25 de abril de 2012

«Pensamento positivo, meu amigo, pensamento positivo»

A última crónica publicada na Visão. António Lobo Antunes continua a falar do estado do país, mas desta vez mais nas entrelinhas. E continua a falar-nos de si, que o ouvimos:

Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica: três dias a rasgar papel. Normalmente fico uma hora ou isso, de caneta suspensa, e depois as palavras começam a sair sozinhas. Esta não, e já estou farto de deitar frases para o lixo. Julgo que se deve ao facto de ter demasiadas coisas dentro de mim, de viver uma altura difícil, de me achar melancólico e revoltado. Melancólico com a minha situação, revoltado com a situação do meu país. É raro o dia em que não me pedem
- Não me arranja um emprego?
a mim, que não possuo poder nenhum, e lá fico a ouvir histórias desesperadas e tristes. Os portugueses estão a sofrer muito, e o sofrimento dos portugueses é mais importante que o meu: que direito tenho de me queixar seja do que for? Quanto a mim não consigo fazer nada, quanto aos outros a minha importância colectiva é nula. Um amigo médico, por exemplo
- Fale do que se está a passar na Saúde
como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela, perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê?
A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno?
- Fale do que se está a passar na Saúde
e qual saúde, Zé? A nossa, a dos outros? Lembro-me que na primeira urgência interna que fiz no Hospital de Santa Maria, depois do curso, morreram seis doentes. Um médico, no dia seguinte 
- Eh pá você bateu o record
e eu, que era um miúdo, atarantado com a minha proeza.
- Não me arranja um emprego?
porque o subsídio acaba daqui a nada e depois o que faço eu, diga lá? Ao quarenta e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores do lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos nos dedos chupados um a um.
Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica. Olhe, já agora experimente comê-la embora deva saber mal como rabo de gato e não alimente nada. Estou a compor isto enjoado de mim, embora tenha batido um record. Seis pessoas é obra. Aguenta mais um mês, António, e logo sabes. Talvez te comam numa urgência interna.
- Como se chamava aquele?
- Não me vem agora o nome mas escrevia livros.
- Desses que a gente gosta?
- Não, dos complicados, dos que dão trabalho.
Livro que não falavam, ouviam. Eu prefiro coisas que distraiam, para maçadas basta a vida. Conselho de um editor
- Publique histórias leves, histórias que distraiam
E tem razão, para maçadas basta a vida, dêem-me episódios que me divirtam, que chumbada pensar.
- Não me arranja um emprego?
um emprego, um empregozinho, dinheiro para pagar as contas, seja o que for preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta angústia. E tem razão. Tudo é preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta miséria.
- Fale da Saúde
fale da saúde, da electricidade, dos transportes, da prestação da casa, da prestação do carro, da prestação da máquina de lavar, dos preços no supermercado, dos sapatos que o meu marido precisa, da penúria em que ando. Isto não é uma crónica, é um gemido indistinto, a minha mãe
- Não compraste umas hortaliças, filho?
o carro parado há dois meses que não há para a gasolina. Já não haverá mais para a gasolina. Talvez para uma garrafinha de petróleo
(pode ser que exista quem fie)
verter a garrafa em cima de mim e chegar-lhe um fósforo. Depois uns tempos na enfermaria até as queimaduras do terceiro grau resolverem o assunto. E não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso preocuparmo-nos com a saúde. Já não é preciso comer o filho. Já não é preciso comer nada. Nem acabar esta crónica. Nem rasgar papel. Nem deitar períodos para o lixo. Nem estar à espera do exame no mês de abril. Nem ter demasiadas coisas dentro. Nem de não estar satisfeito com a editora que, essa sim, ficará satisfeita dado que quando um escritor pifa vende mais e é maçador falar nisto mas vender é importante. A cultura é muito bonita porém, como deve calcular, como suponho que calcula, como calcula com certeza, é necessário ganhar a vidinha. Nunca lhe foi tão difícil escrever uma crónica? Pois olhe, já a terminou, vê, você lamenta-se, lamenta-se, mas acaba por cumprir o trabalho. Muito gostam os artistas de choramingar.

Revista Visão nº 998
19.04.2012

22 de abril de 2012

ALA that jazz, por António Bettencourt (*)


Você era de certeza o único pai que pregou no quarto de um filho o retrato de Charlie Parker.”
 (“Você” in Terceiro Livro de Crónicas)


Memória da infância, presença assídua na obra, o retrato de Charlie Parker terá sido talvez uma das primeiras imagens do jazz na vida de António Lobo Antunes (ALA). Um retrato que o pai decidiu colocar no quarto dos dois filhos mais velhos, como um profano crucifixo 



(“E os olhos de Charlie Parker tristíssimos nas fotografia.”)

Charlie Parker uma e outra vez, insistentemente repetido nos romances e nas crónicas, como variações de um mesmo tema: 

“Charlie Parker interrompeu uma vez uma gravação atirando com o saxofone aos gritos
-Já toquei isto amanhã
e ninguém foi capaz de convencê-lo a continuar.”

Também esta convergência dos tempos (amanhã igual a ontem) preenche a quase totalidade dos romances do escritor.

António Lobo Antunes será porventura o escritor português que mais referências ao Jazz faz na sua obra, um género musical que acompanha de perto a sua vida e a sua escrita. Ambicionou sempre ”escrever como Charlie Parker tocava, à custa do mesmo sofrimento, a fim de oferecer prazer e alegria aos que lêem”, pois para ALA, como constantemente afirma, também a escrita é fruto de um processo doloroso mas afinal gratificante, um sofrimento que se torna júbilo.

“O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo”

Desde as primeiras obras, e sobretudo nessas, as referências jazzísticas são inúmeras. Logo em Memória de Elefante o autor/narrador menciona o arrepio que sente nas costas sempre que escuta “o saxofone de Lester Young em These Foolish Things, correndo ao longo da música à maneira de dedos sábios por nádega adormecida” e cria uma imagem que, pelo seu arrojo, o leitor não espera, num tipo de figura estilística que se tornará característica dominante dos seus romances. O mesmo Lester Young e a mesma composição “onde cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado”serão referidos em crónica publicada muitos anos mais tarde.




Ainda neste romance, referindo-se à angústia existencial, o omnipresente “saxofone de Charlie Parker, a crucificar-nos de súbito num solo desesperado que resume toda a inocência e todo o sofrimento do mundo no sopro lancinante de uma nota”.

Em Os Cus de Judas, ao chegar a África, terra matriz do jazz, e perscrutando ao longe Luanda, ainda no navio que o transportava para a guerra, os negros no cais “observando-nos com a distracção intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que se encontra nas fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltrane quando sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo bêbedo, e eu imaginava adiante dos beiços grossos de cada um daqueles homens um trompete invisível…”

Já no mato, no cenário de todos os horrores, “os batuques dos Luchazes eram concertos de corações pânicos, taquicárdicos”. Os Luchazes cujo “riso súbito e orgulhosamente livre… estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga.

Essa mesma África cuja “inesgotável vitalidade” do povo contrapõe a uma Europa agonizante. Uma vitalidade que “entrevira, anos antes, no trompete solar de Louis Armstrong, expulsando a neurastenia e o azedume com a musculosa alegria do seu canto.” Ou nos soldados acocorados “a conversarem numa esquisita linguagem que eu entendia mal mas se aparentava ao saxofone de Charlie Parker quando não grita o seu ódio ferido pelo mundo cruel e ridículo dos brancos”.

