4 de dezembro de 2011

Liliana Costa: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Além de escritor, António Lobo Antunes é médico psiquiatra. A dor e o desespero, sentimentos que se enfrentam ao lidar com a loucura e fragilidade humanas, estão visíveis no mundo que recria. O autor destaca de forma insistente que as carências afectivas, não sendo resolvidas, vão sempre cobrar no futuro. O médico sabe que as cicatrizes não se fecham por magia, há que curá-las e cuidar para que as feridas sejam menos profundas.

O romance conta a saga de uma família da classe média portuguesa: a narrativa estende-se por quatro gerações. Lobo Antunes narra de forma fragmentada, com uma aparente incoerência ou dificuldade formal, que reflecte a falta de fluidez e harmonia do mundo interior das personagens. O tecido das frases, intercalando diferentes épocas e cenários, resulta estranho e nebuloso no início da leitura; o relato vai seguindo com saltos atrás no tempo, enquanto repete elementos que giram sobre si de forma obsessiva. Aos poucos, o leitor entra em sintonia com o proposto e familiariza-se com as mudanças de ritmo.


ESTRUTURA SIMÉTRICA:

A estrutura deste romance é quase matemática: o relato tem cinco partes, cada uma dedicada a um protagonista. Ao mesmo tempo, cada parte é composta por cinco monólogos: três deles correspondem aos protagonistas, os outros dois, sempre intercalados, correspondem a personagens que não pertencem à família, salvo uma excepção.

É interessante esta ordem simétrica entre a desordem inerente ao mundo narrado. Os recursos estilísticos tentam limar as arestas do conteúdo num esforço sistemático para impedir a explosão da loucura. Esta rompe com toda a sua força no final, após o desenlace do drama familiar, que é a morte de Nuno.

A estrutura simétrica introduz harmonia e, ao mesmo tempo, fornece instrumentos que orientam o leitor, dando-lhe pistas. Ao familiarizar-se com a estrutura, ele pode apoiar-se nela para chegar aos temas de fundo.

Através dos monólogos, temos diferentes vozes narrando, o que implica, necessariamente, diferentes pontos de vista. Estas visões distintas sobre a vida da família e das suas personagens, ajudam a compor o cenário geral. E quando aquele que fala está fora do núcleo familiar, enriquece-o com novas perspectivas.


O ELEMENTO REPETITIVO:

A narrativa apoia-se em frases que se repetem uma e outra vez em diferentes contextos, aumentando, em cada repetição, a sua carga semântica. As palavras reiteradas destacam-se a partir do contexto como sublinhadas a vermelho no sentido de anunciar um significado oculto.

Este recurso é utilizado de duas formas diferentes: por vezes as frases repetidas pertencem a um diálogo que marcou a personagem no passado; outras que se repetem são palavras que descrevem cenários que acompanharam a personagem ao longo da vida e que lhe são queridos ou traumáticos de maneira sintomática. As duas versões intercalam-se para reforçar o efeito.

Estas palavras ou frases tentam resumir ou definir a personagem, escolhendo alguns elementos da sua história num esforço para sintetizá-la. Resgatando o essencial não serão necessários detalhes supérfluos. Tudo aquilo que está fora do relato não é substancial, ou será desnecessário. Lobo Antunes selecciona os termos que são suficientes para apresentar as suas personagens e expor as características da sua dor. É por isso que todas essas expressões têm uma componente traumática.

A intenção do autor é colocar-nos em contacto com as obsessões das suas personagens. Daí a importância da repetição. Procura concentrar-se em conseguir que a narrativa se sustenha com umas quantas palavras que representem o todo e que o discurso não avance, que seja monótono e brutal nessa monotonia. A acumulação tem um efeito imediato: a atenção concentra-se e o conteúdo carregado, o ambiente é claustrofóbico, envenena o ar de emoções não expressas senão em voz baixa, nas entrelinhas, quase com pudor.

Analisemos algumas destas frases:

"- O que foi, Álvaro?
- Nada. Dorme. Nada."

Este é, talvez, o diálogo que se repete com mais frequência, e tem maior alcance. Porque o que transmitem estas duas frases aparentemente quotidianas, não se limita às duas personagens dialogantes (Álvaro e Cláudia), mas pode ser atribuído a qualquer um dos casais da família em questão.

Num contexto diferente, estas duas frases poderiam exprimir a cumplicidade de um casal, um entendimento tácito do tipo: sossega que vou lá eu, descansa tu agora. Porém, em A Morte de Carlos Gardel, as frases exprimem uma quebra de comunicação crónica, uma absoluta falta de interesse. Perante o choro do seu filho Nuno, Álvaro levanta-se para vê-lo, e quando a mulher lhe pergunta o que se passa, ele mantém-na fora da situação: "Nada. Dorme. Nada". Os leitores intuem que o seu desejo é que ela o deixe a sós com o filho.

O diálogo soa sem parar, como um refrão que resume e evidencia a falta de comunicação. A presença da palavra "nada", no início e no fim, é importante e decisiva. Resume o vazio.

Para ambientar este diálogo temos alguns objectos chave: um limoeiro e a pilha de roupa por lavar, no sótão de Benfica. E a imagem da "cidade cor de laranja imóvel nas vidraças como um anjo esquartejado numa cruz", que se funde na febre de Nuno.

"Vai para a sala, some-te, sai daqui"

É uma frase de Cláudia ao responder a Álvaro quando ela lhe conta que está grávida. Ele, em vez de celebrar como seria de esperar, confessa a sua falta de amor.

A determinação da Cláudia (vai, some-te, sai) é fruto do seu carácter independente, mais notório em relação aos outros membros da família que são personagens dependentes e com falta de iniciativa. Ela, pelo contrário, toma decisões, reage coerentemente, age pensando em si, não em ferir quem lhe ofenda, que é a tónica de todos os outros.

E como pano de fundo para este diálogo temos a chuva, e os baldes, panelas, tachos e caçarolas para amparar as goteiras que provoca.

"Que piroseira pegada"

Esta expressão é de Nuno para tentar resumir a relação díspar entre o seu pai e Raquel. O insulto, ou a insolência, são o resultado do ressentimento: Nuno não suporta que o pai o tenha abandonado ainda por cima por uma mulher vulgar, e lamechas. A fealdade de Raquel é o sinal, para Nuno, da decadência do pai. "Que piroseira pegada" exprime o seu desgosto pela escolha de Álvaro, a sua rejeição da mulher que o pai escolheu, e do mundo que a rodeia, a sua classe social.

Os objectos que definem a piroseira são: os leques, as máscaras, os arlequins, os almofarizes de bronze, a cantoneira das chávenas, as tigelas chinesas com o friso doirado, etc.

"Pareces uma noiva, Raquel"

É com estas palavras que o pai de Raquel resumia o carinho e a ilusão que tinha ao contemplar a filha, o seu futuro. Ao recordá-las com insistência, podemos intuir a frustração de Raquel. O pai acreditava nela, elogiava-a, desejava-lhe um bom marido. No entanto, a vida desiludiu-a com Álvaro, a quem ela chama desesperadamente "fofo". Álvaro corrige-a irónico e enfastiado, "Não me chames de fofo".

O objecto evocado para ilustrar esta memória é o vestido branco.

"Sorriam" e "Olhe para ali"

São duas frases da infância de Silvina, a empregada de Raquel. Seu pai, fotógrafo, trabalhava em casa. A criança cresceu ouvindo estas duas ordens cujo sentido era ficar-se alheio à realidade para que a foto fosse bem conseguida. Silvina amava o pai cujas palavras ficaram como um ideal impossível de concretizar.

De cada vez que Silvina lembra as ordens do pai atrás da câmara, evoca também a sua morte, sempre com estas palavras: "Morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras".

"... o apito da fragata ..."

No monólogo de Joaquim, esta imagem auditiva é repetida nove vezes. É o som do navio que o levou à Madeira. Para Joaquim era um sinal, porque desde que embarcou, a sua vida foi arruinando. Esta é a razão para que o apito, intimamente relacionado com a sua partida, se tenha tornado como a lembrança da sua infelicidade. É a imagem da ruptura: haverá um antes e depois da Madeira.

