09/10/2011

Diário de Notícias: «Gostava de morrer com uma caneta na mão»


Diário de Notícias
entrevista de João Céu e Silva
02.10.2011


«Gostava de morrer com uma caneta na mão»


A mão que escreve
À data do lançamento do seu mais recente romance, Comissão das Lágrimas, e a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, a que é sério candidato, o escritor dá uma rara entrevista, em que fala sobre a sua vida literária. Não evita pronunciar-se sobre a crise, os aumentos de impostos, nem sobre as figuras políticas que governam o país.


Estamos a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, e António Lobo Antunes é o único escritor de toda a língua portuguesa que aparece nas apostas como candidato. Como é que sente essa pressão?
Nada, já nada. Os prémios que ganhei foram todos inesperados. Por exemplo, quando cheguei uma vez à Alemanha, disseram-me que tinha ganho o Prémio Europeu; depois, noutros sítios, o Juan Rulfo, o Ibero-americano, o Jerusalém... Não estava à espera de nada, alguns nem sabia que existiam - todos aqueles prémios na França, em Espanha, etc.. Telefonaram-me a dizer "ganhaste o Prémio Extramadura, tens de ir a Espanha recebê-lo"; ganhaste o Prémio Rosalía de Castro... Foi tudo inesperado, sobretudo quando vêm com muito dinheiro dá prazer. O problema é que agora já não tenho onde gastá-lo, vivo com muito pouco e não preciso de mais.

Mas não o incomodaria que lhe telefonassem, inesperadamente, a anunciar o Prémio Nobel?
Não penso nisso, estou a falar do coração. Estamos em on, se estivéssemos em off diria a mesma coisa. É como qualquer prémio, como o Camões, que agora foi ganho pelo Manuel António Pina, que é um poeta que descobri há pouco tempo e de quem gosto muito. Estava convencido que iam dar o prémio ao Vasco Graça Moura, que é outro poeta de quem gosto muito. Eu não conheço o Manuel António Pina, e, pedindo-lhe perdão, tenho pena que o Vasco Graça Moura não tenha ganho. Entretanto, li melhor o Manuel António Pina e descobri que é muito bom poeta. Tenho inveja dos dois. Quando eu recebi o Camões, estava doente e queria lá saber dele para alguma coisa! Em 2006, já estava cheio de sintomas e a negá-los constantemente. Já vai fazer cinco anos, é extraordinário! Em princípio, este cancro não voltará, virá outro qualquer, ou outra doença qualquer, no pulmão ou em outro lado qualquer.

Porque é que não há outro candidato ao Nobel na língua portuguesa, de África ou Brasil, na short-list?
short-list tem cinco nomes. Ninguém sabe quem são esses nomes, ninguém sabe quem lá está.

Nas últimas apostas, aparece ao lado de Cormac McCarthy, de Philip Roth, de Don DeLillo...
Don DeLillo também aparece? Parece-me um bocado aleatório. Nem sei se as pessoas que o têm ganho aparecem nessas listas.

Aparecem, sim.
Não sei. Sei que os escritores de que mais gosto nunca ganharam.

Não é estranho que haja 250 milhões de pessoas a falar português e só exista o seu nome nessas listas?
Não sei. O [Prémio] Jerusalém começou há tantos anos, e também não havia nenhum português; no Europeu não havia nenhum português, no Rulfo também não. Eu não sei se há escritores portugueses traduzidos, lidos e apreciados no estrangeiro. Não sei, e a lógica dos prémios escapa-me, mas se me disserem em Portugal quem são os membros do júri, sei mais ou menos quem poderá ganhar. Não sei como é nos prémios internacionais... O Nobel é dado apenas por suecos?

Sim.
Então, não sei.

Os norte-americanos apostam muito no seu nome...
Porque devem querer um equilíbrio. Esse prémio é muito dinheiro, tal como o Rulfo era imenso dinheiro, mais ou menos o mesmo que o Camões. Este é muito mais, é dez vezes mais.

Não acredita naquela desculpa de que por já ter havido um português que recebeu o Nobel agora não possa haver outro anos depois?
Não sei quais são os critérios, não faço a menor ideia. A Academia mandou-me um livro há uns dois ou três anos - que está para aí - com as razões porque deram o prémio a cada autor. Houve algumas pessoas que gostei que tivessem ganho, porque gosto delas - tanto como pessoas como escritores. É o caso de Günter Grass, que foi um autor importante para mim quando estava a começar, e gosto dele como pessoa. O Mario Vargas Llosa, deu-me prazer que tivesse ganho. Quanto à maior parte dos outros, nem sequer os conheço. Nunca li um turco que ganhou, o Pamuk, a Herta Müller, não conhecia; li depois um livro e não me entusiasmou. Do Le Clézio, gostei dos dois ou três primeiros livros, porque o li em adolescente, mas o resto da obra não me interessa. Acho que o prémio teria feito imenso jeito ao [Joseph] Conrad. Quanto ao Tolstói, não precisava dele para nada. Eu só estive uma vez num júri, há muitos anos, onde também estava um homem de quem gostava e achava um bom poeta: Fernando Assis Pacheco. Disse-lhe: "Não tenho paciência para ler, escolhe o que quiseres e põe lá o meu voto ao lado do teu". Porque, sendo os livros diferentes uns dos outros, a qualidade não era grande. Quem é que merece ganhar? Quem é que é mais importante, uma vez que falou nesses nomes: Cormac McCarthy ou Roth? Eu prefiro o Cormac McCarthy, que escreve por dentro enquanto o outro é por fora. Também as pessoas que têm ganho o prémio não são de molde a entusiasmar-me. Por exemplo, o Saramago é um escritor que escreve por fora, e, com todo o respeito, então agora que o senhor está morto, a obra vai morrer. Porque é inevitável que vá morrer. O problema é que há muito poucas obras que sobrevivem à vida do autor. Quem é que lê agora o Zé [Cardoso Pires]? Quem é que lê o[Fernando] Namora? Quem é que lê o Carlos Oliveira? Estou a dizer nomes ao acaso, que gosto ou não.

