8 de outubro de 2011

Jornal de Letras: a voz (interior) das lágrimas


Jornal de Letras - edição 1069
entrevista de Luís Ricardo Duarte
21.09.2011


Quatro andamentos para um pretérito presente


AQUI E AGORA
Tocamos à campainha do prédio onde mora, ao Conde Redondo, em Lisboa, e temos uma certeza: estamos a interromper o seu trabalho. Da editora demoraram a confirmar a data da entrevista precisamente porque António Lobo Antunes (ALA) está a acabar o seu novo livro, o que deve acontecer por estes dias. «Já não estou a escrever», revela assim que nos sentamos no sofá da sala. «Estou na parte mais maçadora, a da edição. Não tem nada de criativo. É como estar a corrigir testes de português mal escritos». O processo, no entanto, já vai muito avançado. De tal forma que é mais sobre este manuscrito que quer falar, deixando para segundo plano Comissão das Lágrimas, o romance que chega às livrarias no final deste mês. «Tenho de esquecer um livro para começar outro», salienta. «E do que agora sai lembro-me pouco». Não será, portanto, uma entrevista o que teremos pela frente. Antes uma conversa, em vários andamentos, sobre um mesmo tema: a arte da escrita.

25 DE FEVEREIRO DE 2010
Com medo que a fonte seque, ALA tem definido datas para começar a escrever novos romances. Como normalmente o processo de revisão termina no Outono, o Inverno traz-lhe o calor de um novo livro. Ou o frio, dado que, como nos diz, o trabalho é cada vez mais difícil. «Ao contrário da leitura, escrever é uma actividade que não associo ao prazer. As indecisões e angústias são tantas... E quando não estou a trabalhar sinto-me culpado». Acresce a este temor o receio de desiludir quem o lê, em particular figuras tão ilustres como George Steiner ou Harold Bloom, que não se cansa de convocar ao longo da conversa. O seu público, assegura-nos, é universal. «Escrever é muito difícil. Cada vez me dou mais conta disso».

A 25 de Fevereiro de 2010 lançou-se, metodicamente, às suas rotinas. Trabalhar de manhã, à tarde e à noite, com uma pausa apenas aos fins de semana. E aos poucos foi surgindo Não É Meia-Noite Quem Quer, título que reproduz um verso de René Char, na linha de uma apropriação poética já verificada em alguns dos últimos livros: Sôbolos Rios Que Vão, de Camões, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, inspirado num cancioneiro do século XIX, ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, a partir de Dylan Thomas.

«Este novo livro foi um milagre» - afirma, mais do que uma vez ao longo da conversa, Lobo Antunes. Já quando o entrevistámos a propósito de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? o escritor falou da sua criação como se ela resultasse de uma espécie de energia superior, desconhecida, ou de um outro estado de entendimento. «Durante muitos anos - diz - havia uma coisa que me intrigava: a sensação que temos, quando estamos entre o dormir e o acordar, de ter percebido o segredo do mundo. De que tudo é muito simples e claro».

O problema é que esse estado milagroso normalmente acaba quando se inicia o caminho do despertar. «Quando acordamos não temos nada». Levou tempo a descobrir a melhor solução para reproduzir essa condição híbrida. Encontra-a no "cansaço". «Normalmente, as duas ou três primeiras horas são perdidas. Só quando estou cansado e as defesas baixam o texto começa a sair». E o milagre acontece.

AQUI E AGORA
Qual foi o ponto de partida do livro que está agora a corrigir?, perguntamos, aceitando o seu jogo de falar primeiro do depois, para mais tarde irmos ao agora. «De início não tinha nada». No entanto, do abismo da página em branco uma voz surgiu.  «Ela falava, falava, falava e fui atrás dela», descreve ALA. «Só mais tarde percebi que ela se ia matar. O livro passa-se todo em três dias, sexta-feira, sábado e domingo». E como se desenvolveu essa voz?, insistimos. «A minha ideia era pegar numa pessoa com esquizofrenia paranóica que, em delírio, ouvisse vozes. Mas depois começou a ser muito mais que isso», afirma. E acrescenta: «Toda a criação é simbólica. A história é apenas o isco que se usa para atrair o leitor à verdade dos símbolos. É um processo longo, que só se faz através da escrita e reescrita. Lembra o título de um livro do Eugénio de Andrade: é um Ofício de Paciência. Ou, já que estou cheio de citações, tem qualquer coisa daquela passagem do diário do Jules Renard em que ele diz que não há talento, apenas bois, bois que marram e marram e que insistem e insistem até conseguirem o que procuram».

HÁ CERCA DE 15 ANOS
Embora presente desde a sua estreia literária, em 1979, com Memória de Elefante, a ideia de "voz" tem assumido, em criações recentes, uma maior intensidade. E Lobo Antunes não tem pudor em explicar porquê: «Quando comecei a ensurdecer a minha escrita mudou: passei a ouvir muito melhor as vozes». São elas que agora, sibilinas e desafiadoras, comandam a sua pena, fazendo do escritor uma espécie de medium que traduz, interpreta e refaz o que ouve. «Ser surdo é uma chatice imensa. Um sofrimento muito grande. Mas ao mesmo tempo as vozes interiores começam a tomar um outro peso. Como não tenho vozes de fora, aparecem as de dentro, que provavelmente eram silenciadas pelo barulho exterior. Com isto, os meus livros mudaram, numa inflexão que pode ser identificada a partir de O Manual dos Inquisidores [de 1996]».

Mas mudaram em que sentido? «A voz tornou-se mais presente, clara, nítida e forte. Se eu tirar o aparelho não oiço nada. E, mesmo quando o uso, não é mais que um amplificador. Não escolhe sons como o cérebro faz. O barulho de um talher num prato é, para mim, uma explosão, tal como estar com muitas pessoas à mesa. Sozinho, sem aparelho, as vozes que existem dentro de todos nós fazem-se ouvir. O Beethoven falava neste aspecto também. Que, com a surdez, passou a ouvir melhor as composições na sua cabeça. No meu caso, comecei a conseguir chegar mais fundo. Ensurdecer foi socialmente uma chatice e literariamente uma bênção».

