20/01/2012

«Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol!»



El País
entrevista de Antonio Jimenez Barca
14.01.2012


«Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol!»

Sentado à mesa num canto da sua casa, enfrentando uma sequência de cerca de 25 esferográficas alinhadas ao seu lado, António Lobo Antunes espera que o próximo livro surja para começar a escrever. Terminou um em Setembro do ano passado e desde então ("há muito tempo já e não é normal isso") espera que medre dentro de si um novo trabalho, um novo romance, um novo delírio estruturado, que é como ele gosta de designar os seus escritos. Mas está demorado. Confessa que se sente culpado quando não está a escrever e, entretanto, lê e traduz para Português, para se entreter, os clássicos latinos Horácio ou Ovídio. O escritor português vivo de maior prestígio, nascido em Lisboa em 1942, com mais de vinte livros publicados, eterno candidato ao Prémio Nobel, tem fama de mal-humorado, mas de perto é amigável, mesmo brincalhão às vezes e à sua maneira. Fuma como uma chaminé e gosta de deitar as cinzas no maço de tabaco vazio e amarrotado. Vive inteiramente dedicado ao seu ofício absorvente: desvendar a essência da humanidade através da literatura. Portanto, este homem, que não tem telemóvel ou cartão de crédito, que escreve à mão com uma dessas vinte canetas alinhadas na mesa, não deixa que nada o distraia do livro (quando este chega): nem o leitor, nem críticos, nem os prémios, nem a rua, nem a si mesmo. Confessa que o melhor da sua escrita surge quando já leva três horas de trabalho e está cansado, quando a lógica das emoções e dos afectos vence a da mente, sendo esta, em suas próprias palavras, uma espécie de "polícia política". É então quando a sua mão desliza sozinha. Apresenta agora em Espanha um dos seu mais recentes trabalhos, Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar? (Mondadori), um romance onde se cruzam as vozes dos mortos e dos vivos de uma família dividida, caída em tempos difíceis, dedicada à criação de touros, com origens de uma região rural do Alentejo. Estruturado como uma tourada, cada capítulo é precedido por um título com referência à lide tauromáquica.


Porquê esta alusão aos touros?
Há muitos anos que queria fazer um livro com uma estrutura parecida. Mas não me saía. Os livros rejeitavam. Este aceitou-a.

Gosta de touros?
Gosto de Curro Romero (ri)

O título é estranho, alude a quê?
Vem de uma canção folclórica muito antiga de Natal, do século XIX, do Alentejo, uma região do interior de Portugal. Era assim que cantavam os camponeses, que não sabiam ler e nunca tinham visto o mar. É uma canção longa, que fala da Virgem, do Menino, e depois refere-se aos Reis Magos: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? São os Reis do Oriente que ao Menino vão adorar", ou algo assim.

O que o atraiu nessa canção?
Porque era bonita e muito sugestiva. E o facto de que quem a fez nunca tivesse visto o mar. Quando comecei esse livro, era tudo o que tinha, esse verso e uma frase: "Que triste é esta casa às três da tarde".

Nem sequer as personagens?
Não, nada. Cada vez mais os livros se fazem a si mesmos. Antes, fazia muitos planos. Agora não.

No entanto, o tema da família é um assunto recorrente em si...
Não sei. Nunca pensei nisso. Não me interessa. Sabe por quê? Porque não me interessa a história. Em nenhum livro meu encontra a intriga. O que tento fazer é colocar a vida entre as capas de um livro. A história, se houver, serve apenas para atrair o leitor ao que me interessa verdadeiramente: a natureza humana.

Pois o livro está carregado de personagens tristes, desesperadas e sós...
Diga-me um livro alegre ou feliz. O que gosto, o que procuro nos livros é a felicidade da mão do escritor. Pode ler-se, por exemplo, A Morte de Ivan Ilich, de Tolstói, e achá-lo triste. Para mim, no entanto, lê-lo é de uma alegria enorme, porque me ensina quem sou. O mesmo se passa com Quevedo, que talvez seja o meu escritor favorito em castelhano.

E qual a sua opinião sobre Cervantes? O Quixote não é um livro com final feliz, mas também não é um livro inteiramente triste. Tem passagens com esperança.
Sim, e divertidos, é verdade. Claro que gosto do Quixote. Mas Cervantes não é dos escritores que mais me entusiasmam. Os que me deslumbram de verdade são os poetas do Século de Ouro: Góngora, Quevedo, Frei Luis de León, S. Juan de la Cruz... A propósito, sabe o que dizia Cervantes do castelhano?