Mas Conrad, que não ganhou, continua a ser muito lido!
Porque tinha uma coisa muito mais importante do que ter ganho qualquer prémio - a admiração de um grupo de escritores muito bons. Tal como o Malcolm Lowry, que morre e ninguém comprava um livro seu. Simplesmente houve quatro ou cinco fieis que mantiveram as chamas acesas para se tornarem um clássico. Não é coisa para acontecer com nenhum português.

Considera, então, que o livro Memorial do Convento, por exemplo, é um livro que vai morrer?
Tudo morre.

Destes novos escritores, acha que um dia poderão receber o Nobel?
Mas porque é que havemos de pôr as coisas em termos de Nobel!? Talvez fosse preferível pensar-se "Poderão ser grandes escritores ou não?" Daqueles que eu li, e não li todos - por isso peço perdão se estou a ofender alguém -, o mais cotado parece-me, sem dúvida, o Gonçalo [M. Tavares]. Sem dúvida. Quanto aos outros, tenho reservas.

Quantos livros é que ainda quer escrever?
Os que a vida me deixar. Na última vez que fui fazer a revisão médica, o oncologista disse "teve muita sorte porque este cancro mata dez pessoas por dia". Portanto, os que a vida me deixar! O meu receio é começar a perder faculdades sem ter crítica em relação a isso. Mas ainda sinto força e, se Deus quiser, gostava de morrer com uma caneta na mão. E, é evidente, gostava de viver muito tempo, porque a obra não está acabada. Se conseguir continuar a trabalhar neste ritmo - doze, treze, catorze horas por dia -, talvez. Isto cansa fisicamente, mas não me imagino a fazer outra coisa. Agora estou no intervalo de livros, e não me sinto bem.

O vazio entre os livros é sempre um período muito complicado?
Acabei há cerca de uma semana o último livro... Agora não sou capaz de escrever, estou muito cansado ainda, farto de palavras e de papel e do esforço enorme. Mas daqui a um mês, vai começar a ser complicado. Até lá, vou ler uns artigos e uns livros que para ali tenho, mesmo que com o tempo tenha ficado cada vez mais selectivo. Leio 20 ou 30 páginas e ponho de lado.

Como ocupa o tempo sem escrita?
Não é bem não ter com que ocupar o tempo... Tenho pensado muito na minha surdez e notei que quando as vozes de fora começaram a desaparecer, as vozes de dentro tornaram-se muito mais nítidas e claras. Estou sempre a ouvi-las. Eu não sei se é um livro o que está dentro de mim, mas é qualquer coisa parecida com isso. Mas o problema passa todo pela mão, que é um prolongamento de não sei o quê. Então com este último livro foi um milagre, porque comecei no dia 16 de Fevereiro e escrevi-o em sete meses. Isto nunca me tinha acontecido, a não ser com Explicação dos Pássaros. Parecia até que a mão queria andar e eu nem era capaz de a acompanhar. As palavras saíam, saíam, e a primeira versão foi rápida. O problema foi estruturar aquilo tudo.

Explicação dos Pássaros está a fazer 30 anos. Como foi?
dos Pássaros foi um milagre que nunca me aconteceu. Vinha de carro de Aveiro para Lisboa, e quando cheguei tinha o livro todo. Agora é diferente, porque não tenho plano e não conto histórias. Quando as pessoas dizem "as personagens dele"... não há personagens! Há umas vozes, provavelmente sempre a mesma. Agora, o que faço é marcar uma data para começar e, chegando essa data, começo. De cada vez tenho medo, porque as minhas expectativas são muito altas, tais como as das pessoas que respeito. Estou a lembrar-me desse homem com quem vou agora estar em Cambridge, o[George] Steiner, e de outras pessoas, sobretudo críticos alemães ou austríacos que prezo muito, a exemplo da americana ou francesa. Tenho sempre medo de desiludir as pessoas e, sobretudo, de me desiludir a mim mesmo. Isto é um ofício muito estranho, mas cada vez mais o meu tempo é ocupado com ele.

Convive bem só com livros?
Eu não tenho vida social, não vou a jantares. Estou sempre com os livros. Claro que posso viver com uma pessoa, mas não vou ao cinema e não estou com amigos. Tudo foi reduzido drasticamente: aceitação de convites, sessões de autógrafos, só vou dar mais uma entrevista à RTP por causa deste livro. E penso que é tudo. E não há lançamentos, não há nada. Vivo muito só, mas não me sinto sozinho, porque estou a fazer aquilo que quero e porque preciso de tempo. Neste momento, estou à espera [do próximo livro]. Tenho umas coisas vagas, tenho ruas de vilas à noite, terras pequenas, mal iluminadas. Nada mais. Normalmente, quando começo, pouco mais tenho do que isso. O que possuo é já uma apetência para começar o [novo] livro, no qual queria fazer uma coisa - ao nível da linguagem, que é aquilo que mais me interessa - com uma ambição desmedida. Não me interessa contar histórias, porque nenhum grande livro conta histórias!

