas irmãs e o meu irmão
     – Mamã
     um senhoreco perfeito, de quem foste herdar isso, moro num segundo andar pretensioso, sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados não sei de que sítio de um lado e um bêbedo com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa, de que lugar vieram as gralhas expliquem-me, um prédio sem
     elevador nem garagem e a minha mãe obrigada a subir aquilo aos setenta e seis anos no seu luto de viúva
     – Dão-me setenta e seis anos vocês?
     implorando que lhe adiássemos a morte
     – Não aguento a ideia do fim
     o lábio a tremer, as pupilas misturadas, a mão das alianças corrigindo as feições conforme corrigia os retratos dos netos na camilha, Irina Jorge Sebastião e o abajur de pergaminho contra a parede de modo a que se notasse menos o buraco do cigarro
     – Dão-me setenta e seis anos a sério?
     que preferíamos nem sonhar quem o fez, não gosto do apartamento, gralhas a espiarem os sermões do senhor vigário e o chiar das carroças a espiarem a minha mãe
     – Dão-me setenta e seis anos?
     na hospedaria em Sintra a semana inteira o mesmo arroz de pato e o mesmo pudim servidos pela mesma empregada de alpercatas estalando contra os calcanhares, as almofadas húmidas, um cinzento constante, no caso de avançar a perna o teu tornozelo inerte nos lençóis fingindo que dormia e eu a sabê-lo desperto, se me aproximava um protesto na fronha
     – Queres que eu caia no chão?
     e o vento mudando o sentido da chuva, uma tarde uma gaivota num feto, a gerente com uma mancha vermelha na bochecha
     – Tiveram azar com o tempo
     
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* * * * * * * * * * * *

4 de maio de 2014

Jorge Adelar Finatto: As breves eternidades do senhor Lobo Antunes

«Não sou especialmente simpático também, falo pouco, custa-me exprimir o amor que sinto, envergonho-me de, em certas alturas, me apetecer chorar. Claro que não choro: fico bravio, brusco, irónico, a liquefazer-me de afecto por dentro.»
António Lobo Antunes, O António a dar corda à esperança em Quarto Livro de Crónicas

Às três horas dessa madrugada ventou forte. Tremeram as folhas dos plátanos e pinheiros em volta da casa. Eu estava recostado na poltrona do escritório, naquele instante de neblina entre o sono e a vigília. 

Começaram uns trovões pros lados do Contraforte dos Capuchinhos. O som vinha de longe. Relâmpagos riscavam o ar sobre as montanhas. Agora chovia.

Na mesa estão os livros que leio nessas horas perdidas que me custam o peso de diamantes. As horas de lume intenso. As imperdíveis. Nos volumes está a vida inventada, concentrada, sem desperdícios, sem cinzas.

Entre o raio e o trovão, peguei o António Lobo Antunes pra ler. Nos últimos dias tenho lido crônicas, dando um tempo aos textos maçudos. Aproveitei a passagem por Lisboa, antes de voltar ao Brasil, em fevereiro, pra comprar livros de autores portugueses. Nessa leva vieram os volumes quatro e cinco das crônicas do romancista Lobo Antunes (escritor e psiquiatra, nascido em Lisboa em 1942), reconhecido em Portugal e no estrangeiro, lembrado para o Nobel.

Os textos curtos têm de ter a essência do relâmpago. Devem iluminar de súbito a escuridão, sem demora, afastando-se dos truques dos ilusionistas, porque o tempo urge, o do raro leitor em especial. 

(Não sou nem tenho pretensão a ser crítico literário, Deus me livre. Mas também não sou um leitor vadio. Arrisco uns bacorejos de vez em quando.)

Os pequenos textos precisam pegar o coração do leitor de forma ágil e inesperada, com simplicidade e energia.

O senhor António é um lobo solitário na sua arte. Não existem muitos de sua espécie na natureza.

Pelo jeito que escreve, é um sujeito recolhido, de pouca fala, algo nele permanece ausente de si e dos outros. Está sempre noutro lugar. A sua medida no mundo é a escrita, esta é sua aldeia, ali estão tudo e todos. 

O tempo do escritor se desdobra em muitos tempos, em vidas inumeráveis. 

O senhor Antunes tem urgência de escrever, aflige-se no intervalo entre um romance e outro. Tamanho desconforto semelha-se a uma combustão espiritual na ausência da palavra criadora. Talvez nesse interstício habite o cronista. 

