20 de fevereiro de 2012

Raquel Silva: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse:
É inexistente.

Opinião:

Nunca tinha lido nada de António Lobo Antunes, mas um amigo meu, de nome António curiosamente, estava a lê-lo e, um dia em que fomos à praia, pus o olho no livro e ele lá teve que mo emprestar, não sem antes o acabar, é claro. A opinião do meu amigo é-me desconhecida, mas em boa hora saberei, que não me custa nada perguntar.

Antes de tudo, tenho de vos dizer que por nunca ter lido nada deste autor, foi com estranheza que comecei a bisbilhotar este seu conjunto de crónicas. É ainda com estranheza que olho para trás, para o início, quando o abri, com os olhos a espelharem a expectativa - essa, a expectativa, não me foi defraudada, na verdade não foi nada, porque, simplesmente, não era assim tanta. Sempre ouvi falar do António Lobo Antunes, bem, menos bem, muito bem. As opiniões são diversas. Até eu, consigo perceber, tenho várias opiniões, e todas elas divergem, apesar de ser só uma.

A maneira de escrever que António possui é fora do comum, tal como é a de Saramago, outro grande senhor do qual ainda não li qualquer obra. Não tenho vergonha. Não li, mas ainda posso ler. Não há condicional, há futuro, hipótese. Adiante: não sei se gostei, se odiei: tenho o sabor amargo da dúvida na ponta da língua. Mas, como o senhor António declara numa das suas crónicas, mais exactamente a cujo nome é Juan Marsé, "a gente lê e pode não concordar com o estilo ou a estrutura ou os tiques ou o que seja: no entanto temos de lhe admirar a eficácia. E, como insistia, Tolstoi, a eficácia é a primeira qualidade de um escritor".

Houve momentos em que o autor me conseguiu arrancar bocejos, e temo que não fosse sua intenção; porém, por incrível que pareça, mesmo com o tédio a instalar-se em todas as minhas articulações, foi-me impossível largar a leitura, e isso deve significar alguma coisa. Não a persistência, mas algo delicioso, escondido nas entrelinhas das palavras escritas. Algumas crónicas até me emocionaram, provocando-me uma lágrima no canto do olho, como , que transpareceu dor e saudade, pois, declara António, "desde que morreste palavra de honra que há muito frio. Tem paciência, Zé: faz lá um sorriso à gente.", ou Buganvílias, que não me provocou uma lágrima, mas um sorriso, um assentimento, ao ler: "Numa manhã de férias uma cobra: não uma cobra grande, é evidente, uma dessas pequenas, inofensivas. Esmaguei-a com uma pedra, espetei-a numa cana, fui assustar a minha mãe com aquilo:
- Tira-me essa porcaria da frente.
Meu deus, a quantidade de porcarias que eu devia ter tirado da frente. Ainda irei a tempo de começar agora?". 

Houve ainda outras, crónicas não vezes, que me provocaram um revirar dos olhos, embora, na verdade, não saiba porquê. Como Os Trocos do Amor. De qualquer maneira, a eficácia está mesmo lá: as crónicas prenderam-me, torturaram-me, aborreceram-me, envolveram-me, tudo ao mesmo tempo, um sentimento de cada vez, assim uma misturada. Mas valeu a pena a leitura, valeu-lhe a pena a eficácia.

Antes de terminar, confesso que não vou conseguir ler algo deste autor muito em breve. À vontade está cá, mas falar de capacidade, bem, já é outra história. Gosto muito de ler, mas, como diz a minha mãe, ainda sou muito pequenina. Leituras como estas, é para repetir de ano em ano, uma vez ou duas. Se forem mais, a cabeça deixa de funcionar. Portanto, é com um sorriso que deixo um até já. Além disso, Os Maias continuam em cima do armário à minha espera e, eu começo a ficar com pena.

Capa&Designe:
A capa é simples e muito bonita, com a fotografia do escritor com um olhar lacrimoso. Muito bonito. E o designe interior não fica nada atrás, muito pelo contrário.

Nota:
8/10

por Raquel Silva
11.08.2011

18 de fevereiro de 2012

¿Qué caballos son esos que hacen sombra en el mar?, de António Lobo Antunes, por Juan Mal-Herido

Nunca he podido acabar una novela de António Lobo Antunes: se pasa de genial. Es todo tan jodidamente genial que da pudor pasar páginas, quedarse alelado, sufrir con algo que, al cabo, no es otra cosa que tinta sobre un papel. Que Carlos Boyero lea a Lobo Antunes no se lo cree ni él.