Para que Joaquim entre em cena só falta o pijama, o cão, o baralho de cartas, as faias e os loendros da casa da Gomes Pereira. Elementos que por si só, uma vez enumerados, descrevem a solidão e a decadência.

O cão arranhando os azulejos da cozinha é uma imagem carregada de desespero, aparece muitas vezes como um grito sufocado. Também tem a conotação de um ambiente claustrofóbico. Quando Joaquim morre, o animal recusa-se a comer. E para evitar o seu sofrimento, decidem dar-lhe uma injecção de potássio. Álvaro reclamará a mesma injecção redentora para ele a fim de evitar o sofrimento que lhe provoca a agonia do filho, um tratamento dado aos animais por piedade e não ao homem.

"Teresinha"

É a palavra que Cristiana evoca constantemente. Era assim que o pai chamava pela mãe quando queria fazer amor com a mulher. Ao ouvir o nome de sua mãe, Cristiana sentia-se a mais entre o casal, o que lhe provocava ciúmes e raiva. Por isso também é repetida a frase em que a criança reclama um lugar para si: "Deixem-me dormir com vocês".

O objecto que acompanha esta cena é o colchão da cama e o ruído que produz.
  
"Temos tudo a nosso favor para recomeçar a vida do princípio e ser felizes"

A afirmação é como que uma cantilena de Raquel. Estas palavras revelam o seu optimismo, por um lado, e o seu desejo de negar a realidade, por outro. O leitor sabe que não é assim, eles nada têm a seu favor para recomeçar a vida do princípio e ser felizes.

Alzira define-se como uma pessoa senil, não tanto por estar alojada num asilo, mas pela imagem recorrente de passear pela casa com a trela do cão sem o cão, ou pela segurança com que sustenta de que os loendros chamam por si.

As memórias da guerra na Alemanha resumem-se em poucos elementos para Cláudia: o esconderijo no sótão, os aviões que passam, o sangue dos coelhos, as muletas do pai e o anel que a mãe furtou a um cadáver.

As amigas de Cláudia estão contidas em duas frases: "... pior que um marido só um ex-marido", e "pareces uma domadora de chimpanzés".

A debilidade e a imaturidade de Ricardo são expressas na afirmação que Cláudia pronuncia com algum desprezo: "Não chores, Ricardo, não chores". E a dependência que ele tem em relação a uma mulher mais velha resume-se a estas duas: "Não se esqueça de o mandar lavar os dentes antes de se deitar" e "Se por acaso me separar de ti na semana seguinte estás a viver com a tua mãe".


O PESADO FARDO DA HISTÓRIA

Em A Morte de Carlos Gardel, o passado das personagens é uma âncora, um peso do qual não se podem livrar. Estão constantemente retrocedendo, farejando e agitando os pesadelos das vivências, de forma que o passado será sempre a única explicação das suas misérias. A infância marcou estas personagens a sangue e fogo, as experiências negativas são estigmas que as condenam à infelicidade. Mesmo os momentos felizes surgem como paraísos perdidos dos quais só se pode voltar através da memória.

Devido a esta constante regressão no tempo, a narrativa tem de girar necessariamente sobre si mesma, não há projecções do futuro, as personagens aceitam a sua herança como uma fatalidade e não aspiram converterem-se em alguém distinto, não consideram a possibilidade de mudar os padrões familiares.

A primeira frustração ou trauma afectivo desta saga é o abandono de que sofre Joaquim, avô de Álvaro. Tinha estado onze meses na Madeira e quando regressou da ilha (devido a um problema obscuro), a mulher deixa-o para ir viver com outro. A dor imensa que lhe causa a traição da mulher é o ponto de partida de todos os males, a origem da decadência de Joaquim e das três gerações que se lhe seguem.

Também o filho, Tó Mané, sofre o mesmo abandono quando a mãe saiu de casa, tendo sido uma criança que cresceu sem amor. O pai não soube protegê-lo uma vez que ele próprio não suportava a sua dor, o sentimento de perda isolou-o. A falta de afectos será então uma constante; um veneno que os converte em seres murchos, sem vida.

Após Ester abandonar Joaquim e Tó Mané, será este que abandonará os seu filhos Álvaro e Graça. Álvaro depois abandona Cláudia, sua mulher, e o filho Nuno, e mais tarde Raquel mais ao filho que terá com ela, fruto do casamento.

A perda da sua mulher provoca em Joaquim uma reacção negativa: não voltar a amar para não voltar a sofrer:

"Deus me livre de gostar das pessoas" (pág. 33)

Esta posição é falsa, não é verdade que Joaquim não goste, tanto que acaba por cuidar dos netos quando Tó Mané os abandona. Porém, o que tem a dar está contaminado pela perda não superada, e nega-se a criar laços:

"- Gostar dos outros que é a melhor receita para um mau bocado, eu graças a Deus salvei-me disso e sou feliz...

- ... O segredo, senhores, é não gostar, reparem em mim que por não gostar sou livre..."

É interessante assinalar como o diálogo anterior está intercalado no romance com as acções de Tó Mané, seu filho, que procura angustiado pela mãe, atitude à qual Joaquim (aquele que não gosta) reage com ternura tentando acalmar o filho (ele que não gosta de ninguém), ao mesmo tempo que esconde as lágrimas delatoras atrás de uma revista para que o filho não o veja a chorar.

Lobo Antunes consegue transmitir os sentimentos das suas personagens sem dizê-los directamente, nem narrando ou descrevendo-os, apenas reproduzindo palavras e cenários como que em colagens, para que o leitor tire as suas próprias conclusões e compreenda as estranhas acções das personagens.

O dramático é que a atitude de Joaquim, que é uma atitude defensiva, em vez de o proteger, ainda lhe faz pior, empobrece-o de sentimentos, e esta pobreza será transmitida de geração em geração, como uma pesada herança. Não sendo capazes de amar e ser amados, serão vazios e sós. O desafecto em A Morte de Carlos Gardel destrói, anula, enlouquece e mata.

Lobo Antunes enuncia a situação dramática para que o leitor note a gravidade da falta. Os traumas não resolvidos são nocivos e destroem quem temos por perto. É importante o diálogo, a compreensão e a confiança em nós próprios, é o que escreve nas entrelinhas o autor psiquiatra para nos alertar.

Outra personagem interessante para análise é Graça. Foi abandonada pelo pai quando da morte da mãe, em casa do avô Joaquim. As duas pessoas que a ampararam foram o seu irmão Álvaro e a criada Alzira.

A orfandade partilhada faz com que ganhe amor pelo irmão protector, ("Lembras-te de quando o pai me trouxe como te trouxe a ti?"), um amor que a preenche e satura, ao ponto de não conseguir apaixonar-se depois por qualquer outro homem. Graça viverá com uma mulher, Cristiana, mas a relação com ela não parece de uma mulher apaixonada, mais parece uma acto voluntário de rejeição dos homens. Álvaro foi carinhoso com sua irmã desamparada, mas Graça interpreta mal esse afecto que recebe e distorce-o. Ela não o ama como uma irmã, ama-lo como uma mulher.

Acaba por ser ainda mais doloroso o abuso que Graça inflige a Alzira, que foi quem cuidou dela ternamente desde criança. Infelizmente este amor de Alzira humilha Graça, fá-la lembrar a ausência dos pais, e a saudade que deles tem. Já sei que gostas de mim, mas eu não quero o teu amor, é o amor de outros que me faz falta, parece dizer Graça à velha criada.

Por outro lado, trocando as disposições, Alzira lembra-lhe os seus problemas da juventude, a falta de charme, os óculos, a sua fealdade, de forma absurda: negando-os. Para Alzira, Graça é a sua menina bonita, e traz ao pescoço um fio com uma foto de Graça que a esta lhe parece horrorosa. Esse desfasamento provoca a agressão de que Alzira é vítima, porque irrita a pessoa querida, violenta-a e coloca em evidência a ignorância contra a qual se despedaça, na incapacidade de compreender-se, o amor cego e não desejado.

