12 de abril de 2012

Teolinda Gersão: recensão crítica a Explicação dos Pássaros na Colóquio Letras nº 72 de Março de 1983 – pp. 102 a 104

esta recensão, de 1983, debruça-se
sobre a 1ª edição de 1981
«As asas batiam num ruído de folhas agitadas pelo vento, [...] eu estava de mão dada contigo e pedi-te de repente Explica-me os pássaros. [...] tu sorriste e disseste-me que os ossos deles eram feitos de espuma da praia, que se alimentavam das migalhas do vento e que quando morriam flutuavam de costas no ar, de olhos fechados como as velhas na comunhão».

Este diálogo representa para a personagem um momento privilegiado da infância, o momento em que o pai é poeta e Rui S. se assume como seu filho. Na harmonia cúmplice das mãos dadas, ambos partilham o mistério das coisas, e passa de uma mão para a outra a chave do universo que é também - os poetas sabem disso - a chave do seu próprio ser.

Este momento, ao qual a personagem sempre de novo, obsessivamente, regressa, não existiu contudo, provavelmente, nunca: apenas houve uma série de equívocos. Desde logo porque os poetas são rigorosos, e quase tudo, nessa frase, é falso. O homem que disse essas palavras (ou nem sequer disse, talvez, e a cena foi apenas sonhada) provou só que não era, jamais seria, poeta. Mas Rui S. escuta, por detrás das palavras erradas, outras, exactas e belas; sobre o verdadeiro rosto do pai imagina outro - o rosto que lhe permitiria assumir - encontrar - o seu próprio.

Debalde, todavia. A realidade do pai, que ao longo de todo o texto se impõe, é - e é só - a do universo da Lapa, a grande casa burguesa, a família patriarcal com a sua «dignidade distante», o seu dinheiro e os seus contratos, as suas aparências e hipocrisias, as suas missas e as suas bavaroises, os seus casamentos frustrados e as suas louças da Companhia das Índias, um universo repressivo e concentracionário, mesmo quando se julga elegantemente permissivo, em que o desespero, como os sofás e os cortinados, aparece forrado de veludo. Mas nem por isso mata menos. Porque afinal é o pai, representante desse universo, que no fim espetará a personagem na folha de papel, tal como fez a outros elementos da família, e, como o texto insinua, é o culpado, se não directamente da morte da mãe, pelo menos da sua outra morte, do desespero e do vazio de uma existência feita de jogos de canasta e de obrigatória compostura.

Universo que Rui S. recusa - e que o recusa, porque todos os dissidentes são olhados de alto, como incapazes - mas do qual não consegue evadir-se; assim, por exemplo, a profissão de historiador não é escolhida «positivamente», por si mesma, mas «negativamente», como oposição ao universo paterno, que a não admite; e do mesmo modo, o outro «mundo» para onde parte, e que existe em contraste e oposição a este, é olhado com os olhos da Lapa, e também não é, portanto, assumido.

Campolide surge como um submundo de estreiteza e mau gosto, feito de mobílias baratas, «cortinas de pintas» e «quintalecos», e é para a personagem ao mesmo tempo um desafio à Lapa e uma punição. E por isso mesmo um desafio não ganho. Se o amor não existe na Lapa, onde as relações são frustradas e falsas, também é falsa a relação com Marília: «[...] eras bem do meio de onde vinhas», pensa Rui S, olhando-a, «nunca topei com pés tão grandes como os teus». Assim pensa a Lapa. O meio, a classe dela, é ele que lhos aponta. A distância entre ambos, é ele que a mantém e a faz sentir.

O amor de Marília é posto em dúvida (não se trata, afinal, de militância política?) e não é retribuído com amor algum - Rui S. «utiliza-a», inconscientemente, como compensação pela partida da mulher e como contestação à Lapa; pelo grupo político de Marília não é, evidentemente, aceite, porque para ingressar nele lhe falta tudo: a capacidade de acreditar numa causa, e a capacidade do dom de si próprio.

Que Marília entenda que se tratou de um equívoco e queira deixá-lo, funciona para a personagem (não para o leitor) como um efeito de surpresa. «Abandonado», Rui S. tentará por todos os meios agarrar-se a ela, porque sente a terra fugir-lhe debaixo dos pés e vai ser obrigado a encarar o que não quer ver: que é um ser que não pertence a parte alguma, e que, para estabelecer uma relação válida com os outros, terá primeiro de se encontrar a si mesmo. Tema que, dentro da metáfora obsessiva dos pássaros, se cristaliza na metáfora do voo frustrado, da impossibilidade do voo; ou no tema da viagem sem rumo: Aveiro em vez de Tomar, por uma súbita mudança - ausência - de objectivo.

A imagem da ria, envolvente, fascinante, um «enorme, ilimitado espaço claro unicamente habitado pelos gritos roucos das gaivotas», adquire uma força crescente. A ria é o grande espelho narcísico onde se procura um rosto, a resposta à pergunta inicial, não resolvida - quem sou? - e lugar onde se desiste da procura, atravessando a superfície das águas, cedendo ao apelo da morte, a que se mistura a morte da mãe, desde o princípio anunciada e suspensa.

A paixão de Rui S. (elementos como «6ª, sábado e domingo», o contraste noite-manhã, não são apenas casuais) é uma paixão sem ressurreição; dela ficará um corpo que flutua, na superfície lisa da ria, «cor das pálpebras por dentro», um corpo como o cadáver de um pássaro - a morte como um regresso ao ovo, a negação ou a impossibilidade do voo.

Outra metáfora - a terceira grande metáfora do texto - se mistura a esta: o circo, em que a personagem, ao mesmo tempo actor e espectador, encena a sua vida e a sua morte, transformando-as em espectáculo, numa visão amarga, irónica, cruel, voluntariamente desmistificadora da visão do circo como círculo mágico da infância. A imagem do circo assenta na visão alienada, canibal, da arte que é a dos jogos circenses e a da sociedade de consumo: a morte de Rui S. é um espectáculo oferecido e pago pela publicidade, o artista existe - é pago para - divertir o público, ser por este devorado, gasto, como qualquer outro produto consumível. Na mesma relação de ódio que, a todos os níveis, se mantém subjacente ao texto.

Caberia ainda falar da técnica narrativa, da pluralidade dos pontos de vista (que não quebram, todavia, a visão da personagem), da intromissão de vozes múltiplas, do entrelaçamento dos tempos, do caos voluntário dos movimentos e oscilações da memória. Mas limitar-me-ei a sublinhar o que considero os dois pontos mais altos do romance: a construção e a autenticidade. Explicação dos Pássaros é um livro conseguido (embora o domínio das palavras nem sempre o seja). A acção é levada coerentemente de um ponto a outro ponto, e no meio fica um percurso convincente. O que não é pequena virtude, quando tantas vezes os romances, mesmo dos chamados «autores consagrados» pecam por falta de construção. Por outro lado, este, como os outros livros de A. Lobo Antunes, passam através de uma experiência, uma pele, um corpo. Por isso são vivos. O que também não é pequena virtude, quando tão grande parte da literatura actual, não só aqui como no resto do mundo, é apenas feita de palavras e disfarça com alibis intelectuais a sua incapacidade de tocar na vida.