O senhor Lobo é um animal ferido, sofrido, esquivo, como o são de resto os de sua estirpe, escritores que trabalham enfurnados no sofrimento feliz que é escrever, e daí afloram diamantes. Esses que, uma vez descobertos, não paramos mais de olhar. Não há embromações na sua prosa nem maneirismos de estilo. 

Diz direto e concreto, mas sem perder a poesia. Coisa difícil. As possíveis levezas estão envoltas na bruma da condição humana, na cerração da circunstância que recorta o indivíduo, todo indivíduo, no tecido da realidade.

Enquanto escreve, o senhor António vai matando a sua e a nossa morte, criando territórios de eternidade, efêmeros embora, para suportar o deserto, desde que fomos expulsos do Paraíso.

Falei aqui, mais de uma vez, da mala de livros que trouxe, do peso e da trabalheira de andar com ela em trens, táxis, hotéis e aeroportos. Mas eu afinal estava certo ao sofrer assim. No frio dos quartos de hotel, antecipava já a espécie particular de felicidade que é ler o Lobo.

António Lobo Antunes é dessa família de escritores que nos fazem varar madrugadas de chuva e relâmpago em busca de suas pegadas na areia da praia ventosa. Ele nos deixa a sensação de que podemos ser e sentir sempre mais. A seu lado, vivemos um tempo que não nos destrói.

A breve eternidade das palavras.


por Jorge Adelar Finatto
01.05.2014

Notícias ao Minuto: CCB Wagner e Lobo Antunes inspiram Côrte-Real para os Dias da Música

A Orquestra Sinfónica Portuguesa estreou ontem, sábado, dia 3 de Maio, nos Dias da Música no Centro Cultural de Belém (CCB), uma obra escrita pelo compositor Nuno Côrte-Real, inspirada nas obras do compositor alemão Wagner e do escritor António Lobo Antunes.

foto: Lusa
"Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?", o mesmo título de um romance de António Lobo Antunes, é a composição escrita por Nuno Côrte-Real que vai ser interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção artística de Rui Pinheiro.

Seguindo a tradição europeia do poema sinfónico, trata-se de um instrumental para orquestra, a maior de sempre para quem Côrte-Real diz ter escrito, com cerca de 90 elementos.

"É uma espécie de poema sinfónico para levar quem está a ouvir a pensar num acontecimento que é narrado. A música tem esse poder narrativo" adianta Nuno Côrte-Real, à agência Lusa, acrescentando que quis incutir na sua composição a emoção dos romances de António Lobo Antunes.

A obra foi encomendada pelo Centro Cultural de Belém para integrar o programa do bicentenário do nascimento de Wagner, em 2013, mas acabou por não ser estreada nessa altura.

"A ideia inicial foi pegar numa música original de Wagner e incorporar essa música dentro da minha própria música. O trecho escolhido foi a Cavalgada das Valquírias. Quando comecei a trabalhar a peça, uma das coisas que me veio imediatamente à cabeça foi a obra de Lobo Antunes Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?. É uma dupla homenagem", explica o compositor de Torres Vedras, que não esconde o gosto literário pelos romances de António Lobo Antunes.

O compositor refere que quis juntar as heroínas de Wagner, as valquírias que eram guerreiras armadas e montadas em cavalos, às de Lobo Antunes, mulheres do quotidiano. [...]


3 de maio de 2014

Três artigos de opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

A tradução em francês, por Dominique Nedellec, de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, foi publicada há pouco mais de um mês pela editora Christian Bourgois. Em Março, para assinalar a saída do novo livro naquela língua, António Lobo Antunes esteve em Paris onde falou sobre a sua escrita e pouco mais, uma vez que se recusa a falar dos livros que publica.Foi renitente em dar entrevistas, pelo menos uma entrevista no modo formal.

Sugeridos pela sua editora na Dom Quixote - LeYa, Maria da Piedade Ferreira, os três artigos que se seguem são desta ocasião e opinam sobre o mais recente livro do escritor em francês, Quels Sont Ces Chevaux Qui Jettent Leur Ombre Sur La Mer?. Os dois primeiros foram já aqui anteriormente publicados em posts separados, mas juntamos agora com o último, sendo essas anteriores publicações eliminadas.



