03/12/2011

Margaret Carson: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


O romancista português António Lobo Antunes dedicou grande parte de sua carreira literária para evocar o período da história de seu país a partir dos anos finais da ditadura de Salazar, que terminou em 1968, com a transição tumultuosa para a democracia após a Revolução dos Cravos de 1974. Em O Manual dos Inquisidores, Antunes traz ao leitor a o relato impiedoso de um regime ditatorial brutal derrubado por uma revolução que capturou a atenção do mundo quando fotografias de civis colocando flores nas espingardas dos soldados foram passadas. Apesar de desenvolver um trabalho ficcional, Antunes incorpora as especificidades desse tempo no seu romance, usando funcionários governamentais da vida real como personagens secundárias, e recriando crimes e abusos que estão ainda vivos na memória de muitos portugueses.

À primeira vista, o romance parece imitar a estrutura de um estudo clínico, com passagens organizadas por capítulos intitulados de "Relato" ou "Comentário", mas o fluxo da consciência narrativa está longe de ser de tal forma simplista. O leitor deste ambicioso romance tem de juntar os relatos fragmentados de quase vinte personagens diferentes, cujas vozes distintas se movem para a frente e para trás no tempo ao longo de um período de quarenta anos. Esta narrativa não-linear e inconstante destabiliza o leitor, mas a complexidade da história acaba por tomar forma. Antunes joga com a noção de documentário, porém o relatório que oferece tem mais que ver com a memória fragmentada do que com uma transcrição científica. O autor aborda uma história conturbada, não estabelecendo o que dizem os factos, mas enfatizando o quanto é difícil de avaliar e compreender o passado.

Os tópicos principais da narrativa convergem na figura do Sr. Francisco, um ministro ficcional do gabinete de Salazar, dono de uma enorme quinta e casa senhorial nos arredores de Lisboa. "Faço tudo o que elas querem, mas não tiro o chapéu para que se saiba quem é o patrão", afirma, através da memória do seu filho anos mais tarde. Ser patrão significa poder escolher as criadas, a quem ele trata como gado (na verdade, um alvo da sua predação sexual vive no celeiro, e outra, grávida dele, dá à luz num estábulo, assistida por um veterinário).

De tempos a tempos o Primeiro Ministro reúne com o Sr. Francisco na quinta, sendo a sua visita precedida pela Guarda Nacional que abate dezenas de corvos para que o ditador paranóico não viesse a confundir  o grasnar das aves com uma multidão escarnecedora. O ditador idoso, cercado por um séquito de bajuladores secretários e guarda-costas que se dirigem a ele como "Professor Salazar," toma chá com o ministro, enquanto discutem quem deve ser interpelado e mandado para a cadeia. Depois de terem decidido, um simples telefonema para o "Major", o chefe da polícia secreta de Portugal, é o suficiente. O leitor reconhece o modus operandi do estado totalitário em todo o romance: os ficheiros secretos, os interrogatórios e as torturas, os assassínios sem julgamento.

A Revolução dos Cravos vem trazer efusiva alegria: "a rádio estilhaçava-se em cantorias, os automóveis buzinavam, as fábricas apitavam sem cessar" e o pandemónio instala-se na quinta. O ministro sabe que é hora da vingança, e despeja os criados e funcionários da propriedade, chamando-os "comunas" e ameaçando matá-los, enquanto atiça cães pastores alemães que percorrem a quinta. Um mês depois, quinta e casa está em ruínas (provavelmente saqueado pelos revolucionários que temia, embora não vemos essa cena), e o ex-ministro definha. Poucos anos depois é vítima de um derrame cerebral e acaba os dias num lar de idosos, impotente e mudo, meditando sobre as cenas de brutalidade do seu passado, incluindo sua própria iniciação como um jovem oficial sobre a violência da guerra de guerrilha na Angola colonial. Antunes sugere que essa exposição precoce à violência teve consequências a longo prazo para o ministro. Uma vez doutrinado para o uso da violência e da tortura para instilar o medo nos habitantes da colónia, o ministro estava bem preparado para assumir um papel semelhante na sua vida pessoal e pública.

