10/09/2012
Vídeo do encontro entre ALA e Juan Marsé em Barcelona
20.02.2012
* duração: 1 hora aproximadamente.
* falado em castelhano [[]]
08/09/2012
«Não é meia-noite quem quer» (crónica)
Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto. Dorme, com os seus sacos de plástico, na paragem do autocarro quase por baixo da minha janela, puxando trapos para si. Nunca lhe entendi a língua, mais sopros que palavras. Espera que o sinal fique vermelho e percorre os automóveis, de mão estendida, a murmurar. As pessoas dos carros fingem que não vêem, olhando, fixas, para diante: uma desgraçada, mais uma, o que não falta por aí é gente assim. O sinal torna-se verde e ela corre para o passeio, com os sacos. Um grande amigo meu, José Cardoso Pires, que não tinha muito dinheiro, que tinha muito pouco dinheiro, dava-o a todos aos infelizes que encontrava na rua. Isto era uma das coisas que eu mais admirava nele. E sentia-o, por dentro, comovido, o Zé que tentava sempre esconder as emoções. Fazia livros, como eu. Era irascível, temperamental, muitíssimo corajoso. Infelizmente a estrangeira nunca o encontrou. É em seu nome que entrego moedas à mulher
- Da parte do Zé
embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.
Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo
- É só dor, é só dor
e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje
- É só dor
e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade? Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:
- Os meus rapazes
dizia ele dos filhos
- Os meus rapazes
e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las
- Não lhes apetece entrar?
começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico
- Uma ajudinha, amigo
e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo
- Uma ajudinha, amigo
vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre
- Uma ajudinha, amigo
a eterna queixa do Zé
- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?
e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem
- Vinho branco na sua idade?
e se queixem à minha mãe
- O miúdo bebe às escondidas
a minha mãe, severa
- Que história é essa do vinho?
mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres
- Quero lá saber do Hemingway
confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar
- E que fazes tu nos aviões, já agora?
quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo
- Não sei nada da vida, senhor, desculpe
e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste
- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?
eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.
António Lobo Antunes
crónica na Visão
Janeiro de 2011
06/09/2012
Mariana Klafke: dissertação sobre As Naus
As Naus, de Lobo Antunes: a desconstrução do império português
[...]
A obra de Lobo Antunes é classificada, digamos que “didacticamente”, em quatro ciclos, que não contemplam todos os romances, mas dão o panorama dos temas mais explorados pelo autor: 1) aprendizagem (Memória de Elefante, 1979; Os Cus de Judas, 1979; Conhecimento do Inferno, 1981); 2) anti-epopeias (Explicação dos Pássaros, 1981; Fado Alexandrino, 1983; Auto dos Danados, 1985; As Naus, 1988); 3) trilogia de Benfica (Tratado das Paixões da Alma, 1990; A Ordem Natural das Coisas, 1992; A Morte de Carlos Gardel, 1994); 4) poder (O Manual dos Inquisidores, 1996; O Esplendor de Portugal, 1997; Exortação aos Crocodilos, 1999; Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, 2000). Neste ensaio, pretendo trabalhar com um romance da fase das anti-epopeias, As Naus, procurando apontar questões referentes à desconstrução histórica presente na obra e à impossibilidade do retorno.
Em As Naus, de 1988, Lobo Antunes trabalha com uma espécie de releitura da história das glórias marítimas lusitanas, inserindo a África e questões políticas e sociais do século XX neste quadro. A problemática predominante aqui é a do retorno: no romance, dois momentos diferentes da história de Portugal, as viagens dos descobrimentos (séc. XVI) e a descolonização da África pós-25 de Abril (séc. XX), são apresentados de forma entrecruzada, em uma grande metáfora na qual tudo é possível. “O romance traz para o século XX as figuras representadas no discurso épico do registo das viagens pelo mar e as actualiza na história de Portugal, ao encenar o desfecho trágico da colonização africana, com destaque para Angola, principalmente” (OLIVEIRA, 2008).
Segundo Margarida Calafate Ribeiro (2004), com o 25 de Abril de 1974 se encerrava um período de cinco séculos de existência real e imaginada de um determinado Portugal, colonizador; se encerrava principalmente o período de um Portugal colonizador de África, processo que condicionou fortemente a política portuguesa desde o final do século XIX até à queda do Estado Novo salazarista. Ribeiro define a literatura que trata dessa experiência como “narrativas de regresso”: "Na literatura que narra estes regressos das margens ao país imaginado – a que chamei “narrativas de regresso” do pós-25 de Abril (Ribeiro, 1998: 132) – assistimos a um movimento de repensar a nação, que, entre o espaço aberto pela revolução e a revisitação das ruínas do império, da guerra, do exílio, da ditadura ou da nossa própria história, tenta reimaginar o centro, já não enquanto espaço monolítico de representação de uma ficção nacional unificadora, mas no sentido em que Jacques Derrida o define, ou seja, como função aglutinadora de uma série de imagens diversas, polifónicas e fragmentárias que compõem o retrato precário da nação que se dispersou (apud Hutcheon, 1996: 60)" (RIBEIRO, 2004, p. 236).