1. Artigo publicado em Les Temps


Os gritos silenciosos das personagens de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes tem o génio dos títulos. O romance mais recente já escrito mas ainda não publicado, o qual ele declara ser o último, tem como título em português "Caminho como uma casa em chamas". O anterior, publicado em 2012, vem de um enigmático verso de René Char: "Não é meia noite quem quer." Em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? não é meia-noite, mas seis da tarde, a hora em que a mãe irá morrer. São também as três horas da tarde, essa terrível hora em que as casas são tristes. Estes dois momentos marcam como leitmotiv esse muito chuvoso domingo de Páscoa, 23 de Março, numa quinta do Alentejo. 

Era uma vez uma propriedade próspera nessa grande planície ao sul do Tejo: uma ganadaria com cavalos, gado, servos fiéis, um poder feudal seguro de si. Hoje, o filho mais velho tenta salvar a carne que resta dos ossos de uma fortuna arruinada. O pai desperdiçou tudo nos casinos da costa, a apostar teimosamente no número dezessete; agora ele está morto. Restam Francisco, cheio de rancor, "nascido sem alma", ansioso por saquear seus irmãos e irmãs e expulsá-los da propriedade em ruínas; Beatriz cujos maridos a abandonaram, sozinha com uma criança não muito talentosa; Ana vagabundeando como uma assombração por Lisboa em busca de drogas que a matam; João, o consolo de sua mãe, implorando por um pouco de amor dos rapazes no Parque Eduardo VII, onde contacta com "a doença" ("Quanto levas menino?" ). E era uma vez Rita, a quem um cancro levou ainda muito jovem. Finalmente, aqui está a mãe, cuja morte é esperada. E Mercília, a criada sem idade, fruto de amores auxiliares e ancestrais, que Francisco se prepara para enxotar colocando-a num autocarro rumo a um lugar qualquer a partir das seis da tarde. Bem como a um bastardo que surge mais tarde neste concerto de vozes.

Essas vozes que são, talvez, uma única, pois, como em todos os romances de Lobo Antunes, elas aparecem como variações de um mesmo canto que se vão cruzando, respondendo, contradizendo e, às vezes, emaranhando-se , e que se rebelam contra "aquele que faz o livro" quem as obriga a agir, falar e sentir contra a sua vontade: "[...] serei uma criatura a sério ou uma invenção de quem escreve, uma marioneta, se calhar pensou 
– Preciso de uma mulher aqui 
e construi-me capítulo a capítulo aborrecendo-se comigo, talvez esperasse outra pessoa, palavras que o contentassem mais [... ]".

Se o autor "construiu" as suas criaturas por sua vontade, também edificou a estrutura de acordo com as regras da tourada, em cinco partes – “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena” e “A Sorte Suprema” – emolduradas pela voz de Beatriz, “Antes da corrida" e "Depois da corrida”. Quatro vozes compartilham cada uma dessas partes, e outras se vão misturando, num queixume desafinado, o canto eterno do desamor e da solidão. 

Crianças perdidas
Lobo Antunes foi médico psiquiatra e conhece o ponto em que os homens são todos iguais, filhos perdidos no medo. Faz a interpretação dessa experiência num pico estreito entre o sublime e o cliché. No auge da sua obra abole a fronteira entre as coisas, os animais, as plantas e as pessoas, tudo se afogando na mesma angústia, soltando "gritos silenciosos" antes de desaparecer. Os corpos desfazem-se, as mãos já não agarram coisa alguma, perdem os dedos, aparecidos sob o olhar entediado de um "Deus mesquinho".

Os cavalos misteriosos do título provêem de um antigo cantar alentejano. É a sua sombra que Beatriz vê sobre o mar enquanto é deflorada sem ternura num carro à beira-mar. Este refrão magnífico, selvagem, de galope sobre os juncos, ritma a melopeia de que os leitores de Lobo Antunes reconhecem a cadência (actualmente muito bem traduzida por Dominique Nedellec): frases quebradas por linhas curtas, sem verbos, deslizando de uma voz a outra, perguntas sem resposta, regressos posteriores, recorrência a palavras padrão. É necessário deixar-se ir nesse enrolar das ondas sem o qual a exasperação espia diante tanto da tristeza acumulada, tanto das febres, das fotos dos antepassados, da água e das lágrimas (“e eu ao ponto de chover igualmente”). Mas se experimentada, ela traga-nos até ao mais profundo.

por Isabelle Rüf
em Les Temps

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2. Artigo publicado em Le Figaro

As sombras furtivas de António Lobo Antunes

Romance polifónico hipnotizante sobre a morte de uma mãe em Lisboa no dia de Páscoa.

