19 de janeiro de 2014

Retomamos o projecto António Lobo Antunes na Web!

BEM VINDOS!


Retomo a partir de hoje o trabalho desenvolvido ao longo de dez anos no projecto António Lobo Antunes na Web. O projecto está, agora, centrado em duas frentes: o blog/site não oficial em www.ala.pt.la (ou www.alaptla.blogspot.com) e a respectiva página de facebook.

Como o trabalho foi interrompido em Outubro de 2012, salvo alguns posts colocados em Janeiro de 2013, a seu tempo as imagens e links que entretanto caducaram serão repostos. De qualquer forma, o trabalho de recolha de críticas, opiniões de leitura, entrevistas, enventos e outras notícias continuam disponíveis no endereço referido, como nunca deixaram de estar.

Agradeço toda a vontade com que antigos e novos colaboradores queiram ajudar a continuar fazendo do site não oficial de António Lobo Antunes o sítio de maior e melhor referência sobre a obra do escritor na Rede.

Existe um e-mail à vossa disposição: jalexramos@gmail.com. Também podem, como é evidente, deixar as vossas ideias, opiniões e mais o que queiram, nas mensagens privadas da página de facebook e nos comentários aos artigos que aqui e lá forem sendo publicados.

Espero que as vossas visitas a este sítio sejam sempre com o entendendimento que o projecto (blog/site e facebook) não é de António Lobo Antunes, mas meu, em sua homenagem.

Obrigado,

José Alexandre Ramos

2 de novembro de 2013

Diário de Notícias: Lobo Antunes anuncia novo romance para 2014 - Dia do escritor no CCB

O CCB dedicou o dia de [29 de Outubro] à obra do escritor que acaba de lançar mais um livro de crónicas e tem novo romance prestes a sair: "Caminho Como Uma Casa Em Chamas".

Maria Rueff, comovida com António Lobo Antunes, e Guilherme de Oliveira Martins Fotografia © Sara Matos/ Global Imagens

Sairá primeiro na Holanda e só depois em Portugal, mas uma coisa é certa: no início do próximo ano há novo romance de António Lobo Antunes. Chama-se Caminho Como Uma Casa Em Chamas e passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos. O anúncio foi feito ontem à tarde no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, perante uma sala cheia de leitores apaixonados.

Porquê na Holanda? "Porque na Holanda há bicicletas de longos cabelos louros e luminosos a cruzarem as ruas", explicou o escritor, ainda debilitado por um internamento hospitalar recente antes de afirmar: "Não trocava os meus livros pela minha saúde."

A actriz Maria Rueff tinha 15 anos e o pai internado no hospital Miguel Bombarda, quando a irmã lhe deu a descobrir o livro Memória de Elefante. Numa das visitas ao pai levou o livro, armou-se de coragem e bateu à porta do médico que o tinha escrito. Ele recebeu-a, autografou-lhe o livro e foi o primeiro a grafar-lhe o nome pelo qual viria a tornar-se conhecida: Maria Rueff. A mestre do riso chorou e fez chorar a sala do CCB, onde estavam presentes Eduardo Lourenço, Júlio Pomar, Ana Luísa Amaral, Mário Vieira de Carvalho.

"Amo-o tanto que não sei amá-lo academicamente", foi com esta declaração de intenções que Rueff disse aquilo que muitas pessoas na assistência gostariam de dizer: que encontrou na obra de Lobo Antunes "o sublime que nos salva" antes de recordar o seu primeiro e decisivo encontro com o escritor.

Depois de uma tarde de intervenções de vários académicos, e leitores, António Lobo Antunes agradeceu "a ternura" e disse não conceber o mundo "sem ternura e generosidade". Numa intervenção curta o escritor defendeu que a "literatura não é um prazer", é sim "um alto preço que se paga em saúde, em esperança e em confronto constante com os próprios erros e limitações".




Este Dia Lobo Antunes é uma iniciativa do Centro Nacional de Cultura (CNC), em parceria com o CCB. Os presidentes das duas instituições, Guilherme d"Oliveira Martins e Vasco Graça Moura, defenderam a importância desta homenagem dizendo que Lobo Antunes "é um escritor que já tem uma obra maior mas que está ainda no seu apogeu criativo". E cuja obra "tem uma dimensão nacional e internacional sem comparações porque ele compreende as pessoas através da literatura".


fonte: Diário de Notícias
28.10.2013
texto de Joana Emídio Marques

22 de setembro de 2013

Capa de Quinto Livro de Crónicas


Compilação de pequenos textos publicados na revista Visão em que o autor aborda temas do foro pessoal, quase como o espelho de uma reflexão interior ou do que lhe vai na cabeça e na alma combinando autobiografia e ficção de forma criativa. Sendo muito mais acessíveis ao público do que os romances do autor, estas crónicas não descuram uma forte componente literária.

12 de janeiro de 2013

Celeste Pereira: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Há já tanto tempo que não escrevo uma opinião acerca de um livro que, francamente, nem sei bem por onde começar. Ainda por cima um livro de ALA… Convenhamos que não é a coisa mais simples de fazer.

