19 de abril de 2014

José Alexandre Ramos sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer

Espectros

O título deste meu texto de opinião sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer de António Lobo Antunes, numa tão simples, comprimidida e (aparentemente?) muito redutora palavra, tanto podia servir para abrir como para fechar o resumo sobre o que nos diz este livro, o 28º título do escritor, publicado em Outubro de 2012. A razão para tal é simples: parcas ou muitas palavras podem ser, ao mesmo tempo, excessivas e demasiadas quando opinamos sobre um livro de António Lobo Antunes, pelo menos os que foram escritos, mais ou menos, desde O Arquipélago da Insónia. Até porque Não É Meia Noite Quem Quer reafirma a dificuldade de ler este autor, cujo discurso se vem tornando cada vez mais fragmentado, no intuito de ampliar os pensamentos ao nível da palavra escrita e lida. Fica ao critério do leitor – como o afirma António Lobo Antunes há muito tempo – cuidar de ter a chave correcta para o decifrar, chave essa que não existe em mais nenhum lugar senão dentro de nós. O certo é que é mesmo verdade o que o escritor tantas vezes alerta: temos que partir para a leitura despidos de (pre) conceitos, e de forma humilde. O livro acaba por ser o leitor que o constrói mas, para tal acontecer, é necessário que haja total empatia entre quem lê e o texto. Pode demorar até que essa simbiose surja, ou alías, até que fique perceptível para o leitor obstinado e curioso (não para aquele que desiste ao fim de 50 páginas), mas acaba por acontecer, no meio de muito esforço, esforço este que vale muito a pena. 

Se pudéssemos fazer um resumo, o livro é sobre uma mulher (o autor não lhe dá um nome), a narradora, se quisermos assim chamar, de cinquenta de dois anos, professora, separada, vítima de cancro da mama e consequente mastectomia, que vem num fim de semana despedir-se da casa em Peniche onde cresceu ela e seus irmãos, e decidir dar termo à sua vida. Assim que chega, o novelo das memórias que a casa obviamente suscita começa a desenrolar-se, nas primeiras impressões da infância de antes e depois do suicídio do seu irmão mais velho (ela é mais nova de quatro irmãos, e a única rapariga), memórias que se vão encadeando no discurso da narradora, sem haver qualquer evolução cronológica dos eventos, apresentando as outras personagens à medida que o pensamento as evoca. A mãe é uma das personagens mais presentes e que maior influência exerce sobre a narradora, uma mãe que se tornou amarga após (ou já o seria antes?) o suicídio do filho mais velho, resignada como o seu marido que se torna alcoólico pelas mesmas razões. Pelo meio, o segundo imão mais velho (designado como o irmão não-surdo) que vai para África combater e regressa tolhido do stress pós-traumático, e o outro, o irmão surdo, que conhecemos como uma pessoa rebelde por ser tomado como diferente, incompreendido, quase marginalizado. Surge ainda Tininha, que conhecemos como a vizinha com quem em miúda a narradora brincava, sendo depois a indiferente doutora Clementina, médica da narradora no curso da sua doença, mas sem dar importância à amizade da infância, tomando uma atitude distante. À medida que as recordações da infância se vão misturando com o passado mais recente, ficamos a saber do marido de quem acaba por se separar depois de ter abortado, da morte do pai após longos anos dependente da bebida, do envolvimento amoroso da narradora com uma colega mais velha, entre muitos outros factos.

São apenas apontamentos de personagens e do que, numa primeira mirada, elas representam para a mulher que as vai evocando ao longo do livro. Não são só estas, outras personagens vão surgindo que, apesar de não as considerar menos importantes (se o são apenas por que não tantas vezes evocadas), decidi não referir, assim como não importa referir aqui pormenores e episódios das vivências desta mulher, já que não é possível isolá-los do contexto em que são evocados. No fundo, não existe história (o que não é novidade para quem lê António Lobo Antunes), o que existe são pensamentos e sentimentos da vida de alguém que vão interpelando e se interligando com os sentimentos e pensamentos de outras pessoas. E como o pensamento não se estrutura num simples esquema, também não podemos resumir como numa sinopse o que nos transmite Não É Meia Noite Quem Quer.

No livro habita a personagem (deixamos de lado agora a designação – errada – de “narradora”) e os espectros da sua vida. Nada nos garante, enquanto lemos, que seja de facto uma mulher de meia idade que nos fala, se quisermos podemos pensar que o nosso diálogo com o livro é feito através de alguém senil e demente, ou de alguém que já morreu, ou de alguém que talvez estivesse a sonhar (ainda: do escritor que tenta projectar numa personagem e factos fictícios a sua própria experiència e a si mesmo? Porque terá dito António Lobo Antunes que este é o seu livro mais biográfico?). E por isso também não é garantido que os factos sejam os reais, isto é, os que a personagem efectivamente viveu, experimentou, conheceu. No fundo, são também os meus, os teus, os deles. Os nossos. Estes espectros fazem parte de nós, basta mudarmo-lhes os nomes, substituir as circunstâncias, alterar as afinidades... e somos nós dentro do livro. Da minha experiência pessoal, eu sonhei com o livro, ou melhor: sonhei com a personagem e suas angústias, mas o sonho era sobre eu próprio, sobre o que me angustia. Que outra prova podia haver para mim?

O que resulta de muito valioso é quando percebemos a forma como as palavras e as expressões estão tão bem colocadas como se conseguíssemos “ler” o pensamento da personagem (e por aí chegarmos ao ponto de termos a sensação de estarmos a “ouvir” o nosso próprio pensamento). É interessante constastar isto se entendermos como se estrutura, por exemplo, um trecho musical, como se ligam dois ou três acordes para se fazer uma melodia. E será isto, na minha opinião, que quer dizer António Lobo Antunes quando afirma “Ninguém escreve como eu, nem eu próprio”.

A terminar, como se um post scriptum: não se consegue opinar sobre um livro de António Lobo Antunes sem evocar outros da sua autoria, bem como referir a sua forma de escrever. Já que muitas vezes até parece que estamos a ler algo que não ficou escrito no(s) livro(s) anterior(es)...

José Alexandre Ramos
18.04.2014

18 de abril de 2014

Anna: opinião sobre Auto dos Danados

[...] acho que fiz uma boa descoberta com Auto dos Danados. Cada capítulo do livro é narrado por um personagem diferente, quase todos sem nome (ele fala de “o dentista”, “a mongoloide”, “a casada com o dos bondes”, “o engenheiro” etc) e sem qualquer introdução — você tem que pescar depois de iniciado o capítulo quem é mesmo que está falando. Conta de uma família portuguesa falida, que se reúne durante as festas do povoado porque o avô está moribundo. A partir desse reencontro, vai se desenrolando as misérias da família: um casamento falido, onde ambos os cônjuges sabem dos amantes um do outro; um tio que já dormiu com todas as mulheres da família — e do povoado —, incluindo sua cunhada débil mental (de quem tem uma filha, e com quem acaba também tendo uma filha); casamentos por interesse; o patriarca que forjou a morte da própria esposa porque esta o abandonara; a mãe que abandona os filhos e o marido e vai morar no Rio de Janeiro com um surfista e por aí vai.