Neste seu novo livro, Comissão das Lágrimas, porém, existe um tema da história!
A voz que fala é a de alguém que está internada num hospital com uma esquizofrenia e que saiu de Angola aos cinco anos de idade. Como é que ela pode saber o que se passou? Eu não consultei nada, nunca fiz pesquisa como o [Alves] Redol para os seus livros. É uma outra realidade! Tenho-me dado conta de que temos dois universos: o que está à nossa volta e o de dentro de nós, do qual fazemos parte. A maior parte dos livros que se lê são feitos pelo universo à volta, como os de Philip Roth. Mas os grande livros são sobre aquilo que está dentro. As peças do Tchekhov, onde tudo e nada se passa, com frases que são o mais banais que há - "a cerejeira floriu", "tenho frio" ou "amanhã vou não sei onde". E com estes materiais pobres consegue reconstruir o mundo inteiro. Quando se vê os seus manuscritos, não há uma linha que não esteja rasurada, emendada, reemendada, reescrita até.

Continua a escrever e a reescrever tão violentamente como dantes?
Claro! Porque as primeiras versões têm as soluções todas lá dentro, apesar de estarem imperfeitas. Há muita areia e muita lama mo meio dos diamantes que é preciso tirar. Há aqueles que cortam e os que acrescentam, não é? Os que cortam são mais frequentes do que os que acrescentam. O Proust, com aqueles papelinhos todos colados, o Eça a acrescentar sempre mais. Eu pertenço à classe mais comum, a daqueles que cortam. O que é publicado, às vezes, nem metade da primeira versão é.

Ninguém o coloca na classe de escritores mais comuns. Pelo contrário, é cada vez mais difícil catalogar a sua escrita.
Sim, mas o que se passa é que a maior parte das pessoas que escreve cortam; nesse sentido pertenço a essa maioria. O problema é que estamos longe da idade de ouro da literatura e, actualmente, há no mundo inteiro muito poucos escritores importantes. Quem vai ficar? Não sei.

Mas sente-se só tendo em conta o que se publica em Portugal?
Sempre me senti só, mas a pessoa tem de estar assim para escrever. O último livro que me deu prazer ler foi o de um escritor espanhol, de quem eu sou amigo, o Juan Marsé. Chama-se Caligrafia dos Sonhos, não é um autor inovador, mas aquilo é muito bem feito no sentido ético da escrita e com respeito pelas palavras. Não é da minha família literária, mas gosto muito dele e da obra. O século XX teve dois grandes escritores: o Proust e o Céline. Hoje em dia, isso é aceite pacificamente, mas quando comecei ainda me lembro de o Eduardo Prado Coelho pôr o Céline pelas ruas da amargura. Era considerado pela nossa inteligência um escritor de segunda ordem! Mas, recordo-me, as críticas aos meus livros eram péssimas ao princípio e, o que é extraordinário, apontavam como defeitos o que eu achava que era as virtudes. Já a crítica no estrangeiro é completamente diferente, porque a distância toma o lugar do tempo. Em Portugal havia uma ideia, e ainda há, que explica o sucesso de alguns escritores que estão agora a publicar, mas é muito fraco o que se faz. Escrever é um ofício, não se pode fazer mais nada! Se sempre houve muito poucos grandes escritores, em Portugal nunca tivemos isso.

E a crítica nacional?
Não tenho o menor respeito pelas resenhas de jornal sobre livros. Não me interessam nada, nem aquele sistema de estrelinhas, que é completamente imbecil. Se os livros fossem publicados anonimamente, resolvia-se muita coisa. Claro que tenho orgulho no que fiz, e se me perguntarem "acha que alguém escreve como você?", eu seria hipócrita se dissesse que achava que havia. Recentemente li uma entrevista do Mário Cláudio, que é uma pessoa de quem gosto, a dizer que ele era mais fácil de imitar, que tinha muitos epígonos. Não é uma questão de facilidade. O Joyce é fácil de imitar? Não é! O Conrad é fácil de imitar? Não é! Quem é que o Faulkner começou por imitar? Foi o Joyce e o Conrad. É muito mais fácil de imitar escritores mais facilmente digeríveis. Como também não estou de acordo quando ele diz que não há poetas. Acho que a  nossa poesia é muito melhor do que a nossa prosa e não é inferior à poesia americana que me parece sem igual no século XX. Isto é a minha opinião, não sou crítico, embora leia o mais que posso.

Diz que tem inveja dos poetas...
Tenho muita.

... Mas Comissão das Lágrimas não é muito mais poético do que os seus livros anteriores?
Não sei, não o li. Nunca li nenhum livro que tenha escrito. Depois da última revisão, entrego o livro e não vejo provas, não olho mais. Depois, o que quero é esquecê-lo. Nem sei qual é a ordem dos livros que publiquei, o que é que vem a seguir ao Manual dos Inquisidores. E eu que tenho tão boa memória, que sei de cor frases e páginas de livros dos outros, de mim nada sei.