Não.
Que era como o português, mas com osso. É verdade: o castelhano é um idioma muito forte. O português é muito prático, um idioma bom para escrever. Mas esconde o perigo da sua própria facilidade. Tem que se lutar todo o tempo contra essa facilidade... Acho que é mais difícil fazer um bom livro em francês do que em português. Por isso o trabalho de Céline ou de Proust me pareça incrível.

Disse sempre que os livros vêm com a chave para entendê-los e desfrutá-los. Este também?
Tem que se entrar num livro sem ideias pré-concebidas. Enquanto se lê - a mim encanta-me ler, é um prazer absoluto, não como escrever, que às vezes não o é - enquanto se está a ler, dizia, é preciso conservar a virgindade do olhar. Não se deve ir com preconceitos. Por vezes pode ter-se a sensação de não se estar a entender nada, mas isso está bem, porque depois, subitamente, entende-se tudo: o escuro torna-se claro.

Não o preocupa que isso não seja sempre assim, que alguns leitores dos seus livros os achem sempre difíceis, e acabem por desistir, deixando-os?
Enquanto se escreve não se pode pensar no leitor. Se se piscar o olho ao leitor, o livro vai ser mau. Conversei muito com Juan Marsé (um amigo meu de quem gosto muito como escritor, cujo último romance, Caligrafía  de los sueños, acho uma maravilha) acerca disso, que não se pode transigir nesse aspecto. Tem que se fazer o que há a fazer com o livro. E se o leitor gostar, melhor. Se não gostar...

O apartamento de Lobo Antunes é um duplex encantador com uma grande janela sobre uma rua movimentada. No entanto, os ruídos que vêm de fora, dos automóveis, não atinge o silêncio da casa do escritor. As divisões estão forradas de estantes de livros meticulosamente arrumados. Uma divisão guarda todos os seus romances e respectivas traduções. Numa parede da sala tem frases pintadas com marcador. São máximas de pensadores ou poetas, colocadas ali por um Lobo Antunes convertido em grafitador do seu próprio apartamento. Fala da sua dívida para com Espanha, agradece o tratamento que lá recebe, relembra escritores amigos espanhóis que admira particularmente (Javier Marías, Pere Gimferrer), defende que os dois países deviam ser fundidos num só. De seguida, acende outro dos seus cigarros e, já a tarde avançando, acende a luz de um candeeiro de mesa: "Assim vejo melhor".

Como se consegue uma voz particular como a sua?
Com trabalho. Levou-me muito tempo  para encontrar o meu estilo, muitos anos.

Muitos livros também?
Bom, eu comecei a publicar tarde, com 36 anos. Vai-se aprendendo com o que se vai escrevendo, ainda que lhe digo que não volto a ler o que já escrevi.

Porquê?
Porque tenho medo de encontrar defeitos muito grandes e pouca qualidade. Só se pode escrever estando-se convencido de que se é o melhor. E depois, é tão difícil, e há tantas decepções com os próprios livros...

Para superar isso trabalha doze horas por dia, não é?
Sim, normalmente sim. Embora agora não. Agora espero. E digo-lhe que não sei se já não terei escrito o meu último livro, pois não sei se vou ser capaz de escrever outro. A verdade é nunca sabemos...

E porque sente culpa quando não está a escrever?
Porque escrever é única coisa que sei fazer, que faço. Além disso, tenho a impressão de que os livros não me pertencem, que nem sequer tenho o direito de por o meu nome na capa. Eles vêm de sítios, nossos ou não, que não conhecemos. Nos bons momentos, a mão caminha sozinha. A literatura não se faz com a lógica da cabeça, mas com a dos afectos, dos sentimentos e das emoções.

O inconsciente?
Repare: lemos Lorca ou vemos um filme de Fellini, e compreendemos que as suas associações carecem de lógica. No entanto, são uma maravilha. E é algo verdadeiro. Isso não se pode fazer com a cabeça, isso é um milagre. E de onde vêm os milagres? Não sei.

E depois disso, corrige muito?
As primeiras versões são sempre más. O problema não é escrever, mas corrigir. Para corrigir, o estado de espírito deve ser completamente diferente. Aí é preciso estar vigilante. E tentar estruturar o delírio.