O tradutor Richard Zenith fez um trabalho extraordinário que está sintonizado com as vozes características do original. Portugal entretanto tornou-se membro da União Europeia há mais de vinte anos, mas em O Manual dos Inquisidores, António Lobo Antunes deixa claro não permitir que o recém-próspero Portugal democrático esqueça o seu passado totalitário.


Margaret Carson
2007
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

26/11/2011

Site aberto para mensagens e dedicatórias dos leitores a António Lobo Antunes

Caros leitores de António Lobo Antunes:

Abrimos este blog aos leitores que de alguma forma queiram expressar o seu agradecimento ao autor e dirigir-lhe algumas palavras nesse sentido, ou outra mensagem que achem importante. Mensagens que não reflictam opinião de leitura concreta de um título (essa matéria já é tratada de forma diferente), e que, por falta de espaço e/ou visibilidade das caixas de comentários, queiram partilhá-las de forma mais directa com os outros leitores e visitantes deste blog. 

Antes de avançar para as condições que permitam expressarem-se sobre/ao escritor, devo alertar para o facto de que António Lobo Antunes (ALA) não é utilizador da Internet pelo que o blog não é lido de forma directa ou por vontade própria do escritor. Se tem conhecimento de artigos aqui colocados é tão só através de terceiros, pessoas próximas de ALA que visitam este espaço - não sabemos com que regularidade - e lhe transmitem um ou outro assunto. Portanto, o facto de serem colocadas aqui as vossas mensagens não garante que será do conhecimento de ALA, e nem devem esperar qualquer tipo de resposta do escritor aos vossos textos. Assumimos que quem pretende partilhar este tipo de mensagens aceita que o está a fazer publicamente, e nesse sentido, prestar a sua homenagem pública ao escritor. Deste modo, as mensagens que serão publicadas não devem ser pessoais ao ponto de conter qualquer tipo de pedidos ou de sugestões, uma vez que nem sequer e-mails que nos chegam com essas características são reencaminhados a ALA ou ao seu editor.

Fica aberto, assim, no nosso blog um espaço para as mensagens dos leitores que queiram dirigir-se a António Lobo Antunes, em forma de dedicatória pública. Para isso, devem remeter o vosso texto para o e-mail jalexramos@gmail.com, com o nome, apelido e localização: se reside em Portugal basta referir  o concelho ou freguesia de residência, se fora de Portugal deve referir o país, estado (se aplicável) e cidade. A seguir, as condições essenciais para o envio das mensagens:

  • Os textos devem vir acompanhados sempre pelo nome, apelido e localização do leitor (ver parágrafo anterior).
  • Permite-se que se incluam na mensagem os seguintes tipos de ficheiros: imagens, fotos, vídeos e audio (nos formatos populares), desde que não sejam violados direitos de autor. No caso dos ficheiros serem propriedade de terceiros, deve ser garantida a sua autorização para publicação, e virem acompanhados da identificação do autor e fonte (caso venha da web, será o respectivo link).
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  • Não estabelecemos limites quanto à extensão do texto, mas apelamos para o bom senso de cada um.
  • Os autores das mensagens assumem a total responsabilidade do seu conteúdo.

As mensagens serão publicadas sob o tópico "mensagens dos leitores", em momento oportuno e sem qualquer prazo após avaliadas e aprovadas, tendo reunido todas as condições acima descritas sem excepção. Qualquer mensagem que suscite dúvidas ou gere conflito após a sua publicação, será definitivamente removida.

Os interessados podem verificar o teor das dedicatórias já existentes, clicando no tópico "mensagens dos leitores". Nota: estas mensagens que foram publicadas até à data não estão ao abrigo de todas as condições acima referidas, porque então não eram exigidas.

25/11/2011

Fernando Martins: opinião sobre Comissão das Lágrimas

Comissão das Lágrimas, narrativa cubista?

