7 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Gabriela Tasso



O que leio funde-se com a pessoa, na personagem, no António, que nos faz visualizar as palavras escritas. Todos os livros desejam o próximo e como nós esperam que o seu “ Deus “, Ele, se oiça, e quando enfim dá por terminado mais um livro, logo volta o menino insatisfeito que continua à procura de mais...! O leitor junta-se-lhe no mesmo desejo e um sentimento de vazio instala-se na espera que só ALA preenche com o seu humor ou quando transmite o que lhe vai na alma e nos pertence... 
Por tudo o que ALA é e como é, gostava de conceber uma exposição/homenagem (área em que tenho experiência profissional), a começar em Lisboa na Culturgest ou noutro espaço considerado mais apropriado, mas destinada a ser itinerante pelo país e pelo mundo, pelo que deverá incluir cópias em várias línguas. A sua concepção inclui todos os livros e as várias traduções, os prémios, os filmes, fotografias e o som de todos os que o cantam e o MC3, Georges Lavaudant… e os outros que fizeram saltar para o meio dos espectadores as personagens, ou foi mesmo ALA que estava ali diante de nós... que emoção!


por Gabriela Tasso
07.06.2012

6 de junho de 2012

Rádio Renascença: entrevista de 2004

Repomos uma das poucas entrevistas de rádio. António Sala entrevistou António Lobo Antunes em 2004 e foi para o ar a 24 de Janeiro, ainda sob o pretexto da publicação de Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Nesta entrevista ALA relata a origem do livro seguinte, Eu Hei-de Amar Uma Pedra.

 

 * duração aproximada: 53 minutos

fonte: Rádio Renascença

1 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Ana Soares


O lugar onde vivo é o das palavras e do afecto. Nesse lugar encontrei o António e abracei-o para a vida. Nesse lugar, vivemos da única forma que sabemos viver: com medo que nos falte tempo para crescer, com medo que nos falte tempo para ser, com medo que nos falte tempo para amar e para dizer ao outro que o amamos. E assim podermos partir em paz. Caminhando, mas sempre nesse lugar. Quando li o Quarto Livro de Crónicas, senti que o mundo estava todo ali naquelas linhas e via com terror o momento em que o livro chegasse ao fim. O que farei depois de o ler todo? Então, pensei que não é preciso ter medo – o livro não acaba; a leitura pode recomeçar, voltamos à primeira página e recomeçamos a viagem… A sua mundiescrevência faz-me também a mim acreditar que posso escrever algo belo, ou pelo menos tentá-lo. Sentimos as palavras a dançar dentro de nós, à procura de uma forma para nascerem para o mundo. E quando nascem no papel, cortam o cordão umbilical que as unia ao progenitor. Passam a ser de todos, como o sol, o mar, a terra… Com as palavras do António cresci, com as palavras do António sou, com as palavras do António tenho menos medo de morrer.

por Ana Soares
01.06.2012

29 de maio de 2012

Alfredo Monte: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


«e portanto não tenho senão uma mulher inventada a respirar do lado da consola numa cama de estilo, a prima Hortelinda a mostrar-me o livro

- Não constas aqui»

«deve ser o fim ou qualquer coisa parecida com o fim…»

Por conta de Drummond e a “estranha ideia de família viajando através da carne”, voltei a uma leitura que deixara interrompida, não porque o romance não fosse bom, muito, muito pelo contrário, mas por atribulações e vicissitudes pessoais: O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, de António Lobo Antunes, ainda sem edição brasileira.

Reli esta semana as cem páginas iniciais e depois o livro inteiro e portanto já posso dizer, de saída, que é uma das grandes obras do maior escritor de língua portuguesa do momento. É  parecido, sob alguns aspectos, com Eu hei-de amar uma pedra, inclusive pelo intrincado da narração, intrincado não pelos factos em si, mas porque nós os acompanhamos em toda a sua concreticidade, se é que se pode dizer assim, de uma concreticidade visceral, acachapante e depois eles são des-realizados, se tornam fantasmáticos, recombinados, redistribuídos, ressignificados: como em Faulkner, no mundo de Lobo Antunes o tempo enquanto sucessão não existe.  Porém, a partir da segunda parte (eu estava no começo dela quando interrompi a leitura em novembro), ficamos sabendo que a narrativa em parte está a cargo de um autista (o irmão do narrador insone, que espera a manhã, que virá dali a pouco, e no entanto nunca será manhã). Agora: quem não tem o seu quê de autismo nesse universo todo regido pela incomunicabilidade? Veja-se na terceira parte, quando Maria Adelaide (a cunhada do autista) assume seu lugar na roda de narradores (a função primordial de todos: narradores, nessa vida que é absorvida monstruosamente por um livro continuamente escrito: «que espécie de livro é este que custa tanto escrever?»):
«eu com seis anos no quintas e cinquenta aqui e no entanto a mesma pedra a esconder-me dos outros convencida que havia outros e não há outros…»;
ou ainda:
«e portanto faleci em criança, as sombras da santinha e do enfermeiro sob a sombra da serra

- Diz-me se cheiro a defunta não mintas

e o meu cunhado a olhar para mim sem olhar para mim»
e mais adiante:
«e o pai do meu sogro a descer do mulo diante da casa que não existe chegado de uma herdade que não existe…»

«quantas vezes pedi ao meu marido que levasse o irmão de volta ao hospital e eu pudesse esquecer que faleci e achar que estou viva, não me habituo a Lisboa, estas avenidas que me assustam e esta gente que me ignora, quantas vezes perguntei ao meu marido

- Por que tenho de morar com o teu irmão

e o meu marido um gesto que se dissolvia no garfo (…)

- Porque não tenho mais ninguém»…
Além da revelação do autismo do narrador inicial (que cria um poderoso mundo primordial na primeira parte e depois gera uma formidável incerteza quanto ao que poderia haver de conteúdo “real” ali, quando o localizamos num hospital, sendo visitado intermitentemente pela família), um dos achados de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA é o personagem da Prima Hortelinda, uma espécie de Parca portuguesa, que consulta no seu caderno quem deve morrer (e a região rural onde vive já moribunda, quase sem mortos para serem apontados no caderno, e o narrador insone eternamente poupado, para viver o inferno da lembrança, mas que lembranças exatamente?).