Quando existe carinho em A Morte de Carlos Gardel, é contra-producente. Graça afirma:

"Na nossa família as pessoas nunca precisam de ninguém" (pág. 96)

Certamente precisam, mas os que acodem não são quem deviam acudir. Não é que não precisem, é que não contam com quem deviam, e isso é algo muito diferente.

E fora da família também há desencontros: Cláudia é abandonada por Álvaro e quem a consola é Ricardo, que a mima, ouve-a, dá-lhe afecto. No entanto, quando Cláudia decide regressar a Alemanha, nem sequer se despede de Ricardo. O único que a ama nem existe para ela.

Raquel gosta de Álvaro, mas Álvaro não a suporta.

Cristiana quer visitar a mãe e regressar a casa, mas é a mãe que já não a quer ver.

Enquanto o texto se torna tenso pela angústia das personagens, o autor faz uma ruptura com belas descrições do mundo exterior: a natureza, as praias, as vistas de uma varanda, o rio, etc. São cenas refrescantes: a paisagem exterior embeleza esse mundo interior tão atormentado.


O FRACASSO DO PRESENTE

A morte de Nuno é o desenlace da narrativa, facto que ocorre no presente da narração. A agonia do tóxico-dependente está na origem do romance. Quando as personagens enfrentam este facto, a experiência da agonia, remete-os para o passado onde viveram situações idênticas:

- Álvaro recorda a perda da mãe ("um rosto num travesseiro / gente de luto / uma mulher que me oferecia sopa") e do avô ("... o meu avô a lutar contra o baralho nas paciências do serão, ambos surdos para o cadelo que raspava os azulejos da cozinha com as unhas, o cadelo que recusou comer após a morte do velho, ganindo de cócoras de reposteiro em reposteiro").

- Graça, a perda da mãe: "... e vem-me à memória a minha mãe na clínica".

- Silvina, a do pai: "porque morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras".

- Cláudia recorda os mortos na guerra.

E também lembram doenças: Álvaro da operação ao coração, Cláudia das muletas do pai, Álvaro e Cláudia de uma febre que Nuno quando pequeno, etc.

As imagens surgem por associação de ideias, sensações (odores, visão da clínica, etc.), ou palavras. E o movimento é sempre para trás, o futuro não existe, nem sequer para Raquel que dará à luz o último membro da saga.

As regressões são por vezes agradáveis, aprecia-se o que se evoca com nostalgia. Por exemplo, quando Graça se lembra do irmão vestindo-a, Raquel da sua meninice vestida de branco, Beatriz da sua infância em Luanda ("Gosto da minha mãe", "Ai, rapariga, rapariga"), Silvina da presença do seu pai no estúdio de fotografia.

Em A Morte de Carlos Gardel é impossível alienar-se do passado. O presente depende dele, que o molda e condiciona. Os membros desta família não são livres de voar longe, herdam o trauma e a dor do avô e assumem-nos como seus. Estão tão feridos que são incapazes de notar o erro, e sem querer, ainda o multiplicam.

Em Nuno os erros somam-se acumulados e ele entrega-se às drogas. Não é capaz de sobreviver à situação. Nem o pai foi capaz de assumir a paternidade, afastou-se de Cláudia quando esta ficou grávida. Não estava à altura da responsabilidade. Mas o quadro é ainda mais complicado para Nuno porque Cláudia nem sequer é uma mãe carinhosa, o rapaz tem medo de ficar só, de ser substituído pelos amantes da mãe, da escuridão, do abandono. Nuno sente o ambiente, intui o que lhe espera. Por isso foge.

Nuno representa o presente da família, exemplo claro de um ser que não sabe relacionar-se com o mundo:

"Não gosto de ninguém e ninguém gosta de mim" (pág. 282).

Há uma mensagem velada nesta imolação de Nuno: com amor, a tragédia ter-se-ia evitado. Diz Álvaro:

"... se eu pudesse voltar atrás, ter ficado com a tua mãe, não me casar com a Raquel..." (pág. 46).

O outro desfecho é a loucura de Álvaro. Quando morre o filho, e assumindo a culpa, descontrola-se. A sua obsessão com Carlos Gardel, já antiga, transtorna-o por completo. Os episódios com Albino Seixas e a mulher são patéticos e as cenas delirantes.

Cláudia é a personagem com maiores recursos. Ela, que não pertence à família senão através do casamento, decide, após a morte do filho, afastar-se e recomeçar em outro lugar.. Nela existe um plano de futuro, uma vontade de renovação.


As citações foram tiradas da edição de bolso de Random House Mondadori, ano 2004, tradução de Mario Merlino.*


* Para a tradução do artigo as citações são da 3ª edição, 1994, Dom Quixote. Os itálicos e negritos não são do texto original


Liliana Costa
07.11.2006
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

3 de dezembro de 2011

Margaret Carson: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


O romancista português António Lobo Antunes dedicou grande parte de sua carreira literária para evocar o período da história de seu país a partir dos anos finais da ditadura de Salazar, que terminou em 1968, com a transição tumultuosa para a democracia após a Revolução dos Cravos de 1974. Em O Manual dos Inquisidores, Antunes traz ao leitor a o relato impiedoso de um regime ditatorial brutal derrubado por uma revolução que capturou a atenção do mundo quando fotografias de civis colocando flores nas espingardas dos soldados foram passadas. Apesar de desenvolver um trabalho ficcional, Antunes incorpora as especificidades desse tempo no seu romance, usando funcionários governamentais da vida real como personagens secundárias, e recriando crimes e abusos que estão ainda vivos na memória de muitos portugueses.

À primeira vista, o romance parece imitar a estrutura de um estudo clínico, com passagens organizadas por capítulos intitulados de "Relato" ou "Comentário", mas o fluxo da consciência narrativa está longe de ser de tal forma simplista. O leitor deste ambicioso romance tem de juntar os relatos fragmentados de quase vinte personagens diferentes, cujas vozes distintas se movem para a frente e para trás no tempo ao longo de um período de quarenta anos. Esta narrativa não-linear e inconstante destabiliza o leitor, mas a complexidade da história acaba por tomar forma. Antunes joga com a noção de documentário, porém o relatório que oferece tem mais que ver com a memória fragmentada do que com uma transcrição científica. O autor aborda uma história conturbada, não estabelecendo o que dizem os factos, mas enfatizando o quanto é difícil de avaliar e compreender o passado.

Os tópicos principais da narrativa convergem na figura do Sr. Francisco, um ministro ficcional do gabinete de Salazar, dono de uma enorme quinta e casa senhorial nos arredores de Lisboa. "Faço tudo o que elas querem, mas não tiro o chapéu para que se saiba quem é o patrão", afirma, através da memória do seu filho anos mais tarde. Ser patrão significa poder escolher as criadas, a quem ele trata como gado (na verdade, um alvo da sua predação sexual vive no celeiro, e outra, grávida dele, dá à luz num estábulo, assistida por um veterinário).

De tempos a tempos o Primeiro Ministro reúne com o Sr. Francisco na quinta, sendo a sua visita precedida pela Guarda Nacional que abate dezenas de corvos para que o ditador paranóico não viesse a confundir  o grasnar das aves com uma multidão escarnecedora. O ditador idoso, cercado por um séquito de bajuladores secretários e guarda-costas que se dirigem a ele como "Professor Salazar," toma chá com o ministro, enquanto discutem quem deve ser interpelado e mandado para a cadeia. Depois de terem decidido, um simples telefonema para o "Major", o chefe da polícia secreta de Portugal, é o suficiente. O leitor reconhece o modus operandi do estado totalitário em todo o romance: os ficheiros secretos, os interrogatórios e as torturas, os assassínios sem julgamento.

