11 de julho de 2012

R.B. NorTør: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Será, em termos de volume, um dos maiores livros do autor e hesito em escrever romance. Hesito no romance pois não estou seguro que seja um romance. Estamos seguramente perante um dos melhores exemplares da escrita poética do autor, perante uma das menos lineares narrativas, uma análise, desta vez não às profundezas da mente, mas às teias que unem uma família a fragmentar-se. Acresce ainda que este "Não entres tão depressa nessa noite escura" é ainda um brilhante exemplar de como o acto de ler pode ser fisicamente desgastante sem que isso implique uma escrita sombria.

A afirmação de que a escrita de A. Lobo Antunes não é sombria poderia ser por si só motivo de discussão. No extremo poderia levar um conhecedor a pegar nesse livro, a perder-se nos seus primeiros capítulos e a fechar o livro para nunca mais o abrir. Na realidade, este que vos fala releu os três primeiros capítulos três vezes para se embrenhar nesse fim tarde, para descortinar os raios de sol pelas grandes janelas do hospital onde tudo começa, onde se espera que o pai de uma família sem nome vá para a sua operação ao coração e que volte como novo para os Cuidados Inten ivos. Foram três releituras para que se formasse então a inevitável pergunta: que noite é essa de que nos fala o título?

Essa pergunta atravessa toda a obra. Ela vai mudando à medida que mudam os capítulos, vai tomando nuances consoante o narrador, mas está sempre lá. Ela é a morte de um pai de família com problemas de coração, ela é a vergonha de uma família pejada de dívidas que alimentam uma ilusão de grandeza imposta pelos vizinhos, é a pobreza tão profunda que emana um cheiro nauseabundo e torna os pobres em gente sem direitos, sem inteligência, agradecidos por todas as migalhas que os ricos não precisam e sacodem para fora da mesa, que os bestializa e que envergonham quem se dava com as elites coloniais. Pode ainda essa noite ser a vida de sonhos e personagens imaginárias, escondidas em quartos alugados nas traseiras do barbeiro de uma aldeia que não são mais do que quatro casas, ou será essa noite a vida real que vivemos, nos sufoca e nos leva a sonhar com o que podia ter sido, o que podíamos ter mudado, podem ser todas as noites, pode não ser nenhuma delas.

A obra é apresentada no tradicional estilo catártico do autor, da personagem no consultório a analisar a sua vida. No entanto há algo que torna esta obra particularmente distinta no cânone do autor. Sem sacrifício da densidade e profundidade da escrita, capazes de cansarem o autor, verifica-se que há um tom luminoso que atravessa toda obra. Ao contrário de outras obras do autor, em que nos sentimos abraçados pelas sombras, nesta há uma aura luminosa que ilumina as cenas de espera pela morte em salas de espera, que iluminam os traficantes na praia, que é o raio de luz pela janela do andar de Alcoitão, a luz das máquinas do casino quando se apostam móveis e jóias de vidro. É uma constante na obra, uma oposição a essa noite escura de que nos fala o título, mas não se pense que transborda de alegria. É uma luminosidade que abraça momentos do mais puro desespero que se apodera de nós nas horas de incerteza, que brilha sobre a angústia que sentimos quando vemos o nosso mundo a cair, esse foco que incide sobre o envergonhado. É a luminosidade que passa por entre as folhas das palmeiras, nessa hora de incerteza sobre o passado, quando nos perguntamos "e se tivesse sido de outra forma?".

Há ainda um lado social na obra. Como disse anteriormente, desta feita o mergulho às profundezas da mente humana é substituído por um dissecar de relações interpessoais, uma perspectiva sobre como nos integramos no meio social. É um olhar sobre essa sociedade de ilusões, as aparências em que tem de se nascer para que se seja aceite, porque os pobres são burros, emanam o cheiro de pobreza, não podem brincar com quem partilhava fins de tarde com o presidente Kruger.

Toda a obra é a descoberta dessa família de Cascais, saudosa dos tempos africanos, em que mandava e não negociava com pretos e árabes. Uma menina que luta por respeito junto dos alunos, apesar da menina a caminho do casino sem ter o que jogar, a família que faz por esquecer o bastardo com nome de princípe herdeiro que acolhe no seu meio, emanando o cheiro a pobre, a preocuparem-se com os empregados e particularmente com a Adelaide, presa que está entre o que foi, o que gostavam que tivesse sido e o que é.

E há a Maria Clara. A Clarinha, a Maria Clara que é o homem da casa, nunca Clara, a mãe. Maria Clara a redatora deste diário, a gota de sanidade num micro-cosmos louco, o pilar de realidade que sustenta a vivência imaginária de uma famíilia que tem o pior dos cegos por mãe. A Maria Clara é o homem da casa que perscruta nessa arca do sótão as origens do pai, a Adelaide com uma criança ao colo, as fotos do professor de aldeia. A Maria Clara que nos conta, com uma inveja na pena, a forma despudorada como o médico despia a irmã com os olhos, a Maria Clara que gostava de ser como Ana, o homem da casa que gostava que a Ana gostasse dela, que lia em revistas a opinião dos psiquiatras sobre a normalidade do amor entre mulheres, a Clarinha que queria ser mais mulher. 

Há que falar de Clara, mãe de duas crianças, que vive com o marido na casa dos sogros, que não está mais em Cascais, que foi com a irmã a uma cave em Algés, antes desta ir para Itália e desaparecer da vida deles. A Clara que aparece no conto no momento em que se revela essa noite escura. Não é mais Clarinha, não mais a Maria Clara é o homem da casa, Clara, a sombra que nos sussurra como tudo poderia ter sido bom se tivesse sido assim e que no final nos deixa com a dúvida se alguma vez sairemos dessa noite escura.