A morte como ser compassivo, suas intermitências:
«supõe-se que a morte nos quer mal, vai-se a ver e mentira, não gosta do que faz (…) quantas ocasiões deve ter perdido

- Por que não entregam este serviço a outra?»
ou:
«e, depois, claro, a pergunta do costume

- Por que eu?

como se houvesse um motivo, não há motivo algum»
e se a morte é assimilada à compassiva Prima Hortelinda, Deus é assimilado à figura do avô:
“perguntei-lhe [ para Prima Hortelinda]

- Quem é que manda em você?

e um olhar para o tecto

- Ele já não sabe mandar porque até Deus, com a idade, se lhe turvou a cabeça, amolecia num banco a repetir perplexo, esfregando as mãos nos joelhos

- Que estranha coisa é a vida»
No entanto, eu confesso aos meus leitores: eu não saberia nem como nem por onde começar uma análise “global” e que se pretendesse esclarecedora e totalizante de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA. Ele me derrota, nesse sentido, assim como já fui derrotado por outros Lobo Antunes ou poir Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño.

O romance de Lobo Antunes tem um impacto sensorial, em sua matriz de imagens e falas que vão aparecendo e reaparecendo, recombinando-se, e dando a sensação de que entramos realmente na mente dos personagens. Fisicamente, eu quero dizer. Há sempre algo associado a alguém (o pai e o cavalo; o avô e a mula; a avó e a chávena no pires; Prima Hortelinda e os goivos; a mãe e os baús perfumados); há as inúmeras modulações das afirmações que reaparecem e vão criando o referido impacto: «no tempo em que nada faltava na casa?»; «indiferença do meu irmão que continua comigo nesta casa em que apesar de igual quase tudo lhe falta»;  «na casa em que apesar de igual tudo principiava a faltar-lhe»; «o meu avô que continua nesta casa a quem tudo falta, apesar de igual»; «conforme se desfez a casa em que apesar de igual tudo lhe falta hoje em dia». A questão é justamente essa: quando é “hoje em dia”, quando tudo falta na casa, apesar de igual, casa que porventura talvez nem tenha existido: «Qual a minha idade hoje em dia e quantos anos se passaram desde aquilo que contei?»; «qual  é a minha idade, quantos anos passaram, catorze, vinte, trezentos ou nenhum».
...
«Quem anda de noite misturado com o vento à roda da casa e eu para o meu irmão

- Não ouves?

procurando os intervalos das janelas para espiar a gente, um defunto que se perdeu sem encontrar a travessa onde mora ou as doninhas que não respeitam ninguém obrigando-me a trazer a caçadeira  e a disparar ao calhas, quando de manhã as procuro os milhafres levaram-nas e há um texugo a lamber restos de sangue escondido nas ervas porque são ervas o que hoje temos na herdade de modo que a serra maior, a lagoa nos seus refluxos miúdos e vozes a falarem de uma época em que o meu irmão e eu não havíamos nasido, onde os campos cresciam e o meu avô rico a ordenar isto e aquilo, chegou da vila com o feitor e a mulher do feitor de que se serviam os dois na barraca a partir da qual se construiu esta casa, escutavam bandos de corvos evadidos das nuvens onde se guardam os pássaros  por ordem, estorninhos, gralhas, cegonhas que a mão de não sei quem distribui, se chamasse uma das empregadas da cozinha ninguém, no caso de subir ao compartimento dos baús nenhum perfume na roupa, vamo-nos embora amanhã, onde o mulo, o cavalo e as doninhas não cheguem, pela mesma vereda que a mulher do feitor seguiu sem dizer fosse o que  fosse abandonando a carne ao lume e a agulha espetada no novelo como se fosse voltar; o meu avô e o feitor acertaram no rastro apesar de tanto cardo e tanta pedra porque ao principiar a colina os pés  se arrastavam e alguns caules quebrados, alcançaram-na numas hidrângeas de ribeiro a olhar os gafanhotos que saltavam na corrente se é que  podia chamar-se corrente a uma linhazita incapaz de contornar os seixos, deu por eles de olhos mansos, viu a agulha de crochet na palma do feitor e pergunto-me se a terá sentido entre duas costelas absorvida como estava pelos gafanhotos… o feitor experimentou a agulha mais acima, no ponto em que o coração vai dando corda ao corpo e inventando ideias e a mulher amontoou-se sem cair, ou seja alargou  sentada dizendo qualquer coisa como sucede ao calcário se lhe encostamos o ouvido e uma artéria secreta a latir, a latir, a subir de tom, a parar, ao parar a cabeça no peito e foi tudo…»
    