Teolinda Gersão
Colóquio Letras 72
Fundação Calouste Gulbenkian
Março de 1983

5 de abril de 2012

«Nação valente e imortal»

Crónica na Visão desta semana. Boa demais para deixar passar sem partilhar aqui:

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


in Revista Visão
05.04.2012

29 de março de 2012

ALA escreve prefácio de livro de Juan Marsé a publicar em Abril

António Lobo Antunes escreveu o prefácio do próximo livro de Juan Marsé a publicar em Portugal, uma das novidades da Dom Quixote anunciadas para Abril. O livro de Marsé tem o título Caligrafia dos Sonhos e foi publicado há semanas em Espanha, sendo colocado nas livrarias portuguesas a 21 de Abril:
«Em meados dos anos quarenta, Ringo é um rapazinho de quinze anos que passa as horas mortas no bar da senhora Paquita, movendo os dedos sobre a mesa, como se praticasse as lições de piano que a família já não lhe pode pagar. Nessa taberna do bairro de Gracia, o miúdo é testemunha da história de amor de Vicky Mir e do senhor Alonso: ela, uma mulher entrada em anos e abundante de carnes, massagista de profissão, ingénua e apaixonadiça; ele, um cinquentão garboso que acabou por se instalar em sua casa. Ali vivem, junto de Violeta, a filha da senhora Mir, até que sucede algo inesperado: um domingo à tarde, Vicky deita-se nas linhas mortas de um elétrico tentando um suicídio impossível e patético, e o senhor Alonso desaparece para não voltar.»

Este novo romance é o primeiro do autor espanhol depois que recebeu o Prémio Cervantes em 2009.

25 de março de 2012

Livros Mexidos com António Lobo Antunes

Evento do clube de leitura Livros Mexidos, no próximo dia 29 de Março, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas em Vila Real de Santo António:


«De Memória de Elefante até Quarto Livro de Crónicas, 32 livros, 32 leituras, 32 motes de conversa.
Dia 29 de março, sexta-feira, às 18h00, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas.
Organizado pelo Centro de Investigação e Informação de Cacela, pela ADRIP e pela Biblioteca Municipal Vicente Campina»

fonte: BMVC


21 de março de 2012

foxtrot nº 3 (a celebrar o dia mundial da poesia)

foto de Georgina Noronha


O mar não é tão fundo que me tire a vida
nem há tão larga rua que me leve a morte
sabe-me a boca ao sal da despedida
meu lenço de gaivota ao vento norte

meus lábios de água meu limão de amor
meu corpo de pinhal à ventania
meu cedro à lua minha acácia em flor
minha laranja a arder na noite fria.


António Lobo Antunes, Letrinhas de Cantigas

15 de março de 2012

António Lobo Antunes em Praga em Abril


Citando o site Prague Writer's Festival:

Um dos mestres da ficção contemporânea, António Lobo Antunes nasceu em 1942, Lisboa. Cumpriu o serviço militar como médico na malograda guerra colonial em Angola, uma experiência - combinada com a opressão política do ditador Salazar - que contribuiu para a sua ficção.
«Se te preocupas, morres, se não te preocupas morres na mesma. Então não te preocupes»
De regresso a Lisboa em 1973, Lobo Antunes exerceu psiquiatria  - «um homem que conhece o gosto e o cheiro da poeira» - antes de se dedicar inteiramente à literatura.
«Obviamente que, no fundo, é a nossa própria morte que tememos quando imaginamos a de outra pessoa, e isso faz-nos covardes de nós mesmos»
Para George Steiner, Lobo Antunes é o herdeiro de Conrad ou Faulkner, emboraCéline parece mais preciso
Dos seus romances destacam-se: The Land at the End of the World (Os Cus de Judas), Knowledge of Hell (Conhecimento do Inferno), An Explanation of Birds (Explicação dos Pássaros), Acts of the Damned (Auto dos Danados), The Natural Order of Things (A Ordem Natural das Coisas), The Inquisitors’ Manual (O Manual dos Inquisidores), e What Can I Do When Everything’s On Fire? (Que Farei Quando Tudo Arde?).
«Nunca leio um livro meu, só os escrevo.»
António Lobo Antunes vive em Lisboa.

O escritor fará a sua presença neste festival, que este ano faz a sua 22ª edição, cujo tema se centrará em "Apenas o futuro existe". Decorrerá em Praga (República Checa) entre 14 e 18 de Abril.

10 de março de 2012

António Lobo Antunes continua a falar-nos... e nós ouvimos e damos o apoio que merece.