No me cabe duda de que ¿Qué caballos…? es una obra menor de António con tilde en la O. A fin de cuentas, me la he leído entera; es más (y esto es toda la crítica literaria que hace falta): me ha maravillado.
El resto es tap-dancing, amores. Voy.
Nada me cuesta más de pillar en una novela que el argumento, las madres, los hijos, los nietos, el pasado y la herencia, ese perro, ese sobresalto o ese tren al que se tiran las infieles: no lo pillo. Por eso estoy siempre a favor de las novelas cuyo argumento no va a pillar nadie. Eso es democracia, todos idiotas.
¿…son esos que…? hay que leerlo sin enterarse: luego un tesinando o un profe de universidad nos dirá algún día de qué coño va el libro y quién habla a cada rato. A mí me importa un huevo. Esto se lee como cuando se cae en un país exótico, donde las cosas no se entienden y por ello se disfrutan. Leer con cuidadito los libros, los libro raros, es como ir aTailandia con una guía, que te lo vas sabiendo todo y cuando salen las putas de las esquinas no las identificas.
Lo de ¿…hacen sombra…? es lirismo, lirismos, lírica, poesía; punto. Hay quien lee lírico y lo flipa en putos colores; y hay quien es gilipollas. El gilipollas a lo lírico siempre lo tacha de cursi. Simplemente, no tiene ni puta idea en el paladar.
Lo lírico apoya las palabras en las cosas por conveniencia, porque las cosas no son más que el lastre sausseriano del idioma, un detritus. Lo lírico conjura la materia y la deforma en lo imposible: habla de cosas que no existen. Esto parece una paja mental que me hago, pero vean cómo las gotas de lluvia sobre el cristal, vistas en tantas vidas de otoño y en tantas películas de mierda, no son gotas sobre un cristal, sino esa cosa llamada literatura, reinventadas en esta novela por este señor: “se notaban las gotas que añadían cristal al cristal deformando los rosales a medida que caían, las ramas primero finas, después gruesas, después finas de nuevo”. Esto es escribir y esto es crear. Añadir cristal al cristal  es absolutamente poesía. Sólo esas cuatro palabras dejan en retraso mental cientos de poemarios. Y ¿…en el mar? viene atiborrado de hallazgos como ese, de visiones del mundo, de las cosas, que dejan atrás las cosas para hacer un mundo propio, el literario.
Esto no lo puede entender la gente porque somos unos pocos los que sabemos leer. Es unapena, pero es lo que hay.
Luego - aparte de la compleja relación de narradores que encontramos en el libro- hay que considerar por qué Lobo Antunes no va a ser un autor en la historia. Su narrativa no deja de ser un efervescente epílogo del siglo XX, con Faulkner, Bernhard y Beckett como dioses tutelares. Como dice mi maestro, estamos en el siglo de la síntesis, y ahí su compatriota Tavares le lleva una ventaja estructural. Tavares es siglo XXI; Antunes es coletazo.
Pero con frases como la que voy a dejar para cierre del post, Antunes es mi dios instantáneo:
iba a escribir ternura y me he retenido, qué peligroso despertar palabras cuyo temperamento ignoramos
en Lector Mal-herido Inc
09.02.2012

12 de fevereiro de 2012

Juan Soto Ivars: opinão sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Fazer uma resenha de um romance de António Lobo Antunes é de uma estupidez suprema, uma resenha pretende demonstrar que se compreendeu o livro, e por isso alguns escritores incipientes como manchas cancerosas na pele da literatura tentam com que os críticos e os leitores não entendam nada, pois assim poderão salvaguardar-se das más críticas afirmando "não entenderam", o que vem a ser mentira: seguramente o crítico não terá entendido outra coisa, se o romance, se o desejo de fazer um romance, mais do que o romance em si; não terá entendido que um romance mau não merece nem crítica nem resenha, merece perder-se no silêncio com todos os outros romances que têm entrado nesse forno onde as chamas não crepitam,
«eu que não suporto pássaros, pega-se-lhes e o coração, de tão frágil, dá medo»

talvez fazer um resenha de Lobo Antunes sirva para matar esse silêncio ou para demonstrar o entusiasmo que produz cada novo livro, para enviar um postal de agradecimento a António Lobo Antunes, que se permite ao luxo de escrever aos seus leitores, de escrever-lhes, havia de fazer-se cursos onde se explicasse como ler Lobo Antunes, cursos onde se dissesse: é preciso abrir o livro e começar a ler, passar as páginas com o olhar atento às palavras que nem sempre compõem frases, às imagens que nem sempre chegam no momento esperado,

«não escancaramos armários nem tombamos copos, não perguntamos- Fico aqui a eternidade inteira?»

e também há que estar louco para fazer-se uma resenha de Lobo Antunes que não escreve romances, ainda que tenha escrito a palavra romance antes, mas não escreve romances, os romances são livros que começam na primeira página e acabam na última, porém se os livros de história são livros feitos em pedaços porque a história não cabe num só livro, se os livros de poemas são livros que se podem abrir numa qualquer página, se os ensaios são livros suportados pelo andaime dos índices, então agora decido: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? é um livro de poemas, Lobo Antunes um livro de história, uma crítica sobre os livros de Lobo Antunes não pode

«percebia Deus no compartimento à esquerda dando corda aos planetas»

ser um ensaio, há que escrever como Lobo Antunes como se fosse Lobo Antunes a escrevê-lo, há que deixá-lo tomar as rédeas, é preciso embriagar-se de Lobo Antunes para escrever sobre os seus livros qualquer que seja, e dirigir-se aos demais com uma máscara ridícula de Lobo Antunes mas sem a pose a empurrar-nos para um entusiasmo bem longe de Lobo Antunes, a primeira vez que li os seus apelidos pensei mas que má sorte chamar-se António e ainda por cima apelidar-se Lobo Antunes, e desde então li todos os livros de Lobo Antunes publicados pela Mondadori e outros e disse à mulher que faz os comunicados da editora: envia-me o novo livro que quero fazer uma crítica, porque já era hora, e tinha lido o suficiente amar uma pedra morte de Carlos Gardel em Babilónia boa tarde

«previa o passado pois prever o futuro qualquer idiota consegue»

pois devo estar louco para fazer uma crítica, para dar ares de académico ou jornalista, e não acertar no livro nem num milímetro com o leitor, dizer que este é o pior romance de Lobo Antunes porque consegue-se entendê-lo, é preciso estar louco, que é um livro cuja estrutura é a de uma corrida de touros, louco varrido, que a família rural que fala com voz de Lobo Antunes no livro desabou há muito tempo e não tem personagem principal, tolo da cabeça, que a filha toxicodependente da família se chama Ana, insensato, que o irmão mais avarento se chama Francisco e acelera a falência, desvairado, que ao desfolhar as páginas da primeira à última presencia-se o colapso completo de uma família com todos os seus membros e ninguém sabe que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar, não ponhas, põe

