18/06/2012

Passatempo ALA e os leitores: vencedor anunciado


O vencedor do passatempo António Lobo Antunes e os leitores é Simão Fonseca:


Na minha opinião, a figura de António Lobo Antunes é uma das mais importantes da Literatura a qualquer nível, desde a riqueza da escrita, a simbologia e à forma como faz uma ligação entre a sua vida pessoal e os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a actualidade de Portugal. Como admirador da escrita do autor, e tendo também já lido mais de metade da sua extensa obra, fico por vezes um pouco decepcionado em relação à proximidade de Lobo Antunes e o leitor; tenho a perfeita noção de que o escritor não utiliza a internet e que escreve ainda os romances à mão – nada contra isso, bem pelo contrário -, no entanto fico por vezes um bocadinho frustrado por ter contacto com Lobo Antunes apenas nas crónicas da revista Visão, o que sabe manifestamente a pouco. Tive a oportunidade de estar com este autor (o eterno candidato ao Nobel) em duas ocasiões, a primeira em 2008 e a segunda em 2010, e foram inesquecíveis. Podem dizer que ele tem mau feitio e que não se importa com o que dizem dele, porém, no fundo, eu creio que ele tem respeito e amor por quem lê os seus romances e livros de crónicas. Eu sei que sim. Creio que é importante uma relação entre o leitor e o escritor, pois todos somos apreciadores de cinema e quem melhor que um romancista para fazer um filme? É condição sine quai none de um livro transmitir a quem o recebe a sensação de construção filme/história através das sensações que a obra transmite. Creio que é mais gratificante ler um guião ou um romance que dá origem a um filme do que propriamente o filme. Enquanto leitor assíduo de António Lobo Antunes e profundo admirador das suas qualidades e características humanas e criativas, mantenho sempre uma relação próxima com o mesmo, pois sei que não só me faz bem, como também me enriquece enquanto pessoa e leitor. Um bem-haja para este senhor!
Simão Fonseca
14.06.2012 
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O passatempo, decorrido entre 1 de Maio e 17 de Junho de 2012, teve como pressuposto a elaboração de um texto referindo a proximidade entre António Lobo Antunes e os seus leitores, acompanhado de uma foto do participante como leitor do escritor. O vencedor foi premiado com um exemplar de O Meu Nome É Legião, oferta nossa. Tivemos apenas cinco participantes, cujo ranking, segundo nossa avaliação, foi o seguinte:

1. Simão Fonseca
2. Patrícia Ferraz
3. Bruno Assunção
4. Ana Margarida Soares
5. Gabriela Tasso


Obrigado, e os parabéns a Simão Fonseca.

16/06/2012

Simão Fonseca: António Lobo Antunes «D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto – Cartas de Guerra»

Esta é uma das raras oportunidades que o leitor tem de ficar a saber a vida privada de António Lobo Antunes. Esta compilação de cartas que o autor escreveu à sua esposa enquanto esteve na Guerra Colonial, é uma porta para conhecermos o lado mais apaixonado e carinhoso de um dos grandes escritores da actualidade.

As cartas espelham a miséria e horrores de um jovem que não assistiu ao nascimento da sua primeira filha e que pouco tempo teve para estar a sua esposa após o casamento. Sonhador e irreverente, Lobo Antunes nunca quis ir para a guerra, jamais pediu para viajar para Angola e estar só, rodeado de morte e fome. As cartas revelam um ser humano de uma capacidade única para ultrapassar o sofrimento de um pai e marido ausente, um homem que escreveu um romance num regime de incerteza em relação ao amanhã. 

Um dos aspectos mais interessantes nesta obra é o António Lobo Antunes que redigiu o seu primeiro romance por volta de 1972, intitulado Voo – Crónica da Morte Portuguesa, um livro que incidia sobre Portugal e a sua sociedade, temática amplamente explorada na sua vasta obra. Depressivo, mas com uma grande capacidade de sofrimento, este autor viveu quase exclusivamente da força que a sua primeira esposa lhe deu, constantemente apaixonado e grato pelo casamento. Não raras vezes encontramos o autor a ler e a criticar romances e escritores, ficamos também a saber que os escritores latino-americanos, como é o caso de Gabriel García Márquez, eram naquela época os maiores, sem descurar a importância de Louis-Ferdinand Céline, entre outros pertencentes a um lote restrito. 