É um dos escritores mais prestigiados da Europa, muitas vezes candidato ao Nobel. Pensa nisso? Pensa nos prémios?
Os prémios não valem nada. Há uns anos, ligaram-me do México para me dizerem que tinha ganho o Juan Rulfo e eu apenas respondi: "quanto é?" Não sabia que a conversa estava a ser transmitida para uma conferência de imprensa! Do Nobel falam todos os anos, mas isso, como escritor, é igual. Se vier, está bem porque é muito dinheiro, se não vier também estará muito bem. Existem muitos prémios... todos os escritores têm o seu prémio, há prémios para todos...

Sempre se sentiu escritor?
Nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador: escrevo à mão, porque é como bordar, gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal da escrita, o desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres... e Messi. Vi-o há pouco tempo, na televisão, no Mundialito. Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol! A bola parece sua namorada!

Como vê agora Portugal?
As pessoas vivem muito mal. Há dois dias, fui lá abaixo comprar cigarros e no quiosque duas senhoras quase se matavam por dez cêntimos. Este bairro é pobre, onde os restaurantes são muito baratos, tascas modestas, onde se pode comer por cinco ou seis euros. Antes estavam sempre cheios. Agora estão vazios. As pessoas não têm dinheiro. O desemprego sobe e, ao mesmo tempo, há uma classe social com muitíssimo dinheiro. É tudo muito injusto.


El País
citado do artigo on-line
14.01.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

08/01/2012

José Alexandre Ramos: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes apresenta: Explicação dos Pássaros

Boa parte dos leitores considera os livros de António Lobo Antunes (ALA) como lugares tristes. É verdade que a sua obra insiste e concentra-se na sua boa parte em situações quase extremas (senão inteiramente) de decadência, seja ela pessoal (psicológica) ou social. É também verdade que as narrações feitas pelas personagens dos seus livros evocam passado e presente (sem apontamento a um futuro, pelo menos um futuro mais promissor) com elementos e factos que, por si, nada têm de alegre ou feliz, chegando mesmo ao ponto de mostrar, em cada um desses momentos evocados, particularidades absolutamente negativas: o escritor relata os episódios de modo a exacerbar os aspectos sombrios da alma humana, como crimes hediondos, o ódio, a insegurança, o desespero, a resignação, a hipocrisia, a doença, a patetice, etc., sem esquecer que na caracterização do ambiente também favorece os cenários pobres, sujos, feios e, em muitos casos, com particularidades kitch. Porém, apesar de toda essa carga negativa que acompanha as suas personagens e ambientes, existe muito humor – negro, dirão, mas de uma subtileza encantadora. Um humor que umas vezes se lê nas entrelinhas, outras muito claro no discurso, recorrendo ao grotesco, à caricatura, à anedota, enfim, ao ridículo das situações das pessoas como marca de um povo ou de uma mentalidade. Assim é Explicação dos Pássaros, uma anedota de circo, em que o autor, após a catarse da sua trilogia inicial, nos oferece um volume onde a mestria e a segurança da mão vem a revelar o grande escritor que é.

Rui S., a personagem central desta história (sim, neste livro há uma história a contar, mas nunca nos moldes tradicionais), é um professor universitário, de meia-idade, oriundo de uma família da alta burguesia portuguesa (poderia ser outra a nacionalidade?), dos finais dos anos setenta. Durante a infância é envolvido pelo pai nas suas actividades extra profissionais inconstantes (o pai, empresário, mudava de passatempo de forma imprevisível e quase neurótica), nomeadamente a ornitologia em que lhe havia prometido explicar-lhe os pássaros e que nunca o fez, reflectindo-se essa falta no seu crescimento, como se essa explicação dos pássaros fosse, na realidade, a explicação da vida, crua como ela é. Crescido, e com vocação cultural e artística que contrariava as expectativas familiares do filho em continuar a actividade empresarial, torna-se então professor universitário da área de História. No período conturbado do imediatamente antes e pós-25 de Abril, Rui S., sensível às questões sociais, sente a culpa da sua origem e tenta filiar-se num partido comunista (no livro é referido como o Partido, não esclarecendo qual deles, uma vez que na altura existiam muitos de índole marxista-leninista, mas tudo aponta para que seja o PCP). Casa-se uma primeira vez com Tucha, da mesma condição social da sua, de quem tem dois filhos, mas o matrimónio é desfeito pela mulher, que decide separar-se, o que lhe dá razões para se tornar obsessivo e magoado. Nas suas relações de professor e actividades políticas frouxas (nunca chega a ser aceite devido às suas origens), conhece Marília com quem, para colmatar a falta e o desgosto da separação de Tucha, casa, apesar da resistência daquela, militante convicta que punha os interesses do Partido à frente dos pessoais.