Em jeito de conclusão, este Não entres tão depressa nessa noite escura é uma narrativa poética que me ia deixando fisicamente cansado, mentalmente esmagado e no entanto envolto numa radiância. António Lobo Antunes não o escreveu para os fracos de espírito, nem para quem começou agora a perceber que ler é mais do que articular palavras. Esta obra terá de figurar em qualquer discussão sobre a magnum opus do seu autor.


por R.B. NorTør
30.05.2012

20 de junho de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Os Cus de Judas

Há livros que oferecem uma resistência natural antes mesmo de começarmos sua leitura. Em torno dessas resistências as questões são variadas. Quando se trata de um livro que marca o fim do trajecto literário de um escritor, por exemplo. Digo isso pensando no recém-lançado Clarabóia, de José Saramago, que comecei e ainda não fui ao fim como se estivesse poupando-me daquele sentimento que me invade toda vez que entro numa livraria: a finitude porque sei que o escritor não está mais a escrever nenhum livro que noutras ocasiões me fazia ir a livraria para ficar cá à cata dos dias acompanhando a chegada da novidade, como quem que amamos, de longe, escreve cartas, para nos dar contas do que se passa por algures.

Outro modo de resistência é o próprio texto quem nos oferece. Não quero citar pela milésima vez os livros que me obrigaram a vários recomeços até que eu estivesse totalmente certificado de que eu havia conseguido captar seu leitor. Sim, grandes livros têm seus próprios leitores: únicos, singulares. E, nesse território cito Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes. Iniciei a leitura desse romance ainda na graduação quando o livro, editado pela Objetiva, apareceu na Biblioteca próximo dos livros de José Saramago. Mas, somente iniciei. O movimento linguístico da obra foi mais forte que eu e, não passei do primeiro capítulo, peculiarmente marcado como o capítulo A.

Depois, fui ser professor de Literatura Portuguesa III e, no galope desse curso é indispensável que os alunos tenham contato com escritores do porte de Lobo Antunes. Li na primeira sentada antes ainda do início do curso: era um dos poucos livros que indicaria aos alunos e que ainda não havia lido. Alunos, aliás, que sempre chegaram para mim a queixar-se que a narrativa era difícil: o leitor destreinado enrosca-se nas palavras e perde-se facilmente no ritmo do diafragma textual. Sim, é verdade, a narrativa de Os Cus de Judas é exemplo claro do curto frágil limite que separa a linguagem poética da linguagem narrativa. Isso será a primeira coisa que me fascina no escritor. Também o modo apressado de narrar numa clara tentativa de aproximação do fôlego da oralidade, típica de Saramago. Está aí algo que pensei não ir encontrar em nenhum outro escritor, mas que vejo em Lobo Antunes e seu enovelamento de palavras. Elas se combinam de uma maneira que, ao primeiro alcance, é caos e desastroso, mas no dobrar da esquina, a coisa se ajusta e o se preserva é uma tensão natural.

Chamou-me atenção, de imediato, esse título: Os Cus de Judas. O sintagma escatológico que só se esclarece no correr do romance e que fruto de duas expressões portuguesas que quer dizer fim do mundo ou lugar inóspito: o cu do mundo – o lugar onde Judas perdeu as botas. Afinal, o espaço físico pelo qual transitará o olhar do narrador está situado em algures na Angola. Embora seja constantemente nomeado os lugares físicos, não se situa o narrador em nenhum deles especificamente.

Depois, também fiquei a saber que Os Cus de Judas integra uma trilogia que foi escrita quando o escritor voltou da Guerra Colonial em Angola, trilogia essa seguidamente formada por Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno. Lobo Antunes é formado em Medicina e embarcou para os campos de batalha na África, como muitos portugueses de seu tempo. A Guerra Colonial em África integra, dentro dos temas da literatura portuguesa contemporânea, tema-chave; muitos dos escritores, depois de Lobo Antunes, terão tocado directa ou indirectamente nas suas narrativas. Está, inclusive, em José Saramago, no Levantado do Chão, para citar um exemplo anormal, tendo em vista que já ouvi, não uma, mas várias vezes, que o Prémio Nobel de Literatura representou um tipo de literatura que está ao lado do colonizador, ponto de vista este do qual discordo completamente. Ou ainda em romances como o A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge. 

O ponto de vista de quem narra é o grande diferencial em Os Cus de Judas. A voz é de alguém que esteve no epicentro do confronto e que foi ele próprio o experienciador do grande drama, das tragédias e das atrocidades do campo de batalha. É um romance, portanto, que pode beirar ao autobiográfico, se pensarmos na máxima flaubertiana Emma Bovary c'est moi. A história é narrada por um médico alferes, recém-chegado de Angola, que, num encontro casual com uma mulher não identificada, numa longa noite, entre doses e doses de conhaque, conversa sobre o vivido em terras africanas. Incorporam-se nessa fala o comezinho da tropa, mas impera, sobretudo, o absurdo do front, as dores da personagem e sua impotência frente ao absurdo.  

O dilaceramento da família, a redução do homem aos seus afectos mais baixos, a sua submissão às maiores extravagâncias para sentir, permanecer ou driblar a morte, perigo constante numa guerra, é isso que perpassa a voz do narrador. O tom ácido com que ele vai narrando os factos, constantemente permeado pelo anedótico, compreende um estágio de consciência perturbada, que pouco tem certeza de si. Consciência saída de uma oficina do horror e que apesar de ser seu foco olhar para a Guerra Colonial em Angola, não se situa, em momento algum, numa questão única, mas avalia simultaneamente três momentos distintos de sua existência: o tempo antes de sua ida à guerra, o tempo da guerra e o pós-guerra, tudo, numa fusão que não se separa um do outro. Estando diante de um tecido de memória é natural que o narrador necessita mover-se com maior desenvoltura, e está o processo de fusão temporal, processo esse que conduz o leitor a uma percepeção clara do autêntico encadeamento dos acontecimentos. Em Os Cus de Judas os acontecimentos são derivações, como se por metástese; é esse movimento que faz o leitor reviver a dinâmina da própria história narrada.