Confesso que, genericamente, gosto dos livros de ALA. Mais de uns, menos de outros, mas sempre me dão um prazer imenso ler. Pela qualidade da escrita e pelo desafio que, normalmente, comportam.

E, mais uma vez, assim aconteceu. Li-o há já uns tempos e foi daqueles livros que não me apetecia pousar. Não me importava até de o ler de novo, mesmo imediatamente a seguir (o que, regra geral, considero uma parvoíce tendo em conta a imensa multidão de livros bons que nunca terei tempo de ler). Além disso, desde logo cresceu em mim uma grande vontade de falar sobre ele, dizer o quanto me tinha agradado, o quão refrescante é ler um livro que nos preenche.

Pois bem, foi um caso de identificação desde o início. Em primeiro lugar talvez porque, em determinados aspectos, me seja fácil identificar-me com a personagem principal e compreendê-la. Temos idades parecidas e, também eu, em criança, ia passar férias numa casa, junto ao mar, à qual já não tenho acesso. Também eu teria gostado de me ter despedido dela, de relembrar tempos, de ressuscitar memórias…Mas, na verdade, termina aí mesmo o paralelismo das nossas vidas.

O livro, como outros de ALA, decorre num período de tempo muito curto; três dias. A narrativa inicia-se na sexta-feira e termina no domingo.

São apenas três dias na vida de uma mulher mas neles convergem cinquenta e dois anos de lembranças nas quais cabem alegrias, entusiasmos, sonhos, expectativas e desapontamentos.

Naquele rendilhado sublime de tempos e espaços que são, seguramente, marca incontestável do autor e que aqui atinge uma mestria desconcertante, vão desfilando as tardes de Verão passadas na praia com a mãe. As imagens do relacionamento patético dos seus pais. A sua amiga que vive na casa do lado e que, mais tarde, nem a reconhece nem lhe aceita a relembrança. Mas também a perda do seu filho que nunca foi. A sua vida de desesperança. A sua procura de conforto nos braços de duas colegas, que não deseja. A doença. A mutilação. O medo… 

Revive as viagens sentada no quadro da bicicleta do irmão mais velho, o mesmo que salta da falésia como o burro escanzelado que também dela resvalou. O balbuciar desajeitado do seu irmão surdo-mudo. A embriaguez do pai. O remorso da mãe. A loucura do outro irmão resultante das suas experiências em África, na guerra… 

A saudade de ser amada pelo marido. A frustração de ser professora numa escola, por aí. Os segredos que escrevia e que escondia no muro do jardim. A despedida. O fascínio pela falésia com os burros e as cabras de patas finas. Os melros, os muitos melros da casa, E, quem sabe, o fim.

Um livro fabuloso. Um livro a não perder sob pretexto algum.

Mais uma vez um momento alto do escritor António Lobo Antunes.


Celeste Pereira
15.12.2012
Ponto de Cruz

5 de janeiro de 2013

Paula, do blog Viajar pela leitura: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Ler Lobo Antunes e ler este livro foi uma estreia em grande. Em grande, porque não conhecendo a restante obra do autor não sei se a sua escrita segue o mesmo estilo ou se é diferente. O que sei é que esta obra não segue os parâmetros que estamos (estou) acostumados.

Não é uma leitura fácil, eu diria até que bastante difícil. Uma escrita propositadamente confusa, onde os pensamentos sobrepõem-se às recordações, onde as palavras somam umas a seguir às outras, muitas vezes sem ligação entre si, mas espantosamente com um objectivo lógico!

Ao longo da leitura vamos conhecendo personagens ímpares e que poderiam ter existido no nosso tempo real… o sofrimento vivido por estes e as acções que desenvolvem não nos são estranhas.

A narrativa dá-nos a conhecer uma mulher adulta que visita a casa onde passou a sua infância e todo o sofrimento de que foi alvo. Sofrimento este que segurou toda a sua vida como se fosse algo importante até que uma questão se impôs: continuar a sofrer ou terminar com o sofrimento?

A perda de alguém próximo e querido – um irmão – é algo tão doloroso que transforma tudo à sua volta, a casa, os objectos, as relações e não transforma somente a infância, mas toda a vida. Um sofrimento que é um cancro, tal como o cancro que teve no peito. Uma vida mesclada pela dor e pela desgraça que teima em permanecer.

É de saudade e tristeza que esta história é feita, saudade de um passado – de o (re)viver, de o alterar – um ruminar de recordações amargas, onde somente a morte colocará um ponto final!

Gostei muito desta leitura, é sem dúvida uma escrita diferente, impõe atenção, reflexão, pode até causar algum cansaço devido à sua estrutura, é um desafio constante (no bom sentido).

Excelente, no entanto recomendo a leitura com algumas reservas pelas razões que apresentei!