Se as vozes não voltam não se escreve este livro e o que é este livro senão pessoas tentando abrir a porta” (Comissão das Lágrimas, p. 52)

“Se for mulher, metes-lhe Cristina” (p. 86), dizia a Simone o Senhor Figueiredo, “dono da fábrica, da modista, do escritório” (p. 51), na realidade dono do cabaret. “Simone, apesar de chamar-se Alice” (p. 19), mãe de Cristina, “viera de barco para dançar num teatro e não era teatro que lhe chamavam” (p. 12). O pai putativo (“diz-se que o patrão pai da filha, diz-se que o marido padre”, p. 90), preto (sempre este epíteto – estigma e farpa), “foi padre, não era padre já” (p. 12). O avô cego que “tacteia o mundo (…) convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes” (p. 50) e o tio que “separa o corpo” da sobrinha, com a advertência “Nem pio” (p. 89). São estas algumas das vozes que povoam esta narrativa nos limites do caótico, em que Cristina, narradora privilegiada, retornada de uma Angola a viver os atribulados anos pós-independência e internada numa clínica de Lisboa, segrega um discurso delirante, deixando a cada passo que outras vozes o assumam.


AS VOZES

O sentimento que domina o leitor de Comissão das Lágrimas é o da dispersão, para o que contribui poderosamente esta multiplicidade de vozes emissoras do discurso. Por vezes, elas cruzam-se, como acontece no excerto seguinte, despistando o leitor por instantes:

[Cristina:

―]“e como repousar com as danças à noite e os dias a fugir das espingardas da tropa nas ruas de Luanda, o meu pai não se sabia onde, chegava a casa, com meia dúzia de pretos, arrependido de ter vindo, a minha mulher que não era minha mulher, a minha filha que não era minha filha” (p. 131/132)


Aliás, numa intrusão irónica e mal camuflada do autor no discurso do seu narrador, confessa-se:

uma matilha de mabecos a trote, à espera de um fio de cheiro que os guie, desenterrando os mortos, se a caça escasseia, conforme desenterro defuntos que pilho à minha mãe e ao meu pai porque não sei qual de nós três fala agora” (p. 187)

Este procedimento, que consiste, no fundo, em fazer confluir e mesmo colidir o acto da enunciação com a própria história, assume neste livro uma certa relevância. Veja-se, por exemplo, esta outra intromissão, que chega a lembrar-nos a escrita de Saramago (referência que talvez não seja do agrado de ALA …):

no momento em que a mola se libertava de um espigão invisível e recomeçava a distender-se tal como este capítulo, até aqui resistindo-me” (p. 297)

Para além disso, a insistência com que esta instância enunciadora é chamada à colação acaba por instituir um nível de auto-referencialidade notório, sem contudo atingir o grau de saturação que atingiu, por exemplo, em Livro de José Luís Peixoto:

Se as vozes não voltam não se escreve este livro” (p. 49),

que penoso dizer isto, dá a impressão de ser fácil e como a caneta demora, as vozes principiam a rarear” (p. 131),
e a somar na mesma dificuldade com que escrevo sem dar conta que escrevo” (p. 149),
decidi que este livro vai acabar dentro em pouco” (p. 201),
onde decidi que este livro termina” (p. 207),
quem escreve isto por mim” (p. 297),


além do passo em epígrafe do artigo.


A SINTAXE

Em Comissão das Lágrimas, ALA reincide no uso de uma sintaxe frouxa e desviante. De vez em quando, um período mais solidamente articulado proporciona ao leitor como que uma trégua na balbúrdia reinante. Um breve e imperfeitíssimo inventário, permite-nos identificar dois procedimentos típicos desta escrita atormentada: 
  • Omissão frequente de verbos, desde os verbos declarativos, na passagem ao discurso directo, 
“― A trabalheira que me dás rapariga
E contente, no caso de eu [lhe dizer]

 ― A trabalheira que lhe dou senhor?” (p. 26),


até aos verbos predicativos, e outros, facilmente supríveis pelo contexto:

no apartamento de Lisboa vê-se o Tejo da marquise na condição de abrir o trinco porque os vidros [são] opacos” (p. 13);

mas se me afastasse perguntava às névoas que o cercavam, na esperança de [haver]parentes ali, um afilhado, um sobrinho, o tio das perdizes” (p. 26)
  • Cortes sintagmáticos abruptos com justaposição de elementos díspares 

e não conhecemos vocês nem os, e as palmeiras mais fortes, nem os vimos, senhor, como as palmeiras me emudeceram, a mulata colares de cobre, pulseiras, carezas de branca rica que se tornaram farrapos (…) (p. 245)

Estas supressões e interrupções tendem a conferir ao discurso um débito sincopado e desconexo – sugestão eficaz da perturbação mental da narradora.