[...] Apesar de repetir processos narrativos de livros anteriores (processo que, creio eu, chegou ao auge em Eu hei-de amar uma pedra), o que impressiona no romance é sua primordialidade. Parece que estamos vendo em acção o “id” freudiana, sem nenhuma censura ou repressão, e as imagens, fantasias e fábulas pessoais (o “romance familiar”) são vistos de forma nua e crua e não sabemos se estamos numa alucinação, numa reconstrução memorialística, num eterno retorno, num pesadelo circular: essa herdade, erguida pela vontade balzaquiana do patriarca, o avô, cuja mãe abandonou o pai (que se suicidou com uma tesoura no pescoço) e foi viver com o padre da vila, renegando o filho (depois o feitor, a mando do avô, assassinará o padre)… essa herdade, que não terá um herdeiro forte que a herde, pois o avô “pegou” a avó para ser sua esposa, mesmo assim usando todas as mulheres do local (a mulher do feitor, as futuras empregadas, a mulher do filho, menos a filha do feitor, que se oferece, mas pode ser sua própria filha), só que a perdeu para o filho, o Idiota, o fraco, aquele que não consegue nem ser suficientemente homem para mandar na mulher, que escolheu entre as empregadas da cozinha, mas que serve sexualmente o pai dele e transa com um ajudante de feitor (que pode ser outro filho do padre), o qual pode ser o verdadeiro pai do narrador, um filho desprezado por todos, ao contrário do irmão mais novo, talvez legítimo, mas esse sim o verdadeiro Idiota, sem noção de nada… mas aí a herdade empobreceu, a vila despovoou-se, tudo ficou mais pobre, só restam os omnipresentes retratos em suas molduras de gente morta que prossegue nos retratos e nas lembranças como gente viva, talvez até mais viva que os vivos,  como pressentimos numa frase genial logo na primeira página (quando fala da avó morta): «…fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações…». Cinquenta páginas depois: «…já só faltamos o meu irmão e eu na parede para que a família inteira em molduras ou seja há retratos nossos de criança, não de hoje… além das fotografias sobra-nos o cavalo e as vozes dos finados que conversa, conversam…». Mais adiante: «De maneira que fico aqui à espera porque com um  bocadinho de sorte pode ser que alguma coisa aconteça, uma pessoa chegue da vila para ficar connosco ou levar-nos consigo e nem já da vila se calhar; meia dúzia de postigos que resistem e os parentes dos retratos aguardando que a lâmpada do fotógrafo os desperte para regarem as hortas…»

por Alfredo Monte
Monte de Leituras
22.05.2012

20 de maio de 2012

Nuno Martins: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Mais um fantástico livro de António Lobo Antunes...

Seguindo o meu périplo pela leitura de Lobo Antunes, cheguei "à vez" de "A Morte de Carlos Gardel", por ventura um dos seus livros mais conhecidos (e agora ainda mais devido ao filme, que infelizmente ainda não vi).

A história inicia-se e centra-se na personagem de Nuno, um jovem toxicodependente que dá entrada num hospital em fase terminal e a partir daí a acção evolui e passa para as pessoas que a ele estão ligadas.

O pai, Álvaro, que se separou da mulher quando o filho era pequeno, um homem sem ambições, "mole" e introspetivo, apenas com a sua paixão pelo tango e principalmente por Carlos Gardel, que o acompanha ao longo de toda a sua vida e que o liga ao mundo.

Claúdia, a mãe, independente, cuida do filho sozinha, tem vários casos depois de se separar de Álvaro, estando na altura numa relação com Ricardo que tem a praticamente a idade do filho.

Graça, a tia, irmã de Álvaro, médica e homossexual é a (suposta) "pedra" mais forte neste conjunto de personagens, e que está junta com Cristiana, uma professora muito instável emocionalmente e ciumenta.

Para além destas há mais umas quantas personagens que também contribuem e muito para a estrutura e desenvolvimento da história.

O livro está dividido em cinco capítulos, cujos títulos são tangos famosos de Gardel e cada capítulo é a estória e visão dos acontecimentos de cada personagem. Mas Lobo Antunes como escritor genial que é, neste livro utiliza uma espécie de "confrontação dos factos" em que as mesmas situações são vistas e relatadas sob a perspectiva dos diversos intervenientes, o que torna o livro ainda mais apetecível e profundo.

Lobo Antunes, também e como já fez nos seus livros anteriores, mostra-nos um Portugal "cinzento", onde as pessoas são mesquinhas, falsas, problemáticas, vivendo nos subúrbios, com falta de gosto e decadentes, ou seja, o Portugal real do nosso dia a dia.

Dos vários livros que já li de António Lobo Antunes, este é dos melhores, é muito profundo e bem estruturado e comovente, vale bem a pena ler. (Entretanto fiquei muito curioso de ver o filme).


por Nuno Martins
O que eu leio
20.05.2012

9 de maio de 2012

Norberto do Vale Cardoso: «Evangelho de Judas segundo António Lobo Antunes»

ALA entre ex-camaradas da guerra

Um excelente e inédito artigo sobre a guerra colonial na obra de António Lobo Antunes, escrito como primeiro ensaio da tese que foi publicada no volume A Mão de Judas (Col. Ensaio - ALA) por Norberto do Vale Cardoso:

A importância progressiva da obra de António Lobo Antunes não pode descurar o impacto da Guerra Colonial. Assim, trinta anos depois da publicação dos primeiros romances, cabe compreender que Memória de Elefante e Os Cus de Judas são romances de aprendizagem e formação, não apenas de uma experiência empírica narrada autobiograficamente, mas também de formação de um escritor. Este mistério da escrita, ou esta “inexplicável materialização do milagre”, que hoje se traduz na referência à mão que escreve está dependente de uma concepção do mundo que vem desedipianizar e desmistificar um país consolidado numa religiosidade crónica. Como se de um “evangelho” se tratasse, essa mão contacta com a vida dos “homens possessos”, aqueles que peregrinaram numa guerra inexplicável e inexplicada.