Paula
01.12.2012
... viajar pela leitura

24 de novembro de 2012

Artur Guilherme Carvalho: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Os livros do Mestre são bilhetes deixados na beira de um penhasco que nos convidam a saltar, não têm meio-termo. Ou vamos ou ficamos do lado de cá a ver o que poderia ter sido uma boa leitura. A opção do salto é uma vertigem, um bailado entre o medo e a ansiedade, uma entrada a pique num universo que nos é proposto, sem rede nem protecções. Sabemos como entramos naquele mar que nos convida com a certeza de que nunca sairemos dali da mesma maneira. Uma parte de nós fica para trás enquanto um outro tanto acaba por ser adquirido na viagem. Os livros do Mestre não são para ler, com a pontuação arrumada, as ideias lavadas e a narrativa alinhada por pesos e alturas. Os livros do Mestre são autênticas aventuras dos sentidos que nos atropelam em cada frase estilhaçada, em cada pensamento intermitente, em cada personagem que começa a falar e pára de repente para continuar mais adiante, indiferente ao tempo a que se refere e a quem lhe termine a frase. Mas no ambiente caótico deste mar de escrita, tal como no mar real, o truque é abandonarmo-nos às vagas, deixar que a corrente nos leve, apreciar essa vertigem de estar num mundo que não dominamos e fazer a viagem. Essencialmente “sentir”, permitir que as células do romance se confundam com as nossas, ver no silêncio o desenho do diálogo do leitor com os outros personagens.

Descendente do (para mim) melhor romance da obra do Mestre (“Explicação dos Pássaros”), este “Não É Meia-noite Quem Quer” apresenta-se num fim-de-semana de despedida de uma mulher que visita a casa de férias da sua infância antes de se suicidar. Em ambos os romances estamos perante a morte anunciada, suicida ou não, do personagem central. Se no primeiro caso se vai desenrolando a desarrumação total da vida presente do homem, neste é a recordação da vida que se arruma na cabeça de uma mulher com 50/60 anos. A memória de uma família em que todos sofrem para dentro, em que os gestos de carinho são intenções que ficam suspensas no ar, quatro filhos, um pai bêbado e uma mãe austera, um espaço familiar em que o pudor de demonstrar o afecto é tão grande que ninguém acaba por perceber bem, sequer, se alguém gosta de alguém. As memórias de uma mulher que carrega consigo a dor da morte do irmão que se recusou ir para a guerra e se atirou do penhasco, do outro que voltou da guerra e se afastou da família, do surdo, da mãe adultera e disciplinadora que a segurou ao colo uma vez, do pai que se escondia na dispensa no meio das garrafas, de um marido que foi mais acidental do que passional, das amigas com que partilhou afectos. E mais importante para quem recorda antes de morrer, não é saber se foi feliz, não é pescar remorsos, rancores, culpas, maravilhas por explorar. Apenas fazer correr o filme de uma vida, repetir cenas, frases e gestos e encontrar finalmente a estação da aceitação das coisas na sua realidade mais óbvia. Não se trata de perdoar nem muito menos aceitar o que quer que seja, mas fazer do registo um exercício de testemunho existencial. Esta foi a nossa vida, vamos morrer a seguir, uma coisa e de pois outra sem etiquetas nem grandes pensamentos para embrulho. Assim é a existência, esse fenómeno pouco seguro, pouco dado a certezas e justificações, essa simples vivência, objecto de registo e indiferença, de memória e tentativa de compreensão.

“Não É Meia-noite Quem Quer” é mais um momento de paixão e vertigem em que as páginas se percorrem sem cansaço num mar de memórias de uma mulher que tenta fazer as últimas arrumações do seu passado e, desse modo, o registo da sua existência. Ficamos amigos dela sem reservas a partir do momento em que a sua história se torna a nossa história, em que a sua respiração nos devolve o ar, em que o seu coração nos faz circular o sangue das nossas veias. Porque a Humanidade é apenas uma.

Obrigado Mestre. 

Artur Guilherme Carvalho
12.11.2012
As Partes do Todo

2 de outubro de 2012

Os três textos vencedores do passatempo Não É Meia Noite Quem Quer

Temos o prazer de anunciar os três textos vencedores do passatempo que decorreu em Setembro a propósito da publicação do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer

Os autores dos textos já nos confirmaram a sua participação por e-mail, dentro das 24 horas previstas. Cada uma receberá - oferta da LeYa - D. Quixote - um exemplar do novo livro a publicar dia 8 de Outubro.

Aos três os nossos parabéns.

O Meia-Noite
texto da autoria de Paulo Leote e Brito
Albufeira


As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal. 

- “Meia-Noite” anda tomar os comprimidos! 

- À meia-noite! 

respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem. 

- À meia-noite não pode ser, já estás a dormir! 

às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil 

- Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora. 

respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições. 

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil, 

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios. 

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº 2. 

- Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites. 

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse. 

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca. 

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe 

- Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”? 

pela primeira vez não respondeu de pronto, 

(- À meia-noite!) 

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta 

- Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?! 

e acrescentou de imediato 

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!



A vingança das naus
texto da autoria de Anabela Pereira
Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite.