Casualmente, períodos como os que seguem vêm adoçar o caos relativo com alguma poesia ou um pensamento que refulge:

e se calhar nenhuma filha com eles, inventaram-na, há quem invente filhas e passeie uma ausência ao colo até que um choro que mais ninguém escuta se cale e possam deitá-la, adormecida, no berço, afastando-se sem ruído de um nada que os alegra (…)” (p. 104);

a vida, por mais que os meses mudem, não passa de um hoje sem fim” (p. 163),
o problema não é morrer, é não termos vivido, nada estremece em nós com aqueles nomes, somente lágrimas fora do prazo que não pertencem a desgosto nenhum” (p. 269),
o que os objectos exprimem se reparamos neles, perdem a sua inércia, recriminam-nos, exaltam-se, um minuto depois de direitos entortam-se de novo” (p. 283)



UMA NARRATIVA “CUBISTA”

e o mundo, palmo a palmo, de volta, os tiros cessavam e mais travessas, mais becos, mais musseques, tapumes derrubados onde soluçavam frangos, uma cabra flutuando ao acaso ou o badalo somente, suspenso de nenhuma papada, a caminhar por ali, pessoas ocultas numa dobra de prédio, não fazendo parte do escuro, fazendo parte das casas, cada vez menos pés, menos braços, menos carne, tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda seguindo-o com olhos de caliça que apesar de cegos o viam

Ao ler-se o parágrafo que precede, como não recordar o quadro “Guernica”, de Picasso? Num e noutro, o mesmo horror da guerra, animais e gente subitamente irmanados no sofrimento, corpos destroçados, objectos como que investidos de vida (“tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda”).

Mas, apesar da sua intensidade, creio que esta sugestão é um dado subjectivo e meramente impressionista. Se este romance suscita o epíteto de cubista é sobretudo pela fragmentaridade das ideias e por um certo simultaneísmo, entendido como ocorrência simultânea de várias vozes. Outrossim, a recusa da tese mimética é uma evidência, tanto na pintura cubista como nesta narrativa, e, quanto à noção de perspectiva, se o cubismo pictórico a rejeita, o romance de ALA não me parece favorecê-la, na medida em que o foco narrativo é sempre assumido por personagens tão atormentadas que lhes é impossível um distanciamento objectivador/perspectivador.

Até a técnica da colagem, que o cubismo incorporou no início do século XX, parece estar aqui documentada na utilização sucessiva de memórias avulsas e heteróclitas:

é quando apenas o gato emerge do soalho a procurar-nos, não em Luanda, aqui, o mesmo gato, juro, o meu avô terra ou antes cordas que o desciam e eu junto à camioneta a fitá-lo, a minha mãe de súbito Alice de novo, não Simone, não vão matá-lo, pai, não tenha medo, todos esqueceram as pessoas de pulsos amarrados na praia menos nós, uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos contra as manhãs difíceis, ruínas poeirentas, fragmentos miúdos, eu nos braços de uma mulher mas qual porque dúzias de vizinhas que os militares levaram […].” (p. 27)

José Gil, citado por José Mário Silva, no seu excelente artigo “Vozes sobre vozes” (Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011), corrobora a minha anterior observação, referindo-se embora a outro romance de ALA:

Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos.”

Em conclusão, e ainda a propósito da dificuldade em identificar, por vezes, as vozes cruzadas nesta narrativa, uma recordação com muitos anos. Na aula de Português, um colega, de pé, junto da secretária onde se sentava a Dr.ª Fernanda Medeiros, professora da disciplina, no Liceu Normal D. Manuel II, lia a tirada de Telmo Pais na cena IV do acto III do Frei Luís de Sousa:

― “Meu Deus, meu Deus! (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o, por quem sois!”