O realismo e o exagero com que as misérias da família são narradas de forma crua e seca mostra como gerações e gerações podem se manter sem amor, sem cuidados e sem nada a se apegar, a não ser o dinheiro que eles esperam depois da morte do velho. Mas o que resta da fortuna que o velho mesmo dilapidou em anos de jogos, bebidas e mulheres acaba sendo gasto em tratamentos para os dois filhos com problemas mentais e no tratamento do próprio pai. Com a aproximação da Revolução dos Cravos, a família, afogada em dívidas e com medo dos comunistas, foge na mesma noite da morte do velho para a Espanha.

A cena da morte do patriarca é narrada em conjunto com a cena da morte do touro (está havendo uma tourada, que fecha os festejos que estão ocorrendo na vila) e, pra mim, é o ponto alto do romance, onde todos os personagens vão se mostrando profundamente aliviados com isso. Não há máscaras para cair, todos estão ali com suas misérias e usuras expostas, sem esconder nada de ninguém. O período narrado é de grande catarse pra todos, onde não têm nada a esconder nem jogos a jogar. É tudo exposto, de forma feita, na sua miséria psicológica e mesmo material, de gente vivendo em subúrbios fedorentos e no meio de relações de traição e descontentamento.

“Está morto, disse eu à família a compor a gola do pijama do velho, a arrecadar os instrumentos, a preparar-me para abandonar o quarto, descer as escadas, enfrentar os perdigueiros, tornar a Reguengos na ambulância do hospital. Está morto, disse eu, arrastem-no da arena pelos cabos que lhe seguram os cornos, amarrem-lhe as patas e levem-no e dividam-lhe a carne e vendam-na no talho, podem embebedar-se dois ou três dias com o dinheiro do finado, esse bicho enteiriçado e grosso, sem majestade alguma, que sangrava e que sangrava ainda.”

por Anna
em Ana, leu isso?
21.10.2013

12 de abril de 2014

Alcir Pécora: «Português retrata delírio esquizofrênico de mulher torturada» (opinião sobre Comissão das Lágrimas)

Como sabem seus leitores, o romancista português António Lobo Antunes (1942) serviu como médico psiquiatra do Exército português em Angola, no início do conturbado processo de independência do país.

Em "Comissão das Lágrimas" (2011), Antunes justamente retoma esse tema das lutas de Angola, que o tornou mundialmente conhecido. Concentra-se, desta vez, nos eventos passados no período 1977-1979, marcado pelas lutas cruentas entre diversas facções políticas do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

O atentado fracassado contra Agostinho Neto, que exercia o poder desde a independência do país, em 1975, foi o estopim ou o pretexto para a criação de um Tribunal Militar Especial ou Tribunal Revolucionário, que comandou uma operação de perseguições, torturas e execuções de supostos dissidentes.

O número de mortos, durante os dois anos de funcionamento do tribunal, apelidado pitorescamente de "Comissão das Lágrimas", pode ter chegado a 80 mil, sem que haja fontes oficiais confiáveis a respeito ou sobre a própria existência da Comissão, dissolvida em 1979.

Tais eventos mapeiam o chão histórico do romance de Lobo Antunes, sempre mais aludido que directamente narrado. O que se justifica plenamente, uma vez que o livro se apresenta como a transcrição do delírio esquizofrénico da personagem Cristina, mulher de 40 anos, internada numa clínica psiquiátrica de Lisboa.

Uma assombrada conjunção de vozes revela que veio ainda menina de África, que seu pai preto foi torturador da Comissão das Lágrimas e que sua mãe portuguesa, branca, se prostituía em Angola. Embaralhadas em sua cabeça, mal dissolvidas pelos remédios, as vozes compõem um tormentoso fluxo de consciência quebrado por fragmentos de diálogos e de imagens de episódios traumáticos.

Sobrepõem-se vislumbres de cenas nas quais a mãe paterna é humilhada pela patroa branca; em que o pai, garoto, sofre abuso no seminário de padres ou, adulto, é protagonista dos sinistros interrogatórios.

Intercalam-se imagens da mãe, violentada pelo tio, pelo dono da oficina e por outros mais; os passos de forçada alegria que dá como corista, emigrada em Angola; a sugestão do nome Cristina feita à mãe, grávida do rufião da companhia; a figura canhestra do preto que a criaria como pai, quando se apresenta à mãe, após um dos seus shows mambembes na periferia de Luanda.

O fluxo simultaneamente vertiginoso e repetitivo do relato produz um imediato efeito de obsessão e de lembrança lesada, mas também de dispersão e de redundância das várias vozes que se apoderam dele. O melhor do procedimento é a criação de analogias insuspeitas entre cenas disparatadas. Por exemplo, quando a colher de pau com que o pai espanca a patroa na cozinha é intercambiável com o pénis que penetra o colega de seminário.

Em lances assim, a narrativa ganha semelhança com o "interseccionismo" poético de Fernando Pessoa (1888-1935), no qual a multiplicidade de imagens se sobrepõe, com transparência, na consciência que as absorve.

O conjunto, contudo, não se resolve tão bem. A sequência das cenas recortada pelos fragmentos de fala parece obedecer a certo automatismo narrativo e a excessivos trejeitos estilísticos. Ambos amortecem a brutalidade dos episódios aludidos, seja como terror histórico, seja como processo doloroso de desmanche da subjectividade.


por Alcir Pécora
fonte: site da Unicamp (Brasil)
em: 29.07.2013

[Alcir Pécora é professor de teoria literária da Unicamp e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp)]

6 de abril de 2014

Miguel (St. Orberose) about Knowledge of Hell

Knowledge of Hell (1980) is my introduction to António Lobo Antunes. It is not the first novel I read by him, but the reading of A Morte de Carlos Gardel, some time in 2007, has left but faint vestiges in my memory, which only remembers a scene about a junkie searching for money in his mother’s wallet and a general feeling that it was a difficult and perhaps not very rewarding novel. But my disappointment notwithstanding, I realized Lobo Antunes was not a novelist of plots or suspense but of language and metaphors. This Portuguese novelist writes in long sentences, juxtaposing different timelines, bridging several levels of action, mixing memories with reveries, and changing from a third person to a first person narrator within paragraphs. He’s not an easy writer.

Starting this second novel with his complexity in mind made the reading better but no less exhausting than before. Knowledge of Hell comprises several stream-of-consciousness diatribes built by the protagonist in his mind while travelling by car from Algarve, in the south of Portugal, back to Lisbon, to resume his service at the Miguel Bombarba Hospital for mental patients. The protagonist, like the author, is named António, wrote a novel called Memória de Elefante (the name of ALA’s first novel), served in Angola during the independence war and returned in 1973 to become a psychiatrist at the aforementioned state hospital. It’s tempting to read the novel as an autobiographical novel, a hateful confession, but I don’t think the interest of the novel hinges on the similarities with post-modernist games Philip Roth came up with decades ago. Whether António is the author is irrelevant, I think, for the feelings, whether real or fictional, remain powerful and believable. What mattered more to me was the force and anger in the protagonist’s voice, the commitment to drawing an unglamorous and even unpleasant portrait of himself the bizarre metaphors with which he transfigures the most mundane objects and concepts, and the vitriolic humour, all the things I missed in the first novel but which my brain was attuned to this time.

The protagonist is angry at many things; he goes back to his memories of the Angolan War (1961-1975) to rail against his country, with its ‘graveyards without glory’, at the horrors of the war that sill haunt him, with its dead children and broken soldiers and the maddening fear of dying; then he chastises his countrymen for their cowardice, and himself for his own cowardice, who silently collaborated with the dictatorship that made the war possible. Becoming a doctor at a state hospital, he castigates himself for his complacency before the the inhuman conditions in which his patients live; but he comes down harder on his colleagues, the psychiatrists, whom he describes as dangerous modern-day class of priests and jail-keepers, who have the power to decide who is sane and mad.