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida de quem nos mata. Quem desceu na história
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado
das paixões da alma, da explicação dos pássaros,
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue,
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la,
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas.

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa
nessa noite escura? Nessa lama cega,
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra
em que me sentei a escrever d'este viver
aqui, neste papel descripto.



António
texto da autoria de Alexandra Malheiro
Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve. 

O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva. 

Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 

Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António. 

- É doida você? 

Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai. 

- É doida você? 

Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve. 

- É doida você? 

Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele. 

Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!” 

- É doida você?

*****

28 de setembro de 2012

Passatempo Não é meia-noite quem quer: os textos dos participantes

Conforme anunciado, e após o encerramento das participações, publicamos os textos cujos autores estão habilitados a um exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer. Serão escolhidos três vencedores do prémio, que oportunamente divulgaremos. Seguem-se os textos, onde era solicitado que de forma criativa se dissertasse sobre um aspecto de António Lobo Antunes e a utilização aleatória das palavras não, é, meia-noite, quem e quer. Foram considerados válidos 16 textos num total de 20 participações.


As sombras de mim
Joana Martins, Póvoa de Varzim

Não, não é meia-noite, as tuas mãos dançam melhor sob a luz amarelada e ténue das velas antigas. 

Conheci o Inferno, vi o cu ao Judas e os pássaros loucos a esvoaçar no terreiro em bando, qual cenário do apocalipse, vi tudo fora do seu lugar. Quem e quer  de mim se foi, me levou inerte ao óbolo.

Não foi Caronte que duvidou, não foi o rio que não me levou, foste tu que permitiste que eu fosse ao fundo de mim, saltei para dentro de mim e engoli-me em gigante numa só golfada. Revisitei-me nos lugares em que habitámos, nas esquinas em que fumei um cigarro lânguido e sereno, nos mergulhos em mar revolto, nas ondas que me esbofetearam, nos momentos em que a brisa me cumprimentava o rosto e o cheiro a Verão se despedia melancolicamente.


Passeando pelos cantos da casa
Pedro Ribeiro Soares, Praia da Vitória

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha. Deambularam berros embriagados com aguardentes do passado. Enroscou-se em seus próprios braços e sentou o cu no chão frio que a empregada lavara de tarde. Balas e bombas rebentaram dos azulejos e no escritório amarrou-se um laço em volta do pescoço. Era doutor e os campos viviam cinzentos, com brancos e pretos, e as granadas substituíram os corações dos miúdos que ficaram esventrados ao Sol. Eram músculos que saltavam bem alto. Explodiam num tempo de valsa intermitente. Pum! E as luzes apagaram-se sozinhas. As paredes encolheram lentamente e o demónio por pouco não lhe fulminou os intestinos. Já se tinham absorvido tantas merdas e o relógio ainda não tinha batido na meia-noite. Quem é? Gritou ao eco da porta. Quem é? Não é ninguém, disse-lhe a mãe, baixinho. Somos só nós.

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha e a chave estava no sítio da granada. Quer queiramos, quer não, é sempre tempo de abrir a porta.


ainda o café
Larissa Marques, Brasília


acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. continuo cativando meus vícios por livros de António Lobo Antunes, por dormir depois da meia-noite e perambular pela casa enquanto todos dormem. posso me dar ao luxo de não ser convencional e me fazer de imbecil a maior parte do tempo. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo. e ser essência não é para quem quer.


Meia-noite (ser)
Carlos Sena, Parede

Só não quer ser meia-noite
Quem dia inteiro é.
Eu só quero, dia e noite,
Que o ALA não desista
De ser o escritor que é.

Quem quer meia-noite ser?
Eu não quero nada a meio
Quero a noite por inteiro
Com o dia todo de permeio
Para o ALA poder ler.

Não é meia-noite quem quer
Nem é meio-dia quem pode
Só o  tempo quer e pode
Mas fatiga-se 24 horas
Para dia inteiro ser.


O Meia-Noite
Paulo Leote e Brito, Albufeira

As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal.

-“Meia-Noite” anda tomar os comprimidos!

-À meia-noite!
respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem.

À meia-noite não pode ser, já estás a dormir!
às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil  

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora.
respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições.

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil,

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios.

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº2.

-Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites.

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse.

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca.

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe

-Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”?

pela primeira vez não respondeu de pronto,

(-À meia-noite!)

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta

-Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?!

e acrescentou de imediato

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!