É um arquivo de memória que, ao seu aberto, está lá exposto, na sua totalidade, o que foi, de verdade, aquele período lido pela história oficial como glorioso para o povo português. Não será à toa, portanto, essa nomeação dos capítulos por letras do alfabeto, como a indicar para o leitor fichas marcadas de um arquivo: a crueldade da guerra, os desafectos, a luta pela sobrevivência, os mandos e desmandos, o dia-a-dia comezinho da tropa, o desejo do retorno, os medos, as angústias, os individualismos, as perdas do corpo, da memória, das vidas, o esfacelamento do sujeito e seu conflito interno de si para si e de si para com o lugar da pátria. Enfim, o leitor está diante de um texto que é representativo não apenas porque recupera o horror do front angolano; Os Cus de Judas é o retrato do horror de quaisquer guerras ou conflitos em qualquer lugar do mundo, e daí, entenderão, o porquê de um título no plural – os cus de.


por Pedro Fernandes
Letras in.verso e re.verso
02.05.2012

19 de junho de 2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Memória de Elefante


Memória de Elefante é o primeiro romance escrito por António Lobo Antunes, em 1979, depois de voltar de uma permanência na Guerra Colonial na África, experiência que irá perpassar como material temático boa parte da sua obra. É o primeiro romance de uma trilogia que continua com Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno; os três, talvez se configurem como os mais importantes da sua carreira, não por razões estéticas, certamente, Lobo Antunes terá outros mais bem acabados romances [...], mas, estes dizem a que veio o médico meter-se com a escrita. Os três são sucessos de crítica e inauguram em Portugal uma visão nada romântica da desenhada entre os daquele país sobre o que foram os anos de ocupação portuguesa nos territórios africanos. Não que estejam esses romances reduzidos a esse propósito, mas é o tema um dos mais caros à ficção contemporânea que se forma no pós-74.  

O romance dá contas de um médico psiquiatra que, por ironia, não está bem da mente; encontra-se profundamente deprimido e sai perfazendo na sua trajectória diária, entre a rotina e o desvio dela, uma busca pelo real sentido de tudo, já que se encontra numa Lisboa desencantada, recém-separado da mulher e das duas filhas, desencantado também com a profissão e nada, absolutamente nada, parece convencê-lo a ter razões boas e próprias para se manter nesse mundo. Não é que seja uma personagem em crise existencial, mas padece de um augúrio perante a vida e traz consigo um caudal de dúvidas sobre si e seus actos cuja explicação parece, a todo tempo, escapar-lhe sorrateiramente por entre os dedos e indo esconder-se num lugar indeterminado, cabendo-lhe um esforço além do seu limite para alcançá-la. 

O conjunto das suas ações, engendradas aí, denotam uma aventura psíquica tal qual outras personagens da literatura universal: o Ulisses, do James Joyce, que o diga. Está o escritor imerso nas divagações da personagem que busca uma leitura do vivido e o que poderia ter sido vivido. Difere, entretanto, do Ulisses de Joyce pela razão simples de sentir-se incapaz de captar todos os movimentos mentais, expressivos e gestuais. A personagem é alguém que não está bem psicologicamente e o que ela busca é a razão das coisas, por que elas são como são. Talvez aí, possamos ler o título desse livro como uma ironia muito bem elaborada do seu autor para com os próprios romances que têm nas volições psíquicas o seu espaço de representação mais adequado à contemporaneidade. Lobo Antunes quer dizer com ele, como esses romances são incapazes de uma apreensão totalizadora do real empírico.

Sobressai a densidade da sua escrita, porque o escritor português segue o ritmo psicológico da fala. E faz uma coisa que até hoje não me dei conta noutros escritores: o constante cambiar da pessoa narradora, sendo ora de primeira ora de terceira pessoa. E a troca dada de um parágrafo a outro ou mesmo no próprio parágrafo. Temos aí a grande cilada que nos leva a perder-se no enredo e, não poucas, ter de voltar ao princípio do que líamos para recuperar o fio narrativo. Essas idas e vindas de quem narra cria no livro estantes tencionais em que a voz que narra se confunde com a da personagem narrada, criando uma empatia entre ambos que só pode ser lida como nalguns casos como uma sendo a outra. Processo que primeiro torna as fronteiras das duas categorias narrativas mais frouxas e segundo desestabiliza as bases entre o ficcional e a realidade. 