Como há três anos, quando do nosso último encontro, tomou lugar no mesmo sofá verde do hotel na rua Vaneau, onde já é habitual e onde os seus livros entronizam uma vitrina no salão. Aos 71 anos de idade, António Lobo Antunes continua a não querer entrar nas regras de uma entrevista normal. "Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi. "

António Lobo Antunes: «Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi» - foto de François Bouchon / Le Figaro
Durante a conversa informal entre um cigarro na calçada e a chegada de um velho amigo que veio para almoçar com ele, deixa aqui e ali um pouco de si. Sobre este romance com um título tão antuniano, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, afirma: “Certo dia assisti a uma tourada em Barcelona, tinha eu sete anos. Fiquei com uma impressão ... vomitei, e uma marca foi permanecendo em mim”. Mais de seis décadas se passaram, mas para falar de quatro irmãos que prestam contas perante a morte da mãe, num Domingo de Páscoa em Lisboa, foi na dramaturgia tauromáquica que se baseou. Sete partes principais de quatro capítulos, em que os principais actores tomam a palavra, compõem este romance. E dentro deste quadro se desenrola a magia de um estilo como nenhum outro.

Após uma dezena de títulos, Lobo Antunes utiliza a forma de um puzzle feito de vozes que entre si se alternam, gritam, perdendo-se no limbo das memórias e que se apegam a motivos recorrentes. Francisco, João, Ana, Beatriz, quatro filhos, cada um vivendo à sua maneira a agonia da mãe. Até à sua morte (estocada final), cada um deixa falar as suas emoções, confessando a sua dor e gritando a sua raiva. Ou balbuciam, incapazes de dizer as coisas. A família está em destroços, arruinada por causa do pai. A doença e as neuroses corroem-na. Chove sem cessar, mas o escritor, que se faz convidado dentro da história, demiurgo provocador, adverte: "Não é a chuva que cai (...) São pessoas, os seus episódios, memórias, o sótão empoeirado que representa uma existência ".

João, o filho favorito, o filho maldito, paga com a carne a procura de rapazes do parque. Ana, por sua vez, não deixou o terreno baldio onde a esperam os traficantes e a sua próxima dose. Francisco amaldiçoa todos, pais, irmãos, culpados segundo ele por ter sido lesado, menosprezado. E Beatriz, pobre Beatriz em pânico, ela que continua a ver a sombra que os cavalos fazem no mar.

Como ex-psiquiatra, Lobo Antunes conhece as neuroses, as cismas infinitas, a impossibilidade de dizer e fazer. Ele conhece "o que nos mói, sem ninguém saber, o que nos custa sem que ninguém perceba e não me refiro aos nossos segredos encobertos, nem à nossa miséria consciente, todas esses bonecos mortos, todos esses olhos que nos esmagam de censura."

Ler a prosa do maior escritor português - que é também um dos melhores escritores do seu tempo - trazida pela tradução magnífica de Dominique Nedellec, é uma rara experiência, perturbadora e fascinante ao mesmo tempo. Como um sonho revelador. Como entrar nas sombras de Faulkner ou Virginia Woolf.

por Bruno Corty
16.04.2014

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3. Artigo publicado em Télérama


Lisboa, num dia chuvoso. Uma família analisa o auge do seu esplendor passado, e se desmorona de neurose. Uma obra electrizante.


foto Télérama
Ler António Lobo Antunes é como fazer um desporto radical, uma experiência ao limite cada vez mais emocionante. Apegamos-nos a cada palavra, como às grades instáveis de uma ponte improvisada, esticada entre dois picos. Avançamos passo a passo, sobre o vazio, sem um arnês narrativo, sem personagens de segurança. Tudo o que temos é apenas um relógio para nos aguentarmos. Em breve serão seis horas da tarde, e essa perspectiva parece tranquilizar as personagens, se é que podemos chamá-las assim, porque são mortos-vivos, entre duas águas, entre duas memórias, entre dois medos, e a sua noção de tempo é divergente da nossa.

