31/10/2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Comissão das Lágrimas


Uma mulher de quarenta e tal anos. A fronteira entre a juventude e a memória que escapa, porém uma outra memória, a que resiste, persiste, como uma moinha, uma dor latente que aperta a alma e domina a mente; recordações negras, avassaladoras, povoam a mente de Cristina, internada numa clínica psiquiátrica. Memórias de África, Angola, Luanda, anos setenta. Nascida no tempo da Guerra Colonial, crescida entre o sangue e o horror, Cristina recorda a mãe, Alice ou Simone consoante se trate da mãe propriamente dita ou da mulher de alterne em que sobrevivera, do pai ou não pai, não se sabe bem, ele preto, o pai verdadeiro talvez branco, talvez o senhor Figueiredo da boîte, Cristina não sabe, sabe sim que o pai, preto, foi homem da Comissão das Lágrimas, homem que faz justiça com muitas mortes e sofreu de outras justiças não menos ensanguentadas pela guerra ou guerrilha ou seja lá o que for, porque em Angola não era preciso guerra para matar, bastava viver ou sobreviver.

É assim o escrever e o sentir de António Lobo Antunes, frases que crescem como o pensamento que se encadeia noutro pensamento, porque o pensamento não tem pontos parágrafo nem sofre de acordos ortográficos. Assim uma escrita corrediça como a vida, assim às vezes partida ao meio como as almas.

O escrever de António é como o escrever do pensamento na memória. O que pensamos é por vezes apenas o que persistiu, deitamos fora os sorrisos, ficam as dores, as moinhas que persistem como o joelho de Simone ou Alice, o joelho que não pára de doer, que incha como as dores da alma.

É assim o escrever de António, um escrever que nos faz sentir as dores de todas as Cristinas e chorar a alma de todas as Simones. É assim um livro inteiro sem um sorriso, a não ser talvez o sorriso interesseiro do avô de Simone, “anda cá rapariga”, o avô de Alice (então Alice, está claro) que não vê, não enxerga e então vê Alice tacteando, as pontas dos dedos no corpo de Alice, como os aguilhões de todas as guerras cravados nas almas.

Um livro sofrido, escrito a sangue que se lê sem lágrimas mas também sem conforto a não ser o do prazer imenso de passear na tristeza e na arte infinita de António Lobo Antunes.

A meu ver um dos melhores livros de ALA, este, o último até ao próximo. Um livro onde, mais uma vez, não se pode procurar uma estória porque os livros de ALA são viagens, não são contos nem narrativas. Viagens interiores, passeios pelas dores da vida e, muitas vezes, murros brutais na alma de quem lê. Murros que se encaixam talvez com prazer masoquista mas sem dúvida com prazer de saborear esta poesia da dor como ninguém mais é capaz de a escrever.


Manuel Cardoso
31.10.2011

30/10/2011

José Alexandre Ramos: opinião sobre Comissão das Lágrimas

«A única solução é apagar o passado»

Será ingénuo o leitor que, tomando Comissão das Lágrimas para ler, pensar que vai encontrar o mesmo António Lobo Antunes (ALA) de livros, pelo menos, anteriores a Eu Hei-de Amar Uma Pedra. Muito mais ingénuo será o leitor se for apenas conhecedor das crónicas encantadoras do escritor e julgar vir a sair da mesma forma encantado com a leitura deste livro de difícil catalogação (chamar-lhe simplesmente romance não é justo, seja no bom ou no mau sentido). Isto quer dizer que ler os livros mais actuais de Lobo Antunes, ou este em concreto, tornou-se quase impossível? Depende do leitor: sim, se for um dos ingénuos que atrás referi, porque é preciso estar preparado; e não, se já conhecer bem a arte do escritor e tiver capacidade para se conduzir nas curvas e contracurvas do discurso sem se despistar em qualquer capítulo. Mas é o mais difícil de todos, do meu ponto de vista. A não ser que eu não tenha estado tão preparado como julguei. A eficácia de um livro também depende da preparação do leitor para o receber.

