24 de maio de 2014

Béatrice Putégnat sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Leitura em apneia

Ao orquestrar o seu romance como uma tourada, António Lobo Antunes disseca o ritual da tradição portuguesa para contar a decadência e ruína de uma família de criadores de touros de lide. Os filhos aguardam a morte da mãe; vão abordando memórias. O desafio do presente? Saber do passado, talvez...

A princípio, abrir [este] romance de António Lobo Antunes é um pouco como mergulhar em apneia tendo como reserva de oxigénio apenas palavras, a escrita. Uma verdadeira experiência de leitura que nos leva ao profundo da mente humana, além da temporalidade, por lugares quase assombrados, povoados por objectos quotidianos aflorados como restos de vidas. Dito assim, o leitor suspirá dizendo para si mesmo: mais um romance ilegível ... Nada disso! A partir do momento em que mergulha de cabeça no livro, não mais o deixará. As vozes assombrosas das personagens levá-lo-ão por toda a parte. A construção é rigorosa. Assenta-se sobre a estrutura de uma tourada com sete capítulos: Antes da Corrida, Tércio de Capote, Tércio de Varas, Tércio de Bandarilhas, A Faena, A Sorte Suprema... Depois da Corrida. E, como nas touradas, tudo se resume a ferimentos, agonia e morte. Como a da mãe que se prevê na narrativa: num domingo de Páscoa, chuvoso, brevemente serão as seis horas, brevemente teremos a estocada final. Os seus filhos zelam, vigiam e dissecam interiormente os seus passados. As falhas, os segredos, vão sendo revelados manchando este fim da vida, o fim do reinado de uma família próspera feito por suas ganadarias. Até que tudo acaba e, em redundância, "como é triste esta casa às três horas da tarde". Ascensão e queda ... Por sua vez, durante cada fase da tourada, as personagens vão dedicando-se, por cada uma, de forma pratiamente ritualizada, aos seus motivos obsessivos. Como o ‘refrão infantil’ que dá título ao romance: "que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Ele assombra o discurso de Beatriz, a infeliz nos casamentos, a da incerteza e do pânico. Francisco, o filho rabugento, atormentado pela frustração e pelo ressentimento. Amaldiçoou o pai por desperdiçar a fortuna da família no casino. 17, número fetiche desse pai obcecado. Ana, a mais feia, vagueia pelos baldios em busca de sua dose de pó. João é consumido pela doença do amor por jovens rapazes. Finalmente, pouco a pouco, é revelado o segredo de Mercilia. Fruto do abuso sofrido pela sua mãe com o bisavô Marques. Tratada como criada, é ela quem conhece a intimidade das pessoas e dos lugares. Arrasta-se pela casa como uma sombra incómoda e indesejável. As narrativas sucedem-se dentro de um mesmo capítulo. Cada um dá livre curso ao seu delírio interior, aos meandros da sua memória. Como um marionetista, António Lobo Antunes agita os fios sob os olhos do leitor. Introduz-se no mesmo processo de escrita. Malicioso, conhece as personagens assim como estas o conhecem... Então deixo a Mercilia a palavra final desta história e deste artigo. Como um tributo ao seu criador ou provacação do autor para consigo mesmo: "o António Lobo Antunes esperando que as cheias do Tejo nos cobrissem a todos, sem ânimo de ler estas frases".


por Béatrice Putégnat
30.03.2014
Librairie Pages après Pages
Page
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

19 de maio de 2014

Sílvia Andrade: António Lobo Antunes e As Naus – Um olhar autocrítico para o redescobrimento de si mesmo

No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

António Lobo Antunes é um escritor lisbonense nascido no ano de 1942. Filho primogênito, advindo de uma família burguesa, foi criticado na juventude pelo pai ao manifestar sua vontade em se graduar em Letras. O pai pensava que a vida do filho seria difícil, pois provavelmente actuaria como mestre, sendo mal remunerado em algum liceu. Assim, Lobo Antunes resolve ingressar no curso de Medicina, especializando-se em psiquiatria.

Durante a Guerra Colonial (período de 1961 a 1974), António vai clinicar em Angola e lá se depara com imagens degradantes da guerra. O médico, então, começa a escrever; a literatura surge como um modo de o escritor se distanciar de uma possível depressão. Em 1979, publica dois livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Após esses lançamentos, o autor não parou de escrever, totalizando mais de 20 títulos publicados. António Lobo Antunes é vencedor de vários prêmios literários, entre eles estão: Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, Prêmio Camões entre outros. Os temas mais recorrentes de sua literatura são a solidão, a vida, a morte, a guerra, a crítica à sociedade e  a presença e a ausência do amor. Para muitos leitores, Lobo Antunes não é um autor palatável, pois sua escrita é, muitas vezes, labiríntica, hermética e densa.

Em 1988, António Antunes publica um livro de teor crítico e labiríntico: As Naus. A história é uma narrativa de regresso à pátria, no caso, Portugal. Nesse texto, há inúmeras observações e constatações sobre o passado “vitorioso” do país. No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

Sobre esse prisma, a narrativa vai tecendo-se através de um narrador que não é fixo, às vezes está em primeira pessoa e, em outras, em terceira pessoa. O tempo narrativo é uma combinação entre passado e presente; ao passo que há ilustrações pretéritas, há, como contraponto, imagens actuais.

De forma bastante original, o escritor utiliza como personagens “celebridades” históricas de Portugal: Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, D. Sebastião entre outros. Dessa maneira,  Antunes faz um resgate do passado dito glorioso e o compara ao resultado actual: uma pátria que vive de histórias idas e que está estagnada. Isso se atribui ao que o escritor José Mattoso escreve em A Identidade Nacional:
 “A transposição da História para a epopeia deu-lhe, porém, a força do mito, não só para a gente pouco instruída, mas também para muitos dos autores mais cultos do século XIX, que continuaram a imaginar a gesta dos Descobrimentos a partir de “Os Lusíadas”. A sobreposição da História e do mito agravou o sentimento da decadência nacional”. (página 283)
A população portuguesa, vivendo desse passado mítico, é chamada à realidade em As Naus. O processo de decadência nacional é representado através da parodização. Lobo Antunes sugere a queda dos mitos, tornando-os seres sem nenhum vestígio de glória. Sobre a função da parodização, Affonso Romano de Sant’Anna escreve:
 “A paródia é um efeito de deslocamento. Há uma deformação. É de caráter contestador. A paródia foge ao jogo de espelhos denunciando o próprio jogo e colocando as coisas fora de seu lugar ‘certo’.” (página 28)
O autor faz esse jogo como forma de reinterpretar o passado, criticar tantas “vitórias” e chegar ao resultado de tudo isso: um novo meio de conscientização nacional. A colonização portuguesa na África, pois, é condição crucial em As Naus. O livro é  narrativa de retorno, retorno de portugueses que vivem no continente africano e regressam à pátria mãe. Lobo Antunes inicia seu relato nos prelúdios da história lusa e chega até a pós-Revolução dos Cravos, período no qual se inicia o processo de descolonização do continente Africano. A pátria mantinha, nessa época, a política colonialista representada por Salazar, última resistência aos movimentos liberais africanos. Muitos portugueses, que discordavam da ditadura, foram exilados na África e lá viveram muitos anos. De certa forma, As Naus é um relato pessoal, pois o próprio autor Lobo Antunes viveu tal experiência.

Todo esse processo histórico custou um preço alto. Muitos negros foram mortos e explorados. Os rendimentos dos países africanos eram destinados aos cofres portugueses, assim como, em suas terras, começaram a imigrar vários europeus estimulando a segregação racial. Em A Descolonização Tardia, de Maria Yedda Linhares, lemos:
 “Um certo boom econômico, estimulado pela conjuntura internacional, favoreceu a imigração branca e a urbanização onde se acentuava a demarcação pela cor, entre os habitantes da cidade e os da periferia, entre europeus e africanos. As cidades cresciam e eram embelezadas. Portugal se orgulhava do dinamismo de suas províncias ultramarinas.” (página 101)
A descolonização, obviamente, gera ao povo, até então colonizado, uma satisfação inigualável de independência, mas, ao povo colonizador, obriga-o a rever seu significado de nação.

Questionamentos importantes como: quem fomos?, quem somos?, quem seremos? são abordados nas entrelinhas de As Naus: essa necessidade de um olhar autocrítico para um redescobrimento de si mesmo.


por Sílvia Andrade
17.05.2014

18 de maio de 2014

Pedro Fernandes: opinião sobre Fado Alexandrino

Uma coisa é certa: essas notas aqui dispostas sobre este romance de António Lobo Antunes são falhas. Elas não conseguirão dizer, no total, o que é este livro; elas não conseguirão fazer entendê-lo. A razão disso é simples, há que lê-lo para ter essa totalidade; há que relê-lo para se fazer entender. E as notas são recolhas para uma primeira impressão sobre o romance.