* por cortesia do autor 

5 de maio de 2012

Tiago M. Franco: opinião sobre Comissão das Lágrimas


António Lobo Antunes é um dos escritores portugueses mais premiados. Entre os vários prémios que conquistou, destacam-se o Prémio para Melhor Livro Estrangeiro publicado em França, 1997; o Prémio Jerusalém, 2005; e o Prémio Camões, 2007. Não deixa de ser curioso que só após a atribuição de dois dos prémios mais importantes a nível mundial tenha-lhe sida atribuído o mais importante prémio para escritores de língua portuguesa. Em Comissão das Lágrimas volta ao tema da guerra colonial.

Vive-se o período da pós-independência, as tropas portuguesas ainda estão em Angola, mas um grande sentimento de vingança está presente dos dois lados. Cristina saiu de África aos cinco anos, agora internada numa clínica psiquiátrica recorda esses tempos trágicos.

“Porque em Angola é assim, tudo ao contrário do que se imagina”.

O racismo; a incerteza no futuro; o medo; a responsabilidade de ambos os lados; o sentimento de culpa e de perdão ou a crueldade humana são temas abordados ao longo do livro.

“Um dia destes Deus vai saber de certeza.”

Lobo Antunes não esconde a realidade, com uma escrita poética e ao ritmo do pensamento humano vai descrevendo esse período histórico em que milhares de pessoas abandonaram o país deixando tudo o que tinham, quem ficou testemunhou a destruição, muitos foram assassinados, outras ainda continuaram a praticar actos racistas.

“…o pai da Cristina a recordar o cubículo para onde se atirava as granadas, contando os segundos antes da explosão, um dois três quatro cinco, que calava os gemidos e as rezas, calava o silêncio também,…depois das granadas desaferrolhava-se o cubículo e nem sequer muito sangue, ossos ao léu rompendo a pele e a carne”

Um livro duro, de palavras difíceis, onde a morte não tem importância e o silêncio é aterrador.

Com este livro António Lobo Antunes dá mais razão às vozes que reclamam para si o Prémio Nobel da Literatura.

Boa Leitura…


por Tiago M. Franco
Sugestão de Leitura
02.05.2012

1 de maio de 2012

Passatempo António Lobo Antunes e os leitores

[PASSATEMPO ENCERRADO]


Partindo da ideia inicial da partilha de fotografias dos leitores de e com António Lobo Antunes, vai decorrer durante o mês de Maio e a primeira quinzena de Junho mais um passatempo para a oferta de um exemplar da obra do escritor. O título desta vez escolhido é O Meu Nome É Legião.


Tema: António Lobo Antunes e os leitores
Início: 1 de Maio
Fim: 17 de Junho
Prémio: 1 exemplar de O Meu Nome É Legião
Como participar: enviar para o nosso e-mail alaptla@gmail.com uma foto como leitor de António Lobo Antunes e um texto que aborde a importância da proximidade entre este escritor em particular e os seus leitores.

Termos e condições do passatempo:

  1. O participante tem de enviar uma foto em que se identifique como leitor de António Lobo Antunes, num dos seguintes contextos: a ler um dos livros, a receber um autógrafo do escritor (poderá neste caso ser a foto de um familiar ou amigo) ou uma fotografia da sua autoria sobre o escritor em qualquer evento, ou mesmo particular (desde que não viole a privacidade de ALA). Não serão válidas fotos alheias recolhidas na Internet.
  2. A foto (ou fotos, caso entender) deve vir acompanhada por um texto da autoria do participante onde aborde a importância, do seu ponto de vista, da proximidade entre o escritor António Lobo Antunes e os seus leitores.
  3. A foto não tem limite de tamanho, mas o texto não deverá ultrapassar os 1000 caracteres. Devem ser dois ficheiros separados  - foto em formato JPG e o texto em DOC Word ou similar.
  4. Só os textos serão avaliados para o apuramento do vencedor do prémio, pelo que a qualidade ou quantidade de fotos não irá influenciar na escolha.
  5. O participante terá desta vez apenas que referir os seus primeiro e último nomes e localidade, não sendo necessário, na fase de apuramento, quaisquer outros dados pessoais.
  6. O participante deverá deixar claramente expressa no e-mail a sua autorização para a publicação da(s) foto(s) e do texto em todos os espaços de António Lobo Antunes na web.
  7. À medida que formos recebendo as participações, os textos e as fotos serão publicados, logo que possível, neste espaço (apenas com uma foto).
  8. O texto escolhido será o mais original e melhor fundamentado quanto ao tema.
  9. O vencedor do passatempo será contactado pelo e-mail por onde remeteu a participação e terá 24 horas para nos fornecer o endereço postal para a entrega do livro e telefone de contacto. Passadas essas 24 horas perderá direito ao prémio que será passado ao autor do texto seguinte escolhido.
  10. Após a confirmação do vencedor, o seu texto e foto(s) serão reeditados neste espaço



P A R T I C I P E   !

