6 de setembro de 2012

Mariana Klafke: dissertação sobre As Naus


As Naus, de Lobo Antunes: a desconstrução do império português

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A obra de Lobo Antunes é classificada, digamos que “didacticamente”, em quatro ciclos, que não contemplam todos os romances, mas dão o panorama dos temas mais explorados pelo autor: 1) aprendizagem (Memória de Elefante, 1979; Os Cus de Judas, 1979; Conhecimento do Inferno, 1981); 2) anti-epopeias (Explicação dos Pássaros, 1981; Fado Alexandrino, 1983; Auto dos Danados, 1985; As Naus, 1988); 3) trilogia de Benfica (Tratado das Paixões da Alma, 1990; A Ordem Natural das Coisas, 1992; A Morte de Carlos Gardel, 1994); 4) poder (O Manual dos Inquisidores, 1996; O Esplendor de Portugal, 1997; Exortação aos Crocodilos, 1999; Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, 2000). Neste ensaio, pretendo trabalhar com um romance da fase das anti-epopeias, As Naus, procurando apontar questões referentes à desconstrução histórica presente na obra e à impossibilidade do retorno.

Em As Naus, de 1988, Lobo Antunes trabalha com uma espécie de releitura da história das glórias marítimas lusitanas, inserindo a África e questões políticas e sociais do século XX neste quadro. A problemática predominante aqui é a do retorno: no romance, dois momentos diferentes da história de Portugal, as viagens dos descobrimentos (séc. XVI) e a descolonização da África pós-25 de Abril (séc. XX), são apresentados de forma entrecruzada, em uma grande metáfora na qual tudo é possível. “O romance traz para o século XX as figuras representadas no discurso épico do registo das viagens pelo mar e as actualiza na história de Portugal, ao encenar o desfecho trágico da colonização africana, com destaque para Angola, principalmente” (OLIVEIRA, 2008).

Segundo Margarida Calafate Ribeiro (2004), com o 25 de Abril de 1974 se encerrava um período de cinco séculos de existência real e imaginada de um determinado Portugal, colonizador; se encerrava principalmente o período de um Portugal colonizador de África, processo que condicionou fortemente a política portuguesa desde o final do século XIX até à queda do Estado Novo salazarista. Ribeiro define a literatura que trata dessa experiência como “narrativas de regresso”: "Na literatura que narra estes regressos das margens ao país imaginado – a que chamei “narrativas de regresso” do pós-25 de Abril (Ribeiro, 1998: 132) – assistimos a um movimento de repensar a nação, que, entre o espaço aberto pela revolução e a revisitação das ruínas do império, da guerra, do exílio, da ditadura ou da nossa própria história, tenta reimaginar o centro, já não enquanto espaço monolítico de representação de uma ficção nacional unificadora, mas no sentido em que Jacques Derrida o define, ou seja, como função aglutinadora de uma série de imagens diversas, polifónicas e fragmentárias que compõem o retrato precário da nação que se dispersou (apud Hutcheon, 1996: 60)" (RIBEIRO, 2004, p. 236).

Boaventura de Sousa Santos afirma que “a relação colonial protagonizada por Portugal impregnou de modo muito particular e intenso as configurações de poder social, político e cultural, não só nas colónias como no seio da própria sociedade portuguesa” (SANTOS, 2008, p. 228). A questão colonial é essencial na literatura portuguesa. De forma particular, essa experiência da guerra colonial foi transformada em uma linha narrativa cuja função passou rapidamente de individual (escrita terapêutica) à colectiva (reescrita do processo que culminou no fim do colonialismo português). A literatura cumpriu o papel de romper com o silenciamento social e político que se seguiu à libertação das últimas colónias africanas, tratando de elaborar colectivamente a experiência, bem como refletir sobre a identidade portuguesa e o novo lugar de Portugal na ordem mundial (RIBEIRO, 2004).

Em As Naus, os retornados de Angola, ex-colónia portuguesa que se tornou independente após um violento processo que se estendeu de 1961 a 1975, carregam os nomes de personagens relacionados ao período das conquistas marítimas portuguesas: Pedro Álvares Cabral, Luis de Camões, Diogo Cão, (São) Francisco Xavier, Manoel de Sousa Sepúlveda, Vasco da Gama, entre outros, figuram no romance como personagens híbridos, que carregam a identidade histórica cujo nome indica, mas também trazem histórias de vida de portugueses comuns que deixaram Portugal em busca de oportunidades. Híbrido também é o próprio encaminhamento do enredo, cujo tempo oscila entre século XVI e século XX, se passando a narrativa em algum lugar híbrido entre a Lisboa da partida e a Lisboa do retorno (OLIVEIRA, 2008).

Recheado de experimentalismos de linguagem e subversivo em relação às instâncias narrativas canónicas (tempo híbrido, construção fragmentária do narrador etc.), As Naus desconstrói a tradição épica portuguesa e o discurso histórico oficial através da sátira, desmistificando figuras históricas através do rebaixamento. Conforme Urbano Cavalcante da Silva Filho (2007, p. 50), “Lobo Antunes, fazendo uso do que a crítica canadense Linda Hutcheon cunhou de metaficção historiográfica, problematiza o discurso histórico e permite uma reflexão acerca da constituição identitária do indivíduo na contemporaneidade”. Trata-se ainda de um processo de carnavalização, no sentido do conceito elaborado por Bakhtin: As Naus aborda a história e a cultura do povo português utilizando efeitos cómicos e paródicos, buscando ao mesmo tempo o riso e o grotesco.

O romance se constrói em torno dos dramas de portugueses, ex-colonos, que retornam a Portugal, sem, contudo, poderem se reintegrar à pátria. São pessoas degradadas, doentes, envelhecidas, mentalmente confusas, que retornam à pátria que já não reconhecem e pela qual já não são reconhecidos. Em certa altura, uma prostituta de Luanda, apaixonada e à procura de Diogo Cão em Lisboa, afirma: "Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos" (ANTUNES, 1988a, p. 200).

Trata-se de uma nova epopeia para os colonos de África do século XX, esta a do retorno; porém, mesmo sendo retorno para sua pátria, ainda assim é um encontro com o desconhecido, com tanto choque, estranhamento e contraste quanto fora a chegada nas colónias. O homem chamado Luís, Camões, declara: "[...] palavra que imaginava uma enseada repleta de naus aparelhadas que rescendiam a noz-moscada e a canela, e afinal encontrei apenas uma noite de prédios esquecidos a treparem para um castelo dos Cárpatos pendurado no topo, uma ruína com ameias em cuja hera dormiam gritos estagnados de pavões" (ANTUNES, 1988a, p. 92)

O autor elaborou um interessante procedimento de diálogo entre passado (período quinhentista) e presente (período da descolonização, no século XX) e de oscilação entre real (referências históricas) e ficcional. Ao dar aos personagens de As Naus nomes de figuras históricas que fazem parte do inconsciente colectivo luso e localizá-las em ambientes actuais e degradados, Lobo Antunes desmistifica o passado português e insinua a revisão dos mitos. Esse procedimento é característico da tendência pós-moderna, que trabalha com tensões entre ficção e história, presente e passado, particular e geral (SILVA FILHO, 2007).

A mistura entre dois tempos históricos perpassa todo o romance, sendo essencial na construção desse sentido paródico que o mesmo carrega. "Passando por uma placa que designava o edíficio incompleto e que dizia Jerónimos esbarrámos com a Torre ao fundo, a meio do rio, cercada de petroleiros iraquianos, defendendo a pátria das invasões castelhanas, e mais próximo, nas ondas frisadas da margem, a aguardar os colonos, presa aos limos da água por raízes de ferro, com almirantes de punhos de renda apoiados na amurada do convés e grumetes encarrapitados nos mastros aparelhando as velas para o desamparo do mar que cheirava a pesadelo e a gardênia, achamos à espera, entre barcos a remos e uma agitação de canoas, a nau das descobertas" (ANTUNES, 1988a, p. 10).

Neste trecho, a narrativa combina duas realidades temporais, ao referenciar elementos próprios do período histórico quinhentista das navegações (almirantes de punhos de renda, grumetes encarrapitados nos mastros, nau das descobertas) no mesmo espaço e momento em que se encontram elementos do século XX (petroleiros iraquianos).