1. Este é na linha horizontal da obra do escritor português o seu quinto romance; vem depois da trilogia Memória de elefante, Os cusde Judas e Conhecimento do infernoe de A explicação dos pássaros. Se sobre o último romance arrisquei-me dizer que estava diante de novo lugar temático na literatura de Lobo Antunes, reafirmo esta visão, agora ainda mais acesa, diante do quinto romance. Estamos aqui situados no tempo imperfeito – não no sentido do modo verbal e sim na já característica superposição dos tempos que nos romances antunianos compõe uma amálgama de acontecimentos reinventando um estágio temporal outro, alheio ao tempo comum e muito próximo do movimento de rememoração. Sabe-se apenas que estamos numa situação: um grupo de amigos retornados há pouco mais de dez anos da África sentam-se num jantar e vão, cada um à sua maneira, segurado pelo braço da memória dá contas de como foi esse retorno e o que se sucedeu a eles no correr da última década. Fora o retorno do continente africano outro fato histórico que tem servido de lugar comum à literatura portuguesa de depois da década de 1970, a Revolução dos Cravos, ponto culminante da derrocada do Estado Novo.

2. As cinco personagens são representativas dos dois principais momentos da história portuguesa – são todas militares: um tentente-coronel, um alferes, um comandante, um soldado e um tenente, este que pouco aparece na narrativa e está mais como um sujeito ouvinte.  Todas as personagens estão em declínio, não apenas porque o tempo do militarismo está em falta, mas porque o destino pelo qual lutaram parece não tê-los convencidos tampouco lhes dado razões para o triunfalismo prometido. É, pois, um encontro de desilusões, de reflexões sobre um fim e uma glória perdida num lugar empoeirado qualquer da memória.

3. Dividido em três partes – “Antes da Revolução”, “A Revolução” e “Depois da Revolução” – o livro é uma multiperspectiva sobre os mesmos acontecimentos. Muito embora seja esta uma leitura do próprio Lobo Antunes, o leitor, alheio a esta informação só tomará consciência exata desse movimento da narrativa na segunda parte, na qual os acontecimentos são descritos em sua grande parte na terceira pessoa e com poucos desvios da linearidade. Na primeira parte o leitor é confrontado com um intercâmbio de fatos e uma oscilação entre a primeira e a terceira pessoa que dá uma confusão mental custosa de resolução: até mesmo para encontrar o lugar das vozes das personagens é coisa que só conseguirá, parcialmente, já na segunda parte do romance. Num primeiro momento todos relembram o retorno de África, no segundo o que foi/como foi a Revolução dos Cravos e no terceiro momento, todos estarão confrontados com um acontecimento que mudará os seus futuros, no fim do jantar, entre prostitutas, ocorre um assassinato.

4. Aclamado como um dos mais brilhantes livros do escritor, Fado alexandrino merece, sim, o epíteto: não apenas porque os modos de experimentação do autor são aí utilizados em sua plenitude, como não deixa de existir o rumorejar reinventivo em torno da linguagem do romance como vimos notando nos quatro primeiros romances. Tenho comigo que uma das perguntas mais irresponsáveis a se fazer a um escritor é “qual o seu processo de criação”, mas como incipiente nos jogos de narrar desenhados por Lobo Antunes, se me fosse dada a oportunidade, não hesitaria em fazê-la. Sim, porque é um projeto de engenharia muito bem desenhado: e surpresa maior é que, do caos narrativo, todos não saem ilesos, mas conseguem no fim, ter um suspiro sobre os acontecimentos. Digo isto porque mesmo em Proust, em Virginia Woolf, em Joyce, escritores que são utilizados para aproximar como ilustradores do arquitetado por Lobo Antunes, apenas se assemelham, pelas breves leituras que já fiz desses escritores. No fim, o escritor português é qualquer coisa de novo pela capacidade reinventiva da própria forma narrativa.

5. Fado alexandrinoé o romance de um tempo parado. Todo volteio dado em torno do mesmo ponto, e sempre pela matéria do caótico – até o desfecho, com o crime e seu ocultamento – dão notas de que o tempo de fezes (para reproduzir uma expressão do poema de Carlos Drummond de Andrade) não está no passado, mas prolonga-se num presente que não consegue se desvencilhar do peso desse tempo nele incrustado. Está implícita aí uma ausência de alegria, porque toda vez que colocado diante da reflexão acerca de si e do que está a sua volta as personagens dão sempre com uma paralisia que as sufoca, corrói-lhes as perspectivas e no fim de tudo não há outro sentimento sobre o mundo do que a mágoa, o ponto de uma revolta.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
28.12.2012

9 de maio de 2014

PRÉ-PUBLICAÇÃO: CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


O novo livro de António Lobo Antunes, Caminho Como Uma Casa Em Chamas, será publicado em Outubro deste ano pela Dom Quixote, duas semanas após a sua «estreia mundial», com a publicação pela editora holandesa AMBOS ANTHOS (com tradução de Harrie Lemmens). O livro, segundo havia adiantado o DN em 28.10.2013 (pela altura do dia do escritor no Centro Cultural de Belém - ler artigo), «passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos».

O livro, o 25.º romance do autor, tem como fio condutor um prédio algures em Lisboa e as vidas das pessoas que nele vivem, mas este é apenas um pretexto para António Lobo Antunes nos maravilhar com a sua escrita única e a sua descida cada vez mais fundo ao que de mais íntimo há em cada um de nós.

Por sugestão e cortesia de António Lobo Antunes e da sua editora Maria da Piedade Ferreira (LeYa), foi-nos cedido o texto que abaixo citamos, como pré-publicação das primeiras páginas do primeiro capítulo deste novo título, o 30ª na bibliografia oficial.

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ANTÓNIO LOBO ANTUNES | CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


