20 de novembro de 2011

Santiago Pérez Isasi: opinião sobre O Esplendor de Portugal

António Lobo Antunes, para quem não o conhece, é o outro grande romancista Português da segunda metade do século XX (o "outro", sendo o "tal" supostamente, é José Saramago). Na verdade, isso já é uma opinião muito pessoal, Lobo Antunes é mais romancista que Saramago. Saramago será sempre, na minha opinião, um intelectual comprometido que escreveu romances, enquanto que a Lobo Antunes se reconhece como o romancista "de raça" (expressão tão feia), que por vezes faz o seu papel de intelectual.

Comenta-se muito que Lobo Antunes é um eterno candidato ao prémio Nobel, e quem sabe não venha acabando por recebê-lo. Na verdade, eu acho que ele o merece. No entanto, acho que não conseguirá ter esse favoritismo do público em geral, porque não é de todo um autor fácil. O que Lobo Antunes oferece em seus romances (e em O Esplendor de Portugal em particular) é a consciência nua das suas personagens: o discurso da memória, saltando entre diferentes tempos e entre os diferentes níveis (o consciente, o inconsciente, o recalcado) e que vai reconstruindo histórias, mas não uma história no sentido tradicional.

Lobo Antunes exige um leitor não apenas activo, mas também atento, sensível e paciente, porque o que cria são mundos psicológicos e simbólicos através dos quais é possível reconstruir os factos que os provocaram. Neste caso, são quatro as personagens em cujas mentes mergulhamos: uma família constituída por Isilda, a mãe, que resiste isolada na Angola pós-descolonização, e os três irmãos, Rui, Clarisse e Carlos, que regressam a uma Lisboa que já não lhes pertence e que alimentam os seus ódios e ressentimentos mútuos.

O Esplendor de Portugal, como dizia, não é um romance para todos os públicos, não porque descreva cenas horríveis (tem alguma coisa) ou cenas de sexo impudicas (também), mas pela sua estrutura e o seu estilo desarticulado, poético, combinatório, fragmentado, desorganizado, disperso. Entrar no ritmo e no universo que propõe o romance não é fácil; uma vez reconstruído com as peças essenciais (quem é quem, quais as relações entre si, quais são as suas falhas ou segredos escondidos...) a sua leitura torna-se mais suportável, e muito mais profunda. É uma experiência emocionante; muito mais, francamente, do que da maioria dos romances de Saramago que li.

A nota idiota em conclusão: cada vez que eu lia no livro o nome de Clarisse, não conseguia evitar de lembrar-me do filme O Silêncio dos Inocentes: "Quid pro quo, Clarice"... O mal que Hollywood faz às nossas mentes...


por Santiago Pérez Isasi
18.10.2011
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

19 de novembro de 2011

Larry Rohter: opinião sobre The Land at the End of the World (Os Cus de Judas)

Sobre a ingénua missão num império colonial moribundo

Experiências de combate são como as famílias infelizes de Tolstoi: não há duas iguais, e pode ser por isso que muitas das vezes valem grandes romances, como Tolstoi também sabia. O motivo não tem de ser necessariamente nobre, uma vez que situações de desespero e de violência sem sentido podem na realidade dar força a uma obra de ficção. É certamente o caso de Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, passado em Angola no início dos anos 70, quando Portugal faz um esforço absurdo para preservar o Império em África que sinuosamente caminhava para um fim inglório.

O narrador sem nome é um jovem médico arrancado de uma vida confortável em Lisboa e forçado a passar 27 meses na linha de frente tratando dos seus camaradas infelizes. Ressente-se por terem sido feitos "agentes de um fascismo provincial que foi corroendo e corroendo-se com o ácido lento de sua própria triste e paroquial estupidez." Mas principalmente fica enojado com os corpos mutilados entregues aos seus cuidados, e com medo que o mesmo possa acontecer consigo. Embora haja momentos de humor, quase sempre mordaz, isto não é "M*A*S*H", mas algo de longe mais sombrio e ainda mais absurdo.

"Os Cus de Judas", recém-traduzido por Margaret Jull Costa, foi publicado originalmente em 1979, quatro anos após a retirada de Portugal de África e do colapso final da intervenção americana no Vietname. Naquela época era interpretado como uma crítica à futilidade inerente das então aventuras dos ocidentais sobre o terceiro mundo. Porém, lido trinta anos depois e isolado dessa circunstância, esse legado de que o narrador de Lobo Antunes apelida como a "aprendizagem dolorosa de morrer", ninguém duvidará que faz todo o sentido para os sobreviventes das guerras no Iraque e no Afeganistão.