Abre o livro com Rui S. a visitar a mãe moribunda no hospital, velada por uma prima que tece crochets feios (segundo ele), e é a partir daí que as evocações do passado, sobretudo da família, surgem. Primeiro o pai, que a esta altura se encontra ausente no estrangeiro (talvez em relações amorosas duvidosas), depois a mãe e as irmãs – uma delas professora de música muito feia, solteira, o único familiar que ainda o apoia, embora condicionalmente, após a separação de Tucha –, e o cunhado, arrogante, moralista (embora cheio de podres), que acaba por ser a esperança do filho desejado para a continuação da actividade empresarial da família, embora seja ele médico obstetra. Todos renegam Rui S., cada um à sua maneira, pelas decisões ou indecisões que toma ao longo da sua vida, mas é principalmente o seu segundo casamento, com a comunista Marília, que é visto como a grande nódoa para a família.

Para Marília, o marido nunca será a prioridade, e o capricho do casamento confunde-se com a sua atitude conversora de tornar o burguês num proletário esclarecido. Ela própria propõe no seio da célula do Partido a que pertence o estatuto de observador para Rui S. que é severamente contestado. Este, assumindo a culpa pelas suas origens, distancia-se, da mesma forma que vai tomando consciência de que Marília é apenas a substituta de Tucha, porque não recuperou do desgosto do divórcio. Lamenta também o seu distanciamento para com os filhos, pequenos durante a separação, quem raramente vê depois de o casal se ter separado. Conhece, num bar de subúrbios, um artista de circo convencido que é um tenor sobejamente conhecido nacional e internacionalmente (embora refira que o mais longe que tenha actuado terá sido Badajoz), mas cuja performance nunca ousara passar de um espectáculo patético de palhaços num circo pobre. É nesta altura que Rui S. encara a sua vida como esse espectáculo pobre, onde ele é a atracção principal. Comprometido para uma palestra da Universidade, decide romper esse compromisso e convence Marília para uma viagem a Aveiro, onde, oportunamente, lhe daria conta da sua decisão de se separar dela. Após três dias de convívio com a mulher e de muita reflexão, sente que afinal essa decisão não estava tão madura, e a insegurança volta, atordoado com a ausência da explicação dos pássaros por parte do pai, dependendo disso para poder tomar as devidas decisões que convém à sua vida. Não adivinhava, porém, que Marília tivesse também aproveitado essa estadia de quatro dias para uma reflexão idêntica e, ao contrário dele, decide mesmo acabar com o casamento, para dar prioridade aos pais que viviam em condições precárias e ao Partido, de que se afastara após o episódio de renúncia de integração de Rui S. como observador. É nesse quarto dia, domingo (o livro está dividido por quatro longos capítulos – quinta, sexta, sábado e domingo), desesperado com a decisão de Marília, que Rui S. decide suicidar-se, acabando morto na ria de Aveiro, com as gaivotas despedaçando-lhe o cadáver. Apontamento: os pássaros, assim designadas as gaivotas num conceito geral, agem de modo estranho para surpresa dos locais, talvez uma referência a Hitchcock que ALA quis introduzir.