Pessoalmente, como leitor de todos os livros de ALA e grande apreciador da sua escrita, desta vez, com este Comissão das Lágrimas, não saí convencido de ter lido uma obra-prima. Não creio que seja livro de que vá recordar-me, ou acompanhar-me durante semanas, como aconteceu com outros (Fado Alexandrino, a título de exemplo e indo buscar um dos mais antigos, já lido há anos). O doseamento das palavras, o encaixe das vozes sobrepostas, continua sendo de mestre (que eu ainda não encontrei em qualquer outro autor até à data), mas, dando razão a algumas críticas que já li, este livro, com um título tão sugestivo (ao qual só os mais distraídos se mostrarão indiferentes) necessitava que desta vez António Lobo Antunes se desmarcasse da sua obstinada pretensão de não contar uma história (na realidade ele conta imensas em cada livro, ou no mínimo sugere a maior parte delas) e engrossasse este Comissão das Lágrimas com um fio narrativo mais consistente, para que nada fugisse ao leitor. Pegando nas palavras de Clara Ferreira Alves, em crítica ao livro publicada no Expresso, ALA “sabe do que está a falar e quem está a falar, os leitores não. O escritor deixa os leitores à porta”. Nem todos os leitores, mas a maioria acredito que sim. Se não sabemos o que veio a ser esta Comissão das Lágrimas – um episódio político na história de Angola após a independência, que não vou explicar, os interessados podem pesquisar na web – teremos mais dificuldade em entrar nas várias narrativas. Assim, nada se perdia se o autor desta vez tivesse introduzido nas suas vozes alguém que explicasse, mesmo que muito sumariamente, o porquê deste título ou desta “comissão” que surge várias vezes ao longo do texto. Dir-me-ão porventura que pode ler-se nas entrelinhas. Também, mas o que se espera de um livro com título tão sugestivo? E só aprendemos as entrelinhas se soubermos o que foi a Comissão das Lágrimas como facto histórico, de outra maneira ficaremos com uma ligeira impressão de que será alguma coisa política e aterradora, com a ajuda de alguns fragmentos apanhados do discurso, mas nunca com uma noção clara do que se trata: ao longo de todo o livro, é a razão para o discurso das vozes que habitam a narração.

E que vozes são estas? Podemos dizer que é apenas uma voz interpretando tantas quantas Cristina, a personagem narradora, se quisermos assim, terá no interior da sua mente esquizofrénica. Nascida e vivendo em Angola até aos seis anos, é filha de uma portuguesa bailarina (prostituta?) de cabaret de gosto duvidoso e de um ex-padre, angolano preto, que acaba por ser um dos comissários dessa inquisição que torturava e matava. Mas será esta criatura, branca como a mãe, verdadeiramente filha do comissário angolano a quem chama pai? A subtileza das palavras que ALA deixou neste livro pode levar-nos a outra interpretação (leiam para saber), bem como da veracidade do que ali é relatado, tanto a nível do que o leitor poderá imaginar o que terá sido a Comissão das Lágrimas, bem como de toda a informação das personagens (vozes) sobrepostas: o que dizem, o que fazem, o que sentem, o seu passado. A duvidosa veracidade destes factos é sugerida ao longo do texto, em afirmações que são negadas pela voz interveniente, ou mesmo quando nos damos conta que, estando Cristina narrando, o discurso resvala para outros tempos, outros espaços, outras circunstâncias, a diegese altera, e linhas ou páginas adiante é Cristina que retoma, e isto sem haver, estruturalmente, qualquer pausa, qualquer parágrafo ou mesmo ponto final (a pontuação gráfica é basicamente feita com pontos de interrogação e vírgulas, os pontos finais só figuram quando termina cada capítulo). É como se a voz de Cristina se engasgasse, como se o seu pensamento fosse tomado, ou ela entrando em transe, repentina e repetidamente, para dar vez a outras vozes que se impõem. Tudo a uma velocidade tal que é compreensível que o leitor, se não desistiu nos primeiros capítulos, tenha de voltar atrás, e mais atrás, e reler, para não perder-se neste emaranhado. É o que de mais negativo encontro no livro, estruturalmente: é muito emaranhado, nenhum capítulo dá descanso ao leitor; e, de resto, o que dizem as vozes, acaba por ser redundante com o que já lemos de outros livros do autor.