As the novel opens, António describes Portugal as an artificial place, of carton sea and paper sun, an artificiality that seeps into everything, into things and the thoughts and actions of people:

The sea of Algarve is made of cardboard like theatre scenery, and the English don’t realize it: they consciously spread their towels on the sawdust sand, protect themselves with dark glasses from the paper sun, stroll enthralled on the stage of Albufeira where public employees disguised as carnival barkers, squatting on the ground, inflict on them Moroccan necklaces secretly manufactured by the tourism board, and end the afternoon by anchoring in artificial esplanades, where they’re served make-believe drinks in nonexistent glasses that leave in the mouth the flavourless taste of the whiskey furnished the actors on television dramas.

As if in challenge of this reality, he describes himself, his past, his memories, his fantasies with chilling self-scrutiny, unembarrassed of the most sordid details and perhaps even masochistically enjoying laying bare all his fears and small daily acts that make him uneasy with himself. The protagonist uses the expression ‘knowledge of hell’ to explain the horrors he faces after he returns from the war and joins the hospital staff, greater horrors than being shot at or watching children die: the horror of being surrounded by madness, which he describes in raw terms, removed from the embellishment of madness we see in the media. But perhaps the real knowledge of hell is the journey of self-revelation he undergoes at the same time as he drives in his car.

Egotistic, compassionless, pedantic, he paints his peers as the custodians of truth, with the power to decide who’s sane and who’s insane, using their unscientific methods where treatment has no effect and diagnosis is the always the same. (This was written in 1980; with the advances of neuroscience in the last decade, which has given us a better understanding of the human brain, one hopes psychiatry is no longer the quackery that he describes here). He criticises his colleagues for their pretensions to altruism when in fact they treat their patients like wind-up dolls with predetermined reactions and feelings; he mocks them for still clinging to Freud’s outdated views on human behaviour, for spending their days discussing the new theories imported from France, England, the USA, instead of actually observing patients. He describes how they can destroy an individual with the right prescription of drugs, with the right electric shock treatment, how they can strip him of his personality and alienate him from his own self, just because they can. He recounts with disgust the endless meetings between himself and his colleagues. He also doesn’t spare the patients’ families, who use the hospital to get rid of them when they become nuisances. The protagonist frequently compares the hospital to concentration camps and his colleagues and himself to prison guards.

So then why does he collude with this? Because he’s no better than anyone else: he wants a regular pay-check, a house, a family, security. Instead of courage he has self-awareness, and he paints himself with equal disdain. He chastises himself for not having had the courage to study dentistry instead; and if he can’t or won’t do much to change anything, at least in his mind he can suffer for atonement. And he’s very good at devising tortures for himself. At one point he describes himself being dead, then he imagines eating his own body parts. One of my favourite episodes is when he pretends his family wants to commit him and his colleagues think he’s crazy, and he suffers the indignation and helplessness of being treated like a madman.

Lobo Antunes’ style, like I wrote before, is very complicated. He writes in long sentences, not as long as his countryman José Saramago wrote, spanning pages, but long enough to force the reader to remain focused. And his sentences are constructions of wonder; it becomes obvious that he polishes each one to the point of exhaustion. As the reader moves into the text he starts picking up certain words, adjectives, nouns, that reoccur; given his vast vocabulary, every repetition is a conscious choice and not an inability to come up with a synonym. For Lobo Antunes there are no synonyms: he uses exactly the word he wants to use, when he wants to use it, and each placement seems natural and inevitable like a sunset. He also repeats dialogues. The chapters tend to have two or three different strands of narrative running through them, intertwining and subtly changing each other. For instance, a question made by an officer to António in Angola may be followed by an orderly answering something in Lisbon, thus creating a symphony of dialogues where disparate speeches converge into one. It’s beautiful and terrifying. And buried in the hard work is the acidic humour, misanthropic and compassionate at the same time.

Knowledge of Hell is a superb novel and has given me the necessary boost to continue reading António Lobo Antunes. Already I blame myself for ignoring for so long such an important Portuguese novelist. Most of my attention had so far been focused on José Saramago. Just for comparison, I have read all seventeen novels by the Nobel Prize laureate, whereas this is just my second novel by Lobo Antunes, who’s also very prolific. Since 1996 he’s published at least a new book every year. Eleven books are currently available in English, making him perhaps the most translated Portuguese writer after Saramago. So I hope you’ll give him a chance too.


by Miguel
15.03.2012

28 de março de 2014

Luiz Paulo Faccioli: «O jogo da insónia», opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia

Dias atrás, na página da Livraria Cultura na internet, havia duas solitárias opiniões de leitores sobre o mais recente livro do português António Lobo Antunes lançado no Brasil, Ontem não te vi em Babilónia, cuja publicação original foi em 2006. Uma delas: “Excelente… Ainda em estado de êxtase… Ainda lendo… Não quero parar… é muito bom…” A outra: “Horrível. Livro chatíssimo, desanimador, pior livro que já li…” A despeito de ser uma amostra ínfima [...], o antagonismo dos comentários reflecte à perfeição uma realidade: ou se morre de amores pela obra, ou se a detesta. Não há meio-termo possível.

Ou sim, talvez haja algum, se levarmos em conta que a obra de arte verdadeira permite mais de um modo de fruição. O mais óbvio passa por valores intrínsecos à condição de arte, que podem tocar ou não a sensibilidade de quem a frui, num plano essencialmente emocional. Esta é a génese dos comentários referidos acima. Outro, um pouco mais subtil, parte da avaliação do esforço intelectual que produziu tal peça e cujo reconhecimento pode também sensibilizar. Ambos os caminhos evidentemente se entrecruzam, e minha própria experiência com Ontem não te vi em Babilónia é um bom exemplo de como isso acontece. Antes de avançar nesta direcção, contudo, convém apresentar a obra que divide tanto assim as opiniões.

Numa noite insone, vários personagens remoem lembranças e tragédias pessoais, enquanto o relógio segue lenta e inescapavelmente marcando as horas. As narrativas, todas em primeira pessoa, são construídas em forma de fluxo de consciência, mesclando acontecimentos antigos e recentes, dores, frustrações e meros devaneios. Três dessas “vozes” são recorrentes, facto que as eleva à condição de protagonistas: Ana Emília, presa ao fantasma do suicídio da filha, aos 15 anos de idade, uma cena cuja descrição, fragmentada e filtrada pela dor da mãe, responde por alguns dos mais belos momentos do livro; Alice, ex-enfermeira que teve uma infância difícil e é casada com um homem truculento e circunspecto; e por fim Osvaldo, o tal marido, policial aposentado que torturava e matava durante a ditadura salazarista e agora, acordado no quarto contíguo ao da mulher, lembra da mãe que perdeu ainda criança. Os personagens não dialogam, não interagem, e os fios que os unem vão sendo tramados subtilmente a partir de suas divagações.

Confusa sonolência

O livro se estrutura em seis partes, nomeadas pelas horas da madrugada: Meia-noite, Uma hora da manhã, e assim por diante. Cada uma dessas partes foi subdividida em quatro capítulos, alternando-se os narradores. À medida que a noite avança, o discurso vai ficando cada vez mais confuso, imitando as distorções provocadas pela sonolência e cansaço dos personagens.