AQUI E AGORA
"O doloroso canto de uma mulher torturada". Já numa entrevista ao Estado de São Paulo, em Maio de 2010, ALA confessava que na sua cabeça habitava essa música de sofrimento. Eram os sons de Elvira, mais conhecida por Virinha, líder do batalhão feminino do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Em Maio de 1977, durante os conflitos internos por que aquele país passou, opondo os chamados "fraccionistas", cujo principal rosto era Nito Alves, a Agostinho Neto, Virinha foi presa, torturada e morta. Contudo, nunca deixou de cantar ao longo de todo esse terrível suplício. «Segundo os livros que há sobre o assunto, é uma história autêntica. E um extraordinário exemplo de coragem, algo que sempre admirei.», diz-nos agora ALA. «Julgo que herdei essa admiração do meu pai, para quem os três valores fundamentais eram a coragem, o rigor e a ausência de mentira».

Porém, acrescenta, «não era tanto esse episódio que me interessava». Presente no livro, nas páginas iniciais, esse doloroso canto é uma espécie de pauta a partir da qual desenvolveu o romance, centrado em três personagens principais: um casal e uma filha, internada numa clínica. Personagens essas que foi buscar ao seu quotidiano, às pessoas com que se cruza no dia a dia e aos espaços que lhe são íntimos. «Para começar a escrever, preciso de alguns factos reais. E, na minha cabeça, esse casal morava na Avenida D. Afonso III, informação nunca mencionada, num apartamento que tive, há muitos anos, para escrever, ao pé do Cemitério Judeu e com uma pequena vista para o Tejo». Processo semelhante aconteceu em Não É Meia-Noite Quem Quer, que recria o ambiente da casa de férias dos seus pais, na Praia das Maçãs.

Com esses elementos, o ambiente da narrativa compôs-se gradualmente. «Encontrei as personagens aqui no meu bairro: um pintor indiano, a sua mulher, uma antiga corista, e a sua filha, doente com problemas psiquiátricos. Mas eis que depois se transformaram, ele em padre, negro, ela não se sabe muito bem em quê [nunca se chega a perceber onde trabalha, se "na fábrica, na modista ou no escritório", apenas que dançava até o seu joelho ceder]. O esquema que fiz não me serviu para nada, só para transgredir».

PARIS, 201[1]
Com este novo romance, Comissão das Lágrimas, chega também a Portugal um conjunto de adaptações teatrais e musicais em torno da obra de ALA que tiveram a sua estreia em Paris, no ano passado {gaffe do jornalista: foi no início do ano de 2011}. Foram seis meses de celebração da sua prosa torrencial e polifónica, que não deixou de surpreender o escritor. Mesmo que, como confessa, não tenha visto nenhum desses espectáculos.

Vê com bons olhos essas adaptações?, perguntamos, tendo em mente a dramaturgia de Maria de Medeiros a partir de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, a interpretação musical que José Neves criou com as suas cartas de guerra (que estiveram em cena, no Teatro São Luiz, na semana passada) e a transposição para o grande ecrã de A Morte de Carlos Gardel, um filme de Solveig Nordlund. com estreia marcada para amanhã, quinta-feira, 22 [...]. «Não vejo», responde Lobo Antunes. «Tudo isso tem um lado agradável, não minto - e desde o cancro [que teve há cinco anos] que não minto. Mas é um trabalho que já não é meu. Para ser sincero, é-me completamente indiferente. Cedo os direitos sem contrapartidas».

E nunca pensou escrever teatro ou colaborar em cinema? «Não tenho tempo, nem percebo nada dos esquemas teatrais e cinematográficos. Nem para isso tenho talento, muito provavelmente. Ainda estou a aprender a escrever estes livros que faço. É a minha única preocupação».

AQUI E AGORA
Comissão das Lágrimas aborda um dos assuntos mais quentes do passado recente de Angola, mesmo se de uma forma colateral: o golpe de estado de 27 de Maio de 1977. É o impacto que esses acontecimentos têm nas personagens que lemos. Por isso, ALA não teme interpretações políticas do seu livro. «A arte social nunca me interessou, nem fazer críticas ou escrever sobre política. Em todos os livros. Nem Os Cus de Judas é um libelo contra a Guerra Colonial». Porque escolheu então este episódio político tão marcante? A resposta é bem ao seu estilo: «Não foi uma decisão racional. Aquela voz não se calava. E eu fui levado pela onda que criou».

Mais relevante, para si, afigurou-se o labor sobre a matéria do passado e os sentimentos que não existem sem o seu contrário, a morte e a vida, a alegria e a tristeza.

Ao 23º romance, António Lobo Antunes continua a perseguir a "utopia" de "colocar a vida toda entre as capas de um livro". E a memória, o que dá espessura à imaginação, é a massa a partir da qual edifica as suas narrativas. À semelhança de Cristina, a narradora de Comissão das Lágrimas, o autor de Explicação dos Pássaros, que em Novembro terá uma edição comemorativa dos 30 anos do seu lançamento, também vive "torturado por espectros". O passado é presente, aprendeu-o em África, onde esteve destacado como médico, durante a Guerra Colonial. Um presente contínuo que emerge sistematicamente na sua vida, como na sua escrita, sublinha. E, sentindo que a conversa se aproxima do fim, acrescenta: «Temos todas as idades na nossa vida e todas as vidas dentro de nós. É o que nos permite escrever». Comissão das Lágrimas é mais um testemunho dessa espiral sem tempo, desse pretérito presente e em permanente reconstrução.


in Jornal de Letras, nº 1069
21.09.2011
[grafia revista para as normas antes do AO90]

6 de outubro de 2011

Valter Hugo Mãe lamenta que o Nobel ainda não tivesse sido atribuído a ALA


Numa notícia da página on-line do Expresso, Valter Hugo Mãe refere que, a propósito da atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao poeta sueco Tomas Tranströmer, fica «contente, porque ao menos o prémio Nobel da Literatura foi dado a um poeta, porque a poesia é sempre o parente pobre da Literatura, é sempre o género invisível». Porém, lamenta que António Lobo Antunes não tivesse sido galardoado: «Fico mais uma vez triste, porque acho que devia ganhar o António Lobo Antunes, porque não sou nada daqueles que pensam que a língua portuguesa não posssa ter dois génios contemporâneos e acho triste que a literatura em português não seja levada a sério para dois prémios». No seu blog deixou escrito ontem, véspera de ser anunciado o laureado deste ano: «e já todos sabemos que se o antónio lobo antunes não ganhar o prémio nobel este ano o autor que ganhar será obrigatoriamente pior do que ele. era bom que a academia percebesse que a língua portuguesa impõe respeito e que o que deve ser tem de ser. a bem do juízo mundial». Em outros anos, Valter Hugo Mãe já tinha manifestado o mesmo sentimento no blog (ler).