Segundo Direito

     Não gosto do apartamento porque não me encontro, pequeno,a brincar na marquise, alugámo-lo ao casar e o resultado estes filhos, a tua asma, sobretudo eu tão desajeitado, tão fraco, em solteiro a minha mãe protegia-me não do meu pai que nem me via, das minhas irmãs e do meu irmão, gabava-me às visitas
     – Tira os óculos para a dona Adelaide reparar nesses olhos azuis
     o mundo uma névoa difusa, a dona Adelaide surpreendida
     – Quem havia de dizer que são lindos?
     e logo a seguir com dó
     – Que pena tantas dioptrias
     não gosto do apartamento nem dos móveis, a água da jarra mais murcha que as flores, gritos de obrancelhas rápidas na janela a que chamam andorinhas, a minha mãe de súbito nova
     – Primavera miúdo
     como se a primavera se visse, talvez um tinir de faiança nas folhas ou mais raparigas lá fora e eu inexistente para elas, as sobrancelhas do professor subiam do caderno até à minha cara sumindo-se a desprezarem-me nos telhados
     – Em cada frase três asneiras
     não gosto do quarto de que não tirei a poltrona na qual te sentavam com a máscara de oxigénio, um chinelo num pé, o segundo perdido, eram as tuas pálpebras que respiravam sobre a máscara, não os pulmões, as tuas pálpebras dois sapos com barrigas de pregas zangados comigo
     – Nunca valeste nada
     sob o cabelo também mais murcho que as flores, uns caulezitos cinzentos, umas pétalas húmidas, o pé do chinelo teu, o pé sem chinelo de uma estranha, durante meses a fio devolveste-me as cartas onde em cada frase três asneiras
     – Que teimosia escrever-me
     o pé sem chinelo desconhecido, vermelho, inchando e desinchando igualmente ao ritmo das pálpebras, o que não inchava e desinchava aqui, as paredes, a cama, os trinta anos que passámos juntos, escrevo-lhe porque aprecio a menina e não fui capaz de melhor que esta prosa idiota, não desejava ofendê-la, não gosto do quarto consoante não gosto do quarto dos meus filhos, foram-se embora e o contorno dos armários permanece no reboco, sinto-lhes e não lhes sinto a falta, não lhes sinto a falta, a janela deles para as traseiras, outrora um descampado com cordeiros a mastigarem o som dos badalos e agora um largo, a farmácia, Farmácia Salutar que nome, uma agência de viagens, o teu ombro num sorriso de troça
     – Se lhe apetece continuar a escrever é consigo
     de óculos como eu, nem sequer bonita, nem sequer simpática, o que achei em ti, não gosto do cão de loiça comprado num armazém de velharias no meio de estribos, lanternas, aparadores, foste direitinha ao animal
     – Que giro
     e embora não fosse giro calei-me, calei-me sempre, a cabeça do bicho a acenar
     – Palerma
     desde o primeiro dia até hoje
     – Palerma
     um buldogue com as bochechas pendentes da dona Adelaide, no caso de lhe perguntar
     – Disseste o quê?
     uma pausa perplexa, o queixo que hesita, reflecte, se decide por fim
     – Palerma
     sacudia-se a barriga oca e um parafuso a tilintar enquanto a água da jarra murchava, animava-se com o sol e tornava a murchar, não gosto do apartamento à noite porque tenho a certeza de ir morrer sozinho, o meu filho mais velho exige dinheiro que não há, a impressão que a minha mãe a chamar-me num agosto de outrora, no norte
     – Joaquim
     os meus cunhados na varanda, depois da varanda a vinha a descer, troçavam-me
     – Tótó
     e o meu pai não os desmentia, nos bolsos dele dúzias de palitos, a minha mãe indignada
     – Qualquer dia não te sobra um dente na boca
     e não me recordo de lhe assistir a um sorriso, lia o jornal o tempo inteiro ou seja na minha opinião não lia nada, não conversávamos ele e eu, a vinha e sem neblina os candeeiros de Manteigas ao longe, conversar de quê, tão parecidos, desajeitados, fracos, o que fez você de útil pai, o que se aproveita, o que fiz eu de útil pai, o que se aproveita, fitamo-nos e vazio, se ao menos a gente, para quê dizer, não interessa, moro neste segundo direito desde que casámos, a minha mulher sem óculos a descer as escadas da igreja agarrada ao meu braço
     – Há mais algum degrau?
     na sala o tapete que vai perdendo a cor, o sofá que me crava molas nas costas e a bandeja de cobre para o correio na arca da entrada, a lua de mel numa hospedaria em Sintra com estrangeiros para cá e para lá no corredor, a vergonha dos meus ossos saídos
     – Não repares em mim
     Sintra à noite, Manteigas à noite, o meu cunhado arquitecto
     – Não é Manteigas é Seia
     a minha mulher admirada
     – Afinal é só isto?
     apanhando os óculos da mesinha de cabeceira
     – Só isto?
     a camisa de dormir com laçarotes e rendas que a tua mãe te obrigou a dobrar na bagagem
     – Os homens pescam-se com truques assim
     e pescar-me-ias se eu um homem a sério, pernas em excesso que me embaraçavam, um botão solto
     – Só isto?
     pronto a esconder-se numa frincha e uma lasca de madeira a enterrar-se-me na palma, tiraste-a com a pinça dos pêlos
     – Não sejas maricas não dói
     de mistura com o
     – Não sejas maricas
     os estrangeiros sem descanso no corredor, Seia ou Gouveia, o meu cunhado médico
     – Pelos meus cálculos Gouveia
     e tu
     – Não pode ser só isto
     a cuba puxada do poço junto à cozinha, o bule de prata com pega de mogno e três malmequeres em relevo por cima, a minha mãe de mão na pega e o indicador da outra mão na tampa
     – Mais chá senhor Fonseca?
     chá para eles, leite para mim, o pires de biscoitos
     – Não te sirvas antes dos crescidos
     a minha palma
     – Uma lasca que mal se nota não sejas maricas
     a retirar-se amuada, quando segredos com as amigas e eu entrava a minha mulher
     – Vamos mudar de conversa
     e soslaios de escárnio
     – Não é homem não é homem
     a água, então viva na jarra, a espreitar-me como elas, ao despedirem-se gargalhadinhas no patamar, suspiros da minha mulher antes de mais gargalhadinhas
     – Tomara eu
     a minha mãe pronta a pegar-me ao colo salvando-me
     – Joaquim
     dizer
     – Mãe
     e continuar a dizer
     – Mãe
     até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que faltava uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo, o meu cunhado médico para o meu cunhado arquitecto
     – É capaz de ser Seia
     candeeiros não fixos, indo e vindo, como o norte respira, uma via láctea de grilos campos fora cada qual com uma lanterna invisível de som, Gouveia ou Seia, grilos ou ralos, os sons alcançam distâncias infinitas nas trevas, olha a Beira Alta inteira a cantar, olha o cajado do louco de capote a quem os cães ladravam mais escanzelados que eu, comem galinhas, coelhos, Salazar não foi um ditador, foi, no vestíbulo um par de apliques de velas tortas, endireitava-as e inclinavam-se de novo, foi um patriota que pôs este país na ordem, em Portugal precisamos de um governo firme, não se tratava de eu haver perdido o emprego, com os funcionários do ministério a insultarem‑me
     – Fascista fascista
     tratava-se do abandono de África entregue de mão beijada aos comunistas, o teu pé sem chinelo de outra pessoa, a ausência de patriotismo, o desrespeito, a anarquia, por sorte os meus pais não assistiram
     – Porque teima em escrever-me?
     quando em cada frase três asneiras, aquilo em que esta terra se tornou, a tua família mais modesta que a minha, um dos meus avôs general, os teus não me contaste, a tua mãe a que a minha chamava senhoreca, mínimos em argola encaracolando-lhe os gestos, instalava‑se na borda das cadeiras cerimoniosa, lenta, a escolher palavras difíceis, os meus cunhados em coro Susana se sair saia só sim? Sou só seu Serafim Sá Sousa e eu envergonhadíssimo, a dona Susana numa amabilidade furibunda
     – Que divertido
     enquanto pelo ângulo da boca
     – Parvalhões
     idêntica ao meu filho mais velho se não lhe dou dinheiro
     – Parvalhão
     de modo que eu não em Lisboa com vocês, na varanda do norte agarrado ao leão, o marido da dona Susana de chapéu com peninha, palavra de honra, a partir de certa altura as árvores não verdes, azuis e após a linha do comboio, no início da encosta, quase negras, o café num cruzamento, a merceariazita, a estação e de repente surgiu-me
     na cabeça o setembro das gralhas, não supunha que os eucaliptos, a minha mãe para a tua, não uma senhora, uma senhoreca e a filha daqui a vinte anos a mãe chapadinha
     – Os meus genros adoram brincar conhece algum homem que tenha crescido não ligue
     não supunha que os eucaliptos, o avô general de condecorações na moldura, importantíssimo
     – Uma senhoreca sem cura e a tua noiva uma senhoreca também
     aguentassem dúzias de gralhas, centenas, milhares que não imitam só os outros pássaros, nos imitam a nós, no setembro das gralhas eu ainda mais desajeitado e elas a macaquearem-me
     – Mamã
     não
     – Mãe
     como as minhas irmãs e o meu irmão
     – Mamã
     um senhoreco perfeito, de quem foste herdar isso, moro num segundo andar pretensioso, sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados não sei de que sítio de um lado e um bêbedo com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa, de que lugar vieram as gralhas expliquem-me, um prédio sem
     elevador nem garagem e a minha mãe obrigada a subir aquilo aos setenta e seis anos no seu luto de viúva
     – Dão-me setenta e seis anos vocês?
     implorando que lhe adiássemos a morte
     – Não aguento a ideia do fim
     o lábio a tremer, as pupilas misturadas, a mão das alianças corrigindo as feições conforme corrigia os retratos dos netos na camilha, Irina Jorge Sebastião e o abajur de pergaminho contra a parede de modo a que se notasse menos o buraco do cigarro
     – Dão-me setenta e seis anos a sério?
     que preferíamos nem sonhar quem o fez, não gosto do apartamento, gralhas a espiarem os sermões do senhor vigário e o chiar das carroças a espiarem a minha mãe
     – Dão-me setenta e seis anos?
     na hospedaria em Sintra a semana inteira o mesmo arroz de pato e o mesmo pudim servidos pela mesma empregada de alpercatas estalando contra os calcanhares, as almofadas húmidas, um cinzento constante, no caso de avançar a perna o teu tornozelo inerte nos lençóis fingindo que dormia e eu a sabê-lo desperto, se me aproximava um protesto na fronha
     – Queres que eu caia no chão?
     e o vento mudando o sentido da chuva, uma tarde uma gaivota num feto, a gerente com uma mancha vermelha na bochecha
     – Tiveram azar com o tempo
     
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4 de maio de 2014

Jorge Adelar Finatto: As breves eternidades do senhor Lobo Antunes

«Não sou especialmente simpático também, falo pouco, custa-me exprimir o amor que sinto, envergonho-me de, em certas alturas, me apetecer chorar. Claro que não choro: fico bravio, brusco, irónico, a liquefazer-me de afecto por dentro.»
António Lobo Antunes, O António a dar corda à esperança em Quarto Livro de Crónicas

Às três horas dessa madrugada ventou forte. Tremeram as folhas dos plátanos e pinheiros em volta da casa. Eu estava recostado na poltrona do escritório, naquele instante de neblina entre o sono e a vigília. 

Começaram uns trovões pros lados do Contraforte dos Capuchinhos. O som vinha de longe. Relâmpagos riscavam o ar sobre as montanhas. Agora chovia.

Na mesa estão os livros que leio nessas horas perdidas que me custam o peso de diamantes. As horas de lume intenso. As imperdíveis. Nos volumes está a vida inventada, concentrada, sem desperdícios, sem cinzas.

Entre o raio e o trovão, peguei o António Lobo Antunes pra ler. Nos últimos dias tenho lido crônicas, dando um tempo aos textos maçudos. Aproveitei a passagem por Lisboa, antes de voltar ao Brasil, em fevereiro, pra comprar livros de autores portugueses. Nessa leva vieram os volumes quatro e cinco das crônicas do romancista Lobo Antunes (escritor e psiquiatra, nascido em Lisboa em 1942), reconhecido em Portugal e no estrangeiro, lembrado para o Nobel.

Os textos curtos têm de ter a essência do relâmpago. Devem iluminar de súbito a escuridão, sem demora, afastando-se dos truques dos ilusionistas, porque o tempo urge, o do raro leitor em especial. 