A Revolução dos Cravos vem trazer efusiva alegria: "a rádio estilhaçava-se em cantorias, os automóveis buzinavam, as fábricas apitavam sem cessar" e o pandemónio instala-se na quinta. O ministro sabe que é hora da vingança, e despeja os criados e funcionários da propriedade, chamando-os "comunas" e ameaçando matá-los, enquanto atiça cães pastores alemães que percorrem a quinta. Um mês depois, quinta e casa está em ruínas (provavelmente saqueado pelos revolucionários que temia, embora não vemos essa cena), e o ex-ministro definha. Poucos anos depois é vítima de um derrame cerebral e acaba os dias num lar de idosos, impotente e mudo, meditando sobre as cenas de brutalidade do seu passado, incluindo sua própria iniciação como um jovem oficial sobre a violência da guerra de guerrilha na Angola colonial. Antunes sugere que essa exposição precoce à violência teve consequências a longo prazo para o ministro. Uma vez doutrinado para o uso da violência e da tortura para instilar o medo nos habitantes da colónia, o ministro estava bem preparado para assumir um papel semelhante na sua vida pessoal e pública.

O tradutor Richard Zenith fez um trabalho extraordinário que está sintonizado com as vozes características do original. Portugal entretanto tornou-se membro da União Europeia há mais de vinte anos, mas em O Manual dos Inquisidores, António Lobo Antunes deixa claro não permitir que o recém-próspero Portugal democrático esqueça o seu passado totalitário.


Margaret Carson
2007
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

26 de novembro de 2011

Site aberto para mensagens e dedicatórias dos leitores a António Lobo Antunes

Caros leitores de António Lobo Antunes:

Abrimos este blog aos leitores que de alguma forma queiram expressar o seu agradecimento ao autor e dirigir-lhe algumas palavras nesse sentido, ou outra mensagem que achem importante. Mensagens que não reflictam opinião de leitura concreta de um título (essa matéria já é tratada de forma diferente), e que, por falta de espaço e/ou visibilidade das caixas de comentários, queiram partilhá-las de forma mais directa com os outros leitores e visitantes deste blog. 

Antes de avançar para as condições que permitam expressarem-se sobre/ao escritor, devo alertar para o facto de que António Lobo Antunes (ALA) não é utilizador da Internet pelo que o blog não é lido de forma directa ou por vontade própria do escritor. Se tem conhecimento de artigos aqui colocados é tão só através de terceiros, pessoas próximas de ALA que visitam este espaço - não sabemos com que regularidade - e lhe transmitem um ou outro assunto. Portanto, o facto de serem colocadas aqui as vossas mensagens não garante que será do conhecimento de ALA, e nem devem esperar qualquer tipo de resposta do escritor aos vossos textos. Assumimos que quem pretende partilhar este tipo de mensagens aceita que o está a fazer publicamente, e nesse sentido, prestar a sua homenagem pública ao escritor. Deste modo, as mensagens que serão publicadas não devem ser pessoais ao ponto de conter qualquer tipo de pedidos ou de sugestões, uma vez que nem sequer e-mails que nos chegam com essas características são reencaminhados a ALA ou ao seu editor.

Fica aberto, assim, no nosso blog um espaço para as mensagens dos leitores que queiram dirigir-se a António Lobo Antunes, em forma de dedicatória pública. Para isso, devem remeter o vosso texto para o e-mail jalexramos@gmail.com, com o nome, apelido e localização: se reside em Portugal basta referir  o concelho ou freguesia de residência, se fora de Portugal deve referir o país, estado (se aplicável) e cidade. A seguir, as condições essenciais para o envio das mensagens:

  • Os textos devem vir acompanhados sempre pelo nome, apelido e localização do leitor (ver parágrafo anterior).
  • Permite-se que se incluam na mensagem os seguintes tipos de ficheiros: imagens, fotos, vídeos e audio (nos formatos populares), desde que não sejam violados direitos de autor. No caso dos ficheiros serem propriedade de terceiros, deve ser garantida a sua autorização para publicação, e virem acompanhados da identificação do autor e fonte (caso venha da web, será o respectivo link).
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As mensagens serão publicadas sob o tópico "mensagens dos leitores", em momento oportuno e sem qualquer prazo após avaliadas e aprovadas, tendo reunido todas as condições acima descritas sem excepção. Qualquer mensagem que suscite dúvidas ou gere conflito após a sua publicação, será definitivamente removida.

Os interessados podem verificar o teor das dedicatórias já existentes, clicando no tópico "mensagens dos leitores". Nota: estas mensagens que foram publicadas até à data não estão ao abrigo de todas as condições acima referidas, porque então não eram exigidas.

25 de novembro de 2011

Fernando Martins: opinião sobre Comissão das Lágrimas

Comissão das Lágrimas, narrativa cubista?

Se as vozes não voltam não se escreve este livro e o que é este livro senão pessoas tentando abrir a porta” (Comissão das Lágrimas, p. 52)

“Se for mulher, metes-lhe Cristina” (p. 86), dizia a Simone o Senhor Figueiredo, “dono da fábrica, da modista, do escritório” (p. 51), na realidade dono do cabaret. “Simone, apesar de chamar-se Alice” (p. 19), mãe de Cristina, “viera de barco para dançar num teatro e não era teatro que lhe chamavam” (p. 12). O pai putativo (“diz-se que o patrão pai da filha, diz-se que o marido padre”, p. 90), preto (sempre este epíteto – estigma e farpa), “foi padre, não era padre já” (p. 12). O avô cego que “tacteia o mundo (…) convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes” (p. 50) e o tio que “separa o corpo” da sobrinha, com a advertência “Nem pio” (p. 89). São estas algumas das vozes que povoam esta narrativa nos limites do caótico, em que Cristina, narradora privilegiada, retornada de uma Angola a viver os atribulados anos pós-independência e internada numa clínica de Lisboa, segrega um discurso delirante, deixando a cada passo que outras vozes o assumam.


AS VOZES

O sentimento que domina o leitor de Comissão das Lágrimas é o da dispersão, para o que contribui poderosamente esta multiplicidade de vozes emissoras do discurso. Por vezes, elas cruzam-se, como acontece no excerto seguinte, despistando o leitor por instantes:

[Cristina:

―]“e como repousar com as danças à noite e os dias a fugir das espingardas da tropa nas ruas de Luanda, o meu pai não se sabia onde, chegava a casa, com meia dúzia de pretos, arrependido de ter vindo, a minha mulher que não era minha mulher, a minha filha que não era minha filha” (p. 131/132)


Aliás, numa intrusão irónica e mal camuflada do autor no discurso do seu narrador, confessa-se:

uma matilha de mabecos a trote, à espera de um fio de cheiro que os guie, desenterrando os mortos, se a caça escasseia, conforme desenterro defuntos que pilho à minha mãe e ao meu pai porque não sei qual de nós três fala agora” (p. 187)

Este procedimento, que consiste, no fundo, em fazer confluir e mesmo colidir o acto da enunciação com a própria história, assume neste livro uma certa relevância. Veja-se, por exemplo, esta outra intromissão, que chega a lembrar-nos a escrita de Saramago (referência que talvez não seja do agrado de ALA …):

no momento em que a mola se libertava de um espigão invisível e recomeçava a distender-se tal como este capítulo, até aqui resistindo-me” (p. 297)

Para além disso, a insistência com que esta instância enunciadora é chamada à colação acaba por instituir um nível de auto-referencialidade notório, sem contudo atingir o grau de saturação que atingiu, por exemplo, em Livro de José Luís Peixoto:

Se as vozes não voltam não se escreve este livro” (p. 49),

que penoso dizer isto, dá a impressão de ser fácil e como a caneta demora, as vozes principiam a rarear” (p. 131),
e a somar na mesma dificuldade com que escrevo sem dar conta que escrevo” (p. 149),
decidi que este livro vai acabar dentro em pouco” (p. 201),
onde decidi que este livro termina” (p. 207),
quem escreve isto por mim” (p. 297),


além do passo em epígrafe do artigo.