A leitura de Os Cus de Judas trará o entendimento de que este é, sim, um romance introdutório; a consciência abalada do médico psiquiatra do Memória terá motivos mais que suficientes para o estágio de apatia sobre o mundo e o desencanto sobre si próprio.


por Pedro Fernandes
13.06.2012

18 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: vencedor anunciado


O vencedor do passatempo António Lobo Antunes e os leitores é Simão Fonseca:


Na minha opinião, a figura de António Lobo Antunes é uma das mais importantes da Literatura a qualquer nível, desde a riqueza da escrita, a simbologia e à forma como faz uma ligação entre a sua vida pessoal e os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a actualidade de Portugal. Como admirador da escrita do autor, e tendo também já lido mais de metade da sua extensa obra, fico por vezes um pouco decepcionado em relação à proximidade de Lobo Antunes e o leitor; tenho a perfeita noção de que o escritor não utiliza a internet e que escreve ainda os romances à mão – nada contra isso, bem pelo contrário -, no entanto fico por vezes um bocadinho frustrado por ter contacto com Lobo Antunes apenas nas crónicas da revista Visão, o que sabe manifestamente a pouco. Tive a oportunidade de estar com este autor (o eterno candidato ao Nobel) em duas ocasiões, a primeira em 2008 e a segunda em 2010, e foram inesquecíveis. Podem dizer que ele tem mau feitio e que não se importa com o que dizem dele, porém, no fundo, eu creio que ele tem respeito e amor por quem lê os seus romances e livros de crónicas. Eu sei que sim. Creio que é importante uma relação entre o leitor e o escritor, pois todos somos apreciadores de cinema e quem melhor que um romancista para fazer um filme? É condição sine quai none de um livro transmitir a quem o recebe a sensação de construção filme/história através das sensações que a obra transmite. Creio que é mais gratificante ler um guião ou um romance que dá origem a um filme do que propriamente o filme. Enquanto leitor assíduo de António Lobo Antunes e profundo admirador das suas qualidades e características humanas e criativas, mantenho sempre uma relação próxima com o mesmo, pois sei que não só me faz bem, como também me enriquece enquanto pessoa e leitor. Um bem-haja para este senhor!
Simão Fonseca
14.06.2012 
***

O passatempo, decorrido entre 1 de Maio e 17 de Junho de 2012, teve como pressuposto a elaboração de um texto referindo a proximidade entre António Lobo Antunes e os seus leitores, acompanhado de uma foto do participante como leitor do escritor. O vencedor foi premiado com um exemplar de O Meu Nome É Legião, oferta nossa. Tivemos apenas cinco participantes, cujo ranking, segundo nossa avaliação, foi o seguinte:

1. Simão Fonseca
2. Patrícia Ferraz
3. Bruno Assunção
4. Ana Margarida Soares
5. Gabriela Tasso


Obrigado, e os parabéns a Simão Fonseca.

16 de junho de 2012

Simão Fonseca: António Lobo Antunes «D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto – Cartas de Guerra»

Esta é uma das raras oportunidades que o leitor tem de ficar a saber a vida privada de António Lobo Antunes. Esta compilação de cartas que o autor escreveu à sua esposa enquanto esteve na Guerra Colonial, é uma porta para conhecermos o lado mais apaixonado e carinhoso de um dos grandes escritores da actualidade.

As cartas espelham a miséria e horrores de um jovem que não assistiu ao nascimento da sua primeira filha e que pouco tempo teve para estar a sua esposa após o casamento. Sonhador e irreverente, Lobo Antunes nunca quis ir para a guerra, jamais pediu para viajar para Angola e estar só, rodeado de morte e fome. As cartas revelam um ser humano de uma capacidade única para ultrapassar o sofrimento de um pai e marido ausente, um homem que escreveu um romance num regime de incerteza em relação ao amanhã. 

Um dos aspectos mais interessantes nesta obra é o António Lobo Antunes que redigiu o seu primeiro romance por volta de 1972, intitulado Voo – Crónica da Morte Portuguesa, um livro que incidia sobre Portugal e a sua sociedade, temática amplamente explorada na sua vasta obra. Depressivo, mas com uma grande capacidade de sofrimento, este autor viveu quase exclusivamente da força que a sua primeira esposa lhe deu, constantemente apaixonado e grato pelo casamento. Não raras vezes encontramos o autor a ler e a criticar romances e escritores, ficamos também a saber que os escritores latino-americanos, como é o caso de Gabriel García Márquez, eram naquela época os maiores, sem descurar a importância de Louis-Ferdinand Céline, entre outros pertencentes a um lote restrito. 

O leitor sentir-se-á quase sempre intrometido na vida privada do autor, um sentimento de intromissão; certamente que partilhará a angústia e tristeza de quem se viu privado do nascimento da sua primeira filha e que resistiu ao desgaste de uma guerra. A progressão emocionante da narrativa confere a estas cartas de guerra uma costela de romance.


por Simão Fonseca
Contracultura Aplicada
16.06.2012

15 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Simão Fonseca



Na minha opinião, a figura de António Lobo Antunes é uma das mais importantes da Literatura a qualquer nível, desde a riqueza da escrita, a simbologia e à forma como faz uma ligação entre a sua vida pessoal e os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a actualidade de Portugal. Como admirador da escrita do autor, e tendo também já lido mais de metade da sua extensa obra, fico por vezes um pouco decepcionado em relação à proximidade de Lobo Antunes e o leitor; tenho a perfeita noção de que o escritor não utiliza a internet e que escreve ainda os romances à mão – nada contra isso, bem pelo contrário -, no entanto fico por vezes um bocadinho frustrado por ter contacto com Lobo Antunes apenas nas crónicas da revista Visão, o que sabe manifestamente a pouco. Tive a oportunidade de estar com este autor (o eterno candidato ao Nobel) em duas ocasiões, a primeira em 2008 e a segunda em 2010, e foram inesquecíveis. Podem dizer que ele tem mau feitio e que não se importa com o que dizem dele, porém, no fundo, eu creio que ele tem respeito e amor por quem lê os seus romances e livros de crónicas. Eu sei que sim. Creio que é importante uma relação entre o leitor e o escritor, pois todos somos apreciadores de cinema e quem melhor que um romancista para fazer um filme? É condição sine quai none de um livro transmitir a quem o recebe a sensação de construção filme/história através das sensações que a obra transmite. Creio que é mais gratificante ler um guião ou um romance que dá origem a um filme do que propriamente o filme. Enquanto leitor assíduo de António Lobo Antunes e profundo admirador das suas qualidades e características humanas e criativas, mantenho sempre uma relação próxima com o mesmo, pois sei que não só me faz bem, como também me enriquece enquanto pessoa e leitor. Um bem-haja para este senhor!