Todos os capítulos apresentam a mesma e curiosa formatação. À primeira vista, ela parece seguir o padrão convencional, com recuos de parágrafo, travessões indicativos de diálogo, vírgulas e pontos de interrogação. Mas logo se descobre que só o primeiro parágrafo de cada capítulo inicia com letra maiúscula, enquanto apenas o último encerra com um ponto; todos os demais abrem com letra minúscula e terminam sem nada. Pedaços de diálogos e citações não fazem cerimónia para surgir a qualquer momento, e a vírgula só existe para que o leitor possa eventualmente respirar. O formato se distancia assim daquele idealizado por Joyce, que dispensou a pontuação e os parágrafos para representar o fluxo de pensamento nas célebres páginas finais de seu Ulisses. Além da intenção de criar um estilo próprio, Lobo Antunes deve ter pensado também na dificuldade que esse tipo de leitura impõe ao leitor: afinal, na obra-prima de Joyce são pouco mais de cinquenta páginas — o que já é uma enormidade —, mas em Ontem não te vi…, com suas 440 páginas, o mesmo modelo poderia induzir algum desavisado a cortar os pulsos. Além de menos perigosa, uma disposição gráfica mais aberta e arejada favorece ainda a dinâmica do texto, livrando-o em parte do tom monocórdio decorrente da ausência de pontuação.

A edição brasileira mantém a ortografia original portuguesa, o que acaba produzindo uma prova eloquente do despropósito do tão badalado acordo ortográfico, que nada padroniza ou unifica.

Próximo da poesia

Durante toda a leitura, não deixei de me encantar com a qualidade da prosa e com a beleza de algumas passagens que a levam bem próximo da poesia. Ao mesmo tempo, me exasperava com a trama que não aparecia, ou vinha demais fragmentada, um suplício para quem não consegue ainda abrir mão de uma história como manda o figurino, com a velha e boa tríade início, meio e fim. Enquanto meu intelecto se satisfazia plenamente, no íntimo um sentimento talvez mais voraz e primitivo reclamava algo que o livro não tinha condições de me dar.

Como não sou propriamente um neófito em literatura e já aprendi a lidar com textos que se afastam bastante do convencional, a dificuldade com uma obra tão rica e bem orquestrada foi motivo de certa apreensão até conseguir deslindar o que se passava. Quando enfim consegui, pude compreender também a engenhosidade do que propõe Lobo Antunes: um belo e instigante jogo de simulação.

Só quem já provou uma noite inteira sem conseguir conciliar o sono pode avaliar o tédio, o desespero, o cansaço que tal situação provoca. Atravessei os capítulos com o mesmo enfado que sofre um insone à espera de que o velho relógio da sala anuncie a próxima hora. Tentei seguir os devaneios dos personagens até o ponto de não saber mais quem estava devaneando nem o quê. Às vezes, encontrava uma trilha segura, que logo se desmanchava à minha frente para nunca mais aparecer, enquanto topava a todo instante com elementos soltos que iam e vinham e nunca se encaixavam. Nenhum dos narradores é confiável, nem se poderia esperar outra coisa em vista de seu estado. Em suma, um desvario planejado nos mínimos detalhes para que o leitor consiga experimentar em tempo real a mesma sensação de personagens em estado de semiconsciência.

Um jogo assim ambicioso e arriscado tinha tudo para não funcionar. Dividir opiniões é o mínimo que se podia esperar de um exercício que pretende desacomodar e causar desconforto. Salva-o do naufrágio a seriedade e, principalmente, a convicção de um autor ímpar na literatura portuguesa e universal.


por Luiz Paulo Faccioli
em Gazeta do Povo
Março de 2009

24 de março de 2014

«Autos da Revolução» homenageia 25 de Abril em Évora e em Faro


Inspiradas na obra de António Lobo Antunes, sete personagens "revivem" o 25 de Abril de formas distintas em "Autos da Revolução", espectáculo que duas companhias de teatro de Évora e do Algarve se preparam para levar à cena.

O espectáculo, numa co-produção do Centro Dramático de Évora (Cendrev) e da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, é dirigido pelo encenador francês Pierre-Etienne Heymann e assinala os 40 anos do 25 de Abril. 

"Pretendemos alertar ou despertar as pessoas para um acontecimento ímpar na nossa vida recente e contribuir para que as novas gerações possam confrontar-se com um olhar sobre um momento histórico não tão distante quanto isso", explicou hoje à agência Lusa José Russo, director do Cendrev.

Construído a partir de textos de cinco romances de António Lobo Antunes, o espectáculo reúne os relatos cruzados destas personagens que, com diferentes olhares sobre o 25 de Abril, recordam o que lhes aconteceu.

Um operário carregador de mudanças, uma burguesa caridosa, a esposa de um contra-revolucionário, um militante político que foi preso em Caxias, uma camponesa explorada numa quinta, um banqueiro e a governanta do dono da quinta são os protagonistas.

"As personagens são muito diferentes e o interesse vem das relações entre os relatos. Cada um tem, com certeza, uma lembrança e uma visão da revolução muito diferente", disse Pierre-Etienne Heymann.

O encenador, "profundo conhecedor e apaixonado" pela obra de Lobo Antunes, como o apresentou José Russo, "bebeu" a sua inspiração dos livros "Auto dos Danados", "Conhecimento do Inferno", "Fado Alexandrino", "O Manual dos Inquisidores" e "Exortação aos Crocodilos".

No total são "nove cenas que são como nove movimentos de uma obra musical, porque a dimensão musical da obra de Lobo Antunes parece-me muito importante", disse.

E se os textos daquele "imenso escritor" foram material de trabalho natural para Pierre-Etienne, também a revolução de 1974 é especial para estas duas companhias teatrais descentralizadas.

"Queremos celebrar o teatro que a liberdade tornou possível porque, se não tivesse havido o 25 de Abril, não haveria hoje em Portugal um conjunto de projectos teatrais como o do Cendrev e o da ACTA", salientou José Russo.

Perante os "momentos muito difíceis" vividos na área da cultura, pois, os financiamentos do Estado "são ridiculamente reduzidos", a peça é ainda "um grito contra esta situação" e ganha mais "significado" nos 40 anos do 25 de Abril, frisou Russo.

Em fase de ensaios em Évora, a peça estreia no centenário Teatro Garcia de Resende, na cidade alentejana, na quinta-feira, Dia Mundial do Teatro, com o público a beneficiar de entrada gratuita.

"Autos da Revolução" fica em cena em Évora até 20 de Abril e, depois, "ruma" para o Teatro Lethes, em Faro, onde vai ser apresentado a partir do dia 25 de Abril e até 11 de Maio, seguindo-se uma digressão pela Galiza (Espanha).

Mário Spencer, Rosário Gonzaga, Maria Marrafa, Bruno Martins, Tânia da Silva e Jorge Baião são os actores que "vestem" as personagens da história.


por LUSA, citado do site
23.03.2014

foto: LUSA

22 de março de 2014

Santi (blog Un libro al día): opinião sobre Tratado das Paixões da Alma

[nota de tradução: o autor do artigo leu antes deste título O Esplendor de Portugal ao qual faz referência no início deste texto que escreveu num blog, informação aqui ocultada por não ser relevante]

[...] Lobo Antunes pareceu-me [sempre] um muito sério candidato ao Prémio Nobel , ainda que talvez tenha sido prejudicado por ser da mesma nacionalidade de Saramago, pela razão de que ultimamente o Nobel tenta premiar países e culturas diferentes (com a excepção para o Reino unido, que deve ter uma regra especial). 