A dimensão racial do jazz é também, algumas vezes, explorada por ALA: “Bessie Smith. Lady Day. Bessie Smith de novo. Morreu à porta de um hospital: não a deixaram entrar por ser preta. Iluminou-me a vida. Continua a iluminá-la”.



Além deste tipo de referências, o jazz serve também a ALA para comparações audaciosas e paródicas tal como quando chega ao Chiúme “uma companhia inteira de negros pequeninos e cabeçudos, de lenço vermelho ao pescoço, cujos bigodes por ajardinar lhes conferiam a aparência falsamente intelectual dos saxofonistas do Festival de Jazz de Cascais, génios da semifusa que o mínimo Ben Webster excomungaria”.



Com o amadurecimento literário e consagração do escritor, os romances vão abandonando as referências a escritores, músicos, pintores, etc. e, como tal, as referências ao jazz irão também rarear. É nas crónicas, textos muitas vezes menosprezados pelo autor, que continuaremos a encontrar inúmeros momentos em que o jazz é aludido ou mesmo tema central. No entanto, há uma outra dimensão em que os romances continuam a jazzar. É precisamente no coração da escrita de ALA que podemos encontrar processos próximos da composição e improvisação jazzística:

“Julgo que para um miúdo que resumia toda a sua ambição em tornar-se escritor Charlie Parker era de facto a companhia ideal”. Porque foi “com o que aprendi com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Wesbster” que me achei “capaz de compor por conta própria”. É com Ben Webster que “se entende mais sobre metáforas directas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária”. E Lester Young, “esse, ensinou-me a frasear”.

A polifonia (muito apontada por críticos e especialistas como uma das características fundamentais do discurso de ALA, onde a cada momento emergem vozes), o ritmo sincopado, as repetições, a variação, a improvisação, no fundo muito daquilo que faz a essência do jazz, são também os registos da escrita e da enunciação de António Lobo Antunes. A ruptura do Bebop na história do jazz é semelhante à ruptura de ALA na história do romance português.

Quando, na comemoração dos 25 anos de vida literária, o interrogaram sobre quem gostaria que estivesse presente na festa, António Lobo Antunes solicitou Thelonious Monk, Charlie Parker e Lester Young.



  “Cresci com um enorme retrato de Charlie Parker no quarto.” Como evitá-lo, se Deus é afinal um apreciador de jazz?


por António Bettencourt
Publicado originalmente em Jazz.pt, nº30
Maio/Junho de 2010


Bibliografia:

Romances: Memória de Elefante, Os Cus de Judas, Conhecimento do Inferno.

Crónicas: “De Deus como apreciador de Jazz”, “Você”, “Virginia Woolf, os relógios, Claudio & Bessie Smith”, “Já escrevi isto amanhã”.

Outros: “Arte”, in Maria Alzira Seixo (dir.), Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, vol. II, Lisboa, INCM, 2008, Catarina Vaz Warrot, “António Lobo Antunes: da escrita romanesca à enunciação musical – o texto como tecido sonoro e visual” (comunicação apresentada na Jornada Comemorativa dos 30 anos de Memória de Elefante).

--

(*) António Bettencourt é o actual revisor filológico dos livros de António Lobo Antunes, na continuidade da edição ne varietur da obra.

20 de abril de 2012

Damian Kelleher: opinião sobre Fado Alexandrino

edição em inglês Grove/Atlantic, 1995
É noite avançada, em Lisboa, Portugal, e cinco homens do exército convivem no décimo aniversário do seu regresso da guerra em Moçambique. Desde o horror vivido em África, alguns destes homens  foram promovidos, outros se divorciaram , casaram, voltaram a casar, rebaixados, demitidos, iniciaram negócio próprio, cuidaram dos seus familiares, enterraram outros. Discutem as suas vidas sobre o vinho, as línguas enrolando à medida que o álcool vai fluindo. Em poucas horas, um dos homens será morto, assassinado, apunhalado pelas costas por um dos outros soldados.

Para reduzir a intriga à sua pura essência, o parágrafo acima pode resumir Fado Alexandrino. Porém, este difícil, extravagante e aberto romance  abrange muito mais com cada uma das suas quase quinhentas páginas. O impacto deste romance não está no que é relatado, mas na maneira como é relatado, a forma com que António Lobo Antunes consegue tecer cinco vidas diferentes num todo coerente, abarcando mais que uma década.

Lobo Antunes recorre a um interessante estilo de parágrafos extremamente longos, quebrados por raros pontos finais, mas carregados de vírgulas. Num só parágrafo - e isto não é raro - uma personagem começa por pensar em algo, os seus pensamentos são desencadeados por um comentário à margem, a sua mente vai divagando até cinco ou dez anos no passado, ou sobre o dia anterior, e o ponto central da narrativa alterna para novos cenários, com novas personagens, sem mudar de tempo, continuando no "presente"; então outras personagens começam a pensar, e vão tomando conta da cena, direccionando o parágrafo para outro espaço e tempo, tornando-se à vez no ponto central. Isto acontece repetidamente, constantemente se muda do tempo remoto em que os soldados eram novos e inexperientes, para um tempo intermédio, com as suas mulheres e filhos, felizes ou não, até ao "presente", o convívio, em que alguns já são velhos e outros apenas mais velhos, mas todos esgotados de qualquer forma. Mas funciona. É uma marca da habilidade literária de Antunes, a de nunca nos perdemos completamente, há sempre um fio para nos mantermos no caminho, mesmo com uma repentina e não anunciada mudança do ponto de vista da personagem, de cenário, de tempo, de ponto central, conseguimos continuar a par do curso narrativo e compreender o que se vai passando. [...]

A razão principal de isto funcionar vem da Revolução, um tempo conturbado na história de Portugal, quando o socialismo e o comunismo ameaçavam tomar o poder, em que a violência, estupro e carnificina eram comuns [*]. O romance é dividido em três partes, Antes da Revolução, A Revolução, e Após a Revolução. Geralmente, ao saltar na narrativa, conseguimos dizer o que se está a passar devido à proximidade das situações, tempo e personagens aos acontecimentos em Lisboa. Reconhecidamente, embora o tempo possa mudar tão repentina e dramaticamente, durante a parte Antes da Revolução toda a analepse é dentro do tempo de antes da revolução, e o mesmo se passando com as outras duas partes. É quase como se a personagem principal do romance fosse a Revolução, um turbilhão que envolve os cinco soldados, torcendo e dando voltas com as suas vidas.