― Quem é o velho, Fulano?
E o colega, imediatamente:
― É o romeiro.
― Ó menino, então o Telmo ia pedir a Deus que levasse alguém que não fosse ele mesmo?! Achavas isso bem?


Como reagiria a pobre da professora, que amiúde se queixava da desgraça da turma, perante as dificuldades suscitadas pela leitura de A Comissão das Lágrimas? Estou mesmo a vê-la fulminar-nos com aquele anátema que mais de uma vez lhe ouvi, sob a forma de predição:

― Se, algum dia, um de vocês conseguir tirar um curso superior, que me escreva. Vou ficar muito surpreendida…

Pensando melhor, imagino que, se ainda é viva, a senhora terá deixado de ler os romances de Lobo Antunes aí por volta do Manual dos Inquisidores. Aos últimos não reconheceria seguramente o estatuto de obras literárias, quanto mais obras de leitura obrigatória nos programas de ensino … E eu, que nunca cheguei a escrever-lhe, teria dificuldade em convencê-la. Até porque subscrevo sem ressalva estas palavras certeiras de António Guerreiro:

ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, [ALA] retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade.” (“Quem falou em polifonia?”, Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011)


Fernando Martins
Também de Esquerda
25.11.2011

21/11/2011

Colecção António Lobo Antunes - Ensaio

No dia em que foi publicado o 2º volume da Colecção António Lobo Antunes - Ensaio, dirigida pela Professora Maria Alzira Seixo, e publicada pela LeYa com a chancela da Texto Editores, a ensaísta fala-nos, em traços gerais, sobre a importância desta colecção (para já os dois volumes agora publicados, cf abaixo) e dos seus autores:

MariaAlzira Seixo
Estou muito feliz com a publicação destes dois livros sobre António Lobo Antunes, A Arte do Romance e A-Mão-de-Judas.

Eles mostram como os investigadores literários de agora continuam a dedicar-se à leitura atenta dos textos, à formação teórica, à reflexão inventiva e original.

No primeiro caso, vê-se como várias gerações, dos seniores aos mais jovens, abordam, de diferentes perspectivas, um grande autor - e isso é enriquecedor para todos os que os lerem. O título
A Arte do Romance é o que mais adequadamente poderíamos atribuir à prática romanesca de ALA, e os seus diversos modos de concretização estão quase todos presentes neste conjunto de estudos, em que a «Introdução» de Felipe Cammaert dá o tom de leitura crítica e exigente, com notável finura de expressão.

No segundo caso - o excelente livro de Norberto do Vale Cardoso - observa-se como uma tese académica, feita com rigor mas sempre sujeita a deslizes (estes valorosos professores do Secundário, que transformam os minutos em horas para conseguir investigar, como os admiro!), pode vir a ser apurada posteriormente, e dada a ler a todos, especialistas e amadores, quer para conhecimento quer para fruição.
A-Mão-de- Judas parte de pressupostos aliciantes, e dá-nos uma nova maneira, rica e desassombrada, de perspectivar no romance de ALA a guerra colonial.

Maria Alzira Seixo

Eis os volumes:

A Mão-de-Judas: representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes. Publicado hoje. (2º volume)

Texto da contracapa: António Lobo Antunes e a guerra colonial em África, tópico fundamental da literatura portuguesa nos últimos 50 anos, continua actual na obra do escritor, como está patente no último romance, Comissão das Lágrimas. E se esta guerra constituísse, além de atroz experiência humana e existencial, um vector basilar na composição do texto antuniano, imprimindo na expressão literária a perdurabilidade do risco, a ulcerada exposição à perda de si, dos outros, do sentido de tudo? Este estudo, o segundo publicado nesta colecção, percorre tais caminhos, a partir da figuração de Judas, que, entre Marte e a Morte, passando por Narciso, e um rapaz chamado António, enfrenta medos, anseios, valores, ideologias, e o risco de traçar no papel o sofrimento de irremediáveis contradições. Livro que prende o leitor, tanto quanto o ensina, reelabora uma tese de doutoramento na Univ. do Minho, e é seu autor Norberto do Vale Cardoso, professor do Ensino Secundário, actualmente na Escola Profissional de Chaves.