2 de outubro de 2011

"Gostava de morrer com uma caneta na mão", confessa António Lobo Antunes ao DN

Hoje, no Diário de Notícias, entrevista com o escritor.
«À data do lançamento do seu mais recente romance, 'Comissão das Lágrimas', e a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, a que é sério candidato, o escritor dá uma rara entrevista, em que fala sobre a sua vida literária.
Não evita pronunciar-se sobre a crise, os aumentos de impostos, nem sobre as figuras políticas que governam o País.»

Miguel Real: crítica a Comissão das Lágrimas


Singularidade absoluta

1) INTRODUÇÃO

Comissão das Lágrimas, último romance de António Lobo Antunes (ALA), mantém o conjunto de singularidades estéticas que tornou o seu autor um vulto ímpar nas letras portuguesas e internacionais.

Com efeito, descansado o exemplar do livro no braço do sofá, a conclusão é indeclinável: ninguém escreve ou escreveu como ALA. O autor é, de facto, uma mónada literária sem passado estético nem genealogia autoral no seio da história do romance português. Não existem mestres para este tipo de escrita e, certamente, não existirão discípulos (epígonos haverá muitos). Quem teriam sido os seus patriarcas da escrita em Portugal? Raul Brandão de Húmus, Ruben A. de Caranguejo, Ana Hartely de A Discípula, Nuno Bragança de A Noite e o Riso, José Cardoso Pires de O Delfim, Maria Velho da Costa deMaina Mendes? E internacionais? Faulkner, Joyce, Calvino, Kafka? Não.

Em absoluto: nenhum autor escreve como ALA. Certamente que terá havido influências - é impossível não havê-las. Porém, o importante não será a manta de retalhos de possíveis influências que uma especiosa tese de doutoramento detectará aqui e ali, mas, diferentemente, a concepção bem firme hoje da absoluta singularidade estética da escrita de ALA. Sim, todos os escritores possuem uma escrita singular (por isso são escritores, mas alguns são mais escritores do que outros. E ALA é-o em modo absoluto. O que significa dizer de um escritor que o é de um modo absoluto? Significa que os seus livros revelam uma nova dobra na língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta. Por isso os romances de ALA confundem o leitor, habituado à gramática de mestre-escola [...]

Quer o leitor fazer a experiência? Leia em simultâneo Comissão das Lágrimas e O Cão que Pensava Demais, de José António Saraiva, publicado agora mesmo, e veja a diferença - no primeiro, os lugares sintácticos e morfológicos clássicos são amiúde alterados e as relações entre as palavras abrem novos campos semânticos, gerando uma outra figuração escrita da língua, que, sem dúvida, confunde e espanta o leitor; no segundo, da primeira à última páginas, toda a escrita se resume a um tradicional máximo denominador comum da língua, a gramática clássica ali depositada como um dogma de Deus, sorte de longa redacção de um bom aluno do 12º ano, compondo um romance profundamente conservador [...]

2) A ESCRITA DE ALA

Com efeito, por via de elisões, antíteses, paralelismos, sinestesias, reiterações recorrentes, por vezes sucessivas, metonímias frequentes, analogias inesperadas geradas por cruzamento de ideias ou frases, assíndetos (corte das adversativas), e outras técnicas estilísticas (certamente que espontâneas), a escrita de ALA cria uma cadência musical encantatória que atordoa o leitor, uma toada hipnótica (cf. Maria Alzira Seixo, As Flores do Inferno e Jardins Suspensos, 2010, p. 20, por exemplo) que o desorienta, não raro o confunde. O leitor busca uma intriga clara e consistente, pontos de apoio compreensivos no interior da história narrada (qual o papel do avô em Comissão das Lágrimas?, a mãe chama-se Alice ou Simone?, o pai preto violentou ou foi violentado ou as duas coisas na frequência do seminário?; a mãe trabalhou num escritório, numa fábrica ou numa modista?...), o leitor tenta refazer a cronologia da acção, não consegue à primeira, à segunda, espanta-se, hesita em pôr o livro de lado, sucumbe à leitura tão bela mas tão exigente, surpreende-se, agita-se, conclui conter Comissão das Lágrimas uma escrita diferente de todas as outras. Neste momento, o leitor ou abandonou a leitura (ao 3º, 4º capítulos, ansiando por romances transparentes como o de José António Saraiva) ou já foi projectado para dentro do romance, não é já um receptor passivo, um novo universo estético nasceu na sua mente, uma "pena gozosa" (Pe. António Vieira) penetrou-o, debate-se com a narração da história, tenta controlá-la, conclui ser controlado por ela e abandona-se à fruição do romance.

3) COMISSÃO DAS LÁGRIMAS: UM "INFERNO DOCE"

Assim, ler Comissão das Lágrimas é como se cada leitor reconstruísse dentro de si um novo "Guernica": corpos fragmentados, mentes estilhaçadas, sentimentos benéficos amarrotados, os "cães negros" do inconsciente maligno emergidos, soltos, situações sociais aterrorizantes - o terror em cada página (cf. p. 57, como exemplo), um inferno em forma de arte, ou como Vieira designava os engenhos de açúcar, mantidos permanentemente acesos pelo trabalho escravo, um "inferno doce", e Maria Alzira Seixo denomina por "flores do inferno". "Comissão das Lágrimas" designa o conjunto de elementos vencedores que, em 1977, em Luanda, seleccionaram os "nitistas" ou os "fraccionários" da revolta de Nito Alves e Zita Vales contra a fracção dominante do MPLA liderada por Agostinho Neto. Não houve piedade ética nem misericórdia cristã - após prisão e tortura, foram mortos milhares e milhares [...] de angolanos ao longo de dois anos: do sangue dos "fraccionistas", como outrora do sangue dos escravos nasceu o actual poder político angolano [...] e o "inferno doce" que é hoje Luanda.