foto de José Sena Goulão

A clara luz do dia

Vou ter de viver os próximos tempos em condições muito duras que não dependem de mim. Ser uma testemunha passiva do que se passa comigo, nada poder fazer para alterar seja o que for, desespera-me. Quando as coisas dependem da minha vontade eu luto. Quando não dependem fico reduzido a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e a minha indignação e a minha angústia crescem. Aguenta-te. Mas é difícil aguentar passivamente. Noites sobressaltadas, despertares cansados, a raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia. Sempre aceitei mal o que vem de fora da minha vontade, sempre aceitei mal o que me é imposto autoritariamente, sem discussão nem razões. Aceito, até certo ponto, a incerteza do futuro, não aceito que essa incerteza não me consinta uma margem de liberdade. A minha obra não está completa, a minha vida não está completa, necessito de tempo ainda, dessa espécie de tumultuosa paz de que sou feito. E sinto-me sozinho nisto, com as pessoas que me são próximas a assistirem de fora, impotentes. Navego à deriva, porque me tiraram o leme. A minha existência é comezinha e sem importância: na minha opinião o meu trabalho não o é. Se me devolvessem a paz e a esperança em troca dos livros que escrevi não a aceitava. Orgulho-me deles, custaram-me a alma. Que silêncio nesta casa, em frente da minha dor, cuja presença me espanta. Não me faço perguntas nem encontro respostas. Devo esperar. E quando se acabar, a espera? Palavras, coisas, pessoas rodopiam-me em torno, grandes pássaros negros passam sobre mim, o meu corpo é um conjunto de articulações sem sentido. Os outros, os que me falam, seres quase sem nexo, separados de mim por um muro que não consigo transpor. Porém não oiço o que quero nem digo o que se me arrasta no fundo da alma. Fico num silêncio amargo, cheio de gritos mudos, zanga, insultos. Dentro em pouco os dados estarão lançados: e depois?
A minha principal sensação é de estranheza, de espanto. O mundo, à minha volta, alterou-se, e eu com ele. Hoje, por exemplo, está um dia de sol, e é apenas chuva que vejo. Muitos dos meus amigos morreram já, e dou-me conta, na carne, da falta que me fazem. Ernesto, Zé, Acácio, vários outros. Sinto o coração a bater, compassado, lento. Por enquanto acompanha-me, estamos juntos. Não quero aborrecer ninguém, tomar o tempo de ninguém, ser incómodo. As horas adquiriram, sem me dar conta, uma rapidez vertiginosa. Há pouco o meu primo Zé Maria desapareceu com a mais admirável das coragens. Receio não a ter. A minha cobardia assusta-me. A indiferença dos estranhos assusta-me. A mudez do telefone assusta-me. Ninguém me garante que isto é mentira e sinto-me cercado de vazio, um oco interno onde fervem pavores. Sou eu o que continua, ou o que desconheço o que seja no meu lugar? Tudo o que sei é que, dentro em pouco estarei de novo no bojo de uma máquina sem alma, terrivelmente objectiva. A máquina dirá às pessoas, as pessoas dir-me-ão a mim. E quem é o mim que as vai ouvir?
Para já oiço o monótono zumbido do mundo. Mais nada. E espero. É tremendo esperar sem conhecer a resposta, sem fazer a mínima ideia da resposta. Passei por isso em África, passei por isso há anos. Julgava ter terminado. Voltou.
E o que digo o que interessa às pessoas? O que pode interessar aos outros? A solidão cerca-me por todos os lados, não há uma fraçãozinha que se sinta acompanhada: podem estar por fora, a olhar. Não estão por dentro, a viver. Escrevo este texto como quem tenta não se afogar, sabendo que se afogará seja como for. É uma questão de tempo e o tempo é cruel.
- Cá me vou entretendo com as minhas mazelas
dizia-me um homem outro dia. E que impartilhável sofrimento no interior destas palavras.
Depois apertámos a mão e foi-se embora, levando as mazelas com ele. Poderei ir-me embora também? O Sol cresceu, tudo está cheio de luz. Que absurdo isto que me sucede no meio de tanta luz. Lembro-me de Van Gogh a morrer num quarto de hospital depois dos tiros. Na parede aquele quadro dos corvos num campo de trigo. A enfermeira perguntou-lhe o que significava o quadro.
- É a morte
disse ele. A enfermeira voltou a olhar para a tela. Comentou
- Não parece uma morte triste
e o pintor respondeu
- E não é. Passa-se à clara luz do dia.
Que, ao menos, quando chegar o meu momento, tudo se passe à clara luz do dia. Comigo a ver, pela janela, as nuvens lá fora, deslizando, uma a uma, para leste. E eu, deitado numa cama qualquer, a partir com elas.

Revista Visão
01.03.2012

8 de março de 2012

Passatempo Fevereiro: oferta de Explicação dos Pássaros a ALEXANDRA MALHEIRO

Após o encerramento do passatempo, e apurado que está o vencedor, esta publicação substituirá todas as que foram dedicadas ao tema, destacando o texto escolhido como o mais criativo, de tema livre, em que apenas era exigido a colocação das palavras explicação e pássaros.

A participante vencedora recebe este exemplar de Explicação dos Pássaros, edição comemorativa dos 30 anos, autografado por António Lobo Antunes:



Foi atribuído a Alexandra Malheiro, do Porto, cujo texto foi considerado o mais criativo, por esta simples razão: o tema e a sua estrutura que tão bem fazem lembrar qualquer texto de António Lobo Antunes (seja na crónica ou no contexto de um dos seus livros):

Adeus, Pai.
Não há explicação. Os passos pela escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, sem abrir, inútil, incapaz de nos proteger do vento e do seu som agudo, assobiando uma música sem jeito.
– Sr. Justino.
Não me chames pai, rapaz – como se eu me esquecesse ou sequer fosse capaz
Não me chames pai, rapaz – como se eu alguma vez o tivesse feito.
– Sr. Justino. – a aprumar-me junto ao balcão, a esticar-me nos bicos dos pés, a crescer para ele, com os óculos presos na ponta do nariz.
Não me chames pai, rapaz – a estender-lhe a lista que a Mãe mandava.
Um kuilo de açucar

Um esfragão pailha daço
Uma caixa de fósfres
Amanhã ao mei-dia.
– Hum… hum… – enquanto arrumava num cartucho as encomendas – diz à tua Mãe que está tudo em ordem.
Não me chames pai, rapaz – a bulir-me por dentro.
– Sim, Sr. Justino.
Ou “sim, pai” – não se inquiete que não lhe chamo pai, senhor, porque havia de lhe chamar pai?
E amanhã ao meio dia os seus passos pesados na escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz de me proteger do vento que havia de gemer. A minha Mãe
– Entre Sr. Justino, faça o favor – a torcer as mãos no avental
– Vai jogar à bola Afonso – a pregar-me um beijo frouxo na testa.
Os passos pesados a entrarem na sala, a minha Mãe a fechar a porta – vai jogar à bola, Afonso, o Sr. Justino vem trazer as contas da mercearia.
O gemido do vento na persiana avariada, o gemido abafado da minha Mãe, o arfar do Justino da mercearia e o vento que teimava em bulir na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz.
O Justino da mercearia a pegar no chapéu, a ajeitar a gravata ao espelho, a abrir a porta.
Não me chames pai, rapaz – descanse senhor que eu não lhe chamo pai, porque havia de lhe chamar pai?
A enfermeira a bater-me no ombro – pode entrar agora.
O hospital todo muito branco, você também branco, num cadeirão a pender para o lado, a olhar o infinito, de monco caído para a esquerda, inútil como a persiana, só que o vento zunia lá fora e não na persiana, nem na sua boca torta, de monco caído para a esquerda, incapaz, inútil, sem os óculos empoleirados na ponta do nariz.
Descanse senhor que não lhe chamo pai, nunca lhe chamei pai, não vou chamar-lhe pai!
Os pássaros em revoada a baterem as asas rumo ao longe, os seus olhos a fecharem-se, pesados, sem um ai, sem um gemido, sem arfar, sem ajeitar a gravata, sem óculos, sem chapéu.
– Adeus, pai.

***

Outros dois textos foram destacados, e se houvesse mais exemplares a oferecer, mereceriam o prémio. Talvez para uma próxima vez...