«e sou eu, tudo protesta na gente, se levanta, recusa, no caso de me buscarem no parque não tornarão a achar-me, acham sujeitos que se escapam e os rapazes sem mim, evaporei-me conforme as notas dos defuntos se evaporaram das páginas, o livro de cozinha a que alguém colou a lombada com um sujeito de barrete alto e colher de pau a dilatar-se na capa, o caderno de receitas com notas a lápis e as últimas folhas vazias aguardando uma salada, uma sopa, uma complicação francesa, os pesos da balança a decrescerem na caixa de pau como as unhas dos pés, se tivesse de falar no pior que em aconteceu na vida não mencionava a doença nem os problemas com os rapazes nem o desprezo dos outros que em evitam, se tivesse mesmo de falar(espero não ter mesmo de falar)do pior que me aconteceu na vida lembrava a minha mãe de tesoura em riste- Chega aquideterminada, feroz- Queres que te aleije é isso?eu a pedir em lágrimas- A pequenina não a pequenina nãoenquanto me puxava no sentido do candeeiro e me torcia o ombro
- Não me dá jeito assimeu com a certeza de pingar sangue no tapete, sem dedos, a minha mãe juntando(Varela, Pereira, Rebelo, Taborda)aparas no cinzeiro, um perfume diferente daquele que usa agora, mais forte(a minha mãe não Julinha, Maria José)e sob o perfume não um cheiro de velhice e doença(não sou doente)cheiro de carne que hoje sei que nova(você nova senhora, você nova)e a nuca tão branca, que estranho as idades, se tivesse tocava-lhe mas não tenho, cortou-mos de modo que eu onze ou doze apenas que de pouco me servem, poiso-os na beira do lençol perto da almofada(é fantasia minha ou a chuva abrandou?)e não vejo ninguém a salvo(as minhas mãos com menos osso que as do padre)a minha irmã Beatriz no automóvel diante das luzes dos barcos a escrever o próprio nome no vidro embaciado».


por Juan Soto Ivars
11.02.2012
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

10 de fevereiro de 2012

Encontro de António Lobo Antunes e Juan Marsé em Barcelona

Citando o site do Centro da Língua Portuguesa do Instituto Camões de Barcelona:

António Lobo Antunes (Prémio Camões 2007) e Juan Marsé (Prémio Cervantes 2008)

«No próximo dia 16 de Janeiro terá lugar, no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, o ciclo de conferências 
Virtuts, cujo programa contempla a presença, na segunda-feira dia 20 de Fevereiro às 19h30, do escritor português António Lobo Antunes, que conversará com o seu amigo e escritor barcelonês Juan Marsé.
Este ciclo de conferências, organizado no início de cada ano pelo CCCB e que, desta feita, conta com a colaboração do Consulado Geral de Portugal em Barcelona, tem o objetivo de reflectir sobre o futuro dos valores do humanismo. Nesta ocasião, a conversa girará em torno das virtuts. 
O contexto actual de crise económica indicia uma série de sintomas que nos remetem a uma crise mais profunda que afecta os âmbitos político, cultural e educativo, no seio do qual o abandono da visão humanista parece ter um espaço central. Por este motivo, com este encontro, o CCCB propõe uma reflexão sobre as virtudes individuais e colectivas que poderiam guiar a nossa vida em comum e fortalecer a cultura democrática.
Para mais informações, podem consultar a página web do CCCB

7 de fevereiro de 2012

Oferta de exemplar de Explicação dos Pássaros - novo passatempo

[passatempo encerrado]

Caros visitantes, amigos e leitores

Uma vez que o 3º prémio do passatempo de Janeiro, embora atribuído e enviado ao seu destinatário, foi devolvido e não houve posterior reclamação, abrimos a possibilidade de oferecer novamente o livro Explicação dos Pássaros (edição comemorativa dos 30 anos), autografado por António Lobo Antunes, através de novo passatempo que decorrerá, desta vez, com um prazo limite de participação.

Assim, os interessados que quiserem habilitar-se a receber este exemplar apenas têm que construir um pequeno texto criativo onde utilize as palavras explicação e pássaros (não é válida a utilização do título do livro para a aplicação das palavras ao texto). Eis as condições:

  1. Este passatempo começa a partir de hoje, dia 7 de Fevereiro, e terminará às 24H00 do dia 7 de Março;
  2. A participação é feita por e-mail, enviando o texto para o nosso endereço: alaptla@gmail.com;
  3. No corpo da mensagem de e-mail, além do texto, devem constar os seguintes dados pessoais: nome completo, endereço completo e correcto para a entrega do livro e telemóvel (obrigatório);
  4. O texto pode ter no máximo 1000 caracteres com tolerância, não existindo limite mínimo, e não deverá utilizar-se qualquer tipo de ficheiro: o texto tem de estar dentro do corpo da mensagem;
  5. Não se aceitam textos que sejam opinião de leitura sobre o livro. O texto tem de ser criativo, cujo tema é livre, apenas deverão ser aplicadas as palavras explicação e pássaros, em frases ou orações distintas, e não o título do livro;
  6. O vencedor do passatempo será o autor do texto mais criativo. Serão apurados pelo menos três textos com a possibilidade para receber o prémio, que dependerá do ponto seguinte;
  7. Uma vez apurado o vencedor, este será primeiro notificado por e-mail e depois receberá uma SMS onde terá instruções para, nas próximas 24 horas após a sua recepção, confirmar pela mesma via a sua participação e morada para o envio do livro. Se falhar, o prémio será atribuído ao autor do segundo texto apurado, e assim por diante.
Todos os textos serão publicados à medida que os formos recebendo. Os comentários feitos em cada texto, desde que devidamente fundamentados, poderão ajudar à sua avaliação, pelo que, mesmo para os que não se habilitem ao livro, é um passatempo aberto à participação de todos. No final serão evidenciados os três "nomeados" e, finalmente, o vencedor depois de apurado e confirmado.