O leitor sentir-se-á quase sempre intrometido na vida privada do autor, um sentimento de intromissão; certamente que partilhará a angústia e tristeza de quem se viu privado do nascimento da sua primeira filha e que resistiu ao desgaste de uma guerra. A progressão emocionante da narrativa confere a estas cartas de guerra uma costela de romance.


por Simão Fonseca
Contracultura Aplicada
16.06.2012

15/06/2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Simão Fonseca



Na minha opinião, a figura de António Lobo Antunes é uma das mais importantes da Literatura a qualquer nível, desde a riqueza da escrita, a simbologia e à forma como faz uma ligação entre a sua vida pessoal e os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a actualidade de Portugal. Como admirador da escrita do autor, e tendo também já lido mais de metade da sua extensa obra, fico por vezes um pouco decepcionado em relação à proximidade de Lobo Antunes e o leitor; tenho a perfeita noção de que o escritor não utiliza a internet e que escreve ainda os romances à mão – nada contra isso, bem pelo contrário -, no entanto fico por vezes um bocadinho frustrado por ter contacto com Lobo Antunes apenas nas crónicas da revista Visão, o que sabe manifestamente a pouco. Tive a oportunidade de estar com este autor (o eterno candidato ao Nobel) em duas ocasiões, a primeira em 2008 e a segunda em 2010, e foram inesquecíveis. Podem dizer que ele tem mau feitio e que não se importa com o que dizem dele, porém, no fundo, eu creio que ele tem respeito e amor por quem lê os seus romances e livros de crónicas. Eu sei que sim. Creio que é importante uma relação entre o leitor e o escritor, pois todos somos apreciadores de cinema e quem melhor que um romancista para fazer um filme? É condição sine quai none de um livro transmitir a quem o recebe a sensação de construção filme/história através das sensações que a obra transmite. Creio que é mais gratificante ler um guião ou um romance que dá origem a um filme do que propriamente o filme. Enquanto leitor assíduo de António Lobo Antunes e profundo admirador das suas qualidades e características humanas e criativas, mantenho sempre uma relação próxima com o mesmo, pois sei que não só me faz bem, como também me enriquece enquanto pessoa e leitor. Um bem-haja para este senhor!


por Simão Fonseca
14.06.2012

14/06/2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Patrícia Ferraz



Todos tivemos uma Benfica na infância.
Um sapateiro de esquina a martelar compassadamente; um senhor da farmácia de bigode enrolado; mercearias com embrulhos de papel pardo; tias velhas, enlutadas e de carrapito, com molduras dos seus mortos perfiladas nas mobílias de pau-santo; avós que nos levavam pela mão e nos falavam de sonhos; colos que nos contavam histórias; ruídos de cidade grande, que chegavam baixinho à periferia. Uma Nelas no coração.
Somos, muitas vezes, o nosso passado e é isso que nos aproxima da sua escrita.
ALA é um escritor de memórias.
Das dele, de outros e das nossas; mesmo sem o sabermos.

por Patrícia Ferraz
14.06.2012

13/06/2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Bruno Assunção


A primeira vez que li Lobo Antunes duvidei de que ele conseguisse levar pelo livro inteiro aquela linguagem de quem desistiu de falar com o que não seja uma espécie de alma que entranhasse as vísceras das linhas. No entanto, quanto mais lia, mais achava que, de facto, havia ali alguém que tinha subtraído de sua escrita o que não fosse necessário. De repente, o mais patético personagem se fazia comovente, o cenário mais banal, um sistema de realidades que não poderia mais restar senão pregado à retina tal era a força que evocava através de imagens e figuras que não viriam a aparecer mais no livro, mas que marcavam a brasa os olhos. Lobo Antunes narra como a vida: mas se esta usa imagens, que de tanto ver desaprendemos a apreciar, o escritor inventa a narrativa nas palavras, re-ensinando-nos a nos espantar com o pouco. Ele dá a ver a existência assim: de dentro da gente, através de calabouços de vozes e calafrios de silêncio e esquizofrenia. Todo o mundo é um pouco assim, incompreensível. Até porque explicar, às vezes, é diminuir a coisa ao que já não espante. Ao que já não seja hermético. Ao que não se permita ao escuro (certas coisas só se revelam no escuro, natureza esconsa).

por Bruno Assunção
13.06.2012

10/06/2012

Marco Caetano: opinião sobre Memória de Elefante


Tudo o que é bom deve ser saboreado. É esta a minha relação com a obra de António Lobo Antunes, algo que quero ir degustando a pouco e pouco.