Outro ponto interessantíssimo da construção de As Naus está na narração, que oscila entre primeira e terceira pessoas constantemente. Lobo Antunes constrói uma narrativa em que várias vozes se manifestam, em contraponto ao que seria uma visão única da História portuguesa. Para exemplificar esse processo, um trecho em que Pedro Álvares Cabral procura a esposa prostituída, a essa altura já amante de Manoel de Sousa de Sepúlveda, para pedir dinheiro; há mudança de terceira para primeira pessoa na narração sem qualquer espécie de mediação: "Cabral viu a esposa erguer-se da sua tábua de melhoramentos plásticos, idêntica às imagens das igrejas de manhã, pulverizadas pelo sol rebentado como um fruto nos vitrais de degolações de mártires da nave principal, de forma que se levantou, estarrecido, de tornozelos embaraçados na espada, avançou um passo lento, como se caminhasse sobre a água, para aquela aparição de beata laica preparada para a visita hebdomadária do senhor Sepúlveda da moldura do piano, e perguntei a medo, roçando com a ponta dos dedos a sua inacessível atmosfera de perfume e pó de arroz, Tens por acaso doze contos e quinhentos que me emprestes?" (ANTUNES, 1988a, p. 173).

É importante também a escolha de termos como Lixboa e Reyno, na grafia quinhentista, chamando a atenção assim, através do plano linguístico, para uma atitude passadista na mentalidade portuguesa. Por um lado o romance traz referências ao passado em personagens, caracterizações, cenários e até mesmo na grafia arcaica, e por outro, o presente se manifesta em referências à Revolução dos Cravos e às descolonizações africanas, marcando a decadência dos sonhos e mitos e o não cumprimento das promessas de um Portugal grandioso e glorioso (TAVARES, 2009). O período da Guerra Colonial parece ser na narrativa uma espécie de contraponto ao momento quinhentista das descobertas, construindo uma crítica ao discurso de louvor ao passado português, discurso este que passa por Os Lusíadas, se aporta no mito sebastianista, chega em Mensagem, enfim, discurso que é uma longa e sólida tradição lusitana (OLIVEIRA, 2008). Lobo Antunes inclusive já declarou considerar As Naus o “decrescendo” que faltava d’Os Lusíadas: "Era a história dos retornados – portanto, a primeira história era menos ambiciosa. Era só a história da volta a Portugal (que horror, isto assim dito parece conversa de ciclismo). [Risos] Mas depois é que me começou a surgir a ideia de que podia fazer a segunda parte d’ Os Lusíadas: enquanto Os Lusíadas é um crescendo, eu faria o decrescendo. O livro até estava dividido nas partes d’ Os Lusíadas: Proposição, Invocação, Dedicatória e Narração. Bom, depois a determinada altura isto foi muito subvertido. Também porque este foi o primeiro livro que escrevi sem um plano muito definido, muito minucioso…" (ANTUNES, 1988b)

Mais do que tratar de um presente depreciativo de Lisboa, Lobo Antunes parece refletir sobre uma história que prometeu muitas glórias e conquistas e muito pouco se cumpriu, ou ao menos se pode dizer que em degradação geral resultou. Sob diversos pontos de vista, mas em especial político, económico e social, Portugal foi uma falsa promessa.

O romance se estrutura através de sete núcleos narrativos, que giram em torno de personagens, em maioria, históricos: Pedro Álvares Cabral (navegador português, chegou ao Brasil), “homem chamado Luís” (Camões, escritor português), Francisco Xavier (jesuíta que serviu no Oriente, “apóstolo das Índias”), Diogo Cão (navegador português, realizou o reconhecimento da costa ocidental africana), Manoel de Sousa Sepúlveda (fidalgo e militar português, serviu na Índia), Vasco da Gama (navegador português, descobriu caminho marítimo para Índia) e um casal de idosos retornados de Guiné (ficam logo muito marcados pela repetição de “eu não pertenço aqui”). É curioso que sejam estes últimos os únicos personagens realmente centrais anónimos. Em entrevista (ANTUNES, 1988b), Lobo Antunes afirmou que nas primeiras versões, As Naus era somente uma história de retornados, com nomes normais, e que esse casal restou assim anónimo dessa versão primeira.

Pedro Álvares Cabral é um retornado de Angola, na miséria, com o filho e a esposa mulata que é obrigado a prostituir para se instalar no Residencial Apóstolo das Índias, para onde é mandado ao chegar. Francisco Xavier é retratado como aliciador de mulheres para prostituição e dono da terrível Residencial Apóstolo das Índias, paródia ao título dado ao personagem histórico São Francisco Xavier: trata-se de uma espécie de pensão decadente na qual se amontoam seres humanos em ambiente de absoluta degradação. Em certa altura, Francisco Xavier é apresentado como um “falso santo”, “que adquirira o hábito de colar à nuca uma auréola de santo decorada por lampadazinhas de várias cores que lhe forneciam o aspecto equívoco do anúncio de uma marca de pilhas [...]” (ANTUNES, 1988a, p. 230). No romance, São Francisco Xavier não converte homens ao cristianismo, mas mulheres à prostituição. "Se fossem necessárias provas, a certeza acabada de que Deus está comigo é que mandei segunda-feira, embelezadas de lantejoulas e de xailes, trinta e oito africanas para as discotecas da Avenida Almirante Reis e do Martim Moniz, sem falar, ó servos do Senhor, nas que espalharam as ancas demoradas pelos jardins e pátios da cidade, de Belém à Ajuda, fumando no passeio Marlboros pacientes. Em pouco tempo, e graças à bênção do Pai, um desmesurado rebanho de convertidas à Fé ocupava todos os bairros de Lixboa até às docas de Alcântara" (ANTUNES, 1988a, p. 106).

O homem chamado Luís, Camões, retornado de África para enterrar o pai, circula boa parte do romance com seus restos mortais e acaba por livrar-se dele como adubo, em episódio grotesco com personagem chamado Garcia da Orta, em referência ao médico e naturalista português. O homem chamado Luís está escrevendo seu poema, Os Lusíadas, e só termina após livrar-se dos restos mortais paternos. Vasco da Gama é um jogador inveterado, às voltas com o rei D. Manuel, ambos decadentes, relembrando passado, até serem presos (ao lado da cela de António José da Silva, o Judeu!) sem que os reconheçam, e metidos em um hospício. Na cena do julgamento, há referências interessantes à situação do povo português: "[...] os levaram, de barba por pentear, sem terem tomado banho nem escovado os dentes, sem se perfumarem das essências da sua condição de nobres, sem se despedirem do batoteiro dos dois canos entretido com uma nova farsa de robertos, a uma sala de estuque leproso chamada de Tribunal de Polícia, munida de vários bancos compridos de sacristia em que se sentava um público de curiosos e desempregados, o vosso povo, o pobre povo de Lixboa, Senhor, o que em mil quatrocentos e noventa e oito se amontoou na praia do Restelo para me ver partir, aquelas caras sérias lavradas pelo desengano da desgraça, aqueles olhos sem esperança, aquela roupa gasta, o povo que não esperava nada de Vós ou de mim por não esperar nada de ninguém nem de milagre algum e me fitava com a expressão sem expressão com que se observam os filhos antes de os entaiparem nas urnas, a vossa raça de heróis e marinheiros, majestade, a que definha de diarreia de leite de coco na Guiné, vagueia, a beber água choca, nas dunas de naufrágio de Moçambique e ferve nas tabernas da Madragoa e do Castelo a discutir histórias de escunas [...]" (ANTUNES, 1988a, p. 188).  

Diogo Cão é retratado como um bêbado alienado, fascinado na procura por sereias, alheio ao mundo que o cerca. Manoel de Sousa Sepúlveda é envolvido com comércio ilegal, prostíbulos, boîtes, bares, um milionário fora da lei; pior do que tudo, gosta de observar meninas de liceu. Sepúlveda lida com todo tipo de negócios obscuros e/ou degradantes: "Emprestou dinheiro a D. João de Castro para urbanizar Goa, forneceu a Camões a possibilidade de uma edição de bolso de Os Lusíadas, com bailarinas nuas na capa, publicada numa colecção de romances policiais, ajudou o poeta lírico Tomaz António Gonzaga na benfeitoria do seu comércio de escravos, e envolveu-se na Guerra das Rosas, tomando partido pelas duas famílias, na esperança de casar-se com o inglês de Linguaphone de uma duquesa ruiva" (ANTUNES, 1988a, p. 106).

O casal retornado da Guiné não tem mais qualquer perspectiva de futuro: enquanto a mulher afirma “Eu não pertenço aqui” (ANTUNES, 1988a, p. 54), o marido coloca: “Já não pertencemos nem sequer a nós” (ANTUNES, 1988a, p. 54). A esposa acaba louca e o esposo sozinho, esquecido.