30 de abril de 2012

Dia 3 de Maio: Lançamento e Mesa-redonda - Colecção António Lobo Antunes – Ensaio


Lançamento e Mesa-redonda - Colecção António Lobo Antunes – Ensaio (Texto Editora)
Local: Auditório da Biblioteca Municipal de Tomar
Data: 3 de Maio de 2012, 17h30
No âmbito do evento BIBLIOTECANDO EM TOMAR 2012
Leituras Migrantes. Identidade e alteridade
Programa do Lançamento
Programa da Mesa redonda: António Lobo Antunes – Ensaio: com a participação de Maria Alzira Seixo (CEC, Directora da colecção), Agripina Carriço Vieira (Comissão Organizadora Bibliotecando em Tomar 2012), e dos autores Ana Paula Arnaut, Felipe Cammaert (CEC), Norberto do Vale Cardoso, Catarina Vaz Warrot
Nesta ocasião, serão apresentadas as duas primeiras obras da colecção, publicadas em 2011, assim como os próximos volumes a serem publicados.
- vol. 1: Felipe Cammaert (org.), António Lobo Antunes: A Arte do Romance
(publicado com o apoio do Centro de Estudos Comparatistas ao abrigo do protocolo de edição com a Leya) - descarregar índice do vol. 1

- vol. 2: Norberto do Vale Cardoso, A Mão-de-Judas. Representações da guerra colonial em António Lobo Antunes - descarregar índice do vol. 2
Programa completo do evento :
http://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/?p=17&s=24

[por cortesia de Maria Alzira Seixo]

27 de abril de 2012

Encontro de Juan Marsé e António Lobo Antunes, notícia Rádio Renascença

texto e foto: Rádio Renascença

"Estamos nas mãos dos grandes grupos editoriais"
ALA com Marsé na Buchholz, em Lisboa, 26.04.2012
António Lobo Antunes critica as imposições das leis do mercado editorial. O escritor falava esta quinta-feira na apresentação do livro "Caligrafia dos Sonhos", do catalão Juan Marsé. Numa sessão em Lisboa, que juntou os dois autores ibéricos, trocaram-se impressões sobre o ofício da escrita e ouviram-se as críticas.
Quando dois grandes escritores se encontram conversam sobre livros. António Lobo Antunes pediu licença para falar em espanhol para que Juan Marsé o entendesse, mas foi para o mercado editorial português que apontou baterias.
“Estamos nas mãos dos grandes grupos editoriais para quem só o dinheiro e as vendas contam. Esta é a verdade. Olhem à vossa volta, se houver cinco livros bons na livraria já não é mau. Esta é a verdade”, declarou o autor de “Memória de Elefante”.
Lobo Antunes escreveu o prefácio de "Caligrafia dos Sonhos" o novo livro do catalão Juan Marsé, um amigo e admirador do escritor português.

“Se consigo salvar um par de linhas sinto-me satisfeito. Custa-me muito trabalhar. Quando te leio tenho a sensação que te sai, como aos poetas, tens uma inspiração ou algo assim”, referiu.
Sobre Juan Marsé, Lobo Antunes diz que usa as palavras precisas em "Caligrafia dos Sonhos", um livro que tem como cenário quatro bairros de Barcelona. Territórios ficcionais, como os de Lobo Antunes, explica.
Os dois amigos escritores partilharam durante uma hora de conversa dores do ofício da escrita. Até quando um tradutor faz das suas: “Esse tradutor tinha tanta confiança que quase rescreveu o romance. Eu quando o li pensei, bom, está melhor do que o meu, mas eu não escrevi isto”.
Talvez por isso Lobo Antunes diz preferir as suas traduções chinesas e vietnamitas, porque não as pode ler.

Traduzido para português está "Caligrafia dos Sonhos", o novo livro de Juan Marsé.

(Maria João Costa)


25 de abril de 2012

«Pensamento positivo, meu amigo, pensamento positivo»

A última crónica publicada na Visão. António Lobo Antunes continua a falar do estado do país, mas desta vez mais nas entrelinhas. E continua a falar-nos de si, que o ouvimos:

Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica: três dias a rasgar papel. Normalmente fico uma hora ou isso, de caneta suspensa, e depois as palavras começam a sair sozinhas. Esta não, e já estou farto de deitar frases para o lixo. Julgo que se deve ao facto de ter demasiadas coisas dentro de mim, de viver uma altura difícil, de me achar melancólico e revoltado. Melancólico com a minha situação, revoltado com a situação do meu país. É raro o dia em que não me pedem
- Não me arranja um emprego?
a mim, que não possuo poder nenhum, e lá fico a ouvir histórias desesperadas e tristes. Os portugueses estão a sofrer muito, e o sofrimento dos portugueses é mais importante que o meu: que direito tenho de me queixar seja do que for? Quanto a mim não consigo fazer nada, quanto aos outros a minha importância colectiva é nula. Um amigo médico, por exemplo
- Fale do que se está a passar na Saúde
como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela, perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê?
A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno?
- Fale do que se está a passar na Saúde
e qual saúde, Zé? A nossa, a dos outros? Lembro-me que na primeira urgência interna que fiz no Hospital de Santa Maria, depois do curso, morreram seis doentes. Um médico, no dia seguinte 
- Eh pá você bateu o record
e eu, que era um miúdo, atarantado com a minha proeza.
- Não me arranja um emprego?
porque o subsídio acaba daqui a nada e depois o que faço eu, diga lá? Ao quarenta e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores do lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos nos dedos chupados um a um.
Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica. Olhe, já agora experimente comê-la embora deva saber mal como rabo de gato e não alimente nada. Estou a compor isto enjoado de mim, embora tenha batido um record. Seis pessoas é obra. Aguenta mais um mês, António, e logo sabes. Talvez te comam numa urgência interna.
- Como se chamava aquele?
- Não me vem agora o nome mas escrevia livros.
- Desses que a gente gosta?
- Não, dos complicados, dos que dão trabalho.
Livro que não falavam, ouviam. Eu prefiro coisas que distraiam, para maçadas basta a vida. Conselho de um editor
- Publique histórias leves, histórias que distraiam
E tem razão, para maçadas basta a vida, dêem-me episódios que me divirtam, que chumbada pensar.
- Não me arranja um emprego?
um emprego, um empregozinho, dinheiro para pagar as contas, seja o que for preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta angústia. E tem razão. Tudo é preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta miséria.
- Fale da Saúde
fale da saúde, da electricidade, dos transportes, da prestação da casa, da prestação do carro, da prestação da máquina de lavar, dos preços no supermercado, dos sapatos que o meu marido precisa, da penúria em que ando. Isto não é uma crónica, é um gemido indistinto, a minha mãe
- Não compraste umas hortaliças, filho?
o carro parado há dois meses que não há para a gasolina. Já não haverá mais para a gasolina. Talvez para uma garrafinha de petróleo
(pode ser que exista quem fie)
verter a garrafa em cima de mim e chegar-lhe um fósforo. Depois uns tempos na enfermaria até as queimaduras do terceiro grau resolverem o assunto. E não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso preocuparmo-nos com a saúde. Já não é preciso comer o filho. Já não é preciso comer nada. Nem acabar esta crónica. Nem rasgar papel. Nem deitar períodos para o lixo. Nem estar à espera do exame no mês de abril. Nem ter demasiadas coisas dentro. Nem de não estar satisfeito com a editora que, essa sim, ficará satisfeita dado que quando um escritor pifa vende mais e é maçador falar nisto mas vender é importante. A cultura é muito bonita porém, como deve calcular, como suponho que calcula, como calcula com certeza, é necessário ganhar a vidinha. Nunca lhe foi tão difícil escrever uma crónica? Pois olhe, já a terminou, vê, você lamenta-se, lamenta-se, mas acaba por cumprir o trabalho. Muito gostam os artistas de choramingar.