A SINTAXE

Em Comissão das Lágrimas, ALA reincide no uso de uma sintaxe frouxa e desviante. De vez em quando, um período mais solidamente articulado proporciona ao leitor como que uma trégua na balbúrdia reinante. Um breve e imperfeitíssimo inventário, permite-nos identificar dois procedimentos típicos desta escrita atormentada: 
  • Omissão frequente de verbos, desde os verbos declarativos, na passagem ao discurso directo, 
“― A trabalheira que me dás rapariga
E contente, no caso de eu [lhe dizer]

 ― A trabalheira que lhe dou senhor?” (p. 26),


até aos verbos predicativos, e outros, facilmente supríveis pelo contexto:

no apartamento de Lisboa vê-se o Tejo da marquise na condição de abrir o trinco porque os vidros [são] opacos” (p. 13);

mas se me afastasse perguntava às névoas que o cercavam, na esperança de [haver]parentes ali, um afilhado, um sobrinho, o tio das perdizes” (p. 26)
  • Cortes sintagmáticos abruptos com justaposição de elementos díspares 

e não conhecemos vocês nem os, e as palmeiras mais fortes, nem os vimos, senhor, como as palmeiras me emudeceram, a mulata colares de cobre, pulseiras, carezas de branca rica que se tornaram farrapos (…) (p. 245)

Estas supressões e interrupções tendem a conferir ao discurso um débito sincopado e desconexo – sugestão eficaz da perturbação mental da narradora.

Casualmente, períodos como os que seguem vêm adoçar o caos relativo com alguma poesia ou um pensamento que refulge:

e se calhar nenhuma filha com eles, inventaram-na, há quem invente filhas e passeie uma ausência ao colo até que um choro que mais ninguém escuta se cale e possam deitá-la, adormecida, no berço, afastando-se sem ruído de um nada que os alegra (…)” (p. 104);

a vida, por mais que os meses mudem, não passa de um hoje sem fim” (p. 163),
o problema não é morrer, é não termos vivido, nada estremece em nós com aqueles nomes, somente lágrimas fora do prazo que não pertencem a desgosto nenhum” (p. 269),
o que os objectos exprimem se reparamos neles, perdem a sua inércia, recriminam-nos, exaltam-se, um minuto depois de direitos entortam-se de novo” (p. 283)



UMA NARRATIVA “CUBISTA”

e o mundo, palmo a palmo, de volta, os tiros cessavam e mais travessas, mais becos, mais musseques, tapumes derrubados onde soluçavam frangos, uma cabra flutuando ao acaso ou o badalo somente, suspenso de nenhuma papada, a caminhar por ali, pessoas ocultas numa dobra de prédio, não fazendo parte do escuro, fazendo parte das casas, cada vez menos pés, menos braços, menos carne, tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda seguindo-o com olhos de caliça que apesar de cegos o viam

Ao ler-se o parágrafo que precede, como não recordar o quadro “Guernica”, de Picasso? Num e noutro, o mesmo horror da guerra, animais e gente subitamente irmanados no sofrimento, corpos destroçados, objectos como que investidos de vida (“tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda”).

Mas, apesar da sua intensidade, creio que esta sugestão é um dado subjectivo e meramente impressionista. Se este romance suscita o epíteto de cubista é sobretudo pela fragmentaridade das ideias e por um certo simultaneísmo, entendido como ocorrência simultânea de várias vozes. Outrossim, a recusa da tese mimética é uma evidência, tanto na pintura cubista como nesta narrativa, e, quanto à noção de perspectiva, se o cubismo pictórico a rejeita, o romance de ALA não me parece favorecê-la, na medida em que o foco narrativo é sempre assumido por personagens tão atormentadas que lhes é impossível um distanciamento objectivador/perspectivador.

Até a técnica da colagem, que o cubismo incorporou no início do século XX, parece estar aqui documentada na utilização sucessiva de memórias avulsas e heteróclitas:

é quando apenas o gato emerge do soalho a procurar-nos, não em Luanda, aqui, o mesmo gato, juro, o meu avô terra ou antes cordas que o desciam e eu junto à camioneta a fitá-lo, a minha mãe de súbito Alice de novo, não Simone, não vão matá-lo, pai, não tenha medo, todos esqueceram as pessoas de pulsos amarrados na praia menos nós, uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos contra as manhãs difíceis, ruínas poeirentas, fragmentos miúdos, eu nos braços de uma mulher mas qual porque dúzias de vizinhas que os militares levaram […].” (p. 27)

José Gil, citado por José Mário Silva, no seu excelente artigo “Vozes sobre vozes” (Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011), corrobora a minha anterior observação, referindo-se embora a outro romance de ALA:

Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos.”

Em conclusão, e ainda a propósito da dificuldade em identificar, por vezes, as vozes cruzadas nesta narrativa, uma recordação com muitos anos. Na aula de Português, um colega, de pé, junto da secretária onde se sentava a Dr.ª Fernanda Medeiros, professora da disciplina, no Liceu Normal D. Manuel II, lia a tirada de Telmo Pais na cena IV do acto III do Frei Luís de Sousa:

― “Meu Deus, meu Deus! (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o, por quem sois!”

― Quem é o velho, Fulano?
E o colega, imediatamente:
― É o romeiro.
― Ó menino, então o Telmo ia pedir a Deus que levasse alguém que não fosse ele mesmo?! Achavas isso bem?


Como reagiria a pobre da professora, que amiúde se queixava da desgraça da turma, perante as dificuldades suscitadas pela leitura de A Comissão das Lágrimas? Estou mesmo a vê-la fulminar-nos com aquele anátema que mais de uma vez lhe ouvi, sob a forma de predição:

― Se, algum dia, um de vocês conseguir tirar um curso superior, que me escreva. Vou ficar muito surpreendida…

Pensando melhor, imagino que, se ainda é viva, a senhora terá deixado de ler os romances de Lobo Antunes aí por volta do Manual dos Inquisidores. Aos últimos não reconheceria seguramente o estatuto de obras literárias, quanto mais obras de leitura obrigatória nos programas de ensino … E eu, que nunca cheguei a escrever-lhe, teria dificuldade em convencê-la. Até porque subscrevo sem ressalva estas palavras certeiras de António Guerreiro:

ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, [ALA] retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade.” (“Quem falou em polifonia?”, Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011)


Fernando Martins
Também de Esquerda
25.11.2011

21 de novembro de 2011

Colecção António Lobo Antunes - Ensaio

No dia em que foi publicado o 2º volume da Colecção António Lobo Antunes - Ensaio, dirigida pela Professora Maria Alzira Seixo, e publicada pela LeYa com a chancela da Texto Editores, a ensaísta fala-nos, em traços gerais, sobre a importância desta colecção (para já os dois volumes agora publicados, cf abaixo) e dos seus autores:

MariaAlzira Seixo
Estou muito feliz com a publicação destes dois livros sobre António Lobo Antunes, A Arte do Romance e A-Mão-de-Judas.

Eles mostram como os investigadores literários de agora continuam a dedicar-se à leitura atenta dos textos, à formação teórica, à reflexão inventiva e original.

No primeiro caso, vê-se como várias gerações, dos seniores aos mais jovens, abordam, de diferentes perspectivas, um grande autor - e isso é enriquecedor para todos os que os lerem. O título
A Arte do Romance é o que mais adequadamente poderíamos atribuir à prática romanesca de ALA, e os seus diversos modos de concretização estão quase todos presentes neste conjunto de estudos, em que a «Introdução» de Felipe Cammaert dá o tom de leitura crítica e exigente, com notável finura de expressão.

No segundo caso - o excelente livro de Norberto do Vale Cardoso - observa-se como uma tese académica, feita com rigor mas sempre sujeita a deslizes (estes valorosos professores do Secundário, que transformam os minutos em horas para conseguir investigar, como os admiro!), pode vir a ser apurada posteriormente, e dada a ler a todos, especialistas e amadores, quer para conhecimento quer para fruição.
A-Mão-de- Judas parte de pressupostos aliciantes, e dá-nos uma nova maneira, rica e desassombrada, de perspectivar no romance de ALA a guerra colonial.