Esclarecimento (dia 15/02): os participantes do passatempo de Janeiro também podem concorrer a este, incluindo os que ganharam o 1º e 2º prémios!

Por favor enviem-nos os dados correctos!

Participe!

4 de fevereiro de 2012

Passatempo ALA web/Dom Quixote: terceiro premiado anunciado

Sem outro recurso que não este, solicitamos a Manuel Augusto Rodrigues Salvador, da Guarda, 3º premiado do Passatempo da semana passada com o livro Explicação dos Pássaros, que entre em contacto connosco via e-mail (alaptla@gmail.com) até ao final de segunda-feira para tratarmos da entrega do prémio. O livro foi enviado na passada segunda-feira, por correio normal, para a morada indicada no e-mail de participação nos termos do passatempo, mas foi devolvido na passada quinta-feira por "endereço inexistente/insuficiente", e porque no contacto telefónico indicado ninguém atende. Após os e-mails (de quinta e sexta-feira) sem resposta em que pedimos a morada correcta, resta-nos a alternativa pública do nosso site para que possamos entregar o prémio. Após as 24H00 de segunda-feira, dia 06.02.2012, e caso o premiado não entre em contacto connosco pela via solicitada, iremos proceder a um novo sorteio ou passatempo para a atribuição deste prémio uma vez que não houve outro participante com as respostas correctas que possa ser repescado para o terceiro premiado.


post editado a 7 de Fevereiro: o prazo expirou e o livro não foi reclamado, pelo que vamos fazer novo passatempo para oferta deste exemplar.

1 de fevereiro de 2012

de Norberto do Vale Cardoso

“Tratado das Paixões de Judas:

Emoções Sociais e Cognição

em

António Lobo Antunes”




Norberto do Vale Cardoso
(Doutorado pela Universidade do Minho)



I

As paixões do Lobo na guerra



“[...] aqueles meses de guerra haviam-nos transformado em pessoas que não éramos antes, que nunca tínhamos sido, em pobres animais acuados repletos de maldade e de terror.” (I. 175)


1. «Sequestro neuronal» – desequilíbrio emocional

Centrados na experiência da Guerra Colonial, os primeiros romances de António Lobo Antunes estabelecem várias comparações para explicar a “animalização” a que foram sujeitos os soldados portugueses, transformados em “bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar” (J. 135). Há, pois, uma dicotomia entre o que eram antes e depois, o que nos parece corroborar a perspectiva “sociologista da guerra”, que refere o acto bélico como estranho ao Homem e produto das relações sociais (Bebiano, 2000:77 e ss). Vejamos, sobretudo, como o narrador d’ Os Cus de Judas (p. 136) afirma essa mutação: “não éramos cães raivosos quando chegámos aqui [...], antes dos ataques, das emboscadas, das minas [...]”. Sugere-se que, na guerra, os soldados se desumanizam/ animalizam, tornando-se em “lobos”, regressando a um estado primário, a uma fase incipiente do “animal político” aristotélico, isto é, em que o Homem não é capaz de reflectir sobre a sua conduta e controlar, pela moral, as suas “paixões”. Estas levam-no a agir sem pensar, ou, se quisermos, a uma situação em que a necessidade de agir exige uma resposta automática de tal modo veloz que o intervalo entre o “disparo” da emoção e a reacção não chega a entrar no consciente (Goleman, 2006:271).
As “paixões” seriam, para Descartes (2009:58), enganadoras, porque os sentidos tocariam a alma com mais força do que a razão. A reacção in-consciente, que não permite que quem age compreenda sequer “o que se está a passar”, é, segundo Daniel Goleman (2006:271), uma resposta “rápida-e-suja da mente emocional”. Percebamos, assim, que as emoções são “adaptações” com que os “organismos regulam a sua sobrevivência” (Damásio, 2004:75), e são-no muito mais numa situação anómala quanto o é qualquer guerra. É evidente que as restrições sociais fazem parte do percurso evolutivo do ser humano, pois, “mal-grado” esses limites, “as paixões estão permanentemente a sobrepor-se à razão” (Goleman, 2006:21). Ora, uma guerra é sempre a abolição das regras, e, nesse sentido, da repressão a que as paixões ou emoções estavam sujeitas, motivando-as (do latim, motere, mover para) em excesso. Assim, o incremento das paixões, como subjugação da racionalização, provoca um desequilíbrio entre a mente emocional (vulgo, «coração») e a mente racional (a «cabeça») (cf. Goleman, 2006:26).
É essa a situação narrada por António Lobo Antunes nos seus primeiros romances. No Conhecimento do Inferno vemos um desses exemplos de desequilíbrio em que se dá uma “explosão emocional” (Goleman, 2006:32), ou seja, em que as “paixões” quebram as amarras racionais que as coarctavam. Referimo-nos a uma situação de tortura perpetrada pelos soldados portugueses sobre três negros que sentiam serem os culpados “dos tiros, da angústia, da injustiça, da estupidez da guerra” (I. 173). O sofrimento (do latim passiōne) era tão violento que o protagonista recorda que teve de fechar “à força o posto de socorros” porque “(todos os homens queriam participar no massacre, vingar a sua angústia, a sua raiva, o seu medo [...])” (I. 173). Só no momento em que a tortura resulta em morte é que os soldados parecem conhecer (cognoscěre) o resultado do seu acto, chamando o Pide para que este os auxilie e resolva o “problema”.
O que os terá levado a perpetrar essa tortura? A resposta passa por uma alteração progressiva das vivências e, consequentemente, por um desequilíbrio das emoções, que culmina numa “resposta suja”, mas defensiva e reguladora da sobrevivência. Aliás, são a dor e o sofrimento que melhor nos protegem para a sobrevivência (Damásio, 2009:268). Daniel Goleman (2006: 32) considera que essas reacções momentâneas são como “sequestros neuronais”, em que o centro límbico dispara uma emergência e se apodera do resto do cérebro. Não podemos com isto julgar que não devemos ter “paixões”, pois são elas que proporcionam aptidões emocionais básicas para a existência humana, fortificando as emoções no pensamento, como já Descartes cogitava (2009:52). Trata-se, outrossim, de aprender a encontrar um equilíbrio entre as emoções e a razão, o que, numa guerra, se nos afigura como algo intermitente. Porém, quando ocorre um desequilíbrio, e quanto mais grave é esse desequilíbrio, as consequências podem ser irreversíveis (e.g. o trauma). A guerra desperta o lado mais instintivo do Homem, pois a pressão (stress) a que o organismo está sujeito nessa situação (Pereira, 1991:67) gera uma desordem (distress) (Quintais, 2000:37). Portanto, numa guerra as acções explicam-se do mesmo modo que se explica um reflexo: quem reagiu, “quem teve o reflexo foi o organismo, e não necessariamente a «pessoa»” (Damásio, 2004:96). Quem reagiu foi um organismo que pugna, inatamente, pela sobrevivência.
Assim, quando a vida está em perigo dá-se uma alteração no cérebro que se torna incontrolável (Goleman, 2006:261). A cognição, processo de Conhecimento posterior ao acto, é o despertar da mente racional, ainda que esta não consiga ser tão rápida quanto a emocional. A consciência questiona-se então sobre as razões dos seus actos, que resultam do facto de a mente emocional tomar todas as crenças como verdadeiras e incontestáveis (Goleman, 206:374). Logo, só a mente racional pode pensar, ter um sentimento de si. Ora, por sentimento entendemos uma “sombra” da emoção (Damásio, 2003:19), ou seja, “o sentir daquilo que acontece quando o seu ser é modificado pela acção de apreender alguma coisa.” (Damásio, 2004:29) Efectivamente, o psiquiatra regressado da guerra sente-se perseguido pelas imagens de tortura, dado que, por ter agido consoante as suas “paixões”, sente que se “traiu” a si mesmo, encarando-se como um Judas (J. 112) (note-se aqui a multiplicidade de sentidos do elemento remático). Assim, recordar será uma actualização do trauma na mente emocional, e um risco de esta se voltar a apoderar da mente racional.  