Revista Visão nº 998
19.04.2012

22 de abril de 2012

ALA that jazz, por António Bettencourt (*)


Você era de certeza o único pai que pregou no quarto de um filho o retrato de Charlie Parker.”
 (“Você” in Terceiro Livro de Crónicas)


Memória da infância, presença assídua na obra, o retrato de Charlie Parker terá sido talvez uma das primeiras imagens do jazz na vida de António Lobo Antunes (ALA). Um retrato que o pai decidiu colocar no quarto dos dois filhos mais velhos, como um profano crucifixo 



(“E os olhos de Charlie Parker tristíssimos nas fotografia.”)

Charlie Parker uma e outra vez, insistentemente repetido nos romances e nas crónicas, como variações de um mesmo tema: 

“Charlie Parker interrompeu uma vez uma gravação atirando com o saxofone aos gritos
-Já toquei isto amanhã
e ninguém foi capaz de convencê-lo a continuar.”

Também esta convergência dos tempos (amanhã igual a ontem) preenche a quase totalidade dos romances do escritor.

António Lobo Antunes será porventura o escritor português que mais referências ao Jazz faz na sua obra, um género musical que acompanha de perto a sua vida e a sua escrita. Ambicionou sempre ”escrever como Charlie Parker tocava, à custa do mesmo sofrimento, a fim de oferecer prazer e alegria aos que lêem”, pois para ALA, como constantemente afirma, também a escrita é fruto de um processo doloroso mas afinal gratificante, um sofrimento que se torna júbilo.

“O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo”

Desde as primeiras obras, e sobretudo nessas, as referências jazzísticas são inúmeras. Logo em Memória de Elefante o autor/narrador menciona o arrepio que sente nas costas sempre que escuta “o saxofone de Lester Young em These Foolish Things, correndo ao longo da música à maneira de dedos sábios por nádega adormecida” e cria uma imagem que, pelo seu arrojo, o leitor não espera, num tipo de figura estilística que se tornará característica dominante dos seus romances. O mesmo Lester Young e a mesma composição “onde cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado”serão referidos em crónica publicada muitos anos mais tarde.




Ainda neste romance, referindo-se à angústia existencial, o omnipresente “saxofone de Charlie Parker, a crucificar-nos de súbito num solo desesperado que resume toda a inocência e todo o sofrimento do mundo no sopro lancinante de uma nota”.

Em Os Cus de Judas, ao chegar a África, terra matriz do jazz, e perscrutando ao longe Luanda, ainda no navio que o transportava para a guerra, os negros no cais “observando-nos com a distracção intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que se encontra nas fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltrane quando sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo bêbedo, e eu imaginava adiante dos beiços grossos de cada um daqueles homens um trompete invisível…”

Já no mato, no cenário de todos os horrores, “os batuques dos Luchazes eram concertos de corações pânicos, taquicárdicos”. Os Luchazes cujo “riso súbito e orgulhosamente livre… estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga.

Essa mesma África cuja “inesgotável vitalidade” do povo contrapõe a uma Europa agonizante. Uma vitalidade que “entrevira, anos antes, no trompete solar de Louis Armstrong, expulsando a neurastenia e o azedume com a musculosa alegria do seu canto.” Ou nos soldados acocorados “a conversarem numa esquisita linguagem que eu entendia mal mas se aparentava ao saxofone de Charlie Parker quando não grita o seu ódio ferido pelo mundo cruel e ridículo dos brancos”.

A dimensão racial do jazz é também, algumas vezes, explorada por ALA: “Bessie Smith. Lady Day. Bessie Smith de novo. Morreu à porta de um hospital: não a deixaram entrar por ser preta. Iluminou-me a vida. Continua a iluminá-la”.



Além deste tipo de referências, o jazz serve também a ALA para comparações audaciosas e paródicas tal como quando chega ao Chiúme “uma companhia inteira de negros pequeninos e cabeçudos, de lenço vermelho ao pescoço, cujos bigodes por ajardinar lhes conferiam a aparência falsamente intelectual dos saxofonistas do Festival de Jazz de Cascais, génios da semifusa que o mínimo Ben Webster excomungaria”.