Boaventura de Sousa Santos afirma que “a relação colonial protagonizada por Portugal impregnou de modo muito particular e intenso as configurações de poder social, político e cultural, não só nas colónias como no seio da própria sociedade portuguesa” (SANTOS, 2008, p. 228). A questão colonial é essencial na literatura portuguesa. De forma particular, essa experiência da guerra colonial foi transformada em uma linha narrativa cuja função passou rapidamente de individual (escrita terapêutica) à colectiva (reescrita do processo que culminou no fim do colonialismo português). A literatura cumpriu o papel de romper com o silenciamento social e político que se seguiu à libertação das últimas colónias africanas, tratando de elaborar colectivamente a experiência, bem como refletir sobre a identidade portuguesa e o novo lugar de Portugal na ordem mundial (RIBEIRO, 2004).
Em As Naus, os retornados de Angola, ex-colónia portuguesa que se tornou independente após um violento processo que se estendeu de 1961 a 1975, carregam os nomes de personagens relacionados ao período das conquistas marítimas portuguesas: Pedro Álvares Cabral, Luis de Camões, Diogo Cão, (São) Francisco Xavier, Manoel de Sousa Sepúlveda, Vasco da Gama, entre outros, figuram no romance como personagens híbridos, que carregam a identidade histórica cujo nome indica, mas também trazem histórias de vida de portugueses comuns que deixaram Portugal em busca de oportunidades. Híbrido também é o próprio encaminhamento do enredo, cujo tempo oscila entre século XVI e século XX, se passando a narrativa em algum lugar híbrido entre a Lisboa da partida e a Lisboa do retorno (OLIVEIRA, 2008).
Recheado de experimentalismos de linguagem e subversivo em relação às instâncias narrativas canónicas (tempo híbrido, construção fragmentária do narrador etc.), As Naus desconstrói a tradição épica portuguesa e o discurso histórico oficial através da sátira, desmistificando figuras históricas através do rebaixamento. Conforme Urbano Cavalcante da Silva Filho (2007, p. 50), “Lobo Antunes, fazendo uso do que a crítica canadense Linda Hutcheon cunhou de metaficção historiográfica, problematiza o discurso histórico e permite uma reflexão acerca da constituição identitária do indivíduo na contemporaneidade”. Trata-se ainda de um processo de carnavalização, no sentido do conceito elaborado por Bakhtin: As Naus aborda a história e a cultura do povo português utilizando efeitos cómicos e paródicos, buscando ao mesmo tempo o riso e o grotesco.
O romance se constrói em torno dos dramas de portugueses, ex-colonos, que retornam a Portugal, sem, contudo, poderem se reintegrar à pátria. São pessoas degradadas, doentes, envelhecidas, mentalmente confusas, que retornam à pátria que já não reconhecem e pela qual já não são reconhecidos. Em certa altura, uma prostituta de Luanda, apaixonada e à procura de Diogo Cão em Lisboa, afirma: "Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos" (ANTUNES, 1988a, p. 200).
Trata-se de uma nova epopeia para os colonos de África do século XX, esta a do retorno; porém, mesmo sendo retorno para sua pátria, ainda assim é um encontro com o desconhecido, com tanto choque, estranhamento e contraste quanto fora a chegada nas colónias. O homem chamado Luís, Camões, declara: "[...] palavra que imaginava uma enseada repleta de naus aparelhadas que rescendiam a noz-moscada e a canela, e afinal encontrei apenas uma noite de prédios esquecidos a treparem para um castelo dos Cárpatos pendurado no topo, uma ruína com ameias em cuja hera dormiam gritos estagnados de pavões" (ANTUNES, 1988a, p. 92)
O autor elaborou um interessante procedimento de diálogo entre passado (período quinhentista) e presente (período da descolonização, no século XX) e de oscilação entre real (referências históricas) e ficcional. Ao dar aos personagens de As Naus nomes de figuras históricas que fazem parte do inconsciente colectivo luso e localizá-las em ambientes actuais e degradados, Lobo Antunes desmistifica o passado português e insinua a revisão dos mitos. Esse procedimento é característico da tendência pós-moderna, que trabalha com tensões entre ficção e história, presente e passado, particular e geral (SILVA FILHO, 2007).