"O que fizeram de nós", questiona o narrador numa das suas frases tipicamente longas e torrenciais, "aqui sentados à espera nesta paisagem sem mar, presos por três fieiras de arame farpado numa terra que nos não pertence, a morrer de paludismo e de balas cujo percurso silvado se aparenta a um nervo de nylon que vibra, alimentados por colunas aleatórias cuja chegada depende de constantes acidentes de percurso, de emboscadas e de minas, lutando contra um inimigo invisível, contra os dias que se não sucedem e indefinidamente se alongam, contra a saudade, a indignação e o remorso, contra a espessura das trevas opacas tal um véu de luto".

De volta a Lisboa, com o seu casamento ainda outra vítima da guerra, o médico traumatizado não encontra consolo. "Flutuo entre dois continentes que me repelem, nu de raízes", diz. "Deixei de ter lugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui, a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos como lâmpadas fundidas".

Mesmo o sexo não serve para alívio, ou distracção, já que ele é capaz apenas de encontrar mulheres "como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno". A história do narrador desdobra-se ao longo de uma longa noite ébria em que ele consegue, embora emocionalmente divido, seduzir uma mulher que acaba de conhecer num bar, e "que oferece o ar asséptico competente e sem caspa das secretárias de administração". Ele sabe que este escape erótico vai acabar como todos os outros : com "a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão", após um coito que tem o "júbilo mole com que dois fios de esparguete se cruzam".

Como Anton Chekhov, William Carlos Williams e Moacyr Scliar, o Sr. Lobo Antunes pertence a esse selecto grupo de escritores que também são médicos - um psiquiatra, para ser mais preciso, tendo exercido num hospital de campanha em Angola. Mas o romancista médico talvez mais se assemelhe a Louis-Ferdinand Céline, cujo "Viagem ao Fim da Noite" é também um reflexo grotesco sobre o horror da guerra e o fracasso do imperialismo europeu em África. Lobo Antunes contou como, quando era adolescente, conheceu o "deslumbramento" com a leitura de "Morte a crédito" de Céline, e que escreveu uma carta para o francês misantropo, que lhe terá respondido com, como recorda, "uma ternura imensa."

A versão original do romance de Lobo Antunes tem um título ao estilo de Céline, adequadamente escatológico, que se refere à anatomia de Judas e que se trata de uma expressão da gíria portuguesa que significa algo como "fim do mundo." Jull Costa teve de encontrar um substituto menos pungente [a tradução aqui referida, a mais recente, leva o título em inglês "The Land at the End of the World"], como foi feito numa tradução anterior, publicado em 1983, intitulando o livro de "South of Nowhere". Mas uma vez que a história começa, a sua prestação sobre a linguagem do romancista e do seu estilo é simplesmente esplêndida. Ele criou um narrador memorável desarticulado, e ela conseguiu capturar, perfeita e fielmente, o tom amargo, alucinado e cada vez mais desesperado do seu monólogo.

Talvez devido à sua experiência como psiquiatra, Lobo Antunes é também um escritor extraordinariamente observador, que assim parece ter conseguido um dom especial para inventar metáforas incomuns, mas acertadas. Nuvens de chuva nos trópicos são "tão pesadas como úberes," um soldado exausto atira a sua espingarda "por cima do ombro como se fosse uma cana de pesca inútil", uma professora magra de um posto colonial deserto tem "clavículas tão salientes como as sobrancelhas de Brejnev", e durante a recruta o narrador encontra-se "à ilharga de um aspirante gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato".

[...]

por Larry Rohter
em The New York Times
29.06.2011
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

15 de novembro de 2011

Ricardo Salvalaio: opinião sobre O Meu Nome É Legião

Com título inspirado numa citação do Evangelho de São Lucas, “O Meu Nome é Legião” começa como um relatório de polícia, descrevendo a vida de uma gang numa zona a que se chama simplesmente Bairro e que pode fazer evocar qualquer bairro periférico de uma grande cidade. Histórias se cruzam no pano de fundo do Bairro e é normal - o autor mostra que aquilo que existe de mais parecido com a salvação é esquecer tudo o que aconteceu e pensar: "Não tenho medo de vocês, não tenho medo de nada".

É noite num bairro afastado de Lisboa quando oito garotos, com idades entre 12 e 19 anos, roubam dois carros. Ao alcançarem uma auto-estrada, passam a praticar crimes bárbaros madrugada adentro. Gusmão é um policial desiludido. Ignorado pelos colegas e em vias de se aposentar, redige um inquérito sobre oito jovens delinquentes e seus actos bárbaros ao longo de uma madrugada.

Mas o texto, aparentemente técnico e objectivo, aos poucos se transforma em uma trama narrativa de múltiplas vozes, em que vários narradores tomam a palavra, cada qual com sua versão dos factos e suas lembranças, criando um mosaico de contrastes sobre a injustiça e a dor. “O Meu Nome é Legião” mostra Lobo Antunes em pleno domínio de um estilo narrativo inigualável, em que as falas, os pensamentos e os actos de diversos personagens se fundem em um texto denso, raras vezes visto na literatura.