2. Objectos «emocionalmente inocentes» e objectos «emocionalmente competentes»

A guerra começa por ser um objecto emocionalmente inocente (coisa rara na idade adulta, Damásio, 2003:73), mas torna-se num “objecto” emocionalmente competente, que pode esbater ou amplificar os efeitos emocionais, ou seja, que pode criar uma nova emoção (cf. Damásio, 2003:73). É o que sucede quando a data exacta da tortura surge, “de súbito”, na memória do psiquiatra (I. 172) que narra. Ora, narrar equivalerá a uma forma de “«sentir» os sentimentos”, e este «sentir» “prolonga o alcance da emoção” (Damásio, 2004:325). Todavia, esse procedimento é necessário na terapia para controlar as suas “paixões”. Consequentemente, a emoção, sentida “hoje” pelo psiquiatra ao narrar o que sentiu há anos, em tudo se assemelha à efectivamente sentida naquele momento. Deste modo, a memória gera emoção e a emoção gera memória: “ [...] neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda” (J. 38).
Curiosamente, na narração interligam-se aspectos contraditórios, pois o sujeito que narra, e que, nos casos aqui referenciados, é a personagem do alferes-piquiatra, sente perturbação e libertação nesse processo narrativo, em que, além do mais, o passado se faz presente. Essa ambivalência deve-se, afinal, ao facto de “o lugar da arte” se ter tornado “incerto” (Adorno, 1982:11), ou, se quisermos, a uma “inabilidade epistemológica” da arte em representar a violência e o horror (Norris, 2000:20 e 62). Narrar é reexperienciar uma experiência (inexperienciável), pois o trauma resulta de uma “situação com a qual nenhum ser humano está preparado para lidar” (Albuquerque in Pinto, 2002:34).
Dá-se, pois, uma situação de ruptura forçada, uma perda do habitat, o que implica uma “inversão de valores”, colocando em causa as emoções sociais culturalmente modeladas (Dores, 1994:35). A sobreposição de “um universo falso” ao “universo habitual” (J. 28) será o início da anomalia emocional, que leva o protagonista de Judas a sentir “um sentimento esquisito de absurdo” (J. 25), uma sensação de pertencer a outro lugar, sem saber qual (J. 32). Coloca-se, antes de mais, um problema de auto-representação, paulatinamente agravado pelas vicissitudes da guerra. Há uma fragilização constante do combatente, agudizada em momentos de “paragem”, em que os soldados têm tempo para cogitar/ pensar, ou seja, para ter um “sentimento” (de si), que seria a possibilidade de controlar voluntariamente o que até então era automático (Damásio, 2003:96). Contudo, nem mesmo Descartes (2009: 128) cria que fosse humanamente possível resistir às paixões.