A mistura entre dois tempos históricos perpassa todo o romance, sendo essencial na construção desse sentido paródico que o mesmo carrega. "Passando por uma placa que designava o edíficio incompleto e que dizia Jerónimos esbarrámos com a Torre ao fundo, a meio do rio, cercada de petroleiros iraquianos, defendendo a pátria das invasões castelhanas, e mais próximo, nas ondas frisadas da margem, a aguardar os colonos, presa aos limos da água por raízes de ferro, com almirantes de punhos de renda apoiados na amurada do convés e grumetes encarrapitados nos mastros aparelhando as velas para o desamparo do mar que cheirava a pesadelo e a gardênia, achamos à espera, entre barcos a remos e uma agitação de canoas, a nau das descobertas" (ANTUNES, 1988a, p. 10).
Neste trecho, a narrativa combina duas realidades temporais, ao referenciar elementos próprios do período histórico quinhentista das navegações (almirantes de punhos de renda, grumetes encarrapitados nos mastros, nau das descobertas) no mesmo espaço e momento em que se encontram elementos do século XX (petroleiros iraquianos).
Outro ponto interessantíssimo da construção de As Naus está na narração, que oscila entre primeira e terceira pessoas constantemente. Lobo Antunes constrói uma narrativa em que várias vozes se manifestam, em contraponto ao que seria uma visão única da História portuguesa. Para exemplificar esse processo, um trecho em que Pedro Álvares Cabral procura a esposa prostituída, a essa altura já amante de Manoel de Sousa de Sepúlveda, para pedir dinheiro; há mudança de terceira para primeira pessoa na narração sem qualquer espécie de mediação: "Cabral viu a esposa erguer-se da sua tábua de melhoramentos plásticos, idêntica às imagens das igrejas de manhã, pulverizadas pelo sol rebentado como um fruto nos vitrais de degolações de mártires da nave principal, de forma que se levantou, estarrecido, de tornozelos embaraçados na espada, avançou um passo lento, como se caminhasse sobre a água, para aquela aparição de beata laica preparada para a visita hebdomadária do senhor Sepúlveda da moldura do piano, e perguntei a medo, roçando com a ponta dos dedos a sua inacessível atmosfera de perfume e pó de arroz, Tens por acaso doze contos e quinhentos que me emprestes?" (ANTUNES, 1988a, p. 173).
É importante também a escolha de termos como Lixboa e Reyno, na grafia quinhentista, chamando a atenção assim, através do plano linguístico, para uma atitude passadista na mentalidade portuguesa. Por um lado o romance traz referências ao passado em personagens, caracterizações, cenários e até mesmo na grafia arcaica, e por outro, o presente se manifesta em referências à Revolução dos Cravos e às descolonizações africanas, marcando a decadência dos sonhos e mitos e o não cumprimento das promessas de um Portugal grandioso e glorioso (TAVARES, 2009). O período da Guerra Colonial parece ser na narrativa uma espécie de contraponto ao momento quinhentista das descobertas, construindo uma crítica ao discurso de louvor ao passado português, discurso este que passa por Os Lusíadas, se aporta no mito sebastianista, chega em Mensagem, enfim, discurso que é uma longa e sólida tradição lusitana (OLIVEIRA, 2008). Lobo Antunes inclusive já declarou considerar As Naus o “decrescendo” que faltava d’Os Lusíadas: "Era a história dos retornados – portanto, a primeira história era menos ambiciosa. Era só a história da volta a Portugal (que horror, isto assim dito parece conversa de ciclismo). [Risos] Mas depois é que me começou a surgir a ideia de que podia fazer a segunda parte d’ Os Lusíadas: enquanto Os Lusíadas é um crescendo, eu faria o decrescendo. O livro até estava dividido nas partes d’ Os Lusíadas: Proposição, Invocação, Dedicatória e Narração. Bom, depois a determinada altura isto foi muito subvertido. Também porque este foi o primeiro livro que escrevi sem um plano muito definido, muito minucioso…" (ANTUNES, 1988b)
Mais do que tratar de um presente depreciativo de Lisboa, Lobo Antunes parece refletir sobre uma história que prometeu muitas glórias e conquistas e muito pouco se cumpriu, ou ao menos se pode dizer que em degradação geral resultou. Sob diversos pontos de vista, mas em especial político, económico e social, Portugal foi uma falsa promessa.
O romance se estrutura através de sete núcleos narrativos, que giram em torno de personagens, em maioria, históricos: Pedro Álvares Cabral (navegador português, chegou ao Brasil), “homem chamado Luís” (Camões, escritor português), Francisco Xavier (jesuíta que serviu no Oriente, “apóstolo das Índias”), Diogo Cão (navegador português, realizou o reconhecimento da costa ocidental africana), Manoel de Sousa Sepúlveda (fidalgo e militar português, serviu na Índia), Vasco da Gama (navegador português, descobriu caminho marítimo para Índia) e um casal de idosos retornados de Guiné (ficam logo muito marcados pela repetição de “eu não pertenço aqui”). É curioso que sejam estes últimos os únicos personagens realmente centrais anónimos. Em entrevista (ANTUNES, 1988b), Lobo Antunes afirmou que nas primeiras versões, As Naus era somente uma história de retornados, com nomes normais, e que esse casal restou assim anónimo dessa versão primeira.