António Lobo Antunes possui um fantástico sentido de imagética, habilidade para descrever situações e ambientes como ninguém que eu tivesse conhecido. É muito orgânico nas suas descrições, a boca de uma mulher é "um gomo de laranja", as sua coxas abertas "como um pólipo marinho", etc. Considerando que o núcleo do romance é a Revolução os seus terríveis e deletérios efeitos sobre a nação portuguesa e, em particular, sobre a cidade de Lisboa, os temas sobre a morte e a decadência são basilares na escrita. Por isso, à luz do dia, com o sol expondo cruelmente as fendas, a sujidade, a falta de tinta, e as feridas da pobreza que as luzes disfarçam, tudo parece mais pequeno, feio, muito deprimente, e absolutamente pobre. Infelizmente, este traço doentio e obsceno da escrita - tão eficaz quando retratando uma nação em decadência - é mais difícil de ler quando se refere às mulheres. Não existe uma única personagem feminina positiva na Lisboa de Lobo Antunes, todas elas são ora egoístas, ora insípidas, ora obscenas, ora decadentes, ora velhas, ora fracas, ora autoritárias, ora... a lista é vasta. Ainda assim, pode argumentar-se - quase correctamente, creio - que estas características negativas serão inerentes à percepção das coisas que os soldados carregam. Em Moçambique, foram habituados à violação e à prostituição - tanto masculina como feminina - e é fácil imaginar que tenham desenvolvido preconceitos para com as mulheres e o sexo por essa razão.

Há um senão neste livro que vale a pena mencionar. O penúltimo capítulo é o único completamente centrado numa personagem, e é o único capítulo em que o narrador é uma mulher. É uma reminiscência ao monólogo de Molly, do Ulisses de Joyce, com grandes e corridas frases que ocupam um longo parágrafo inteiro, com descrições detalhadas de sexo e luxúria, pensamentos à solta e ideias, etc. O capítulo está escrito com uma habilidade fantástica, mas a questão é que na realidade não combina com o resto do romance. O tom é diferente, o ritmo é diferente, o estilo é diferente, e pouco acrescenta. Ainda assim, é uma leitura agradável. Um interessante dilema.

Ao acabar este difícil e denso romance, fica-se com uma sensação de alívio por ter-se chegado ao fim, um sentimento de dever cumprido. Porém, existe a lástima, porque, com Fado Alexandrino, fui capaz de cair tão completamente num mundo violento e decadente que voltar de lá tornou-se difícil, coisa rara de acontecer com um romance. O efeito foi tão poderoso, quase físico, enquanto o lia, que não recomendo que se leiam dois títulos de António Lobo Antunes de uma assentada. Maravilhoso, mórbido, complexo, difícil, estruturalmente supreendente e intricadamente detalhado, Fado Alexandrino bem vale o esforço.


por Damien Kelleher
Literary reviews and essays
18.11.2006
[tradução do inglês por José Alexandre Ramos]

[*] é a interpretação do autor do artigo sobre o período do 25 de Abril, obviamente desfasada da realidade, talvez por conhecimento incorrecto dos factos.

18 de abril de 2012

Do leitor Rui Sousa: «Obrigado por escrever para mim»


Caro António,
Obrigado por escrever para mim.
Conheci-o em 1991. Tinha eu 17 anos e devorava livro atrás de livro na biblioteca municipal da minha terra. Biblioteca a estrear, antes até de estrear que a inauguração só no ano seguinte quando um Sr. Politico por lá passou.
Biblioteca Municipal Raúl Brandão - Guimarães

No primeiro dia que lá entrei, subi ao 1º andar, e decidi: vou ler a começar daqui (início da prateleira central onde estavam os escritores Portugueses), pelo menos um livro de cada autor.
E assim foi.
Nunca percebi a ordem porque estava organizada a dita prateleira, não era alfabética, não era cronológica, talvez não houvesse ordem.
Comecei na tal ponta. Sempre que acabava um livro passava os olhos pela estante e olhava os seus. Como não olhar? Para um miúdo de 17 anos "Os Cus de Judas" dá nas vistas. Os seus estavam na outra ponta da estante. Apesar da curiosidade respeitei a regra de pelo menos um de cada e antes de chegar a si passei por Júlio Dinis; Antero de Quental; Urbano Tavares Rodrigues; Manuel da Fonseca; Eça; Cardoso Pires; etc etc etc.
Finalmente num dia de verão (recordo-me a T-shirt e a sensação de conforto do Ar condicionado) peguei no "Os Cus de Judas" e instalado na sala ao lado comecei a ler.
Não é fácil explicar o que sucedeu então. A surpresa foi tão grande que não parava de olhar para os lados tentando perceber se de alguma forma era uma partida muito bem preparada que me faziam; a excitação foi tão grande que o conforto do AC desapareceu e ficou calor e frio; o tempo desapareceu; o livro acabou antes de me poder levantar e ainda no mesmo dia comecei as "Memória de Elefante". Como era possível? Aqueles livros eram escritos para mim.
O ritmo das frases, as imagens criadas, a minha forma de pensar, o meu ritmo de pensar.
A partir daí leio cada um dos seus livros. Sempre com medo de um dia aparecer o primeiro que não seja escrito para mim, mas de cada vez que inicio um novo, a nova surpresa de ainda mais "meu ser".
Não que os temas se aproximem da minha vivência, de todo; mas nos seus livros que construímos os dois enquanto os leio eu apareço cada vez mais inteiro, cada vez mais eu.
Obrigado por me ajudar a mostrar-me a mim próprio.


por Rui Sousa
Porto
e-mail de 18.04.2012

12 de abril de 2012

Teolinda Gersão: recensão crítica a Explicação dos Pássaros na Colóquio Letras nº 72 de Março de 1983 – pp. 102 a 104

esta recensão, de 1983, debruça-se
sobre a 1ª edição de 1981
«As asas batiam num ruído de folhas agitadas pelo vento, [...] eu estava de mão dada contigo e pedi-te de repente Explica-me os pássaros. [...] tu sorriste e disseste-me que os ossos deles eram feitos de espuma da praia, que se alimentavam das migalhas do vento e que quando morriam flutuavam de costas no ar, de olhos fechados como as velhas na comunhão».

Este diálogo representa para a personagem um momento privilegiado da infância, o momento em que o pai é poeta e Rui S. se assume como seu filho. Na harmonia cúmplice das mãos dadas, ambos partilham o mistério das coisas, e passa de uma mão para a outra a chave do universo que é também - os poetas sabem disso - a chave do seu próprio ser.

Este momento, ao qual a personagem sempre de novo, obsessivamente, regressa, não existiu contudo, provavelmente, nunca: apenas houve uma série de equívocos. Desde logo porque os poetas são rigorosos, e quase tudo, nessa frase, é falso. O homem que disse essas palavras (ou nem sequer disse, talvez, e a cena foi apenas sonhada) provou só que não era, jamais seria, poeta. Mas Rui S. escuta, por detrás das palavras erradas, outras, exactas e belas; sobre o verdadeiro rosto do pai imagina outro - o rosto que lhe permitiria assumir - encontrar - o seu próprio.

Debalde, todavia. A realidade do pai, que ao longo de todo o texto se impõe, é - e é só - a do universo da Lapa, a grande casa burguesa, a família patriarcal com a sua «dignidade distante», o seu dinheiro e os seus contratos, as suas aparências e hipocrisias, as suas missas e as suas bavaroises, os seus casamentos frustrados e as suas louças da Companhia das Índias, um universo repressivo e concentracionário, mesmo quando se julga elegantemente permissivo, em que o desespero, como os sofás e os cortinados, aparece forrado de veludo. Mas nem por isso mata menos. Porque afinal é o pai, representante desse universo, que no fim espetará a personagem na folha de papel, tal como fez a outros elementos da família, e, como o texto insinua, é o culpado, se não directamente da morte da mãe, pelo menos da sua outra morte, do desespero e do vazio de uma existência feita de jogos de canasta e de obrigatória compostura.