por Simão Fonseca
14.06.2012

14 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Patrícia Ferraz



Todos tivemos uma Benfica na infância.
Um sapateiro de esquina a martelar compassadamente; um senhor da farmácia de bigode enrolado; mercearias com embrulhos de papel pardo; tias velhas, enlutadas e de carrapito, com molduras dos seus mortos perfiladas nas mobílias de pau-santo; avós que nos levavam pela mão e nos falavam de sonhos; colos que nos contavam histórias; ruídos de cidade grande, que chegavam baixinho à periferia. Uma Nelas no coração.
Somos, muitas vezes, o nosso passado e é isso que nos aproxima da sua escrita.
ALA é um escritor de memórias.
Das dele, de outros e das nossas; mesmo sem o sabermos.

por Patrícia Ferraz
14.06.2012

13 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Bruno Assunção


A primeira vez que li Lobo Antunes duvidei de que ele conseguisse levar pelo livro inteiro aquela linguagem de quem desistiu de falar com o que não seja uma espécie de alma que entranhasse as vísceras das linhas. No entanto, quanto mais lia, mais achava que, de facto, havia ali alguém que tinha subtraído de sua escrita o que não fosse necessário. De repente, o mais patético personagem se fazia comovente, o cenário mais banal, um sistema de realidades que não poderia mais restar senão pregado à retina tal era a força que evocava através de imagens e figuras que não viriam a aparecer mais no livro, mas que marcavam a brasa os olhos. Lobo Antunes narra como a vida: mas se esta usa imagens, que de tanto ver desaprendemos a apreciar, o escritor inventa a narrativa nas palavras, re-ensinando-nos a nos espantar com o pouco. Ele dá a ver a existência assim: de dentro da gente, através de calabouços de vozes e calafrios de silêncio e esquizofrenia. Todo o mundo é um pouco assim, incompreensível. Até porque explicar, às vezes, é diminuir a coisa ao que já não espante. Ao que já não seja hermético. Ao que não se permita ao escuro (certas coisas só se revelam no escuro, natureza esconsa).

por Bruno Assunção
13.06.2012

10 de junho de 2012

Marco Caetano: opinião sobre Memória de Elefante


Tudo o que é bom deve ser saboreado. É esta a minha relação com a obra de António Lobo Antunes, algo que quero ir degustando a pouco e pouco.

Desta vez optei por ir onde tudo começou, ler o primeiro romance do autor. À partida pensei encontrar neste livro um estilo de escrita muito diferente do utilizado nos seus romances mais recentes. Apesar de uma outra nuance em que de facto se nota diferença, não encontrei nada de muito significativo. Na minha opinião, a capacidade de nos fazer sonhar em cada metáfora e de nos permitir viajar entre cada frase estava já bem patente neste livro.

Embora eu não seja um conhecedor profundo da biografia do autor, facilmente percebi, logo nas primeiras páginas, que as semelhanças com a realidade não eram meras coincidências.

Tudo se passa num dia da vida de um médico, um psiquiatra, que se mostra na primeira ou na terceira pessoa. Este psiquiatra vive desiludido com uma angústia que o perturba e restringe. Trabalha, às vezes sem paciência, no mesmo Hospital Miguel Bombarda em que o pai trabalhou e o seu irmão João. Satiriza o sistema de saúde sem se esquecer das meninas da segurança social ou dos delegados de propaganda médica, mas é de si que tem vergonha.

É divorciado e a separação da mulher, como qualquer separação, deixou marcas profundas. As filhas. Um homem afectado por ter participado na guerra em África (não esquecer que este livro foi escrito pouco depois do 25 de Abril), não só por ter ido para guerra, mas também por ter sido obrigado a deixar a mulher para trás, as suas filhas, o seu emprego, a sua vida.

O casino. A sua vida parece-se com um jogo em que se anseia um prémio. Uma caminhada pelas ruas da Lisboa de que fala com carinho, em busca de um refúgio ou de coragem para pegar no telefone e tentar remediar o passado. Mas assumir sentimentos perante os outros não é tarefa fácil. Todos estes pensamentos a borbulhar na cabeça de um homem durante um tão curto espaço de tempo, só mesmo para quem tem Memória de Elefante.

Para mim, a escrita de António Lobo Antunes é pura magia. Assim, não resisto a partilhar duas passagens para deixar um pouco de água na boca a quem tem receio de avançar para este autor:

"e vieram-lhe à memória longas noites na praia desfeita dos lençóis"
"a forma como o corpo dela se abriu em concha para o receber, vibrando tal as folhas do cume dos pinheiros agitados por um vento invisível e tranquilo"

Sublime, não é?
Superior é também a forma subtil e inteligente que o autor tem de nos fazer arrancar um sorriso dos lábios, ainda que a intenção fosse chocar. Que o diga o slogan da Funerária Martelo: Para Que Teima Vossa Excelência Em Viver Se Por Quinhentos Escudos Pode Ter Um Lindo Funeral?

Penso que este poderá ser um excelente livro para quem queira começar a entrar no mundo deste Mestre da literatura nacional contemporânea. 