O escritor português reconta os acontecimentos inicialmente sob a forma de um relatório escrito por Gusmão, policial em fim de carreira, para em seguida entrelaçar os pensamentos desse homem solitário aos depoimentos de outros personagens que, de uma forma ou de outra, estão ligados ao destino dos jovens criminosos. “O Meu Nome é Legião” é um romance magistral, que se coloca entre os livros mais contundentes de Lobo Antunes. Confira!


Ricardo Salvalaio
16.10.2011

13 de novembro de 2011

«Vivemos num neofascismo capitalista»


foto de Carlos Vidigal Jr. / ASF
Numa altura tão difícil e injusta, que os portugueses têm aguentado com uma paciência que eu considero inexcedível, em que vivemos num neofascismo capitalista, que afasta ainda mais as pessoas da cultura e dos livros, estar aqui hoje é, também, um acto de protesto”, disse ontem, em Faro, o escritor António Lobo Antunes, durante uma conversa com leitores a propósito do seu último livro "Comissão de Lágrimas".

Num registo informal, perante uma sala lotada, com perto de uma centena de pessoas, o escritor respondeu às várias questões colocadas pela assistência, falou do seu último livro e teceu críticas ao estado da cultura em Portugal, alertando para o excesso de lixo televisivo, a falta de programas culturais e a inexistência de bons livros.

Tudo isto é altamente conveniente para o poder político que, na realidade, é o poder económico, porque um povo culto não consente este tipo de existência que vivemos agora, e começa a exigir. Por isso, a cultura é perigosa e assusta o poder”, concluiu o escritor, acrescentando que são “as autarquias e os livreiros” quem mais faz pela cultura no nosso país.

(LUSA)

11 de novembro de 2011

Andrei Barros Correia: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Gosto de escrever pela manhã. Mas terminei de ler O Manual dos Inquisidores agora e já é noite. As impressões estão fortes na cabeça, talvez não deva perder a oportunidade, mesmo que saia mal pensado e apressado.

Há dois anos, mais ou menos, o Miguel me dizia da leitura do Lobo Antunes que era difícil. Eu enchia a paciência dele a perguntar de autores portugueses, que excepto por Eça e Saramago pouca coisa tinha lido. Com a paciência de quem gosta do assunto, Miguel falava de um e outro. Do Lobo Antunes lembro-me da advertência.

Tanto que ficou muito para depois o Lobo Antunes, para agora. O homem facilita a percepção de que ele seja meio louco, diz que escreve talvez para remediar-se. Que escrever e ser psiquiatra são coisas próximas. E fica a parecer real, porque muito psiquiatra é médico para tratar de si mesmo. Mas, deixo isso para lá.

Não andei em busca de críticas e resenhas do livro, apenas li aquelas bobagens que vêm nas orelhas e nas contra-capas. Sempre são bobagens, é impressionante. O lugar-comum é decadência, embora ninguém saiba o que é isso. Querem significar com isso tempo, história?

Devem querer dizer história, porque é a coisa mais difícil de perceber que existe e, por isso mesmo, a que é chamada por mais nomes diferentes é multi-significantes. As personagens envelhecem e ficam decrépitas, é isso, acho, que leva o comentador a falar em decadência. Ora, decadência sempre há, não pode ser o elemento distintivo de alguma coisa.

O bom autor Lobo Antunes fala de história, é claro. Muito mais que de histórias particulares das personagens, mas da história de um período: o salazarismo do meio para o final. A história apreendida nas suas expressões em cada camada social, porque o quadro completa-se com as realidades múltiplas.

O formato do livro é quase destituído de surpresas, excepto para quem entenda linearidade como evolução cronológica ritmada. A linearidade narrativa do livro está na integração evidente das idas e vindas do tempo contado ao depois. Os episódios são perfeitamente necessários, uns aos outros.

Os relatos e comentários, partes que sempre se sucedem, são mudanças de ponto de vista, como fotografias de uma coisa tiradas a partir de locais diferentes e dão ideia de profundidade, porque assim pode-se relacionar as percepções diferentes de um episódio. É algo diferente de versões, devo apontar, são visões distintas de um mesmo processo.
 
Um processo que evidencia algo terrível e tão terrível que muitos ignorarão, porque somos treinados desde cedo para não ver esse ponto essencial. Nos processos históricos e mesmo naqueles que têm grandes mudanças políticas e rompimentos, há um grupo que nunca perde.

Há um grupo que sofre, aqui e acolá uns problemas, mas sempre arruma-se, permanece quase que acima da história. Por isso mesmo, é superficial falar em decadência ou, talvez, fale-se em decadência muito superficialmente. Ela acontece para os grupos movidos e para os indivíduos particularmente, mas não para um grupo. No livro, isso é claríssimo e, de tão terrível, ocupa somente uma porção inicial dele.