Universo que Rui S. recusa - e que o recusa, porque todos os dissidentes são olhados de alto, como incapazes - mas do qual não consegue evadir-se; assim, por exemplo, a profissão de historiador não é escolhida «positivamente», por si mesma, mas «negativamente», como oposição ao universo paterno, que a não admite; e do mesmo modo, o outro «mundo» para onde parte, e que existe em contraste e oposição a este, é olhado com os olhos da Lapa, e também não é, portanto, assumido.

Campolide surge como um submundo de estreiteza e mau gosto, feito de mobílias baratas, «cortinas de pintas» e «quintalecos», e é para a personagem ao mesmo tempo um desafio à Lapa e uma punição. E por isso mesmo um desafio não ganho. Se o amor não existe na Lapa, onde as relações são frustradas e falsas, também é falsa a relação com Marília: «[...] eras bem do meio de onde vinhas», pensa Rui S, olhando-a, «nunca topei com pés tão grandes como os teus». Assim pensa a Lapa. O meio, a classe dela, é ele que lhos aponta. A distância entre ambos, é ele que a mantém e a faz sentir.

O amor de Marília é posto em dúvida (não se trata, afinal, de militância política?) e não é retribuído com amor algum - Rui S. «utiliza-a», inconscientemente, como compensação pela partida da mulher e como contestação à Lapa; pelo grupo político de Marília não é, evidentemente, aceite, porque para ingressar nele lhe falta tudo: a capacidade de acreditar numa causa, e a capacidade do dom de si próprio.

Que Marília entenda que se tratou de um equívoco e queira deixá-lo, funciona para a personagem (não para o leitor) como um efeito de surpresa. «Abandonado», Rui S. tentará por todos os meios agarrar-se a ela, porque sente a terra fugir-lhe debaixo dos pés e vai ser obrigado a encarar o que não quer ver: que é um ser que não pertence a parte alguma, e que, para estabelecer uma relação válida com os outros, terá primeiro de se encontrar a si mesmo. Tema que, dentro da metáfora obsessiva dos pássaros, se cristaliza na metáfora do voo frustrado, da impossibilidade do voo; ou no tema da viagem sem rumo: Aveiro em vez de Tomar, por uma súbita mudança - ausência - de objectivo.

A imagem da ria, envolvente, fascinante, um «enorme, ilimitado espaço claro unicamente habitado pelos gritos roucos das gaivotas», adquire uma força crescente. A ria é o grande espelho narcísico onde se procura um rosto, a resposta à pergunta inicial, não resolvida - quem sou? - e lugar onde se desiste da procura, atravessando a superfície das águas, cedendo ao apelo da morte, a que se mistura a morte da mãe, desde o princípio anunciada e suspensa.

A paixão de Rui S. (elementos como «6ª, sábado e domingo», o contraste noite-manhã, não são apenas casuais) é uma paixão sem ressurreição; dela ficará um corpo que flutua, na superfície lisa da ria, «cor das pálpebras por dentro», um corpo como o cadáver de um pássaro - a morte como um regresso ao ovo, a negação ou a impossibilidade do voo.

Outra metáfora - a terceira grande metáfora do texto - se mistura a esta: o circo, em que a personagem, ao mesmo tempo actor e espectador, encena a sua vida e a sua morte, transformando-as em espectáculo, numa visão amarga, irónica, cruel, voluntariamente desmistificadora da visão do circo como círculo mágico da infância. A imagem do circo assenta na visão alienada, canibal, da arte que é a dos jogos circenses e a da sociedade de consumo: a morte de Rui S. é um espectáculo oferecido e pago pela publicidade, o artista existe - é pago para - divertir o público, ser por este devorado, gasto, como qualquer outro produto consumível. Na mesma relação de ódio que, a todos os níveis, se mantém subjacente ao texto.

Caberia ainda falar da técnica narrativa, da pluralidade dos pontos de vista (que não quebram, todavia, a visão da personagem), da intromissão de vozes múltiplas, do entrelaçamento dos tempos, do caos voluntário dos movimentos e oscilações da memória. Mas limitar-me-ei a sublinhar o que considero os dois pontos mais altos do romance: a construção e a autenticidade. Explicação dos Pássaros é um livro conseguido (embora o domínio das palavras nem sempre o seja). A acção é levada coerentemente de um ponto a outro ponto, e no meio fica um percurso convincente. O que não é pequena virtude, quando tantas vezes os romances, mesmo dos chamados «autores consagrados» pecam por falta de construção. Por outro lado, este, como os outros livros de A. Lobo Antunes, passam através de uma experiência, uma pele, um corpo. Por isso são vivos. O que também não é pequena virtude, quando tão grande parte da literatura actual, não só aqui como no resto do mundo, é apenas feita de palavras e disfarça com alibis intelectuais a sua incapacidade de tocar na vida.


Teolinda Gersão
Colóquio Letras 72
Fundação Calouste Gulbenkian
Março de 1983

5 de abril de 2012

«Nação valente e imortal»

Crónica na Visão desta semana. Boa demais para deixar passar sem partilhar aqui:

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


in Revista Visão
05.04.2012

29 de março de 2012

ALA escreve prefácio de livro de Juan Marsé a publicar em Abril

António Lobo Antunes escreveu o prefácio do próximo livro de Juan Marsé a publicar em Portugal, uma das novidades da Dom Quixote anunciadas para Abril. O livro de Marsé tem o título Caligrafia dos Sonhos e foi publicado há semanas em Espanha, sendo colocado nas livrarias portuguesas a 21 de Abril:
«Em meados dos anos quarenta, Ringo é um rapazinho de quinze anos que passa as horas mortas no bar da senhora Paquita, movendo os dedos sobre a mesa, como se praticasse as lições de piano que a família já não lhe pode pagar. Nessa taberna do bairro de Gracia, o miúdo é testemunha da história de amor de Vicky Mir e do senhor Alonso: ela, uma mulher entrada em anos e abundante de carnes, massagista de profissão, ingénua e apaixonadiça; ele, um cinquentão garboso que acabou por se instalar em sua casa. Ali vivem, junto de Violeta, a filha da senhora Mir, até que sucede algo inesperado: um domingo à tarde, Vicky deita-se nas linhas mortas de um elétrico tentando um suicídio impossível e patético, e o senhor Alonso desaparece para não voltar.»

Este novo romance é o primeiro do autor espanhol depois que recebeu o Prémio Cervantes em 2009.

25 de março de 2012

Livros Mexidos com António Lobo Antunes

Evento do clube de leitura Livros Mexidos, no próximo dia 29 de Março, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas em Vila Real de Santo António:


«De Memória de Elefante até Quarto Livro de Crónicas, 32 livros, 32 leituras, 32 motes de conversa.
Dia 29 de março, sexta-feira, às 18h00, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas.
Organizado pelo Centro de Investigação e Informação de Cacela, pela ADRIP e pela Biblioteca Municipal Vicente Campina»

fonte: BMVC


21 de março de 2012

foxtrot nº 3 (a celebrar o dia mundial da poesia)

foto de Georgina Noronha


O mar não é tão fundo que me tire a vida
nem há tão larga rua que me leve a morte
sabe-me a boca ao sal da despedida
meu lenço de gaivota ao vento norte

meus lábios de água meu limão de amor
meu corpo de pinhal à ventania
meu cedro à lua minha acácia em flor
minha laranja a arder na noite fria.