Para além destes núcleos narrativos, o romance é recheado de muitas mais referências a personagens históricos, que aparecem, em maior ou menor grau, deslocados e satirizados enquanto personagens do romance, assim como acontece com os personagens históricos que compõem os núcleos narrativos supracitados: Afonso de Albuquerque (fidalgo, militar, segundo governador da Índia portuguesa), Almeida Garrett (escritor português), Antonio José da Silva (dramaturgo e escritor luso), Bartolomeu Dias (navegador português), D. Dinis (sexto rei de Portugal), D. Francisco de Almeida (dupla referência: vice-Rei da Índia e governador de Angola), D. Fuas Roupinho (nobre português), D. Henrique (infante português, importante figura do início da era das descobertas), D. João de Castro (fidalgo português), D. Manuel (rei português), Federico Garcia Lorca (poeta e dramaturgo espanhol), Fernão de Magalhães (navegador português), Fernão Lopes (cronista português), Fernão Mendes Pinto (aventureiro e explorador português, escreveu Peregrinação), Gago Coutinho (oficial da armada, geógrafo, historiador, matemático e pioneiro da aviação), Garcia da Orta (médico e naturalista português que viveu na Índia no século XVI), Gil Vicente (dramaturgo português), Gomes Leal (poeta e crítico literário português), Luis Buñuel (cineasta espanhol), Lutero (religioso alemão, referência na Reforma Protestante), Miguel de Cervantes (escritor espanhol), Miguel de Vasconcelos (Secretário de Estado da duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, em dependência do rei de Espanha; colaborador da dominação filipina), Nuno Álvares Pereira (militar português), Oscar Wilde (escritor irlandês), Pe. Antonio Vieira (religioso, escritor e orador português), Pêro Vaz de Caminha (escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral), Sá de Miranda (poeta português), Tomaz António Gonzaga (escritor luso-brasileiro).

Além dessas referências que se realizam mais em termos de personagens da narrativa, mesmo que de passagem, há uma referência cómica ao poeta Fernando Pessoa: “[...] dezenas de Fernandos Pessoas muito sérios, de óculos e bigode, a caminho de empregos de contabilista em prédios pombalinos de beirais de loiça [...]” (ANTUNES, 1988a, p. 159). O autor ainda traz à tona algumas histórias, mitos e lendas importantes para o imaginário português, como o caso de Inês de Castro, a lenda do aio Egas Moniz e muitas referências a D. Sebastião e ao mito sebastianista. Nesse sentido, o final do romance é muito sintomático. Retornados de África, entre eles Camões, que foram instalados em um hospital de tuberculosos desocupado pelo governo, mas que é referido no capítulo também como hospício e traz a descrição de doentes presentes, crêem na volta gloriosa de D. Sebastião, elaboram um plano para restauração da independência, pois acreditam estar sob domínio espanhol, e rumam fugidos para a praia a esperar: "Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível" (ANTUNES, 1988a, p. 247).

O romance de Lobo Antunes parece ser uma grande paródia, que desconstrói a história oficial portuguesa e critica um povo que vive demasiadamente ligado a um passado fantasiado e transformado em mito, eternamente à espera de um messias vindo do nevoeiro que lhe restitua um período de grandezas. Os portugueses parecem perdidos em uma luta identitária por se definir em relação ao que foram, ao que são e ao que podem ser. Além disso, no que se refere mais especificamente ao processo de descolonização, As Naus aponta para a impossibilidade do retorno dos portugueses espalhados pelas colónias a um Portugal que já não reconhecem e no qual são considerados cidadãos de segunda classe. As Naus apresenta um Portugal perdido entre passado e presente, que não se volta para o futuro, e para o qual o trauma da descolonização foi um golpe certeiro na identidade que o definia por séculos, como império ultramar.  

REFERÊNCIAS

ANTUNES, António Lobo. As Naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988a.

ANTUNES, António Lobo. O regresso das caravelas (As Naus). [1988b]. Entrevista concedida à Revista Ler. Disponível em: . Acesso em: 23 jun. 2012. 

OLIVEIRA, Silvana. As Naus do discurso em António Lobo Antunes. In: XI Congresso Internacional da ABRALIC: Tessituras, Interações, Convergências – USP, 2008, São Paulo (SP). Disponível em: Acesso em: 14 mai. 2012. 

RIBEIRO, Margarida Calafate. Uma história de regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-colonialismo. Lisboa: Afrontamento, 2004. 

SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: por uma nova cultura política. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2008. 

SILVA FILHO, Urbano Cavalcante da. Identidade, história, paródia e desterritorialização: uma viagem n’As Naus de António Lobo Antunes. In: III SEMINÁRIO DE TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA: Convergências Literárias – UESB, 2007, Vitória da Conquista (BA). Disponível em: Acesso em: 14 mai. 2012. 

TAVARES, Enéias Farias. O desencanto histórico e religioso no romance As Naus, de António Lobo Antunes. Nau Literária: Revista eletrônica de crítica e teoria literária, Porto Alegre, v. 05, n. 02, jul/dez 2009. 


por Mariana Klafke
Ler e (des)construir
13.08.2012

5 de setembro de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Conhecimento do Inferno


[...] Faz poucos dias que findei a leitura do terceiro romance do António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, publicado em 1980, e que fecha uma trilogia iniciada com Memória de Elefante e Os Cus de Judas, ambos publicados um ano antes, quando o escritor voltou da Guerra Colonial na África, largou a carreira nas artes médicas e fixou-se, de vez, nas artes literárias. Devo dizer que é a primeira vez que leio a obra de um escritor pela linearidade das publicações. E o bom desse trajecto é o de acompanhar o desenvolvimento ou aperfeiçoamento das técnicas de escrita da parte do autor. Se os dois primeiros romances são aparentemente simples, exigindo do leitor uma reaprendizagem linguística para se pôr diante do texto, aqui o esforço não se resumirá a esse processo. Terá agora de conseguir fazer imensas fendas textuais e conseguir por através delas palmilhar um caminho mais ou menos seguro para chegar até o desfecho da narrativa e poder dizer em quatro palavras: o romance trata disto.

Os dois primeiros livros têm seus traços eminentemente autobiográficos como já terá sondado boa parte da crítica, seja pela proximidade profissional das personagens que vão narrando os factos, seja pelo desenvolvimento de algumas situações epocais: como a estadia na África no período da Guerra Colonial. Sendo que, no primeiro, estamos diante do narrador a remoer memórias soltas, muitas delas revistas e desenvolvidas no segundo romance. E o segundo romance deter-se na experiência da guerra. Agora, reduzindo em poucos dizeres, o terceiro, é uma volta para ler simultaneamente os acontecimentos desenvolvidos nos dois primeiros romances. Isto é, a trilogia desenhada por Lobo Antunes cumpre um itinerário que não é linear – sim, porque nada nesses romances obedece a linearidades – e, sim, um movimento que é como um jogo de memória espiralado. O movimento narrativo desse último romance parece ser a peça-chave para o entendimento geral da trilogia. Os três se desenham em torno dos mesmos temas e enxergam cada um no determinado instante de visão.

Se adentrarmos ao Conhecimento do Inferno notaremos que a narrativa transcorre em três instâncias: a vida pessoal, a vida profissional e a estadia na guerra. Se em Memória de Elefante sobressai a vida pessoal e em Os Cus de Judas a estadia na guerra, nesse sobressai a vida profissional. Quero com isso dizer que o narrador elege como ponto de vista a posição do profissional para remoer as mesmas questões que são desenvolvidas nos outros romances. Aqui, as referências autobiográficas são nitidamente explícitas. Damos com um médico psiquiatra que revê sua actuação profissional no instante em que está escrevendo um livro intitulado por Memória de Elefante, ou damos com uma personagem nomeada por António Lobo Antunes, enfim, mutretas linguísticas para deixar o leitor encalacrado no jogo de espelhos construído pelo narrador. E os factos que transcorrem são todas rememorações desenhadas pelo próprio personagem-narrador, de modo que o externo se confunde com as elucubrações mentais, de um parágrafo a outro, por vezes no interior da própria frase cabendo ao leitor as distinções.

Nesse caudal de pensamentos que desfilam feito a viagem de carro empreendida pelo personagem – trilha que vai se desenhando no texto pelas marcações no mapa (Algarve, ponto de partida, passando por Albufeira, Messsines, Santana, Aljustrel e Lisboa, ponto de chegada) – prevalece o seu contacto com a profissão nobre e mãe das outras profissões médicas, a psiquiatria, desde seu primeiro contacto com o manicómio até sua actuação médica no Hospital Miguel Bombarda, um claustro dos loucos. Aqui o lugar “inferno” marcado no título da obra se confirma pela presença deslocada do sujeito nesse universo em que a loucura é tratada como uma patologia clínica a ser manipulada pelo isolamento social, os sedativos, os electrochoques e toda sorte de tratamentos que reduzem a persona do louco ao estágio do mais baixo grau de selvageria.

