07/01/2012

«Mostra bibliográfica de António Lobo Antunes em Vila Nova da Barquinha»

«Integrado no ciclo "1 mês, 1 escritor" está a decorrer até 31 de janeiro na Biblioteca Municipal de Vila Nova da Barquinha uma mostra bibliográfica, com oferta de marcadores de livros, do escritor António Lobo Antunes.

Esta mostra poderá ser visitada de 2ª a 6ª feira das 9h às 12h e 30m e das 14h às 17h e 30m.»

06/01/2012

04/01/2012

Miguel Real: crítica a Quarto Livro de Crónicas

Cães Pretos

A literatura portuguesa transborda de óptimos cronistas, alguns deles vivos, cada um segundo o seu estilo e um diferente enquadramento teórico. De facto, desde Fialho de Almeida a Vasco Graça Moura, o século XX foi prolífero em escritores cultores da crónica, como nos dá conta A Crónica Jornalística no Século XX (2004), de Fernando Venâncio.

Porém – desculpe-se a subjectividade do crítico -, nenhum cronista atingiu o brilhantismo estético presente nas crónicas de António Lobo Antunes (ALA), seja quanto ao primado da composição da unidade da narrativa face a cada parágrafo (tarefa dificílima devido à brevidade do texto), seja quanto à unidade inconsútil desenhada com a totalidade da sua obra de ficcionista. A recente publicação de Quarto Livro de Crónicas aí está para comprovar a justeza da nossa asserção.

Com o título de “ficção intervalar”, Maria Alzira Seixo chamou a atenção para a excelência de ALA cronista, estatuindo a crónica deste autor como um cruzamento original entre “ficção” e “autobiografia” (Cf. Maria Alzira Seixo, As Flores do Inferno e os Jardins Suspensos, 2010, pp. 169 – 182). Do ponto de vista teórico, não é preciso dizer mais. Quem conhece a obra literária e um pouco da biografia de ALA, encontra na crónica deste tanto o estilo dos seus romances quanto alguma satisfação relativamente à vida do autor. Por todas, leia-se “Dois vezes dois quatro é uma parede”, crónica absolutamente paradigmática do estilo e da obra de ALA: documentário do quotidiano e interrogação humana universal, una (a desdobragem do autor-narrador em dois) e múltipla (as circunstâncias banais da vida), unidade de tempo e de espaço e infinita abertura reflexiva, realismo quanto baste envolvido em idealidade angustiada. Ler uma crónica (um romance) de ALA é destaparmos os “cães pretos” existentes subterraneamente em nós e elevarmos o nosso pequeno mundo a um universo estético atormentado onde, frágeis e espantados, transpiramos sangue.

Maria Alzira Seixo escreve igualmente ser “o tempo a dimensão fundamental da escrita” de ALA (ibidem, p. 153). De facto, a unidade essencial deste Quarto Livro de Crónicas reside justamente no laço psíquico e estético existente entre o passado e o presente, ensombrecido pelo espectro negativo do futuro, isto é, do pressentimento físico e da aproximação existencial da morte. Como horizonte problemático e como fundo sustentador, todas as crónicas desenham uma espécie de experiência da morte. A antevisão da morte traça os contornos psicológicos da leitura do passado e do presente, bem como da visão lírica atribuída à infância em contraste com a visão trágica conferida ao presente. ALA desenha a infância em Benfica e em Nelas de um modo deleitoso e feliz, ainda que atormentado pelas agruras da educação, envolvendo as figuras (os avós, os pais, alguns irmãos, o senhor Casimiro, Acácio…) e as peripécias da infância de um halo de ternura, de que o presente é em absoluto excluído. Por outro lado, a velhice do presente é acentuada pelo autor-narrador como lugar da corrupção da carne, da degradação dos sonhos juvenis, da rendição à abjecção dos interesses, do encastelamento em pequenos e obsessivos gestos ou expressões repetitivas, síndroma de recalcamentos, frustrações e perversidades; a velhice, enquanto espécie de antecâmara da morte, evidencia-se, assim, como estado infernoso, efeito de deterioração da personalidade, lugar etário no qual se sabe já não ser possível nem rectificar a vida nem realizá-la em plenitude. O que terá acontecido à vida, ao seu sentido pleno, à epifania sonhada na infância? “Ignoro quem me derrotou. Se calhar eu mesmo, se calhar a minha irmã (o outro)” (p. 19) – um mistério o presente da vida, solucionado em solidão, desanimo, desesperança, derrota: “Porquê o quê? Não sabemos. Apenas a perguntar porquê” (p. 218).