Aparentemente, é um jornalista que pretende contar esta história de suicídio (sabe-se desde as primeiras páginas que será esse o destino de Rui S.), embora o recurso à terceira pessoa do singular seja intercalada e, na maior parte das vezes a partir do primeiro terço do livro, substituída pela primeira pessoa. É Rui S. afinal quem conta o seu fim trágico e anedótico, aludindo a um número de circo que todos esperam ver e vão comentando à medida que se vai desenrolando o novelo até ao desfecho. É assim que as outras personagens, da família principalmente, intervêm. A par, existem alguns depoimentos (para a investigação policial ou jornalística? – decida quem ler), cujo discurso formal resvala para uma interpretação, digamos oral, do juízo dos depoentes perante os factos. As personagens que depõem são os empregados da estalagem em Aveiro, depois os artistas de circo, também a família, incluindo as duas mulheres e um dos filhos, e há um outro, fragmentado, de uma parteira a quem o casal Rui e Marília recorreram no passado para um abortamento). A carga emocional do casal que viaja a Aveiro é intensificada pelo estado do tempo, em que, se não chove, pairam nuvens pardas e uma neblina persistente que invade a cidade desde o rio Vouga. Também os cheiros, fétidos, da ria de Aveiro ajudam a construir o cenário trágico e decadente para o destino de Rui S., bem como as referências às aves, ou “os pássaros”, que vão surgindo ao longo da narrativa em forma de maus presságios. O humor, como que saído de um anedotário negro e crítico, é uma constante no livro, principalmente quando Rui S. imagina as suas acções apresentadas e comentadas por um anão durante o seu suposto número apoteótico de circo.

É, para mim, e após reler, um dos melhores livros de ALA, consistindo num cartão-de-visita para toda a sua obra posterior; terá sido, à época (1981), mas com o juízo actual, uma obra-prima de então, em que a literatura portuguesa era tão vaga de inovação e de génio, salvo as devidas e raras excepções. É leitura obrigatória, e direi mesmo prioritária, para quem quer iniciar-se no mundo literário de ALA, mas também uma grande referência para quem, por curiosidade ou necessidade curricular, investe no estudo da obra deste mestre da nossa literatura. Um espectáculo único, apenas podendo ser apresentado pelo melhor dos melhores: António Lobo Antunes.

(Perdoem-me o impulso algo fanático da minha última afirmação do artigo, mas se ALA é, há vinte anos, o meu escritor preferido; relê-lo tem vindo a reforçar essa convicção, uma vez que regressando aos seus livros desde o começo, as surpresas são sempre novas, e constantes.)

(E, a propósito: dos raros livros de ALA que podem ser encenados ou adaptados ao grande ecrã, porque não um peça ou um filme baseado neste livro?!)


José Alexandre Ramos
08.01.2011

07/01/2012

«Mostra bibliográfica de António Lobo Antunes em Vila Nova da Barquinha»

«Integrado no ciclo "1 mês, 1 escritor" está a decorrer até 31 de janeiro na Biblioteca Municipal de Vila Nova da Barquinha uma mostra bibliográfica, com oferta de marcadores de livros, do escritor António Lobo Antunes.

Esta mostra poderá ser visitada de 2ª a 6ª feira das 9h às 12h e 30m e das 14h às 17h e 30m.»

06/01/2012

04/01/2012

Miguel Real: crítica a Quarto Livro de Crónicas

Cães Pretos

A literatura portuguesa transborda de óptimos cronistas, alguns deles vivos, cada um segundo o seu estilo e um diferente enquadramento teórico. De facto, desde Fialho de Almeida a Vasco Graça Moura, o século XX foi prolífero em escritores cultores da crónica, como nos dá conta A Crónica Jornalística no Século XX (2004), de Fernando Venâncio.

Porém – desculpe-se a subjectividade do crítico -, nenhum cronista atingiu o brilhantismo estético presente nas crónicas de António Lobo Antunes (ALA), seja quanto ao primado da composição da unidade da narrativa face a cada parágrafo (tarefa dificílima devido à brevidade do texto), seja quanto à unidade inconsútil desenhada com a totalidade da sua obra de ficcionista. A recente publicação de Quarto Livro de Crónicas aí está para comprovar a justeza da nossa asserção.

Com o título de “ficção intervalar”, Maria Alzira Seixo chamou a atenção para a excelência de ALA cronista, estatuindo a crónica deste autor como um cruzamento original entre “ficção” e “autobiografia” (Cf. Maria Alzira Seixo, As Flores do Inferno e os Jardins Suspensos, 2010, pp. 169 – 182). Do ponto de vista teórico, não é preciso dizer mais. Quem conhece a obra literária e um pouco da biografia de ALA, encontra na crónica deste tanto o estilo dos seus romances quanto alguma satisfação relativamente à vida do autor. Por todas, leia-se “Dois vezes dois quatro é uma parede”, crónica absolutamente paradigmática do estilo e da obra de ALA: documentário do quotidiano e interrogação humana universal, una (a desdobragem do autor-narrador em dois) e múltipla (as circunstâncias banais da vida), unidade de tempo e de espaço e infinita abertura reflexiva, realismo quanto baste envolvido em idealidade angustiada. Ler uma crónica (um romance) de ALA é destaparmos os “cães pretos” existentes subterraneamente em nós e elevarmos o nosso pequeno mundo a um universo estético atormentado onde, frágeis e espantados, transpiramos sangue.