Por outro lado, a grande personagem do livro fez-me lembrar outro livro, por conta de uma associação bastante livre, que não é propriamente literária. Falo do Médico e o Monstro, de Stevenson, que geralmente é visto como algo meio extraordinário no sentido de ficcional, ou de algum terror.

O livrinho de Stevenson é das mais profundas análises da alma humana que se fizeram. Eles convivem em todos, o médico e o monstro, é questão de despertá-los. E convivem até pacificamente, é questão do médico perceber o monstro ou de não o perceber em absoluto. Se eles entendem-se razoavelmente, superficialmente, aí é que a convivência é conflituosa.

O Ministro do livro, o Ministro de Salazar que vai de poderoso a velho de sanatório, não percebe o monstro absolutamente. Até ao final ele não se vê além de como sempre se viu, então ele conta o que torturou por mandar, o que matou por mandar matar, o que comprou de gente por comprar e simplesmente conta.

Ele é a figura vulgaríssima de pessoa com apetites e meios para satisfazê-los, com apetites e sem meios para satisfazê-los;,mas sempre com apetites. O que muda são as disponibilidades dos meios o que equivale a dizer tempo. Ele é só ele, não tem propriamente pensamentos, mas recordações e apetites. Não tem crítica, mas imagens que se referem a ele e só a ele.

Um morto ou vários mortos, um morto na frente dele morto por ordem dele é um elemento de recordação que faz sentido na lembrança de toda sua vida, que é muito bem alinhavada na narrativa, a despeito das idas e vindas cronológicas e do texto sem vírgulas. Uma vida extremamente coerente, diga-se, quase uma vida de coerência da razão de Estado.

E as outras personagens, subsidiárias, evidentemente, são a mesma coisa. Claro que são coisas socialmente diferentes, mas fica evidente que feitas da mesma matéria. Elas são as suas posições sociais, enfim, são móveis de pouca ou nenhuma liberdade. O livro, e aqui devo dizer, é terrível para quem acredita em liberdade.

A única liberdade que há é de lembrar-se e de querer, de ter apetites. De tê-los e satisfazê-los, de tê-los e não os satisfazer, de continuar a tê-los e não os poder mais satisfazer, pouco importa. O que houve, todos os fragmentos, foram somente partes de uma trajectória, não implicam qualquer coisa que não se refira a si mesmo.

Várias personagens ligadas, como é de um romance ou novela, com vidas ligadas, deixam claro que as ligações são muito menos que cada um. Que cada um percebe o mundo em si e vai até ao final assim.


por Andrei Barros Correia
11.03.2011

10 de novembro de 2011

Simão Fonseca: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Ao quarto livro, mais setenta e nove crónicas. António Lobo Antunes escreve com regularidade para a revista Visão desde há uns anos para cá, onde são publicados textos que se destacam pela sua melancolia contrastante com o humor do autor, e a D. Quixote encarrega-se depois de fazer a sua compilação, como acontece neste agradável Quarto Livro de Crónicas – o primeiro data de 1998.

Ao largo destas quase oitenta crónicas, António Lobo Antunes viaja pelo seu passado, recuperando as memórias da infância em Nelas e Benfica, dos avós e dos pais, da mercearia do Sr. Casimiro, da caça às lagartixas, das travessuras, dos professores da escola, dos amigos, da escrita precoce ou da aptidão para jogar hóquei. A guerra colonial em Angola é também assunto em destaque, fazendo Lobo Antunes questão de mostrar ao leitor o carinho, os maus momentos e a saudade que nutre pelos seus camaradas – alguns já mortos - sempre que pensa neles ou quando há jantares de reunião e convívio entre velhos amigos que são, no fundo, irmãos de guerra (Acácio António Acácio António Acácio António Acácio António). António Lobo Antunes estabelece diálogos íntimos consigo mesmo e com quem o lê, retratando muitas vezes o seu processo de criação dos seus livros (Onde o Pobre Escritor Começa), o que o motiva a escrever, a força que ele busca, por vezes, para conseguir dactilografar uma boa crónicas e quando deita fora alguns capítulos de um livro que nunca chega a ser livro, conduzindo-o à estaca zero – e lá começa de novo o processo, culminando com o êxito que é reconhecido pela imprensa e pelo leitor fiel - Crónica com Buganvílias: «(…) Fazer livros é uma tarefa que não associo ao prazer. E, no entanto, que outra coisa verdadeiramente me interessa? Além do mais tornou-me humilde, isto é, deu-me um orgulho humilde.».