Entre a infância benevolente, lugar da revelação e do sonho, e a velhice, lugar do aniquilamento do desejo, de corpo e alma abandonados ao ramerrão quotidiano, já desprovido de sonhos, conquistando o dia a dia como guerreiro na batalha, espécie de exaustão de vida, existe o presente, repleto de minudências, que ALA transporta maravilhosamente para o texto. Dificilmente outro cronista espelha tão angustiada quanto vividamente o lento escorrer do presente que vai deteriorando os sentidos, os sentimentos e a razão de um homem, atingindo-lhe o corpo, mas sobretudo o espírito, esboroando o halo feliz da infância adensado na memória, conduzindo-o pela mão a um estado de decadência despido de projectos de futuro, reduzindo a vida à imagem de um boca desdentada, que alguns, espertotes, compensarão com a prótese de uma dentadura artificial. Porém, do ponto de vista ontológico, não existem próteses redentoras para a decadência física e anímica, apenas gestos consolatórios.

A velhice inicia-se por repetições obsessivas de gestos (que ALA reproduz em inúmeros personagens das suas crónicas), preenchendo assim, mecanicamente, o vazio ontológico que o desbaste da vida cria em cada existência, seja no corpo (tremuras, tumores inesperados, enrugamento da pele, manchas…), seja no pensamento (esquecimentos, manias…). Para o autor-narrador, nem a família criada, sobre a qual pouco escreve, nem a profissão de médico, que releva como oportunidade para um conhecimento mais perfeito do homem, constituem bálsamos redentores, capazes de dar sentido à vida e de aplacarem os “cães pretos (p. 74) que lhe enrodilham a existência, levantando-lhe um juízo crítico negativo sobre esta. A expressão “cães pretos” evidencia-se como metáfora do presente da vida (do mesmo modo usado por Ian MacEwn no romance homónimo), um turbilhão interior que gangrena o sentido da vida, uma espécie de mal íntimo e perturbador, um instinto maléfico que aflui à consciência, reprovando-a, revelando-lhe a nulidade e o absurdo de cada vida. Diferentemente, a passagem pela Guerra do Ultramar e a escrita de romances (com sentido crítico – p. 73) revelam-se como momentos de luta pela conquista de uma inapelável dignidade humana, a primeira como encontro entre homens em sentido puro, sem a manipulação do interesse e a superioridade das classes sociais; na guerra reside a igualdade absoluta de todos perante a morte, a resistência ao sofrimento, a solidariedade em momentos extremos – unindo todos com o nome de “camaradas”; na escrita de um romance reside a memória futura, a fuga à voragem do tempo, a superação da brevidade inócua da vida e da fragilidade do corpo, isto é, o resgate do tempo passado em função de um tempo futuro, ou, dito de outro modo, a união entre o passado e o futuro na assunção da eternidade.


Miguel Real
18.07.2011

03/01/2012

Norberto do Vale Cardoso: «Sermão de António (Lobo Antunes) aos peixes: Sapiência e Memória no Pós-colonial »


Sermão de António (Lobo Antunes) aos peixes:
Sapiência e Memória no Pós-colonial”


Norberto do Vale Cardoso [1]



António Lobo Antunes no aquário da proto-memória

Dissolvo-me, parado, na banheira cheia, como imagino que os peixes morrem, evaporados numa espumazinha viscosa à tona, como decerto os peixes morrem no rio, de órbitas apodrecidas a boiarem. (CJ, 159)