Pedro Álvares Cabral é um retornado de Angola, na miséria, com o filho e a esposa mulata que é obrigado a prostituir para se instalar no Residencial Apóstolo das Índias, para onde é mandado ao chegar. Francisco Xavier é retratado como aliciador de mulheres para prostituição e dono da terrível Residencial Apóstolo das Índias, paródia ao título dado ao personagem histórico São Francisco Xavier: trata-se de uma espécie de pensão decadente na qual se amontoam seres humanos em ambiente de absoluta degradação. Em certa altura, Francisco Xavier é apresentado como um “falso santo”, “que adquirira o hábito de colar à nuca uma auréola de santo decorada por lampadazinhas de várias cores que lhe forneciam o aspecto equívoco do anúncio de uma marca de pilhas [...]” (ANTUNES, 1988a, p. 230). No romance, São Francisco Xavier não converte homens ao cristianismo, mas mulheres à prostituição. "Se fossem necessárias provas, a certeza acabada de que Deus está comigo é que mandei segunda-feira, embelezadas de lantejoulas e de xailes, trinta e oito africanas para as discotecas da Avenida Almirante Reis e do Martim Moniz, sem falar, ó servos do Senhor, nas que espalharam as ancas demoradas pelos jardins e pátios da cidade, de Belém à Ajuda, fumando no passeio Marlboros pacientes. Em pouco tempo, e graças à bênção do Pai, um desmesurado rebanho de convertidas à Fé ocupava todos os bairros de Lixboa até às docas de Alcântara" (ANTUNES, 1988a, p. 106).
O homem chamado Luís, Camões, retornado de África para enterrar o pai, circula boa parte do romance com seus restos mortais e acaba por livrar-se dele como adubo, em episódio grotesco com personagem chamado Garcia da Orta, em referência ao médico e naturalista português. O homem chamado Luís está escrevendo seu poema, Os Lusíadas, e só termina após livrar-se dos restos mortais paternos. Vasco da Gama é um jogador inveterado, às voltas com o rei D. Manuel, ambos decadentes, relembrando passado, até serem presos (ao lado da cela de António José da Silva, o Judeu!) sem que os reconheçam, e metidos em um hospício. Na cena do julgamento, há referências interessantes à situação do povo português: "[...] os levaram, de barba por pentear, sem terem tomado banho nem escovado os dentes, sem se perfumarem das essências da sua condição de nobres, sem se despedirem do batoteiro dos dois canos entretido com uma nova farsa de robertos, a uma sala de estuque leproso chamada de Tribunal de Polícia, munida de vários bancos compridos de sacristia em que se sentava um público de curiosos e desempregados, o vosso povo, o pobre povo de Lixboa, Senhor, o que em mil quatrocentos e noventa e oito se amontoou na praia do Restelo para me ver partir, aquelas caras sérias lavradas pelo desengano da desgraça, aqueles olhos sem esperança, aquela roupa gasta, o povo que não esperava nada de Vós ou de mim por não esperar nada de ninguém nem de milagre algum e me fitava com a expressão sem expressão com que se observam os filhos antes de os entaiparem nas urnas, a vossa raça de heróis e marinheiros, majestade, a que definha de diarreia de leite de coco na Guiné, vagueia, a beber água choca, nas dunas de naufrágio de Moçambique e ferve nas tabernas da Madragoa e do Castelo a discutir histórias de escunas [...]" (ANTUNES, 1988a, p. 188).
Diogo Cão é retratado como um bêbado alienado, fascinado na procura por sereias, alheio ao mundo que o cerca. Manoel de Sousa Sepúlveda é envolvido com comércio ilegal, prostíbulos, boîtes, bares, um milionário fora da lei; pior do que tudo, gosta de observar meninas de liceu. Sepúlveda lida com todo tipo de negócios obscuros e/ou degradantes: "Emprestou dinheiro a D. João de Castro para urbanizar Goa, forneceu a Camões a possibilidade de uma edição de bolso de Os Lusíadas, com bailarinas nuas na capa, publicada numa colecção de romances policiais, ajudou o poeta lírico Tomaz António Gonzaga na benfeitoria do seu comércio de escravos, e envolveu-se na Guerra das Rosas, tomando partido pelas duas famílias, na esperança de casar-se com o inglês de Linguaphone de uma duquesa ruiva" (ANTUNES, 1988a, p. 106).
O casal retornado da Guiné não tem mais qualquer perspectiva de futuro: enquanto a mulher afirma “Eu não pertenço aqui” (ANTUNES, 1988a, p. 54), o marido coloca: “Já não pertencemos nem sequer a nós” (ANTUNES, 1988a, p. 54). A esposa acaba louca e o esposo sozinho, esquecido.