Resumindo o livro em duas palavras, para nos centrarmos no que, na minha opinião, é o tema da narrativa e o que incomoda as suas personagens: culpa e arrependimento. Está absolutamente carregado de culpa, por acções e decisões tomadas, pelo que poderia ser feito, pela inércia, pelo medo de. Arrependimento é o que resta a estas três pessoas tão sós (pai, mãe e filha, que acabam por trocar Angola por Portugal e não têm parentes ou amigos), a olhar uma réstia do Tejo através das janelas de um apartamento tacanho, recuando no passado como peçonha entranhada nas suas almas. Ou afinal que é Cristina apenas que delira e então acabamos por não saber nada do que foi, se o foi, se o é. Só ela, só ela – a voz – e o escritor que desta vez deixou os seus leitores à porta. A única solução, como diz nas suas últimas linhas o livro, é apagar o passado. Apagar o passado, ultrapassar a culpa e deixar-nos entrar, António.

(Nota: escrever sobre este livro foi muito mais difícil do que lê-lo. Não quis falar mais a fundo das personagens e do seu papel na narrativa por achar que ia acabar por abordar apenas uma história – ou um lado dessa história – e o livro contém muitas, todas inacabadas, fragmentadas. Quem não entendeu o que escrevi não leu o livro. Leia, então, mesmo ficando à porta, e depois regresse contando a sua experiência como leitor.)



José Alexandre Ramos
30.10.2011

29/10/2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes - Conhecimento do Inferno - 248 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2006 (lançamento em Portugal 1980 - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Para aqueles que buscam uma leitura leve e agradável, sem maiores desafios literários, não recomendo absolutamente nenhum dos romances do português António Lobo Antunes, tanto em relação à escolha dos temas quanto à técnica narrativa, já que é um autor que exige atenção redobrada do leitor. Este Conhecimento do Inferno, terceiro de uma trilogia iniciada com Memória de Elefante e Os Cus de Judas é especialmente difícil por tratar de dois temas espinhosos: a experiência do próprio Lobo Antunes durante a guerra colonial em Angola e o período em que trabalhou como psiquiatra no hospital Miguel Bombarda em Lisboa nos anos setenta.

Toda a acção do romance ocorre durante uma viagem de carro com duração de um dia, do sul de Portugal, região do Algarve, até Lisboa, mas o truque de António Lobo Antunes é justamente multiplicar este tempo passando por várias fases da vida do narrador. Os eventos são lembrados pelo solitário protagonista (o próprio Lobo Antunes) misturando épocas e alternando entre a primeira e terceira pessoa. Nesta passagem, ao final do primeiro capítulo, ele deixa claro, em tom de autobiografia, o que podemos esperar do romance: "Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno".

Em outro trecho, desta vez utilizando a terceira pessoa, fica clara a posição contrária aos métodos de psiquiatria utilizados: "O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança (...)" ou nesta outra passagem: "Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras (...)".

Lendo algumas partes do romance de Lobo Antunes, só encontro paralelos na literatura sobre a descrição e ambientação da loucura em autores como Lima Barreto ou Dostoiévski. Uma experiência perturbadora que não consegue ser facilmente explicada ou resenhada: "Eis-me no reino das flores de plástico, verificou acariciando com o polegar as orgulhosas pétalas postiças, no meio dos sentimentos de plástico, das emoções de plástico, da piedade de plástico, do afecto de plástico dos médicos, porque nos médicos quase só o horror é genuíno, o horror e o pânico do sofrimento, da amargura, da morte. Quase só o horror sangra nos que se debruçam para a angústia alheia com os seus instrumentos complicados, os seus livros, os seus diagnósticos cabalísticos, como em pequeno eu me inclinava para os moluscos na praia, virando-os com um pauzinho para espiar, curioso, o outro lado".


Alexandre Kovacs
08.07.2011

28/10/2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros - 256 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2009 (lançamento em Portugal 1981) - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Sempre achei que os piores pesadelos não são aqueles povoados de monstros e situações de terror, pois estes identificamos logo de início como pesadelos; aqueles verdadeiramente terríveis são os que reconhecemos como parte do nosso próprio quotidiano, começando de mansinho e, pouco a pouco, nos envolvendo em uma malha sufocante de espirais infinitas, uma sensação de afogamento em que não percebemos se chegamos ao fundo ou à superfície.