A Memória desempenha, como sabemos, importante papel na obra de António Lobo Antunes, desde logo a partir do elemento titular do seu primeiro romance, Memória de Elefante, em que se destaca, antes de mais, a “proto-memória”. Por esta devemos entender o conjunto de hábitos e automatismos resultantes do processo de socialização, aspecto presente de forma constante na obra antuniana, sobretudo pelo papel preponderante atribuído à infância, período crucial para a sua formação. Esta foi levada a cabo num Portugal em que a memória era criada com intenções maquiavélicas (cf. Lourenço 1975, 80), pois o regime construía uma “memória colectiva” que confinava o indivíduo a um mero receptáculo. Essa memória matricial é referida por Lobo Antunes como tendo sido uma “bolha” (CALA, 50) protectora que o alheava então de todo o tipo de intervenções e preocupações. Era, porém, uma memória fechada, que, como um bloco, compartimentava os tempos, isto é, que não dava azo à sua interligação. Ora, Lobo Antunes (2006, 9) afirma que foi com a guerra que deixou “de ter uma concepção ptolomaica do mundo”.
De facto, a mobilização de Lobo Antunes para a Guerra Colonial representa um futuro infausto, que reavalia a sua “memória autobiográfica”. Devemos aqui, pois, referir que o si autobiográfico, que se sustenta da memória autobiográfica, é alterado ao longo da vida através da aquisição de novas experiências. O si autobiográfico é aquele que congrega a experiência passada e a perspectiva futura que o sujeito consciente faz de si próprio, o que só sucede com a descristalização da bolha em que vivia. Portanto, a guerra rasura o passado e enviesa a perspectivação do futuro, o que tem implicações na memória autobiográfica e no si autobiográfico (Damásio 2004, 206).
Assim, podemos dizer que o auto-conhecimento de António (Lobo Antunes) se alcança pelo rompimento social para com a sua Família e a sua Pátria. Este “conhecimento” traduz-se na procura activa de recordações, a que chamaremos “memória”, e que já não está limitada à fronteira - passiva - da proto-memória. Sublinhemos que, no caso de Lobo Antunes, a memória será a aquisição da experiência colonial no seu lado mais agudo, a guerra, o que conduzirá o sujeito a uma reavaliação da sua socialização, ou, mutatis mutandis, da sua proto-memória. Portanto, a guerra será um “conhecimento”, ainda que à base da violência, da loucura, da morte e da abjecção. Dado que a memória implica o rompimento da proto-memória, isto é, das instituições que o inseriam socialmente e lhe davam uma identidade, o sujeito terá dificuldade em criar uma metamemória, uma auto-representação. Essa aquisição violenta é a “memória traumática”, que se diferencia da normal aquisição da memória, pois há uma “falha em integrar uma experiência perturbadora numa memória autobiográfica” (Goleman 2006, 165). A memória traumática é, assim, uma “desordem” ou anomalia que leva o sujeito à “fragmentação” e à “dissociação”, o que o impede de se autoconstituir identitariamente como sujeito (Quintais 1999, 16), relativizando quer a proto-memória quer a metamemória. Assim, a “memória autobiográfica” (arquivo organizado de dispositivos que nos mostra quem fomos, somos e seremos, Damásio 2004, 204-205), por ser uma coisa contínua, altera-se com a experiência de guerra e, por consequência, adultera o si autobiográfico, isto é, a consciência que o eu tem de si mesmo.
A guerra é, então, assimétrica, apresentando-se, em simultâneo, como: 1º) Um factor negativo, uma vez que a experiência adquirida leva à reavaliação da memória autobiográfica e à deturpação do eu (o si autobiográfico), simbolizado através da sua metamorfose em “peixe”. Ao matar e torturar, o sujeito deixa, grosso modo, de reconhecer em si aquilo que até então o fazia ter consciência de si, as características básicas de si como organismo; 2º) Por outro lado, a guerra dar-lhe-á a possibilidade de experienciar/ conhecer o mundo com a sapiência que, antes, desconhecia, o que, sublinhe-se, o faz cognoscěre a proto-memória como um aquário/ “bolha”. Este segundo ponto fornece novas características ao si autobiográfico e à re-construção autobiográfica do sujeito no romance. Clarifiquemos, assim, que, nos três primeiros romances de António Lobo Antunes, há uma interconfluência de memórias, dado que, neles, o sujeito, após a “dolorosa aprendizagem da agonia” (CJ, 38), reavalia a sua proto-memória para reformular a sua identidade. É verdade que nesses romances estamos perante “uma memória de família” (Catroga 2001, 27), mas essa confronta-se com a “memória de guerra”. Essas memórias coexistem e implicam-se mutuamente. Ao falarmos de Memória de Elefante não estamos a referir-nos a uma só memória, nem a uma memória “elefantizada”, mas, antes, às “impurezas da memória” (Eakin 1992, 86), ou seja, à hibridez e à infixidez da cultura que caminha rumo ao pós-colonial (Said 1993, 15).
Esta Memória é, precisamente, uma “textura contínua”, uma construção que se sobrepõe ao “calendário petrificado” (ME, 49) ocidental. Ora, como romance que é, esta Memória constitui-se de palavras, posteriores ao conceito e ao objecto (Damásio 2004, 219), o que implica que estejamos perante uma memória como imaginação, isto é, como ficção literária que procura integrar na memória autobiográfica aspectos até então tidos como estranhos à identidade do sujeito. A “arte da memória” levá-lo-á, não à vida que perdeu, mas à vida que ainda tem de viver (Eakin 1992, 292): a vida de um peixe.