António Lobo Antunes escreve também sobre alguns escritores que o marcaram (O Capitão da Areia), alguns seus amigos, outros que nunca conheceu; porém, há crónicas cujo título remete de imediato para o sujeito em questão: (Miguel Torga, Juan Marsé). Convém ressalvar que nestas crónicas há um sentimento de saudade predominante – infância, adolescência, pai e avó, principalmente -, um sentimento de tristeza relativo à guerra colonial e um enorme sarcasmo hilariante que o autor descobre para amenizar e tornar divertida toda a melancolia aqui descrita – há também o regresso à já conhecida crónica sobre os dentistas, A Cadeira do Dentista, a mais cómica deste Quatro Livro de Crónicas.



por Simão Fonseca
07.11.2011

António Lobo Antunes em Castelo Branco



Nesta reportagem (1' 37''), feita pela localvisão tv, sobre a sessão de autógrafos em Castelo Branco no passado dia 4, o escritor volta a reafirmar o profundo desgosto pela situação actual do país, e pela falta de apoio à cultura por parte do governo central, reafirmando que é o poder local que ainda faz alguma coisa.

3 de novembro de 2011

Na edição de Novembro, a LER...

... dá-nos um presente: George Steiner e António Lobo Antunes, em exclusivo.


Citando integralmente o post de ontem no blog da LER:


Sete meses depois de ter revelado, em entrevista à LER, algum pudor em se encontrar com o «gigante» português, mas que «adoraria conhecê-lo», George Steiner recebeu António Lobo Antunes em sua casa, nos arredores de Cambridge, por onde passaram Jorge Luis Borges ou Arthur Koestler. Duas horas de conversa (sem interferências, guiões combinados ou cortes) sobre os clássicos, os mestres, a poesia, mas também as guerras, a política, a «era da mulher», a língua, a crise atual, a falta de esperança dos jovens a até os momentos de grande decepção. 9 de outubro de 2011 fica definitivamente na memória de ambos. E na nossa. Um momento ímpar na LER de Novembro.

«Considero-o a si e a Tchécov dois génios nos quais a Medicina é importante na imaginação. […] Você perdoa muito ao Homem, não é um mestre do ódio. Há grandes escritores que são mestres do ódio. Você e Tchécov, e isso sempre o disse, têm o lado médico do perdão, o lado que perdoa a enfermidade do Homem.»
George Steiner

«Continuo a aprender muito consigo, é um Mestre no sentido maior do termo, ou seja, alguém que aprende comigo. E esse é o mais belo título, parece-me, que posso dar a alguém. Alguém que me ensina, aprendendo. Tinha muito medo que neste encontro – porque como sou muito solitário e falo pouco – a corrente não passasse. No entanto, a corrente passa e isso dá-me uma alegria imensa.»
António Lobo Antunes






fonte: blog da LER

31 de outubro de 2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Comissão das Lágrimas


Uma mulher de quarenta e tal anos. A fronteira entre a juventude e a memória que escapa, porém uma outra memória, a que resiste, persiste, como uma moinha, uma dor latente que aperta a alma e domina a mente; recordações negras, avassaladoras, povoam a mente de Cristina, internada numa clínica psiquiátrica. Memórias de África, Angola, Luanda, anos setenta. Nascida no tempo da Guerra Colonial, crescida entre o sangue e o horror, Cristina recorda a mãe, Alice ou Simone consoante se trate da mãe propriamente dita ou da mulher de alterne em que sobrevivera, do pai ou não pai, não se sabe bem, ele preto, o pai verdadeiro talvez branco, talvez o senhor Figueiredo da boîte, Cristina não sabe, sabe sim que o pai, preto, foi homem da Comissão das Lágrimas, homem que faz justiça com muitas mortes e sofreu de outras justiças não menos ensanguentadas pela guerra ou guerrilha ou seja lá o que for, porque em Angola não era preciso guerra para matar, bastava viver ou sobreviver.

É assim o escrever e o sentir de António Lobo Antunes, frases que crescem como o pensamento que se encadeia noutro pensamento, porque o pensamento não tem pontos parágrafo nem sofre de acordos ortográficos. Assim uma escrita corrediça como a vida, assim às vezes partida ao meio como as almas.

O escrever de António é como o escrever do pensamento na memória. O que pensamos é por vezes apenas o que persistiu, deitamos fora os sorrisos, ficam as dores, as moinhas que persistem como o joelho de Simone ou Alice, o joelho que não pára de doer, que incha como as dores da alma.

É assim o escrever de António, um escrever que nos faz sentir as dores de todas as Cristinas e chorar a alma de todas as Simones. É assim um livro inteiro sem um sorriso, a não ser talvez o sorriso interesseiro do avô de Simone, “anda cá rapariga”, o avô de Alice (então Alice, está claro) que não vê, não enxerga e então vê Alice tacteando, as pontas dos dedos no corpo de Alice, como os aguilhões de todas as guerras cravados nas almas.

Um livro sofrido, escrito a sangue que se lê sem lágrimas mas também sem conforto a não ser o do prazer imenso de passear na tristeza e na arte infinita de António Lobo Antunes.