Desta vez optei por ir onde tudo começou, ler o primeiro romance do autor. À partida pensei encontrar neste livro um estilo de escrita muito diferente do utilizado nos seus romances mais recentes. Apesar de uma outra nuance em que de facto se nota diferença, não encontrei nada de muito significativo. Na minha opinião, a capacidade de nos fazer sonhar em cada metáfora e de nos permitir viajar entre cada frase estava já bem patente neste livro.

Embora eu não seja um conhecedor profundo da biografia do autor, facilmente percebi, logo nas primeiras páginas, que as semelhanças com a realidade não eram meras coincidências.

Tudo se passa num dia da vida de um médico, um psiquiatra, que se mostra na primeira ou na terceira pessoa. Este psiquiatra vive desiludido com uma angústia que o perturba e restringe. Trabalha, às vezes sem paciência, no mesmo Hospital Miguel Bombarda em que o pai trabalhou e o seu irmão João. Satiriza o sistema de saúde sem se esquecer das meninas da segurança social ou dos delegados de propaganda médica, mas é de si que tem vergonha.

É divorciado e a separação da mulher, como qualquer separação, deixou marcas profundas. As filhas. Um homem afectado por ter participado na guerra em África (não esquecer que este livro foi escrito pouco depois do 25 de Abril), não só por ter ido para guerra, mas também por ter sido obrigado a deixar a mulher para trás, as suas filhas, o seu emprego, a sua vida.

O casino. A sua vida parece-se com um jogo em que se anseia um prémio. Uma caminhada pelas ruas da Lisboa de que fala com carinho, em busca de um refúgio ou de coragem para pegar no telefone e tentar remediar o passado. Mas assumir sentimentos perante os outros não é tarefa fácil. Todos estes pensamentos a borbulhar na cabeça de um homem durante um tão curto espaço de tempo, só mesmo para quem tem Memória de Elefante.

Para mim, a escrita de António Lobo Antunes é pura magia. Assim, não resisto a partilhar duas passagens para deixar um pouco de água na boca a quem tem receio de avançar para este autor:

"e vieram-lhe à memória longas noites na praia desfeita dos lençóis"
"a forma como o corpo dela se abriu em concha para o receber, vibrando tal as folhas do cume dos pinheiros agitados por um vento invisível e tranquilo"

Sublime, não é?
Superior é também a forma subtil e inteligente que o autor tem de nos fazer arrancar um sorriso dos lábios, ainda que a intenção fosse chocar. Que o diga o slogan da Funerária Martelo: Para Que Teima Vossa Excelência Em Viver Se Por Quinhentos Escudos Pode Ter Um Lindo Funeral?

Penso que este poderá ser um excelente livro para quem queira começar a entrar no mundo deste Mestre da literatura nacional contemporânea. 

Termino este pequeno texto com uma expressão muito utilizada por um ilustre são tomense que outrora tive o prazer de conhecer, e que tão bem traduz o que sinto pela obra de Lobo Antunes: Lindo, lindo, lindo.
Quanto mais a conheço, mais me sinto cativado por ela.


por Marco Caetano
31.05.2012

07/06/2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Gabriela Tasso



O que leio funde-se com a pessoa, na personagem, no António, que nos faz visualizar as palavras escritas. Todos os livros desejam o próximo e como nós esperam que o seu “ Deus “, Ele, se oiça, e quando enfim dá por terminado mais um livro, logo volta o menino insatisfeito que continua à procura de mais...! O leitor junta-se-lhe no mesmo desejo e um sentimento de vazio instala-se na espera que só ALA preenche com o seu humor ou quando transmite o que lhe vai na alma e nos pertence... 
Por tudo o que ALA é e como é, gostava de conceber uma exposição/homenagem (área em que tenho experiência profissional), a começar em Lisboa na Culturgest ou noutro espaço considerado mais apropriado, mas destinada a ser itinerante pelo país e pelo mundo, pelo que deverá incluir cópias em várias línguas. A sua concepção inclui todos os livros e as várias traduções, os prémios, os filmes, fotografias e o som de todos os que o cantam e o MC3, Georges Lavaudant… e os outros que fizeram saltar para o meio dos espectadores as personagens, ou foi mesmo ALA que estava ali diante de nós... que emoção!


por Gabriela Tasso
07.06.2012

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...