(Não sou nem tenho pretensão a ser crítico literário, Deus me livre. Mas também não sou um leitor vadio. Arrisco uns bacorejos de vez em quando.)

Os pequenos textos precisam pegar o coração do leitor de forma ágil e inesperada, com simplicidade e energia.

O senhor António é um lobo solitário na sua arte. Não existem muitos de sua espécie na natureza.

Pelo jeito que escreve, é um sujeito recolhido, de pouca fala, algo nele permanece ausente de si e dos outros. Está sempre noutro lugar. A sua medida no mundo é a escrita, esta é sua aldeia, ali estão tudo e todos. 

O tempo do escritor se desdobra em muitos tempos, em vidas inumeráveis. 

O senhor Antunes tem urgência de escrever, aflige-se no intervalo entre um romance e outro. Tamanho desconforto semelha-se a uma combustão espiritual na ausência da palavra criadora. Talvez nesse interstício habite o cronista. 

O senhor Lobo é um animal ferido, sofrido, esquivo, como o são de resto os de sua estirpe, escritores que trabalham enfurnados no sofrimento feliz que é escrever, e daí afloram diamantes. Esses que, uma vez descobertos, não paramos mais de olhar. Não há embromações na sua prosa nem maneirismos de estilo. 

Diz direto e concreto, mas sem perder a poesia. Coisa difícil. As possíveis levezas estão envoltas na bruma da condição humana, na cerração da circunstância que recorta o indivíduo, todo indivíduo, no tecido da realidade.

Enquanto escreve, o senhor António vai matando a sua e a nossa morte, criando territórios de eternidade, efêmeros embora, para suportar o deserto, desde que fomos expulsos do Paraíso.

Falei aqui, mais de uma vez, da mala de livros que trouxe, do peso e da trabalheira de andar com ela em trens, táxis, hotéis e aeroportos. Mas eu afinal estava certo ao sofrer assim. No frio dos quartos de hotel, antecipava já a espécie particular de felicidade que é ler o Lobo.

António Lobo Antunes é dessa família de escritores que nos fazem varar madrugadas de chuva e relâmpago em busca de suas pegadas na areia da praia ventosa. Ele nos deixa a sensação de que podemos ser e sentir sempre mais. A seu lado, vivemos um tempo que não nos destrói.

A breve eternidade das palavras.


por Jorge Adelar Finatto
01.05.2014

Notícias ao Minuto: CCB Wagner e Lobo Antunes inspiram Côrte-Real para os Dias da Música

A Orquestra Sinfónica Portuguesa estreou ontem, sábado, dia 3 de Maio, nos Dias da Música no Centro Cultural de Belém (CCB), uma obra escrita pelo compositor Nuno Côrte-Real, inspirada nas obras do compositor alemão Wagner e do escritor António Lobo Antunes.

foto: Lusa
"Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?", o mesmo título de um romance de António Lobo Antunes, é a composição escrita por Nuno Côrte-Real que vai ser interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção artística de Rui Pinheiro.

Seguindo a tradição europeia do poema sinfónico, trata-se de um instrumental para orquestra, a maior de sempre para quem Côrte-Real diz ter escrito, com cerca de 90 elementos.

"É uma espécie de poema sinfónico para levar quem está a ouvir a pensar num acontecimento que é narrado. A música tem esse poder narrativo" adianta Nuno Côrte-Real, à agência Lusa, acrescentando que quis incutir na sua composição a emoção dos romances de António Lobo Antunes.

A obra foi encomendada pelo Centro Cultural de Belém para integrar o programa do bicentenário do nascimento de Wagner, em 2013, mas acabou por não ser estreada nessa altura.

"A ideia inicial foi pegar numa música original de Wagner e incorporar essa música dentro da minha própria música. O trecho escolhido foi a Cavalgada das Valquírias. Quando comecei a trabalhar a peça, uma das coisas que me veio imediatamente à cabeça foi a obra de Lobo Antunes Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?. É uma dupla homenagem", explica o compositor de Torres Vedras, que não esconde o gosto literário pelos romances de António Lobo Antunes.

O compositor refere que quis juntar as heroínas de Wagner, as valquírias que eram guerreiras armadas e montadas em cavalos, às de Lobo Antunes, mulheres do quotidiano. [...]


3 de maio de 2014

Três artigos de opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

A tradução em francês, por Dominique Nedellec, de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, foi publicada há pouco mais de um mês pela editora Christian Bourgois. Em Março, para assinalar a saída do novo livro naquela língua, António Lobo Antunes esteve em Paris onde falou sobre a sua escrita e pouco mais, uma vez que se recusa a falar dos livros que publica.Foi renitente em dar entrevistas, pelo menos uma entrevista no modo formal.

Sugeridos pela sua editora na Dom Quixote - LeYa, Maria da Piedade Ferreira, os três artigos que se seguem são desta ocasião e opinam sobre o mais recente livro do escritor em francês, Quels Sont Ces Chevaux Qui Jettent Leur Ombre Sur La Mer?. Os dois primeiros foram já aqui anteriormente publicados em posts separados, mas juntamos agora com o último, sendo essas anteriores publicações eliminadas.



1. Artigo publicado em Les Temps


Os gritos silenciosos das personagens de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes tem o génio dos títulos. O romance mais recente já escrito mas ainda não publicado, o qual ele declara ser o último, tem como título em português "Caminho como uma casa em chamas". O anterior, publicado em 2012, vem de um enigmático verso de René Char: "Não é meia noite quem quer." Em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? não é meia-noite, mas seis da tarde, a hora em que a mãe irá morrer. São também as três horas da tarde, essa terrível hora em que as casas são tristes. Estes dois momentos marcam como leitmotiv esse muito chuvoso domingo de Páscoa, 23 de Março, numa quinta do Alentejo. 

Era uma vez uma propriedade próspera nessa grande planície ao sul do Tejo: uma ganadaria com cavalos, gado, servos fiéis, um poder feudal seguro de si. Hoje, o filho mais velho tenta salvar a carne que resta dos ossos de uma fortuna arruinada. O pai desperdiçou tudo nos casinos da costa, a apostar teimosamente no número dezessete; agora ele está morto. Restam Francisco, cheio de rancor, "nascido sem alma", ansioso por saquear seus irmãos e irmãs e expulsá-los da propriedade em ruínas; Beatriz cujos maridos a abandonaram, sozinha com uma criança não muito talentosa; Ana vagabundeando como uma assombração por Lisboa em busca de drogas que a matam; João, o consolo de sua mãe, implorando por um pouco de amor dos rapazes no Parque Eduardo VII, onde contacta com "a doença" ("Quanto levas menino?" ). E era uma vez Rita, a quem um cancro levou ainda muito jovem. Finalmente, aqui está a mãe, cuja morte é esperada. E Mercília, a criada sem idade, fruto de amores auxiliares e ancestrais, que Francisco se prepara para enxotar colocando-a num autocarro rumo a um lugar qualquer a partir das seis da tarde. Bem como a um bastardo que surge mais tarde neste concerto de vozes.

Essas vozes que são, talvez, uma única, pois, como em todos os romances de Lobo Antunes, elas aparecem como variações de um mesmo canto que se vão cruzando, respondendo, contradizendo e, às vezes, emaranhando-se , e que se rebelam contra "aquele que faz o livro" quem as obriga a agir, falar e sentir contra a sua vontade: "[...] serei uma criatura a sério ou uma invenção de quem escreve, uma marioneta, se calhar pensou 
– Preciso de uma mulher aqui 
e construi-me capítulo a capítulo aborrecendo-se comigo, talvez esperasse outra pessoa, palavras que o contentassem mais [... ]".

Se o autor "construiu" as suas criaturas por sua vontade, também edificou a estrutura de acordo com as regras da tourada, em cinco partes – “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena” e “A Sorte Suprema” – emolduradas pela voz de Beatriz, “Antes da corrida" e "Depois da corrida”. Quatro vozes compartilham cada uma dessas partes, e outras se vão misturando, num queixume desafinado, o canto eterno do desamor e da solidão. 

Crianças perdidas
Lobo Antunes foi médico psiquiatra e conhece o ponto em que os homens são todos iguais, filhos perdidos no medo. Faz a interpretação dessa experiência num pico estreito entre o sublime e o cliché. No auge da sua obra abole a fronteira entre as coisas, os animais, as plantas e as pessoas, tudo se afogando na mesma angústia, soltando "gritos silenciosos" antes de desaparecer. Os corpos desfazem-se, as mãos já não agarram coisa alguma, perdem os dedos, aparecidos sob o olhar entediado de um "Deus mesquinho".

Os cavalos misteriosos do título provêem de um antigo cantar alentejano. É a sua sombra que Beatriz vê sobre o mar enquanto é deflorada sem ternura num carro à beira-mar. Este refrão magnífico, selvagem, de galope sobre os juncos, ritma a melopeia de que os leitores de Lobo Antunes reconhecem a cadência (actualmente muito bem traduzida por Dominique Nedellec): frases quebradas por linhas curtas, sem verbos, deslizando de uma voz a outra, perguntas sem resposta, regressos posteriores, recorrência a palavras padrão. É necessário deixar-se ir nesse enrolar das ondas sem o qual a exasperação espia diante tanto da tristeza acumulada, tanto das febres, das fotos dos antepassados, da água e das lágrimas (“e eu ao ponto de chover igualmente”). Mas se experimentada, ela traga-nos até ao mais profundo.

por Isabelle Rüf
em Les Temps

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2. Artigo publicado em Le Figaro

As sombras furtivas de António Lobo Antunes

Romance polifónico hipnotizante sobre a morte de uma mãe em Lisboa no dia de Páscoa.