  
Para ler o artigo completo, consultar Memória & Sabedoria (coord. José Pedro Serra, Helena Carvalhão Buescu, Ariadne Nunes, Rui Carlos Fonseca), Centro de Estudos Clássicos e Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, V. N. Famalicão, Húmus, pp. 291-304.


[1] (Doutorado pela Universidade do Minho: Instituto de Letras e Ciências Humanas).



enviado por e-mail
03.01.2011

21/12/2011

ALA no evento da Figueira da Foz

Tomamos de empréstimo o ficheiro áudio que Carlos Júlio partilhou no seu blog A Cinco Tons, bem como as suas palavras, sobre o evento na Figueira da Foz no passado fim de semana.




«Na semana passada estive, em trabalho, vários dias na Figueira da Foz. Por acaso, coincidiu com a ida do escritor António Lobo Antunes ao Casino Figueirense apresentar o seu último livro "Comissão das Lágrimas". [...] Respondeu às questões de alguns dos presentes, numa resposta circular em que abordou os mais variados temas. Eu gravei a conversa. Ei-la quase na íntegra (tirei apenas uma parte dedicada à tradução e à literatura, mesmo claro e acentuei com música os cortes que fiz). António Lobo Antunes fala da guerra, dos hospitais psiquiátricos, da loucura, dos livros, das mulheres óbvias, de António Barreto, do ser português, da mestiçagem, da cultura que não interessa a nenhum poder, de Rodrigues dos Santos, do periscópio, dos programas culturais na televisão, da pílula-Expresso, da falta de tempo para fazer amor, do povo do caraças que somos, de Tony Carreira, da coragem das mulheres na gravidez.... Um ror de coisas, bem encadeadas e com muito humor.»

11/12/2011

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores é uma inquisição do passado sobre o presente obscuro. Esse presente que padece com o peso da memória e sofre a debilidade quotidiana do simples existir. A trama procura desenvolver uma saga familiar fixada na ideia da casa, na figura do pai, o fantasma da mãe ausente e as mudanças impostas pelo tempo.

O livro fala sobre o fascismo em dois momentos: antes e depois da Revolução dos Cravos, cuja narração é feita por personagens que se sucedem e se alternam. É um romance escrito pelos próprios personagens que se revezam em depoimentos e comentários.

Lobo Antunes trabalha o romance no sentido de torná-lo intemporal, construindo uma amálgama do ontem e hoje. Os personagens são tipos sociais que não mostram nenhuma evolução com o passar dos anos, juntamente com a sociedade, e tornam-se difíceis de serem julgados. Não há personagens revolucionários, mesmos os pobres são conservadores. Eles têm o ponto de vista dos dominadores, reproduzem o discurso competente da ignorância em que vivem, devido a uma acomodação adquirida com o passar dos anos. Todos estão em um lado só. Todos são compostos a partir de monólogos interiores, delirantes, desagregados e fracassados, na finitude de seus próprios projectos existenciais, cauterizando sentimentos. As lutas sociais aqui não são o resultado da oposição entre a classe trabalhadora e o capital, mas um conflito de ordem cultural, religiosa e psíquica.