Termino este pequeno texto com uma expressão muito utilizada por um ilustre são tomense que outrora tive o prazer de conhecer, e que tão bem traduz o que sinto pela obra de Lobo Antunes: Lindo, lindo, lindo.
Quanto mais a conheço, mais me sinto cativado por ela.


por Marco Caetano
31.05.2012

7 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Gabriela Tasso



O que leio funde-se com a pessoa, na personagem, no António, que nos faz visualizar as palavras escritas. Todos os livros desejam o próximo e como nós esperam que o seu “ Deus “, Ele, se oiça, e quando enfim dá por terminado mais um livro, logo volta o menino insatisfeito que continua à procura de mais...! O leitor junta-se-lhe no mesmo desejo e um sentimento de vazio instala-se na espera que só ALA preenche com o seu humor ou quando transmite o que lhe vai na alma e nos pertence... 
Por tudo o que ALA é e como é, gostava de conceber uma exposição/homenagem (área em que tenho experiência profissional), a começar em Lisboa na Culturgest ou noutro espaço considerado mais apropriado, mas destinada a ser itinerante pelo país e pelo mundo, pelo que deverá incluir cópias em várias línguas. A sua concepção inclui todos os livros e as várias traduções, os prémios, os filmes, fotografias e o som de todos os que o cantam e o MC3, Georges Lavaudant… e os outros que fizeram saltar para o meio dos espectadores as personagens, ou foi mesmo ALA que estava ali diante de nós... que emoção!


por Gabriela Tasso
07.06.2012

6 de junho de 2012

Rádio Renascença: entrevista de 2004

Repomos uma das poucas entrevistas de rádio. António Sala entrevistou António Lobo Antunes em 2004 e foi para o ar a 24 de Janeiro, ainda sob o pretexto da publicação de Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Nesta entrevista ALA relata a origem do livro seguinte, Eu Hei-de Amar Uma Pedra.

 

 * duração aproximada: 53 minutos

fonte: Rádio Renascença

1 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Ana Soares


O lugar onde vivo é o das palavras e do afecto. Nesse lugar encontrei o António e abracei-o para a vida. Nesse lugar, vivemos da única forma que sabemos viver: com medo que nos falte tempo para crescer, com medo que nos falte tempo para ser, com medo que nos falte tempo para amar e para dizer ao outro que o amamos. E assim podermos partir em paz. Caminhando, mas sempre nesse lugar. Quando li o Quarto Livro de Crónicas, senti que o mundo estava todo ali naquelas linhas e via com terror o momento em que o livro chegasse ao fim. O que farei depois de o ler todo? Então, pensei que não é preciso ter medo – o livro não acaba; a leitura pode recomeçar, voltamos à primeira página e recomeçamos a viagem… A sua mundiescrevência faz-me também a mim acreditar que posso escrever algo belo, ou pelo menos tentá-lo. Sentimos as palavras a dançar dentro de nós, à procura de uma forma para nascerem para o mundo. E quando nascem no papel, cortam o cordão umbilical que as unia ao progenitor. Passam a ser de todos, como o sol, o mar, a terra… Com as palavras do António cresci, com as palavras do António sou, com as palavras do António tenho menos medo de morrer.

por Ana Soares
01.06.2012

29 de maio de 2012

Alfredo Monte: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


«e portanto não tenho senão uma mulher inventada a respirar do lado da consola numa cama de estilo, a prima Hortelinda a mostrar-me o livro

- Não constas aqui»

«deve ser o fim ou qualquer coisa parecida com o fim…»

Por conta de Drummond e a “estranha ideia de família viajando através da carne”, voltei a uma leitura que deixara interrompida, não porque o romance não fosse bom, muito, muito pelo contrário, mas por atribulações e vicissitudes pessoais: O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, de António Lobo Antunes, ainda sem edição brasileira.

Reli esta semana as cem páginas iniciais e depois o livro inteiro e portanto já posso dizer, de saída, que é uma das grandes obras do maior escritor de língua portuguesa do momento. É  parecido, sob alguns aspectos, com Eu hei-de amar uma pedra, inclusive pelo intrincado da narração, intrincado não pelos factos em si, mas porque nós os acompanhamos em toda a sua concreticidade, se é que se pode dizer assim, de uma concreticidade visceral, acachapante e depois eles são des-realizados, se tornam fantasmáticos, recombinados, redistribuídos, ressignificados: como em Faulkner, no mundo de Lobo Antunes o tempo enquanto sucessão não existe.  Porém, a partir da segunda parte (eu estava no começo dela quando interrompi a leitura em novembro), ficamos sabendo que a narrativa em parte está a cargo de um autista (o irmão do narrador insone, que espera a manhã, que virá dali a pouco, e no entanto nunca será manhã). Agora: quem não tem o seu quê de autismo nesse universo todo regido pela incomunicabilidade? Veja-se na terceira parte, quando Maria Adelaide (a cunhada do autista) assume seu lugar na roda de narradores (a função primordial de todos: narradores, nessa vida que é absorvida monstruosamente por um livro continuamente escrito: «que espécie de livro é este que custa tanto escrever?»):
«eu com seis anos no quintas e cinquenta aqui e no entanto a mesma pedra a esconder-me dos outros convencida que havia outros e não há outros…»;
ou ainda:
«e portanto faleci em criança, as sombras da santinha e do enfermeiro sob a sombra da serra

- Diz-me se cheiro a defunta não mintas

e o meu cunhado a olhar para mim sem olhar para mim»
e mais adiante:
«e o pai do meu sogro a descer do mulo diante da casa que não existe chegado de uma herdade que não existe…»

«quantas vezes pedi ao meu marido que levasse o irmão de volta ao hospital e eu pudesse esquecer que faleci e achar que estou viva, não me habituo a Lisboa, estas avenidas que me assustam e esta gente que me ignora, quantas vezes perguntei ao meu marido

- Por que tenho de morar com o teu irmão

e o meu marido um gesto que se dissolvia no garfo (…)

- Porque não tenho mais ninguém»…
Além da revelação do autismo do narrador inicial (que cria um poderoso mundo primordial na primeira parte e depois gera uma formidável incerteza quanto ao que poderia haver de conteúdo “real” ali, quando o localizamos num hospital, sendo visitado intermitentemente pela família), um dos achados de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA é o personagem da Prima Hortelinda, uma espécie de Parca portuguesa, que consulta no seu caderno quem deve morrer (e a região rural onde vive já moribunda, quase sem mortos para serem apontados no caderno, e o narrador insone eternamente poupado, para viver o inferno da lembrança, mas que lembranças exatamente?).

