21/12/2011

ALA no evento da Figueira da Foz

Tomamos de empréstimo o ficheiro áudio que Carlos Júlio partilhou no seu blog A Cinco Tons, bem como as suas palavras, sobre o evento na Figueira da Foz no passado fim de semana.




«Na semana passada estive, em trabalho, vários dias na Figueira da Foz. Por acaso, coincidiu com a ida do escritor António Lobo Antunes ao Casino Figueirense apresentar o seu último livro "Comissão das Lágrimas". [...] Respondeu às questões de alguns dos presentes, numa resposta circular em que abordou os mais variados temas. Eu gravei a conversa. Ei-la quase na íntegra (tirei apenas uma parte dedicada à tradução e à literatura, mesmo claro e acentuei com música os cortes que fiz). António Lobo Antunes fala da guerra, dos hospitais psiquiátricos, da loucura, dos livros, das mulheres óbvias, de António Barreto, do ser português, da mestiçagem, da cultura que não interessa a nenhum poder, de Rodrigues dos Santos, do periscópio, dos programas culturais na televisão, da pílula-Expresso, da falta de tempo para fazer amor, do povo do caraças que somos, de Tony Carreira, da coragem das mulheres na gravidez.... Um ror de coisas, bem encadeadas e com muito humor.»

11/12/2011

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores é uma inquisição do passado sobre o presente obscuro. Esse presente que padece com o peso da memória e sofre a debilidade quotidiana do simples existir. A trama procura desenvolver uma saga familiar fixada na ideia da casa, na figura do pai, o fantasma da mãe ausente e as mudanças impostas pelo tempo.

O livro fala sobre o fascismo em dois momentos: antes e depois da Revolução dos Cravos, cuja narração é feita por personagens que se sucedem e se alternam. É um romance escrito pelos próprios personagens que se revezam em depoimentos e comentários.

Lobo Antunes trabalha o romance no sentido de torná-lo intemporal, construindo uma amálgama do ontem e hoje. Os personagens são tipos sociais que não mostram nenhuma evolução com o passar dos anos, juntamente com a sociedade, e tornam-se difíceis de serem julgados. Não há personagens revolucionários, mesmos os pobres são conservadores. Eles têm o ponto de vista dos dominadores, reproduzem o discurso competente da ignorância em que vivem, devido a uma acomodação adquirida com o passar dos anos. Todos estão em um lado só. Todos são compostos a partir de monólogos interiores, delirantes, desagregados e fracassados, na finitude de seus próprios projectos existenciais, cauterizando sentimentos. As lutas sociais aqui não são o resultado da oposição entre a classe trabalhadora e o capital, mas um conflito de ordem cultural, religiosa e psíquica.

O romance é uma inquisição sobre a nulidade de um presente, cujo único projecto é a evocação do peso da memória. No entanto, o quotidiano é uma das forças maiores nos mecanismos da construção deste texto. O plano da representação ganha nele densidade social aguda e historicidade. O romance não é histórico, mas encontra em seu caminho a história. Razão e a desrazão confundem-se. O passado, o presente e o futuro são vividos simultaneamente, como filamentos da memória reflectindo-se no espelho quebrado das perdas da identidade. Uma fragmentada narrativa que, em vez de enfatizar a estética do fragmento, provoca a perda da comunicação de uma ideia, de uma representação distorcida do espaço comunicativo.

Relações de poder frustradas, relações amorosas fracassadas, que mostram um modus vivendi marcado por carências afectivas.

Quem são os inquisidores? Esse romance inquire sobre o passado, mas a partir da diversidade desconexa de identidades, ele inquire um país patriarcal, semi-agrícola, onde a corrupção, a ganância, a solidão, a ignorância generalizada, tanto dos poderosos quanto da gente humilde acabam por fazer um cocktail explosivo. O Manual dos Inquisidores nos fala sobre a relações de poder de um Ministro de Salazar - à volta do qual girará a própria narração do livro - que possuía “poderosas credenciais”, condecorado com a ordem nacional do: “você sabe com quem está falando?”

Mas, apesar de possuir tal “condecoração”, fora abandonado e traído pela esposa e a marca da traição estará presente em suas relações com as outras mulheres de uma forma ressentida. Um homem iludido, prepotente que acabará derrotado pela idade, pela senilidade. Um ministro despojado do amor e do poder, exilado numa clínica onde virá a perecer. Uma mistura da boçalidade camponesa e militar. Um perfil que reflecte a incultura, a passividade intelectual, as decepções afectivas e os impulsos do sexo, que representam parte da amostragem dessa história.

Todas essas facetas e uma narrativa envolvente montam o cenário plural que nos leva a acreditar na impossibilidade de uma comunicação efectiva nas relações humanas e a pensar na realidade que permeia o Manual e torna a todos inquisidores - réus de si mesmos.