Se nos romances anteriores, o escritor parece querer confrontar o leitor com a própria linguagem, usando da descrição seca e das torrenciais de vocábulos pesados, levando a presenciar o travelling mental ou a experiência do horror, aqui a linguagem e a montagem do enredo comungam para que o leitor se dê ao conhecimento da experiência vivida pelo próprio escritor. É necessário pensar que este romance pode actuar como instrumento de matéria histórica pelo modo como a prática médica e o tratamento dado à loucura são aí retratados. Ou ainda, como instrumento de denúncia, cujo interesse está em expor, pela via da experiência, e pelo tratamento irónico conduzido pelo escritor à profissão psiquiátrica que é camuflado pelo ideal de normalidade condicionado socialmente. 


por Pedro Fernandes
15.08.2012

1 de setembro de 2012

Do leitor José Alexandre Ramos: «muralha»

muralha
para António Lobo Antunes
Deixo o dia abater-se contra o muro: mil pedaços se formam no horizonte futuro, antevendo amanhãs desmoronados. E dos escombros se abrirá caminho, lentamente, até onde o chão poderá verdejar, e as feridas dos meus pés fecharão. Sílaba a sílaba és tu quem constrói o novo caminho e por vezes fico sem palavras perante o alinhamento perfeito do destino das tuas frases. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigem, sob o cansaço dos dias te espremendo em hesitações, alegrias e angústias, que reergues a muralha onde nos pouparemos abrigados dos ataques verborreicos dessas gentes em falsos pedestais teimando
(como se qualquer um fosse capaz de construir um muro, uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades)
teimando em afirmar que escrevem livros.


Parabéns, António. Um abraço.


por José Alexandre Ramos
Vila Nova de Gaia

31 de agosto de 2012

Passatempo «Não É Meia Noite Quem Quer»

PASSATEMPO ENCERRADO!


Com o lançamento do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer, previsto para Outubro, vamos oferecer, em parceria com a D. Quixote, três exemplares deste título, num novo passatempo a decorrer em Setembro.

Para se habilitarem ao prémio, os interessados têm de nos enviar por e-mail um texto criativo sobre António Lobo Antunes (qualquer aspecto que entenderem), onde se utilize, aleatoriamente, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer.

Os termos são os seguintes:
  1. Passatempo a decorrer entre hoje e as 24 horas do dia 27.09.2012;
  2. O participante deve escrever um pequeno texto, de forma criativa, em língua portuguesa, sobre qualquer assunto que diga respeito ao escritor António Lobo Antunes e utilizando, de forma aleatória, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer (não será aceite a ordem da formação do título do livro);
  3. O texto deve ter um título e não deve vir assinado nem conter o nome do participante;
  4. O tamanho do texto deverá ser entre 300 a 800 caracteres (com alguma tolerância), e a enviar num ficheiro de Word ou outro processador de texto similar;
  5. Este ficheiro deve ser incluído numa mensagem de e-mail com os seguintes dados do participante: nome, apelido e localidade, sendo enviado para o nosso endereço alaptla@gmail.com, dentro do prazo estabelecido no ponto 1;
  6. Os textos serão avaliados por um júri constituído por duas pessoas: António Bettencourt e Norberto do Vale Cardoso;
  7. Nos dias seguintes ao término do passatempo, e logo que possível, os textos serão publicados no espaço do blogue num só artigo, e na página do facebook um por um;
  8. Os três textos considerados mais criativos serão os vencedores do passatempo, e os seus autores contactados via e-mail para nos fornecerem as moradas para onde endereçar cada exemplar premiado, tendo para isso 24 horas após a recepção do nosso e-mail;
  9. Confirmados os vencedores, anunciaremos os autores dos três textos mais criativos;
  10. Os textos são da inteira responsabilidade dos seus autores;
  11. Cada participante poderá apenas concorrer com um só texto, não sendo permitida a sua substituição;
  12. As participações que não reunirem as condições anunciadas nos cinco primeiros pontos não serão consideradas.

editado a 15.09.2012:
quanto ao ponto 4, o máximo de 800 caracteres pode ser ultrapassado, desde que não exceda uma página de Word.

Ficamos agora a aguardar pela vossa criatividade!

Bom trabalho!


27 de agosto de 2012

José Alexandre Ramos: opinião sobre Fado Alexandrino

Impressões da releitura de Fado Alexandrino

Lembro que quando li Fado Alexandrino a primeira vez, há vários anos, o livro andou semanas dentro de mim, sem que fosse capaz de iniciar outras leituras (de outros autores) que não me entediassem logo nas primeiras páginas. Foi de tal modo o impacto que desejei ser realizador de cinema para que conseguisse colocar tudo aquilo num ecrã, pois que não bastavam as descrições que fazia do que havia lido; para contar sobre ele, tinha que dar a conhecer as imagens exactamente como se tinham fixado na minha mente durante a leitura – uma das mais rápidas e devoradoras que tive, mesmo sendo um livro enorme (mais que seiscentas páginas).

A releitura, porém, foi mais morosa, por um lado devido a razões particulares que não interessam à questão, e, por outro, sem dúvida a razão mais válida, para absorvê-lo de maneira diferente. Obviamente que, depois de ter lido tudo o que António Lobo Antunes publicou até hoje, o impacto desta segunda leitura não foi tão forte como da primeira vez, mas não deixo de reconhecer que é, na generalidade da obra, um dos seus livros mais bem conseguidos.

Quem lê o autor pela sua ordem cronológica (é o método que estou a seguir para a  releitura da obra), não ficará indiferente ao facto de Fado Alexandrino ser um livro muito mais maduro que os seus antecessores (foi o quinto que publicou): no estilo, no discurso, no aproveitamento das personagens. Digamos que o autor deixa o tom de um certo queixume que marca os três primeiros livros, segue pela via experimentada em Explicação dos Pássaros (no sentido de já não ser uma catarse da sua própria experiência) e solidifica, neste seu primeiro longo romance, a linguagem cuidadosamente escolhida e o encadeamento de várias narrativas dentro própria narrativa – marca do seu estilo com que nos habituará na dezena de livros seguintes. Porém, ainda não é aqui que o uso do discurso na terceira pessoa do singular cai, o livro é narrado por uma personagem cujo papel é ouvir o que as outras personagens (essencialmente quatro) têm a dizer, personagem que pouco ou nada intervém com o seu discurso mas é o veículo para a expressão das que vamos conhecendo. Mesmo assim, e como já em Conhecimento do Inferno ou em Explicação dos Pássaros, assistimos à transformação do discurso para a primeira pessoa em longos trechos do texto, principalmente quando existe na narrativa a necessidade de introduzir maior subjectividade ao discurso ou experiência da personagem.

Outra grande inovação neste livro é a sua estrutura: divide-se em três grandes partes, cada uma delas subdividida em doze capítulos. É a primeira vez que o autor não dá tréguas ao leitor, já que cada capítulo (todos do mesmo tamanho) não se lê de uma assentada, tanto pelo seu comprimento, como pela forma como foi escrito. Daqui, sem dúvida, a razão do título: alexandrino diz-se de um verso de doze sílabas, e o que é aqui narrado senão um fado, o fado da sociedade portuguesa durante um período conturbadíssimo da sua história recente? As três partes correspondem cada uma delas, respectivamente, a três períodos históricos: antes da Revolução, durante a Revolução e após a Revolução (25 de Abril de 1974).

Resumindo a intriga ao seu mais básico: ex-combatentes da guerra colonial (em Moçambique) reúnem-se num encontro após dez anos do seu regresso. É este período de uma década em que a intriga e os relatos se desenvolvem, dividido pelas três partes de antes, durante e após a Revolução. O encontro é um jantar em que se destacam as vozes mais próximas do narrador (a quem as personagens tratam por capitão): um tenente-coronel, um tenente oficial de transmissões, um alferes e um soldado. Estamos no restaurante e são evocadas as vivências de cada um antes da revolução, quando do seu regresso da guerra; decidem depois do restaurante ir a uma boîte, que marca a transição para o durante a revolução; por fim acabam em casa do alferes, na companhia de prostitutas que trazem da boîte e entramos no depois da revolução. Bastante bebidos, descontrolados, e conhecidas as suas experiências durante os dez anos, em que constatam algumas coincidências de relações pessoais e factos entre si, acabam por assassinar um deles com uma faca de cozinha, e no final é relatado como uma caricatura o plano para se desenvencilharem do cadáver e esquecerem uma noite em todos os aspectos degradante, reflexo da maneira de estar de cada um e como cada qual foi reagindo às atribulações vividas durante esse período de tempo.