A hora das três da tarde, a pior das horas, insuportável de tão triste, desde sempre lida no ângulo recto dos ponteiros, eis que se deixa discorrer numa verticalidade do tempo, num domingo de Páscoa, pelas agulhas da chuva. "(Se fosse livre para escrever sobre a chuva, vocês entenderiam tudo)", solta o autor entre parênteses, dando assim uma pista para avançar no seu romance: é preciso ver todas as gotas para se passar entre elas, colher todas as palavras para reconstruir os discursos. António Lobo Antunes gosta de conjugar o verbo chover com vivas pessoas: os seres chovem em cada virar de página, chovem de suor, de febre, de lágrimas. Quem são os habitantes deste livro feito de teias? Membros de uma mesma família, em diferentes regiões de uma nodosa árvore genealógica, alguns sob a terra, comendo raízes, outros sobre ramos frágeis quase separados do tronco.

Não têm nomes, não conseguem impôr a sua identidade, esmagados sob o peso das neuroses familiares. Todos têm um pensamento fragmentado, sofrendo entre a renúncia e a súplica, balbuciando como recém-nascidos ou moribundos. Apegam-se a imagens obsessivas, um travessão de cabelo ornado de pequenas rosas, um carrinho de criança no lixo, uma fruteira cheia de maçãs, a asa quebrada de um pássaro, e essas ideias fixas são centelhas na escrita eléctrica de António Lobo Antunes, pontos de luz brilhante dentro de uma verborreia inquieta. Muitos se refugiam no silêncio, cismarentos, para se tornarem estranhos a si próprios, desligados dos seus corpos, ao ponto de darem a mão a si mesmos, e ver os seus próprios dedos em segredo: "Parecem os meus, mas são os meus ? Eu sou um, eu sou dois, encontro-me a mim mesmo por caridade ... " Alguns, por fim, resistem contra o seu destino, e apanham António Lobo Antunes ao virar das páginas. Uma praga contra esse escritor que "salta frases sem me deixar chegar à seguinte e afoga num tanque gatinhos que eu sei que é para se livrar de mim", e um outro alerta: "Isto é um livro ? Se for um livro, eu não falo. " Em cólera contra o demiurgo, que os empurra para fora de si mesmos, quando tanto querem se refugiar, ocultar, desaparecer para sempre. Com raiva a esse mistificador que lhes corta o pio quando querem gritar. Vá embora, volte. Ajude-me, deixe-me em paz ...

O autor baseia-se nas suas memórias de ex-psiquiatra para alimentar o seu trabalho centrado no socorro. Como proteger os outros? Como se proteger dos outros? Entre estas duas perguntas, ele dança, recolhe-se, eleva-se e faz cantar o silêncio, porque "quase tudo acontece em silêncio, na vida, até mesmo os gritos."

por Marine Landrot
12.04.2014
Télérama n° 3352

[os três artigos foram traduzidos do francês por Joana de Paulo Diniz]

19 de abril de 2014

José Alexandre Ramos sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer

Espectros

O título deste meu texto de opinião sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer de António Lobo Antunes, numa tão simples, comprimidida e (aparentemente?) muito redutora palavra, tanto podia servir para abrir como para fechar o resumo sobre o que nos diz este livro, o 28º título do escritor, publicado em Outubro de 2012. A razão para tal é simples: parcas ou muitas palavras podem ser, ao mesmo tempo, excessivas e demasiadas quando opinamos sobre um livro de António Lobo Antunes, pelo menos os que foram escritos, mais ou menos, desde O Arquipélago da Insónia. Até porque Não É Meia Noite Quem Quer reafirma a dificuldade de ler este autor, cujo discurso se vem tornando cada vez mais fragmentado, no intuito de ampliar os pensamentos ao nível da palavra escrita e lida. Fica ao critério do leitor – como o afirma António Lobo Antunes há muito tempo – cuidar de ter a chave correcta para o decifrar, chave essa que não existe em mais nenhum lugar senão dentro de nós. O certo é que é mesmo verdade o que o escritor tantas vezes alerta: temos que partir para a leitura despidos de (pre) conceitos, e de forma humilde. O livro acaba por ser o leitor que o constrói mas, para tal acontecer, é necessário que haja total empatia entre quem lê e o texto. Pode demorar até que essa simbiose surja, ou alías, até que fique perceptível para o leitor obstinado e curioso (não para aquele que desiste ao fim de 50 páginas), mas acaba por acontecer, no meio de muito esforço, esforço este que vale muito a pena. 