Todo o romance, multiplicado por três espaços principais (Luanda, Quilala, Lisboa) e quatro tempos (Angola: 1967, 1974/75, 1977 e Lisboa, 2007), é atravessado pela recordação da tortura infligida a Virinha (terror puro e simples: pp. 35, 48..., personagem real sem nome no romance), o arrependimento do ex-padre preto, marido da mãe de Cristina, desaparecido em Almada aos 76 anos, sofrendo de arteriosclerose, o trauma infantil de Cristina, que houve vozes vindas de objectos (cadeiras, folhas, flores..., e porventura deitará fogo ao apartamento da família em Lisboa), a existência carregada de solavancos da mãe de Cristina, corista-bailarina frustrada devido a aleijão no joelho, explorada sexualmente à ordem do Senhor Figueiredo pelos brancos ricos.
 

Miguel Real
edição 1069 do Jornal de Letras
21.09.2011
[grafia revista para as normas antes do AO90]

Carlos Reis: sobre Quarto Livro de Crónicas

excerto do artigo A obstinação do ofício, publicado na edição 1069 do Jornal de Letras, em que nos pontos 4 e 5 se refere ao Quarto Livro de Crónicas

[...]
4.
Alguns dos textos que podemos ler no Quarto Livro de Crónicas são o testemunho quase dramático de uma atitude que coroa (ou, de outro ponto de vista, sustenta) a obra do escritor. Numa dessas crónicas, lemos palavras emblemáticas: «é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço» (p. 190). Antes e depois desta afirmação, os textos deste volume confirmam o que em colectâneas anteriores já havíamos surpreendido: a consciência da crónica como discurso "intervalar" em relação à escrita do romance; a capacidade que ela evidencia para fixar momentos do quotidiano (rostos, gestos, personagens, ilusões e desilusões, farrapos de vida, afectos surdos, etc.), em registo, por assim dizer, paraficcional ; a imersão no mundo pessoal do escritor, em particular o da infância e o da família, sob o signo de uma memória aguda e, às vezes, dolorosa; a ternura escondida e, nas crónicas, momentaneamente revelada; o impulso para observar o mundo em planos autónomos, como que hierarquizados em função de um olhar cruelmente selectivo (do género: este que me fala não o ouço; reparo, sim, nos pormenores que me rodeiam e que a ele escapam); o sentido da auto-observação, com nada de narcisista e tudo de amargo desencanto perante a passagem do tempo que os espelhos, várias vezes aqui presentes, silenciosamente revelam. É destas matérias ainda algo informes [...] que emanam também figuras e episódios ficcionais que nos romances encontramos, como é evidente, muito reelaborados, assim se confirmando, como noutros momentos já disse, o carácter laboratorial destas prosas. Por muito que o escritor as desvalorize, a sua escrita romanesca deve-lhes muito.

5.
No Quarto Livro de Crónicas, ALA aprece-nos obcecado por esta interrogação: como se faz um livro? Ou então: será o livro que arduamente estou a escrever o último? Ambas as perguntas são subsumidas por uma outra, mais lata: quando termina o Grande Livro que incessantemente tenho estado a escrever?

As respostas (porventura respostas impossíveis) a estas questões justificam a formulação de um pensamento ético sobre a literatura que a espaços aqui encontramos, mas que sobretudo se acham em duas crónicas: «Onde o pobre escritor começa» e «Miguel Torga». Esta última tem a tonalidade de uma homenagem que é mais do que isso. No autor de Poemas Ibéricos, ALA não louva apenas a personalidade literária que a espaços admirou e admira, mas também alguém que teve a coragem de dizer Portugal; em Torga (que ALA nem chegou a conhecer pessoalmente), é sobretudo realçado "um sentido ético da Literatura, da Medicina e da Vida que me faz lembrar, em exigência, o que o meu pai nos inculcou" (p. 315). Assim mesmo.

E assim mesmo Lobo Antunes explana, em «Onde o escritor começa», primeiro que tudo o modo de fazer (a técnica) a que obedece o começo de um novo livro: os gestos, os materiais incipientes, os lentos avanços. Depois disso, o radical empenhamento numa missão: "sentido de missão", afirma; e completa: "acto sagrado" (p. 226). Acima de tudo, a ética da escrita que aqui fica exarada, mas que podemos perceber em muitos outros testemunhos do escritor, culmina num movimento de plenitude em que ALA todo se compromete, sem nada poupar nem perdoar, aos outros e antes de todos a si mesmo. Deste modo, os romances que escreve "são tudo. Pelo menos quero que sejam tudo. Não: exijo que sejam tudo. E não devem nada a ninguém: não existe uma só voz alheia na minha voz, não devo seja o que for seja a quem for hoje em dia" (p. 227).

Soberba do escritor? Arrogância intelectual? Num tempo em que, no mundo da literatura como noutros mundos, muito se contrabandeia e pouco se constrói, com honradez e com sentido de exigência, é fácil e é cómodo colar etiquetas em quem fala com tal desassombro. Mas repare-se: o ofício do escritor assim entendido não se esgota em si mesmo; este "escaravelho empurrando a sua bola" visa quem está para além dele e em volta dele: "Na direcção dos leitores, se calhar, na direcção de onde estamos todos, espero eu" (p. 227).

Assim se faz uma obra. Nos tempos sombrios que vamos vivendo, quando a literatura se arrisca a perder o lugar de referência simbólica que de há muito vem ocupando, o mínimo que se nos pede é que sejamos leitores à altura de um grande escritor, como é António Lobo Antunes. A uma tão rigorosa ética da escrita como a que ele subscreve tem que corresponder uma correlata e não menos escrupulosa ética da leitura.


por Carlos Reis
edição 1069 do Jornal de Letras
21.09.2011
[grafia revista para as normas antes do AO90]

1 de outubro de 2011

Tiago M. Franco: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


António Lobo Antunes é apontado há vários anos como possível vencedor do Prémio Nobel da Literatura. São já muitos os prémios literários por ele conquistados, em 2005 foi-lhe atribuído o Prémio Jerusalém, em 2007 o Prémio Camões, em 2008 o governo francês atribuiu-lhe o título de Comendador da Ordem das Artes e das Letras francesas. Sôbolos Rios que Vão é o seu mais recente trabalho.