Maria Alzira Seixo

Eis os volumes:

A Mão-de-Judas: representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes. Publicado hoje. (2º volume)

Texto da contracapa: António Lobo Antunes e a guerra colonial em África, tópico fundamental da literatura portuguesa nos últimos 50 anos, continua actual na obra do escritor, como está patente no último romance, Comissão das Lágrimas. E se esta guerra constituísse, além de atroz experiência humana e existencial, um vector basilar na composição do texto antuniano, imprimindo na expressão literária a perdurabilidade do risco, a ulcerada exposição à perda de si, dos outros, do sentido de tudo? Este estudo, o segundo publicado nesta colecção, percorre tais caminhos, a partir da figuração de Judas, que, entre Marte e a Morte, passando por Narciso, e um rapaz chamado António, enfrenta medos, anseios, valores, ideologias, e o risco de traçar no papel o sofrimento de irremediáveis contradições. Livro que prende o leitor, tanto quanto o ensina, reelabora uma tese de doutoramento na Univ. do Minho, e é seu autor Norberto do Vale Cardoso, professor do Ensino Secundário, actualmente na Escola Profissional de Chaves.


***

António Lobo Antunes: A Arte do Romance. Publicado em Setembro passado. (1º volume)

«Inclui estudos dos especialistas reunidos em Junho de 2009 no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa para estudarem a arte do romance na obra deste escritor». Trata-se do primeiro volume da colecção António Lobo Antunes - Ensaio. Conjunto de textos de estudiosos vários: José Gil, Paula Morão, Ana Paula Arnaut, Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral, Inès Cazalas e Catherine Vaz Warrot. Volume organizado por Felipe Cammaert.

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20 de novembro de 2011

Manuel Cardoso: opinião sobre As Naus

Um livro bem diferente de tudo o que António Lobo Antunes tem escrito. Diferente em dois aspectos gerais: a escrita (neste livro mais épica e menos lírica) e a temática (os descobrimentos, em paralelo com a descolonização).

Relativamente ao estilo, bem se pode dizer que, mais do que nunca, neste livro a escrita é um convite ao passeio pelas palavras. A fazer lembrar a escrita barroca, a linguagem de ALA, neste livro, atinge níveis de beleza excepcionais. Brincando com as palavras sem que nunca esta preocupação estética ultrapasse totalmente o conteúdo:

No decurso desses cinquenta e três anos construíram-se mais umas dezenas de capelas imediatamente em ruína, um bairro para os operários da fábrica de sonetos gongóricos e para os cronistas desempregados que catavam cedilhas da barba, e um sistema de esgotos eternamente entupido por embriões de sapos. A criatura dos mosquitos finou-se da vesícula e os insectos passaram a circular em liberdade, apesar das osgas, do esquentador avariado para a cantoneira da cozinha, de medalhão de esmalte (meninas e faunos a almoçarem num prado) sob as garrafas de Porto.”

Por outro lado, a inovação no conteúdo: Luís de Camões vai escrevendo os Lusíadas ao mesmo tempo que transporta o pai num caixão, trazido de Angola após o 25 de Abril. Vasco da Gama a jogar as cartas e um povo inteiro que regressa de África, derrotado, escorraçado pelos antigos escravos. Um povo inteiro que, afinal, continuava à espera de D. Sebastião.

O único branco do bairro vendia bíblias, postais eróticos e gira-discos no porta a porta da cidade, chamava-se Fernão Mendes Pinto, possuía uma cabana na areia atulhada de refugos de equinócio e recordações da Malásia, sentava-se à beira da água a comover-se com os crepúsculos.”

HUMOR, POESIA E IRONIA NUMA FRASE APENAS: “Uma manhã o engraxador do café, de voz rente aos sapatos, a estalar o pano do lustro nas biqueiras, informou-o de que haviam sucedido acontecimentos estranhos em Lixboa: o governo mudara, falava-se em dar a independência aos pretos, imagine, os clientes dos folhados de creme e das torradas indignavam-se.”

Um povo inteiro de retornados, odiados lá, detestados cá, detestados por eles próprios, frutos do desespero e desta confusão entre passado e presente, confusão que vai na cabeça de toda a gente, nas colónias e na metrópole, no passado e no presente.

Portanto, esta mistura dos dois tempos narrativos não é um mero exercício de estilo; é uma forma de exprimir o messianismo sebastianista que leva a nossa mentalidade colectiva a misturar passado presente e futuro: se as coisas estão mal agora, é porque no passado outros cometeram erros imperdoáveis, mas do futuro (ou do mesmo passado) há-de vir um salvador por entre o nevoeiro. É por isso que somos e seremos sempre portugueses. O passado não foi mais do que um amontoado de promessas: especiarias, ouro, escravos; o presente é a desilusão: o ouro que se escoou por entre os dedos e os escravos que em 1974 deram lugar àqueles que nos expulsam. E o futuro? Talvez o regresso aos sonhos… talvez o regresso ao passado. Mais nada!

Avaliação Pessoal: 8.5/10
 
Manuel Cardoso
19.11.2011

Santiago Pérez Isasi: opinião sobre O Esplendor de Portugal

António Lobo Antunes, para quem não o conhece, é o outro grande romancista Português da segunda metade do século XX (o "outro", sendo o "tal" supostamente, é José Saramago). Na verdade, isso já é uma opinião muito pessoal, Lobo Antunes é mais romancista que Saramago. Saramago será sempre, na minha opinião, um intelectual comprometido que escreveu romances, enquanto que a Lobo Antunes se reconhece como o romancista "de raça" (expressão tão feia), que por vezes faz o seu papel de intelectual.

Comenta-se muito que Lobo Antunes é um eterno candidato ao prémio Nobel, e quem sabe não venha acabando por recebê-lo. Na verdade, eu acho que ele o merece. No entanto, acho que não conseguirá ter esse favoritismo do público em geral, porque não é de todo um autor fácil. O que Lobo Antunes oferece em seus romances (e em O Esplendor de Portugal em particular) é a consciência nua das suas personagens: o discurso da memória, saltando entre diferentes tempos e entre os diferentes níveis (o consciente, o inconsciente, o recalcado) e que vai reconstruindo histórias, mas não uma história no sentido tradicional.

Lobo Antunes exige um leitor não apenas activo, mas também atento, sensível e paciente, porque o que cria são mundos psicológicos e simbólicos através dos quais é possível reconstruir os factos que os provocaram. Neste caso, são quatro as personagens em cujas mentes mergulhamos: uma família constituída por Isilda, a mãe, que resiste isolada na Angola pós-descolonização, e os três irmãos, Rui, Clarisse e Carlos, que regressam a uma Lisboa que já não lhes pertence e que alimentam os seus ódios e ressentimentos mútuos.

O Esplendor de Portugal, como dizia, não é um romance para todos os públicos, não porque descreva cenas horríveis (tem alguma coisa) ou cenas de sexo impudicas (também), mas pela sua estrutura e o seu estilo desarticulado, poético, combinatório, fragmentado, desorganizado, disperso. Entrar no ritmo e no universo que propõe o romance não é fácil; uma vez reconstruído com as peças essenciais (quem é quem, quais as relações entre si, quais são as suas falhas ou segredos escondidos...) a sua leitura torna-se mais suportável, e muito mais profunda. É uma experiência emocionante; muito mais, francamente, do que da maioria dos romances de Saramago que li.

A nota idiota em conclusão: cada vez que eu lia no livro o nome de Clarisse, não conseguia evitar de lembrar-me do filme O Silêncio dos Inocentes: "Quid pro quo, Clarice"... O mal que Hollywood faz às nossas mentes...


por Santiago Pérez Isasi
18.10.2011
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

19 de novembro de 2011

Larry Rohter: opinião sobre The Land at the End of the World (Os Cus de Judas)

Sobre a ingénua missão num império colonial moribundo

Experiências de combate são como as famílias infelizes de Tolstoi: não há duas iguais, e pode ser por isso que muitas das vezes valem grandes romances, como Tolstoi também sabia. O motivo não tem de ser necessariamente nobre, uma vez que situações de desespero e de violência sem sentido podem na realidade dar força a uma obra de ficção. É certamente o caso de Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, passado em Angola no início dos anos 70, quando Portugal faz um esforço absurdo para preservar o Império em África que sinuosamente caminhava para um fim inglório.

O narrador sem nome é um jovem médico arrancado de uma vida confortável em Lisboa e forçado a passar 27 meses na linha de frente tratando dos seus camaradas infelizes. Ressente-se por terem sido feitos "agentes de um fascismo provincial que foi corroendo e corroendo-se com o ácido lento de sua própria triste e paroquial estupidez." Mas principalmente fica enojado com os corpos mutilados entregues aos seus cuidados, e com medo que o mesmo possa acontecer consigo. Embora haja momentos de humor, quase sempre mordaz, isto não é "M*A*S*H", mas algo de longe mais sombrio e ainda mais absurdo.