3. Falsificação de emoções – escravos das «paixões»

Procurando embotar esses sentimentos, alguns soldados entregam-se ao álcool, enquanto outros se suicidam. No caso do consumo de bebidas alcoólicas, temos uma falsificação das emoções, que não reflecte o estado actual do organismo. O efeito permite que o soldado não soçobre, mas essa adulteração incapacita-o emocionalmente, e não é biologicamente sustentável a longo prazo (Damásio, 2003:160). O que sucede é uma modificação dos mapas verídicos do corpo, falseamento que quer iludir uma menor perfeição do organismo. Atentemos num exemplo: “[...] este tipo de álcool [...] possui a benéfica virtude de [...] subir o nível da coragem [...]” (J. 27).
Os sentimentos são “manifestações mentais do equilíbrio e da harmonia, da desarmonia ou do desacordo” do organismo (Damásio, 2003:162), mas quando este está gravemente perturbado e não consegue regressar à homeostasia, pode dar-se um total descontrolo emocional, que resulta em inaptidão. Esta, por sua vez, pode conduzir o organismo ao suicídio, que, como referimos, é presenciado e narrado pelo antigo combatente, que, no presente, exerce psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda. No caso dos suicídios, em que se destaca o do “soldado de Mangando” (cf. J. 176-177), enfatiza-
-se uma “imprecisão emocional do cérebro”, uma inaptidão, com maior incidência nos casos de emoções particularmente fortes, como o são os acontecimentos traumáticos (Goleman, 2006:41).
Podemos ressalvar que o suicídio é um acto paranóico, mas é o único, afinal, que inflecte contra a “máquina paranóica” de guerra (Deleuze e Guattari, 1995:14). A ausência de si como corpo parece ser a única saída vislumbrada para retirar de si as emoções que não consegue cognoscěre. A autognose sobre as suas emoções não lhe dá nem autoconsciência nem autoconhecimento, pelo que este indivíduo não é capaz de manifestar uma inteligência emocional (Goleman, 2006:65). Esta falha, equivalente a uma amputação, implica, por outro lado, que o sujeito seja “escravo das paixões”, revelando uma falta de “inteligência intrapessoal” (Goleman, 2006:61). Como conhecida figura bíblica, Judas, o soldado português age segundo paixões inexplicáveis, que implicam, numa posterior introspecção, a sua auto-mutilação. Mas ao contrário do psicopata, em que a emoção é nula, o soldado sofre porque o sentimento da emoção o enfraquece (Goleman, 2006:148) até ao suicídio. Este resulta de uma lacuna de inteligência emocional (Goleman, 2006: 54), de uma incapacidade para se auto-motivar e de “persistir a despeito das frustrações”.
Ao invés do suicida, o sobrevivente (aquele que não se suicida, mas que sente estar “morto como os suicidas”, J. 121), manifesta um autodomínio das paixões perturbadoras, o que não requer, porém, a superação ou compreensão dos seus sentimentos. O não suicídio omite problemas de representação do eu, sobretudo porque o sobrevivente assiste ao suicídio de alguém que lhe era gregário. Esta situação agrava a sua fragilização, levando-o a procurar uma cognição incognoscível: “- Por que é que as pessoas se matam?” (I. 253) Esta é uma demanda infrutífera. Por exemplo:

“A gente mata-se porque somos os mendigos desta guerra” (I. 205);
“As pessoas matam-se porque estão fartas. [...] Fartas de não perceberem porque é que morrem.” (I. 206)

Portanto, o não suicida pode incorrer numa incapacidade, comummente apelidada de desordem de stresse pós-traumático, de que o protagonista (muito associado ao autor empírico) dos primeiros romances de António Lobo Antunes padece.



Para ler o artigo completo consultar:


Estética das Emoções (organização de Fernanda Gil Costa e Igor Furão), Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, V.N. Famalicão, Húmus, pp. 213-224.

30 de janeiro de 2012

Da leitora Maria Silva: «O António (da Crónica da Pomba Branca)»

Para
António Lobo Antunes


O ANTÓNIO ( da Crónica da Pomba Branca)

"azul"

Aderi ao Messenger. E neste momento pode bem perguntar

Mas o que é que isso interessa para aqui?

Explico:

Na parte relativa ao meu perfil, coloquei algumas músicas que gostei e que ainda gosto. Coloquei alguns filmes, que fui vendo, e porque ainda gosto. Ainda vejo. Mas o meu gosto alongou-se um pouco mais, na parte relativa aos livros, porque só de um autor coloquei a quase totalidade da sua obra.

Nem preciso de dizer qual o autor. E nem vou dizer qual o livro que levou estas palavras.

"Porque gosto desta obra?
E porque gosto de toda a obra deste escritor?

É porque não são livros. Melhor dizendo: - Cada livro transporta vários livros. Numas páginas, descobrimos pessoas. Noutras páginas, encontramos passado. Às vezes numa só frase

O nosso interior todo.

E, de tão próximo, a surpresa enorme.
E a pergunta:- De onde é que vem a tal voz?
As vozes que o autor menciona, às vezes.
De tão próximo se fica, que o próprio escritor avisa:
- Os meus livros deviam ter o nome de cada leitor.
Portanto, na minha modesta opinião:
Uma obra sem igual.
E, vinda de Portugal
Só nos pode orgulhar "

Sendo este um espaço oferecido aos leitores do escritor, António Lobo Antunes

O António (da Crónica da Pomba Branca)

Não quis deixar de partilhar o que escrevi a seguir à quase totalidade da obra do

António Lobo Antunes

O António da (da Crónica da Pomba Branca)


por Maria Silva
Coimbra
e-mail de 26.01.2012

29 de janeiro de 2012

Passatempo encerrado: as respostas certas e os premiados


Foram encontrados os três premiados. O passatempo encerrou hoje às 20H25.

Questionário com as respostas correctas:

1Qual o livro assumidamente mais autobiográfico de António Lobo Antunes?
b) Memória de Elefante

2. Qual o nome da personagem que em O Manual dos Inquisidores foi ministro de Salazar?
a) Francisco

3. Qual o título originalmente pensado para o livro As Naus?
c) O Regresso das Caravelas

4. A temática de fundo de Que Farei Quando Tudo Arde? é:
a) travestismo

5. O título do livro a publicar este ano - Não É Meia-Noite Quem Quer - vem de um poema de:
c) René Char

6. Qual destes títulos não é proveniente de um poema?
a) Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Participantes premiados:

1º prémio - Comissão das Lágrimas + Memória Descritiva
 - Miguel Alexandre Marques, de Lisboa (e-mail de 26.01.2012 22:22)

2º prémio - Sôbolos Rios Que Vão
- Ana Cristina Porfírio Chaves, do Porto (e-mail de 27.01.2012 12:18)

3º prémio - Explicação dos Pássaros
- Manuel Augusto Rodrigues Salvador, da Guarda (e-mail de 29.01.2012 14:19)


Obrigado pela vossa participação e os nossos parabéns aos premiados.