Outros nomes para a noite
Somos dois fantasmas a assombrarem a cama, um dormido, outro acordado, ambos disfarçados de lençol, esquecidos de como era dantes e de como nos tornámos fantasmas sem dar por isso ou haver explicação. Lá fora há um candeeiro aceso, há candeeiros meio acesos, há candeeiros apagados. Há vários candeeiros apagados. Há a noite, há várias noites na noite. É impossível esta noite ser só uma, de tão comprida e inacabada. É impossível a noite acabar sem nos virarmos na cama e encontrarmos um pedaço que seja permanecido corpo e não desfeito em cobertas e lençol. É típico das noites não acabarem nunca quando se é fantasma. É típico dos fantasmas passarem por candeeiros apagados, meio despercebidos, na noite, sem se encontrarem entre eles, atravessando paredes e muros no roçagar lento e cego dos fantasmas. É impossível atravessar este sono sem perguntar onde se meteram as mãos, o rosto, as pernas, os braços, os pés embrulhados nos meus, os lábios babados na almofada. É impossível esta noite durar como uma lâmpada que treme, transida de medo, até o primeiro grasnar dos pássaros devolver o lugar ao dia, extinguir os candeeiros na rua e enlouquecer de luz a manhã.

por Miguel Marques, de Lisboa

Chegado aos trinta anos de uma esquizofrenia inesgotável, dirigi-me ao hospício e rendi-me às camadas cavernosas de medicações que me enfiam pelas goelas na esperança de calarem as vozes. Os comprimidos afogam os habitantes enquanto fico sossegado à espera de notícias de dentro.
Conheci a Joana no terceiro dia. Encontrei-a deitada no pátio, o seu corpo posicionava-se como no meio de uma multidão desconfortável de cadáveres. Ocasionalmente, revirava-se e surpreendia-me um pássaro na sua testa. A minha esquizofrenia inquietou-se; levantei-me e afugentei-o para certificar-me da sua existência. Dirigi-me para o edifício, cogitei procurar uma enfermeira, confrontá-la com o que observei e tentar encontrar uma explicação plausível que não me atirasse novamente para a lixeira de visões e temores. No entanto, aproximou-se uma idosa demente, que falava na segunda guerra como se tivesse sido anteontem, que me explicou que Joana cria pássaros enquanto dorme, que nascem de pequenas gotas de suor que surgem na sua testa branca. – Inicialmente, dormia cá dentro, mas durante a noite era um frenesim de pássaros que tocavam nos corpos, cagavam nas camas, no chão, nos medicamentos; meia dúzias de medricas gritavam assustados com a bicharada. Por isso, agora prefere dormir ao relento, os pássaros sobrevoam-na como a uma mãe e apenas chegando a fome visceral a abandonam.
Dirigi-me então a Joana, toquei-lhe numa gota da testa, e começou o processo nas minhas mãos, um pequeno melro a chilrear nos meus dedos, esfomeado, a confrontar-me como a uma mãe. Empurrei-o para Joana, juntou-se aos cardeais que nasciam das restantes gotas, à procura de alimento, num tagarelar infernal. Deitei-me a seu lado e esperei por um flamingo que me levasse em cores para as terras de África.
por Cátia Oliveira, de Gulpilhares

*

Seguem-se os textos dos outros participantes. A escolha não foi muito fácil...


Esqueci-me de como se adormece. Antes era tão fácil: o acto de me deitar, envolver-me em conforto e deixar-me cair no sono era um momento ansiado. Sonhar era um prazer. Havia sempre muitos pássaros nos meus sonhos. Pássaros livres. Mas agora esqueci-me de como se faz. As horas passam lentamente e eu permaneço, contemplativa, num vazio de ideias e de afectos. E de sonhos. Preciso compreender – haverá alguma explicação? Como posso ligar-me de novo, ficar em sintonia com o mundo de novo? Como se volta a dormir, como se volta a sonhar? Tenho saudades dos pássaros dos meus sonhos.

por Dália Antunes, de Algueirão

*
A noite cai de mansinho.
A casa, já escurecida pela penumbra, deixa entrar o silêncio que acentua a solidão. Os pássaros no seu cárcere estão envoltos na sonolência nocturna, mas de repente estremecem...
Uma visita de aspecto sinistro, mas com uma tranquilidade que não condiz, e que não fora convidada, invade silenciosamente a casa e dirige-se ao quarto, onde um corpo já enrugado pelo tempo dorme...
Sem qualquer explicação, esta visita envolve docemente o corpo no seu manto negro, anunciando baixinho:
- Vamos, chegou a hora...

por Ana Paula Azevedo, de Alvarelhos

*
Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo e a olhar para mim, procurou-me a mão e apertou-a. Há algo de dolorosamente consolador lembrar esse momento, como se me protegesse do esquecimento dos dias. Mas é claro que o vazio no coração aumenta nos dias inteiros de ausência. Um ano. Um ano que não bastou para descobrir conforto suficientemente para a eternidade. O meu coração egoísta insiste em dizer que quem queremos bem nunca nos deveria morrer. Mas se lhes sobrevivemos, quem estará ao meu lado quando ficar doente? Quem me fará relembrar que o mundo continua lá fora, mesmo sem mim? Quem me exigirá que seja melhor, mesmo que esse melhor se resuma a sobreviver? Quem nos dá a explicação da vida quando a morte não se quer explicar?
Hoje vesti a camisa escura que comprei na manhã seguinte para o funeral. Uma mortalha escura numa semana de imagens inesperadamente luminosas. Recordo o voo dos pássaros e a música ao longe. Recordo a coragem de não chorar e o branco das flores e o íngreme do fim do dia antes da noite mais comprida.
Apenas a liberdade que temos entre a vida e a morte nos mantém suspensos.

por Maria Margarida Lessa, de S. Mamede de Infesta

*
Meu amor, nos últimos tempos aconteceu-me uma coisa sem explicação. Tenho que pedir-te que me ajudes porque já não aguento mais. Todas as noites sonho com pássaros. Todas. E, quando acordo, ou o meu marido se transformou num pássaro ou sou eu própria que estou transformada num pássaro. Durante o duche voltamos à forma humana e o resto do dia decorre sem incidentes de maior, mas há momentos em que me invade um tremor indescritível, como se necessitasse irreprimivelmente de sacudir as asas que entretanto já não tenho… Nessas alturas fico angustiada e sem energia, esgotada com a frustração de nem ser ave nem ser também, completamente, ser humano. Peço-te ajuda a ti porque foi a ti que prometi não morrer, e se consegui fazer essa promessa tão irremediável e tão leviana foi porque pensei que, embora nesta nova vida estivéssemos afastados um do outro, de alguma maneira poderia contar contigo se alguma coisa me acontecesse. E não tenho mais ninguém a quem recorrer, eu e o meu marido não conseguimos falar disto um com o outro e não o culpo, sei como eu própria me sinto. A nossa relação deteriorou-se e já raramente trocamos uma palavra amigável. Se não fosse a promessa que te fiz, há muito que me tinha atirado a voar pela janela… Amor, já viste porque me tens que ajudar? Pelo menos desvinculando-me da promessa que me obrigaste a fazer. Eu, amor, assim, nem posso tentar voar, porque não sei se sei voar e se não sei e morro na tentativa vais dizer que não honrei a minha promessa. Não me quero matar, quero voar. Mas, amor, quem me vai acreditar?