O maior escritor do meu bairro
Miguel Marques, Lisboa

É meia-noite neste bairro triste, plantando de candeeiros, onde a luzes são tristes, as lâmpadas são tristes, os candeeiros são tristes. Onde o próprio escuro se põe triste. Até a água, caída das varandas e das caixas dos ares-condicionados cá para baixo, para a rua, dá a impressão de lágrimas vertidas pelas pálpebras dos algerozes, copiosos de tristeza. Abeiro-me da varanda, a minha varanda triste e chorosa, no fito de alumiar a noite de isqueiros e cigarros, e detenho-me nas esquinas dos travestis e das prostitutas que enfeitam a noite de uma tristeza diferente, feita de rímel e bofetadas. Aqui há dias, melhor, há noites atrás, ouvi uma, melhor, ouvi um, gritar alhos e bugalhos na direcção de um carro, um carro enorme, com umas colunas de som maiores do que ele, estacionado defronte da esplanada no café dos brasileiros. A mulher, creio que a mulher, no meio da estrada, mandava vir com alguém dentro do carro, alguém que não se via, enquanto gritava e chorava igual a uma marquise cujas goteiras inundassem em charco as pedras do passeio.

- Veadão, pô - disse ela. Julgo que ela. – Cê vai se ferrá, vai vê só. Vou contá pra todo o mundo. Esse negócio vai virá gerau, podicrê – continuou, e a panela de escape chispou uma ira de alta cilindrada.

O condutor, creio que o condutor, do carro limitou-se a aumentar o volume no auto-rádio, e uma música semelhante a um raide aéreo entristeceu de decibéis o pouco que restava do bairro. O bairro. O nosso bairro. O teu bairro. Moras no mesmo bairro que eu. Enquanto aqui morar, por tua causa, nunca poderei almejar sequer tornar-me no maior escritor do meu bairro. Enquanto aqui morar, serás sempre tu o maior escritor do meu bairro. Do nosso bairro. Quem quer que aqui venha, ignora que haja tamanha tristeza e solidão para lá dos estores que sobem e descem como olhos ensonados, antes de irem dormir. Eu não vou dormir. Não tenho sono. Nunca tenho sono. O relógio da sala manda-me ir deitar. Já passa da uma, diz ele, e depois vem um cuco cá fora, saído de uma porta secreta, uma porta que abre para a barriga do relógio e me faz sempre pensar em barrigas que dão horas. Nunca tenho sono. Não posso ter sono. Não me apetece ter sono só para poder escrever. Escrever melhor do que tu. É uma tristeza pensar nestes termos, bem sei, mas, mais uma menos uma, neste bairro, ninguém nota. A esta hora não estás a escrever, penso para mim. Aproveitas o dia e eu a noite, talvez por isso a tua escrita ilumine as ruas que existem em nós e os meus gatafunhos se limitem a busca-pólos procurando uma faísca de nada no escuro. E é tão difícil, iluminar o escuro. Pela janela, os berros dos polícias, das prostitutas, dos travestis, o relógio de cuco, o dono do café dos brasileiros.

- Vai embora logo, cara, deixa esse troço pra lá – diz alguém. Ia jurar que alguém.

- Ó pá, é preciso ir aí abaixo partir-te a tromba? – um vizinho. Talvez um vizinho.

- Vai dormi, pô. Larga esse treco, cê não vai ganhá nada, memo. Uma e meia daqui nada, mermão – o cuco. Sim, o cuco.

São duas horas. O cuco espreita, como que nascido das entranhas dos ponteiros das horas e dos minutos. Deixo-o passarinhar à vontade. Faz-me companhia, no fundo. A seguir, sem ele ver, escancaro a porta do relógio, de caneta na mão, e entro à pergunta de uma tomada eléctrica que me faça um bocadinho de luz.


António
Alexandra Malheiro, Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve.
O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva.
Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 
Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António.
- É doida você?
Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai.
- É doida você?
Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve.
- É doida você?
Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele.
Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!”
- É doida você?


Da importância das toalhas brancas
Rui Sousa, Lisboa


Acordo. Tenho saudades dos dias em que te encontrava de manhã ao meu lado, antes de encarar o dia que me aguardava na rigidez das horas. Quem me roubou estes dias?

É desta forma que acordo após ter adormecido muito depois da meia-noite. 

Acordo. Não estás ao meu lado. Sinto o odor dos sonhos transpirados durante a noite, das ânsias sentidas antes de adormecer, enquanto me esforçava por “entrar” no último livro do António Lobo Antunes, publicitado como a “melhor obra do escritor até à data” (pergunto-me se algum autor quer ler isto sobre algum livro seu…). Sinto o cheiro dos lençóis de algodão aquecidos pela minha solidão. Sinto o hálito dos livros que também dormiram cansados de esperar por uma segunda leitura. 

Soergo-me à custa dos braços e não da vontade. Penso que podes surgir a qualquer momento após o banho matinal, com a habitual toalha branca enrolada. Sempre branca. Sempre confortável. E agora tão improvável.
Tão perto e tão longe
Maria Graça Gomes, Almada

O Verão entrou pelo Outono dentro sem pedir licença. As esplanadas em Lisboa eram lugares apetecíveis. Parei na primeira que encontrei, ali para os lados do Conde Redondo, no caminho que me iria levar ao encontro com a minha amiga. 

Sentei-me e pedi um café. Na mesa ao lado estavam três pessoas a almoçar:

– Dois homens e uma mulher. Um dos homens comia, ao mesmo tempo que ia alimentando a conversa do outro, que só falava e fumava, falava e fumava. A mulher acompanhava-o no fumo e dava-lhe toda a atenção do mundo. Lembro-me que havia uma sobremesa em cima da mesa, intacta, esquecida, à espera que a ilustre figura se dignasse saboreá-la.