***

António Lobo Antunes: A Arte do Romance. Publicado em Setembro passado. (1º volume)

«Inclui estudos dos especialistas reunidos em Junho de 2009 no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa para estudarem a arte do romance na obra deste escritor». Trata-se do primeiro volume da colecção António Lobo Antunes - Ensaio. Conjunto de textos de estudiosos vários: José Gil, Paula Morão, Ana Paula Arnaut, Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral, Inès Cazalas e Catherine Vaz Warrot. Volume organizado por Felipe Cammaert.

ler + aqui >>

20/11/2011

Manuel Cardoso: opinião sobre As Naus

Um livro bem diferente de tudo o que António Lobo Antunes tem escrito. Diferente em dois aspectos gerais: a escrita (neste livro mais épica e menos lírica) e a temática (os descobrimentos, em paralelo com a descolonização).

Relativamente ao estilo, bem se pode dizer que, mais do que nunca, neste livro a escrita é um convite ao passeio pelas palavras. A fazer lembrar a escrita barroca, a linguagem de ALA, neste livro, atinge níveis de beleza excepcionais. Brincando com as palavras sem que nunca esta preocupação estética ultrapasse totalmente o conteúdo:

No decurso desses cinquenta e três anos construíram-se mais umas dezenas de capelas imediatamente em ruína, um bairro para os operários da fábrica de sonetos gongóricos e para os cronistas desempregados que catavam cedilhas da barba, e um sistema de esgotos eternamente entupido por embriões de sapos. A criatura dos mosquitos finou-se da vesícula e os insectos passaram a circular em liberdade, apesar das osgas, do esquentador avariado para a cantoneira da cozinha, de medalhão de esmalte (meninas e faunos a almoçarem num prado) sob as garrafas de Porto.”

Por outro lado, a inovação no conteúdo: Luís de Camões vai escrevendo os Lusíadas ao mesmo tempo que transporta o pai num caixão, trazido de Angola após o 25 de Abril. Vasco da Gama a jogar as cartas e um povo inteiro que regressa de África, derrotado, escorraçado pelos antigos escravos. Um povo inteiro que, afinal, continuava à espera de D. Sebastião.

O único branco do bairro vendia bíblias, postais eróticos e gira-discos no porta a porta da cidade, chamava-se Fernão Mendes Pinto, possuía uma cabana na areia atulhada de refugos de equinócio e recordações da Malásia, sentava-se à beira da água a comover-se com os crepúsculos.”

HUMOR, POESIA E IRONIA NUMA FRASE APENAS: “Uma manhã o engraxador do café, de voz rente aos sapatos, a estalar o pano do lustro nas biqueiras, informou-o de que haviam sucedido acontecimentos estranhos em Lixboa: o governo mudara, falava-se em dar a independência aos pretos, imagine, os clientes dos folhados de creme e das torradas indignavam-se.”

Um povo inteiro de retornados, odiados lá, detestados cá, detestados por eles próprios, frutos do desespero e desta confusão entre passado e presente, confusão que vai na cabeça de toda a gente, nas colónias e na metrópole, no passado e no presente.

Portanto, esta mistura dos dois tempos narrativos não é um mero exercício de estilo; é uma forma de exprimir o messianismo sebastianista que leva a nossa mentalidade colectiva a misturar passado presente e futuro: se as coisas estão mal agora, é porque no passado outros cometeram erros imperdoáveis, mas do futuro (ou do mesmo passado) há-de vir um salvador por entre o nevoeiro. É por isso que somos e seremos sempre portugueses. O passado não foi mais do que um amontoado de promessas: especiarias, ouro, escravos; o presente é a desilusão: o ouro que se escoou por entre os dedos e os escravos que em 1974 deram lugar àqueles que nos expulsam. E o futuro? Talvez o regresso aos sonhos… talvez o regresso ao passado. Mais nada!