António Lobo Antunes, Letrinhas de Cantigas

15 de março de 2012

António Lobo Antunes em Praga em Abril


Citando o site Prague Writer's Festival:

Um dos mestres da ficção contemporânea, António Lobo Antunes nasceu em 1942, Lisboa. Cumpriu o serviço militar como médico na malograda guerra colonial em Angola, uma experiência - combinada com a opressão política do ditador Salazar - que contribuiu para a sua ficção.
«Se te preocupas, morres, se não te preocupas morres na mesma. Então não te preocupes»
De regresso a Lisboa em 1973, Lobo Antunes exerceu psiquiatria  - «um homem que conhece o gosto e o cheiro da poeira» - antes de se dedicar inteiramente à literatura.
«Obviamente que, no fundo, é a nossa própria morte que tememos quando imaginamos a de outra pessoa, e isso faz-nos covardes de nós mesmos»
Para George Steiner, Lobo Antunes é o herdeiro de Conrad ou Faulkner, emboraCéline parece mais preciso
Dos seus romances destacam-se: The Land at the End of the World (Os Cus de Judas), Knowledge of Hell (Conhecimento do Inferno), An Explanation of Birds (Explicação dos Pássaros), Acts of the Damned (Auto dos Danados), The Natural Order of Things (A Ordem Natural das Coisas), The Inquisitors’ Manual (O Manual dos Inquisidores), e What Can I Do When Everything’s On Fire? (Que Farei Quando Tudo Arde?).
«Nunca leio um livro meu, só os escrevo.»
António Lobo Antunes vive em Lisboa.

O escritor fará a sua presença neste festival, que este ano faz a sua 22ª edição, cujo tema se centrará em "Apenas o futuro existe". Decorrerá em Praga (República Checa) entre 14 e 18 de Abril.

10 de março de 2012

António Lobo Antunes continua a falar-nos... e nós ouvimos e damos o apoio que merece.

foto de José Sena Goulão

A clara luz do dia

Vou ter de viver os próximos tempos em condições muito duras que não dependem de mim. Ser uma testemunha passiva do que se passa comigo, nada poder fazer para alterar seja o que for, desespera-me. Quando as coisas dependem da minha vontade eu luto. Quando não dependem fico reduzido a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e a minha indignação e a minha angústia crescem. Aguenta-te. Mas é difícil aguentar passivamente. Noites sobressaltadas, despertares cansados, a raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia. Sempre aceitei mal o que vem de fora da minha vontade, sempre aceitei mal o que me é imposto autoritariamente, sem discussão nem razões. Aceito, até certo ponto, a incerteza do futuro, não aceito que essa incerteza não me consinta uma margem de liberdade. A minha obra não está completa, a minha vida não está completa, necessito de tempo ainda, dessa espécie de tumultuosa paz de que sou feito. E sinto-me sozinho nisto, com as pessoas que me são próximas a assistirem de fora, impotentes. Navego à deriva, porque me tiraram o leme. A minha existência é comezinha e sem importância: na minha opinião o meu trabalho não o é. Se me devolvessem a paz e a esperança em troca dos livros que escrevi não a aceitava. Orgulho-me deles, custaram-me a alma. Que silêncio nesta casa, em frente da minha dor, cuja presença me espanta. Não me faço perguntas nem encontro respostas. Devo esperar. E quando se acabar, a espera? Palavras, coisas, pessoas rodopiam-me em torno, grandes pássaros negros passam sobre mim, o meu corpo é um conjunto de articulações sem sentido. Os outros, os que me falam, seres quase sem nexo, separados de mim por um muro que não consigo transpor. Porém não oiço o que quero nem digo o que se me arrasta no fundo da alma. Fico num silêncio amargo, cheio de gritos mudos, zanga, insultos. Dentro em pouco os dados estarão lançados: e depois?
A minha principal sensação é de estranheza, de espanto. O mundo, à minha volta, alterou-se, e eu com ele. Hoje, por exemplo, está um dia de sol, e é apenas chuva que vejo. Muitos dos meus amigos morreram já, e dou-me conta, na carne, da falta que me fazem. Ernesto, Zé, Acácio, vários outros. Sinto o coração a bater, compassado, lento. Por enquanto acompanha-me, estamos juntos. Não quero aborrecer ninguém, tomar o tempo de ninguém, ser incómodo. As horas adquiriram, sem me dar conta, uma rapidez vertiginosa. Há pouco o meu primo Zé Maria desapareceu com a mais admirável das coragens. Receio não a ter. A minha cobardia assusta-me. A indiferença dos estranhos assusta-me. A mudez do telefone assusta-me. Ninguém me garante que isto é mentira e sinto-me cercado de vazio, um oco interno onde fervem pavores. Sou eu o que continua, ou o que desconheço o que seja no meu lugar? Tudo o que sei é que, dentro em pouco estarei de novo no bojo de uma máquina sem alma, terrivelmente objectiva. A máquina dirá às pessoas, as pessoas dir-me-ão a mim. E quem é o mim que as vai ouvir?
Para já oiço o monótono zumbido do mundo. Mais nada. E espero. É tremendo esperar sem conhecer a resposta, sem fazer a mínima ideia da resposta. Passei por isso em África, passei por isso há anos. Julgava ter terminado. Voltou.
E o que digo o que interessa às pessoas? O que pode interessar aos outros? A solidão cerca-me por todos os lados, não há uma fraçãozinha que se sinta acompanhada: podem estar por fora, a olhar. Não estão por dentro, a viver. Escrevo este texto como quem tenta não se afogar, sabendo que se afogará seja como for. É uma questão de tempo e o tempo é cruel.
- Cá me vou entretendo com as minhas mazelas
dizia-me um homem outro dia. E que impartilhável sofrimento no interior destas palavras.
Depois apertámos a mão e foi-se embora, levando as mazelas com ele. Poderei ir-me embora também? O Sol cresceu, tudo está cheio de luz. Que absurdo isto que me sucede no meio de tanta luz. Lembro-me de Van Gogh a morrer num quarto de hospital depois dos tiros. Na parede aquele quadro dos corvos num campo de trigo. A enfermeira perguntou-lhe o que significava o quadro.
- É a morte
disse ele. A enfermeira voltou a olhar para a tela. Comentou
- Não parece uma morte triste
e o pintor respondeu
- E não é. Passa-se à clara luz do dia.
Que, ao menos, quando chegar o meu momento, tudo se passe à clara luz do dia. Comigo a ver, pela janela, as nuvens lá fora, deslizando, uma a uma, para leste. E eu, deitado numa cama qualquer, a partir com elas.

Revista Visão
01.03.2012

8 de março de 2012

Passatempo Fevereiro: oferta de Explicação dos Pássaros a ALEXANDRA MALHEIRO

Após o encerramento do passatempo, e apurado que está o vencedor, esta publicação substituirá todas as que foram dedicadas ao tema, destacando o texto escolhido como o mais criativo, de tema livre, em que apenas era exigido a colocação das palavras explicação e pássaros.