Sim, ilustre figura! António Lobo Antunes em carne e osso, ali, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe… Não sei se consegui camuflar a emoção que senti. A vontade de lhe falar era imensa… Era capaz de ficar ali com ele a ouvi-lo até à meia-noite … Mas a timidez… ganhou.

Lá diz o povo:

– “Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu nem uma coisa nem outra. Fiquei paralisada. Consegui apenas, e não directamente, pedir lume – dava-me lume por favor?

Não fumei o cigarro até ao fim, faltou-me a descontracção necessária que o acto exige. Saí dali. Pelo caminho fui pensando em todas as palavras que lhe poderia ter dito e não tive coragem. 

– Como está, Sr. António Lobo Antunes! Sou apaixonada por si, pelo seu imenso talento, pela sua grandeza. O Senhor é maior do que o país que o viu nascer! É a luz que nos faz acreditar, que ainda é possível! Obrigado por ser Português, sinto um grande orgulho. 

Cuide de si.


Desistidos
Bruno Assunção, Recife

Estávamos a esperar o carro atravessados no interstício da meia-noite. Tiros e gritos. Guerra. Longe, mas como nos comoviam aqueles indícios de morte através da medula rumo aonde começa, talvez, a alma. “Faz frio” disse um de nós quando todos queríamos dizer “que porra estarmos metidos aqui, sem socorro como um bando de vira-latas a esperar afago de uma mão que não se delineou”. Adivinhávamos a solidão que a madrugada injecta nas veias quando o silêncio tem pulso na pele com a esperança de que a espera fosse um simples exercício de tensão. Podíamos estar em um livro, personagens de uma narrativa para a qual não nos tinham convidado. Talvez Lobo Antunes nos experimentasse com sua mão literária a criar vozes para concretizar o indiscernível. “Aonde é que nos levarão?” “Qualquer lugar. Quer ficar aqui?” O uivo de calafrios do vento a vazar por frestas de muros como uma sentença. Alguém devia ter desistido de nós, deixando-nos no cerne da noite em Lisboa, talvez Luanda. A guerra, uma criatura que nos farejava. “Onde estamos?”. A pergunta não podia ser essa. Ela não resumia o pavor de entranhas que nos corroía  Vozes abandonadas em suas existências nocturnas.

“Quem nos abandona neste deserto de desassossegos?”


Não me ignores madrugada
José Luís Atilano, Braga

Já não encontro o cheiro à chuva no relógio de gerações que o ontem de manhã arrastou numa guitazinha presa aos olhos, juntamente consigo. Desde que o senhor ou o doutor
(ou outra coisa desconhecida…
- Quem?)
abandonou o Miguel Bombarda, que me é difícil
(ou é-me impossível e isto não são palavras)
escrever sobre a cor da chuva que escoa em Agosto as correntes do estábulo
(às vezes lembro-me, num escurecer de lustre que a meia-noite banha…ora que estupidez, não me lembro coisa nenhuma, tenho antes a clara impressão de ver o consultório com um António lá dentro, preso nos ontens de um Antunes na parede branca ou do abrir da porta que dá mundos ao corredor dos passos, e o corredor ou os passos vazios de tudo, com um lobo a carpir
- Ele quer exortar fantasmas!)
- Tocaram à campainha
(nós que nem campainha…sem electricidade há meses)
A porta aberta ao limiar da charneira de si mesma e uma surdez de nada num cheiro a vinagre, saudade e água, com a minha avó lá fora a imolar galinhas num escambro de fim de tarde.


F(ALA)RIO
Georgina Noronha, Paço de Arcos

- Não entres tão depressa nessa noite escura, só encontrarás o Arquipélago da Insónia, onde navegam as naus que vão para os cus de Judas.
- O meu nome é Legião, e com o conhecimento do Inferno que adquiri, quem é para me dar conselhos?
- Foi porque ontem não te vi em Babilónia e porque, hoje e sempre, eu hei-de amar uma pedra, quer sejas tu, ou outra qualquer, que aqui estou.
- Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
- Segundo a ordem natural das coisas, serão cavalos marinhos, mas  à meia-noite, de uma noite escura é certo e sabido, que não fazem sombra no mar.
- Que farei quando tudo arde?
- Já vi que engoliste o Manual dos Inquisidores, mas eu vou dar-te a explicação dos pássaros: voa, qual Fénix renascida, e depois diz bom dia ou boa tarde às coisas aqui em baixo, nunca boa noite.
- Isso até parece o Fado Alexandrino “disseste bom dia e era noite lá fora”, conheces? Do meu amigo Vitorino?
- Claro que sim, sei a letra toda, tenho uma memória de elefante, sabes? Do esplendor de Portugal, à morte de Carlos Gardel, passando pelo que comi hoje, tudo está em memória.
- Se fosse a si, escrevia livros … sermões. Sei de um que escreveu um sermão aos peixes, chamava-se António, parece que era Santo.
- E eu escrevo livros, também me chamo António, não sou santo, por enquanto, e escrevi  uma exortação aos crocodilos, voilà.
- Eu também escrevi, fui escriba … escrivão … de Autos, escrevi o Auto dos Danados, e fui acusado de perdas e danos e demitido. Houve  choro e ranger de dentes. 
À boa maneira lusa, tratei de criar logo uma comissão, a comissão das lágrimas. De nada serviu e, agora, aqui estou, quer dizer, sou, um verdadeiro tratado, um Tratado das paixões da alma.