[...] [Tratado das Paixões da Alma] é um romance tanto similar como diferente de Esplendor de Portugal. O que é similar é a evidente preocupação pela técnica narrativa, a mistura de planos temporais e psicológicos, o retrato da realidade contemporânea portuguesa. Esplendor de Portugal é provavelmente mais denso e mais profundo quanto ao tratamento das personagens e da questão central, que nesse caso se trata dos portugueses retornados durante e depois da descolonização; Tratado das Paixões da Alma contém dois ingredientes que fazem de si um romance mais ligeiro: por um lado, tem uma trama quase que policial que muito atrai o leitor e, por outro lado, contém uma carga forte de humor, com características semelhantes de uma farsa (por exemplo, no episódio em que o homem do ministério fala com a sua mulher semi-nua enquanto o filho destrói a casa a marteladas). 

O início de Tratado das Paixões da Alma faz lembrar ligeiramente Conversa na Catedral [romance de Mario Vargas Llosa]: dois homens de classes sociais disitintas conversam, e através dessa conversa fazem ressuscitar as memórias e os fantasmas remotos. Neste caso, os interlocutores da conversa são um juíz de instrução e um arguido, a quem conhecemos inicialmente como “o Homem” (ainda que depois descobrimos que se chama António e com o apelido Antunes, embora, a tratar-se de elementos autobiográficos no livro, sejam difíceis de confirmar, para além da quinta em Benfica, um bairro que o escritor conhece bem). Os dois, agora antagonistas, partilham uma história comum: a infância em que os papéis estavam invertidos (o Homem era filho do dono de uma quinta ou fazenda que empregava o pai do juíz de intrução como seu caseiro), e o diálogo enhce-se de tensões, censuras, memórias e enganos. 

A partir do primeiro diálogo à porta fechada, inicia-se a trama quase policial, onde acompanhamos o Homem, membro de uma tosca célula terrorista de esquerda, e o Juíz, homem frustrado e desagradado tanto com os terroristas como com as próprias estruturas do poder, de que faz parte, mas como um fantoche. Ambos os protagonistas-antagonistas se vão acumulnado progressivamente de ambiguidades: não sabemos se é o Homem que trai os seus companheiros de célula, ou se é o Juíz que se passa para o lado inimigo dando informações confidenciais ao Homem. 

Com estas tensões, numa trama que se desenvolve com lentidão mas com ritmo constante e a criação de um universo social e político em torno dos protagonistas, Lobo Antunes constrói um romance de grande nível. Há que seguir lendo-o [nos livros posteriores], como A Ordem Natural das Coisas, que continua a trilogia iniciada com este Tratado das Paixões da Alma e que vai acabar em A Morte de Carlos Gardel.


por Santi
11.07.2012
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

20 de março de 2014

Teatro "Autos da Revolução" em Évora

"AUTOS DA REVOLUÇÃO, a partir de textos de António Lobo Antunes"Co-Produção: CENDREV/ ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve
27 de março a 20 de abril

Local
Teatro Garcia de Resende
Horários; qua
rta a sábado, às 21h30 | domingos às 16h00


16 de março de 2014

Luis M. Alonso: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão

Palavras que fluem como a água

O curso do rio serve ao eterno aspirante do Nobel da Literatura António Lobo Antunes para contar a viagem fictícia da vida sujeita ao tempo e à organização da memória. Para tal utiliza desde o título do seu romance as resondilhas mais conhecidas de Camões: “Sôbolos rios que vão / Por Babilônia m’achei, / Onde sentado chorei / As lembranças de Sião, / E quanto nela passei”. A literatura flui como a água numa das suas obras mais belas, talvez a melhor de todas que escreveu na última década.

Sôbolos Rios Que Vão [...] explora as possibilidades da lírica sem deixar de lado uma trama discernível, algo que não é fácil encontrar no melhor escritor português vivo desde Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, marca de um ponto de inflexão na leitura dos seus romances. Em qualquer caso, livre a escrita do atavismo que impõe a nudez da história, ao leitor calha converter-se em cúmplice das emoções das personagens e das palavras. O resultado é comovente e, como só pode acontecer com Lobo Antunes, o esforço que requer a leitura vê-se altamente recompensado pela desoladora beleza que transmitem as suas páginas.

Na cama de um hospital, só e com as recordações da dor, António invoca Antoninho e com ele o seu passado, enquanto que no seu corpo se vai alimentando um ouriço de castanheiro que come as suas entranhas, o mesmo com que o pai desgastava a saúde da mãe nos episódios de amor furtivo com a criada na despensa. “Não o contes a ela”.

Assim impedido, enquanto os médicos tentam adiar-lhe a morte, vê a vida passar através dos sonhos de então. A viagem à Serra da Estrela para contemplar a nascente do Mondego e os pequenos detalhes num mundo que se desmorona: a mancha na pia, a persistente gota de chuva no sapato, o cheiro da marmelada, os amores esquivos ou a lembrança do avô com a mão côncava sobre a orelha para escutar as conversas.

Trata-se de uma obra autobiográfica. Há alguns anos António Lobo Antunes foi internado devido a um cancro e nessa luta entre a vida e a morte, guiando-se pelo rio da sua infância, traçou o leito que vem desde o nascimento até afluir na actualidade. O sentimento de finitude está sempre presente no escritor, desde o momento em que deixou a sua existência cómoda e se viu dentro da guerra colonial. Angola, de quando o rebenta minas, que seguia à frente abrindo o caminho e detectando a morte, se apresentava a ele e lhe dizia: “Venho despedir-me de si, meu tentente. Amanhã vou embora...”. Esse sentimento de finitude levou-o em muitas ocasiões a obcecar-se com a ideia de que não iria ter tempo para escrever o que realmente queria escrever. Nas entrevistas, insiste em afirmar que sem a escrita nada faz sentido, ou tudo fica, no mínimo, mais reduzido.


por Luis M. Alonso
04.02.2014
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

3 de março de 2014

Bernardo Carvalho: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos

Lágrimas de crocodilo

Os romances do português António Lobo Antunes [...] são feitos de frases e parágrafos abortados, que terminam por formar, nessa composição fragmentária de interrupções, uma trama complexa, revelando os sentidos mais surpreendentes.

Ao jogar com uma simultaneidade de tempos, que parece mimetizar os mecanismos da memória num estado ambíguo de pesadelo, essas narrativas contam as coisas mais inesperadas, de repente, escondidas no meio de outras insignificantes. E, aos poucos, por meio desse enorme quebra-cabeças romanesco, o leitor começa a vislumbrar a imagem de um mundo onde a hipocrisia é um dos fundamentos.

Não é uma tarefa simples ou passiva, como a de quem se prostra diante de uma tela de televisão. São livros que exigem uma leitura activa num jogo de combinações em princípio muito nebulosas. São livros que propõem uma leitura inteligente, cuja recompensa é um prazer sempre renovado: um mundo em que podem ser descobertos novos segredos a cada releitura, em retrospecto, a partir do instante em que se conquista a chave final.

Os livros de Lobo Antunes não entregam esse mundo de imediato. Primeiro, abrem apenas frestas, por onde se tem uma visão parcial da realidade narrada. As visões vão se acumulando de maneira entrecortada, são interrompidas justamente no momento em que deixariam de ser visões parciais para se tornar revelações, que são sempre postergadas.