Para além destes núcleos narrativos, o romance é recheado de muitas mais referências a personagens históricos, que aparecem, em maior ou menor grau, deslocados e satirizados enquanto personagens do romance, assim como acontece com os personagens históricos que compõem os núcleos narrativos supracitados: Afonso de Albuquerque (fidalgo, militar, segundo governador da Índia portuguesa), Almeida Garrett (escritor português), Antonio José da Silva (dramaturgo e escritor luso), Bartolomeu Dias (navegador português), D. Dinis (sexto rei de Portugal), D. Francisco de Almeida (dupla referência: vice-Rei da Índia e governador de Angola), D. Fuas Roupinho (nobre português), D. Henrique (infante português, importante figura do início da era das descobertas), D. João de Castro (fidalgo português), D. Manuel (rei português), Federico Garcia Lorca (poeta e dramaturgo espanhol), Fernão de Magalhães (navegador português), Fernão Lopes (cronista português), Fernão Mendes Pinto (aventureiro e explorador português, escreveu Peregrinação), Gago Coutinho (oficial da armada, geógrafo, historiador, matemático e pioneiro da aviação), Garcia da Orta (médico e naturalista português que viveu na Índia no século XVI), Gil Vicente (dramaturgo português), Gomes Leal (poeta e crítico literário português), Luis Buñuel (cineasta espanhol), Lutero (religioso alemão, referência na Reforma Protestante), Miguel de Cervantes (escritor espanhol), Miguel de Vasconcelos (Secretário de Estado da duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, em dependência do rei de Espanha; colaborador da dominação filipina), Nuno Álvares Pereira (militar português), Oscar Wilde (escritor irlandês), Pe. Antonio Vieira (religioso, escritor e orador português), Pêro Vaz de Caminha (escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral), Sá de Miranda (poeta português), Tomaz António Gonzaga (escritor luso-brasileiro).
Além dessas referências que se realizam mais em termos de personagens da narrativa, mesmo que de passagem, há uma referência cómica ao poeta Fernando Pessoa: “[...] dezenas de Fernandos Pessoas muito sérios, de óculos e bigode, a caminho de empregos de contabilista em prédios pombalinos de beirais de loiça [...]” (ANTUNES, 1988a, p. 159). O autor ainda traz à tona algumas histórias, mitos e lendas importantes para o imaginário português, como o caso de Inês de Castro, a lenda do aio Egas Moniz e muitas referências a D. Sebastião e ao mito sebastianista. Nesse sentido, o final do romance é muito sintomático. Retornados de África, entre eles Camões, que foram instalados em um hospital de tuberculosos desocupado pelo governo, mas que é referido no capítulo também como hospício e traz a descrição de doentes presentes, crêem na volta gloriosa de D. Sebastião, elaboram um plano para restauração da independência, pois acreditam estar sob domínio espanhol, e rumam fugidos para a praia a esperar: "Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível" (ANTUNES, 1988a, p. 247).
O romance de Lobo Antunes parece ser uma grande paródia, que desconstrói a história oficial portuguesa e critica um povo que vive demasiadamente ligado a um passado fantasiado e transformado em mito, eternamente à espera de um messias vindo do nevoeiro que lhe restitua um período de grandezas. Os portugueses parecem perdidos em uma luta identitária por se definir em relação ao que foram, ao que são e ao que podem ser. Além disso, no que se refere mais especificamente ao processo de descolonização, As Naus aponta para a impossibilidade do retorno dos portugueses espalhados pelas colónias a um Portugal que já não reconhecem e no qual são considerados cidadãos de segunda classe. As Naus apresenta um Portugal perdido entre passado e presente, que não se volta para o futuro, e para o qual o trauma da descolonização foi um golpe certeiro na identidade que o definia por séculos, como império ultramar.
REFERÊNCIAS
ANTUNES, António Lobo. As Naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988a.
ANTUNES, António Lobo. O regresso das caravelas (As Naus). [1988b]. Entrevista concedida à Revista Ler. Disponível em: . Acesso em: 23 jun. 2012.
OLIVEIRA, Silvana. As Naus do discurso em António Lobo Antunes. In: XI Congresso Internacional da ABRALIC: Tessituras, Interações, Convergências – USP, 2008, São Paulo (SP). Disponível em: Acesso em: 14 mai. 2012.
RIBEIRO, Margarida Calafate. Uma história de regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-colonialismo. Lisboa: Afrontamento, 2004.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: por uma nova cultura política. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2008.
SILVA FILHO, Urbano Cavalcante da. Identidade, história, paródia e desterritorialização: uma viagem n’As Naus de António Lobo Antunes. In: III SEMINÁRIO DE TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA: Convergências Literárias – UESB, 2007, Vitória da Conquista (BA). Disponível em: Acesso em: 14 mai. 2012.