É curioso constatar que, mesmo não se tratando de um romance histórico, pois os factos reais da história nem são desenvolvidos, apenas servem de marcadores temporais, o autor acaba por deixar uma espécie de testemunho psico-sociológico da sociedade de então através das experiências subjectivas narradas por cada uma das personagens: a incerteza com que muitos homens, sobrevivendo à guerra, voltaram para casa, uns tentando readaptar-se, outros seguindo por caminhos mais tortuosos, e ainda com o peso de um regime que continuava a oprimir; a esperança de uma revolução que viesse a libertar as pessoas, a mudança prometida, os exageros cometidos em nome de ideologias extremas; e por fim o desencanto, a desilusão em que essa mudança se transformou, servindo apenas os novos donos do poder e dando a sensação de que para os que sofreram pouco ou nada havia mudado. O leitor que ainda não conhece este livro irá com certeza identificar estes elementos não só pelas marcas temporais mas também no que cada personagem representa, a nível sociológico.

E mais nada é dado a dizer pois, tratando-se de António Lobo Antunes, para se chegar à compreensão, é preciso ler de facto o livro. Não há resenha ou crítica que por si possa convencer à leitura. E neste Fado Alexandrino, o escritor respeita muito bem o leitor, pelo menos não subestima a sua inteligência, dando-lhe o prazer de conseguir ver, através da leitura, um mundo muito abrangente com estas personagens, não esquecendo que é do ser-se português que aqui também se fala.


por José Alexandre Ramos
27.08.2012

25 de agosto de 2012

3º volume da Colecção ALA - Ensaio (LeYa - Texto Editora) para breve

O 3º volume da colecção será publicado em breve, e é da autoria de Ana Paula Arnaut:


Como trata a mulher António Lobo Antunes?
As figuras femininas são abundantíssimas, na sua obra, marcadas por traços indeléveis de actuação e personalidade.
Mas agem elas com frequência ou são meras personagens comparsas, de procedimento subordinado ao dos homens? Têm vincado o carácter ou, ao invés, apresentam compleição débil, não alcançando voz activa na intriga do romance?
Ana Paula Arnaut, professora Agregada da Universidade de Coimbra e especialista desta obra, estuda com pormenor e rara argúcia, em todos os romances, as figuras femininas neles existentes, procedendo a finas análises do texto e de comportamentos nele representados, que impressionam pela tendencial exaustão do trabalho e pela justeza das conclusões, que nunca simplificam essa capacidade de sugestão e vaga impressividade que é dos encantos maiores da escrita de António Lobo Antunes.
Este é o livro que faltava, para uma melhor compreensão do universo ficcional do criador da Julieta de A Ordem Natural das Coisas, da Isilda de O Esplendor de Portugal e da Maria Clara de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, personagens femininas que marcam o romance português de todos os tempos.

por Maria Alzira Seixo, coordenadora da colecção

19 de agosto de 2012

Estreia no dia 1 de Setembro «Guarda-Chuvas de Chocolate», espectáculo de teatro baseado nas crónicas de António Lobo Antunes

ESTREIA: 1 de Setembro de 2012

SESSÕES: de 5ª a 2ª -  18:15h | 18:40h | 19:05h | 19:30h | 19:55h | 20:20h

LOCAL: SALA 3 - Teatro Rápido – Rua Serpa Pinto, 14 – 1200-445 Lisboa (CHIADO)

M/12
bilhetes a 3€

FICHA ARTÍSTICA
INTERPRETAÇÃO Luciano Gomes | DRAMATURGIA E ENCENAÇÃO Paulo Morgado & Ruy Malheiro CENOGRAFIA Joana Patrício | DESIGN GRÁFICO Elisa Gomes


SINOPSE
monólogo
António, consciente da proximidade do fim do seu tempo, reflete sobre o que restou: a derradeira solidão recheada de memórias de uma vida passada.
Como quem visita um álbum fotográfico repleto de cores, texturas e aromas de outros tempos, partilha com o espetador essas memórias com que dá corpo à sua história e o que ficou do seu pequeno mundo… memórias que são também as de um Portugal recente, comum a todos nós!
Uma viagem no tempo que nos resta através do tempo que já vivemos…


“A infância atravessada é como uma espinha,
a gente engole bolas de pão e não passa…”
                               António Lobo Antunes

[press release por cortesia de Ruy Malheiro]

5 de agosto de 2012

Folha de São Paulo: «Minha profissão é escrever sem camisinha»

[continuação daqui]

Para Lobo Antunes, que redige seus livros a caneta, criar na tela do computador é como fazer sexo com preservativo

Autor define a criação como momento de angústia e solidão; na infância, apaixonou-se pela obra de Lobato

DE SÃO PAULO
Folhas de papel A4 e caneta esferográfica. É o que basta para António Lobo Antunes escrever os seus livros. Avesso a celulares e cartões de crédito, ele não usa o computador para produzir.
"Gosto de desenhar as letras, de bordar. Ver vidro é como fazer amor com camisinha. Minha profissão é escrever sem camisinha", conta. "Nos dias bons a mão fica a fluir e escreve sozinha." Às vezes saem só cinco linhas em um dia.
Mas escrever, propriamente, não lhe dá prazer, revela ele. "Quando não escrevo me sinto culpado. A criação é um mistério. Há alturas de uma felicidade intensa, mas a maior parte do tempo é angústia. De tentar encontrar a palavra e a música e a cor. Talvez escrever seja a arte dos corantes."
E por que escreve dessa maneira, misturando poesia, prosa? "É a minha maneira. Nunca penso se é poesia ou prosa ou o que for. O importante é que sejam aquelas as palavras."
Seu mais recente livro, que será lançado neste ano em Portugal, chama-se "Não É Meia Noite Quem Quer". "É uma mulher falando o tempo todo. O livro não tinha título. Peguei um verso do [francês] René Char", explica.
Próximos livros? "Sei que precisava de mais 200 anos, mas não sei para escrever o quê. Cada livro é o primeiro. Porque a experiência é como os flutuadores dos hidroaviões. Não servem para nada quando você está no ar. E você está sempre muito sozinho quando está fazendo um livro", desabafa.
Nascido em plena ditadura de Salazar, foi lendo uma fábula de La Fontaine que Lobo Antunes aprendeu o que era democracia. "Tinha um verso em que um cão podia olhar para um bispo. E aqui os bispos é que podiam olhar para os cães."
LOBATO E MACHADO
Na biblioteca do pai se apaixonou por "Saci", de Monteiro Lobato. Lia José de Alencar, Aluísio Azevedo, Raul Pompeia, Machado de Assis. Aos 7 anos viajou pela Europa.
"Fui acumulando experiências de toda a ordem desde muito cedo. Ficava tudo dentro de mim. Aos 3 anos tive uma tuberculose e fiquei deitado numa cama durante um ano. Era um menino horizontal no meio de gente vertical", lembra.
De estudar ele nunca gostou. "Estava sempre procurando tempo para escrever", recorda. Quis fazer letras, mas acabou cedendo à pressão do pai, que o queria seguindo a tradição da família na medicina.
E foi um choque. "Os primeiros tempos eram só cadáveres, cadáveres, cadáveres. Para mim a morte não existia. Era o filho mais velho dos filhos mais velhos. Quando nasci, minhas avós tinham 40 anos. Então os mortos eram senhores de bigode nos retratos", conta.
E essa experiência na medicina foi importante para os seus escritos? "Não. Se tivesse sido engenheiro ou outra coisa teria sido igual. Drummond era farmacêutico", responde. E ele, que estudou psiquiatria, como define esses doutores? "Os psiquiatras são loucos tristes", ataca.
Como médico, Lobo Antunes foi com as tropas portuguesas para Angola, que lutava pela independência.
"É horrível, porque ninguém ganha uma guerra; todos perdem. Foi um desafio a mim mesmo. Aprendi o valor da coragem", afirma.
Na mesma época, do outro lado da batalha, com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), estava Pepetela, hoje escritor como Lobo Antunes. Ambos venceram o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Beirando os 70 anos, como sente o envelhecer? A resposta é inusitada. "Cada pessoa tem a idade com que nasceu. Se nasceu com 20 anos, tem 20 anos; se nasceu com 80, tem 80." E com quantos anos Lobo Antunes nasceu? Ele escapa. "Essa é uma pergunta muito íntima."
Hoje, ele corre regularmente às margens do Tejo -"só o suficiente para ficar bonito".
Está curado do câncer? Sim. Depois de uma pausa, emenda: "Se é que alguém alguma vez fica curado seja do que for. Você se cura de um grande amor? Não sei."


texto de Eleonora de Lucena
19.07.2012

30 de julho de 2012

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Explicação dos Pássaros

E pronto. Lá terminei outro livro de António Lobo Antunes que, tal como todos os que já li, me provocou um prazer enorme.