E assim, por diferentes pontos de vista e pela voz de diferentes personagens, vai surgindo gradualmente uma dimensão tão mais real por oferecer várias portas de entrada, uma dimensão enigmática que parece de facto existir por trás das palavras.

Em "Exortação aos Crocodilos", [...] quatro mulheres contam uma história terrível, semeando revelações pelo caminho, enquanto misturam as lembranças remotas, da infância de cada uma, com um passado mais recente, em que servem a um grupo de homens de extrema direita, salazaristas saudosos, que organizam atentados contra a democracia, produzindo bombas caseiras e se encarregando de raptar, torturar e desaparecer com "comunistas".

É possível ver aqui uma referência ao thriller político "Balada da Praia dos Cães", de José Cardoso Pires, romancista português [falecido] em 1998, de quem Lobo Antunes é declarado admirador. A organização integrista clandestina é formada por um general, um dono de hotéis e seu motorista, um oficial da marinha e um bispo. Além das quatro narradoras: a viúva do sócio assassinado do dono de hotéis; a mulher surda do dono de hotéis; a "afilhada" (e amante) do bispo e a namorada obesa do motorista encarregado da confecção das bombas.

Vem a calhar que esse texto seja feito de estilhaços, e que nele o leitor construa a imagem de um mundo por suas impressões fragmentadas. Lobo Antunes é psiquiatra de formação e sua ficção parece mimetizar as ondas cerebrais num estado em que a consciência é dúbia, em que há simultaneidade de tempos e ocorrências, em que não dá para saber ao certo o que é realidade e o que é metáfora. Um estado febril, que só se dissipa com a surpresa final, diante da morte.

Uma narrativa enumerativa, sincopada e progressiva, que vai sobrepondo momentos, factos e objectos da memória, entrecortados pela recordação de outros momentos, factos e objectos numa espécie de processo de livre-associação em que o sentido vem do acúmulo, quando por fim se constata, com espanto, o que aconteceu realmente por trás da nebulosa da memória.

É uma construção narrativa em suspense, já que as frases e parágrafos se interrompem no momento em que estão para dizer algo. "Não diga nada" é, aliás, um dos vários refrões do texto e define não apenas o princípio do comportamento hipócrita e a base dessa actividade terrorista e clandestina que acaba se invertendo contra si mesma, mas também a fórmula da traição e do costume de enterrar os próprios podres às escondidas.

A certa altura, a namorada do motorista lembra-se de quando lhe perguntaram na escola, em criança, o que era a pátria. A que ela respondeu: "São caixas de mármore com pedacinhos de manto, caveiras, coisas mortas", antes de ser corrigida por uma amiguinha, que lhe esclarece que a pátria é "onde a gente nasceu". Lobo Antunes tem outra resposta: a pátria é onde tudo é feito às escondidas, o lugar das traições e da hipocrisia, onde choram os crocodilos.


por Bernardo Carvalho
colunista da Folha de São Paulo
em 29.01.2000

25 de fevereiro de 2014

Luís Osório: «Tudo arde desde o princípio» (opinião no Jornal SOL14.02.2011)

caricatura por Luis Levy Lima
Apaixona-se pelas suas personagens, desespera com o seu sofrimento, exalta-se com as suas conquistas.
É uma memória difícil.

Foram poucas as conversas, pelo menos não as suficientes para agora me custar a elas regressar. É curioso: ele dizia-me que há pessoas que nos tocam com um dedo e fica uma nódoa negra que não passa. E o António deixou-me uma nódoa negra que desvalorizei com zelo e constância.

De vez em quando falo sobre o assunto com Daniel Sampaio, seu amigo íntimo. Ainda na passada semana contava-me da sua felicidade ao ser reconhecido em Paris, mais uma vez, como um dos melhores escritores da história da literatura.

António Lobo Antunes. O que direi das suas palavras, ou do seu efeito em mim, é de pura memória. Tenho poucas certezas sobre a sua verdade, mas absoluta convicção de que se tornaram o espelho de si quando dele me recordo.

Tivemos um pequeno desentendimento e nunca nos encontrámos para o esclarecer. Isso tem hoje pouca importância. Acontece-nos muitas vezes, não é? Passamos pela vida, abrem-se e fecham-se portas, e vamos calando o que devíamos gritar e gritando o que calado deveria estar.

Ele não gosta de falar da guerra. Mas, do que me contou, recordo a lembrança de Ernesto Melo Antunes. As noitadas que passavam a discutir poesia ou em silêncio após os bombardeamentos. Os jogos de xadrez. E uma ou outra vez, no rescaldo dos confrontos, António via-o a passar nas trincheiras com uma lanterna na mão e a servir de alvo. Perguntou-lhe por que o fazia – e Melo Antunes ofereceu-lhe uma resposta que o marcou profundamente: «Sabes, António, é que às vezes me apetece tanto morrer».

As suas personagens estão vivas. Mesmo as dos livros mais antigos falam com ele quando tem o aparelho dos ouvidos desligado. Então, na escrita de um novo livro, o exercício transforma-se na própria vida. Apaixona-se por personagens, desespera com o seu sofrimento, exalta-se com as suas conquistas, torna-as vivas em si. Elas crescem e tornam-se a sua companhia, a sua obsessão.

Quando escreve desliga o aparelho e abandona-se a elas. E elas parecem gostar da exclusividade e detestam partilhar atenções. Há momentos em que desliga o aparelho mesmo quando sai do escritório onde escreve. E nos jantares incómodos utiliza o seu truque preferido: é um verdadeiro especialista naquilo que baptizou ser a técnica do ‘sorriso ausente’. Posso comprovar o quanto resulta… As pessoas a dizerem--lhe coisas – «Dr. António, como está hoje?, gosto muito de si, os seus livros isto e aquilo, vi-o na revista ou na televisão» – e ele a sorrir e a não fazer a mais pequena ideia do que lhe dizem.

Também por isso o intervalo dos livros costuma ser penoso. Não sabia o que fazer com o aparelho a funcionar, perdia-se nas ruas à procura de um sinal para um novo livro ou para, de uma vez por todas, deixar de escrever e poder ser como os outros.

É esse o seu grande paradoxo: deseja matar as personagens e libertar-se das páginas dos livros onde muitas vezes se sente aprisionado, mas não consegue viver fora deles. O que fazer? «Por vezes sinto-me a rapar o tacho, percebes? Os escritores apodrecem com o tempo e o melhor é parar porque o mais certo é destruírem tudo o que conquistaram antes. Mas como fazer isso? Sinto-me culpado e infiel quando não escrevo».

Compreendia-o. Como não? Um dia, um doente no Miguel Bombarda quis contar-lhe um segredo. E só o fez quando percebeu que estavam sós e não havia perigo. Com enorme solenidade, confessou-lhe que o mundo fora feito por trás, pediu-lhe para pensar no assunto, mas que não contasse o segredo a ninguém.

António não lhe ligou nenhuma. Só que o segredo ficou – e passou a ser uma tábua de sabedoria. A partir daquele momento percebeu que a sua escrita tinha de levar uma volta. Começou a escrever por trás para deixarem de estar visíveis os pregos e as costuras: a sua tentação de mostrar tudo pela frente, a tentação de mostrar o quanto era talentoso e genial passou a ser vista como uma ridicularia.