A história começa a 21 de Março e termina a 4 de Abril de 2007, a data corresponde ao tempo em que Antunes esteve internado num hospital com um problema nos intestinos, e é no hospital que “Antonino” nos dá a conhecer o inevitável da vida: que todos nós um dia temos que chegar à foz de um rio (“e não é preciso contar-lhe, sabia, bastava a certeza de chegar à foz”) e tal como as águas do rio, até chegarmos à foz temos muito caminho a percorrer. Nessa caminhada a personagem recua até à infância, outras vezes até à idade de adulto e também relata o que está a acontecer no hospital, (“e que curioso haver sido outro e depois outro até ao homem de hoje (…), aos cinco um senhor a tocar piano e a rodar no banco (…) aos dezassete a empregada para ele – Você não é o seu pai (...) aos quarenta um enjoo de para quê, uma mulher ao seu lado e ele – Não me abandones”). No texto, a personagem avança e recua no tempo conforme o seu pensamento.

Com este trabalho, António Lobo Antunes, tem o poder de nos conseguir fazer reflectir sobre a vida, somos obrigados a relembrar o nosso passado, assim como pensar sobre o nosso futuro. Como os livros dos grandes escritores este é um livro difícil de esquecer.

Boa leitura…


por Tiago M. Franco
18.02.2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Os Cus de Judas


Encurralado entre o arame farpado das lágrimas e o muro frio da raiva, Lobo Antunes, mergulhado no terror das memórias ainda incandescentes de África, leva-nos em visita guiada ao horror, ao medo, à solidão e à revolta da guerra que é passado mas sobrevive, estrebuchando mas nunca morrendo, em todas as suas obras.

Olhares macabros, memórias de terror, tristeza de quem viveu algo que ainda resiste na alma, este é um retrato angustiado e revoltado. O narrador, nunca nomeado, podia ser Lobo Antunes. Médico como ele, sofreu a dor dos outros, camaradas na desgraça, vítimas de um regime assassino. Passadas as dores do corpo, permanecem as da alma, as mais duras de viver.

São estas memórias da grande noite de Angola que o narrador desfia perante uma mulher, também ela, só. Numa esplanada, depois num apartamento solitário e cinzento, sonhando com um sexo sem riso que provavelmente tentaria redimir-lhe o passado. Ilusões de futuro, para quem o passado é uma espécie de morte lenta, por consumar.

E a guerra depois da guerra que é a solidão. E o homem que a guerra não fez homem, afinal, apenas uma alma revolta no deserto, sem sonhos nem esperança, apenas uma memória negra de morte ou vermelha de sangue. Um homem só, pássaro ferido que um dia quis voar. Agoniza. À sua frente um futuro que nada lhe oferece. Atrás de si um passado que o persegue e absorve. Devora. Devagar… sadicamente devagar, como na agonia do soldado que morre com as tripas na mão. A espaços emerge a violência; a violência da guerra colocada nas letras carregadas, numa caneta que rasga o papel como as metralhadoras rasgavam as carnes inocentes dos soldados, esventrados por causa de uma mentira chamada Pátria.

Também o amor toma parte neste festim de horrores; as saudades e a mágoa do amor perdido de Sofia, um amor roubado pela PIDE. Um amor que se mistura com o prazer triste da sua interlocutora; um prazer magoado porque é impossível fugir da memória.

Solidão, poesia, violência, amor e morte. É assim nos Cus de Judas, ou seja, nos confins de Angola ou nas profundezas da alma de ALA.

Avaliação pessoal: 9.5/10


por Manuel Cardoso
25.05.2011

30 de setembro de 2011

a publicar a (30 de Setembro? não) 3 de Outubro, se correr bem...

a publicar a 30 de Setembro 3 de Outubro*:




“Um doloroso canto de uma mulher torturada” foi o ponto de partida para Comissão das Lágrimas, o novo livro de António Lobo Antunes. A mulher torturada foi Elvira (conhecida por Virinha), comandante do batalhão feminino do MPLA, presa, torturada e morta na sequência dos terríveis acontecimentos de Maio de 1977 em Angola. Mas este é apenas um episódio num livro denso e sombrio sobre Angola depois da independência. António Lobo Antunes não quis fazer um livro documental ou uma reportagem “verídica” sobre o que se passou em Angola, antes usou a sua sensibilidade e o espantoso poder evocativo da sua escrita para falar sobre a culpa, a vingança, a inocência perdida.

* apesar de terem primeiro notificado que o livro estaria à venda hoje, dia 30 de Setembro, afinal só dia 3 ou 4 de Outubro é que as livrarias o terão disponível.

Memória de Elefante a preço mais acessível...

... através da colecção de bolso da LeYa, BIS. Segundo o Diário Digital de 28 de Setembro, «Memória de Elefante, de António Lobo Antunes, é o 100.º título da BIS, colecção de livros de pequeno formato da Leya. A editora revela que, "quem o adquirir terá, como oferta, A Mensagem, de Fernando Pessoa"».


29 de setembro de 2011

As Coisas da Vida: livro de 60 crónicas de ALA publicadas no Brasil

citado do site http://www.estadao.com.br:

Tradição brasileira

Com as crónicas de 'As Coisas da Vida', António Lobo Antunes confessa paixão pelo género consagrado no País

Tudo começou como um exercício estilístico - em troca de um ínfimo soldo, o escritor António Lobo Antunes, um dos mais festejados da actualidade, começou a escrever crónicas dominicais para a imprensa portuguesa. "Depois de um tempo, quando já não estava mais disposto a continuar, pedi um valor bem mais alto, acreditando interromper a colaboração", contou ele ao Estado, em entrevista por telefone desde Lisboa. "Para minha surpresa, eles aceitaram e tive de manter a rotina."

Nada surpreendente, no final das contas, esse interesse dos editores. Conhecido por levar ao extremo a subversão da estrutura narrativa - cada capítulo de seus romances se compõe de frases que vão criando melodias e ritmos insuspeitos que conduzem a uma leitura vertiginosa -, Lobo Antunes, em suas crónicas, volta-se para a intimidade, navegando entre saudosas lembranças familiares e observações de seu quotidiano. É quase como outra faceta do mesmo escritor, menos experimental mas igualmente contagiante.