Porque é que faz questão de esquecer a ordem dos seus livro?
Não faço questão. Esqueci. Quero-me lembrar e não sou capaz de reconstituir a ordem. É muito estranho isto em que me tornei, ou em que me tornaram. Nunca imaginei! Se formos à estante onde estão os livros [as traduções da sua obra], cada vez são mais livros, mais países e mais leitores. Por isso, durante muitos anos pensava: "Um dia acordam e isto foi tudo um sonho". Nunca me posso esquecer de que quando estive doente recebi do nosso país mais de sete mil cartas! O que é que as pessoas encontrarão naqueles livros que as faz reagir de uma maneira tão afectuosa? Quando vier o próximo cancro, que inevitavelmente há-de vir porque ninguém o vence... Resolveu ir-se embora sem que se saiba porquê? Com os livros é a mesma coisa; de onde é que vêm, de que parte nossa? Olho para o Comissão das Lágrimas e não sei de onde é que aparece aquela voz na rapariga, porque é que o pai era padre, porque é que a mãe não sei o quê... Aquilo vai aparecendo enquanto escrevo.

Em Comissão das Lágrimas existe a guerra, tema que nunca pegara de uma forma tão directa. Porquê?
Há muito tempo que não falava em guerra, porque pensava que não se falasse muito em guerra e eu não estava muito interessado nisso. Eu nem sei sobre o que é o livro, mas de repente a primeira palavra que me veio à cabeça - o livro não é sobre nada a não ser sobre ele mesmo, não é? - foi a palavra "culpa". Parece que nas vozes existe uma culpabilidade, em todas aquelas pessoas.

Atravessa o livro todo, a culpa.
É o sofrimento da culpa e a dor da culpa. Não é um livro sobre a culpa, é muito mais ambicioso do que isso. Mas não sei o que é! Quando o acabei, estava contente, ou não o dava para publicar. Isso é o costume. Durante um mês ou dois, estou contente. Depois começo a pensar que podia ter ido mais longe. Mas eu sou um escritor que demora tempo a arrancar no livro, e como o material é muito, não o posso dar todo. O que faz que os meus inícios sejam lentos, porque não tenho muita informação e preciso de a dosear. Sabia lá o que é que ia acontecer nesse livro.

Há partes que são factos históricos, como a da Baixa do Cassange?
É uma zona que conheci bem. Vivi um ano na Baixa do Cassange, e o que se passou em 1960 é verídico - houve uma greve. Como é que aquilo foi reprimido, já não sei, não  li nada sobre isso. A morte do guerrilheiro, que nunca é nomeado, também não assisti a ela. Foi o que a mão quis escrever. A morte de um ministro qualquer, aquela mãe que dança num cabaret... Foram surpresas para mim.

O senhor Figueiredo?
Era um homem com uma discoteca, um bar de alterne.

Que quer que as suas queriduchas estejam sempre alegres.
É natural. Um cliente não entra lá para ver as mulheres a chorarem, quer que elas estejam contentes.

Há uma personagem real, a Virinha?
Isso é mencionado no livro sem falar no nome, porque me impressionou a coragem de uma mulher que continua a cantar enquanto é torturada. Sempre respeitei a coragem física... É engraçado, quando estive lá, nem os soldados nem os oficiais usavam a palavra coragem. Quando achavam que um homem era corajoso, diziam "é um tipo duro".

Tem sido dos escritores que mais abordaram a guerra colonial.
Nunca abordei!

Perpassa sempre nos livros.
Sempre não, nalguns! Neste último, nada. Eu vou uma vez por ano ao encontro da companhia e venho de lá abalado para três dias. Imagine-se o que era se eu escrevesse um livro sobre aquilo. Eu nunca li as Cartas da Guerra [troca de correspondência com a mulher], só ouvi ler algumas no Teatro São Luiz, mas como infelizmente sou surdo, percebi pouco.

A surdez dá-lhe jeito de vez em quando?
Fez-me sofrer muito, sobretudo ao princípio, porque as pessoas pertenciam a um mundo diferente do meu. A primeira vez que pus o aparelho pensava que toda a gente reparava e que iam perceber que eu era um aleijado com uma prótese. Agora já vivo com isso e em mais paz... Eu tinha orgulho na minha beleza, e aquilo desfeava-me! Depois, são as infecções periódicas, o eczema que isto cria e que tapa o canal, e lá tenho de ir de charola para o hospital. Mas para o meu trabalho foi importante.

Este ano passam 50 anos sobre o início da Guerra Colonial. Os soldados que estiveram em África têm sido homenageados o suficiente ou não?
Não faço a menor ideia. Tenho da Guerra Colonial uma visão muito estreita: só sei de mim e daqueles que estavam perto de mim. Não sei mais do que isso. Posso ter ideias quanto à justiça ou à injustiça de uma guerra desse tipo, mas experiência só tenho a daquelas pessoas com quem eu estava. Para mim foi uma experiência radical, que me mudou a vida, mas não tenho ideias gerais sobre isso.

Comissão das Lágrimas traz toda essa guerra às páginas?
Traz, mas julgo que se situa mais depois da independência de Angola.