Este, “Explicação dos Pássaros”, é já de 1981, um dos seus primeiros mas que, por qualquer razão, não havia ainda lido.

Adoro ler. É enorme o prazer que tiro da leitura de um bom livro. E depois há o acto de ler ALA e o gozo incomensuravelmente maior que, numa grande parte das vezes, me dá lê-lo.

Será o desafio que a sua forma de escrita propicia? Será a poesia que lhe está intrínseca? Serão as personagens tão físicas, tão reais, tão consistentes que quase as podemos sentir? Não sei. Apenas posso dizer que já lhe sinto a saudade.

Em “Explicação dos Pássaros”, somos levados a acompanhar Rui S. naqueles que irão ser os últimos quatro dias da sua vida. Quatro dias que nos levam a perceber uma existência pejada de rupturas, de perdas, de frustrações, de buscas do seu espaço social, da procura de si próprio.

Rui é alguém que sente não pertencer a lugar nenhum quer social quer familiar. Não pertence à Lapa, casa de família onde o seu pai pontifica e o assombra (?). Não pertence ao mundo de Marília nem nunca pertenceu ao de Tucha ou mesmo ao dos filhos, distantes. Não pertence ao mundo da casa da D. Sara onde tem por vizinho, entre outros, o Sr. Esperança, “barítono de craveira internacional” que trabalhava num circo e havia sido casado com uma amestradora de rolas… Enfim, alguém que não tem lugar, nem mesmo (sobretudo) em si próprio.

Rui tem uma grande obsessão pelos pássaros, pela sua explicação… Talvez seja o resultado do único momento em que se sentiu bem no seu espaço, que se sentiu parte integrante de algo; quando em miúdo, na quinta onde passavam as férias e onde ainda eram uma família feliz, sentado nos joelhos do pai, lhe havia pedido para lhe explicar os pássaros.

Verdade? Fantasia? Necessidade de em algum tempo em algum lugar ser ele mesmo? A verdade é que este momento é evocado recorrentemente ao longo da narrativa.

Rui era professor de História, não porque fosse esse o seu “lugar”, mas apenas porque não tinha (não queria ter) espaço no que eram os negócios do pai.

E assim, presos a um estilo a que ALA já nos habituou (e que noutros livros posteriores tem levado a limites aqui ainda insuspeitados), fragmentando e entrelaçando tempos, personagens, acções e reflexões que por sua vez se vão entrosando num universo de metáforas, num mundo por vezes até irreal, onírico, vamos repensando toda uma vida enquanto viajamos com Rui e Marília para Aveiro, em vez de para Tomar, e com eles contemplamos, em silêncio, as águas oleosas da ria e, sobretudo, as gaivotas que a sobrevoam.

Aí assistiremos às últimas rupturas. A que advém do próprio facto de desistir do congresso a que deveria ir em Tomar, a que acontece com Marília, e a consciencialização da sua vida que o leva a não ter outra saída que não a ruptura com ela própria.

Há uma metáfora particularmente importante que atravessa toda a narrativa: o circo. O circo que, a meu ver, simboliza a crueza da vida, as concessões que nela fazemos, a crueldade, tudo o que é deprimente e não o circo maravilhoso das luzes. Efectivamente é tudo aquilo que se esconde por detrás delas, o que é amargo, deprimente.

O circo que vai ganhando importância à medida que nos vamos aproximando do final. O local em que o protagonista é personagem e espectador atento e, às vezes, até surpreendido. O circo onde se cruzam todas as vozes, de forma quase feérica no final, e nos são dados a conhecer os múltiplos pontos de vista acerca de tudo o que foi acontecendo em torno de Rui.

Enfim, uma narrativa extremamente rica que me deixou, uma vez mais, de água na boca.

A não perder.


por Maria Celeste Pereira
Ponto de Cruz
30.07.2012

22 de julho de 2012

Folha de São Paulo: «Catador de Memória»

«Principal autor português vivo, Lobo Antunes fala de literatura e de seu romance com traços autobiográficos»

[notícia da Folha de São Paulo a propósito da edição brasileira de Sôbolos Rios Que Vão]

foto de Marta Perez

O texto transborda lirismo e é um turbilhão de memórias entrelaçadas em vários tempos. No leito de um hospital, um homem com "cancro" lembra sua trajectória, projectando um transe.
Assim é "Sôbolos Rios que Vão", livro do premiado escritor português António Lobo Antunes, lançado agora no Brasil pela Alfaguara. O título vem de um verso de Luís de Camões (1524-1580).
Sôbolos é uma antiga contração de "sobre" com "o"; significa em cima. No poema e no livro o leitor navega pelas turbulências da vida.
Ligo para Lisboa e pergunto a Lobo Antunes se o livro é autobiográfico, já que ele também teve um câncer anos atrás e o narrador aparece como sendo "Antoninho".
"Não, mas tem tudo a ver com a minha experiência, porque nós só falamos de nós mesmos. A imaginação não é mais do que a forma como você arranja os materiais da memória. Não há imaginação. Há memória", pontifica.
E explica: "Foram os neurocientistas que descobriram isso. Se uma pessoa tem um acidente vascular cerebral e fica privada de memória, não consegue escrever. Fica sem imaginação".
Câncer, tuberculose, guerra - o escritor já viveu fortes experiências. Mas, para ele, "o que marca profundamente uma pessoa são coisas nas quais não reparamos quando vivemos; coisas pequeninas, um olhar ocasional na rua. O problema é transfigurar isso".
Lobo Antunes acha que o seu trabalho é como o das pessoas que vagam pelas ruas remexendo latas de lixo. Naquilo que os outros jogam fora é que ele diz buscar material para escrever.
E o que ele escreve? "Tenho dúvida se se pode chamar de romance o que escrevo. Não me interessa contar uma história. Não me interessam personagens. A única coisa que me interessa é tentar colocar a vida inteira dentro das capas de um livro."
Ele rejeita a crítica de que seus livros são difíceis. "O problema é que o leitor normalmente abre o livro com sua chave, feita das suas experiências. Um livro bom tem a chave dele. Então é preciso abrir o livro com a chave do livro, não com a sua."
Lobo Antunes conta que a primeira vez que leu Joseph Conrad (1857-1924) não percebeu nada. "O livro não é uma coisa que fala, é uma coisa que ouve. É a orelha que você encosta na terra para ouvir o mundo. Você tem que ficar doente do livro."
Para ele, "normalmente o livro começa a caminhar dentro de você quando a leitura acaba. Os livros bons são os que têm insónias. Você se levanta à noite para beber água e passa na biblioteca às escuras. Os livros estão a dormir. Mas 'Os Irmãos Karamázov' estão a olhar para você".


19.07.2012

texto de Eleonora de Lucena
foto de Marta Pérez / EFE

21 de julho de 2012

Simão Fonseca: opinião sobre O Esplendor de Portugal


«Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.
Às armas, às armas,
Sobre a terra, sobre o mar!
Às armas, às armas.
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões, marchar, marchar.»

O excerto do nosso hino nacional que antecede este romance do António Lobo Antunes poderia facilmente sugerir uma glorificação a Portugal. Desde os tempos em que o nosso povo se embrulhou com os britânicos (onde se lê “canhões” lia-se “bretões” na versão original de A Portuguesa), das conquistas asiáticas, africanas e parte do continente americano, temos uma certa tendência a viver do passado e não é à toa que temos uma palavra única sem tradução directa no mundo: a saudade. É isso mesmo, foi pela saudade que Salazar enviou milhares de inocentes para combater pela extensão territorial da Metrópole, como se sabe, mas as coisas ainda se complicaram mais quando Portugal decidiu entregar os territórios africanos e não soube domar essa transição.

Uma família que viveu em Angola e que se viu obrigada a retornar a Portugal sugere a dificuldade a má gestão humana e geográfica dos governos portugueses que não protegeram aqueles que se encontravam a viver em Angola de forma honesta, aqueles que se sentiam angolanos, aqueles que reconheciam a igualdade a todos os níveis entre o povo português e o angolano. Mas neste esplendor altamente satírico à pobreza material e espiritual de um povo que conquistou metade do mundo, há quatro personagens que vão narrando os acontecimentos desde os primeiros tempos do domínio salazarista sobre Angola, passando pelo 25 de Abril, guerra civil angolana e total independência do país, sensivelmente até 1995, data da última narração neste romance. As personagens são três filhos e uma mãe que oriundos de uma família que enriqueceu com a exploração dos escravos negros e que construiu laços e negócios de exportação sólidos com outros grandes países europeus e norte-americanos. 