por Maria de Jesus Venâncio, de Campo Maior

*
Era o dia da consulta das trinta e seis semanas de gestação e crescia em mim, a cada passo, a ansiedade profunda de te conhecer.
Depois de passar por aquelas rotinas usuais das últimas semanas de gravidez, a Doutora que "nos" assistia diz de forma natural e espontânea, sem levantar o olhar do papel que escrevinhava á nossa frente:
-Muito bem "mãe", prepare-se, vamos marcar aqui na minha agenda a data e hora do parto para daqui a duas semanas, pois este bebé, está um grande matulão e não pudemos arriscar a que nasça no final do tempo e haja estragos...
Gostaria de ter forma de me ver ao espelho, perante tal conversa! Nunca tinha ouvido nada de tão estranho, eu que toda vida usei agenda, apontar naquela data referenciada, que às 8 horas, ia ser tua mãe...
Há momentos que eternizo para todo sempre, este será desses, data e hora marcada para ter um filho, como se combinássemos uma qualquer saída banal, o ir beber um cafezinho...
E certo foi que aquela hora, numa manhã fria de Dezembro, gélida e soalheira, lá saímos de casa, eu e tu, para ir ao sitio onde fazem acontecer milagres, e onde tu aconteceste.
A vantagem de uma cesariana com epidural, é que a mãe está consciente de tudo o que a rodeia, sem dor, e o bebé não sofre pelo processo penoso de ter de se estruturar a sair por um buraco apertado.
Lá saíste de mim e registei uma vez mais na memória eterna de todo sempre, aquele momento em que te conheci, filho...
Tu, migalha de gente, acabado de nascer sujo, sebento perfeito, inexplicavelmente lindo, bebé meu...
E o que mais me arregalou, desde a primeira vez, que o meu olhar tocou o teu, foi o teu ar gingão, o olhar de Rei, de Senhor de mim...
Sorri-te, deixando cair espessas lágrimas de felicidade desmedida.
Tu, sem qualquer explicação, olhaste-me sem qualquer dúvida no olhar, de que era eu, tua mãe. Um olhar penetrante, fazendo-me lembrar um pássaro curioso, que olha em seu redor, com a sofreguidão de tudo querer entender.

por Lina Pedro, do Carregado

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Máquina de Repressão
Às vezes não é fácil de evocar que, o que se explica a um cão é sinónimo de dar uma explicação.
Parece coisa de fraco mas é preciso engolir essa estafa, trabalhosa máquina de repressão para que o triunfo das coisas de pouco saber, fujam da nulidade de si. 
E a educação estoica, razão forte e superior, normaliza pássaros à dúvida de seguir cão de vício gerador.
Conclusão: Uma explicação é o nosso deslumbramento por um pássaro sem patas de flutuações aditivas.

por Diana Vieira, de Algés

*
Nas asas da imaginação
Nas asas da imaginação, valem as ideias mais além!
Assim seria o dia em que Sofia também esperou, para que lhe explicassem, tão subtilmente, o porquê da ausência tão prolongada de alguém que lhe era muito querido.
- Era eu pequena e pouco ainda entendia o que levava as pessoas a ficarem naquele estado tão triste e lastimoso, quando alguém próximo se ausentava, por periodos intermináveis. 
Assim aconteceu com o meu avô.
- Sofia, ele partiu, foi para o céu.
Eu respondia:
- Mas no céu eu só vejo pássaros!
E assim vivia, imaginando, que o meu avô agora tinha asas e voava.
A explicação mais plausível só chegou na minha adolescencia, e hoje reconheço, que se cada pássaro é alguém que se afasta de nós, afinal esse alguém não está tão longe como eu imaginava!!

por Graça Águas, da Lagoa (Açores)

*
Há dias assim.
Dias em que os segundos se abraçam lascivos ajeitando minutos. Minutos que deslizam de forma ominosa e disfarçada para gerarem horas tão obnóxias que me sufocam. 
Dias em que o assombro é tanto que me seca todas as palavras estúpidas que se prendem no fundo da garganta e ficam por dizer. 
Há dias em que nem a exortação daquela palavra, a mais esdrúxula de todas quantas tinha para dizer, me arranca do torpor da estultícia.
E é nesses dias assim em que as palavras se acumulam e ficam por dizer, em que os sonhos deixam de ser sonhos e modelam realidades tão inexplicavelmente tristes… em que os pássaros cessam de voar e se transformam em estátuas de sal vibrantes de mágoas, em que as ausências consentidas deixam um rasto de gelo, em que o amor não é mais fogo, em que as lágrimas não são já urgentes… 
É nesses dias que eu não sei se ainda sou, ou sequer se algum dia fui, algo mais do que o estorvo de uma gota de chuva na cortina cerrada de umas pestanas; do que um sussurro do vento, envergonhado, sem segredos; do que um momento resgatado ao sonho de alguém; do que um amontoado de silêncios vazios onde as palavras nada mais podem fazer do que adormecer.
E nesses dias, apesar de as palavras permanecerem não ditas, doem-me. Sapateiam-me a alma. Obrigam-me a olhá-las, a pensá-las, a justificá-las. 
É na obscuridade desses dias que mordo a perplexidade, engulo o estupor, sacudo as cinzas, as brumas e procuro construir significados. 
E então, debruçada na amurada frouxa desses dias, busco-lhes a explicação. 
E devagar, muito devagarinho deixo voar o sonho como apenas as crianças são capazes de deixar. E eis que me afagam borboletas, bailarinas num palco de cores desenhando claves de sol; que sinto o hálito das flores orvalhando grossas gotas de silêncio; que me sopram maresias e maresias de aromas húmidos que arrastam e devoram medos; que experimento nas pálpebras a carícia fugaz de uns dedos de prata, os da lua dos amantes; que relembro o sabor quente dos beijos maduros numa noite de paixão... 
E o amor, esse, nesses dias assim, consigo adivinhá-lo na carícia pungente de um olhar. 
E é então que me percebo… quase… feliz?