Como há três anos, quando do nosso último encontro, tomou lugar no mesmo sofá verde do hotel na rua Vaneau, onde já é habitual e onde os seus livros entronizam uma vitrina no salão. Aos 71 anos de idade, António Lobo Antunes continua a não querer entrar nas regras de uma entrevista normal. "Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi. "

António Lobo Antunes: «Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi» - foto de François Bouchon / Le Figaro
Durante a conversa informal entre um cigarro na calçada e a chegada de um velho amigo que veio para almoçar com ele, deixa aqui e ali um pouco de si. Sobre este romance com um título tão antuniano, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, afirma: “Certo dia assisti a uma tourada em Barcelona, tinha eu sete anos. Fiquei com uma impressão ... vomitei, e uma marca foi permanecendo em mim”. Mais de seis décadas se passaram, mas para falar de quatro irmãos que prestam contas perante a morte da mãe, num Domingo de Páscoa em Lisboa, foi na dramaturgia tauromáquica que se baseou. Sete partes principais de quatro capítulos, em que os principais actores tomam a palavra, compõem este romance. E dentro deste quadro se desenrola a magia de um estilo como nenhum outro.

Após uma dezena de títulos, Lobo Antunes utiliza a forma de um puzzle feito de vozes que entre si se alternam, gritam, perdendo-se no limbo das memórias e que se apegam a motivos recorrentes. Francisco, João, Ana, Beatriz, quatro filhos, cada um vivendo à sua maneira a agonia da mãe. Até à sua morte (estocada final), cada um deixa falar as suas emoções, confessando a sua dor e gritando a sua raiva. Ou balbuciam, incapazes de dizer as coisas. A família está em destroços, arruinada por causa do pai. A doença e as neuroses corroem-na. Chove sem cessar, mas o escritor, que se faz convidado dentro da história, demiurgo provocador, adverte: "Não é a chuva que cai (...) São pessoas, os seus episódios, memórias, o sótão empoeirado que representa uma existência ".

João, o filho favorito, o filho maldito, paga com a carne a procura de rapazes do parque. Ana, por sua vez, não deixou o terreno baldio onde a esperam os traficantes e a sua próxima dose. Francisco amaldiçoa todos, pais, irmãos, culpados segundo ele por ter sido lesado, menosprezado. E Beatriz, pobre Beatriz em pânico, ela que continua a ver a sombra que os cavalos fazem no mar.

Como ex-psiquiatra, Lobo Antunes conhece as neuroses, as cismas infinitas, a impossibilidade de dizer e fazer. Ele conhece "o que nos mói, sem ninguém saber, o que nos custa sem que ninguém perceba e não me refiro aos nossos segredos encobertos, nem à nossa miséria consciente, todas esses bonecos mortos, todos esses olhos que nos esmagam de censura."

Ler a prosa do maior escritor português - que é também um dos melhores escritores do seu tempo - trazida pela tradução magnífica de Dominique Nedellec, é uma rara experiência, perturbadora e fascinante ao mesmo tempo. Como um sonho revelador. Como entrar nas sombras de Faulkner ou Virginia Woolf.

por Bruno Corty
16.04.2014

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3. Artigo publicado em Télérama


Lisboa, num dia chuvoso. Uma família analisa o auge do seu esplendor passado, e se desmorona de neurose. Uma obra electrizante.


foto Télérama
Ler António Lobo Antunes é como fazer um desporto radical, uma experiência ao limite cada vez mais emocionante. Apegamos-nos a cada palavra, como às grades instáveis de uma ponte improvisada, esticada entre dois picos. Avançamos passo a passo, sobre o vazio, sem um arnês narrativo, sem personagens de segurança. Tudo o que temos é apenas um relógio para nos aguentarmos. Em breve serão seis horas da tarde, e essa perspectiva parece tranquilizar as personagens, se é que podemos chamá-las assim, porque são mortos-vivos, entre duas águas, entre duas memórias, entre dois medos, e a sua noção de tempo é divergente da nossa.

A hora das três da tarde, a pior das horas, insuportável de tão triste, desde sempre lida no ângulo recto dos ponteiros, eis que se deixa discorrer numa verticalidade do tempo, num domingo de Páscoa, pelas agulhas da chuva. "(Se fosse livre para escrever sobre a chuva, vocês entenderiam tudo)", solta o autor entre parênteses, dando assim uma pista para avançar no seu romance: é preciso ver todas as gotas para se passar entre elas, colher todas as palavras para reconstruir os discursos. António Lobo Antunes gosta de conjugar o verbo chover com vivas pessoas: os seres chovem em cada virar de página, chovem de suor, de febre, de lágrimas. Quem são os habitantes deste livro feito de teias? Membros de uma mesma família, em diferentes regiões de uma nodosa árvore genealógica, alguns sob a terra, comendo raízes, outros sobre ramos frágeis quase separados do tronco.

Não têm nomes, não conseguem impôr a sua identidade, esmagados sob o peso das neuroses familiares. Todos têm um pensamento fragmentado, sofrendo entre a renúncia e a súplica, balbuciando como recém-nascidos ou moribundos. Apegam-se a imagens obsessivas, um travessão de cabelo ornado de pequenas rosas, um carrinho de criança no lixo, uma fruteira cheia de maçãs, a asa quebrada de um pássaro, e essas ideias fixas são centelhas na escrita eléctrica de António Lobo Antunes, pontos de luz brilhante dentro de uma verborreia inquieta. Muitos se refugiam no silêncio, cismarentos, para se tornarem estranhos a si próprios, desligados dos seus corpos, ao ponto de darem a mão a si mesmos, e ver os seus próprios dedos em segredo: "Parecem os meus, mas são os meus ? Eu sou um, eu sou dois, encontro-me a mim mesmo por caridade ... " Alguns, por fim, resistem contra o seu destino, e apanham António Lobo Antunes ao virar das páginas. Uma praga contra esse escritor que "salta frases sem me deixar chegar à seguinte e afoga num tanque gatinhos que eu sei que é para se livrar de mim", e um outro alerta: "Isto é um livro ? Se for um livro, eu não falo. " Em cólera contra o demiurgo, que os empurra para fora de si mesmos, quando tanto querem se refugiar, ocultar, desaparecer para sempre. Com raiva a esse mistificador que lhes corta o pio quando querem gritar. Vá embora, volte. Ajude-me, deixe-me em paz ...

O autor baseia-se nas suas memórias de ex-psiquiatra para alimentar o seu trabalho centrado no socorro. Como proteger os outros? Como se proteger dos outros? Entre estas duas perguntas, ele dança, recolhe-se, eleva-se e faz cantar o silêncio, porque "quase tudo acontece em silêncio, na vida, até mesmo os gritos."

por Marine Landrot
12.04.2014
Télérama n° 3352

[os três artigos foram traduzidos do francês por Joana de Paulo Diniz]

19 de abril de 2014

José Alexandre Ramos sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer

Espectros

O título deste meu texto de opinião sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer de António Lobo Antunes, numa tão simples, comprimidida e (aparentemente?) muito redutora palavra, tanto podia servir para abrir como para fechar o resumo sobre o que nos diz este livro, o 28º título do escritor, publicado em Outubro de 2012. A razão para tal é simples: parcas ou muitas palavras podem ser, ao mesmo tempo, excessivas e demasiadas quando opinamos sobre um livro de António Lobo Antunes, pelo menos os que foram escritos, mais ou menos, desde O Arquipélago da Insónia. Até porque Não É Meia Noite Quem Quer reafirma a dificuldade de ler este autor, cujo discurso se vem tornando cada vez mais fragmentado, no intuito de ampliar os pensamentos ao nível da palavra escrita e lida. Fica ao critério do leitor – como o afirma António Lobo Antunes há muito tempo – cuidar de ter a chave correcta para o decifrar, chave essa que não existe em mais nenhum lugar senão dentro de nós. O certo é que é mesmo verdade o que o escritor tantas vezes alerta: temos que partir para a leitura despidos de (pre) conceitos, e de forma humilde. O livro acaba por ser o leitor que o constrói mas, para tal acontecer, é necessário que haja total empatia entre quem lê e o texto. Pode demorar até que essa simbiose surja, ou alías, até que fique perceptível para o leitor obstinado e curioso (não para aquele que desiste ao fim de 50 páginas), mas acaba por acontecer, no meio de muito esforço, esforço este que vale muito a pena. 