Mas há sempre memórias daqueles tempos, da experiência dos portugueses...
Se calhar não são acontecimentos reais porque é contado por uma voz esquizofrénica, portanto desligada do mundo real. Não faço a menor ideia, não me lembro já. Mas aquilo é fantasiado por ela, como a morte do pai no fim do livro. Disso lembro-me, porque deu um trabalhão louco. Estou-me a lembrar agora da mãe do pai que trabalhava para um chefe de posto... Nós não conhecíamos bem os civis ou as autoridades coloniais; conhecemos melhor a PIDE que lá estava. Mas também não inteiramente, porque havia um grande secretismo, separação e até uma rivalidade em relação aos militares.

Na página 56 escreve: "Não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se, e eu a perguntar-me quais é que devo dar a vocês". As vozes não o deixavam...
Isso não sou eu, é a rapariga que ouve uma multiplicidade de vozes dentro dela.

Parece existir algumas partes autobiográficas no livro. É verdade?
É o seu entendimento.

Ou como noutra página: "Não faço o livro como pretendia". O que significa?
Não sei! No fim, achei que tinha feito o livro que queria fazer. Como são sempre outras pessoas a escrever - a mão não escreve propriamente o que se quer -, é capaz de ser verdade. Muitas vezes a mão está em completo desacordo com aquilo que se está a escrever - é a sua parte racional. O que é preciso é que o livro se aguente como unidade independente de si.

Há ainda outra parte em que escreve: "ensinem-me o que deve ser contado ou ensinem-me o que querem que eu conte". Não é autobiográfico?
Isso não tem nada que ver comigo tanto quanto tenho consciência. O livro faz-se como ele quer. Nem é o que deve, nem é o que eu quero, é o que ele quer.

Continua a aprender a escrever um livro?
Claro. Acho que posso fazer melhor, tenho de fazer melhor.

«As pessoas vivem com dificuldade»

Diz que a sua surdez o protege do que se passa no mundo. E da crise nacional, também?
Qual crise? O estarmos a viver mal? No outro dia, no quiosque onde costumo comprar cigarros, estavam duas senhoras a discutir muito intensamente sobre dez cêntimos. Isto fez-me muita impressão! As pessoas estão a viver mal e com bastante dificuldade. Também encontrei uma senhora a chorar, era enfermeira no tempo do meu pai, e vivia sozinha da sua reforma. Os filhos ficaram desempregados, deixaram de pagar as casas e voltaram para casa dela, pequena, onde voltou a ter os filhos, as noras e os netos acampados. E a senhora chorava com isto. Custa-me muito ver o meu povo assim! Também me sinto afectado, pois pago de impostos mais de metade do que ganho. A nada posso fugir, nem nas editoras estrangeiras; a agência fica sempre com uma percentagem forte.

Desagrada-o esta carga gigantesca de impostos que estamos a apanhar?
Tem sido muito violento para mim e, até ao fim do ano, vou pagar muito mais de impostos. Pensava que para certas pessoas devia haver alguma atenção, porque são importantes para o País. O que é que se conhece de Portugal lá fora? Quando estive doente, recebi cartas do Illinois, do Oregon, de outros estados da América. O futebol não lhes interessa, nem o Ronaldo ou o Mourinho. Conhecem o Siza um bocado. Apesar de tudo, há uma coisa que não é má: até agora não se lembraram de taxar os prémios literários.

Mas vão aumentar o IVA dos livros.
Não sabia. E os livros vão passar a ser muito mais caros? Não têm vergonha! Eu acho errado, têm tanto sítio onde ir buscar dinheiro. Às vezes pergunto-me como é que os portugueses têm dinheiro para pagar um bilhete para ir ao futebol...

O Governo também acabou com o Ministério da Cultura e transformou-o numa secretaria de Estado. Isso é bom para a cultura nacional?
Desde o 25 de Abril, quem fez alguma coisa pela cultura em Portugal? Não tenho resposta. As autarquias, algumas, sem dúvida. Do Estado, nunca vi. Fosse ministro, fosse secretário de Estado. Essa é a minha sensação.

Não sente, da parte do Estado, nenhum apoio a escritores, como no seu caso?
Em quê? Não quero ficar a dever nada a nenhum governo. Tenho recusado tudo, não faço parte de comissões de honra de nada nem de ninguém. Eu sou livre, nunca pedi. Não queria que me apoiassem, só não queria que me tirassem!

«Se há governo, sou contra. Sempre me fizeram muita confusão os políticos»

Gostaria de ainda ser médico neste tempo de cortes e mais impostos?
Se tivesse dez vidas, gostava de ser médico numa delas. Tenho saudades de hospitais, do seu cheiro e da sensação de ser útil. O contacto com a pessoa que sofre é sempre muito importante para mim! Mas uma vida só, porque precisaria da outras todas para escrever. Gostava de ter também uma para escrever sobre teoria da literatura.

Mas como médico não gostava que lhe cortassem o salário?
Ninguém gosta! Mas custa-me mais ver pessoas em graus importantes da carreira a ganharem o que ganham, que é miserável. Choca-me que um chefe de serviço ou um assistente graduado ganhem tão pouco. É natural que fujam, mesmo sendo uma profissão muito bonita.

Um dos grandes debates políticos tem sido O TGV. Que opinião tem?
Não tenho.

Seria importante que Portugal estivesse ligado às capitais europeias?
Sei lá se é importante. Acho que existem pessoas que podem explicar isso melhor do que eu, que nunca pensei nisso. Quando abro a televisão, que é tão raro, indigna-me a mediocridade dos programas.