"Os Cus de Judas", recém-traduzido por Margaret Jull Costa, foi publicado originalmente em 1979, quatro anos após a retirada de Portugal de África e do colapso final da intervenção americana no Vietname. Naquela época era interpretado como uma crítica à futilidade inerente das então aventuras dos ocidentais sobre o terceiro mundo. Porém, lido trinta anos depois e isolado dessa circunstância, esse legado de que o narrador de Lobo Antunes apelida como a "aprendizagem dolorosa de morrer", ninguém duvidará que faz todo o sentido para os sobreviventes das guerras no Iraque e no Afeganistão.

"O que fizeram de nós", questiona o narrador numa das suas frases tipicamente longas e torrenciais, "aqui sentados à espera nesta paisagem sem mar, presos por três fieiras de arame farpado numa terra que nos não pertence, a morrer de paludismo e de balas cujo percurso silvado se aparenta a um nervo de nylon que vibra, alimentados por colunas aleatórias cuja chegada depende de constantes acidentes de percurso, de emboscadas e de minas, lutando contra um inimigo invisível, contra os dias que se não sucedem e indefinidamente se alongam, contra a saudade, a indignação e o remorso, contra a espessura das trevas opacas tal um véu de luto".

De volta a Lisboa, com o seu casamento ainda outra vítima da guerra, o médico traumatizado não encontra consolo. "Flutuo entre dois continentes que me repelem, nu de raízes", diz. "Deixei de ter lugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui, a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos como lâmpadas fundidas".

Mesmo o sexo não serve para alívio, ou distracção, já que ele é capaz apenas de encontrar mulheres "como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno". A história do narrador desdobra-se ao longo de uma longa noite ébria em que ele consegue, embora emocionalmente divido, seduzir uma mulher que acaba de conhecer num bar, e "que oferece o ar asséptico competente e sem caspa das secretárias de administração". Ele sabe que este escape erótico vai acabar como todos os outros : com "a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão", após um coito que tem o "júbilo mole com que dois fios de esparguete se cruzam".

Como Anton Chekhov, William Carlos Williams e Moacyr Scliar, o Sr. Lobo Antunes pertence a esse selecto grupo de escritores que também são médicos - um psiquiatra, para ser mais preciso, tendo exercido num hospital de campanha em Angola. Mas o romancista médico talvez mais se assemelhe a Louis-Ferdinand Céline, cujo "Viagem ao Fim da Noite" é também um reflexo grotesco sobre o horror da guerra e o fracasso do imperialismo europeu em África. Lobo Antunes contou como, quando era adolescente, conheceu o "deslumbramento" com a leitura de "Morte a crédito" de Céline, e que escreveu uma carta para o francês misantropo, que lhe terá respondido com, como recorda, "uma ternura imensa."

A versão original do romance de Lobo Antunes tem um título ao estilo de Céline, adequadamente escatológico, que se refere à anatomia de Judas e que se trata de uma expressão da gíria portuguesa que significa algo como "fim do mundo." Jull Costa teve de encontrar um substituto menos pungente [a tradução aqui referida, a mais recente, leva o título em inglês "The Land at the End of the World"], como foi feito numa tradução anterior, publicado em 1983, intitulando o livro de "South of Nowhere". Mas uma vez que a história começa, a sua prestação sobre a linguagem do romancista e do seu estilo é simplesmente esplêndida. Ele criou um narrador memorável desarticulado, e ela conseguiu capturar, perfeita e fielmente, o tom amargo, alucinado e cada vez mais desesperado do seu monólogo.

Talvez devido à sua experiência como psiquiatra, Lobo Antunes é também um escritor extraordinariamente observador, que assim parece ter conseguido um dom especial para inventar metáforas incomuns, mas acertadas. Nuvens de chuva nos trópicos são "tão pesadas como úberes," um soldado exausto atira a sua espingarda "por cima do ombro como se fosse uma cana de pesca inútil", uma professora magra de um posto colonial deserto tem "clavículas tão salientes como as sobrancelhas de Brejnev", e durante a recruta o narrador encontra-se "à ilharga de um aspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato".

[...]

por Larry Rohter
em The New York Times
29.06.2011
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

15 de novembro de 2011

Ricardo Salvalaio: opinião sobre O Meu Nome É Legião

Com título inspirado numa citação do Evangelho de São Lucas, “O Meu Nome é Legião” começa como um relatório de polícia, descrevendo a vida de uma gang numa zona a que se chama simplesmente Bairro e que pode fazer evocar qualquer bairro periférico de uma grande cidade. Histórias se cruzam no pano de fundo do Bairro e é normal - o autor mostra que aquilo que existe de mais parecido com a salvação é esquecer tudo o que aconteceu e pensar: "Não tenho medo de vocês, não tenho medo de nada".

É noite num bairro afastado de Lisboa quando oito garotos, com idades entre 12 e 19 anos, roubam dois carros. Ao alcançarem uma auto-estrada, passam a praticar crimes bárbaros madrugada adentro. Gusmão é um policial desiludido. Ignorado pelos colegas e em vias de se aposentar, redige um inquérito sobre oito jovens delinquentes e seus actos bárbaros ao longo de uma madrugada.

Mas o texto, aparentemente técnico e objectivo, aos poucos se transforma em uma trama narrativa de múltiplas vozes, em que vários narradores tomam a palavra, cada qual com sua versão dos factos e suas lembranças, criando um mosaico de contrastes sobre a injustiça e a dor. “O Meu Nome é Legião” mostra Lobo Antunes em pleno domínio de um estilo narrativo inigualável, em que as falas, os pensamentos e os actos de diversos personagens se fundem em um texto denso, raras vezes visto na literatura.

O escritor português reconta os acontecimentos inicialmente sob a forma de um relatório escrito por Gusmão, policial em fim de carreira, para em seguida entrelaçar os pensamentos desse homem solitário aos depoimentos de outros personagens que, de uma forma ou de outra, estão ligados ao destino dos jovens criminosos. “O Meu Nome é Legião” é um romance magistral, que se coloca entre os livros mais contundentes de Lobo Antunes. Confira!


Ricardo Salvalaio
16.10.2011

13 de novembro de 2011

«Vivemos num neofascismo capitalista»


foto de Carlos Vidigal Jr. / ASF
Numa altura tão difícil e injusta, que os portugueses têm aguentado com uma paciência que eu considero inexcedível, em que vivemos num neofascismo capitalista, que afasta ainda mais as pessoas da cultura e dos livros, estar aqui hoje é, também, um acto de protesto”, disse ontem, em Faro, o escritor António Lobo Antunes, durante uma conversa com leitores a propósito do seu último livro "Comissão de Lágrimas".

Num registo informal, perante uma sala lotada, com perto de uma centena de pessoas, o escritor respondeu às várias questões colocadas pela assistência, falou do seu último livro e teceu críticas ao estado da cultura em Portugal, alertando para o excesso de lixo televisivo, a falta de programas culturais e a inexistência de bons livros.

Tudo isto é altamente conveniente para o poder político que, na realidade, é o poder económico, porque um povo culto não consente este tipo de existência que vivemos agora, e começa a exigir. Por isso, a cultura é perigosa e assusta o poder”, concluiu o escritor, acrescentando que são “as autarquias e os livreiros” quem mais faz pela cultura no nosso país.

(LUSA)

11 de novembro de 2011

Andrei Barros Correia: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Gosto de escrever pela manhã. Mas terminei de ler O Manual dos Inquisidores agora e já é noite. As impressões estão fortes na cabeça, talvez não deva perder a oportunidade, mesmo que saia mal pensado e apressado.

Há dois anos, mais ou menos, o Miguel me dizia da leitura do Lobo Antunes que era difícil. Eu enchia a paciência dele a perguntar de autores portugueses, que excepto por Eça e Saramago pouca coisa tinha lido. Com a paciência de quem gosta do assunto, Miguel falava de um e outro. Do Lobo Antunes lembro-me da advertência.