A participante vencedora recebe este exemplar de Explicação dos Pássaros, edição comemorativa dos 30 anos, autografado por António Lobo Antunes:



Foi atribuído a Alexandra Malheiro, do Porto, cujo texto foi considerado o mais criativo, por esta simples razão: o tema e a sua estrutura que tão bem fazem lembrar qualquer texto de António Lobo Antunes (seja na crónica ou no contexto de um dos seus livros):

Adeus, Pai.
Não há explicação. Os passos pela escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, sem abrir, inútil, incapaz de nos proteger do vento e do seu som agudo, assobiando uma música sem jeito.
– Sr. Justino.
Não me chames pai, rapaz – como se eu me esquecesse ou sequer fosse capaz
Não me chames pai, rapaz – como se eu alguma vez o tivesse feito.
– Sr. Justino. – a aprumar-me junto ao balcão, a esticar-me nos bicos dos pés, a crescer para ele, com os óculos presos na ponta do nariz.
Não me chames pai, rapaz – a estender-lhe a lista que a Mãe mandava.
Um kuilo de açucar

Um esfragão pailha daço
Uma caixa de fósfres
Amanhã ao mei-dia.
– Hum… hum… – enquanto arrumava num cartucho as encomendas – diz à tua Mãe que está tudo em ordem.
Não me chames pai, rapaz – a bulir-me por dentro.
– Sim, Sr. Justino.
Ou “sim, pai” – não se inquiete que não lhe chamo pai, senhor, porque havia de lhe chamar pai?
E amanhã ao meio dia os seus passos pesados na escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz de me proteger do vento que havia de gemer. A minha Mãe
– Entre Sr. Justino, faça o favor – a torcer as mãos no avental
– Vai jogar à bola Afonso – a pregar-me um beijo frouxo na testa.
Os passos pesados a entrarem na sala, a minha Mãe a fechar a porta – vai jogar à bola, Afonso, o Sr. Justino vem trazer as contas da mercearia.
O gemido do vento na persiana avariada, o gemido abafado da minha Mãe, o arfar do Justino da mercearia e o vento que teimava em bulir na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz.
O Justino da mercearia a pegar no chapéu, a ajeitar a gravata ao espelho, a abrir a porta.
Não me chames pai, rapaz – descanse senhor que eu não lhe chamo pai, porque havia de lhe chamar pai?
A enfermeira a bater-me no ombro – pode entrar agora.
O hospital todo muito branco, você também branco, num cadeirão a pender para o lado, a olhar o infinito, de monco caído para a esquerda, inútil como a persiana, só que o vento zunia lá fora e não na persiana, nem na sua boca torta, de monco caído para a esquerda, incapaz, inútil, sem os óculos empoleirados na ponta do nariz.
Descanse senhor que não lhe chamo pai, nunca lhe chamei pai, não vou chamar-lhe pai!
Os pássaros em revoada a baterem as asas rumo ao longe, os seus olhos a fecharem-se, pesados, sem um ai, sem um gemido, sem arfar, sem ajeitar a gravata, sem óculos, sem chapéu.
– Adeus, pai.

***

Outros dois textos foram destacados, e se houvesse mais exemplares a oferecer, mereceriam o prémio. Talvez para uma próxima vez...

Outros nomes para a noite
Somos dois fantasmas a assombrarem a cama, um dormido, outro acordado, ambos disfarçados de lençol, esquecidos de como era dantes e de como nos tornámos fantasmas sem dar por isso ou haver explicação. Lá fora há um candeeiro aceso, há candeeiros meio acesos, há candeeiros apagados. Há vários candeeiros apagados. Há a noite, há várias noites na noite. É impossível esta noite ser só uma, de tão comprida e inacabada. É impossível a noite acabar sem nos virarmos na cama e encontrarmos um pedaço que seja permanecido corpo e não desfeito em cobertas e lençol. É típico das noites não acabarem nunca quando se é fantasma. É típico dos fantasmas passarem por candeeiros apagados, meio despercebidos, na noite, sem se encontrarem entre eles, atravessando paredes e muros no roçagar lento e cego dos fantasmas. É impossível atravessar este sono sem perguntar onde se meteram as mãos, o rosto, as pernas, os braços, os pés embrulhados nos meus, os lábios babados na almofada. É impossível esta noite durar como uma lâmpada que treme, transida de medo, até o primeiro grasnar dos pássaros devolver o lugar ao dia, extinguir os candeeiros na rua e enlouquecer de luz a manhã.

por Miguel Marques, de Lisboa

Chegado aos trinta anos de uma esquizofrenia inesgotável, dirigi-me ao hospício e rendi-me às camadas cavernosas de medicações que me enfiam pelas goelas na esperança de calarem as vozes. Os comprimidos afogam os habitantes enquanto fico sossegado à espera de notícias de dentro.
Conheci a Joana no terceiro dia. Encontrei-a deitada no pátio, o seu corpo posicionava-se como no meio de uma multidão desconfortável de cadáveres. Ocasionalmente, revirava-se e surpreendia-me um pássaro na sua testa. A minha esquizofrenia inquietou-se; levantei-me e afugentei-o para certificar-me da sua existência. Dirigi-me para o edifício, cogitei procurar uma enfermeira, confrontá-la com o que observei e tentar encontrar uma explicação plausível que não me atirasse novamente para a lixeira de visões e temores. No entanto, aproximou-se uma idosa demente, que falava na segunda guerra como se tivesse sido anteontem, que me explicou que Joana cria pássaros enquanto dorme, que nascem de pequenas gotas de suor que surgem na sua testa branca. – Inicialmente, dormia cá dentro, mas durante a noite era um frenesim de pássaros que tocavam nos corpos, cagavam nas camas, no chão, nos medicamentos; meia dúzias de medricas gritavam assustados com a bicharada. Por isso, agora prefere dormir ao relento, os pássaros sobrevoam-na como a uma mãe e apenas chegando a fome visceral a abandonam.
Dirigi-me então a Joana, toquei-lhe numa gota da testa, e começou o processo nas minhas mãos, um pequeno melro a chilrear nos meus dedos, esfomeado, a confrontar-me como a uma mãe. Empurrei-o para Joana, juntou-se aos cardeais que nasciam das restantes gotas, à procura de alimento, num tagarelar infernal. Deitei-me a seu lado e esperei por um flamingo que me levasse em cores para as terras de África.
por Cátia Oliveira, de Gulpilhares

*

Seguem-se os textos dos outros participantes. A escolha não foi muito fácil...