E, na televisão, irrita-o ver as notícias sobre o buraco financeiro da Madeira e do Continente?
Abro a televisão sem aparelho [de surdez] e só vejo no teletexto as partes nacional, internacional, de desporto e as primeiras páginas dos jornais. Claro que há coisas que me indignam e que me alegram, mas isso já é outra pessoa que não tem nada a ver com a pessoa que escreve os livros. É enquanto cidadão português que me indigna. O escritor só escreve, depois há um cidadão que de vez em quando se aborrece. De maneira geral, penso como aquela personagem espanhola do Jorge Amado, que era um homem que andava de país em país, e quando chegava a um país novo perguntava "Há governo? Se há, sou contra". Sempre me fizeram muita confusão os políticos, e, no entanto, sou amigo do presidente Mário Soares, como sou do general Eanes ou do presidente Sampaio. Mas neles sempre vi os homens, como em Ernesto Melo Antunes, e não os políticos. Além de me parecer que se tivemos figuras políticas importantes desde a revolução para cá, elas foram o presidente Soares e o dr. Cunhal.

Não se revê nos políticos actuais?
Rever em que sentido?

Em os admirar?
Admirava e respeitava os que referi, mesmo estando em desacordo em muita coisa neles, mas não encontro em qualquer homem que faça política agora aquela grandeza. Não têm, porque um homem superior, seja em que área for, demora muito tempo a fazer. Se compararmos os líderes actuais, a que distância é que ficam? Como aquele homem que morreu novo, Amaro da Costa. Onde é que há no CDS alguém que tenha metade da estatura dele?

Acha que Paulo Portas não tem?
É preciso perguntar!? Além de que a escolha de um partido é tão afectiva como a de um clube de futebol. O meu avô, que se chamava António Lobo Antunes, salazarista, conservador, reaccionário, era também a pessoa mais tolerante e aberta que conheci. Mas quando eu andei nas franjas do Partido Comunista, conheci a intolerância, a falta de democracia e de liberdade interior e exterior. Eu pensava, ainda adolescente, que a escolha de um partido era uma coisa meditada e intelectual. Não é!

Quando os portugueses deixaram de votar em Sócrates e passaram a votar em Passos Coelho, acha que só mudaram de clube de futebol?
Não mudaram de clube de futebol. São um eleitorado flutuante que não pertence a ninguém. Nem um nem outro são suficientemente atraentes. Imaginando que um desses senhores era um clube de futebol, teriam menos sócios a pagarem cotas do que teria Sá Carneiro ou Álvaro Cunhal. É como a diferença que fazem no futebol entre os sócios e os simpatizantes, e as simpatias mudam. E acho muito bem que tenha mudado, porque não fazia sentido aquele governo. E eu não tenho o coração à direita, porque a minha opção pela esquerda é profundamente afectiva! Se eu pensar um bocadinho, não há nenhuma razão para tal, talvez uma certa culpabilidade por ter nascido num certo meio ou uma reacção juvenil que se tenha mantido... Era difícil eu militar num partido, e não tenho a menor curiosidade em conhecer políticos.

Mas conheceu Sócrates?
Uma vez, no Prémio Camões, onde estava o actual Presidente da República, que tem sido sempre - tal como a mulher - de uma grande gentileza para comigo. Como o presidente do Brasil se atrasou, estive a falar com ele um bocado. Fiquei com determinada impressão do homem, que não interessa, mas a distância para com esses nomes de que falei é muito grande. Tenho medo dos políticos, porque gostam de substantivos abstractos em vez das pessoas.

Acha que a classe política portuguesa costuma ler os seus livros?
Não faço a menor ideia.

Mas gostava que lessem?
Para quê? Verdadeiramente, não sei quem são os leitores, porque só os vejo nas sessões de autógrafos, quando se limitam a dizer o nome. Não sei o que fazem. Mas tenho a sensação de que quem me lê não são as classes altas, é a média e média baixa, provavelmente as mais afectadas agora. Não acredito que as pessoas que aparecem nas revistas - actrizes, modelos e apresentadoras - leiam um livro. Posso estar enganado, se calhar lêem imenso, mas não me parece, pelo modo como falam.


in Diário de Notícias
02.10.2011

08/10/2011

Jornal de Letras: a voz (interior) das lágrimas


Jornal de Letras - edição 1069
entrevista de Luís Ricardo Duarte
21.09.2011


Quatro andamentos para um pretérito presente


AQUI E AGORA
Tocamos à campainha do prédio onde mora, ao Conde Redondo, em Lisboa, e temos uma certeza: estamos a interromper o seu trabalho. Da editora demoraram a confirmar a data da entrevista precisamente porque António Lobo Antunes (ALA) está a acabar o seu novo livro, o que deve acontecer por estes dias. «Já não estou a escrever», revela assim que nos sentamos no sofá da sala. «Estou na parte mais maçadora, a da edição. Não tem nada de criativo. É como estar a corrigir testes de português mal escritos». O processo, no entanto, já vai muito avançado. De tal forma que é mais sobre este manuscrito que quer falar, deixando para segundo plano Comissão das Lágrimas, o romance que chega às livrarias no final deste mês. «Tenho de esquecer um livro para começar outro», salienta. «E do que agora sai lembro-me pouco». Não será, portanto, uma entrevista o que teremos pela frente. Antes uma conversa, em vários andamentos, sobre um mesmo tema: a arte da escrita.