A morte como ser compassivo, suas intermitências:
«supõe-se que a morte nos quer mal, vai-se a ver e mentira, não gosta do que faz (…) quantas ocasiões deve ter perdido

- Por que não entregam este serviço a outra?»
ou:
«e, depois, claro, a pergunta do costume

- Por que eu?

como se houvesse um motivo, não há motivo algum»
e se a morte é assimilada à compassiva Prima Hortelinda, Deus é assimilado à figura do avô:
“perguntei-lhe [ para Prima Hortelinda]

- Quem é que manda em você?

e um olhar para o tecto

- Ele já não sabe mandar porque até Deus, com a idade, se lhe turvou a cabeça, amolecia num banco a repetir perplexo, esfregando as mãos nos joelhos

- Que estranha coisa é a vida»
No entanto, eu confesso aos meus leitores: eu não saberia nem como nem por onde começar uma análise “global” e que se pretendesse esclarecedora e totalizante de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA. Ele me derrota, nesse sentido, assim como já fui derrotado por outros Lobo Antunes ou poir Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño.

O romance de Lobo Antunes tem um impacto sensorial, em sua matriz de imagens e falas que vão aparecendo e reaparecendo, recombinando-se, e dando a sensação de que entramos realmente na mente dos personagens. Fisicamente, eu quero dizer. Há sempre algo associado a alguém (o pai e o cavalo; o avô e a mula; a avó e a chávena no pires; Prima Hortelinda e os goivos; a mãe e os baús perfumados); há as inúmeras modulações das afirmações que reaparecem e vão criando o referido impacto: «no tempo em que nada faltava na casa?»; «indiferença do meu irmão que continua comigo nesta casa em que apesar de igual quase tudo lhe falta»;  «na casa em que apesar de igual tudo principiava a faltar-lhe»; «o meu avô que continua nesta casa a quem tudo falta, apesar de igual»; «conforme se desfez a casa em que apesar de igual tudo lhe falta hoje em dia». A questão é justamente essa: quando é “hoje em dia”, quando tudo falta na casa, apesar de igual, casa que porventura talvez nem tenha existido: «Qual a minha idade hoje em dia e quantos anos se passaram desde aquilo que contei?»; «qual  é a minha idade, quantos anos passaram, catorze, vinte, trezentos ou nenhum».
...
«Quem anda de noite misturado com o vento à roda da casa e eu para o meu irmão

- Não ouves?

procurando os intervalos das janelas para espiar a gente, um defunto que se perdeu sem encontrar a travessa onde mora ou as doninhas que não respeitam ninguém obrigando-me a trazer a caçadeira  e a disparar ao calhas, quando de manhã as procuro os milhafres levaram-nas e há um texugo a lamber restos de sangue escondido nas ervas porque são ervas o que hoje temos na herdade de modo que a serra maior, a lagoa nos seus refluxos miúdos e vozes a falarem de uma época em que o meu irmão e eu não havíamos nasido, onde os campos cresciam e o meu avô rico a ordenar isto e aquilo, chegou da vila com o feitor e a mulher do feitor de que se serviam os dois na barraca a partir da qual se construiu esta casa, escutavam bandos de corvos evadidos das nuvens onde se guardam os pássaros  por ordem, estorninhos, gralhas, cegonhas que a mão de não sei quem distribui, se chamasse uma das empregadas da cozinha ninguém, no caso de subir ao compartimento dos baús nenhum perfume na roupa, vamo-nos embora amanhã, onde o mulo, o cavalo e as doninhas não cheguem, pela mesma vereda que a mulher do feitor seguiu sem dizer fosse o que  fosse abandonando a carne ao lume e a agulha espetada no novelo como se fosse voltar; o meu avô e o feitor acertaram no rastro apesar de tanto cardo e tanta pedra porque ao principiar a colina os pés  se arrastavam e alguns caules quebrados, alcançaram-na numas hidrângeas de ribeiro a olhar os gafanhotos que saltavam na corrente se é que  podia chamar-se corrente a uma linhazita incapaz de contornar os seixos, deu por eles de olhos mansos, viu a agulha de crochet na palma do feitor e pergunto-me se a terá sentido entre duas costelas absorvida como estava pelos gafanhotos… o feitor experimentou a agulha mais acima, no ponto em que o coração vai dando corda ao corpo e inventando ideias e a mulher amontoou-se sem cair, ou seja alargou  sentada dizendo qualquer coisa como sucede ao calcário se lhe encostamos o ouvido e uma artéria secreta a latir, a latir, a subir de tom, a parar, ao parar a cabeça no peito e foi tudo…»
    