Avaliação Pessoal: 8.5/10
 
Manuel Cardoso
19.11.2011

Santiago Pérez Isasi: opinião sobre O Esplendor de Portugal

António Lobo Antunes, para quem não o conhece, é o outro grande romancista Português da segunda metade do século XX (o "outro", sendo o "tal" supostamente, é José Saramago). Na verdade, isso já é uma opinião muito pessoal, Lobo Antunes é mais romancista que Saramago. Saramago será sempre, na minha opinião, um intelectual comprometido que escreveu romances, enquanto que a Lobo Antunes se reconhece como o romancista "de raça" (expressão tão feia), que por vezes faz o seu papel de intelectual.

Comenta-se muito que Lobo Antunes é um eterno candidato ao prémio Nobel, e quem sabe não venha acabando por recebê-lo. Na verdade, eu acho que ele o merece. No entanto, acho que não conseguirá ter esse favoritismo do público em geral, porque não é de todo um autor fácil. O que Lobo Antunes oferece em seus romances (e em O Esplendor de Portugal em particular) é a consciência nua das suas personagens: o discurso da memória, saltando entre diferentes tempos e entre os diferentes níveis (o consciente, o inconsciente, o recalcado) e que vai reconstruindo histórias, mas não uma história no sentido tradicional.

Lobo Antunes exige um leitor não apenas activo, mas também atento, sensível e paciente, porque o que cria são mundos psicológicos e simbólicos através dos quais é possível reconstruir os factos que os provocaram. Neste caso, são quatro as personagens em cujas mentes mergulhamos: uma família constituída por Isilda, a mãe, que resiste isolada na Angola pós-descolonização, e os três irmãos, Rui, Clarisse e Carlos, que regressam a uma Lisboa que já não lhes pertence e que alimentam os seus ódios e ressentimentos mútuos.

O Esplendor de Portugal, como dizia, não é um romance para todos os públicos, não porque descreva cenas horríveis (tem alguma coisa) ou cenas de sexo impudicas (também), mas pela sua estrutura e o seu estilo desarticulado, poético, combinatório, fragmentado, desorganizado, disperso. Entrar no ritmo e no universo que propõe o romance não é fácil; uma vez reconstruído com as peças essenciais (quem é quem, quais as relações entre si, quais são as suas falhas ou segredos escondidos...) a sua leitura torna-se mais suportável, e muito mais profunda. É uma experiência emocionante; muito mais, francamente, do que da maioria dos romances de Saramago que li.

A nota idiota em conclusão: cada vez que eu lia no livro o nome de Clarisse, não conseguia evitar de lembrar-me do filme O Silêncio dos Inocentes: "Quid pro quo, Clarice"... O mal que Hollywood faz às nossas mentes...


por Santiago Pérez Isasi
18.10.2011
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

19/11/2011

Larry Rohter: opinião sobre The Land at the End of the World (Os Cus de Judas)

Sobre a ingénua missão num império colonial moribundo

Experiências de combate são como as famílias infelizes de Tolstoi: não há duas iguais, e pode ser por isso que muitas das vezes valem grandes romances, como Tolstoi também sabia. O motivo não tem de ser necessariamente nobre, uma vez que situações de desespero e de violência sem sentido podem na realidade dar força a uma obra de ficção. É certamente o caso de Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, passado em Angola no início dos anos 70, quando Portugal faz um esforço absurdo para preservar o Império em África que sinuosamente caminhava para um fim inglório.

O narrador sem nome é um jovem médico arrancado de uma vida confortável em Lisboa e forçado a passar 27 meses na linha de frente tratando dos seus camaradas infelizes. Ressente-se por terem sido feitos "agentes de um fascismo provincial que foi corroendo e corroendo-se com o ácido lento de sua própria triste e paroquial estupidez." Mas principalmente fica enojado com os corpos mutilados entregues aos seus cuidados, e com medo que o mesmo possa acontecer consigo. Embora haja momentos de humor, quase sempre mordaz, isto não é "M*A*S*H", mas algo de longe mais sombrio e ainda mais absurdo.