Basta conferir as 60 crónicas que compõem As Coisas da Vida, recentemente lançado pela Alfaguara, selo da editora Objetiva. Ali estão textos seleccionados de dois volumes que já circulam em Portugal, Livro de Crónicas e Segundo Livro de Crónicas, que, por sua vez, reúnem material publicado no jornal Público e na revista Visão. Uma adorável viagem em que Lobo Antunes navega entre experiências pessoais, quando trata do tempo em que trabalhou como médico na guerra em Angola, de amigos que cruzaram sua vida e, principalmente, dos momentos passados em Belém do Pará, onde morava o avô e um bando de tias.

Engana-se, porém, quem acredita que o escritor sente prazer nesse tipo de escrita. "É uma chatice, pois interrompe o ritmo do romance que escrevo no momento - para voltar, é complicado", afirma Lobo Antunes, que lança em outubro, em Portugal, Comissão das Lágrimas. "Quando não estou escrevendo um livro, não tem problema. Mas, se estou trabalhando em algo, sou obrigado a sair do ritmo do romance para o da crónica, que é bem diferente. Também não posso ser muito profundo, pois o género não permite."

Não se trata de descaso - íntimo conhecedor da crónica, Lobo Antunes resigna-se a louvar aquela que, em seu parecer, é a mais perfeita: a brasileira. "Se há algum país que tem de se orgulhar de seus cronistas, é o Brasil. E não falo apenas de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino - há um escritor que considero importante salientar seu trabalho: Paulo Mendes Campos."

Da mesma forma que se rende à técnica seca e precisa do verso de João Cabral de Melo Neto, o escritor português maravilha-se com os textos do colega mineiro, que morreu em 1991. "Suas crónicas sobre literatura são maravilhosas: Paulo Mendes Campos fez considerações fundamentais sobre Virginia Woolf, além de ter escrito a melhor análise que já li sobre o Coração das Trevas, de Conrad. Outro dia, li em voz alta esse texto e percebi que é uma lição de teoria literária”, observa. “Também as crónicas de futebol são empolgantes mesmo para quem não conhece nada do esporte. E não vi, em língua portuguesa, melhor tradução dos poemas de Dylan Thomas que a feita por ele. Não o conheci, mas o considero um artista injustamente esquecido. Era um homem com um conhecimento ético da profissão.”

Esse detalhe é essencial no exercício do ofício, segundo Lobo Antunes. Para ele, a crónica é uma intervenção cívica e cita Carlos Drummond como exemplo. "Apesar de não gostar tanto de sua prosa como amo a poesia, há sempre um sentido ético em seus textos. Sempre aprendo muito quando releio o Drummond cronista."

Apesar de bom leitor, Lobo Antunes confessa-se um novato na escrita de crónicas. Ele conta que nunca tinha escrito uma até surgir o convite da imprensa lisboeta. O assunto era o que mais lhe preocupava. "Quando comecei, pensava em temas comuns pois seria dirigido ao leitor de fim de semana. Depois, pensei em usá-las como um contraponto dos livros, algo como anotações feitas às margens dos escritos. É prazeroso o trabalho, mas a crónica condiciona o número de palavras e não pode ser profunda."

Na conversa com o Estado, Lobo Antunes quis saber se a selecção publicada pela Alfaguara trazia textos relativos ao Brasil. Sossegou ao descobrir que constam algumas, especialmente a que traz lembranças do avô que morava em Belém, ao lado de tias muito velhas, que moravam “no fundo de corredores compridíssimos entre brilho de pratas, latas de biscoitos e objectos sem sombra de que as pessoas idosas se rodeiam".

"Escrevi várias crónicas sobre meu avô que nasceu em Belém", conta. "O Lobos saíram de Portugal antes dos Antunes. Foi durante a inquisição e, depois de perambular pela Europa, eles chegaram ao Brasil. Quem me contou isso foi um senhor, em Jerusalém, que sabia detalhes dessa diáspora portuguesa. E também a saga dos Lobos até chegar ao Brasil. Os Antunes eram do meu tetravô, que foi ao Brasil e conheceu minha tetravó Lobo, que já estava lá. Creio que o ramo dos Lobos da minha família está há 300 anos no Brasil."

Mais que da política e da vida real, Lobo Antunes trata, na verdade, da vida interior. Há obsessões que se repetem em seus romances, uma delas é a inexorável decadência física que leva à morte. O mesmo acontece em suas crónicas, nas quais as palavras geram umas as outras. Sem plano nenhum. "Eu me sinto à mesa e a mão funciona quase que mecanicamente. Faço uma primeira versão, corrijo as patetices, pleonasmos e parvoíces como ‘colocar o chapéu na cabeça’ - vai colocar onde, no pé?"

O resultado, como se espera de uma boa crónica, são textos aparentemente simples, em que passagens triviais da vida ganham dimensão universal.

O Estado
26.09.2011

Nota: o texto foi alterado para a grafia pt-pt antes do AO90. Para qualquer citação de textos vindo do pt-br optaremos, a partir de hoje, esta forma.

21 de setembro de 2011

Jornal de Letras, hoje nas bancas, tema dedicado a António Lobo Antunes


Edição 1069 do Jornal de Letras:

«António Lobo Antunes (ALA) é um dos grandes destaques desta rentrée. Em dose tripla: com um novo romance, Comissão das Lágrimas, nas livrarias a 30 de Setembro; com um filme "tirado" de A Morte de Carlos Gardel, que estreia a 22; com uma colecção de ensaio sobre a sua obra, dirigida por Maria Alzira Seixo, de que saiu agora o 1º volume - ao que acrescem os espectáculos de teatro e música a que já nos referimos. Neste tema, o JL conversa com ALA a propósito da sua escrita e deste novo romance; seguem-se a crítica de Miguel Real e um texto de Norberto do Vale Cardoso, que o enquadra na presença da guerra colonial na obra do autor, à qual dedicou a sua tese de doutoramento. Sobre a obra, em geral, e a importância nela das crónicas de ALA, escreve ainda Carlos Reis. Enfim, Solveig Nordlund fala daquele filme, de que é realizadora, e publica-se a respectiva crítica».

[sublinhados e link nossos]

Duas novidades, decorrentes da entrevista/conversa publicada nesta edição: o escritor já está a ultimar aquele que virá a ser o próximo romance a publicar (em 2012, certamente), cujo título é Não é Meia-Noite Quem Quer, que o foi buscar a um verso do poeta francês René Char*; e o livro Explicação dos Pássaros que comemora este ano 30 anos sobre a sua primeira edição, do qual será publicada em Novembro a respectiva edição comemorativa.