Esta sensação de pesadelo foi a que me deixou o romance "Explicação dos Pássaros" do mestre António Lobo Antunes que, com a sua tradicional prosa polifónica, misturando passado, presente e futuro, vai nos desvendando os últimos dias da vida de Rui S., um professor universitário que se vê aprisionado em uma série de situações que ele próprio, por conta de decisões erradas ou mesmo falta de decisões, se deixou envolver ao longo da vida.

Lobo Antunes parece não ter pena de seu protagonista que vai sendo lentamente despedaçado ao longo da narrativa. Depois de uma desconfortável visita à mãe que morre de câncer em um leito de hospital, parte em uma viagem de carro de final de semana com a segunda mulher decidido a pedir-lhe a separação. Ao longo desta viagem, todo o passado de Rui S. é descortinado, incluindo os detalhes da separação pedida pela primeira mulher (do ponto de vista do protagonista e da mulher), a inadaptação à sua família, sociedade, filhos e amigos, tudo parece levar Rui S. a um final trágico.

Por que devemos ler livros assim? Não sei responder a esta pergunta, mas posso assegurar que é um belo exemplo de literatura.


Alexandre Kovacs
14.10.2011

Capa da edição comemorativa dos 30 anos da 1ª edição de Explicação dos Pássaros

Estará nas livrarias em Novembro a edição comemorativa dos 30 anos de Explicação dos Pássaros:


O mesmo design das capas das anteriores edições comemorativas de Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno:

  

22/10/2011

Simão Fonseca: opinião sobre Comissão das Lágrimas


António Lobo Antunes, enquanto escritor, não pára de me surpreender, e como leitor, fico surpreendido a cada obra que tenho o prazer de ler e de, por vezes, escrever o que sinto, o que ouço e o que vejo em cada linha das páginas constituintes de belos romances, baseados geralmente em acontecimentos da vida de Lobo Antunes. Cada livro que compro é garantia de satisfação, interrompida por breves dores de cabeça saudáveis que me deixam na dúvida e obrigam a raciocinar a um ritmo de decifração acelerado.

Comissão das Lágrimas remete de imediato para Angola e para a carnificina do movimento de independência que ocorreu naquele país africano. [...]

Embora a obra seja baseada nestes factos históricos, ela é-nos contada por Cristina, filha de uma imigrante portuguesa branca e de um pai negro, ex-padre, agora ao serviço do governo, que também eles se intrometem na narração da história. Cristina esteve apenas cinco anos em Angola antes de regressar a Lisboa e, no entanto, recorda-se – aparentemente – da vida dos pais em Luanda: a mãe uma dançarina que se prostituía numa casa de alterne, que nos é descrita como uma «fábrica/modista/escritório»; o pai abandonou em jovem os caminhos de Deus para interrogar e torturar agora os desertores e opositores do regime, vendo-se ele próprio mais tarde perseguido e obrigado a fugir com a família para Lisboa. Linearmente, pode ser esta a sinopse do último da extensa lista de romances do autor. Mas, e como é habitual na escrita e temática de Lobo Antunes, as personagens vivem num mundo caótico de realidade vs fantasia, afirmando algo que parece verdade aqui, ora algo que já contradiz essa mesma verdade acolá. Cristina está internada numa clínica, ouve vozes e comunica com os objectos que a rodeiam, num estado de verdadeira esquizofrenia, contribuindo para uma narração alucinada dos acontecimentos que ela, a mãe e o pai (com avós e tios à mistura) vão descrevendo.

Ao longo de mais de trezentas páginas são-nos oferecidos retratos de mortes e mais mortes na cadeia, em valas, na rua, em tudo quanto é terra em Angola, acompanhado por uma musicalidade rápida que Lobo Antunes imprime na sua escrita, deixando o leitor confuso e desgastado com tanta imagem e som que lhe desperta – analepses, elipses e prolepses juntam-se para um pezinho de dança com bastante frequência. Como referido anteriormente, linearmente a obra pode ser interpretada como mais um retorno a Angola e às angústias de Lobo Antunes; convém, no entanto, ressalvar, que a questão dos retornados portugueses é outra das ideias de fundo que é explorada no livro. Cabe ao leitor interpretar e digerir da melhor forma o prato que lhe é servido, distinguindo os delírios e a realidade da escrita de uma das maiores figuras da Literatura mundial.
 