26 de janeiro de 2012

Passatempo Fãs de António Lobo Antunes / Dom Quixote

PASSATEMPO ENCERRADO (29.01.2012 20:25)



Habilite-se a ganhar um destes prémios! Participe!


Após o seu anúncio, em finais de 2011, avançamos agora com os detalhes deste passatempo que irá permitir oferecer estes quatro livros aos três primeiros leitores que responderem acertadamente ao pequeno questionário abaixo enunciado. A oferta dos 4 livros foi possível graças ao apoio da LeYa - Dom Quixote, e pelo empenho de Maria da Piedade Ferreira, editora de António Lobo Antunes, para concretizar esse apoio, bem como do próprio escritor que se disponibilizou prontamente a autografar os três títulos da sua autoria que serão oferecidos.

A forma de participar é simples. Basta responder ao questionário e enviar as respostas em mensagem (da forma como se entender, desde que seja perceptível a resposta em relação à questão) para o nosso e-mail - alaptla@gmail.com. Na mensagem devem constar os seguintes dados pessoais:

- nome completo
- endereço postal para o envio dos exemplares
- contacto telefónico

O passatempo começa a partir de agora, ou seja, a partir da data e hora da publicação deste artigo no blog. Os premiados serão considerados apenas os primeiros três participantes que responderem acertadamente ao questionário e tenham enviado no e-mail os dados pessoais solicitados. Após o encerramento do passatempo, cada participante premiado será notificado via e-mail, bem como será oportunamente anunciado aqui o nome dos três vencedores.

Questionário

São 6 questões sobre alguns dos livros de António Lobo Antunes. As respostas são de escolha entre três opções, só uma é a correcta:

1. Qual o livro assumidamente mais autobiográfico de António Lobo Antunes?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Memória de Elefante
c) Os Cus de Judas

2. Qual o nome da personagem que em O Manual dos Inquisidores foi ministro de Salazar?
a) Francisco
b) Rui S.
c) Álvaro

3. Qual o título originalmente pensado para o livro As Naus?
a) O Retorno
b) Do Império Ficam As Naus
c) O Regresso das Caravelas

4. A temática de fundo de Que Farei Quando Tudo Arde? é:
a) travestismo
b) incêndios em Portugal
c) amor incondicional

5. O título do livro a publicar este ano - Não É Meia-Noite Quem Quer - vem de um poema de:
a) Dylan Thomas
b) Sá de Miranda
c) René Char

6. Qual destes títulos não é proveniente de um poema?
a) Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo
b) Eu Hei-de Amar Uma Pedra
c) Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Prémios:

São os seguintes livros (ver imagem acima), e distribuídos pela ordem de chegada dos e-mails com as respostas certas:

- Comissão das Lágrimas, autografado por António Lobo Antunes + Memória Descritiva da fixação do texto para a edição ne varietur da obra de A.L.A.
- bolos Rios Que Vão, autografado por António Lobo Antunes
- Explicação dos Pássaros, autografado por António Lobo Antunes (edição comemorativa dos 30 anos sobre a 1ª edição)

O passatempo encerrará assim que forem encontrados os três premiados. 

Ficamos agora à espera da vossa participação. 

Boa sorte!



24 de janeiro de 2012

Da leitora Ana Paula Azevedo: Carta a António Lobo Antunes

Caro António
Chamo-me Ana Paula e vivo no Norte do país. Para si sou mais uma das suas leitoras e fã incondicional. E o António o que é para mim? Tudo. É o escritor com quem tive o primeiro contacto num comboio em direcção ao Porto, pela voz de um rapaz que lia alguns trechos de livros para os passageiros. Depois de Miguel Torga, eis que ele apresenta António Lobo Antunes com uma das crónicas publicadas na revista Visão. A partir daí, quis conhecer mais e já vou no seu (e de outros que falam de si) nono livro lido.
A cada livro que leio amo-o cada vez mais. O António tem tudo a ver comigo. Identifico-me com o seu sentir e a forma de o dizer: por vezes crua mas tão cheia de sentimentos, que me comove. Quando termino um livro seu, sinto-me preenchida, nem sei como dizê-lo. É uma sensação que não consigo exprimir por palavras. O António sim, conseguiria descrever esse sentimento na perfeição. É isso que eu amo em si, a sua capacidade de usar as palavras de uma forma tão verdadeira. Penso quando leio: como é possível alguém dizer tão bem aquilo que somos realmente, no nosso íntimo, no nosso verdadeiro EU. Nós que só dizemos o que é politicamente correcto, para não magoarmos os outros, para não nos magoarmos a nós…
Obrigada por me dar a conhecer um bocadinho de si, por trocar confidências comigo, não com os outros leitores, mas comigo.
Identifico-me muito consigo em relação à vida, mas também em relação à morte. A morte realmente é uma puta (desculpe). Ainda sou nova (46 anos), mas os médicos (que percebem destas coisas) dizem que é a idade propícia aos enfartes, aos AVC`s, apesar de eu constatar ultimamente, que todas as idades são propícias a todas as doenças.
Trabalho rodeada de adolescentes e por vezes acho uma provocação; tanta juventude, tanta saúde, tantos corpos com tudo no sítio, tanta vida pela frente… Ainda ontem eu era assim e hoje…
Bom, falemos de coisas mais agradáveis. Depois de tempos a pensar no António como alguém fantástico, reconhecido mundialmente, Prémio Nobel no meu coração, inatingível para mim, eis que me sento consigo numa mesa de esplanada. Assim, cara a cara, o António Lobo Antunes em carne e osso e aqueles lindos olhos azuis…meu Deus que azul…lembra o mar da minha terra natal. Foi realmente um momento inesquecível, emocionante. O António é lindo…
Não fique preocupado, não sou nenhuma fã tresloucada que persegue os seus ídolos. Não preciso de o perseguir, quando descreve a casa dos seus pais eu estou lá consigo, quando descreve a sala onde escreve, eu estou lá num cantinho embevecida vendo-o escrever mais um romance, mais uma crónica, quando esteve no hospital, eu estive lá incentivando-o: António, vamos lá, ainda tanta vida pela frente, tantas confidências para trocar, tanto para emocionar…
Obrigada por existir
Sua fã para sempre
Ana Paula