Citações a reter da entrevista:

«Quando comecei a ensurdecer a minha escrita mudou: passei a ouvir melhor as vozes [...] Ensurdecer foi socialmente uma chatice e literariamente uma bênção»

«Para começar a escrever, preciso de alguns factos reais»

«Ainda estou a aprender a escrever estes livros que faço. É a minha única preocupação»

«Temos todas as idades na nossa vida e todas as vidas dentro de nós. É o que nos permite escrever»


* N'est pas minuit qui veut, do poema Entraperçue, (Chants de la Balandrane, de René Char, 1977)

Comissão das Lágrimas pelo olhar de Norberto do Vale Cardoso

O título do novo romance de António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, liga-se a um acontecimento importante da história de Angola, e em particular a dissidências internas do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), que levaram, em 1977, a um golpe e atentado falhados a Agostinho Neto. Na sequência desses acontecimentos, o Comité Central do MPLA procurou apurar a identidade dos “fraccionistas”, constituindo, para o efeito, uma comissão de inquérito que ficou conhecida precisamente por “Comissão das Lágrimas”. Todavia, e apesar da importância contextual desses factos para o romance, não podemos ater-nos a eles, pois se na obra de António Lobo Antunes a realidade histórica surge sempre como uma referência importante, devemos estar cientes de que, nela, o “real” não segue pressupostos de verosimilhança ou de fidelidade realista.

De igual modo, a temática da Guerra Colonial, que tratámos ao longo deste ensaio, não está ao serviço de reconstruções históricas desse conflito, nem pode a obra de Lobo Antunes sobre este tema ser lida de forma literal. Talvez por esse motivo, o próprio autor reitere nunca ter escrito nenhum livro sobre a guerra e que o mais próximo que terá estado de o fazer teria sido no volume (cuja publicação não é de sua autoria, note-se!) intitulado Cartas da Guerra, isto é, numa escrita sem finalidade estética. Por outro lado, se a guerra é abordada tematicamente na obra antuniana, é-o sempre num sentido figurado, perscrutando mais as vivências interiores do que propriamente os marcos históricos e/ ou bélicos que a configuram.

Esta Comissão das Lágrimas não pode ser vista como a escrita dos factos, antes como criação literária de um evento que, de facto, podemos situar no tempo, mas que, em Lobo Antunes, deve ser entendido como um continuum, ligado a vivências e a memórias, ou seja, a uma percepção pessoal e interior, conforme se verifica no exemplo: “não há ontens como os ontens dos brancos, é-se ou não se é e pronto” (CL, 108). Por esse motivo, o romance antuniano não é um romance histórico, não se socorre de documentos nem o seu autor recorre a investigação. Seria, pois, redutor referir que a acção deste romance decorre em 1977, quando a personagem de nome Cristina tinha 5/6 anos de idade, em Angola, e três décadas mais tarde, em Lisboa. Melhor seria pensar em realidades que se circundam, e não em tempos ou espaços isolados.

Assim, a Comissão das Lágrimas retrata, não apenas aquele momento delicado da independência e guerra civil angolanas, mas também todas as guerras travadas nesse território. Esta interconfluência de guerras (a Guerra Colonial, referida nas Lágrimas sobretudo através dos bombardeamentos do Cassanje em 1961 e das guerrilhas embrionárias; a guerra civil latente durante a Guerra Colonial, representada pela existência de vários movimentos de libertação; e a guerra civil propriamente dita, com a coexistência, no seu dealbar, de angolanos e portugueses, descrevendo-se aqui as incidências trágicas da descolonização, desde logo patentes no caos estabelecido, aquando dos embarques, no ano e meio subsequente ao 25 de Abril de 1974) e de guerras dentro de guerras (dos vários movimentos e das suas disputas às dissidências dentro do MPLA, por exemplo) permite que, num segundo plano, passemos a ver, nesses conflitos, a imagem de um sofrimento universal.

As guerras serão, pois, em idêntico número às vozes que, tendo existido, são olhadas como alucinação e/ou imaginação de Cristina, a personagem que é fruto de uma relação entre Alice (indicação onomástica importante, sobretudo se ligada à referência que, em Memória de Elefante, reenviava à Alice de Carrol e, portanto, a uma identidade anómala, representada nas Lágrimas pela duplicidade Alice/ Simone, ou mesmo a um lugar outro, que se pode traduzir como o «lugar do avesso») e António (uma outra indicação fulcral na construção autobiográfica do autor, desde Conhecimento do Inferno até aos romances mais recentes), ou seja, entre um negro e uma branca, ainda que esta união não seja capaz de resolver diferenças ou de “purificar” os que, no mundo colonial, eram considerados opostos (tópico recorrente em Lobo Antunes).

Esta “cafuza”, considerada como “uma maluca que fala sozinha” (CL, 10), é internada numa Clínica devido às vozes que diz ouvir e que, repetidamente, solicita, ainda que em vão, se desinteressem dela. Essas vozes (que distraíam Cristina na escola, e que a levavam a dar erros nas cópias e a emaranhar os rios na sua cabeça, aspectos que relembram, respectivamente, a redacção no final de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo e a obsessão pelos rios em Sôbolos Rios Que Vão) representam uma só voz, a de uma rapariga, que, torturada e amputada da sua língua, continua a cantar na Cadeia de São Paulo: “a rapariga sem língua continua a cantar, erguíamo-la do chão e continuava a cantar, atirávamo-la contra o cimento e continuava a cantar, não se cala, […]” (CL, 47).

A excisão da língua, que, porventura, seria o castigo para a mentira num processo de interrogatório (ligando-se a procedimentos inquisitoriais e censórios importantes em várias obras do autor, tais como Manual dos Inquisidores ou O Meu Nome é Legião), é, contudo, paradoxal, pois a remoção inviabiliza a confissão. Esta mutilação relega-nos, de resto, à tortura dentro da temática da guerra na obra de Lobo Antunes (pensamos sobretudo emOs Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, mas também n’ O Esplendor de Portugal, em que os cubos de gelo introduzidos no ânus lembram um dos mecanismos de tortura medieval, o Berço de Judas). Por outro lado, esta entidade feminina, que tem uma referência histórica (Elvira, mais conhecida por Virinha, foi militante do MPLA), seria, à imagem da Sofia de Os Cus de Judas, que, assassinada pela Pide, se mantém como um fantasma mudo da Guerra Colonial, a representação das vozes de todos os povos reprimidos.