A meu ver um dos melhores livros de ALA, este, o último até ao próximo. Um livro onde, mais uma vez, não se pode procurar uma estória porque os livros de ALA são viagens, não são contos nem narrativas. Viagens interiores, passeios pelas dores da vida e, muitas vezes, murros brutais na alma de quem lê. Murros que se encaixam talvez com prazer masoquista mas sem dúvida com prazer de saborear esta poesia da dor como ninguém mais é capaz de a escrever.


Manuel Cardoso
31.10.2011

30 de outubro de 2011

José Alexandre Ramos: opinião sobre Comissão das Lágrimas

«A única solução é apagar o passado»

Será ingénuo o leitor que, tomando Comissão das Lágrimas para ler, pensar que vai encontrar o mesmo António Lobo Antunes (ALA) de livros, pelo menos, anteriores a Eu Hei-de Amar Uma Pedra. Muito mais ingénuo será o leitor se for apenas conhecedor das crónicas encantadoras do escritor e julgar vir a sair da mesma forma encantado com a leitura deste livro de difícil catalogação (chamar-lhe simplesmente romance não é justo, seja no bom ou no mau sentido). Isto quer dizer que ler os livros mais actuais de Lobo Antunes, ou este em concreto, tornou-se quase impossível? Depende do leitor: sim, se for um dos ingénuos que atrás referi, porque é preciso estar preparado; e não, se já conhecer bem a arte do escritor e tiver capacidade para se conduzir nas curvas e contracurvas do discurso sem se despistar em qualquer capítulo. Mas é o mais difícil de todos, do meu ponto de vista. A não ser que eu não tenha estado tão preparado como julguei. A eficácia de um livro também depende da preparação do leitor para o receber.

Pessoalmente, como leitor de todos os livros de ALA e grande apreciador da sua escrita, desta vez, com este Comissão das Lágrimas, não saí convencido de ter lido uma obra-prima. Não creio que seja livro de que vá recordar-me, ou acompanhar-me durante semanas, como aconteceu com outros (Fado Alexandrino, a título de exemplo e indo buscar um dos mais antigos, já lido há anos). O doseamento das palavras, o encaixe das vozes sobrepostas, continua sendo de mestre (que eu ainda não encontrei em qualquer outro autor até à data), mas, dando razão a algumas críticas que já li, este livro, com um título tão sugestivo (ao qual só os mais distraídos se mostrarão indiferentes) necessitava que desta vez António Lobo Antunes se desmarcasse da sua obstinada pretensão de não contar uma história (na realidade ele conta imensas em cada livro, ou no mínimo sugere a maior parte delas) e engrossasse este Comissão das Lágrimas com um fio narrativo mais consistente, para que nada fugisse ao leitor. Pegando nas palavras de Clara Ferreira Alves, em crítica ao livro publicada no Expresso, ALA “sabe do que está a falar e quem está a falar, os leitores não. O escritor deixa os leitores à porta”. Nem todos os leitores, mas a maioria acredito que sim. Se não sabemos o que veio a ser esta Comissão das Lágrimas – um episódio político na história de Angola após a independência, que não vou explicar, os interessados podem pesquisar na web – teremos mais dificuldade em entrar nas várias narrativas. Assim, nada se perdia se o autor desta vez tivesse introduzido nas suas vozes alguém que explicasse, mesmo que muito sumariamente, o porquê deste título ou desta “comissão” que surge várias vezes ao longo do texto. Dir-me-ão porventura que pode ler-se nas entrelinhas. Também, mas o que se espera de um livro com título tão sugestivo? E só aprendemos as entrelinhas se soubermos o que foi a Comissão das Lágrimas como facto histórico, de outra maneira ficaremos com uma ligeira impressão de que será alguma coisa política e aterradora, com a ajuda de alguns fragmentos apanhados do discurso, mas nunca com uma noção clara do que se trata: ao longo de todo o livro, é a razão para o discurso das vozes que habitam a narração.

E que vozes são estas? Podemos dizer que é apenas uma voz interpretando tantas quantas Cristina, a personagem narradora, se quisermos assim, terá no interior da sua mente esquizofrénica. Nascida e vivendo em Angola até aos seis anos, é filha de uma portuguesa bailarina (prostituta?) de cabaret de gosto duvidoso e de um ex-padre, angolano preto, que acaba por ser um dos comissários dessa inquisição que torturava e matava. Mas será esta criatura, branca como a mãe, verdadeiramente filha do comissário angolano a quem chama pai? A subtileza das palavras que ALA deixou neste livro pode levar-nos a outra interpretação (leiam para saber), bem como da veracidade do que ali é relatado, tanto a nível do que o leitor poderá imaginar o que terá sido a Comissão das Lágrimas, bem como de toda a informação das personagens (vozes) sobrepostas: o que dizem, o que fazem, o que sentem, o seu passado. A duvidosa veracidade destes factos é sugerida ao longo do texto, em afirmações que são negadas pela voz interveniente, ou mesmo quando nos damos conta que, estando Cristina narrando, o discurso resvala para outros tempos, outros espaços, outras circunstâncias, a diegese altera, e linhas ou páginas adiante é Cristina que retoma, e isto sem haver, estruturalmente, qualquer pausa, qualquer parágrafo ou mesmo ponto final (a pontuação gráfica é basicamente feita com pontos de interrogação e vírgulas, os pontos finais só figuram quando termina cada capítulo). É como se a voz de Cristina se engasgasse, como se o seu pensamento fosse tomado, ou ela entrando em transe, repentina e repetidamente, para dar vez a outras vozes que se impõem. Tudo a uma velocidade tal que é compreensível que o leitor, se não desistiu nos primeiros capítulos, tenha de voltar atrás, e mais atrás, e reler, para não perder-se neste emaranhado. É o que de mais negativo encontro no livro, estruturalmente: é muito emaranhado, nenhum capítulo dá descanso ao leitor; e, de resto, o que dizem as vozes, acaba por ser redundante com o que já lemos de outros livros do autor.