Com o amadurecimento literário e consagração do escritor, os romances vão abandonando as referências a escritores, músicos, pintores, etc. e, como tal, as referências ao jazz irão também rarear. É nas crónicas, textos muitas vezes menosprezados pelo autor, que continuaremos a encontrar inúmeros momentos em que o jazz é aludido ou mesmo tema central. No entanto, há uma outra dimensão em que os romances continuam a jazzar. É precisamente no coração da escrita de ALA que podemos encontrar processos próximos da composição e improvisação jazzística:

“Julgo que para um miúdo que resumia toda a sua ambição em tornar-se escritor Charlie Parker era de facto a companhia ideal”. Porque foi “com o que aprendi com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Wesbster” que me achei “capaz de compor por conta própria”. É com Ben Webster que “se entende mais sobre metáforas directas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária”. E Lester Young, “esse, ensinou-me a frasear”.

A polifonia (muito apontada por críticos e especialistas como uma das características fundamentais do discurso de ALA, onde a cada momento emergem vozes), o ritmo sincopado, as repetições, a variação, a improvisação, no fundo muito daquilo que faz a essência do jazz, são também os registos da escrita e da enunciação de António Lobo Antunes. A ruptura do Bebop na história do jazz é semelhante à ruptura de ALA na história do romance português.

Quando, na comemoração dos 25 anos de vida literária, o interrogaram sobre quem gostaria que estivesse presente na festa, António Lobo Antunes solicitou Thelonious Monk, Charlie Parker e Lester Young.



  “Cresci com um enorme retrato de Charlie Parker no quarto.” Como evitá-lo, se Deus é afinal um apreciador de jazz?


por António Bettencourt
Publicado originalmente em Jazz.pt, nº30
Maio/Junho de 2010


Bibliografia:

Romances: Memória de Elefante, Os Cus de Judas, Conhecimento do Inferno.

Crónicas: “De Deus como apreciador de Jazz”, “Você”, “Virginia Woolf, os relógios, Claudio & Bessie Smith”, “Já escrevi isto amanhã”.

Outros: “Arte”, in Maria Alzira Seixo (dir.), Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, vol. II, Lisboa, INCM, 2008, Catarina Vaz Warrot, “António Lobo Antunes: da escrita romanesca à enunciação musical – o texto como tecido sonoro e visual” (comunicação apresentada na Jornada Comemorativa dos 30 anos de Memória de Elefante).

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(*) António Bettencourt é o actual revisor filológico dos livros de António Lobo Antunes, na continuidade da edição ne varietur da obra.

20 de abril de 2012

Damian Kelleher: opinião sobre Fado Alexandrino

edição em inglês Grove/Atlantic, 1995
É noite avançada, em Lisboa, Portugal, e cinco homens do exército convivem no décimo aniversário do seu regresso da guerra em Moçambique. Desde o horror vivido em África, alguns destes homens  foram promovidos, outros se divorciaram , casaram, voltaram a casar, rebaixados, demitidos, iniciaram negócio próprio, cuidaram dos seus familiares, enterraram outros. Discutem as suas vidas sobre o vinho, as línguas enrolando à medida que o álcool vai fluindo. Em poucas horas, um dos homens será morto, assassinado, apunhalado pelas costas por um dos outros soldados.

Para reduzir a intriga à sua pura essência, o parágrafo acima pode resumir Fado Alexandrino. Porém, este difícil, extravagante e aberto romance  abrange muito mais com cada uma das suas quase quinhentas páginas. O impacto deste romance não está no que é relatado, mas na maneira como é relatado, a forma com que António Lobo Antunes consegue tecer cinco vidas diferentes num todo coerente, abarcando mais que uma década.

Lobo Antunes recorre a um interessante estilo de parágrafos extremamente longos, quebrados por raros pontos finais, mas carregados de vírgulas. Num só parágrafo - e isto não é raro - uma personagem começa por pensar em algo, os seus pensamentos são desencadeados por um comentário à margem, a sua mente vai divagando até cinco ou dez anos no passado, ou sobre o dia anterior, e o ponto central da narrativa alterna para novos cenários, com novas personagens, sem mudar de tempo, continuando no "presente"; então outras personagens começam a pensar, e vão tomando conta da cena, direccionando o parágrafo para outro espaço e tempo, tornando-se à vez no ponto central. Isto acontece repetidamente, constantemente se muda do tempo remoto em que os soldados eram novos e inexperientes, para um tempo intermédio, com as suas mulheres e filhos, felizes ou não, até ao "presente", o convívio, em que alguns já são velhos e outros apenas mais velhos, mas todos esgotados de qualquer forma. Mas funciona. É uma marca da habilidade literária de Antunes, a de nunca nos perdemos completamente, há sempre um fio para nos mantermos no caminho, mesmo com uma repentina e não anunciada mudança do ponto de vista da personagem, de cenário, de tempo, de ponto central, conseguimos continuar a par do curso narrativo e compreender o que se vai passando. [...]

A razão principal de isto funcionar vem da Revolução, um tempo conturbado na história de Portugal, quando o socialismo e o comunismo ameaçavam tomar o poder, em que a violência, estupro e carnificina eram comuns [*]. O romance é dividido em três partes, Antes da Revolução, A Revolução, e Após a Revolução. Geralmente, ao saltar na narrativa, conseguimos dizer o que se está a passar devido à proximidade das situações, tempo e personagens aos acontecimentos em Lisboa. Reconhecidamente, embora o tempo possa mudar tão repentina e dramaticamente, durante a parte Antes da Revolução toda a analepse é dentro do tempo de antes da revolução, e o mesmo se passando com as outras duas partes. É quase como se a personagem principal do romance fosse a Revolução, um turbilhão que envolve os cinco soldados, torcendo e dando voltas com as suas vidas.