A vingança da naus
Anabela Pereira, Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão 
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite. 

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo 
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que 
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida  de quem nos mata. Quem desceu na história 
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou 
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando 
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas 
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino 
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado 
das paixões da alma, da explicação dos pássaros, 
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue, 
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la, 
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje 
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas. 

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa 
nessa noite escura? Nessa lama cega, 
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra 
em que me sentei a escrever d`este viver 
aqui,
neste papel descripto.



O António do Benfica
Simão Fonseca, Vila Nova de Famalicão


É um mimo ver o António a patinar pelas folhas de dezenas de romances, puxando do stick, não sem primeiro medir bem a intensidade e o efeito para atacar o próximo parágrafo e aí, sim, humedece a língua, coloca-la de fora, e a Bic desata a deslizar pelo ringue de páginas. Quer se queira, quer não, o outrora miúdo de olhos azuis e cabelo louro é o grande capitão das letras e o mais que digno escriba dos camões. Finta um, finta outro, segura a bola, pára, arranca rumo aos escaparates e golo pela certa: meia-noite e fazem fila para abraçarem o novo tomo.

Redigiu já quase trinta equipas, recebeu inúmeros galardões pelas suas vitórias e é candidato à Bola de Ouro Médicis. Enfim, o crónico candidato para vencer o Campeonato de Estocolmo. Quem é, quem? É o António do Benfica, pois claro.


Malmequer
Gracinda Menezes, Algés

António Lobo Antunes, além de ser fisicamente parecido com o meu primeiro e último (nem sempre sabemos o que é “o último“) amor, também me faz reviver, através de alguns dos seus livros, sentimentos, emoções, alegrias e tristezas, personagens de quem tenho saudades. Seria o meu amante perfeito, não fosse eu uma senhora de meia-idade e ele um senhor da minha ficção. “Eu hei-de amar uma pedra” foi um desses livros que devorei numa noite, em que  recordei uma história  em que a última pétala era a Bem me Quer.


Insónia
Nuno Camisa, Lisboa

É meia-noite e continuo acordado. Mais uma vez, a insónia ataca no domingo à noite. Não é a primeira vez, nem será a última. Na verdade, nenhum mal vem ao mundo por não conseguir dormir, se resolver ignorar que às seis da manhã tenho de estar a pé.
Na casa, reina o silêncio, levando a que cada acção seja praticada na mais profunda discrição. Faço mais um zapping à procura de algo, que não sei ao certo o quê. Publicidade, publicidade, novela, publicidade, telemarketing e mais publicidade. Por esta altura, sou já o menos exigente dos espectadores. Dêem-me uma série ou um filme, que para mim chega. Mais uma busca, o mesmo resultado.
Por fim, vislumbro uma cara conhecida, Anthony Bourdain e as suas aventuras gastronómicas. Problema resolvido, agora é só esperar que as imagens me levem para um qualquer local paradisíaco, enquanto o sono não me leva de vez. Mas, eu reconheço aquela ponte; e aquela rua também não me é estranha; não pode ser, eu já estive a beber copos naquele bar. Finalmente, as minhas dúvidas são respondidas, este episódio é sobre Lisboa.
Provavelmente, esta dissertação televisiva não me adiantará em nada. Devo conhecer quase todos os locais. Contudo, com o saudosismo próprio dos portugueses, sinto-me atraído por aquele retrato da minha cidade.
Já não apanhei o programa de início, mas àquela hora, até os cinco minutos finais seriam bem-vindos. Num sotaque nitidamente americano, o apresentador anuncia que vai a uma casa de fados no Bairro Alto, acompanhado por um autor português. É com algum espanto que recebo a notícia que o autor em causa se trata de António Lobo Antunes. Nunca li nada dele, e, de facto, nunca ouvi alguém falar positivamente da sua escrita. Outro episódio que me ficou marcado foi uma vez que o encontrei na feira do livro. Sentado a fumar, constantemente a revirar os olhos e com uma arrogância tal, que me deixou com náuseas. Pelo que, a minha opinião acerca dele, não era a melhor.
A princípio, fui ouvindo cada comentário seu, com a mesma impaciência de quem espera pelo metro. Contudo, houve algo que me chamou a atenção. A sua postura, naquele momento numa casa de fados, num programa reconhecido internacionalmente, era exactamente a mesma da feira do livro. A falar, pausadamente, ia dialogando com o americano ao ritmo que bem entendia. Fumando um cigarro e bebendo um copo de tinto. A realização fez questão de mostrar um sinal que dizia Proibido Fumar, mas as regras só têm o valor que lhes quisermos conferir.
Não sei bem em que momento foi, porém à medida que a cena foi decorrendo, a minha impressão acerca do autor foi mudando drasticamente. Talvez tenha sido a atitude Tou-me a lixar, ou as críticas, factuais, à ditadura do Estado Novo; contudo no fim daquele excerto fiquei boquiaberto. Pai, o que é a democracia? Cala-te e como a sopa.
No dia seguinte, peguei no livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar. Já tinha lido muitos autores diferentes, muitos estilos literários diferentes, contudo nenhum assim. A escrita densa e envolvente, a narrativa avançando aos solavancos, quase como o decorrer de pensamentos de cada uma das personagens, o ambiente negro e deprimente, a gramática simples e minimalista.
Não sei o que esperar do próximo livro, contudo é certo que manterá os padrões elevados do anterior. Far-me-á ficar agarrado da primeira à última página, quer queira quer não.