Resumindo o livro em duas palavras, para nos centrarmos no que, na minha opinião, é o tema da narrativa e o que incomoda as suas personagens: culpa e arrependimento. Está absolutamente carregado de culpa, por acções e decisões tomadas, pelo que poderia ser feito, pela inércia, pelo medo de. Arrependimento é o que resta a estas três pessoas tão sós (pai, mãe e filha, que acabam por trocar Angola por Portugal e não têm parentes ou amigos), a olhar uma réstia do Tejo através das janelas de um apartamento tacanho, recuando no passado como peçonha entranhada nas suas almas. Ou afinal que é Cristina apenas que delira e então acabamos por não saber nada do que foi, se o foi, se o é. Só ela, só ela – a voz – e o escritor que desta vez deixou os seus leitores à porta. A única solução, como diz nas suas últimas linhas o livro, é apagar o passado. Apagar o passado, ultrapassar a culpa e deixar-nos entrar, António.

(Nota: escrever sobre este livro foi muito mais difícil do que lê-lo. Não quis falar mais a fundo das personagens e do seu papel na narrativa por achar que ia acabar por abordar apenas uma história – ou um lado dessa história – e o livro contém muitas, todas inacabadas, fragmentadas. Quem não entendeu o que escrevi não leu o livro. Leia, então, mesmo ficando à porta, e depois regresse contando a sua experiência como leitor.)



José Alexandre Ramos
30.10.2011

29 de outubro de 2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes - Conhecimento do Inferno - 248 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2006 (lançamento em Portugal 1980 - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Para aqueles que buscam uma leitura leve e agradável, sem maiores desafios literários, não recomendo absolutamente nenhum dos romances do português António Lobo Antunes, tanto em relação à escolha dos temas quanto à técnica narrativa, já que é um autor que exige atenção redobrada do leitor. Este Conhecimento do Inferno, terceiro de uma trilogia iniciada com Memória de Elefante e Os Cus de Judas é especialmente difícil por tratar de dois temas espinhosos: a experiência do próprio Lobo Antunes durante a guerra colonial em Angola e o período em que trabalhou como psiquiatra no hospital Miguel Bombarda em Lisboa nos anos setenta.

Toda a acção do romance ocorre durante uma viagem de carro com duração de um dia, do sul de Portugal, região do Algarve, até Lisboa, mas o truque de António Lobo Antunes é justamente multiplicar este tempo passando por várias fases da vida do narrador. Os eventos são lembrados pelo solitário protagonista (o próprio Lobo Antunes) misturando épocas e alternando entre a primeira e terceira pessoa. Nesta passagem, ao final do primeiro capítulo, ele deixa claro, em tom de autobiografia, o que podemos esperar do romance: "Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno".

Em outro trecho, desta vez utilizando a terceira pessoa, fica clara a posição contrária aos métodos de psiquiatria utilizados: "O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança (...)" ou nesta outra passagem: "Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras (...)".

Lendo algumas partes do romance de Lobo Antunes, só encontro paralelos na literatura sobre a descrição e ambientação da loucura em autores como Lima Barreto ou Dostoiévski. Uma experiência perturbadora que não consegue ser facilmente explicada ou resenhada: "Eis-me no reino das flores de plástico, verificou acariciando com o polegar as orgulhosas pétalas postiças, no meio dos sentimentos de plástico, das emoções de plástico, da piedade de plástico, do afecto de plástico dos médicos, porque nos médicos quase só o horror é genuíno, o horror e o pânico do sofrimento, da amargura, da morte. Quase só o horror sangra nos que se debruçam para a angústia alheia com os seus instrumentos complicados, os seus livros, os seus diagnósticos cabalísticos, como em pequeno eu me inclinava para os moluscos na praia, virando-os com um pauzinho para espiar, curioso, o outro lado".