António Lobo Antunes possui um fantástico sentido de imagética, habilidade para descrever situações e ambientes como ninguém que eu tivesse conhecido. É muito orgânico nas suas descrições, a boca de uma mulher é "um gomo de laranja", as sua coxas abertas "como um pólipo marinho", etc. Considerando que o núcleo do romance é a Revolução os seus terríveis e deletérios efeitos sobre a nação portuguesa e, em particular, sobre a cidade de Lisboa, os temas sobre a morte e a decadência são basilares na escrita. Por isso, à luz do dia, com o sol expondo cruelmente as fendas, a sujidade, a falta de tinta, e as feridas da pobreza que as luzes disfarçam, tudo parece mais pequeno, feio, muito deprimente, e absolutamente pobre. Infelizmente, este traço doentio e obsceno da escrita - tão eficaz quando retratando uma nação em decadência - é mais difícil de ler quando se refere às mulheres. Não existe uma única personagem feminina positiva na Lisboa de Lobo Antunes, todas elas são ora egoístas, ora insípidas, ora obscenas, ora decadentes, ora velhas, ora fracas, ora autoritárias, ora... a lista é vasta. Ainda assim, pode argumentar-se - quase correctamente, creio - que estas características negativas serão inerentes à percepção das coisas que os soldados carregam. Em Moçambique, foram habituados à violação e à prostituição - tanto masculina como feminina - e é fácil imaginar que tenham desenvolvido preconceitos para com as mulheres e o sexo por essa razão.

Há um senão neste livro que vale a pena mencionar. O penúltimo capítulo é o único completamente centrado numa personagem, e é o único capítulo em que o narrador é uma mulher. É uma reminiscência ao monólogo de Molly, do Ulisses de Joyce, com grandes e corridas frases que ocupam um longo parágrafo inteiro, com descrições detalhadas de sexo e luxúria, pensamentos à solta e ideias, etc. O capítulo está escrito com uma habilidade fantástica, mas a questão é que na realidade não combina com o resto do romance. O tom é diferente, o ritmo é diferente, o estilo é diferente, e pouco acrescenta. Ainda assim, é uma leitura agradável. Um interessante dilema.

Ao acabar este difícil e denso romance, fica-se com uma sensação de alívio por ter-se chegado ao fim, um sentimento de dever cumprido. Porém, existe a lástima, porque, com Fado Alexandrino, fui capaz de cair tão completamente num mundo violento e decadente que voltar de lá tornou-se difícil, coisa rara de acontecer com um romance. O efeito foi tão poderoso, quase físico, enquanto o lia, que não recomendo que se leiam dois títulos de António Lobo Antunes de uma assentada. Maravilhoso, mórbido, complexo, difícil, estruturalmente supreendente e intricadamente detalhado, Fado Alexandrino bem vale o esforço.


por Damien Kelleher
Literary reviews and essays
18.11.2006
[tradução do inglês por José Alexandre Ramos]

[*] é a interpretação do autor do artigo sobre o período do 25 de Abril, obviamente desfasada da realidade, talvez por conhecimento incorrecto dos factos.

18 de abril de 2012

Do leitor Rui Sousa: «Obrigado por escrever para mim»


Caro António,
Obrigado por escrever para mim.
Conheci-o em 1991. Tinha eu 17 anos e devorava livro atrás de livro na biblioteca municipal da minha terra. Biblioteca a estrear, antes até de estrear que a inauguração só no ano seguinte quando um Sr. Politico por lá passou.
Biblioteca Municipal Raúl Brandão - Guimarães

No primeiro dia que lá entrei, subi ao 1º andar, e decidi: vou ler a começar daqui (início da prateleira central onde estavam os escritores Portugueses), pelo menos um livro de cada autor.
E assim foi.
Nunca percebi a ordem porque estava organizada a dita prateleira, não era alfabética, não era cronológica, talvez não houvesse ordem.
Comecei na tal ponta. Sempre que acabava um livro passava os olhos pela estante e olhava os seus. Como não olhar? Para um miúdo de 17 anos "Os Cus de Judas" dá nas vistas. Os seus estavam na outra ponta da estante. Apesar da curiosidade respeitei a regra de pelo menos um de cada e antes de chegar a si passei por Júlio Dinis; Antero de Quental; Urbano Tavares Rodrigues; Manuel da Fonseca; Eça; Cardoso Pires; etc etc etc.
Finalmente num dia de verão (recordo-me a T-shirt e a sensação de conforto do Ar condicionado) peguei no "Os Cus de Judas" e instalado na sala ao lado comecei a ler.
Não é fácil explicar o que sucedeu então. A surpresa foi tão grande que não parava de olhar para os lados tentando perceber se de alguma forma era uma partida muito bem preparada que me faziam; a excitação foi tão grande que o conforto do AC desapareceu e ficou calor e frio; o tempo desapareceu; o livro acabou antes de me poder levantar e ainda no mesmo dia comecei as "Memória de Elefante". Como era possível? Aqueles livros eram escritos para mim.
O ritmo das frases, as imagens criadas, a minha forma de pensar, o meu ritmo de pensar.
A partir daí leio cada um dos seus livros. Sempre com medo de um dia aparecer o primeiro que não seja escrito para mim, mas de cada vez que inicio um novo, a nova surpresa de ainda mais "meu ser".
Não que os temas se aproximem da minha vivência, de todo; mas nos seus livros que construímos os dois enquanto os leio eu apareço cada vez mais inteiro, cada vez mais eu.
Obrigado por me ajudar a mostrar-me a mim próprio.


por Rui Sousa
Porto
e-mail de 18.04.2012

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...