por Ana Paula Azevedo
Trofa
e-mail de 24.01.2012

22 de janeiro de 2012

Wilton Cavalcante: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia

[...] curioso como certos episódios não abandonam a gente”
António Lobo Antunes

finalmente, na noite de ontem (29/11/2011), terminei de ler o livro Ontem não te vi em Babilónia, de António Lobo Antunes, são quatrocentas e trinta e cinco páginas pesadas que uma grande amiga me emprestou para eu me divertir nestas férias, não, não, apaguem tudo, tudo não, só o que se fala de páginas e de diversão, é um livro, não são páginas, é melancolia, não diversão
você aí, sim, que está lendo, pode achar estranho o jeito que estou a escrever, mas aprendi (será?) a fazê-lo como Lobo Antunes, que inicia os parágrafos, a não ser o primeiro de cada capítulo, com letras minúsculas, e finaliza os parágrafos sem pontos, e interpõe pensamentos distintos num mesmo parágrafo, e faz um jogo fantástico com a língua
sinceramente, achei muito estranho, no início, chegando eu a não entender várias frases, derivado (esta palavra é frequente) em parte do facto de ele não colocar muitas vírgulas, de tal modo que o próprio leitor, por seu conhecimento, entenda em que parte da(s) frase(s) ela(s) deveria(m) estar
o livro é composto por seis capítulos, cada um com quatro partes, três personagens são fixos: Ana Emília, uma mulher que não consegue esquecer-se do suicídio da filha, a qual contava quinze anos no acto, Osvaldo, um policial reformado que vive atormentado com lembranças do passado, entre elas, sua mãe, seu pai, seu casamento morto, e a esposa de Osvaldo, que, assim como o marido, e todos, remexe as lembranças da vida
como eu havia dito, cada capítulo é composto por quatro partes, mas eu só fiz referência a três personagens
bem, em cada capítulo dá-se voz a um personagem que faz parte das lembranças dos outros três
os nomes dos capítulos são horas, o primeiro, Meia noite, o segundo, Uma hora da manhã, até Cinco horas da manhã, isto é (esta expressão também frequente), os personagens estão acordados, e a exposição das lembranças (somente as que eles querem expor) são feitas ao longo dessas horas
característica marcante do livro é a referência constante à ditadura, também representada em outras obras do escritor
ele foi médico do exército português em África
a parte principal do livro, a emocional, abstenho-me de falar dela a você, leitor, é uma experiência pessoal, forte, arrebatadora, que necessita de silêncio para ser vivida, leitura silêncio, a dor silêncio, o prazer silêncio, a morte silêncio, a vida
também silêncio?
o livro não é fácil
mas, quem quer facilidade são os fracos...
o autor foi laureado em 2007 com o Prémio Camões, o maior da língua portuguesa, e, para mim, entra na lista de grandes escritores portugueses contemporâneos, ao lado de José Saramago e Vergílio Ferreira
como não poderia ser diferente, não abster-me-ei de citar alguns trechos da obra, pouquíssimos comparados aos que eu podia recolher e fazer um livro só para mim:
“em certas noites quando o passado nos vence mesmo que não falemos com ela uma mulher ajuda, há memórias que se movem e nos incomodam por dentro ao trocarem de lugar [...]” (ANTUNES, 2008, p. 270).
“[...] tudo se ausenta de nós com o passar da idade, feições, ideias e domingos no parque, ficam a surpresa o medo, uma pergunta aterrada
− O que foi?
e no caso de respondermos voltam a cara, não escutam, um vinco que não existia a crescer na bochecha, uma prega ou uma veia se é que possuem veias a suplicar
− Não digas” (ANTUNES, 2008, p. 118-119).
“[...] no outono ninguém consegue dormir e no entanto desci um instante no interior de mim quase a encontrar a lembrança do que fui e regressei à tona, [...] por que motivo só algumas fracções do corpo fazem parte de nós e as restantes sem utilidade alguma, incomodando, pesando, celulite, manchas, demasiada pele no pescoço, uma outra voz na nossa voz que nos completa as frases e treme [...]” (ANTUNES, 2008, p. 130).
“os olhos dele vazios e a calva sabedora, sempre temi que nos carecas se vissem as ideias aparafusando-se umas nas outras, soltando molas, vibrando, há relógios assim de mecanismo ao léu e um balançar de volantes, se eu fosse careca os sentimentos à mostra cobertos de cicatrizes e sardas [...]” (ANTUNES, 2008, p. 161).
“[...] o meu pai tirava o boné se passava um enterro e ficava quieto a olhá-lo, o enterro sumia-se na esquina e só então o meu pai o boné na cabeça, se ele agora aqui tirava-o a mim que não acabo de passar [...]” (ANTUNES, 2008, p. 286).
“[...] deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa” (ANTUNES, 2008, p. 324).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

ANTUNES, António Lobo. Ontem não te vi em Babilónia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

por Wilton Cavalcante
30.12.2011
Reta de Vista_

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...