Esqueci-me de como se adormece. Antes era tão fácil: o acto de me deitar, envolver-me em conforto e deixar-me cair no sono era um momento ansiado. Sonhar era um prazer. Havia sempre muitos pássaros nos meus sonhos. Pássaros livres. Mas agora esqueci-me de como se faz. As horas passam lentamente e eu permaneço, contemplativa, num vazio de ideias e de afectos. E de sonhos. Preciso compreender – haverá alguma explicação? Como posso ligar-me de novo, ficar em sintonia com o mundo de novo? Como se volta a dormir, como se volta a sonhar? Tenho saudades dos pássaros dos meus sonhos.

por Dália Antunes, de Algueirão

*
A noite cai de mansinho.
A casa, já escurecida pela penumbra, deixa entrar o silêncio que acentua a solidão. Os pássaros no seu cárcere estão envoltos na sonolência nocturna, mas de repente estremecem...
Uma visita de aspecto sinistro, mas com uma tranquilidade que não condiz, e que não fora convidada, invade silenciosamente a casa e dirige-se ao quarto, onde um corpo já enrugado pelo tempo dorme...
Sem qualquer explicação, esta visita envolve docemente o corpo no seu manto negro, anunciando baixinho:
- Vamos, chegou a hora...

por Ana Paula Azevedo, de Alvarelhos

*
Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo e a olhar para mim, procurou-me a mão e apertou-a. Há algo de dolorosamente consolador lembrar esse momento, como se me protegesse do esquecimento dos dias. Mas é claro que o vazio no coração aumenta nos dias inteiros de ausência. Um ano. Um ano que não bastou para descobrir conforto suficientemente para a eternidade. O meu coração egoísta insiste em dizer que quem queremos bem nunca nos deveria morrer. Mas se lhes sobrevivemos, quem estará ao meu lado quando ficar doente? Quem me fará relembrar que o mundo continua lá fora, mesmo sem mim? Quem me exigirá que seja melhor, mesmo que esse melhor se resuma a sobreviver? Quem nos dá a explicação da vida quando a morte não se quer explicar?
Hoje vesti a camisa escura que comprei na manhã seguinte para o funeral. Uma mortalha escura numa semana de imagens inesperadamente luminosas. Recordo o voo dos pássaros e a música ao longe. Recordo a coragem de não chorar e o branco das flores e o íngreme do fim do dia antes da noite mais comprida.
Apenas a liberdade que temos entre a vida e a morte nos mantém suspensos.

por Maria Margarida Lessa, de S. Mamede de Infesta

*
Meu amor, nos últimos tempos aconteceu-me uma coisa sem explicação. Tenho que pedir-te que me ajudes porque já não aguento mais. Todas as noites sonho com pássaros. Todas. E, quando acordo, ou o meu marido se transformou num pássaro ou sou eu própria que estou transformada num pássaro. Durante o duche voltamos à forma humana e o resto do dia decorre sem incidentes de maior, mas há momentos em que me invade um tremor indescritível, como se necessitasse irreprimivelmente de sacudir as asas que entretanto já não tenho… Nessas alturas fico angustiada e sem energia, esgotada com a frustração de nem ser ave nem ser também, completamente, ser humano. Peço-te ajuda a ti porque foi a ti que prometi não morrer, e se consegui fazer essa promessa tão irremediável e tão leviana foi porque pensei que, embora nesta nova vida estivéssemos afastados um do outro, de alguma maneira poderia contar contigo se alguma coisa me acontecesse. E não tenho mais ninguém a quem recorrer, eu e o meu marido não conseguimos falar disto um com o outro e não o culpo, sei como eu própria me sinto. A nossa relação deteriorou-se e já raramente trocamos uma palavra amigável. Se não fosse a promessa que te fiz, há muito que me tinha atirado a voar pela janela… Amor, já viste porque me tens que ajudar? Pelo menos desvinculando-me da promessa que me obrigaste a fazer. Eu, amor, assim, nem posso tentar voar, porque não sei se sei voar e se não sei e morro na tentativa vais dizer que não honrei a minha promessa. Não me quero matar, quero voar. Mas, amor, quem me vai acreditar?

por Maria de Jesus Venâncio, de Campo Maior

*
Era o dia da consulta das trinta e seis semanas de gestação e crescia em mim, a cada passo, a ansiedade profunda de te conhecer.
Depois de passar por aquelas rotinas usuais das últimas semanas de gravidez, a Doutora que "nos" assistia diz de forma natural e espontânea, sem levantar o olhar do papel que escrevinhava á nossa frente:
-Muito bem "mãe", prepare-se, vamos marcar aqui na minha agenda a data e hora do parto para daqui a duas semanas, pois este bebé, está um grande matulão e não pudemos arriscar a que nasça no final do tempo e haja estragos...
Gostaria de ter forma de me ver ao espelho, perante tal conversa! Nunca tinha ouvido nada de tão estranho, eu que toda vida usei agenda, apontar naquela data referenciada, que às 8 horas, ia ser tua mãe...
Há momentos que eternizo para todo sempre, este será desses, data e hora marcada para ter um filho, como se combinássemos uma qualquer saída banal, o ir beber um cafezinho...
E certo foi que aquela hora, numa manhã fria de Dezembro, gélida e soalheira, lá saímos de casa, eu e tu, para ir ao sitio onde fazem acontecer milagres, e onde tu aconteceste.
A vantagem de uma cesariana com epidural, é que a mãe está consciente de tudo o que a rodeia, sem dor, e o bebé não sofre pelo processo penoso de ter de se estruturar a sair por um buraco apertado.
Lá saíste de mim e registei uma vez mais na memória eterna de todo sempre, aquele momento em que te conheci, filho...
Tu, migalha de gente, acabado de nascer sujo, sebento perfeito, inexplicavelmente lindo, bebé meu...
E o que mais me arregalou, desde a primeira vez, que o meu olhar tocou o teu, foi o teu ar gingão, o olhar de Rei, de Senhor de mim...
Sorri-te, deixando cair espessas lágrimas de felicidade desmedida.
Tu, sem qualquer explicação, olhaste-me sem qualquer dúvida no olhar, de que era eu, tua mãe. Um olhar penetrante, fazendo-me lembrar um pássaro curioso, que olha em seu redor, com a sofreguidão de tudo querer entender.

por Lina Pedro, do Carregado

*
Máquina de Repressão
Às vezes não é fácil de evocar que, o que se explica a um cão é sinónimo de dar uma explicação.
Parece coisa de fraco mas é preciso engolir essa estafa, trabalhosa máquina de repressão para que o triunfo das coisas de pouco saber, fujam da nulidade de si. 
E a educação estoica, razão forte e superior, normaliza pássaros à dúvida de seguir cão de vício gerador.
Conclusão: Uma explicação é o nosso deslumbramento por um pássaro sem patas de flutuações aditivas.

por Diana Vieira, de Algés

*
Nas asas da imaginação
Nas asas da imaginação, valem as ideias mais além!
Assim seria o dia em que Sofia também esperou, para que lhe explicassem, tão subtilmente, o porquê da ausência tão prolongada de alguém que lhe era muito querido.
- Era eu pequena e pouco ainda entendia o que levava as pessoas a ficarem naquele estado tão triste e lastimoso, quando alguém próximo se ausentava, por periodos intermináveis. 
Assim aconteceu com o meu avô.
- Sofia, ele partiu, foi para o céu.
Eu respondia:
- Mas no céu eu só vejo pássaros!
E assim vivia, imaginando, que o meu avô agora tinha asas e voava.
A explicação mais plausível só chegou na minha adolescencia, e hoje reconheço, que se cada pássaro é alguém que se afasta de nós, afinal esse alguém não está tão longe como eu imaginava!!

por Graça Águas, da Lagoa (Açores)