Falámos de loucura, claro. Que para ele se resume às nossas características, amplificadas por defeito ou por excesso. Mais uma vez as conversas comuns com o Daniel que nunca utiliza o termo ‘normalidade’ para definir o que quer que seja. Há remédios para rir e chorar, há médicos que colocam limites mais largos ou estreitos para definir a loucura, há médicos que se tornam psiquiatras para perceber as suas próprias fronteiras e fantasmas.

Há tudo e não há nada. António sabe--o e pressente-o nas entrelinhas.

Recordo o que dizia das suas filhas e da morte.

Das três filhas, confessou-me que desejava deixar-lhes um vinco na alma. Não uma nódoa negra. Isso aparece na pele mas não tem grandes consequências, por serem centenas e indiscriminadas. Um vinco na alma é diferente – é uma ligação inexplicável, é amor verdadeiro e mais forte do que os livros e a própria vida.

Da morte, houve várias que o transformaram (que nos transformaram) numa espécie de cemitério privativo aberto 24 horas por dia. Recordo-me de me ter falado da Margarida, a mãe da sua mãe, e do quanto se arrependeu de a ter visto morta no caixão. Arrependeu-se muito porque agora, quando fecha os olhos, é morta que a vê; e há dias em que lhe é impossível recordá-la viva. «Deitados e mortos parece que nada nos assenta bem, não achas?».

Acho que não, António. Nada nos assenta bem. Na escrita é, apesar de tudo, mais fácil. Tudo depende da habilidade com que falamos aos que fazemos nascer. Alexandre Herculano dizia de Almeida Garrett que este era capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita.

Lobo Antunes citava esta frase ao falar do amigo Reinaldo Arenas – grande escritor cubano que se suicidou depois de escrever o premiado Antes que Anoiteça. Falaram ao telefone nos dias que antecederam a sua partida – e Reinaldo, angustiado, contou-lhe o que ia fazer.

António não lhe ligou nenhuma. Julgou que Arenas estava numa fase de ‘fúria dramática’, uma fase que encontrava a muitos no hospital, na vida e nos romances. Mas enganou-se: Arenas, em Nova Iorque, partiu como prometera. António ficou sem palavras – sem palavras e sem uma palavra.

O que farei quando tudo arde? Pergunta que, estou certo, nunca terá feito. António Lobo Antunes sabe que tudo arde desde o princípio.


por Luís Osório
fonte: Jornal Sol
14.02.2011
[a caricatura de Luis Levy Lima não acompanha o texto na fonte citada]

18 de fevereiro de 2014

Raquel Ribeiro: crítica a Não É Meia Noite Quem Quer

A cerimónia do adeus


Uma mulher, uma longa despedida, triste, sem uma réstia de esperança ou de consolo

Onze romances nos últimos doze anos, mais os livros de crónicas: é este o saldo da produção literária de António Lobo Antunes que agora publica Não é Meia Noite Quem Quer, o seu vigésimo quarto romance.

Se no romance anterior, Comissão das Lágrimas, mergulhava no horror e na violência das purgas do MPLA e do 27 de Maio de 1977, em Angola, neste, o autor regressa a temas que lhe são caros: a doença, a morte e a família (dis)funcional tão portuguesa, tão comezinha, pretexto para mergulhar num romance quase-polifónico que percorre os últimos 60 anos de uma família que é também um micro-retrato do país. Aqui, o autor regressa a tipos-de-personagens que já são comuns no seu imaginário: um pai bêbado, uma mãe semi-histérica (“já viu a minha cruz?”), um “irmão mais velho” que não queria ir à guerra (“que se atirou às ondas para não gramar este frete”), um “irmão surdo” a tentar falar (“o silêncio como o meu irmão surdo silêncio e no fim do silêncio a gravidade com que se encerra um discurso”: “ata titi ata”), e um “irmão não surdo” que veio louco da guerra (“deixávamos-lhe a travessa na mesa onde vinha comer quando ninguém na sala, não podíamos falar-lhe nem vê-lo, tapou a fechadura com papel, não respondia à gente”). Ou seja: histórias em continuum, como se de um romance para o outro pouco se perdesse (ou se ganhasse) com as circunstâncias de cada personagem, histórias de desconforto, confortáveis para o autor (que está no seu elemento, sempre), confortáveis para o leitor que o conhece (porque não o defrauda), desconfortáveis para quem esperava sempre mais.

O romance é dominado por um narrador principal, feminino, uma professora de 52 anos (“se espreito para trás vejo pouquíssimos, espalhados na memória entre triciclos e doenças”), que teve um cancro na mama, perdeu um filho, vive um casamento falhado, refugia-se numa relação lésbica com uma colega na escola e enceta uma longa cerimónia do adeus em três dias, numa casa de praia da família, revivendo a infância, os falhanços, as amizades perdidas e os amores frustrados: “Vim despedir-me da casa ou do meu irmão mais velho e, através dele, de mim mesma, não sei.” É uma mulher a jogar com a memória (a esquecer, a lembrar) e o pai a chamar-lhe “Menina”, como o outro dizia “voar, Celina, voar” (em “Exortação aos Crocodilos”). Nesta despedida, triste, sem uma réstia de esperança (desde o início, o texto empurra-nos para aquele abismo do Alto da Vigia: será que também vai cair?), sem sequer um pequeno consolo, nem no presente, nem no passado, tudo se desfaz, sem consistência, como o pão esfarelado em migalhas pelo pai bêbado à mesa.

Os narradores são quase todos femininos (a mãe, a colega lésbica, a amiga de infância), confundem-se e intrometem-se no discurso da narradora principal. Apenas os narradores de capítulo têm marcas discursivas muito fortes, seja a colega lésbica cujo pai esteve preso durante o fascismo, seja o irmão “não surdo” que tem um discurso corrosivo sobre a sua experiência em África e fala com a velocidade de uma uzi: “Já mamei as duas grades, não mamei e, daí em diante, a pessoa do costume, só que mais feliz, passando a mão cuidadosa no camuflado, gosto deste fatinho, e amarrando um lenço ao pescoço porque lhe faltava a gravata, interrogava em torno quando é que vamos aos pretos, numa das últimas saídas uma metralhadora pôs-lhe as tripas de fora.”

No entanto, no meio de tanto ruído de vozes que se sobrepõem e se obliteram (“se pudesse comunicar em quantas vozes a minha voz se dividia”), é nisto que Lobo Antunes consegue ser igual a si mesmo, e isso é tão bom, arrastando o leitor por uma cacofonia incómoda e depois confortando-o com imagens belíssimas: “No quarto de banho, em bicos de pés para diante, a estender o beiço ao vidro embaciado com uma toalha que prejudicava a nitidez, quando chove durante a noite não apenas um cheiro diferente, a casa diferente perdendo ecos e sons, a chuva entre no sono mudando o argumento dos sonhos, regressamos à superfície e damos conta das persianas, a certeza que nos chamam numa harpa de gotas e afundamo-nos de novo transportando um rastro de música connosco.”

E esta: “ - Como está o rim flutuante do seu sobrinho dona Alice? / a dona Alice com a almofada metade ao léu e metade no interior da fronha / - Uns dias melhor outros pior querem operá-lo de barriga aberta”. E só mais esta: “Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar.”

Isto é Lobo Antunes em “piloto automático” e é (só) por isso que é bom. Por vezes, sente-se que o que aqui está em causa, nestes “estados de consciência”, é, apenas, a imagem pela imagem a assomar-se, a intrometer-se, a aludir ao passado, às ligações do corpo e da memória, mas, por vezes também, repetitiva, entediante, a arrastar as pantufas no quarto da escrita.