Dois desses filhos são bastardos fruto de relações extra-conjugais entre um pai, que aparece a falar ao longo de alguns capítulos, e uma mãe de uma zona pobre, que decide entregar-lhe a criança a troco de dinheiro. Numa casa de várias traições amorosas onde o luxo não suprime a falta de carinho que algumas personagens desabafam, quase todos se dão mal, especialmente a mãe e Carlos, um mulato desprezado pela própria avó. Os três filhos são enviados para Portugal sensivelmente quando a guerra civil rebenta e as milícias angolanas andam a pilhar e destruir o império português, de onde, como sabemos, os portugueses eram perseguidos. Muito sangue, muita tragédia e muito saudosismo de personagens que experienciam o auge e o declínio do salazarismo em Angola.

O Esplendor de Portugal é obviamente um retrato satírico não só do declínio geográfico e económico, mas também de um povo que vive ainda no passado e que se lamenta por isso. Apesar de ser um bom livro, as cerca de 412 páginas do livro revelam-se pesadas a determinada altura, caindo facilmente na repetição de ideias – ainda que esta técnica de “tortura” seja habitual em António Lobo Antunes.


por Simão Fonseca
21.07.2012

11 de julho de 2012

R.B. NorTør: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Será, em termos de volume, um dos maiores livros do autor e hesito em escrever romance. Hesito no romance pois não estou seguro que seja um romance. Estamos seguramente perante um dos melhores exemplares da escrita poética do autor, perante uma das menos lineares narrativas, uma análise, desta vez não às profundezas da mente, mas às teias que unem uma família a fragmentar-se. Acresce ainda que este "Não entres tão depressa nessa noite escura" é ainda um brilhante exemplar de como o acto de ler pode ser fisicamente desgastante sem que isso implique uma escrita sombria.

A afirmação de que a escrita de A. Lobo Antunes não é sombria poderia ser por si só motivo de discussão. No extremo poderia levar um conhecedor a pegar nesse livro, a perder-se nos seus primeiros capítulos e a fechar o livro para nunca mais o abrir. Na realidade, este que vos fala releu os três primeiros capítulos três vezes para se embrenhar nesse fim tarde, para descortinar os raios de sol pelas grandes janelas do hospital onde tudo começa, onde se espera que o pai de uma família sem nome vá para a sua operação ao coração e que volte como novo para os Cuidados Inten ivos. Foram três releituras para que se formasse então a inevitável pergunta: que noite é essa de que nos fala o título?

Essa pergunta atravessa toda a obra. Ela vai mudando à medida que mudam os capítulos, vai tomando nuances consoante o narrador, mas está sempre lá. Ela é a morte de um pai de família com problemas de coração, ela é a vergonha de uma família pejada de dívidas que alimentam uma ilusão de grandeza imposta pelos vizinhos, é a pobreza tão profunda que emana um cheiro nauseabundo e torna os pobres em gente sem direitos, sem inteligência, agradecidos por todas as migalhas que os ricos não precisam e sacodem para fora da mesa, que os bestializa e que envergonham quem se dava com as elites coloniais. Pode ainda essa noite ser a vida de sonhos e personagens imaginárias, escondidas em quartos alugados nas traseiras do barbeiro de uma aldeia que não são mais do que quatro casas, ou será essa noite a vida real que vivemos, nos sufoca e nos leva a sonhar com o que podia ter sido, o que podíamos ter mudado, podem ser todas as noites, pode não ser nenhuma delas.

A obra é apresentada no tradicional estilo catártico do autor, da personagem no consultório a analisar a sua vida. No entanto há algo que torna esta obra particularmente distinta no cânone do autor. Sem sacrifício da densidade e profundidade da escrita, capazes de cansarem o autor, verifica-se que há um tom luminoso que atravessa toda obra. Ao contrário de outras obras do autor, em que nos sentimos abraçados pelas sombras, nesta há uma aura luminosa que ilumina as cenas de espera pela morte em salas de espera, que iluminam os traficantes na praia, que é o raio de luz pela janela do andar de Alcoitão, a luz das máquinas do casino quando se apostam móveis e jóias de vidro. É uma constante na obra, uma oposição a essa noite escura de que nos fala o título, mas não se pense que transborda de alegria. É uma luminosidade que abraça momentos do mais puro desespero que se apodera de nós nas horas de incerteza, que brilha sobre a angústia que sentimos quando vemos o nosso mundo a cair, esse foco que incide sobre o envergonhado. É a luminosidade que passa por entre as folhas das palmeiras, nessa hora de incerteza sobre o passado, quando nos perguntamos "e se tivesse sido de outra forma?".

Há ainda um lado social na obra. Como disse anteriormente, desta feita o mergulho às profundezas da mente humana é substituído por um dissecar de relações interpessoais, uma perspectiva sobre como nos integramos no meio social. É um olhar sobre essa sociedade de ilusões, as aparências em que tem de se nascer para que se seja aceite, porque os pobres são burros, emanam o cheiro de pobreza, não podem brincar com quem partilhava fins de tarde com o presidente Kruger.

Toda a obra é a descoberta dessa família de Cascais, saudosa dos tempos africanos, em que mandava e não negociava com pretos e árabes. Uma menina que luta por respeito junto dos alunos, apesar da menina a caminho do casino sem ter o que jogar, a família que faz por esquecer o bastardo com nome de princípe herdeiro que acolhe no seu meio, emanando o cheiro a pobre, a preocuparem-se com os empregados e particularmente com a Adelaide, presa que está entre o que foi, o que gostavam que tivesse sido e o que é.

E há a Maria Clara. A Clarinha, a Maria Clara que é o homem da casa, nunca Clara, a mãe. Maria Clara a redatora deste diário, a gota de sanidade num micro-cosmos louco, o pilar de realidade que sustenta a vivência imaginária de uma famíilia que tem o pior dos cegos por mãe. A Maria Clara é o homem da casa que perscruta nessa arca do sótão as origens do pai, a Adelaide com uma criança ao colo, as fotos do professor de aldeia. A Maria Clara que nos conta, com uma inveja na pena, a forma despudorada como o médico despia a irmã com os olhos, a Maria Clara que gostava de ser como Ana, o homem da casa que gostava que a Ana gostasse dela, que lia em revistas a opinião dos psiquiatras sobre a normalidade do amor entre mulheres, a Clarinha que queria ser mais mulher. 

Há que falar de Clara, mãe de duas crianças, que vive com o marido na casa dos sogros, que não está mais em Cascais, que foi com a irmã a uma cave em Algés, antes desta ir para Itália e desaparecer da vida deles. A Clara que aparece no conto no momento em que se revela essa noite escura. Não é mais Clarinha, não mais a Maria Clara é o homem da casa, Clara, a sombra que nos sussurra como tudo poderia ter sido bom se tivesse sido assim e que no final nos deixa com a dúvida se alguma vez sairemos dessa noite escura.

Em jeito de conclusão, este Não entres tão depressa nessa noite escura é uma narrativa poética que me ia deixando fisicamente cansado, mentalmente esmagado e no entanto envolto numa radiância. António Lobo Antunes não o escreveu para os fracos de espírito, nem para quem começou agora a perceber que ler é mais do que articular palavras. Esta obra terá de figurar em qualquer discussão sobre a magnum opus do seu autor.


por R.B. NorTør
30.05.2012

20 de junho de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Os Cus de Judas

Há livros que oferecem uma resistência natural antes mesmo de começarmos sua leitura. Em torno dessas resistências as questões são variadas. Quando se trata de um livro que marca o fim do trajecto literário de um escritor, por exemplo. Digo isso pensando no recém-lançado Clarabóia, de José Saramago, que comecei e ainda não fui ao fim como se estivesse poupando-me daquele sentimento que me invade toda vez que entro numa livraria: a finitude porque sei que o escritor não está mais a escrever nenhum livro que noutras ocasiões me fazia ir a livraria para ficar cá à cata dos dias acompanhando a chegada da novidade, como quem que amamos, de longe, escreve cartas, para nos dar contas do que se passa por algures.

Outro modo de resistência é o próprio texto quem nos oferece. Não quero citar pela milésima vez os livros que me obrigaram a vários recomeços até que eu estivesse totalmente certificado de que eu havia conseguido captar seu leitor. Sim, grandes livros têm seus próprios leitores: únicos, singulares. E, nesse território cito Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes. Iniciei a leitura desse romance ainda na graduação quando o livro, editado pela Objetiva, apareceu na Biblioteca próximo dos livros de José Saramago. Mas, somente iniciei. O movimento linguístico da obra foi mais forte que eu e, não passei do primeiro capítulo, peculiarmente marcado como o capítulo A.