*
Há dias assim.
Dias em que os segundos se abraçam lascivos ajeitando minutos. Minutos que deslizam de forma ominosa e disfarçada para gerarem horas tão obnóxias que me sufocam. 
Dias em que o assombro é tanto que me seca todas as palavras estúpidas que se prendem no fundo da garganta e ficam por dizer. 
Há dias em que nem a exortação daquela palavra, a mais esdrúxula de todas quantas tinha para dizer, me arranca do torpor da estultícia.
E é nesses dias assim em que as palavras se acumulam e ficam por dizer, em que os sonhos deixam de ser sonhos e modelam realidades tão inexplicavelmente tristes… em que os pássaros cessam de voar e se transformam em estátuas de sal vibrantes de mágoas, em que as ausências consentidas deixam um rasto de gelo, em que o amor não é mais fogo, em que as lágrimas não são já urgentes… 
É nesses dias que eu não sei se ainda sou, ou sequer se algum dia fui, algo mais do que o estorvo de uma gota de chuva na cortina cerrada de umas pestanas; do que um sussurro do vento, envergonhado, sem segredos; do que um momento resgatado ao sonho de alguém; do que um amontoado de silêncios vazios onde as palavras nada mais podem fazer do que adormecer.
E nesses dias, apesar de as palavras permanecerem não ditas, doem-me. Sapateiam-me a alma. Obrigam-me a olhá-las, a pensá-las, a justificá-las. 
É na obscuridade desses dias que mordo a perplexidade, engulo o estupor, sacudo as cinzas, as brumas e procuro construir significados. 
E então, debruçada na amurada frouxa desses dias, busco-lhes a explicação. 
E devagar, muito devagarinho deixo voar o sonho como apenas as crianças são capazes de deixar. E eis que me afagam borboletas, bailarinas num palco de cores desenhando claves de sol; que sinto o hálito das flores orvalhando grossas gotas de silêncio; que me sopram maresias e maresias de aromas húmidos que arrastam e devoram medos; que experimento nas pálpebras a carícia fugaz de uns dedos de prata, os da lua dos amantes; que relembro o sabor quente dos beijos maduros numa noite de paixão... 
E o amor, esse, nesses dias assim, consigo adivinhá-lo na carícia pungente de um olhar. 
E é então que me percebo… quase… feliz?

por Maria Celeste Pereira, da Maia

*
A Ignorância dos Beija-flores 
A explicação é imóvel. Depois da noite, depois da madrugada, depois do silêncio, depois dos desertos. Depois até mesmo das luzes baças que se anunciam no horizonte e nunca se saberá se é o sol abrindo a escuridão ou um fim de esperança presa na goela a insunuar-se no centro dos olhos.
Ouço pássaros. Clamam por descobrir seus voos na obviedade do céu e reduzem nossas dores ao instante primitivo que, não sabíamos até então, ainda nos guia os gestos e as palavras. Nada disso explica, mas para quê explicar o que o sentimento engloba e se expressa em, não sei, suspiros, sorrisos, lágrimas, ou mesmo inércias. É o pássaro, mas é também nossa alma, beija-flor envolto numa capa humana para proteger sua alada existência.
Então esses perfumes: a busca por um sol nascendo, por uma outra alma que nos abrigue em seu sexo, por uma mão que se ponha sobre um ombro caído, alguns dedos que se estendam quando apenas sabemos o chão. Porque o beija-flor precisa destes néctares, destas estéticas que nos tocam onde não entendemos, mas onde somos. Para isso a metáfora, embora sempre incompleta, limitada, serve. Porque ela tenta exactamente isso, explicar o inexplicável: absurdo de pôr em palavras o que é, na verdade, uma natureza intraduzível no que não a seja.
Por isso precisamos da beleza. Para nos suprir destas flores e a metáfora tenta isso. A beleza, mais que o sentido. Porque somos olhos cegos, vozes mudas, verdades mentindo suas mais profundas razões. Mas não desistimos. E nos aventuramos entre nossos semelhantes para colher o fugaz momento em que todas as coisas se tornam eternas. Meus lábios, teus cabelos, meus olhos, tuas orações, nossos enigmas opacos, mas vivos na escuridão dos sistemas universais (ou seriam tão só sistemas de pétalas no caule improvável?).
A explicação está sempre no mesmo lugar. Ubíqua, mas impossível. Atrás do oceano, atrás do horizonte, atrás, sempre, de onde podemos alcançar esticando os braços. Ali, onde as pontas dos pés e os dedos o mais alto possível não roçam. Por isso precisamos dos pássaros, para nos desexplicar as coisas. Para torná-las íntimas, para pô-las onde não precisamos senão por as mãos nos bolsos. Não me revele seu conteúdo, explicação. Não me revele seu vazio. O conteúdo nada tem que dizer. O vazio apenas apura a busca. Mas me dê o que se faça motor em mim. O que se faça motivo para continuar a perscrutar esse labirinto multidimensional em que estamos (que somos?).
Os pássaros haverá para as manhãs que não se traduzem em sóis, mas em cantos. Sim, para fazer-me o pássaro que sou. O mais voa. São flores, madrugada remota onde sentávamos na varanda para estudar as estrelas quietas. Ou um sentido que nos abriga.
A explicação é o que de intraduzível nos habita, beija-flor insapiente de si.

por Bruno Assunção, de Recife - Pernambuco (Brasil)

*
Atordoador! Sem explicação esta minha classificação da composição que os pássaros fazem com seus sons e o silêncio combinados; classifico-a de presença inaudível, de produção de notas “descoordeafinadas”.
Ensurdecedor! Sem explicação este abominar do chilrear frenético dos pássaros (que decidiram ser açorianos por estúpida loucura que lhes concedeu a liberdade inconsciente de decisão) atrás do rectângulo de papel negro aveludado com que disfarcei a minha janela. Disfarcei-lhe os olhos da claridade com mantos de piedade e de absolvição. Só não pude calar-lhe os ouvidos com o silêncio dos pássaros, insanos mensageiros desta saudade daquele Portugal longínquo que é o meu Portugal Continental.
Ah! Pássaros ridículos, sem obrigações de permanência, ide-vos que vos não dou explicação para esse meu turvar os sentidos e levai, combinadas, a vossa arte musical e a minha saudade transcendental, até ao Porto dos meus desejos. Expulsai-vos daqui, pássaros da minha saudade e ide a bordo dela, ide e saudai-o com o vosso talento, que eu ficarei aqui, ainda, magicando uma forma de ensurdecer os ouvidos da minha janela. Ainda e ainda, porque hei-de saber fazê-lo, tal como hei-de saber dar-vos uma explicação poética sobre o porquê de querer calar os ouvidos da minha janela com o silêncio absoluto dos vossos chilreares, sobre o porquê de querer adoecê-la com a privação das vossas belezas sonoras. Não sei quando, não sei como, mas sei onde.

por Dirce Moreira, de  Vila Franca do Campo - Açores


A todos o nosso agradecimento. Esperamos que continuem a participar em outros eventos!

Passatempo de Fevereiro - textos seleccionados para a atribuição do prémio Explicação dos Pássaros

Notifica-se, conforme anunciado, os autores dos três textos seleccionados para a atribuição do exemplar autografado de Explicação dos Pássaros. Ao autor do primeiro texto escolhido já foi enviada a SMS e aguardamos confirmação.

São estes os autores cujos textos foram escolhidos (pela ordem de chegada):

- Miguel Marques
- Cátia Oliveira
- Alexandra Malheiro

Após a confirmação via SMS revelaremos qual o autor premiado.

Mais informamos que as publicações que ao longo da duração do passatempo foram feitas com o texto de cada participante irão ser removidas quando publicarmos o post que revelará o texto vencedor. Esse post será completado com os textos de todos os participantes.

Obrigado pela vossa participação! Esperamos continuar a oferecer livros ao longo do ano. Estejam atentos!

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...