por Maria Celeste Pereira, da Maia

*
A Ignorância dos Beija-flores 
A explicação é imóvel. Depois da noite, depois da madrugada, depois do silêncio, depois dos desertos. Depois até mesmo das luzes baças que se anunciam no horizonte e nunca se saberá se é o sol abrindo a escuridão ou um fim de esperança presa na goela a insunuar-se no centro dos olhos.
Ouço pássaros. Clamam por descobrir seus voos na obviedade do céu e reduzem nossas dores ao instante primitivo que, não sabíamos até então, ainda nos guia os gestos e as palavras. Nada disso explica, mas para quê explicar o que o sentimento engloba e se expressa em, não sei, suspiros, sorrisos, lágrimas, ou mesmo inércias. É o pássaro, mas é também nossa alma, beija-flor envolto numa capa humana para proteger sua alada existência.
Então esses perfumes: a busca por um sol nascendo, por uma outra alma que nos abrigue em seu sexo, por uma mão que se ponha sobre um ombro caído, alguns dedos que se estendam quando apenas sabemos o chão. Porque o beija-flor precisa destes néctares, destas estéticas que nos tocam onde não entendemos, mas onde somos. Para isso a metáfora, embora sempre incompleta, limitada, serve. Porque ela tenta exactamente isso, explicar o inexplicável: absurdo de pôr em palavras o que é, na verdade, uma natureza intraduzível no que não a seja.
Por isso precisamos da beleza. Para nos suprir destas flores e a metáfora tenta isso. A beleza, mais que o sentido. Porque somos olhos cegos, vozes mudas, verdades mentindo suas mais profundas razões. Mas não desistimos. E nos aventuramos entre nossos semelhantes para colher o fugaz momento em que todas as coisas se tornam eternas. Meus lábios, teus cabelos, meus olhos, tuas orações, nossos enigmas opacos, mas vivos na escuridão dos sistemas universais (ou seriam tão só sistemas de pétalas no caule improvável?).
A explicação está sempre no mesmo lugar. Ubíqua, mas impossível. Atrás do oceano, atrás do horizonte, atrás, sempre, de onde podemos alcançar esticando os braços. Ali, onde as pontas dos pés e os dedos o mais alto possível não roçam. Por isso precisamos dos pássaros, para nos desexplicar as coisas. Para torná-las íntimas, para pô-las onde não precisamos senão por as mãos nos bolsos. Não me revele seu conteúdo, explicação. Não me revele seu vazio. O conteúdo nada tem que dizer. O vazio apenas apura a busca. Mas me dê o que se faça motor em mim. O que se faça motivo para continuar a perscrutar esse labirinto multidimensional em que estamos (que somos?).
Os pássaros haverá para as manhãs que não se traduzem em sóis, mas em cantos. Sim, para fazer-me o pássaro que sou. O mais voa. São flores, madrugada remota onde sentávamos na varanda para estudar as estrelas quietas. Ou um sentido que nos abriga.
A explicação é o que de intraduzível nos habita, beija-flor insapiente de si.

por Bruno Assunção, de Recife - Pernambuco (Brasil)

*
Atordoador! Sem explicação esta minha classificação da composição que os pássaros fazem com seus sons e o silêncio combinados; classifico-a de presença inaudível, de produção de notas “descoordeafinadas”.
Ensurdecedor! Sem explicação este abominar do chilrear frenético dos pássaros (que decidiram ser açorianos por estúpida loucura que lhes concedeu a liberdade inconsciente de decisão) atrás do rectângulo de papel negro aveludado com que disfarcei a minha janela. Disfarcei-lhe os olhos da claridade com mantos de piedade e de absolvição. Só não pude calar-lhe os ouvidos com o silêncio dos pássaros, insanos mensageiros desta saudade daquele Portugal longínquo que é o meu Portugal Continental.
Ah! Pássaros ridículos, sem obrigações de permanência, ide-vos que vos não dou explicação para esse meu turvar os sentidos e levai, combinadas, a vossa arte musical e a minha saudade transcendental, até ao Porto dos meus desejos. Expulsai-vos daqui, pássaros da minha saudade e ide a bordo dela, ide e saudai-o com o vosso talento, que eu ficarei aqui, ainda, magicando uma forma de ensurdecer os ouvidos da minha janela. Ainda e ainda, porque hei-de saber fazê-lo, tal como hei-de saber dar-vos uma explicação poética sobre o porquê de querer calar os ouvidos da minha janela com o silêncio absoluto dos vossos chilreares, sobre o porquê de querer adoecê-la com a privação das vossas belezas sonoras. Não sei quando, não sei como, mas sei onde.

por Dirce Moreira, de  Vila Franca do Campo - Açores


A todos o nosso agradecimento. Esperamos que continuem a participar em outros eventos!

Passatempo de Fevereiro - textos seleccionados para a atribuição do prémio Explicação dos Pássaros

Notifica-se, conforme anunciado, os autores dos três textos seleccionados para a atribuição do exemplar autografado de Explicação dos Pássaros. Ao autor do primeiro texto escolhido já foi enviada a SMS e aguardamos confirmação.

São estes os autores cujos textos foram escolhidos (pela ordem de chegada):

- Miguel Marques
- Cátia Oliveira
- Alexandra Malheiro

Após a confirmação via SMS revelaremos qual o autor premiado.

Mais informamos que as publicações que ao longo da duração do passatempo foram feitas com o texto de cada participante irão ser removidas quando publicarmos o post que revelará o texto vencedor. Esse post será completado com os textos de todos os participantes.

Obrigado pela vossa participação! Esperamos continuar a oferecer livros ao longo do ano. Estejam atentos!

23 de fevereiro de 2012

«Caminho como uma casa em chamas»

Será o título de um novo livro de António? Para já apenas o título de uma crónica. Que é uma carta aberta ao leitor. E, por isso, partilhamos aqui:



Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava 
- Agora sei como se faz um livro 
e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava 
- Sequei 
em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava
- Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se
mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me
- Se calhar encontrei
e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava
- Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada 
embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão. 
Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me 
- Será isto? 
a responder-me 
- Não deve ser isto mas vou continuar 
sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correcção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso. 
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer 
insistia ele 
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer 
e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

António Lobo Antunes
fonte: Visão
23.02.2012

21 de fevereiro de 2012

La Vanguardia: «Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

La Vanguardia
entrevista de Núria Escur
21.02.2012

«Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

O escritor português apresentou o seu último romance [em catelhano]: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

foto de Marta Perez
Está cansado, caminha cansado. Resiste cansado. Chega o último romance de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) em castelhano: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? (Mondadori) com a mesma cadência de sentimentos que é já o selo do autor.

Na sua estadia em Barcelona o escritor português - que só pensa em passar um pouco com Marsé e Moix - deixa a sua opinião sobre um mundo que o desagrada cada vez mais: "Não há quem o entenda. A política, por exemplo, em abstracto, não sei bem o que é".