Se pudéssemos fazer um resumo, o livro é sobre uma mulher (o autor não lhe dá um nome), a narradora, se quisermos assim chamar, de cinquenta de dois anos, professora, separada, vítima de cancro da mama e consequente mastectomia, que vem num fim de semana despedir-se da casa em Peniche onde cresceu ela e seus irmãos, e decidir dar termo à sua vida. Assim que chega, o novelo das memórias que a casa obviamente suscita começa a desenrolar-se, nas primeiras impressões da infância de antes e depois do suicídio do seu irmão mais velho (ela é mais nova de quatro irmãos, e a única rapariga), memórias que se vão encadeando no discurso da narradora, sem haver qualquer evolução cronológica dos eventos, apresentando as outras personagens à medida que o pensamento as evoca. A mãe é uma das personagens mais presentes e que maior influência exerce sobre a narradora, uma mãe que se tornou amarga após (ou já o seria antes?) o suicídio do filho mais velho, resignada como o seu marido que se torna alcoólico pelas mesmas razões. Pelo meio, o segundo imão mais velho (designado como o irmão não-surdo) que vai para África combater e regressa tolhido do stress pós-traumático, e o outro, o irmão surdo, que conhecemos como uma pessoa rebelde por ser tomado como diferente, incompreendido, quase marginalizado. Surge ainda Tininha, que conhecemos como a vizinha com quem em miúda a narradora brincava, sendo depois a indiferente doutora Clementina, médica da narradora no curso da sua doença, mas sem dar importância à amizade da infância, tomando uma atitude distante. À medida que as recordações da infância se vão misturando com o passado mais recente, ficamos a saber do marido de quem acaba por se separar depois de ter abortado, da morte do pai após longos anos dependente da bebida, do envolvimento amoroso da narradora com uma colega mais velha, entre muitos outros factos.

São apenas apontamentos de personagens e do que, numa primeira mirada, elas representam para a mulher que as vai evocando ao longo do livro. Não são só estas, outras personagens vão surgindo que, apesar de não as considerar menos importantes (se o são apenas por que não tantas vezes evocadas), decidi não referir, assim como não importa referir aqui pormenores e episódios das vivências desta mulher, já que não é possível isolá-los do contexto em que são evocados. No fundo, não existe história (o que não é novidade para quem lê António Lobo Antunes), o que existe são pensamentos e sentimentos da vida de alguém que vão interpelando e se interligando com os sentimentos e pensamentos de outras pessoas. E como o pensamento não se estrutura num simples esquema, também não podemos resumir como numa sinopse o que nos transmite Não É Meia Noite Quem Quer.

No livro habita a personagem (deixamos de lado agora a designação – errada – de “narradora”) e os espectros da sua vida. Nada nos garante, enquanto lemos, que seja de facto uma mulher de meia idade que nos fala, se quisermos podemos pensar que o nosso diálogo com o livro é feito através de alguém senil e demente, ou de alguém que já morreu, ou de alguém que talvez estivesse a sonhar (ainda: do escritor que tenta projectar numa personagem e factos fictícios a sua própria experiència e a si mesmo? Porque terá dito António Lobo Antunes que este é o seu livro mais biográfico?). E por isso também não é garantido que os factos sejam os reais, isto é, os que a personagem efectivamente viveu, experimentou, conheceu. No fundo, são também os meus, os teus, os deles. Os nossos. Estes espectros fazem parte de nós, basta mudarmo-lhes os nomes, substituir as circunstâncias, alterar as afinidades... e somos nós dentro do livro. Da minha experiência pessoal, eu sonhei com o livro, ou melhor: sonhei com a personagem e suas angústias, mas o sonho era sobre eu próprio, sobre o que me angustia. Que outra prova podia haver para mim?

O que resulta de muito valioso é quando percebemos a forma como as palavras e as expressões estão tão bem colocadas como se conseguíssemos “ler” o pensamento da personagem (e por aí chegarmos ao ponto de termos a sensação de estarmos a “ouvir” o nosso próprio pensamento). É interessante constastar isto se entendermos como se estrutura, por exemplo, um trecho musical, como se ligam dois ou três acordes para se fazer uma melodia. E será isto, na minha opinião, que quer dizer António Lobo Antunes quando afirma “Ninguém escreve como eu, nem eu próprio”.

A terminar, como se um post scriptum: não se consegue opinar sobre um livro de António Lobo Antunes sem evocar outros da sua autoria, bem como referir a sua forma de escrever. Já que muitas vezes até parece que estamos a ler algo que não ficou escrito no(s) livro(s) anterior(es)...

José Alexandre Ramos
18.04.2014

18 de abril de 2014

Anna: opinião sobre Auto dos Danados

[...] acho que fiz uma boa descoberta com Auto dos Danados. Cada capítulo do livro é narrado por um personagem diferente, quase todos sem nome (ele fala de “o dentista”, “a mongoloide”, “a casada com o dos bondes”, “o engenheiro” etc) e sem qualquer introdução — você tem que pescar depois de iniciado o capítulo quem é mesmo que está falando. Conta de uma família portuguesa falida, que se reúne durante as festas do povoado porque o avô está moribundo. A partir desse reencontro, vai se desenrolando as misérias da família: um casamento falido, onde ambos os cônjuges sabem dos amantes um do outro; um tio que já dormiu com todas as mulheres da família — e do povoado —, incluindo sua cunhada débil mental (de quem tem uma filha, e com quem acaba também tendo uma filha); casamentos por interesse; o patriarca que forjou a morte da própria esposa porque esta o abandonara; a mãe que abandona os filhos e o marido e vai morar no Rio de Janeiro com um surfista e por aí vai.

O realismo e o exagero com que as misérias da família são narradas de forma crua e seca mostra como gerações e gerações podem se manter sem amor, sem cuidados e sem nada a se apegar, a não ser o dinheiro que eles esperam depois da morte do velho. Mas o que resta da fortuna que o velho mesmo dilapidou em anos de jogos, bebidas e mulheres acaba sendo gasto em tratamentos para os dois filhos com problemas mentais e no tratamento do próprio pai. Com a aproximação da Revolução dos Cravos, a família, afogada em dívidas e com medo dos comunistas, foge na mesma noite da morte do velho para a Espanha.

A cena da morte do patriarca é narrada em conjunto com a cena da morte do touro (está havendo uma tourada, que fecha os festejos que estão ocorrendo na vila) e, pra mim, é o ponto alto do romance, onde todos os personagens vão se mostrando profundamente aliviados com isso. Não há máscaras para cair, todos estão ali com suas misérias e usuras expostas, sem esconder nada de ninguém. O período narrado é de grande catarse pra todos, onde não têm nada a esconder nem jogos a jogar. É tudo exposto, de forma feita, na sua miséria psicológica e mesmo material, de gente vivendo em subúrbios fedorentos e no meio de relações de traição e descontentamento.

“Está morto, disse eu à família a compor a gola do pijama do velho, a arrecadar os instrumentos, a preparar-me para abandonar o quarto, descer as escadas, enfrentar os perdigueiros, tornar a Reguengos na ambulância do hospital. Está morto, disse eu, arrastem-no da arena pelos cabos que lhe seguram os cornos, amarrem-lhe as patas e levem-no e dividam-lhe a carne e vendam-na no talho, podem embebedar-se dois ou três dias com o dinheiro do finado, esse bicho enteiriçado e grosso, sem majestade alguma, que sangrava e que sangrava ainda.”

por Anna
em Ana, leu isso?
21.10.2013

12 de abril de 2014

Alcir Pécora: «Português retrata delírio esquizofrênico de mulher torturada» (opinião sobre Comissão das Lágrimas)

Como sabem seus leitores, o romancista português António Lobo Antunes (1942) serviu como médico psiquiatra do Exército português em Angola, no início do conturbado processo de independência do país.

Em "Comissão das Lágrimas" (2011), Antunes justamente retoma esse tema das lutas de Angola, que o tornou mundialmente conhecido. Concentra-se, desta vez, nos eventos passados no período 1977-1979, marcado pelas lutas cruentas entre diversas facções políticas do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

O atentado fracassado contra Agostinho Neto, que exercia o poder desde a independência do país, em 1975, foi o estopim ou o pretexto para a criação de um Tribunal Militar Especial ou Tribunal Revolucionário, que comandou uma operação de perseguições, torturas e execuções de supostos dissidentes.

O número de mortos, durante os dois anos de funcionamento do tribunal, apelidado pitorescamente de "Comissão das Lágrimas", pode ter chegado a 80 mil, sem que haja fontes oficiais confiáveis a respeito ou sobre a própria existência da Comissão, dissolvida em 1979.

Tais eventos mapeiam o chão histórico do romance de Lobo Antunes, sempre mais aludido que directamente narrado. O que se justifica plenamente, uma vez que o livro se apresenta como a transcrição do delírio esquizofrénico da personagem Cristina, mulher de 40 anos, internada numa clínica psiquiátrica de Lisboa.

Uma assombrada conjunção de vozes revela que veio ainda menina de África, que seu pai preto foi torturador da Comissão das Lágrimas e que sua mãe portuguesa, branca, se prostituía em Angola. Embaralhadas em sua cabeça, mal dissolvidas pelos remédios, as vozes compõem um tormentoso fluxo de consciência quebrado por fragmentos de diálogos e de imagens de episódios traumáticos.