[...] Apesar de repetir processos narrativos de livros anteriores (processo que, creio eu, chegou ao auge em Eu hei-de amar uma pedra), o que impressiona no romance é sua primordialidade. Parece que estamos vendo em acção o “id” freudiana, sem nenhuma censura ou repressão, e as imagens, fantasias e fábulas pessoais (o “romance familiar”) são vistos de forma nua e crua e não sabemos se estamos numa alucinação, numa reconstrução memorialística, num eterno retorno, num pesadelo circular: essa herdade, erguida pela vontade balzaquiana do patriarca, o avô, cuja mãe abandonou o pai (que se suicidou com uma tesoura no pescoço) e foi viver com o padre da vila, renegando o filho (depois o feitor, a mando do avô, assassinará o padre)… essa herdade, que não terá um herdeiro forte que a herde, pois o avô “pegou” a avó para ser sua esposa, mesmo assim usando todas as mulheres do local (a mulher do feitor, as futuras empregadas, a mulher do filho, menos a filha do feitor, que se oferece, mas pode ser sua própria filha), só que a perdeu para o filho, o Idiota, o fraco, aquele que não consegue nem ser suficientemente homem para mandar na mulher, que escolheu entre as empregadas da cozinha, mas que serve sexualmente o pai dele e transa com um ajudante de feitor (que pode ser outro filho do padre), o qual pode ser o verdadeiro pai do narrador, um filho desprezado por todos, ao contrário do irmão mais novo, talvez legítimo, mas esse sim o verdadeiro Idiota, sem noção de nada… mas aí a herdade empobreceu, a vila despovoou-se, tudo ficou mais pobre, só restam os omnipresentes retratos em suas molduras de gente morta que prossegue nos retratos e nas lembranças como gente viva, talvez até mais viva que os vivos,  como pressentimos numa frase genial logo na primeira página (quando fala da avó morta): «…fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações…». Cinquenta páginas depois: «…já só faltamos o meu irmão e eu na parede para que a família inteira em molduras ou seja há retratos nossos de criança, não de hoje… além das fotografias sobra-nos o cavalo e as vozes dos finados que conversa, conversam…». Mais adiante: «De maneira que fico aqui à espera porque com um  bocadinho de sorte pode ser que alguma coisa aconteça, uma pessoa chegue da vila para ficar connosco ou levar-nos consigo e nem já da vila se calhar; meia dúzia de postigos que resistem e os parentes dos retratos aguardando que a lâmpada do fotógrafo os desperte para regarem as hortas…»

por Alfredo Monte
Monte de Leituras
22.05.2012

20 de maio de 2012

Nuno Martins: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Mais um fantástico livro de António Lobo Antunes...

Seguindo o meu périplo pela leitura de Lobo Antunes, cheguei "à vez" de "A Morte de Carlos Gardel", por ventura um dos seus livros mais conhecidos (e agora ainda mais devido ao filme, que infelizmente ainda não vi).

A história inicia-se e centra-se na personagem de Nuno, um jovem toxicodependente que dá entrada num hospital em fase terminal e a partir daí a acção evolui e passa para as pessoas que a ele estão ligadas.

O pai, Álvaro, que se separou da mulher quando o filho era pequeno, um homem sem ambições, "mole" e introspetivo, apenas com a sua paixão pelo tango e principalmente por Carlos Gardel, que o acompanha ao longo de toda a sua vida e que o liga ao mundo.

Claúdia, a mãe, independente, cuida do filho sozinha, tem vários casos depois de se separar de Álvaro, estando na altura numa relação com Ricardo que tem a praticamente a idade do filho.

Graça, a tia, irmã de Álvaro, médica e homossexual é a (suposta) "pedra" mais forte neste conjunto de personagens, e que está junta com Cristiana, uma professora muito instável emocionalmente e ciumenta.

Para além destas há mais umas quantas personagens que também contribuem e muito para a estrutura e desenvolvimento da história.

O livro está dividido em cinco capítulos, cujos títulos são tangos famosos de Gardel e cada capítulo é a estória e visão dos acontecimentos de cada personagem. Mas Lobo Antunes como escritor genial que é, neste livro utiliza uma espécie de "confrontação dos factos" em que as mesmas situações são vistas e relatadas sob a perspectiva dos diversos intervenientes, o que torna o livro ainda mais apetecível e profundo.

Lobo Antunes, também e como já fez nos seus livros anteriores, mostra-nos um Portugal "cinzento", onde as pessoas são mesquinhas, falsas, problemáticas, vivendo nos subúrbios, com falta de gosto e decadentes, ou seja, o Portugal real do nosso dia a dia.

Dos vários livros que já li de António Lobo Antunes, este é dos melhores, é muito profundo e bem estruturado e comovente, vale bem a pena ler. (Entretanto fiquei muito curioso de ver o filme).


por Nuno Martins
O que eu leio
20.05.2012

9 de maio de 2012

Norberto do Vale Cardoso: «Evangelho de Judas segundo António Lobo Antunes»

ALA entre ex-camaradas da guerra

Um excelente e inédito artigo sobre a guerra colonial na obra de António Lobo Antunes, escrito como primeiro ensaio da tese que foi publicada no volume A Mão de Judas (Col. Ensaio - ALA) por Norberto do Vale Cardoso:

A importância progressiva da obra de António Lobo Antunes não pode descurar o impacto da Guerra Colonial. Assim, trinta anos depois da publicação dos primeiros romances, cabe compreender que Memória de Elefante e Os Cus de Judas são romances de aprendizagem e formação, não apenas de uma experiência empírica narrada autobiograficamente, mas também de formação de um escritor. Este mistério da escrita, ou esta “inexplicável materialização do milagre”, que hoje se traduz na referência à mão que escreve está dependente de uma concepção do mundo que vem desedipianizar e desmistificar um país consolidado numa religiosidade crónica. Como se de um “evangelho” se tratasse, essa mão contacta com a vida dos “homens possessos”, aqueles que peregrinaram numa guerra inexplicável e inexplicada.


* por cortesia do autor 

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...