Conclusão: o leitor fiel reconhecerá neste romance o imaginário caro a Lobo Antunes e não ficará a perder. Mas ao leitor que ainda não provou deste arquipélago da insónia aconselha-se que comece em 1979 e não pare até ao Esplendor de Portugal. De facto, não é escritor assim quem quer, mas por ser Lobo Antunes não só se poderia exigir mais, mas também melhor.


Raquel Ribeiro
[não datado]

16 de fevereiro de 2014

As capas dos livros - várias edições em Portugal e estrangeiro

Caros Leitores:

Estamos a mostrar as capas das várias edições portuguesas e estrangeiras dos livros de António Lobo Antunes, através de álbuns de fotografias na nossa página do facebook - um álbum para cada título. De algumas edições ainda não foi possível obter imagem, e outras nem conseguimos saber ou a editora ou o ano de edição. Quem quiser colaborar nesta mostra, pode colocar na página a imagem de uma qualquer edição que tenham ou conheçam e que não conste dos álbuns criados. Adiconem toda a informação que tenham da edição que estão a mostar.  Essa imagem irá constar do álbum referente ao título do livro. 


Isto para dizer que os álbuns sobre as capas dos livros que acabamos de colocar até ao último título publicado por ALA não são estanques. Quem quiser acrescentar pode "postar" a imagem da capa que tenham na página ou enviar para jalexramos@gmail.com

Já agora, outras fotos e matérias serão também bem vindas, sempre. E de maior relevo as vossas opiniões de leitura.

Obrigado.

José Alexandre Ramos - António Lobo Antunes na Web

9 de fevereiro de 2014

Leandro Oliveira: «O gesto de António Lobo Antunes»

Lobo Antunes procura construir sua obra tendo como pilar a proposital e complexa incompletude narrativa

foto de David Clifford

A pedagogia literária clássica dos séculos XIX e XX ensinou o leitor a caminhar pelo enredo do romance, acompanhando o desenvolvimento de personagens, reconhecendo as fronteiras do espaço na acção, percebendo as nuances na configuração de um drama até [à] sua conclusão chave. O legado deixado é o do leitor que erroneamente vê como sinónimos romance e narrativa. Portanto, nesses tempos em que tanto se discute o fim do romance, é um prazer descobrir a obra de António Lobo Antunes, um escritor que tenta através de sua obra fundar uma nova maneira de percepção do texto em prosa. Isso porque ela representa a mais radical experiência de ruptura dessa estrutura clássica do romance, através do caos de um texto que procurar apresentar uma noção de sujeito na pós-modernidade, tendo como insumo à impossibilidade objectiva de instaurar valores e perpetuar tradições, a angústia do mundo interior do indivíduo e a desagregação de toda ordem – inclusive literária. Nessa tentativa de explorar novas formas do texto literário há ainda um esforço de abolir a expectativa de linearidade, herdada pelo leitor, por meio da polifonia e esse é um dos motivos de seus livros serem classificados como difíceis. Para Mallarmé, “nomear um objecto equivale a suprimir os três quartos de prazer da poesia, que é feito de adivinhar pouco a pouco”. Em Lobo Antunes, o recurso de adivinhar pouco a pouco é evidente, os sentidos são encontrados pela combinação das diversas vozes e pelo modo como são apresentadas, por exemplo quando a repetição circular de uma afirmação traz em si o sentido exactamente oposto, como se o enunciador tentasse convencer a si mesmo daquilo que diz.

A poesia também está presente nos livros de Lobo Antunes pelo modo como a linguagem é utilizada pelo escritor. Tal qual a poesia, a obra de Lobo Antunes parece colocar em primeiro plano a linguagem, tornando-a estranha, e sem, contudo, transformá-la em prosa poética, tal como o fazem alguns autores. A organização rítmica permite à linguagem apresentar-se prazerosa ao leitor e a pergunta a respeito do sentido vem somente após o impacto da beleza do texto. É possível afirmar que a maior conquista da obra de Lobo Antunes é sua prosódia numa linguagem livre da função exclusivamente comunicativa. O gesto faz ressignificar as descrições banais e pensamentos fugidios através da montagem de fragmentos, como peças de um brinquedo Lego, que possui apenas alguns encaixes básicos, pequenos fios entrelaçados, surgindo daí a possibilidade das mais criativas conexões.

Com uma subjectividade marcada pela linguagem poética e enredos montados por fragmentos que vão se alongando por meio da circularidade como são apresentados, tornando as imagens mais discerníveis através da sua recorrência e a revelação de novos detalhes nos múltiplos pontos de vista das diversas vozes narrativas que compõem os textos literários, Lobo Antunes procura construir sua obra tendo como pilar a proposital e complexa incompletude narrativa. Por isso, a tentativa directa de interpretação dos textos ficcionais buscando explicitar efectivamente o sentido que querem dizer, tomando como referência a estrutura e o enredo do romance clássico, seria uma actividade improfícua, dizendo muito pouco sobre o texto, uma vez que o próprio autor rejeita interpretações inequívocas de seus livros. “Não existem nas minhas obras sentidos exclusivos nem conclusões definidas: são, somente, símbolos materiais de ilusões fantásticas, a racionalidade truncada que é a nossa. É preciso que se abandonem ao seu aparente desleixo, às suspensões, às longas elipses, ao assombrado vaivém de ondas que, a pouco e pouco, os levarão ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito” disse o escritor em certa ocasião.

Um texto difícil, com sua polifonia que torna o sentido indefinido, fragmentado, seriam essas as características representativas da literatura desse novo século? Basta pensar nas discussões em torno dos conceitos de modernismo e pós-modernismo. De um lado, uma arte balizada pelo gosto pela transgressão, como retratou Peter Gay, e do outro, como caracteriza Jean-François Lyotard, uma sociedade que perdeu toda motivação ideológica e espiritual para se manter em andamento. A resposta dada pela obra de Lobo Antunes parece ser o meio caminho entre um e outro, dizendo que há mais incompreensão das possibilidades de sentido na multidão de signos que devem ser interpretados e reinterpretados que precisamente falta de esperança. Pragmatismo, iconoclastia, efemeridade de propostas, ideias e acções contraditórias, descentramento e o isolamento do sujeito na obra de Lobo Antunes surgem da incapacidade de narrar do sujeito e não de uma compreensão totalizadora da realidade contemporânea. Desse ponto central é que brilha a liberdade de uma prosa desobrigada a colocar em primeiro plano relações de causa e efeito, revendo a herança de modernidades. Essa é, talvez, a obra que mais radicalmente representa o momento de transição pelo qual passamos, quando vários modelos literários vão sendo abandonados e diversas tentativas de criar outros em substituição vêm surgindo.


Leandro Oliveira
crítico e jornalista cultural
08.02.2014

8 de fevereiro de 2014

Imagem da Palavra

25/07/2013 - O Imagem da Palavra apresenta entrevista gravada com o escritor português António Lobo Antunes. O autor de Eu hei-de amar uma pedra comenta sobre a influência da psiquiatria em sua obra e sobre como é escrever seguindo o fluxo da consciência. O programa também convidou um leitor, um livreiro e um crítico de literatura para relatarem a experiência de se ler Lobo Antunes

1ª parte:
 

2ª parte:


3ª parte:

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...