Luiz Guilherme de Beaurepaire
Bons livros para ler
07.01.2011

10/12/2011

Dilma Barrozo: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Que livro é esse que nos faz ...?

Confesso que não conhecia o António Lobo Antunes e o nosso primeiro contacto foi simplesmente mágico, do tipo amor à primeira vista. Na verdade fui fisgada pelo fascinante título do livro "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Estava na livraria , escolhendo o que comprar e quando me deparei com ele, não hesitei, já sabia que tinha achado algo especial. Com um título tão poético e sugestivo, que nos leva a interagir de imediato, porque faz uma pergunta, não há como resistir: todos vamos querer saber qual a resposta para essa pergunta ou, pelo menos, que caminhos nos levam a ela.

É um livro apaixonante em que a trajectória de uma família é narrada pelas diferentes vozes de seus integrantes (vivos ou falecidos). Essas vozes se alternam, se misturam, se enroscam na narrativa, disputando espaço e combatendo durante todo o texto como o fizeram ao longo de suas vidas. A mãe em seu leito de morte, uma filha drogada, outra, a infeliz sobrevivente de dois casamentos desfeitos, um filho homossexual discriminado, o outro egocêntrico e ganancioso, o pai, (já falecido) frequentador assíduo de mesas de jogos e mulheres e a filha falecida na juventude. Além deles, membros oficiais da família, também narram a história a empregada (que também pertence à família) e um filho bastardo.

Não é um livro fácil. É preciso calma pois se trata de um texto para ser saboreado, até porque é dessa forma que avançamos na leitura: lenta e prazerosamente. A ausência de marcadores que definam de imediato de quem é aquela voz, nos obriga a constantes retornos a páginas anteriores.

Ressalto ainda outro aspecto super interessante da narrativa, a sua metalinguagem, as constantes referências ao ato de escrever, às palavras a serem utilizadas pelo personagem e principalmente ao autor, que várias vezes é citado nominalmente.

É um livro imperdível, daqueles que retomaremos várias vezes ao longo de nossas vidas.

por Dilma Barrozo
fonte: skoob
27.01.2010

Sílvia Frota: opinião sobre Os Cus de Judas


Como sempre, é difícil mergulhar na narrativa de Lobo Antunes. Sempre me enrosco nas palavras que se enovelam e me confundem. Fico tensa, nervosa. Mas sigo adiante. Logo passa e, enfim, paro de resistir e me deixo levar por ele.

Uma história triste, violenta, dura. Sobretudo real. Não que a guerra pela libertação de Angola tenha sido assim. Não que se trate de um registo fidedigno da história de uma nação. Não é dessa realidade que falo. É da realidade humana.

Os dramas, as tragédias, as atrocidades são todos tratados num mesmo tom. Incorporam-se ao dia a dia da tropa. Como acordar e tomar café. Banal. Trivial. A força da narrativa de Lobo Antunes provoca impacto. Endurece e enternece ao mesmo tempo. A história é narrada numa noite, num encontro casual com uma mulher qualquer, num bar qualquer, vivendo uma vida qualquer. E o leitor segue de Angola a Lisboa e vice-versa sem se dar conta.

O nonsense da guerra contraposto ao dilaceramento daqueles que tomam parte nela, directa ou indirectamente. O absurdo, a impotência. A desimportância das dores, do sangue, da devastação.

Uma guerra esquecida ou, como quer o narrador, inexistente. “Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem Pide, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles, marços e abris sem significado apodrecem em folhas de papel pelas paredes, com os domingos a vermelho à esquerda numa coluna inútil, Luanda é uma cidade inventada de que me despeço, e, na Mutamba, pessoas inventadas tomam autocarros inventados para locais inventados, onde o MPLA subtilmente insinua comissários políticos inventados...” (págs. 193/194). E a certeza que fica é de nada mais existir além dela, da guerra. O narrador está lá, preso, encurralado, sem escapatória.

Este é o segundo livro de Lobo Antunes que leio. O primeiro foi “Memória de Elefante”. Ambos perturbadores, com certeza. Ainda mais por saber que, apesar de ficcional, o autor serviu ao exército português em Angola.

Ficha Técnica: “Os Cus de Judas”, de António Lobo Antunes, Editora Alfaguara, 2ª ed., Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

Sílvia Frota
01.08.2009

Felipe Damasio: opinião sobre Os Cus de Judas

Linguagem e conteúdo

Confesso que [foi] a fama do autor que me levou a ler esta obra, pois Lobo Antunes é considerado por muitos o melhor autor vivo em nosso idioma, [...]. Optei por ler “Os Cus de Judas” por muitos considerarem sua obra-prima, tinha enormes expectativas, todas positivas.