O seu olhar, borgiano, cada vez mais de soslaio, é cego àquilo que não o interessa. Lobo Antunes está de volta. Mas na sua catadupa de palavras com personagens que carregam os seus fantasmas continua criando desassossego como ninguém, cria excepções de silêncios e pontuações, cavalga. "Nunca leio o que escrevo".

Lobo Antunes é o mestre do mecanismo do inconsciente. E essa desordem de frases tão sua, segmento que retira das suas entranhas, neste romance trabalha para servir a exposição cruel de uma família e a morte da sua matriarca. Ler Lobo Antunes é por vezes como engolir sem mastigar, e que nos faz sentir bem.

Chegou a ver essa sombra de um cavalo no mar?
Nos meus sonhos.

É uma canção antiga.
A primeira vez que a ouvi fiquei surpreendido. É tão bonita! Porque é uma canção popular feita por camponeses que nunca viram o mar...

Não há paralelo entre a sua família e a do romance. A família é engano ou abrigo?
Nem uma coisa nem outra. Tenho muito sangue misturado: o meu pai era brasileiro, a mãe do meu pai era alemã, existem portugueses, italianos... e há uma coisa que aprendi muito cedo: existe gente loira, morena, mestiça, mas os seus problemas "fundamentais" são sempre os mesmos.

A sua educação foi singular...
Muito! À maneira da Amazónia mas em Portugal. Educação muito rígida, que nada tem que ver com o carnaval brasileiro.

Neste romance anuncia "é o teu último livro, António, o teu testamento". Mas depois ainda escreveu outros dois. Um escritor jubila-se?
Tem-se sempre medo que este que se está a fazer seja o último livro. [...]
Que se vá secando... a fonte, que não haja mais água, que não haja mais nada... É algo que me acompanha faz tempo, temes que a magia se acabe, porque não se sabe de onde ela vem, e eu não sei. Para mim é sempre um milagre.

No que escreve lemos não o que as personagens dizem, mas o que pensam. Para isso ajuda ser psiquiatra?
Fui psiquiatra pouco tempo e além disso não queria sê-lo. Mas sim, nas minhas obras aparece sempre a mesma voz que fala, e que me ajuda a entender o mecanismo dos sentimentos. É um mistério. Na vida só há perguntas.

E se lhe chega uma resposta
É sempre uma resposta em forma de pergunta.

Então diz-me o que menos gosta do mundo que o rodeia
Pergunta-me se ainda creio em algo?

Houve uma altura em que acreditava no Partido Comunista. Até que o decepcionou, penso.
O partido comunista em Espanha tem alguma expressão? Em todo o lado tem pouca... Não acredito nos políticos, precisamente. É já uma classe que nada me interessa. Mas entendo as multidões que saem à rua indignadas, isso ainda compreendo.

Por exemplo
Por exemplo, aqui em Espanha... não entendo o presidente do PP, não entendo o presidente do PSOE, nem o que dizem, nem aos políticos de outros países, nem entendo porque queiram ser políticos... a minha impressão em absoluto é que seguem um projecto de ambição pessoal. Podem dizer que têm amor pela humanidade, mas não me parece que tenham amor aos homens.

A si que lutou na guerra de libertação de Angola, justifica-se dar a vida por um ideal?
Aquilo foi uma guerra colonial, colheram miúdos de 18 e 20 anos e mandaram-nos para a guerra. Não tivemos opção, não havia ideologia.

A literatura proporcionou-lhe mais momentos de felicidade ou de insatisfação?
Já percebi que não sei bem o que é a felicidade, mas ao ler um bom livro, algo se parece.. Mas, sabe? está-se sempre solitário. E esse solitário só vê as caras de quem o lê, nas filas de gente...

Que entretanto esperam um autógrafo
Sim, mas não há tempo para falar, não há tempo para ouvir. Vivemos num mundo de simples desconhecidos.

A esta altura já não o deve preocupar o Nobel.
Nada. Ganhei tantos prémios sem ter pensado em nenhum deles! E aos meus escritores preferidos, Tolstoi ou Conrad, nunca o deram.

"Escrevo romances porque não sei escrever poesia". Mantém a afirmação?
Gostava de ter sido poeta, mas não tenho talento. Tentei fazer poesia, como todos os adolescentes, mas era tão má! Então tentei fazer à minha maneira.

O que se aprende quando se chega aos 70 anos?
Nunca pensei nisso. Mas posso dizer-lhe que me sinto velho. Os meus netos fazem-no sentir.

Tem medo da morte?
Ninguém está preparado para morrer, ninguém é capaz. Nem um velho centenário com sífilis. Quando era médico, com trinta anos, tive doentes que... sempre me surpreendeu o conceito de mortalidade das pessoas que tentavam suicidar-se.

Compreende o suicídio?
Sim, sim. Mas perguntar se já pensei nisso seria demasiado íntimo.

Conseguia resumir a história de amor mais bonita da sua vida?
Impossível. Sabe porquê? Porque confundimos amor com outras coisas: com gratidão, com acomodação, com a defesa contra a solidão. Nunca encontrei uma definição satisfatória do que é o amor entre um homem e uma mulher.

Dizem que é muito difícil traduzi-lo
Só falo cinco ou seis idiomas. Mas nunca li nada meu traduzido. Penso que toda a tradução é impossível: é como a fotocópia a preto e branco de um quadro, creio que muita coisa se perde pelo caminho...

Preocupa-o como passar para a posteridade?
Já cá não vou estar, portanto... Que diferença faz a Quevedo o modo como o vêem?

Ainda escreve no escritório que lhe deixaram umas freiras?
Agora escrevo em casa. Já não há netos. Estou só comigo mesmo.

E convivem em paz?
Divertimo-nos


citado do artigo on-line
21.02.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

20 de fevereiro de 2012

Raquel Silva: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse:
É inexistente.

Opinião:

Nunca tinha lido nada de António Lobo Antunes, mas um amigo meu, de nome António curiosamente, estava a lê-lo e, um dia em que fomos à praia, pus o olho no livro e ele lá teve que mo emprestar, não sem antes o acabar, é claro. A opinião do meu amigo é-me desconhecida, mas em boa hora saberei, que não me custa nada perguntar.

Antes de tudo, tenho de vos dizer que por nunca ter lido nada deste autor, foi com estranheza que comecei a bisbilhotar este seu conjunto de crónicas. É ainda com estranheza que olho para trás, para o início, quando o abri, com os olhos a espelharem a expectativa - essa, a expectativa, não me foi defraudada, na verdade não foi nada, porque, simplesmente, não era assim tanta. Sempre ouvi falar do António Lobo Antunes, bem, menos bem, muito bem. As opiniões são diversas. Até eu, consigo perceber, tenho várias opiniões, e todas elas divergem, apesar de ser só uma.