26 de setembro de 2012

António Lobo Antunes é o escritor homenageado na edição deste ano da Escritaria de Penafiel

Notícias na imprensa de hoje:
O novo livro de ALA será apresentado em
Penafiel durante a edição da Escritaria, este
ano dedicado ao escritor, que decorrerá de
26 a 28 de Outubro.
Escritaria em Penafiel: Lobo Antunes é o convidado e apresenta novo livro
Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto, o ESCRITARIA é dedicado este ano a António Lobo Antunes, que apresentará em Penafiel o seu novo livro "Não é Meia Noite Quem Quer".
Penafiel será de novo em Outubro, de 26 a 28, palco do maior festival literário em torno de um escritor de língua portuguesa vivo.
O denominador comum às peças de teatro, à arte de rua, aos colóquios e a inúmeras outras actividades em Penafiel será a obra literária de António Lobo Antunes.
Haverá por exemplo declamadores da obra do Lobo Antunes pelas ruas e cafés de Penafiel, além da animação de rua e da arte de rua, patente nos edifícios, estradas e outros locais públicos.
Durante o ESCRITARIA será feita a apresentação do novo livro de Lobo Antunes, por Ana Paula Arnaut.
A TSF é, pelo segundo ano consecutivo, parceira desta iniciativa.

fonte: TSF
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O escritor António Lobo Antunes vai apresentar o seu novo livro «Não é Meia Noite Quem Quer» na edição de 2012 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
António Lobo Antunes vai também ser o escritor homenageado deste certame que decorre pela quinta vez em Penafiel.
Como nas edições anteriores, o evento vai «tomar conta, de 26 a 28 de Outubro, das artérias da cidade, através do teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra literária de António Lobo Antunes».

fonte: Diário Digital / Lusa

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António Lobo Antunes apresenta novo livro no festival Escritaria em Penafiel
O escritor António Lobo Antunes vai apresentar o seu novo livro “Não é Meia Noite Quem Quer” na edição de 2012 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
António Lobo Antunes vai também ser o escritor homenageado deste certame que decorre pela quinta vez em Penafiel.
Como nas edições anteriores, o evento vai “tomar conta, de 26 a 28 de outubro, das artérias da cidade, através do teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra literária de António Lobo Antunes”.
Segundo a organização, a apresentação do novo livro do homenageado vai estar a cargo de Ana Paula Arnaut.
Nas edições anteriores do Escritaria foram homenageados Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto.
António Lobo Antunes foi distinguido em 2007 com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário de língua portuguesa.

fonte: Jornal I

24 de setembro de 2012

Capa de «Não É Meia Noite Quem Quer» + sinopse


O enredo do livro desenvolve-se em três dias, sexta-feira, sábado e domingo. Uma mulher com perto de cinquenta anos vai passar um fim-de-semana na casa de férias da família, numa praia não identificada. A casa, modesta, foi vendida e ela quer despedir-se da casa, mas também relembrar tudo o que se passou ali - a sua infância com os pais e os irmãos, o suicídio do irmão mais velho, o irmão surdo-mudo, o complexo e dramático relacionamento dos pais, a menina da casa em frente, sua amiga do tempo de férias. Vem depois a sua vida actual, mal casada, sem filhos, professora numa escola como tantas outras, com uma relação frustrante e sem entusiasmo com uma colega mais velha... O falhanço que é a sua vida reflecte-se na casa há muito desabitada e nos sonhos de todos eles, ali irremediavelmente enterrados. A despedida da casa pode levá-la a imitar o irmão mais velho e, no domingo, atirar-se das arribas e encerrar ali uma vida sem futuro.

17 de setembro de 2012

«Guarda Chuvas de Chocolate», pelo Teatro Rápido



Inspirado em crónicas de António Lobo Antunes. Espectáculos de 15 minutos. Mais duas semanas em palco. Mais informações aqui.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...