TAVARES, Enéias Farias. O desencanto histórico e religioso no romance As Naus, de António Lobo Antunes. Nau Literária: Revista eletrônica de crítica e teoria literária, Porto Alegre, v. 05, n. 02, jul/dez 2009.
por Mariana Klafke
Ler e (des)construir
13.08.2012
05/09/2012
Pedro Fernandes: opinião sobre Conhecimento do Inferno
[...] Faz poucos dias que findei a leitura do terceiro romance do António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, publicado em 1980, e que fecha uma trilogia iniciada com Memória de Elefante e Os Cus de Judas, ambos publicados um ano antes, quando o escritor voltou da Guerra Colonial na África, largou a carreira nas artes médicas e fixou-se, de vez, nas artes literárias. Devo dizer que é a primeira vez que leio a obra de um escritor pela linearidade das publicações. E o bom desse trajecto é o de acompanhar o desenvolvimento ou aperfeiçoamento das técnicas de escrita da parte do autor. Se os dois primeiros romances são aparentemente simples, exigindo do leitor uma reaprendizagem linguística para se pôr diante do texto, aqui o esforço não se resumirá a esse processo. Terá agora de conseguir fazer imensas fendas textuais e conseguir por através delas palmilhar um caminho mais ou menos seguro para chegar até o desfecho da narrativa e poder dizer em quatro palavras: o romance trata disto.
Os dois primeiros livros têm seus traços eminentemente autobiográficos como já terá sondado boa parte da crítica, seja pela proximidade profissional das personagens que vão narrando os factos, seja pelo desenvolvimento de algumas situações epocais: como a estadia na África no período da Guerra Colonial. Sendo que, no primeiro, estamos diante do narrador a remoer memórias soltas, muitas delas revistas e desenvolvidas no segundo romance. E o segundo romance deter-se na experiência da guerra. Agora, reduzindo em poucos dizeres, o terceiro, é uma volta para ler simultaneamente os acontecimentos desenvolvidos nos dois primeiros romances. Isto é, a trilogia desenhada por Lobo Antunes cumpre um itinerário que não é linear – sim, porque nada nesses romances obedece a linearidades – e, sim, um movimento que é como um jogo de memória espiralado. O movimento narrativo desse último romance parece ser a peça-chave para o entendimento geral da trilogia. Os três se desenham em torno dos mesmos temas e enxergam cada um no determinado instante de visão.
Se adentrarmos ao Conhecimento do Inferno notaremos que a narrativa transcorre em três instâncias: a vida pessoal, a vida profissional e a estadia na guerra. Se em Memória de Elefante sobressai a vida pessoal e em Os Cus de Judas a estadia na guerra, nesse sobressai a vida profissional. Quero com isso dizer que o narrador elege como ponto de vista a posição do profissional para remoer as mesmas questões que são desenvolvidas nos outros romances. Aqui, as referências autobiográficas são nitidamente explícitas. Damos com um médico psiquiatra que revê sua actuação profissional no instante em que está escrevendo um livro intitulado por Memória de Elefante, ou damos com uma personagem nomeada por António Lobo Antunes, enfim, mutretas linguísticas para deixar o leitor encalacrado no jogo de espelhos construído pelo narrador. E os factos que transcorrem são todas rememorações desenhadas pelo próprio personagem-narrador, de modo que o externo se confunde com as elucubrações mentais, de um parágrafo a outro, por vezes no interior da própria frase cabendo ao leitor as distinções.
Nesse caudal de pensamentos que desfilam feito a viagem de carro empreendida pelo personagem – trilha que vai se desenhando no texto pelas marcações no mapa (Algarve, ponto de partida, passando por Albufeira, Messsines, Santana, Aljustrel e Lisboa, ponto de chegada) – prevalece o seu contacto com a profissão nobre e mãe das outras profissões médicas, a psiquiatria, desde seu primeiro contacto com o manicómio até sua actuação médica no Hospital Miguel Bombarda, um claustro dos loucos. Aqui o lugar “inferno” marcado no título da obra se confirma pela presença deslocada do sujeito nesse universo em que a loucura é tratada como uma patologia clínica a ser manipulada pelo isolamento social, os sedativos, os electrochoques e toda sorte de tratamentos que reduzem a persona do louco ao estágio do mais baixo grau de selvageria.