Depois, fui ser professor de Literatura Portuguesa III e, no galope desse curso é indispensável que os alunos tenham contato com escritores do porte de Lobo Antunes. Li na primeira sentada antes ainda do início do curso: era um dos poucos livros que indicaria aos alunos e que ainda não havia lido. Alunos, aliás, que sempre chegaram para mim a queixar-se que a narrativa era difícil: o leitor destreinado enrosca-se nas palavras e perde-se facilmente no ritmo do diafragma textual. Sim, é verdade, a narrativa de Os Cus de Judas é exemplo claro do curto frágil limite que separa a linguagem poética da linguagem narrativa. Isso será a primeira coisa que me fascina no escritor. Também o modo apressado de narrar numa clara tentativa de aproximação do fôlego da oralidade, típica de Saramago. Está aí algo que pensei não ir encontrar em nenhum outro escritor, mas que vejo em Lobo Antunes e seu enovelamento de palavras. Elas se combinam de uma maneira que, ao primeiro alcance, é caos e desastroso, mas no dobrar da esquina, a coisa se ajusta e o se preserva é uma tensão natural.

Chamou-me atenção, de imediato, esse título: Os Cus de Judas. O sintagma escatológico que só se esclarece no correr do romance e que fruto de duas expressões portuguesas que quer dizer fim do mundo ou lugar inóspito: o cu do mundo – o lugar onde Judas perdeu as botas. Afinal, o espaço físico pelo qual transitará o olhar do narrador está situado em algures na Angola. Embora seja constantemente nomeado os lugares físicos, não se situa o narrador em nenhum deles especificamente.

Depois, também fiquei a saber que Os Cus de Judas integra uma trilogia que foi escrita quando o escritor voltou da Guerra Colonial em Angola, trilogia essa seguidamente formada por Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno. Lobo Antunes é formado em Medicina e embarcou para os campos de batalha na África, como muitos portugueses de seu tempo. A Guerra Colonial em África integra, dentro dos temas da literatura portuguesa contemporânea, tema-chave; muitos dos escritores, depois de Lobo Antunes, terão tocado directa ou indirectamente nas suas narrativas. Está, inclusive, em José Saramago, no Levantado do Chão, para citar um exemplo anormal, tendo em vista que já ouvi, não uma, mas várias vezes, que o Prémio Nobel de Literatura representou um tipo de literatura que está ao lado do colonizador, ponto de vista este do qual discordo completamente. Ou ainda em romances como o A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge. 

O ponto de vista de quem narra é o grande diferencial em Os Cus de Judas. A voz é de alguém que esteve no epicentro do confronto e que foi ele próprio o experienciador do grande drama, das tragédias e das atrocidades do campo de batalha. É um romance, portanto, que pode beirar ao autobiográfico, se pensarmos na máxima flaubertiana Emma Bovary c'est moi. A história é narrada por um médico alferes, recém-chegado de Angola, que, num encontro casual com uma mulher não identificada, numa longa noite, entre doses e doses de conhaque, conversa sobre o vivido em terras africanas. Incorporam-se nessa fala o comezinho da tropa, mas impera, sobretudo, o absurdo do front, as dores da personagem e sua impotência frente ao absurdo.  

O dilaceramento da família, a redução do homem aos seus afectos mais baixos, a sua submissão às maiores extravagâncias para sentir, permanecer ou driblar a morte, perigo constante numa guerra, é isso que perpassa a voz do narrador. O tom ácido com que ele vai narrando os factos, constantemente permeado pelo anedótico, compreende um estágio de consciência perturbada, que pouco tem certeza de si. Consciência saída de uma oficina do horror e que apesar de ser seu foco olhar para a Guerra Colonial em Angola, não se situa, em momento algum, numa questão única, mas avalia simultaneamente três momentos distintos de sua existência: o tempo antes de sua ida à guerra, o tempo da guerra e o pós-guerra, tudo, numa fusão que não se separa um do outro. Estando diante de um tecido de memória é natural que o narrador necessita mover-se com maior desenvoltura, e está o processo de fusão temporal, processo esse que conduz o leitor a uma percepeção clara do autêntico encadeamento dos acontecimentos. Em Os Cus de Judas os acontecimentos são derivações, como se por metástese; é esse movimento que faz o leitor reviver a dinâmina da própria história narrada.

É um arquivo de memória que, ao seu aberto, está lá exposto, na sua totalidade, o que foi, de verdade, aquele período lido pela história oficial como glorioso para o povo português. Não será à toa, portanto, essa nomeação dos capítulos por letras do alfabeto, como a indicar para o leitor fichas marcadas de um arquivo: a crueldade da guerra, os desafectos, a luta pela sobrevivência, os mandos e desmandos, o dia-a-dia comezinho da tropa, o desejo do retorno, os medos, as angústias, os individualismos, as perdas do corpo, da memória, das vidas, o esfacelamento do sujeito e seu conflito interno de si para si e de si para com o lugar da pátria. Enfim, o leitor está diante de um texto que é representativo não apenas porque recupera o horror do front angolano; Os Cus de Judas é o retrato do horror de quaisquer guerras ou conflitos em qualquer lugar do mundo, e daí, entenderão, o porquê de um título no plural – os cus de.


por Pedro Fernandes
Letras in.verso e re.verso
02.05.2012

19 de junho de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Memória de Elefante


Memória de Elefante é o primeiro romance escrito por António Lobo Antunes, em 1979, depois de voltar de uma permanência na Guerra Colonial na África, experiência que irá perpassar como material temático boa parte da sua obra. É o primeiro romance de uma trilogia que continua com Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno; os três, talvez se configurem como os mais importantes da sua carreira, não por razões estéticas, certamente, Lobo Antunes terá outros mais bem acabados romances [...], mas, estes dizem a que veio o médico meter-se com a escrita. Os três são sucessos de crítica e inauguram em Portugal uma visão nada romântica da desenhada entre os daquele país sobre o que foram os anos de ocupação portuguesa nos territórios africanos. Não que estejam esses romances reduzidos a esse propósito, mas é o tema um dos mais caros à ficção contemporânea que se forma no pós-74.  

O romance dá contas de um médico psiquiatra que, por ironia, não está bem da mente; encontra-se profundamente deprimido e sai perfazendo na sua trajectória diária, entre a rotina e o desvio dela, uma busca pelo real sentido de tudo, já que se encontra numa Lisboa desencantada, recém-separado da mulher e das duas filhas, desencantado também com a profissão e nada, absolutamente nada, parece convencê-lo a ter razões boas e próprias para se manter nesse mundo. Não é que seja uma personagem em crise existencial, mas padece de um augúrio perante a vida e traz consigo um caudal de dúvidas sobre si e seus actos cuja explicação parece, a todo tempo, escapar-lhe sorrateiramente por entre os dedos e indo esconder-se num lugar indeterminado, cabendo-lhe um esforço além do seu limite para alcançá-la. 

O conjunto das suas ações, engendradas aí, denotam uma aventura psíquica tal qual outras personagens da literatura universal: o Ulisses, do James Joyce, que o diga. Está o escritor imerso nas divagações da personagem que busca uma leitura do vivido e o que poderia ter sido vivido. Difere, entretanto, do Ulisses de Joyce pela razão simples de sentir-se incapaz de captar todos os movimentos mentais, expressivos e gestuais. A personagem é alguém que não está bem psicologicamente e o que ela busca é a razão das coisas, por que elas são como são. Talvez aí, possamos ler o título desse livro como uma ironia muito bem elaborada do seu autor para com os próprios romances que têm nas volições psíquicas o seu espaço de representação mais adequado à contemporaneidade. Lobo Antunes quer dizer com ele, como esses romances são incapazes de uma apreensão totalizadora do real empírico.

Sobressai a densidade da sua escrita, porque o escritor português segue o ritmo psicológico da fala. E faz uma coisa que até hoje não me dei conta noutros escritores: o constante cambiar da pessoa narradora, sendo ora de primeira ora de terceira pessoa. E a troca dada de um parágrafo a outro ou mesmo no próprio parágrafo. Temos aí a grande cilada que nos leva a perder-se no enredo e, não poucas, ter de voltar ao princípio do que líamos para recuperar o fio narrativo. Essas idas e vindas de quem narra cria no livro estantes tencionais em que a voz que narra se confunde com a da personagem narrada, criando uma empatia entre ambos que só pode ser lida como nalguns casos como uma sendo a outra. Processo que primeiro torna as fronteiras das duas categorias narrativas mais frouxas e segundo desestabiliza as bases entre o ficcional e a realidade. 

A leitura de Os Cus de Judas trará o entendimento de que este é, sim, um romance introdutório; a consciência abalada do médico psiquiatra do Memória terá motivos mais que suficientes para o estágio de apatia sobre o mundo e o desencanto sobre si próprio.


por Pedro Fernandes
13.06.2012

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...