25 DE FEVEREIRO DE 2010
Com medo que a fonte seque, ALA tem definido datas para começar a escrever novos romances. Como normalmente o processo de revisão termina no Outono, o Inverno traz-lhe o calor de um novo livro. Ou o frio, dado que, como nos diz, o trabalho é cada vez mais difícil. «Ao contrário da leitura, escrever é uma actividade que não associo ao prazer. As indecisões e angústias são tantas... E quando não estou a trabalhar sinto-me culpado». Acresce a este temor o receio de desiludir quem o lê, em particular figuras tão ilustres como George Steiner ou Harold Bloom, que não se cansa de convocar ao longo da conversa. O seu público, assegura-nos, é universal. «Escrever é muito difícil. Cada vez me dou mais conta disso».

A 25 de Fevereiro de 2010 lançou-se, metodicamente, às suas rotinas. Trabalhar de manhã, à tarde e à noite, com uma pausa apenas aos fins de semana. E aos poucos foi surgindo Não É Meia-Noite Quem Quer, título que reproduz um verso de René Char, na linha de uma apropriação poética já verificada em alguns dos últimos livros: Sôbolos Rios Que Vão, de Camões, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, inspirado num cancioneiro do século XIX, ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, a partir de Dylan Thomas.

«Este novo livro foi um milagre» - afirma, mais do que uma vez ao longo da conversa, Lobo Antunes. Já quando o entrevistámos a propósito de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? o escritor falou da sua criação como se ela resultasse de uma espécie de energia superior, desconhecida, ou de um outro estado de entendimento. «Durante muitos anos - diz - havia uma coisa que me intrigava: a sensação que temos, quando estamos entre o dormir e o acordar, de ter percebido o segredo do mundo. De que tudo é muito simples e claro».

O problema é que esse estado milagroso normalmente acaba quando se inicia o caminho do despertar. «Quando acordamos não temos nada». Levou tempo a descobrir a melhor solução para reproduzir essa condição híbrida. Encontra-a no "cansaço". «Normalmente, as duas ou três primeiras horas são perdidas. Só quando estou cansado e as defesas baixam o texto começa a sair». E o milagre acontece.

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Qual foi o ponto de partida do livro que está agora a corrigir?, perguntamos, aceitando o seu jogo de falar primeiro do depois, para mais tarde irmos ao agora. «De início não tinha nada». No entanto, do abismo da página em branco uma voz surgiu.  «Ela falava, falava, falava e fui atrás dela», descreve ALA. «Só mais tarde percebi que ela se ia matar. O livro passa-se todo em três dias, sexta-feira, sábado e domingo». E como se desenvolveu essa voz?, insistimos. «A minha ideia era pegar numa pessoa com esquizofrenia paranóica que, em delírio, ouvisse vozes. Mas depois começou a ser muito mais que isso», afirma. E acrescenta: «Toda a criação é simbólica. A história é apenas o isco que se usa para atrair o leitor à verdade dos símbolos. É um processo longo, que só se faz através da escrita e reescrita. Lembra o título de um livro do Eugénio de Andrade: é um Ofício de Paciência. Ou, já que estou cheio de citações, tem qualquer coisa daquela passagem do diário do Jules Renard em que ele diz que não há talento, apenas bois, bois que marram e marram e que insistem e insistem até conseguirem o que procuram».

HÁ CERCA DE 15 ANOS
Embora presente desde a sua estreia literária, em 1979, com Memória de Elefante, a ideia de "voz" tem assumido, em criações recentes, uma maior intensidade. E Lobo Antunes não tem pudor em explicar porquê: «Quando comecei a ensurdecer a minha escrita mudou: passei a ouvir muito melhor as vozes». São elas que agora, sibilinas e desafiadoras, comandam a sua pena, fazendo do escritor uma espécie de medium que traduz, interpreta e refaz o que ouve. «Ser surdo é uma chatice imensa. Um sofrimento muito grande. Mas ao mesmo tempo as vozes interiores começam a tomar um outro peso. Como não tenho vozes de fora, aparecem as de dentro, que provavelmente eram silenciadas pelo barulho exterior. Com isto, os meus livros mudaram, numa inflexão que pode ser identificada a partir de O Manual dos Inquisidores [de 1996]».

Mas mudaram em que sentido? «A voz tornou-se mais presente, clara, nítida e forte. Se eu tirar o aparelho não oiço nada. E, mesmo quando o uso, não é mais que um amplificador. Não escolhe sons como o cérebro faz. O barulho de um talher num prato é, para mim, uma explosão, tal como estar com muitas pessoas à mesa. Sozinho, sem aparelho, as vozes que existem dentro de todos nós fazem-se ouvir. O Beethoven falava neste aspecto também. Que, com a surdez, passou a ouvir melhor as composições na sua cabeça. No meu caso, comecei a conseguir chegar mais fundo. Ensurdecer foi socialmente uma chatice e literariamente uma bênção».