"Os Cus de Judas", recém-traduzido por Margaret Jull Costa, foi publicado originalmente em 1979, quatro anos após a retirada de Portugal de África e do colapso final da intervenção americana no Vietname. Naquela época era interpretado como uma crítica à futilidade inerente das então aventuras dos ocidentais sobre o terceiro mundo. Porém, lido trinta anos depois e isolado dessa circunstância, esse legado de que o narrador de Lobo Antunes apelida como a "aprendizagem dolorosa de morrer", ninguém duvidará que faz todo o sentido para os sobreviventes das guerras no Iraque e no Afeganistão.

"O que fizeram de nós", questiona o narrador numa das suas frases tipicamente longas e torrenciais, "aqui sentados à espera nesta paisagem sem mar, presos por três fieiras de arame farpado numa terra que nos não pertence, a morrer de paludismo e de balas cujo percurso silvado se aparenta a um nervo de nylon que vibra, alimentados por colunas aleatórias cuja chegada depende de constantes acidentes de percurso, de emboscadas e de minas, lutando contra um inimigo invisível, contra os dias que se não sucedem e indefinidamente se alongam, contra a saudade, a indignação e o remorso, contra a espessura das trevas opacas tal um véu de luto".

De volta a Lisboa, com o seu casamento ainda outra vítima da guerra, o médico traumatizado não encontra consolo. "Flutuo entre dois continentes que me repelem, nu de raízes", diz. "Deixei de ter lugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui, a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos como lâmpadas fundidas".

Mesmo o sexo não serve para alívio, ou distracção, já que ele é capaz apenas de encontrar mulheres "como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno". A história do narrador desdobra-se ao longo de uma longa noite ébria em que ele consegue, embora emocionalmente divido, seduzir uma mulher que acaba de conhecer num bar, e "que oferece o ar asséptico competente e sem caspa das secretárias de administração". Ele sabe que este escape erótico vai acabar como todos os outros : com "a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão", após um coito que tem o "júbilo mole com que dois fios de esparguete se cruzam".

Como Anton Chekhov, William Carlos Williams e Moacyr Scliar, o Sr. Lobo Antunes pertence a esse selecto grupo de escritores que também são médicos - um psiquiatra, para ser mais preciso, tendo exercido num hospital de campanha em Angola. Mas o romancista médico talvez mais se assemelhe a Louis-Ferdinand Céline, cujo "Viagem ao Fim da Noite" é também um reflexo grotesco sobre o horror da guerra e o fracasso do imperialismo europeu em África. Lobo Antunes contou como, quando era adolescente, conheceu o "deslumbramento" com a leitura de "Morte a crédito" de Céline, e que escreveu uma carta para o francês misantropo, que lhe terá respondido com, como recorda, "uma ternura imensa."

A versão original do romance de Lobo Antunes tem um título ao estilo de Céline, adequadamente escatológico, que se refere à anatomia de Judas e que se trata de uma expressão da gíria portuguesa que significa algo como "fim do mundo." Jull Costa teve de encontrar um substituto menos pungente [a tradução aqui referida, a mais recente, leva o título em inglês "The Land at the End of the World"], como foi feito numa tradução anterior, publicado em 1983, intitulando o livro de "South of Nowhere". Mas uma vez que a história começa, a sua prestação sobre a linguagem do romancista e do seu estilo é simplesmente esplêndida. Ele criou um narrador memorável desarticulado, e ela conseguiu capturar, perfeita e fielmente, o tom amargo, alucinado e cada vez mais desesperado do seu monólogo.

Talvez devido à sua experiência como psiquiatra, Lobo Antunes é também um escritor extraordinariamente observador, que assim parece ter conseguido um dom especial para inventar metáforas incomuns, mas acertadas. Nuvens de chuva nos trópicos são "tão pesadas como úberes," um soldado exausto atira a sua espingarda "por cima do ombro como se fosse uma cana de pesca inútil", uma professora magra de um posto colonial deserto tem "clavículas tão salientes como as sobrancelhas de Brejnev", e durante a recruta o narrador encontra-se "à ilharga de um aspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato".

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por Larry Rohter
em The New York Times
29.06.2011
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...