A obra trata da guerra de independência de Angola, mas para aqueles que querem ter um relato fiel da guerra, o livro decepciona. Ele é quase uma autobiografia ou talvez uma visão egocêntrica da guerra. Os relatos dizem respeito à angústia e experiência de uma pessoa no campo de batalha, em nenhum momento existe uma reflexão sobre o outro lado ou as causas colonialistas que levaram o exército português a Angola. É a visão do colonizador sobre a estranheza da colónia rebelde que não aceita a invasão de um povo estrangeiro. Com certeza o livro não atingiu sua fama pelo conteúdo que deixa um leitor crítico irritado com a falta de sensibilidade do autor-personagem.

O grande mérito de Lobo Antunes está na forma, para mim não existe ninguém que escreveu da mesma maneira antes dele. Ele é totalmente original, o que explica sua fama e a devoção que causa em seus leitores. Se existe algo entre prosa e poesia, ninguém fez melhor que o autor português. Seu texto é denso, extremamente denso, cada página é vencida a muito custo. Eu pensei em abandonar o livro por diversas vezes. Poderia considerar que o texto de Antunes intimida e desafia o leitor a continuar até o próximo capítulo. O ponto anedótico para o leitor brasileiro são alguns termos portugueses que só podemos especular sobre a que se referem, como gelado de pauzinho (picolé?) e agência de caixões (funerária?).

A linguagem de Lobo Antunes é ácida, não poupa ninguém, tampouco ele mesmo. É não linear, o leitor nunca sabe o que será narrado, quando ocorreu e principalmente onde. O tema da sexualidade permeia todo o livro, com descrições dignas de Jorge Amado. Não se pode considerar que o texto de Lobo Antunes seja uma leitura divertida, é um texto para se apreciar. Um trecho escolhido ao acaso que sintetiza a narrativa de Lobo Antunes com sua acidez e densidade “Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz às vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame”.

Quase não há falas e os diálogos inexistem. Poucos parágrafos, a narrativa é contínua e sem pausas, o que às vezes deixa o leitor tonto e confuso sobre o que está lendo. Cada frase é bem construída, e elas se sucedem sem refresco.

O que eu realmente não gostei, além do conteúdo, é o não respeito a várias regras gramaticais da língua portuguesa. Eu não acho que por mais famoso e importante que seja um escritor ele seja maior que nossa língua. Ao escrever sem respeitar as regras, o escritor dificulta a leitura e nos faz perguntar se as regras do português são feitas apenas para nós mortais, se grandes escritores não devam respeitá-las. Minha opinião é que certamente as regras gramáticas devem ser respeitadas por todos, inclusive para grandes escritores como António Lobo Antunes.

por Felipe Damasio
fonte: skoob
18.08.2009

Ler Mais Ler Melhor: o livro da vida de Pedro Abrunhosa - O Esplendor de Portugal

09/12/2011

Antonio Danise: opinião sobre As Naus


Le navi viajam no nevoeiro de um inconsciente confuso, atordoado por anos de guerra colonial inútil, da Angola independente a um império já desaparecido, para uma Lixboa capital de um dos países europeus mais pobres.

Angola e as consequências da guerra colonial mudaram a vida a Lobo Antunes, uma experiência como médico na linha de combate em Luanda, no início dos anos setenta, entre hospitais psiquiátricos e pessoas desesperadas: de uma parte os angolanos, divididos em facções rivais, entusiasmados com a longa e desejada independência finalmente conquistada, após anos de lutas e combates e que pouco depois haviam desencadeado uma longa e sangrenta guerra civil, e do outro lado os portugueses, obrigados a fugir de Luanda, com a perspectiva do regresso, depois de anos de guerra, perdidos, a uma Lisboa onde não conhecem mais ninguém, onde não possuem nem mesmo um lugar para viver, e muito menos um emprego.

A tragédia destas pessoas que regressam a um país que não lhes pode acolher, é o que nos diz Lobo Antunes, descrevendo a atmosfera trágica, paradoxal às vezes, grotesco, com uma escritura visionária, um estilo que não leva em conta as mais elementares regras da narrativa convencional, talvez para dar a ideia das condições de esquizofrenia e de confusão de que são vítimas, sendo repentinamente expulsos, após terem vagueado em torno de uma cidade indiferente e egoísta, e levados para um sanatório onde irão terminar os seus dias.

Um livro que não se termina nunca de ler e que precisamos recomeçar imediatamente logo que chegamos à última página, para tentar compreender de que coisa se fala ainda hoje.


Antonio Danise
não datado
[tradução original do italiano de Deise Maria Di Lascio Pestana, revista por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...