O romance é uma inquisição sobre a nulidade de um presente, cujo único projecto é a evocação do peso da memória. No entanto, o quotidiano é uma das forças maiores nos mecanismos da construção deste texto. O plano da representação ganha nele densidade social aguda e historicidade. O romance não é histórico, mas encontra em seu caminho a história. Razão e a desrazão confundem-se. O passado, o presente e o futuro são vividos simultaneamente, como filamentos da memória reflectindo-se no espelho quebrado das perdas da identidade. Uma fragmentada narrativa que, em vez de enfatizar a estética do fragmento, provoca a perda da comunicação de uma ideia, de uma representação distorcida do espaço comunicativo.

Relações de poder frustradas, relações amorosas fracassadas, que mostram um modus vivendi marcado por carências afectivas.

Quem são os inquisidores? Esse romance inquire sobre o passado, mas a partir da diversidade desconexa de identidades, ele inquire um país patriarcal, semi-agrícola, onde a corrupção, a ganância, a solidão, a ignorância generalizada, tanto dos poderosos quanto da gente humilde acabam por fazer um cocktail explosivo. O Manual dos Inquisidores nos fala sobre a relações de poder de um Ministro de Salazar - à volta do qual girará a própria narração do livro - que possuía “poderosas credenciais”, condecorado com a ordem nacional do: “você sabe com quem está falando?”

Mas, apesar de possuir tal “condecoração”, fora abandonado e traído pela esposa e a marca da traição estará presente em suas relações com as outras mulheres de uma forma ressentida. Um homem iludido, prepotente que acabará derrotado pela idade, pela senilidade. Um ministro despojado do amor e do poder, exilado numa clínica onde virá a perecer. Uma mistura da boçalidade camponesa e militar. Um perfil que reflecte a incultura, a passividade intelectual, as decepções afectivas e os impulsos do sexo, que representam parte da amostragem dessa história.

Todas essas facetas e uma narrativa envolvente montam o cenário plural que nos leva a acreditar na impossibilidade de uma comunicação efectiva nas relações humanas e a pensar na realidade que permeia o Manual e torna a todos inquisidores - réus de si mesmos.


Luiz Guilherme de Beaurepaire
Bons livros para ler
07.01.2011

10/12/2011

Dilma Barrozo: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Que livro é esse que nos faz ...?

Confesso que não conhecia o António Lobo Antunes e o nosso primeiro contacto foi simplesmente mágico, do tipo amor à primeira vista. Na verdade fui fisgada pelo fascinante título do livro "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Estava na livraria , escolhendo o que comprar e quando me deparei com ele, não hesitei, já sabia que tinha achado algo especial. Com um título tão poético e sugestivo, que nos leva a interagir de imediato, porque faz uma pergunta, não há como resistir: todos vamos querer saber qual a resposta para essa pergunta ou, pelo menos, que caminhos nos levam a ela.

É um livro apaixonante em que a trajectória de uma família é narrada pelas diferentes vozes de seus integrantes (vivos ou falecidos). Essas vozes se alternam, se misturam, se enroscam na narrativa, disputando espaço e combatendo durante todo o texto como o fizeram ao longo de suas vidas. A mãe em seu leito de morte, uma filha drogada, outra, a infeliz sobrevivente de dois casamentos desfeitos, um filho homossexual discriminado, o outro egocêntrico e ganancioso, o pai, (já falecido) frequentador assíduo de mesas de jogos e mulheres e a filha falecida na juventude. Além deles, membros oficiais da família, também narram a história a empregada (que também pertence à família) e um filho bastardo.

Não é um livro fácil. É preciso calma pois se trata de um texto para ser saboreado, até porque é dessa forma que avançamos na leitura: lenta e prazerosamente. A ausência de marcadores que definam de imediato de quem é aquela voz, nos obriga a constantes retornos a páginas anteriores.

Ressalto ainda outro aspecto super interessante da narrativa, a sua metalinguagem, as constantes referências ao ato de escrever, às palavras a serem utilizadas pelo personagem e principalmente ao autor, que várias vezes é citado nominalmente.

É um livro imperdível, daqueles que retomaremos várias vezes ao longo de nossas vidas.

por Dilma Barrozo
fonte: skoob
27.01.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...