Nas Lágrimas, o “canto” feminino pode associar-se ao “canto do galo”, símbolo que surge no romance através de bandeiras colocadas nos telhados das casas ou numa tatuagem que uma mulata tinha no “umbigo”, e que representa o despertar – ainda que frustrado - de um país onde a paz está “estagnada” (CL, 163), ou seja, onde impera a afasia política (incapacidade de diálogo entre Unita e MPLA, por exemplo). Por outro lado, o “canto” é inexplicável porque nasce de um vazio, de uma ausência, colocando em causa a origem da voz, como se esta fosse determinada por outra coisa que não a língua, ou, em sentido lato, a Língua também fosse determinada por outra coisa que não a palavra, mas por algo anterior a ela: as lágrimas - “porque é na garganta que se juntam as folhas secas das lágrimas” (CL, 44).

A lágrima será uma confissão muda, mesmo que não conducente à verdade dos factos, pois a língua é um símbolo contraditório, representando a chama da criação ou o fogo do inferno. Talvez por isso se coloque em dúvida, na parte final do romance, a existência da própria “Comissão”, como se colocara a das vozes de Cristina (ou se podem colocar as vozes de que o autor necessitará para o seu ofício de tradução: “o meu ofício é traduzir vozes”, CL, 139; “Se as vozes não voltam não se escreve este livro”, CL, 48). De facto, o romance não nos garante o real. Esta Comissão é, no fundo, uma inquirição sobre um real - a construção de um país, que tem o nome de “Angola”, mas que não corresponde necessariamente a Angola, pois, no romance, Angola é “tudo ao contrário do que se imagina” (CL, 49). Esta Angola é, aliás, definida não como um país, mas como um “sítio” (CL, 168), o que é explicável a partir da imagem da sua capital, Luanda, definida como “uma gaveta de facas sempre aberta” (CL, 90).

Esta “gaveta”, lugar onde a única verdade é o conflito, pode ser também definida como o “umbigo” ou o “cu do mundo” (CL, 296), lugar marginal onde se dá um “julgamento mútuo” (CL, 247), ou seja, onde todos julgam, acusam e traem (cf. CL, 127 ou 295), ligando-se à figura de “Judas”. Em suma, na afasia política em que vivem os homens, o romance instituir-se-á como Língua e Canto porque, numa qualquer parte do mundo, haverá sempre outras vozes carentes de uma Voz.



  

Norberto do Vale Cardoso
in A Mão-de Judas. Representações da guerra colonial em António Lobo Antunes (em pré-publicação)
Texto Editora, 2011
artigo publicado em simultâneo na edição 1069 do Jornal de Letras

13 de setembro de 2011

Já à venda: A Arte do Romance, 1º volume da Colecção António Lobo Antunes - Ensaio


citado do site Mediabooks (LeYa): «Inclui estudos dos especialistas reunidos em Junho de 2009 no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa para estudarem a arte do romance na obra deste escritor». - pode ser encomendado aqui.

Trata-se do primeiro volume da colecção António Lobo Antunes - Ensaio. Conjunto de textos de estudiosos vários: José Gil, Paula Morão, Ana Paula Arnaut, Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral, Inès Cazalas e Catherine Vaz Warrot. Volume organizado por Felipe Cammaert.

A biblioteca António Lobo Antunes - Ensaio, publicada pela Texto Editores, trata-se de uma colecção de volumes dedicados a textos/ensaios sobre a obra de António Lobo Antunes "ou de índole comparatista que incluam, em proporções consideradas significativas, uma reflexão original e valiosa sobre a literatura deste autor português". Esta colecção é dirigida pela Professora Maria Alzira Seixo, da Universidade de Lisboa, sendo "entendida como Vertente B da «Biblioteca António Lobo Antunes», que publica os clássicos preferidos deste escritor". A responsabilidade editorial está a cargo de Maria Piedade Ferreira, que é a actual editora de António Lobo Antunes na Dom Quixote.

De seguida, apresentamos um excerto da Introdução por Felipe Cammaert, e os artigos/autores que constituem este volume:

«Introdução. António Lobo Antunes e a Arte do Romance


Por ocasião dos trinta anos da publicação do romance Memória de Elefante (1979), o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organizou, a 30 de Junho de 2009, a Jornada António Lobo Antunes: a Arte do Romance. Nessa ocasião, um conjunto de oito investigadores, portugueses e internacionais, aceitou produzir reflexão sobre a obra romanesca de Lobo Antunes, num evento que contou, na sessão de encerramento, com a presença do autor, em diálogo ao vivo com Eduardo Lourenço.

Este livro, que tem a honra que inaugurar a colecção António Lobo Antunes-Ensaio, dirigida pela Professora Doutora Maria Alzira Seixo, reúne uma selecção das comunicações apresentadas pelos participantes desse evento, em versões revistas para a publicação, conforme o estipulado no regulamento da colecção. É nosso desejo que o presente volume, resultado de um evento cujo objectivo era celebrar a obra do autor português após três décadas de produção literária, marque o início de um novo período no que diz respeito à crítica antuniana.»

Artigos e autores:


Eu, às vezes - As labirínticas complexidades da alma
Paula Morão, Centro de Estudos Comparatistas – Universidade de Lisboa

O romanesco na obra de António Lobo Antunes: herança, desconstrução, reinvenção
Inês Cazalas, Universidade de Paris VII

A escrita insatisfeita e inquieta(nte) de António Lobo Antunes
Ana Paula Arnaut, Centro de Literatura Portuguesa, Universidade de Coimbra

De uma versão a outra, ou como se constrói o romance
Agripina Carriço   Vieira, Centro de Formação de Professores “Os Templários” de Tomar

António Lobo Antunes: da escrita romanesca à enunciação musical – o texto como tecido sonoro e gráfico
Catarina Vaz Warrot, Universidade de Paris VIII – Universidade Nova de Lisboa

A concepção do romance em Dicionário da Obra de António Lobo Antunes
Eunice Cabral, Universidade de Évora

Fechamento e linhas de fuga em Lobo Antunes
José Gil, Universidade Nova de Lisboa

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...