02/11/2013

Diário de Notícias: Lobo Antunes anuncia novo romance para 2014 - Dia do escritor no CCB

O CCB dedicou o dia de [29 de Outubro] à obra do escritor que acaba de lançar mais um livro de crónicas e tem novo romance prestes a sair: "Caminho Como Uma Casa Em Chamas".

Maria Rueff, comovida com António Lobo Antunes, e Guilherme de Oliveira Martins Fotografia © Sara Matos/ Global Imagens

Sairá primeiro na Holanda e só depois em Portugal, mas uma coisa é certa: no início do próximo ano há novo romance de António Lobo Antunes. Chama-se Caminho Como Uma Casa Em Chamas e passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos. O anúncio foi feito ontem à tarde no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, perante uma sala cheia de leitores apaixonados.

Porquê na Holanda? "Porque na Holanda há bicicletas de longos cabelos louros e luminosos a cruzarem as ruas", explicou o escritor, ainda debilitado por um internamento hospitalar recente antes de afirmar: "Não trocava os meus livros pela minha saúde."

A actriz Maria Rueff tinha 15 anos e o pai internado no hospital Miguel Bombarda, quando a irmã lhe deu a descobrir o livro Memória de Elefante. Numa das visitas ao pai levou o livro, armou-se de coragem e bateu à porta do médico que o tinha escrito. Ele recebeu-a, autografou-lhe o livro e foi o primeiro a grafar-lhe o nome pelo qual viria a tornar-se conhecida: Maria Rueff. A mestre do riso chorou e fez chorar a sala do CCB, onde estavam presentes Eduardo Lourenço, Júlio Pomar, Ana Luísa Amaral, Mário Vieira de Carvalho.

"Amo-o tanto que não sei amá-lo academicamente", foi com esta declaração de intenções que Rueff disse aquilo que muitas pessoas na assistência gostariam de dizer: que encontrou na obra de Lobo Antunes "o sublime que nos salva" antes de recordar o seu primeiro e decisivo encontro com o escritor.

Depois de uma tarde de intervenções de vários académicos, e leitores, António Lobo Antunes agradeceu "a ternura" e disse não conceber o mundo "sem ternura e generosidade". Numa intervenção curta o escritor defendeu que a "literatura não é um prazer", é sim "um alto preço que se paga em saúde, em esperança e em confronto constante com os próprios erros e limitações".




Este Dia Lobo Antunes é uma iniciativa do Centro Nacional de Cultura (CNC), em parceria com o CCB. Os presidentes das duas instituições, Guilherme d"Oliveira Martins e Vasco Graça Moura, defenderam a importância desta homenagem dizendo que Lobo Antunes "é um escritor que já tem uma obra maior mas que está ainda no seu apogeu criativo". E cuja obra "tem uma dimensão nacional e internacional sem comparações porque ele compreende as pessoas através da literatura".


fonte: Diário de Notícias
28.10.2013
texto de Joana Emídio Marques

22/09/2013

Capa de Quinto Livro de Crónicas


Compilação de pequenos textos publicados na revista Visão em que o autor aborda temas do foro pessoal, quase como o espelho de uma reflexão interior ou do que lhe vai na cabeça e na alma combinando autobiografia e ficção de forma criativa. Sendo muito mais acessíveis ao público do que os romances do autor, estas crónicas não descuram uma forte componente literária.

12/01/2013

Celeste Pereira: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Há já tanto tempo que não escrevo uma opinião acerca de um livro que, francamente, nem sei bem por onde começar. Ainda por cima um livro de ALA… Convenhamos que não é a coisa mais simples de fazer.

Confesso que, genericamente, gosto dos livros de ALA. Mais de uns, menos de outros, mas sempre me dão um prazer imenso ler. Pela qualidade da escrita e pelo desafio que, normalmente, comportam.

E, mais uma vez, assim aconteceu. Li-o há já uns tempos e foi daqueles livros que não me apetecia pousar. Não me importava até de o ler de novo, mesmo imediatamente a seguir (o que, regra geral, considero uma parvoíce tendo em conta a imensa multidão de livros bons que nunca terei tempo de ler). Além disso, desde logo cresceu em mim uma grande vontade de falar sobre ele, dizer o quanto me tinha agradado, o quão refrescante é ler um livro que nos preenche.