Sobrepõem-se vislumbres de cenas nas quais a mãe paterna é humilhada pela patroa branca; em que o pai, garoto, sofre abuso no seminário de padres ou, adulto, é protagonista dos sinistros interrogatórios.

Intercalam-se imagens da mãe, violentada pelo tio, pelo dono da oficina e por outros mais; os passos de forçada alegria que dá como corista, emigrada em Angola; a sugestão do nome Cristina feita à mãe, grávida do rufião da companhia; a figura canhestra do preto que a criaria como pai, quando se apresenta à mãe, após um dos seus shows mambembes na periferia de Luanda.

O fluxo simultaneamente vertiginoso e repetitivo do relato produz um imediato efeito de obsessão e de lembrança lesada, mas também de dispersão e de redundância das várias vozes que se apoderam dele. O melhor do procedimento é a criação de analogias insuspeitas entre cenas disparatadas. Por exemplo, quando a colher de pau com que o pai espanca a patroa na cozinha é intercambiável com o pénis que penetra o colega de seminário.

Em lances assim, a narrativa ganha semelhança com o "interseccionismo" poético de Fernando Pessoa (1888-1935), no qual a multiplicidade de imagens se sobrepõe, com transparência, na consciência que as absorve.

O conjunto, contudo, não se resolve tão bem. A sequência das cenas recortada pelos fragmentos de fala parece obedecer a certo automatismo narrativo e a excessivos trejeitos estilísticos. Ambos amortecem a brutalidade dos episódios aludidos, seja como terror histórico, seja como processo doloroso de desmanche da subjectividade.


por Alcir Pécora
fonte: site da Unicamp (Brasil)
em: 29.07.2013

[Alcir Pécora é professor de teoria literária da Unicamp e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp)]

6 de abril de 2014

Miguel (St. Orberose) about Knowledge of Hell

Knowledge of Hell (1980) is my introduction to António Lobo Antunes. It is not the first novel I read by him, but the reading of A Morte de Carlos Gardel, some time in 2007, has left but faint vestiges in my memory, which only remembers a scene about a junkie searching for money in his mother’s wallet and a general feeling that it was a difficult and perhaps not very rewarding novel. But my disappointment notwithstanding, I realized Lobo Antunes was not a novelist of plots or suspense but of language and metaphors. This Portuguese novelist writes in long sentences, juxtaposing different timelines, bridging several levels of action, mixing memories with reveries, and changing from a third person to a first person narrator within paragraphs. He’s not an easy writer.

Starting this second novel with his complexity in mind made the reading better but no less exhausting than before. Knowledge of Hell comprises several stream-of-consciousness diatribes built by the protagonist in his mind while travelling by car from Algarve, in the south of Portugal, back to Lisbon, to resume his service at the Miguel Bombarba Hospital for mental patients. The protagonist, like the author, is named António, wrote a novel called Memória de Elefante (the name of ALA’s first novel), served in Angola during the independence war and returned in 1973 to become a psychiatrist at the aforementioned state hospital. It’s tempting to read the novel as an autobiographical novel, a hateful confession, but I don’t think the interest of the novel hinges on the similarities with post-modernist games Philip Roth came up with decades ago. Whether António is the author is irrelevant, I think, for the feelings, whether real or fictional, remain powerful and believable. What mattered more to me was the force and anger in the protagonist’s voice, the commitment to drawing an unglamorous and even unpleasant portrait of himself the bizarre metaphors with which he transfigures the most mundane objects and concepts, and the vitriolic humour, all the things I missed in the first novel but which my brain was attuned to this time.

The protagonist is angry at many things; he goes back to his memories of the Angolan War (1961-1975) to rail against his country, with its ‘graveyards without glory’, at the horrors of the war that sill haunt him, with its dead children and broken soldiers and the maddening fear of dying; then he chastises his countrymen for their cowardice, and himself for his own cowardice, who silently collaborated with the dictatorship that made the war possible. Becoming a doctor at a state hospital, he castigates himself for his complacency before the the inhuman conditions in which his patients live; but he comes down harder on his colleagues, the psychiatrists, whom he describes as dangerous modern-day class of priests and jail-keepers, who have the power to decide who is sane and mad.

As the novel opens, António describes Portugal as an artificial place, of carton sea and paper sun, an artificiality that seeps into everything, into things and the thoughts and actions of people:

The sea of Algarve is made of cardboard like theatre scenery, and the English don’t realize it: they consciously spread their towels on the sawdust sand, protect themselves with dark glasses from the paper sun, stroll enthralled on the stage of Albufeira where public employees disguised as carnival barkers, squatting on the ground, inflict on them Moroccan necklaces secretly manufactured by the tourism board, and end the afternoon by anchoring in artificial esplanades, where they’re served make-believe drinks in nonexistent glasses that leave in the mouth the flavourless taste of the whiskey furnished the actors on television dramas.

As if in challenge of this reality, he describes himself, his past, his memories, his fantasies with chilling self-scrutiny, unembarrassed of the most sordid details and perhaps even masochistically enjoying laying bare all his fears and small daily acts that make him uneasy with himself. The protagonist uses the expression ‘knowledge of hell’ to explain the horrors he faces after he returns from the war and joins the hospital staff, greater horrors than being shot at or watching children die: the horror of being surrounded by madness, which he describes in raw terms, removed from the embellishment of madness we see in the media. But perhaps the real knowledge of hell is the journey of self-revelation he undergoes at the same time as he drives in his car.

Egotistic, compassionless, pedantic, he paints his peers as the custodians of truth, with the power to decide who’s sane and who’s insane, using their unscientific methods where treatment has no effect and diagnosis is the always the same. (This was written in 1980; with the advances of neuroscience in the last decade, which has given us a better understanding of the human brain, one hopes psychiatry is no longer the quackery that he describes here). He criticises his colleagues for their pretensions to altruism when in fact they treat their patients like wind-up dolls with predetermined reactions and feelings; he mocks them for still clinging to Freud’s outdated views on human behaviour, for spending their days discussing the new theories imported from France, England, the USA, instead of actually observing patients. He describes how they can destroy an individual with the right prescription of drugs, with the right electric shock treatment, how they can strip him of his personality and alienate him from his own self, just because they can. He recounts with disgust the endless meetings between himself and his colleagues. He also doesn’t spare the patients’ families, who use the hospital to get rid of them when they become nuisances. The protagonist frequently compares the hospital to concentration camps and his colleagues and himself to prison guards.

So then why does he collude with this? Because he’s no better than anyone else: he wants a regular pay-check, a house, a family, security. Instead of courage he has self-awareness, and he paints himself with equal disdain. He chastises himself for not having had the courage to study dentistry instead; and if he can’t or won’t do much to change anything, at least in his mind he can suffer for atonement. And he’s very good at devising tortures for himself. At one point he describes himself being dead, then he imagines eating his own body parts. One of my favourite episodes is when he pretends his family wants to commit him and his colleagues think he’s crazy, and he suffers the indignation and helplessness of being treated like a madman.

Lobo Antunes’ style, like I wrote before, is very complicated. He writes in long sentences, not as long as his countryman José Saramago wrote, spanning pages, but long enough to force the reader to remain focused. And his sentences are constructions of wonder; it becomes obvious that he polishes each one to the point of exhaustion. As the reader moves into the text he starts picking up certain words, adjectives, nouns, that reoccur; given his vast vocabulary, every repetition is a conscious choice and not an inability to come up with a synonym. For Lobo Antunes there are no synonyms: he uses exactly the word he wants to use, when he wants to use it, and each placement seems natural and inevitable like a sunset. He also repeats dialogues. The chapters tend to have two or three different strands of narrative running through them, intertwining and subtly changing each other. For instance, a question made by an officer to António in Angola may be followed by an orderly answering something in Lisbon, thus creating a symphony of dialogues where disparate speeches converge into one. It’s beautiful and terrifying. And buried in the hard work is the acidic humour, misanthropic and compassionate at the same time.

Knowledge of Hell is a superb novel and has given me the necessary boost to continue reading António Lobo Antunes. Already I blame myself for ignoring for so long such an important Portuguese novelist. Most of my attention had so far been focused on José Saramago. Just for comparison, I have read all seventeen novels by the Nobel Prize laureate, whereas this is just my second novel by Lobo Antunes, who’s also very prolific. Since 1996 he’s published at least a new book every year. Eleven books are currently available in English, making him perhaps the most translated Portuguese writer after Saramago. So I hope you’ll give him a chance too.


by Miguel
15.03.2012

28 de março de 2014

Luiz Paulo Faccioli: «O jogo da insónia», opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia

Dias atrás, na página da Livraria Cultura na internet, havia duas solitárias opiniões de leitores sobre o mais recente livro do português António Lobo Antunes lançado no Brasil, Ontem não te vi em Babilónia, cuja publicação original foi em 2006. Uma delas: “Excelente… Ainda em estado de êxtase… Ainda lendo… Não quero parar… é muito bom…” A outra: “Horrível. Livro chatíssimo, desanimador, pior livro que já li…” A despeito de ser uma amostra ínfima [...], o antagonismo dos comentários reflecte à perfeição uma realidade: ou se morre de amores pela obra, ou se a detesta. Não há meio-termo possível.