A maneira de escrever que António possui é fora do comum, tal como é a de Saramago, outro grande senhor do qual ainda não li qualquer obra. Não tenho vergonha. Não li, mas ainda posso ler. Não há condicional, há futuro, hipótese. Adiante: não sei se gostei, se odiei: tenho o sabor amargo da dúvida na ponta da língua. Mas, como o senhor António declara numa das suas crónicas, mais exactamente a cujo nome é Juan Marsé, "a gente lê e pode não concordar com o estilo ou a estrutura ou os tiques ou o que seja: no entanto temos de lhe admirar a eficácia. E, como insistia, Tolstoi, a eficácia é a primeira qualidade de um escritor".

Houve momentos em que o autor me conseguiu arrancar bocejos, e temo que não fosse sua intenção; porém, por incrível que pareça, mesmo com o tédio a instalar-se em todas as minhas articulações, foi-me impossível largar a leitura, e isso deve significar alguma coisa. Não a persistência, mas algo delicioso, escondido nas entrelinhas das palavras escritas. Algumas crónicas até me emocionaram, provocando-me uma lágrima no canto do olho, como , que transpareceu dor e saudade, pois, declara António, "desde que morreste palavra de honra que há muito frio. Tem paciência, Zé: faz lá um sorriso à gente.", ou Buganvílias, que não me provocou uma lágrima, mas um sorriso, um assentimento, ao ler: "Numa manhã de férias uma cobra: não uma cobra grande, é evidente, uma dessas pequenas, inofensivas. Esmaguei-a com uma pedra, espetei-a numa cana, fui assustar a minha mãe com aquilo:
- Tira-me essa porcaria da frente.
Meu deus, a quantidade de porcarias que eu devia ter tirado da frente. Ainda irei a tempo de começar agora?". 

Houve ainda outras, crónicas não vezes, que me provocaram um revirar dos olhos, embora, na verdade, não saiba porquê. Como Os Trocos do Amor. De qualquer maneira, a eficácia está mesmo lá: as crónicas prenderam-me, torturaram-me, aborreceram-me, envolveram-me, tudo ao mesmo tempo, um sentimento de cada vez, assim uma misturada. Mas valeu a pena a leitura, valeu-lhe a pena a eficácia.

Antes de terminar, confesso que não vou conseguir ler algo deste autor muito em breve. À vontade está cá, mas falar de capacidade, bem, já é outra história. Gosto muito de ler, mas, como diz a minha mãe, ainda sou muito pequenina. Leituras como estas, é para repetir de ano em ano, uma vez ou duas. Se forem mais, a cabeça deixa de funcionar. Portanto, é com um sorriso que deixo um até já. Além disso, Os Maias continuam em cima do armário à minha espera e, eu começo a ficar com pena.

Capa&Designe:
A capa é simples e muito bonita, com a fotografia do escritor com um olhar lacrimoso. Muito bonito. E o designe interior não fica nada atrás, muito pelo contrário.

Nota:
8/10

por Raquel Silva
11.08.2011

18 de fevereiro de 2012

¿Qué caballos son esos que hacen sombra en el mar?, de António Lobo Antunes, por Juan Mal-Herido

Nunca he podido acabar una novela de António Lobo Antunes: se pasa de genial. Es todo tan jodidamente genial que da pudor pasar páginas, quedarse alelado, sufrir con algo que, al cabo, no es otra cosa que tinta sobre un papel. Que Carlos Boyero lea a Lobo Antunes no se lo cree ni él.

No me cabe duda de que ¿Qué caballos…? es una obra menor de António con tilde en la O. A fin de cuentas, me la he leído entera; es más (y esto es toda la crítica literaria que hace falta): me ha maravillado.
El resto es tap-dancing, amores. Voy.
Nada me cuesta más de pillar en una novela que el argumento, las madres, los hijos, los nietos, el pasado y la herencia, ese perro, ese sobresalto o ese tren al que se tiran las infieles: no lo pillo. Por eso estoy siempre a favor de las novelas cuyo argumento no va a pillar nadie. Eso es democracia, todos idiotas.
¿…son esos que…? hay que leerlo sin enterarse: luego un tesinando o un profe de universidad nos dirá algún día de qué coño va el libro y quién habla a cada rato. A mí me importa un huevo. Esto se lee como cuando se cae en un país exótico, donde las cosas no se entienden y por ello se disfrutan. Leer con cuidadito los libros, los libro raros, es como ir aTailandia con una guía, que te lo vas sabiendo todo y cuando salen las putas de las esquinas no las identificas.
Lo de ¿…hacen sombra…? es lirismo, lirismos, lírica, poesía; punto. Hay quien lee lírico y lo flipa en putos colores; y hay quien es gilipollas. El gilipollas a lo lírico siempre lo tacha de cursi. Simplemente, no tiene ni puta idea en el paladar.
Lo lírico apoya las palabras en las cosas por conveniencia, porque las cosas no son más que el lastre sausseriano del idioma, un detritus. Lo lírico conjura la materia y la deforma en lo imposible: habla de cosas que no existen. Esto parece una paja mental que me hago, pero vean cómo las gotas de lluvia sobre el cristal, vistas en tantas vidas de otoño y en tantas películas de mierda, no son gotas sobre un cristal, sino esa cosa llamada literatura, reinventadas en esta novela por este señor: “se notaban las gotas que añadían cristal al cristal deformando los rosales a medida que caían, las ramas primero finas, después gruesas, después finas de nuevo”. Esto es escribir y esto es crear. Añadir cristal al cristal  es absolutamente poesía. Sólo esas cuatro palabras dejan en retraso mental cientos de poemarios. Y ¿…en el mar? viene atiborrado de hallazgos como ese, de visiones del mundo, de las cosas, que dejan atrás las cosas para hacer un mundo propio, el literario.
Esto no lo puede entender la gente porque somos unos pocos los que sabemos leer. Es unapena, pero es lo que hay.
Luego - aparte de la compleja relación de narradores que encontramos en el libro- hay que considerar por qué Lobo Antunes no va a ser un autor en la historia. Su narrativa no deja de ser un efervescente epílogo del siglo XX, con Faulkner, Bernhard y Beckett como dioses tutelares. Como dice mi maestro, estamos en el siglo de la síntesis, y ahí su compatriota Tavares le lleva una ventaja estructural. Tavares es siglo XXI; Antunes es coletazo.
Pero con frases como la que voy a dejar para cierre del post, Antunes es mi dios instantáneo:
iba a escribir ternura y me he retenido, qué peligroso despertar palabras cuyo temperamento ignoramos
en Lector Mal-herido Inc
09.02.2012

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...