Se nos romances anteriores, o escritor parece querer confrontar o leitor com a própria linguagem, usando da descrição seca e das torrenciais de vocábulos pesados, levando a presenciar o travelling mental ou a experiência do horror, aqui a linguagem e a montagem do enredo comungam para que o leitor se dê ao conhecimento da experiência vivida pelo próprio escritor. É necessário pensar que este romance pode actuar como instrumento de matéria histórica pelo modo como a prática médica e o tratamento dado à loucura são aí retratados. Ou ainda, como instrumento de denúncia, cujo interesse está em expor, pela via da experiência, e pelo tratamento irónico conduzido pelo escritor à profissão psiquiátrica que é camuflado pelo ideal de normalidade condicionado socialmente.
por Pedro Fernandes
15.08.2012
01/09/2012
Do leitor José Alexandre Ramos: «muralha»
muralha
para António Lobo Antunes
Deixo o dia abater-se contra o muro: mil pedaços se formam no horizonte futuro, antevendo amanhãs desmoronados. E dos escombros se abrirá caminho, lentamente, até onde o chão poderá verdejar, e as feridas dos meus pés fecharão. Sílaba a sílaba és tu quem constrói o novo caminho e por vezes fico sem palavras perante o alinhamento perfeito do destino das tuas frases. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigem, sob o cansaço dos dias te espremendo em hesitações, alegrias e angústias, que reergues a muralha onde nos pouparemos abrigados dos ataques verborreicos dessas gentes em falsos pedestais teimando
(como se qualquer um fosse capaz de construir um muro, uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades)
teimando em afirmar que escrevem livros.
Parabéns, António. Um abraço.
por José Alexandre Ramos
Vila Nova de Gaia
31/08/2012
Passatempo «Não É Meia Noite Quem Quer»
PASSATEMPO ENCERRADO!
Com o lançamento do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer, previsto para Outubro, vamos oferecer, em parceria com a D. Quixote, três exemplares deste título, num novo passatempo a decorrer em Setembro.
Com o lançamento do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer, previsto para Outubro, vamos oferecer, em parceria com a D. Quixote, três exemplares deste título, num novo passatempo a decorrer em Setembro.
Para se habilitarem ao prémio, os interessados têm de nos enviar por e-mail um texto criativo sobre António Lobo Antunes (qualquer aspecto que entenderem), onde se utilize, aleatoriamente, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer.
Os termos são os seguintes:
- Passatempo a decorrer entre hoje e as 24 horas do dia 27.09.2012;
- O participante deve escrever um pequeno texto, de forma criativa, em língua portuguesa, sobre qualquer assunto que diga respeito ao escritor António Lobo Antunes e utilizando, de forma aleatória, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer (não será aceite a ordem da formação do título do livro);
- O texto deve ter um título e não deve vir assinado nem conter o nome do participante;
- O tamanho do texto deverá ser entre 300 a 800 caracteres (com alguma tolerância), e a enviar num ficheiro de Word ou outro processador de texto similar;
- Este ficheiro deve ser incluído numa mensagem de e-mail com os seguintes dados do participante: nome, apelido e localidade, sendo enviado para o nosso endereço alaptla@gmail.com, dentro do prazo estabelecido no ponto 1;
- Os textos serão avaliados por um júri constituído por duas pessoas: António Bettencourt e Norberto do Vale Cardoso;
- Nos dias seguintes ao término do passatempo, e logo que possível, os textos serão publicados no espaço do blogue num só artigo, e na página do facebook um por um;
- Os três textos considerados mais criativos serão os vencedores do passatempo, e os seus autores contactados via e-mail para nos fornecerem as moradas para onde endereçar cada exemplar premiado, tendo para isso 24 horas após a recepção do nosso e-mail;
- Confirmados os vencedores, anunciaremos os autores dos três textos mais criativos;
- Os textos são da inteira responsabilidade dos seus autores;
- Cada participante poderá apenas concorrer com um só texto, não sendo permitida a sua substituição;
- As participações que não reunirem as condições anunciadas nos cinco primeiros pontos não serão consideradas.
editado a 15.09.2012:
quanto ao ponto 4, o máximo de 800 caracteres pode ser ultrapassado, desde que não exceda uma página de Word.
Ficamos agora a aguardar pela vossa criatividade!
Bom trabalho!
27/08/2012
José Alexandre Ramos: opinião sobre Fado Alexandrino
Impressões da releitura de Fado Alexandrino
Lembro que quando li Fado Alexandrino a primeira vez, há vários anos, o livro andou semanas dentro de mim, sem que fosse capaz de iniciar outras leituras (de outros autores) que não me entediassem logo nas primeiras páginas. Foi de tal modo o impacto que desejei ser realizador de cinema para que conseguisse colocar tudo aquilo num ecrã, pois que não bastavam as descrições que fazia do que havia lido; para contar sobre ele, tinha que dar a conhecer as imagens exactamente como se tinham fixado na minha mente durante a leitura – uma das mais rápidas e devoradoras que tive, mesmo sendo um livro enorme (mais que seiscentas páginas).
A releitura, porém, foi mais morosa, por um lado devido a razões particulares que não interessam à questão, e, por outro, sem dúvida a razão mais válida, para absorvê-lo de maneira diferente. Obviamente que, depois de ter lido tudo o que António Lobo Antunes publicou até hoje, o impacto desta segunda leitura não foi tão forte como da primeira vez, mas não deixo de reconhecer que é, na generalidade da obra, um dos seus livros mais bem conseguidos.