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"O doloroso canto de uma mulher torturada". Já numa entrevista ao Estado de São Paulo, em Maio de 2010, ALA confessava que na sua cabeça habitava essa música de sofrimento. Eram os sons de Elvira, mais conhecida por Virinha, líder do batalhão feminino do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Em Maio de 1977, durante os conflitos internos por que aquele país passou, opondo os chamados "fraccionistas", cujo principal rosto era Nito Alves, a Agostinho Neto, Virinha foi presa, torturada e morta. Contudo, nunca deixou de cantar ao longo de todo esse terrível suplício. «Segundo os livros que há sobre o assunto, é uma história autêntica. E um extraordinário exemplo de coragem, algo que sempre admirei.», diz-nos agora ALA. «Julgo que herdei essa admiração do meu pai, para quem os três valores fundamentais eram a coragem, o rigor e a ausência de mentira».

Porém, acrescenta, «não era tanto esse episódio que me interessava». Presente no livro, nas páginas iniciais, esse doloroso canto é uma espécie de pauta a partir da qual desenvolveu o romance, centrado em três personagens principais: um casal e uma filha, internada numa clínica. Personagens essas que foi buscar ao seu quotidiano, às pessoas com que se cruza no dia a dia e aos espaços que lhe são íntimos. «Para começar a escrever, preciso de alguns factos reais. E, na minha cabeça, esse casal morava na Avenida D. Afonso III, informação nunca mencionada, num apartamento que tive, há muitos anos, para escrever, ao pé do Cemitério Judeu e com uma pequena vista para o Tejo». Processo semelhante aconteceu em Não É Meia-Noite Quem Quer, que recria o ambiente da casa de férias dos seus pais, na Praia das Maçãs.

Com esses elementos, o ambiente da narrativa compôs-se gradualmente. «Encontrei as personagens aqui no meu bairro: um pintor indiano, a sua mulher, uma antiga corista, e a sua filha, doente com problemas psiquiátricos. Mas eis que depois se transformaram, ele em padre, negro, ela não se sabe muito bem em quê [nunca se chega a perceber onde trabalha, se "na fábrica, na modista ou no escritório", apenas que dançava até o seu joelho ceder]. O esquema que fiz não me serviu para nada, só para transgredir».

PARIS, 201[1]
Com este novo romance, Comissão das Lágrimas, chega também a Portugal um conjunto de adaptações teatrais e musicais em torno da obra de ALA que tiveram a sua estreia em Paris, no ano passado {gaffe do jornalista: foi no início do ano de 2011}. Foram seis meses de celebração da sua prosa torrencial e polifónica, que não deixou de surpreender o escritor. Mesmo que, como confessa, não tenha visto nenhum desses espectáculos.

Vê com bons olhos essas adaptações?, perguntamos, tendo em mente a dramaturgia de Maria de Medeiros a partir de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, a interpretação musical que José Neves criou com as suas cartas de guerra (que estiveram em cena, no Teatro São Luiz, na semana passada) e a transposição para o grande ecrã de A Morte de Carlos Gardel, um filme de Solveig Nordlund. com estreia marcada para amanhã, quinta-feira, 22 [...]. «Não vejo», responde Lobo Antunes. «Tudo isso tem um lado agradável, não minto - e desde o cancro [que teve há cinco anos] que não minto. Mas é um trabalho que já não é meu. Para ser sincero, é-me completamente indiferente. Cedo os direitos sem contrapartidas».

E nunca pensou escrever teatro ou colaborar em cinema? «Não tenho tempo, nem percebo nada dos esquemas teatrais e cinematográficos. Nem para isso tenho talento, muito provavelmente. Ainda estou a aprender a escrever estes livros que faço. É a minha única preocupação».

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Comissão das Lágrimas aborda um dos assuntos mais quentes do passado recente de Angola, mesmo se de uma forma colateral: o golpe de estado de 27 de Maio de 1977. É o impacto que esses acontecimentos têm nas personagens que lemos. Por isso, ALA não teme interpretações políticas do seu livro. «A arte social nunca me interessou, nem fazer críticas ou escrever sobre política. Em todos os livros. Nem Os Cus de Judas é um libelo contra a Guerra Colonial». Porque escolheu então este episódio político tão marcante? A resposta é bem ao seu estilo: «Não foi uma decisão racional. Aquela voz não se calava. E eu fui levado pela onda que criou».

Mais relevante, para si, afigurou-se o labor sobre a matéria do passado e os sentimentos que não existem sem o seu contrário, a morte e a vida, a alegria e a tristeza.

Ao 23º romance, António Lobo Antunes continua a perseguir a "utopia" de "colocar a vida toda entre as capas de um livro". E a memória, o que dá espessura à imaginação, é a massa a partir da qual edifica as suas narrativas. À semelhança de Cristina, a narradora de Comissão das Lágrimas, o autor de Explicação dos Pássaros, que em Novembro terá uma edição comemorativa dos 30 anos do seu lançamento, também vive "torturado por espectros". O passado é presente, aprendeu-o em África, onde esteve destacado como médico, durante a Guerra Colonial. Um presente contínuo que emerge sistematicamente na sua vida, como na sua escrita, sublinha. E, sentindo que a conversa se aproxima do fim, acrescenta: «Temos todas as idades na nossa vida e todas as vidas dentro de nós. É o que nos permite escrever». Comissão das Lágrimas é mais um testemunho dessa espiral sem tempo, desse pretérito presente e em permanente reconstrução.


in Jornal de Letras, nº 1069
21.09.2011
[grafia revista para as normas antes do AO90]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...