Maria Alzira Seixo escreve igualmente ser “o tempo a dimensão fundamental da escrita” de ALA (ibidem, p. 153). De facto, a unidade essencial deste Quarto Livro de Crónicas reside justamente no laço psíquico e estético existente entre o passado e o presente, ensombrecido pelo espectro negativo do futuro, isto é, do pressentimento físico e da aproximação existencial da morte. Como horizonte problemático e como fundo sustentador, todas as crónicas desenham uma espécie de experiência da morte. A antevisão da morte traça os contornos psicológicos da leitura do passado e do presente, bem como da visão lírica atribuída à infância em contraste com a visão trágica conferida ao presente. ALA desenha a infância em Benfica e em Nelas de um modo deleitoso e feliz, ainda que atormentado pelas agruras da educação, envolvendo as figuras (os avós, os pais, alguns irmãos, o senhor Casimiro, Acácio…) e as peripécias da infância de um halo de ternura, de que o presente é em absoluto excluído. Por outro lado, a velhice do presente é acentuada pelo autor-narrador como lugar da corrupção da carne, da degradação dos sonhos juvenis, da rendição à abjecção dos interesses, do encastelamento em pequenos e obsessivos gestos ou expressões repetitivas, síndroma de recalcamentos, frustrações e perversidades; a velhice, enquanto espécie de antecâmara da morte, evidencia-se, assim, como estado infernoso, efeito de deterioração da personalidade, lugar etário no qual se sabe já não ser possível nem rectificar a vida nem realizá-la em plenitude. O que terá acontecido à vida, ao seu sentido pleno, à epifania sonhada na infância? “Ignoro quem me derrotou. Se calhar eu mesmo, se calhar a minha irmã (o outro)” (p. 19) – um mistério o presente da vida, solucionado em solidão, desanimo, desesperança, derrota: “Porquê o quê? Não sabemos. Apenas a perguntar porquê” (p. 218).

Entre a infância benevolente, lugar da revelação e do sonho, e a velhice, lugar do aniquilamento do desejo, de corpo e alma abandonados ao ramerrão quotidiano, já desprovido de sonhos, conquistando o dia a dia como guerreiro na batalha, espécie de exaustão de vida, existe o presente, repleto de minudências, que ALA transporta maravilhosamente para o texto. Dificilmente outro cronista espelha tão angustiada quanto vividamente o lento escorrer do presente que vai deteriorando os sentidos, os sentimentos e a razão de um homem, atingindo-lhe o corpo, mas sobretudo o espírito, esboroando o halo feliz da infância adensado na memória, conduzindo-o pela mão a um estado de decadência despido de projectos de futuro, reduzindo a vida à imagem de um boca desdentada, que alguns, espertotes, compensarão com a prótese de uma dentadura artificial. Porém, do ponto de vista ontológico, não existem próteses redentoras para a decadência física e anímica, apenas gestos consolatórios.

A velhice inicia-se por repetições obsessivas de gestos (que ALA reproduz em inúmeros personagens das suas crónicas), preenchendo assim, mecanicamente, o vazio ontológico que o desbaste da vida cria em cada existência, seja no corpo (tremuras, tumores inesperados, enrugamento da pele, manchas…), seja no pensamento (esquecimentos, manias…). Para o autor-narrador, nem a família criada, sobre a qual pouco escreve, nem a profissão de médico, que releva como oportunidade para um conhecimento mais perfeito do homem, constituem bálsamos redentores, capazes de dar sentido à vida e de aplacarem os “cães pretos (p. 74) que lhe enrodilham a existência, levantando-lhe um juízo crítico negativo sobre esta. A expressão “cães pretos” evidencia-se como metáfora do presente da vida (do mesmo modo usado por Ian MacEwn no romance homónimo), um turbilhão interior que gangrena o sentido da vida, uma espécie de mal íntimo e perturbador, um instinto maléfico que aflui à consciência, reprovando-a, revelando-lhe a nulidade e o absurdo de cada vida. Diferentemente, a passagem pela Guerra do Ultramar e a escrita de romances (com sentido crítico – p. 73) revelam-se como momentos de luta pela conquista de uma inapelável dignidade humana, a primeira como encontro entre homens em sentido puro, sem a manipulação do interesse e a superioridade das classes sociais; na guerra reside a igualdade absoluta de todos perante a morte, a resistência ao sofrimento, a solidariedade em momentos extremos – unindo todos com o nome de “camaradas”; na escrita de um romance reside a memória futura, a fuga à voragem do tempo, a superação da brevidade inócua da vida e da fragilidade do corpo, isto é, o resgate do tempo passado em função de um tempo futuro, ou, dito de outro modo, a união entre o passado e o futuro na assunção da eternidade.