Tanto que ficou muito para depois o Lobo Antunes, para agora. O homem facilita a percepção de que ele seja meio louco, diz que escreve talvez para remediar-se. Que escrever e ser psiquiatra são coisas próximas. E fica a parecer real, porque muito psiquiatra é médico para tratar de si mesmo. Mas, deixo isso para lá.

Não andei em busca de críticas e resenhas do livro, apenas li aquelas bobagens que vêm nas orelhas e nas contra-capas. Sempre são bobagens, é impressionante. O lugar-comum é decadência, embora ninguém saiba o que é isso. Querem significar com isso tempo, história?

Devem querer dizer história, porque é a coisa mais difícil de perceber que existe e, por isso mesmo, a que é chamada por mais nomes diferentes é multi-significantes. As personagens envelhecem e ficam decrépitas, é isso, acho, que leva o comentador a falar em decadência. Ora, decadência sempre há, não pode ser o elemento distintivo de alguma coisa.

O bom autor Lobo Antunes fala de história, é claro. Muito mais que de histórias particulares das personagens, mas da história de um período: o salazarismo do meio para o final. A história apreendida nas suas expressões em cada camada social, porque o quadro completa-se com as realidades múltiplas.

O formato do livro é quase destituído de surpresas, excepto para quem entenda linearidade como evolução cronológica ritmada. A linearidade narrativa do livro está na integração evidente das idas e vindas do tempo contado ao depois. Os episódios são perfeitamente necessários, uns aos outros.

Os relatos e comentários, partes que sempre se sucedem, são mudanças de ponto de vista, como fotografias de uma coisa tiradas a partir de locais diferentes e dão ideia de profundidade, porque assim pode-se relacionar as percepções diferentes de um episódio. É algo diferente de versões, devo apontar, são visões distintas de um mesmo processo.
 
Um processo que evidencia algo terrível e tão terrível que muitos ignorarão, porque somos treinados desde cedo para não ver esse ponto essencial. Nos processos históricos e mesmo naqueles que têm grandes mudanças políticas e rompimentos, há um grupo que nunca perde.

Há um grupo que sofre, aqui e acolá uns problemas, mas sempre arruma-se, permanece quase que acima da história. Por isso mesmo, é superficial falar em decadência ou, talvez, fale-se em decadência muito superficialmente. Ela acontece para os grupos movidos e para os indivíduos particularmente, mas não para um grupo. No livro, isso é claríssimo e, de tão terrível, ocupa somente uma porção inicial dele.

Por outro lado, a grande personagem do livro fez-me lembrar outro livro, por conta de uma associação bastante livre, que não é propriamente literária. Falo do Médico e o Monstro, de Stevenson, que geralmente é visto como algo meio extraordinário no sentido de ficcional, ou de algum terror.

O livrinho de Stevenson é das mais profundas análises da alma humana que se fizeram. Eles convivem em todos, o médico e o monstro, é questão de despertá-los. E convivem até pacificamente, é questão do médico perceber o monstro ou de não o perceber em absoluto. Se eles entendem-se razoavelmente, superficialmente, aí é que a convivência é conflituosa.

O Ministro do livro, o Ministro de Salazar que vai de poderoso a velho de sanatório, não percebe o monstro absolutamente. Até ao final ele não se vê além de como sempre se viu, então ele conta o que torturou por mandar, o que matou por mandar matar, o que comprou de gente por comprar e simplesmente conta.

Ele é a figura vulgaríssima de pessoa com apetites e meios para satisfazê-los, com apetites e sem meios para satisfazê-los;,mas sempre com apetites. O que muda são as disponibilidades dos meios o que equivale a dizer tempo. Ele é só ele, não tem propriamente pensamentos, mas recordações e apetites. Não tem crítica, mas imagens que se referem a ele e só a ele.

Um morto ou vários mortos, um morto na frente dele morto por ordem dele é um elemento de recordação que faz sentido na lembrança de toda sua vida, que é muito bem alinhavada na narrativa, a despeito das idas e vindas cronológicas e do texto sem vírgulas. Uma vida extremamente coerente, diga-se, quase uma vida de coerência da razão de Estado.

E as outras personagens, subsidiárias, evidentemente, são a mesma coisa. Claro que são coisas socialmente diferentes, mas fica evidente que feitas da mesma matéria. Elas são as suas posições sociais, enfim, são móveis de pouca ou nenhuma liberdade. O livro, e aqui devo dizer, é terrível para quem acredita em liberdade.

A única liberdade que há é de lembrar-se e de querer, de ter apetites. De tê-los e satisfazê-los, de tê-los e não os satisfazer, de continuar a tê-los e não os poder mais satisfazer, pouco importa. O que houve, todos os fragmentos, foram somente partes de uma trajectória, não implicam qualquer coisa que não se refira a si mesmo.

Várias personagens ligadas, como é de um romance ou novela, com vidas ligadas, deixam claro que as ligações são muito menos que cada um. Que cada um percebe o mundo em si e vai até ao final assim.


por Andrei Barros Correia
11.03.2011

10 de novembro de 2011

Simão Fonseca: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Ao quarto livro, mais setenta e nove crónicas. António Lobo Antunes escreve com regularidade para a revista Visão desde há uns anos para cá, onde são publicados textos que se destacam pela sua melancolia contrastante com o humor do autor, e a D. Quixote encarrega-se depois de fazer a sua compilação, como acontece neste agradável Quarto Livro de Crónicas – o primeiro data de 1998.

Ao largo destas quase oitenta crónicas, António Lobo Antunes viaja pelo seu passado, recuperando as memórias da infância em Nelas e Benfica, dos avós e dos pais, da mercearia do Sr. Casimiro, da caça às lagartixas, das travessuras, dos professores da escola, dos amigos, da escrita precoce ou da aptidão para jogar hóquei. A guerra colonial em Angola é também assunto em destaque, fazendo Lobo Antunes questão de mostrar ao leitor o carinho, os maus momentos e a saudade que nutre pelos seus camaradas – alguns já mortos - sempre que pensa neles ou quando há jantares de reunião e convívio entre velhos amigos que são, no fundo, irmãos de guerra (Acácio António Acácio António Acácio António Acácio António). António Lobo Antunes estabelece diálogos íntimos consigo mesmo e com quem o lê, retratando muitas vezes o seu processo de criação dos seus livros (Onde o Pobre Escritor Começa), o que o motiva a escrever, a força que ele busca, por vezes, para conseguir dactilografar uma boa crónicas e quando deita fora alguns capítulos de um livro que nunca chega a ser livro, conduzindo-o à estaca zero – e lá começa de novo o processo, culminando com o êxito que é reconhecido pela imprensa e pelo leitor fiel - Crónica com Buganvílias: «(…) Fazer livros é uma tarefa que não associo ao prazer. E, no entanto, que outra coisa verdadeiramente me interessa? Além do mais tornou-me humilde, isto é, deu-me um orgulho humilde.».

António Lobo Antunes escreve também sobre alguns escritores que o marcaram (O Capitão da Areia), alguns seus amigos, outros que nunca conheceu; porém, há crónicas cujo título remete de imediato para o sujeito em questão: (Miguel Torga, Juan Marsé). Convém ressalvar que nestas crónicas há um sentimento de saudade predominante – infância, adolescência, pai e avó, principalmente -, um sentimento de tristeza relativo à guerra colonial e um enorme sarcasmo hilariante que o autor descobre para amenizar e tornar divertida toda a melancolia aqui descrita – há também o regresso à já conhecida crónica sobre os dentistas, A Cadeira do Dentista, a mais cómica deste Quatro Livro de Crónicas.



por Simão Fonseca
07.11.2011

António Lobo Antunes em Castelo Branco



Nesta reportagem (1' 37''), feita pela localvisão tv, sobre a sessão de autógrafos em Castelo Branco no passado dia 4, o escritor volta a reafirmar o profundo desgosto pela situação actual do país, e pela falta de apoio à cultura por parte do governo central, reafirmando que é o poder local que ainda faz alguma coisa.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...