Alexandre Kovacs
08.07.2011

28 de outubro de 2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros - 256 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2009 (lançamento em Portugal 1981) - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Sempre achei que os piores pesadelos não são aqueles povoados de monstros e situações de terror, pois estes identificamos logo de início como pesadelos; aqueles verdadeiramente terríveis são os que reconhecemos como parte do nosso próprio quotidiano, começando de mansinho e, pouco a pouco, nos envolvendo em uma malha sufocante de espirais infinitas, uma sensação de afogamento em que não percebemos se chegamos ao fundo ou à superfície.

Esta sensação de pesadelo foi a que me deixou o romance "Explicação dos Pássaros" do mestre António Lobo Antunes que, com a sua tradicional prosa polifónica, misturando passado, presente e futuro, vai nos desvendando os últimos dias da vida de Rui S., um professor universitário que se vê aprisionado em uma série de situações que ele próprio, por conta de decisões erradas ou mesmo falta de decisões, se deixou envolver ao longo da vida.

Lobo Antunes parece não ter pena de seu protagonista que vai sendo lentamente despedaçado ao longo da narrativa. Depois de uma desconfortável visita à mãe que morre de câncer em um leito de hospital, parte em uma viagem de carro de final de semana com a segunda mulher decidido a pedir-lhe a separação. Ao longo desta viagem, todo o passado de Rui S. é descortinado, incluindo os detalhes da separação pedida pela primeira mulher (do ponto de vista do protagonista e da mulher), a inadaptação à sua família, sociedade, filhos e amigos, tudo parece levar Rui S. a um final trágico.

Por que devemos ler livros assim? Não sei responder a esta pergunta, mas posso assegurar que é um belo exemplo de literatura.


Alexandre Kovacs
14.10.2011

Capa da edição comemorativa dos 30 anos da 1ª edição de Explicação dos Pássaros

Estará nas livrarias em Novembro a edição comemorativa dos 30 anos de Explicação dos Pássaros:


O mesmo design das capas das anteriores edições comemorativas de Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno:

  

22 de outubro de 2011

Simão Fonseca: opinião sobre Comissão das Lágrimas


António Lobo Antunes, enquanto escritor, não pára de me surpreender, e como leitor, fico surpreendido a cada obra que tenho o prazer de ler e de, por vezes, escrever o que sinto, o que ouço e o que vejo em cada linha das páginas constituintes de belos romances, baseados geralmente em acontecimentos da vida de Lobo Antunes. Cada livro que compro é garantia de satisfação, interrompida por breves dores de cabeça saudáveis que me deixam na dúvida e obrigam a raciocinar a um ritmo de decifração acelerado.

Comissão das Lágrimas remete de imediato para Angola e para a carnificina do movimento de independência que ocorreu naquele país africano. [...]

Embora a obra seja baseada nestes factos históricos, ela é-nos contada por Cristina, filha de uma imigrante portuguesa branca e de um pai negro, ex-padre, agora ao serviço do governo, que também eles se intrometem na narração da história. Cristina esteve apenas cinco anos em Angola antes de regressar a Lisboa e, no entanto, recorda-se – aparentemente – da vida dos pais em Luanda: a mãe uma dançarina que se prostituía numa casa de alterne, que nos é descrita como uma «fábrica/modista/escritório»; o pai abandonou em jovem os caminhos de Deus para interrogar e torturar agora os desertores e opositores do regime, vendo-se ele próprio mais tarde perseguido e obrigado a fugir com a família para Lisboa. Linearmente, pode ser esta a sinopse do último da extensa lista de romances do autor. Mas, e como é habitual na escrita e temática de Lobo Antunes, as personagens vivem num mundo caótico de realidade vs fantasia, afirmando algo que parece verdade aqui, ora algo que já contradiz essa mesma verdade acolá. Cristina está internada numa clínica, ouve vozes e comunica com os objectos que a rodeiam, num estado de verdadeira esquizofrenia, contribuindo para uma narração alucinada dos acontecimentos que ela, a mãe e o pai (com avós e tios à mistura) vão descrevendo.

Ao longo de mais de trezentas páginas são-nos oferecidos retratos de mortes e mais mortes na cadeia, em valas, na rua, em tudo quanto é terra em Angola, acompanhado por uma musicalidade rápida que Lobo Antunes imprime na sua escrita, deixando o leitor confuso e desgastado com tanta imagem e som que lhe desperta – analepses, elipses e prolepses juntam-se para um pezinho de dança com bastante frequência. Como referido anteriormente, linearmente a obra pode ser interpretada como mais um retorno a Angola e às angústias de Lobo Antunes; convém, no entanto, ressalvar, que a questão dos retornados portugueses é outra das ideias de fundo que é explorada no livro. Cabe ao leitor interpretar e digerir da melhor forma o prato que lhe é servido, distinguindo os delírios e a realidade da escrita de uma das maiores figuras da Literatura mundial.
 

Simão Fonseca
22.10.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...