Miguel Real
18.07.2011

03/01/2012

Norberto do Vale Cardoso: «Sermão de António (Lobo Antunes) aos peixes: Sapiência e Memória no Pós-colonial »


Sermão de António (Lobo Antunes) aos peixes:
Sapiência e Memória no Pós-colonial”


Norberto do Vale Cardoso [1]



António Lobo Antunes no aquário da proto-memória

Dissolvo-me, parado, na banheira cheia, como imagino que os peixes morrem, evaporados numa espumazinha viscosa à tona, como decerto os peixes morrem no rio, de órbitas apodrecidas a boiarem. (CJ, 159)

A Memória desempenha, como sabemos, importante papel na obra de António Lobo Antunes, desde logo a partir do elemento titular do seu primeiro romance, Memória de Elefante, em que se destaca, antes de mais, a “proto-memória”. Por esta devemos entender o conjunto de hábitos e automatismos resultantes do processo de socialização, aspecto presente de forma constante na obra antuniana, sobretudo pelo papel preponderante atribuído à infância, período crucial para a sua formação. Esta foi levada a cabo num Portugal em que a memória era criada com intenções maquiavélicas (cf. Lourenço 1975, 80), pois o regime construía uma “memória colectiva” que confinava o indivíduo a um mero receptáculo. Essa memória matricial é referida por Lobo Antunes como tendo sido uma “bolha” (CALA, 50) protectora que o alheava então de todo o tipo de intervenções e preocupações. Era, porém, uma memória fechada, que, como um bloco, compartimentava os tempos, isto é, que não dava azo à sua interligação. Ora, Lobo Antunes (2006, 9) afirma que foi com a guerra que deixou “de ter uma concepção ptolomaica do mundo”.
De facto, a mobilização de Lobo Antunes para a Guerra Colonial representa um futuro infausto, que reavalia a sua “memória autobiográfica”. Devemos aqui, pois, referir que o si autobiográfico, que se sustenta da memória autobiográfica, é alterado ao longo da vida através da aquisição de novas experiências. O si autobiográfico é aquele que congrega a experiência passada e a perspectiva futura que o sujeito consciente faz de si próprio, o que só sucede com a descristalização da bolha em que vivia. Portanto, a guerra rasura o passado e enviesa a perspectivação do futuro, o que tem implicações na memória autobiográfica e no si autobiográfico (Damásio 2004, 206).
Assim, podemos dizer que o auto-conhecimento de António (Lobo Antunes) se alcança pelo rompimento social para com a sua Família e a sua Pátria. Este “conhecimento” traduz-se na procura activa de recordações, a que chamaremos “memória”, e que já não está limitada à fronteira - passiva - da proto-memória. Sublinhemos que, no caso de Lobo Antunes, a memória será a aquisição da experiência colonial no seu lado mais agudo, a guerra, o que conduzirá o sujeito a uma reavaliação da sua socialização, ou, mutatis mutandis, da sua proto-memória. Portanto, a guerra será um “conhecimento”, ainda que à base da violência, da loucura, da morte e da abjecção. Dado que a memória implica o rompimento da proto-memória, isto é, das instituições que o inseriam socialmente e lhe davam uma identidade, o sujeito terá dificuldade em criar uma metamemória, uma auto-representação. Essa aquisição violenta é a “memória traumática”, que se diferencia da normal aquisição da memória, pois há uma “falha em integrar uma experiência perturbadora numa memória autobiográfica” (Goleman 2006, 165). A memória traumática é, assim, uma “desordem” ou anomalia que leva o sujeito à “fragmentação” e à “dissociação”, o que o impede de se autoconstituir identitariamente como sujeito (Quintais 1999, 16), relativizando quer a proto-memória quer a metamemória. Assim, a “memória autobiográfica” (arquivo organizado de dispositivos que nos mostra quem fomos, somos e seremos, Damásio 2004, 204-205), por ser uma coisa contínua, altera-se com a experiência de guerra e, por consequência, adultera o si autobiográfico, isto é, a consciência que o eu tem de si mesmo.
A guerra é, então, assimétrica, apresentando-se, em simultâneo, como: 1º) Um factor negativo, uma vez que a experiência adquirida leva à reavaliação da memória autobiográfica e à deturpação do eu (o si autobiográfico), simbolizado através da sua metamorfose em “peixe”. Ao matar e torturar, o sujeito deixa, grosso modo, de reconhecer em si aquilo que até então o fazia ter consciência de si, as características básicas de si como organismo; 2º) Por outro lado, a guerra dar-lhe-á a possibilidade de experienciar/ conhecer o mundo com a sapiência que, antes, desconhecia, o que, sublinhe-se, o faz cognoscěre a proto-memória como um aquário/ “bolha”. Este segundo ponto fornece novas características ao si autobiográfico e à re-construção autobiográfica do sujeito no romance. Clarifiquemos, assim, que, nos três primeiros romances de António Lobo Antunes, há uma interconfluência de memórias, dado que, neles, o sujeito, após a “dolorosa aprendizagem da agonia” (CJ, 38), reavalia a sua proto-memória para reformular a sua identidade. É verdade que nesses romances estamos perante “uma memória de família” (Catroga 2001, 27), mas essa confronta-se com a “memória de guerra”. Essas memórias coexistem e implicam-se mutuamente. Ao falarmos de Memória de Elefante não estamos a referir-nos a uma só memória, nem a uma memória “elefantizada”, mas, antes, às “impurezas da memória” (Eakin 1992, 86), ou seja, à hibridez e à infixidez da cultura que caminha rumo ao pós-colonial (Said 1993, 15).
Esta Memória é, precisamente, uma “textura contínua”, uma construção que se sobrepõe ao “calendário petrificado” (ME, 49) ocidental. Ora, como romance que é, esta Memória constitui-se de palavras, posteriores ao conceito e ao objecto (Damásio 2004, 219), o que implica que estejamos perante uma memória como imaginação, isto é, como ficção literária que procura integrar na memória autobiográfica aspectos até então tidos como estranhos à identidade do sujeito. A “arte da memória” levá-lo-á, não à vida que perdeu, mas à vida que ainda tem de viver (Eakin 1992, 292): a vida de um peixe.