Pois bem, foi um caso de identificação desde o início. Em primeiro lugar talvez porque, em determinados aspectos, me seja fácil identificar-me com a personagem principal e compreendê-la. Temos idades parecidas e, também eu, em criança, ia passar férias numa casa, junto ao mar, à qual já não tenho acesso. Também eu teria gostado de me ter despedido dela, de relembrar tempos, de ressuscitar memórias…Mas, na verdade, termina aí mesmo o paralelismo das nossas vidas.

O livro, como outros de ALA, decorre num período de tempo muito curto; três dias. A narrativa inicia-se na sexta-feira e termina no domingo.

São apenas três dias na vida de uma mulher mas neles convergem cinquenta e dois anos de lembranças nas quais cabem alegrias, entusiasmos, sonhos, expectativas e desapontamentos.

Naquele rendilhado sublime de tempos e espaços que são, seguramente, marca incontestável do autor e que aqui atinge uma mestria desconcertante, vão desfilando as tardes de Verão passadas na praia com a mãe. As imagens do relacionamento patético dos seus pais. A sua amiga que vive na casa do lado e que, mais tarde, nem a reconhece nem lhe aceita a relembrança. Mas também a perda do seu filho que nunca foi. A sua vida de desesperança. A sua procura de conforto nos braços de duas colegas, que não deseja. A doença. A mutilação. O medo… 

Revive as viagens sentada no quadro da bicicleta do irmão mais velho, o mesmo que salta da falésia como o burro escanzelado que também dela resvalou. O balbuciar desajeitado do seu irmão surdo-mudo. A embriaguez do pai. O remorso da mãe. A loucura do outro irmão resultante das suas experiências em África, na guerra… 

A saudade de ser amada pelo marido. A frustração de ser professora numa escola, por aí. Os segredos que escrevia e que escondia no muro do jardim. A despedida. O fascínio pela falésia com os burros e as cabras de patas finas. Os melros, os muitos melros da casa, E, quem sabe, o fim.

Um livro fabuloso. Um livro a não perder sob pretexto algum.

Mais uma vez um momento alto do escritor António Lobo Antunes.


Celeste Pereira
15.12.2012
Ponto de Cruz

05/01/2013

Paula, do blog Viajar pela leitura: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Ler Lobo Antunes e ler este livro foi uma estreia em grande. Em grande, porque não conhecendo a restante obra do autor não sei se a sua escrita segue o mesmo estilo ou se é diferente. O que sei é que esta obra não segue os parâmetros que estamos (estou) acostumados.

Não é uma leitura fácil, eu diria até que bastante difícil. Uma escrita propositadamente confusa, onde os pensamentos sobrepõem-se às recordações, onde as palavras somam umas a seguir às outras, muitas vezes sem ligação entre si, mas espantosamente com um objectivo lógico!

Ao longo da leitura vamos conhecendo personagens ímpares e que poderiam ter existido no nosso tempo real… o sofrimento vivido por estes e as acções que desenvolvem não nos são estranhas.

A narrativa dá-nos a conhecer uma mulher adulta que visita a casa onde passou a sua infância e todo o sofrimento de que foi alvo. Sofrimento este que segurou toda a sua vida como se fosse algo importante até que uma questão se impôs: continuar a sofrer ou terminar com o sofrimento?

A perda de alguém próximo e querido – um irmão – é algo tão doloroso que transforma tudo à sua volta, a casa, os objectos, as relações e não transforma somente a infância, mas toda a vida. Um sofrimento que é um cancro, tal como o cancro que teve no peito. Uma vida mesclada pela dor e pela desgraça que teima em permanecer.

É de saudade e tristeza que esta história é feita, saudade de um passado – de o (re)viver, de o alterar – um ruminar de recordações amargas, onde somente a morte colocará um ponto final!

Gostei muito desta leitura, é sem dúvida uma escrita diferente, impõe atenção, reflexão, pode até causar algum cansaço devido à sua estrutura, é um desafio constante (no bom sentido).

Excelente, no entanto recomendo a leitura com algumas reservas pelas razões que apresentei!


Paula
01.12.2012
... viajar pela leitura

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...