Ou sim, talvez haja algum, se levarmos em conta que a obra de arte verdadeira permite mais de um modo de fruição. O mais óbvio passa por valores intrínsecos à condição de arte, que podem tocar ou não a sensibilidade de quem a frui, num plano essencialmente emocional. Esta é a génese dos comentários referidos acima. Outro, um pouco mais subtil, parte da avaliação do esforço intelectual que produziu tal peça e cujo reconhecimento pode também sensibilizar. Ambos os caminhos evidentemente se entrecruzam, e minha própria experiência com Ontem não te vi em Babilónia é um bom exemplo de como isso acontece. Antes de avançar nesta direcção, contudo, convém apresentar a obra que divide tanto assim as opiniões.

Numa noite insone, vários personagens remoem lembranças e tragédias pessoais, enquanto o relógio segue lenta e inescapavelmente marcando as horas. As narrativas, todas em primeira pessoa, são construídas em forma de fluxo de consciência, mesclando acontecimentos antigos e recentes, dores, frustrações e meros devaneios. Três dessas “vozes” são recorrentes, facto que as eleva à condição de protagonistas: Ana Emília, presa ao fantasma do suicídio da filha, aos 15 anos de idade, uma cena cuja descrição, fragmentada e filtrada pela dor da mãe, responde por alguns dos mais belos momentos do livro; Alice, ex-enfermeira que teve uma infância difícil e é casada com um homem truculento e circunspecto; e por fim Osvaldo, o tal marido, policial aposentado que torturava e matava durante a ditadura salazarista e agora, acordado no quarto contíguo ao da mulher, lembra da mãe que perdeu ainda criança. Os personagens não dialogam, não interagem, e os fios que os unem vão sendo tramados subtilmente a partir de suas divagações.

Confusa sonolência

O livro se estrutura em seis partes, nomeadas pelas horas da madrugada: Meia-noite, Uma hora da manhã, e assim por diante. Cada uma dessas partes foi subdividida em quatro capítulos, alternando-se os narradores. À medida que a noite avança, o discurso vai ficando cada vez mais confuso, imitando as distorções provocadas pela sonolência e cansaço dos personagens.

Todos os capítulos apresentam a mesma e curiosa formatação. À primeira vista, ela parece seguir o padrão convencional, com recuos de parágrafo, travessões indicativos de diálogo, vírgulas e pontos de interrogação. Mas logo se descobre que só o primeiro parágrafo de cada capítulo inicia com letra maiúscula, enquanto apenas o último encerra com um ponto; todos os demais abrem com letra minúscula e terminam sem nada. Pedaços de diálogos e citações não fazem cerimónia para surgir a qualquer momento, e a vírgula só existe para que o leitor possa eventualmente respirar. O formato se distancia assim daquele idealizado por Joyce, que dispensou a pontuação e os parágrafos para representar o fluxo de pensamento nas célebres páginas finais de seu Ulisses. Além da intenção de criar um estilo próprio, Lobo Antunes deve ter pensado também na dificuldade que esse tipo de leitura impõe ao leitor: afinal, na obra-prima de Joyce são pouco mais de cinquenta páginas — o que já é uma enormidade —, mas em Ontem não te vi…, com suas 440 páginas, o mesmo modelo poderia induzir algum desavisado a cortar os pulsos. Além de menos perigosa, uma disposição gráfica mais aberta e arejada favorece ainda a dinâmica do texto, livrando-o em parte do tom monocórdio decorrente da ausência de pontuação.

A edição brasileira mantém a ortografia original portuguesa, o que acaba produzindo uma prova eloquente do despropósito do tão badalado acordo ortográfico, que nada padroniza ou unifica.

Próximo da poesia

Durante toda a leitura, não deixei de me encantar com a qualidade da prosa e com a beleza de algumas passagens que a levam bem próximo da poesia. Ao mesmo tempo, me exasperava com a trama que não aparecia, ou vinha demais fragmentada, um suplício para quem não consegue ainda abrir mão de uma história como manda o figurino, com a velha e boa tríade início, meio e fim. Enquanto meu intelecto se satisfazia plenamente, no íntimo um sentimento talvez mais voraz e primitivo reclamava algo que o livro não tinha condições de me dar.

Como não sou propriamente um neófito em literatura e já aprendi a lidar com textos que se afastam bastante do convencional, a dificuldade com uma obra tão rica e bem orquestrada foi motivo de certa apreensão até conseguir deslindar o que se passava. Quando enfim consegui, pude compreender também a engenhosidade do que propõe Lobo Antunes: um belo e instigante jogo de simulação.

Só quem já provou uma noite inteira sem conseguir conciliar o sono pode avaliar o tédio, o desespero, o cansaço que tal situação provoca. Atravessei os capítulos com o mesmo enfado que sofre um insone à espera de que o velho relógio da sala anuncie a próxima hora. Tentei seguir os devaneios dos personagens até o ponto de não saber mais quem estava devaneando nem o quê. Às vezes, encontrava uma trilha segura, que logo se desmanchava à minha frente para nunca mais aparecer, enquanto topava a todo instante com elementos soltos que iam e vinham e nunca se encaixavam. Nenhum dos narradores é confiável, nem se poderia esperar outra coisa em vista de seu estado. Em suma, um desvario planejado nos mínimos detalhes para que o leitor consiga experimentar em tempo real a mesma sensação de personagens em estado de semiconsciência.

Um jogo assim ambicioso e arriscado tinha tudo para não funcionar. Dividir opiniões é o mínimo que se podia esperar de um exercício que pretende desacomodar e causar desconforto. Salva-o do naufrágio a seriedade e, principalmente, a convicção de um autor ímpar na literatura portuguesa e universal.


por Luiz Paulo Faccioli
em Gazeta do Povo
Março de 2009

24 de março de 2014

«Autos da Revolução» homenageia 25 de Abril em Évora e em Faro


Inspiradas na obra de António Lobo Antunes, sete personagens "revivem" o 25 de Abril de formas distintas em "Autos da Revolução", espectáculo que duas companhias de teatro de Évora e do Algarve se preparam para levar à cena.

O espectáculo, numa co-produção do Centro Dramático de Évora (Cendrev) e da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, é dirigido pelo encenador francês Pierre-Etienne Heymann e assinala os 40 anos do 25 de Abril. 

"Pretendemos alertar ou despertar as pessoas para um acontecimento ímpar na nossa vida recente e contribuir para que as novas gerações possam confrontar-se com um olhar sobre um momento histórico não tão distante quanto isso", explicou hoje à agência Lusa José Russo, director do Cendrev.

Construído a partir de textos de cinco romances de António Lobo Antunes, o espectáculo reúne os relatos cruzados destas personagens que, com diferentes olhares sobre o 25 de Abril, recordam o que lhes aconteceu.

Um operário carregador de mudanças, uma burguesa caridosa, a esposa de um contra-revolucionário, um militante político que foi preso em Caxias, uma camponesa explorada numa quinta, um banqueiro e a governanta do dono da quinta são os protagonistas.

"As personagens são muito diferentes e o interesse vem das relações entre os relatos. Cada um tem, com certeza, uma lembrança e uma visão da revolução muito diferente", disse Pierre-Etienne Heymann.

O encenador, "profundo conhecedor e apaixonado" pela obra de Lobo Antunes, como o apresentou José Russo, "bebeu" a sua inspiração dos livros "Auto dos Danados", "Conhecimento do Inferno", "Fado Alexandrino", "O Manual dos Inquisidores" e "Exortação aos Crocodilos".

No total são "nove cenas que são como nove movimentos de uma obra musical, porque a dimensão musical da obra de Lobo Antunes parece-me muito importante", disse.

E se os textos daquele "imenso escritor" foram material de trabalho natural para Pierre-Etienne, também a revolução de 1974 é especial para estas duas companhias teatrais descentralizadas.

"Queremos celebrar o teatro que a liberdade tornou possível porque, se não tivesse havido o 25 de Abril, não haveria hoje em Portugal um conjunto de projectos teatrais como o do Cendrev e o da ACTA", salientou José Russo.

Perante os "momentos muito difíceis" vividos na área da cultura, pois, os financiamentos do Estado "são ridiculamente reduzidos", a peça é ainda "um grito contra esta situação" e ganha mais "significado" nos 40 anos do 25 de Abril, frisou Russo.

Em fase de ensaios em Évora, a peça estreia no centenário Teatro Garcia de Resende, na cidade alentejana, na quinta-feira, Dia Mundial do Teatro, com o público a beneficiar de entrada gratuita.

"Autos da Revolução" fica em cena em Évora até 20 de Abril e, depois, "ruma" para o Teatro Lethes, em Faro, onde vai ser apresentado a partir do dia 25 de Abril e até 11 de Maio, seguindo-se uma digressão pela Galiza (Espanha).

Mário Spencer, Rosário Gonzaga, Maria Marrafa, Bruno Martins, Tânia da Silva e Jorge Baião são os actores que "vestem" as personagens da história.


por LUSA, citado do site
23.03.2014

foto: LUSA

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...