Simão Fonseca
22.10.2011

Helena Vasconcelos: crítica a Comissão das Lágrimas


O canto dos carrascos

Um sinistro episódio da violência pós-independência em Angola, recriado num livro polifónico, se não ensurdecedor

[...] (*)

António Lobo Antunes, um escritor que conhece bem a violência e não perde a oportunidade de a retratar de uma forma única e, para muitos, peculiar, recria este episódio sangrento e compõe uma obra que funciona como um lamento alucinado, onde se fazem ouvir várias vozes sobrepostas - a corista decadente, o padre sem sotaina, “respeitoso, com uma açucena na mão”, a louca, o pedófilo, (típicas personagens do autor), a mãe, o pai, a filha, o avô, a neta - e, também, os gritos e sussurros de gerações e gerações sujeitas ao ciclo infindável da catástrofe e da culpa. Mas, neste livro, as personagens estão todas mortas, condenadas a deambularem como fantasmas, expressando o seu horror em litanias pungentes que se elevam numa cacofonia de frases soltas e de apelos dilacerantes.

A escrita do autor, repetitiva, sincopada, oriunda das profundezas da “corrente da (in)consciência” - não é sua intenção “contar histórias” mas sim invadir-nos, “penetrar-nos” - serve bem o propósito desta narrativa sombria que se desenrola em espiral, partindo de um ponto fixo que surge da recriação das múltiplas vozes no início de cada capítulo e que articula sem parar o impacto da violência física e psicológica entre gerações, concidadãos, raças, homens e mulheres, representantes de ideologias rivais, irmãos, espécies.

Para o leitor, trata-se de acompanhar o ritmo e de seguir os compassos dissonantes desta “sinfonia” onde cabem “leitmotivs” e expressões simbólicas fechadas num círculo tenaz que quase nunca se afasta - a não ser, estranhamente, nos capítulos 16 e 17 - de um “núcleo duro” formado por imagens díspares de grande impacto evocativo. O resultado é um atropelo ensurdecedor de palavras enclausuradas num ambiente claustrofóbico de medo e loucura, em que até os objectos, o ar e a terra são ameaçadores. O autor não se limita a mencionar os acontecimentos em Angola, alargando o âmbito da sua narrativa à guerra colonial, ao êxodo dos retornados e aos pesadelos dos sobreviventes, fechados em apartamentos impessoais numa Lisboa indiferente e provinciana, onde acabam por desaguar as memórias tanto dos carrascos como das vítimas.

A linguagem, tal como acontece na obra de autores como William Faulkner e Toni Morrison, é a ferramenta primordial de Lobo Antunes e ele trabalha-a, manipula-a e verga-a com uma espécie de prazer “bárbaro”, quase sádico. É essa mesma linguagem que serve o propósito de construir um ambiente de caos exterior, de desordem íntima, de demência e de pavor, em que a subversão da dinâmica dos movimentos e das sensações serve o antiquíssimo ciclo da violência desmedida dos homens sobre os homens, as mulheres, os animais e a própria terra que, aqui, desconhece a doçura do apaziguamento. O extermínio do sexo feroz vem sempre a par deste ritual de catanas e kalashnikovs, de cadáveres apodrecidos e sem nome, restos aos quais o autor não permite qualquer réstia de amor ou compaixão, qualquer manifestação de alegria ou de tristeza, sentimentos totalmente ausentes deste livro onde - apesar, ou por causa, do título - quase não existem lágrimas.

Numa entrevista ao Jornal “O Estado de S. Paulo”, Lobo Antunes afirmou, em 2010, que este livro, como todos os outros, parte do desafio de não se deixar “vencer pelas palavras”. Em “A Comissão das Lágrimas” o desafio cumpre-se, mas o processo autofágico da escrita acaba por derrotar, em certa medida, o seu autor.
 
(*) a autora do artigo, no primeiro parágrafo que decidimos não citar, explica o que é A Comissão das Lágrimas dentro do contexto político de Angola em 1977. Como o assunto já está retratado em algumas das opiniões desta página, optamos por omitir esse parágrafo. Se o quiser ler, basta aceder ao link abaixo da Ípsilon.

Helena Vasconcelos
Outubro 2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...