  
Para ler o artigo completo, consultar Memória & Sabedoria (coord. José Pedro Serra, Helena Carvalhão Buescu, Ariadne Nunes, Rui Carlos Fonseca), Centro de Estudos Clássicos e Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, V. N. Famalicão, Húmus, pp. 291-304.


[1] (Doutorado pela Universidade do Minho: Instituto de Letras e Ciências Humanas).



enviado por e-mail
03.01.2011

21/12/2011

ALA no evento da Figueira da Foz

Tomamos de empréstimo o ficheiro áudio que Carlos Júlio partilhou no seu blog A Cinco Tons, bem como as suas palavras, sobre o evento na Figueira da Foz no passado fim de semana.




«Na semana passada estive, em trabalho, vários dias na Figueira da Foz. Por acaso, coincidiu com a ida do escritor António Lobo Antunes ao Casino Figueirense apresentar o seu último livro "Comissão das Lágrimas". [...] Respondeu às questões de alguns dos presentes, numa resposta circular em que abordou os mais variados temas. Eu gravei a conversa. Ei-la quase na íntegra (tirei apenas uma parte dedicada à tradução e à literatura, mesmo claro e acentuei com música os cortes que fiz). António Lobo Antunes fala da guerra, dos hospitais psiquiátricos, da loucura, dos livros, das mulheres óbvias, de António Barreto, do ser português, da mestiçagem, da cultura que não interessa a nenhum poder, de Rodrigues dos Santos, do periscópio, dos programas culturais na televisão, da pílula-Expresso, da falta de tempo para fazer amor, do povo do caraças que somos, de Tony Carreira, da coragem das mulheres na gravidez.... Um ror de coisas, bem encadeadas e com muito humor.»

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...