Se pudéssemos fazer um resumo, o livro é sobre uma mulher (o autor não lhe dá um nome), a narradora, se quisermos assim chamar, de cinquenta de dois anos, professora, separada, vítima de cancro da mama e consequente mastectomia, que vem num fim de semana despedir-se da casa em Peniche onde cresceu ela e seus irmãos, e decidir dar termo à sua vida. Assim que chega, o novelo das memórias que a casa obviamente suscita começa a desenrolar-se, nas primeiras impressões da infância de antes e depois do suicídio do seu irmão mais velho (ela é mais nova de quatro irmãos, e a única rapariga), memórias que se vão encadeando no discurso da narradora, sem haver qualquer evolução cronológica dos eventos, apresentando as outras personagens à medida que o pensamento as evoca. A mãe é uma das personagens mais presentes e que maior influência exerce sobre a narradora, uma mãe que se tornou amarga após (ou já o seria antes?) o suicídio do filho mais velho, resignada como o seu marido que se torna alcoólico pelas mesmas razões. Pelo meio, o segundo imão mais velho (designado como o irmão não-surdo) que vai para África combater e regressa tolhido do stress pós-traumático, e o outro, o irmão surdo, que conhecemos como uma pessoa rebelde por ser tomado como diferente, incompreendido, quase marginalizado. Surge ainda Tininha, que conhecemos como a vizinha com quem em miúda a narradora brincava, sendo depois a indiferente doutora Clementina, médica da narradora no curso da sua doença, mas sem dar importância à amizade da infância, tomando uma atitude distante. À medida que as recordações da infância se vão misturando com o passado mais recente, ficamos a saber do marido de quem acaba por se separar depois de ter abortado, da morte do pai após longos anos dependente da bebida, do envolvimento amoroso da narradora com uma colega mais velha, entre muitos outros factos.

São apenas apontamentos de personagens e do que, numa primeira mirada, elas representam para a mulher que as vai evocando ao longo do livro. Não são só estas, outras personagens vão surgindo que, apesar de não as considerar menos importantes (se o são apenas por que não tantas vezes evocadas), decidi não referir, assim como não importa referir aqui pormenores e episódios das vivências desta mulher, já que não é possível isolá-los do contexto em que são evocados. No fundo, não existe história (o que não é novidade para quem lê António Lobo Antunes), o que existe são pensamentos e sentimentos da vida de alguém que vão interpelando e se interligando com os sentimentos e pensamentos de outras pessoas. E como o pensamento não se estrutura num simples esquema, também não podemos resumir como numa sinopse o que nos transmite Não É Meia Noite Quem Quer.

No livro habita a personagem (deixamos de lado agora a designação – errada – de “narradora”) e os espectros da sua vida. Nada nos garante, enquanto lemos, que seja de facto uma mulher de meia idade que nos fala, se quisermos podemos pensar que o nosso diálogo com o livro é feito através de alguém senil e demente, ou de alguém que já morreu, ou de alguém que talvez estivesse a sonhar (ainda: do escritor que tenta projectar numa personagem e factos fictícios a sua própria experiència e a si mesmo? Porque terá dito António Lobo Antunes que este é o seu livro mais biográfico?). E por isso também não é garantido que os factos sejam os reais, isto é, os que a personagem efectivamente viveu, experimentou, conheceu. No fundo, são também os meus, os teus, os deles. Os nossos. Estes espectros fazem parte de nós, basta mudarmo-lhes os nomes, substituir as circunstâncias, alterar as afinidades... e somos nós dentro do livro. Da minha experiência pessoal, eu sonhei com o livro, ou melhor: sonhei com a personagem e suas angústias, mas o sonho era sobre eu próprio, sobre o que me angustia. Que outra prova podia haver para mim?

O que resulta de muito valioso é quando percebemos a forma como as palavras e as expressões estão tão bem colocadas como se conseguíssemos “ler” o pensamento da personagem (e por aí chegarmos ao ponto de termos a sensação de estarmos a “ouvir” o nosso próprio pensamento). É interessante constastar isto se entendermos como se estrutura, por exemplo, um trecho musical, como se ligam dois ou três acordes para se fazer uma melodia. E será isto, na minha opinião, que quer dizer António Lobo Antunes quando afirma “Ninguém escreve como eu, nem eu próprio”.

A terminar, como se um post scriptum: não se consegue opinar sobre um livro de António Lobo Antunes sem evocar outros da sua autoria, bem como referir a sua forma de escrever. Já que muitas vezes até parece que estamos a ler algo que não ficou escrito no(s) livro(s) anterior(es)...

José Alexandre Ramos
18.04.2014

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...