Quem lê o autor pela sua ordem cronológica (é o método que estou a seguir para a releitura da obra), não ficará indiferente ao facto de Fado Alexandrino ser um livro muito mais maduro que os seus antecessores (foi o quinto que publicou): no estilo, no discurso, no aproveitamento das personagens. Digamos que o autor deixa o tom de um certo queixume que marca os três primeiros livros, segue pela via experimentada em Explicação dos Pássaros (no sentido de já não ser uma catarse da sua própria experiência) e solidifica, neste seu primeiro longo romance, a linguagem cuidadosamente escolhida e o encadeamento de várias narrativas dentro própria narrativa – marca do seu estilo com que nos habituará na dezena de livros seguintes. Porém, ainda não é aqui que o uso do discurso na terceira pessoa do singular cai, o livro é narrado por uma personagem cujo papel é ouvir o que as outras personagens (essencialmente quatro) têm a dizer, personagem que pouco ou nada intervém com o seu discurso mas é o veículo para a expressão das que vamos conhecendo. Mesmo assim, e como já em Conhecimento do Inferno ou em Explicação dos Pássaros, assistimos à transformação do discurso para a primeira pessoa em longos trechos do texto, principalmente quando existe na narrativa a necessidade de introduzir maior subjectividade ao discurso ou experiência da personagem.
Outra grande inovação neste livro é a sua estrutura: divide-se em três grandes partes, cada uma delas subdividida em doze capítulos. É a primeira vez que o autor não dá tréguas ao leitor, já que cada capítulo (todos do mesmo tamanho) não se lê de uma assentada, tanto pelo seu comprimento, como pela forma como foi escrito. Daqui, sem dúvida, a razão do título: alexandrino diz-se de um verso de doze sílabas, e o que é aqui narrado senão um fado, o fado da sociedade portuguesa durante um período conturbadíssimo da sua história recente? As três partes correspondem cada uma delas, respectivamente, a três períodos históricos: antes da Revolução, durante a Revolução e após a Revolução (25 de Abril de 1974).
Resumindo a intriga ao seu mais básico: ex-combatentes da guerra colonial (em Moçambique) reúnem-se num encontro após dez anos do seu regresso. É este período de uma década em que a intriga e os relatos se desenvolvem, dividido pelas três partes de antes, durante e após a Revolução. O encontro é um jantar em que se destacam as vozes mais próximas do narrador (a quem as personagens tratam por capitão): um tenente-coronel, um tenente oficial de transmissões, um alferes e um soldado. Estamos no restaurante e são evocadas as vivências de cada um antes da revolução, quando do seu regresso da guerra; decidem depois do restaurante ir a uma boîte, que marca a transição para o durante a revolução; por fim acabam em casa do alferes, na companhia de prostitutas que trazem da boîte e entramos no depois da revolução. Bastante bebidos, descontrolados, e conhecidas as suas experiências durante os dez anos, em que constatam algumas coincidências de relações pessoais e factos entre si, acabam por assassinar um deles com uma faca de cozinha, e no final é relatado como uma caricatura o plano para se desenvencilharem do cadáver e esquecerem uma noite em todos os aspectos degradante, reflexo da maneira de estar de cada um e como cada qual foi reagindo às atribulações vividas durante esse período de tempo.
É curioso constatar que, mesmo não se tratando de um romance histórico, pois os factos reais da história nem são desenvolvidos, apenas servem de marcadores temporais, o autor acaba por deixar uma espécie de testemunho psico-sociológico da sociedade de então através das experiências subjectivas narradas por cada uma das personagens: a incerteza com que muitos homens, sobrevivendo à guerra, voltaram para casa, uns tentando readaptar-se, outros seguindo por caminhos mais tortuosos, e ainda com o peso de um regime que continuava a oprimir; a esperança de uma revolução que viesse a libertar as pessoas, a mudança prometida, os exageros cometidos em nome de ideologias extremas; e por fim o desencanto, a desilusão em que essa mudança se transformou, servindo apenas os novos donos do poder e dando a sensação de que para os que sofreram pouco ou nada havia mudado. O leitor que ainda não conhece este livro irá com certeza identificar estes elementos não só pelas marcas temporais mas também no que cada personagem representa, a nível sociológico.
E mais nada é dado a dizer pois, tratando-se de António Lobo Antunes, para se chegar à compreensão, é preciso ler de facto o livro. Não há resenha ou crítica que por si possa convencer à leitura. E neste Fado Alexandrino, o escritor respeita muito bem o leitor, pelo menos não subestima a sua inteligência, dando-lhe o prazer de conseguir ver, através da leitura, um mundo muito abrangente com estas personagens, não esquecendo que é do ser-se português que aqui também se fala.
por José Alexandre Ramos
27.08.2012
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