02/10/2011

Carlos Reis: sobre Quarto Livro de Crónicas

excerto do artigo A obstinação do ofício, publicado na edição 1069 do Jornal de Letras, em que nos pontos 4 e 5 se refere ao Quarto Livro de Crónicas

[...]
4.
Alguns dos textos que podemos ler no Quarto Livro de Crónicas são o testemunho quase dramático de uma atitude que coroa (ou, de outro ponto de vista, sustenta) a obra do escritor. Numa dessas crónicas, lemos palavras emblemáticas: «é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço» (p. 190). Antes e depois desta afirmação, os textos deste volume confirmam o que em colectâneas anteriores já havíamos surpreendido: a consciência da crónica como discurso "intervalar" em relação à escrita do romance; a capacidade que ela evidencia para fixar momentos do quotidiano (rostos, gestos, personagens, ilusões e desilusões, farrapos de vida, afectos surdos, etc.), em registo, por assim dizer, paraficcional ; a imersão no mundo pessoal do escritor, em particular o da infância e o da família, sob o signo de uma memória aguda e, às vezes, dolorosa; a ternura escondida e, nas crónicas, momentaneamente revelada; o impulso para observar o mundo em planos autónomos, como que hierarquizados em função de um olhar cruelmente selectivo (do género: este que me fala não o ouço; reparo, sim, nos pormenores que me rodeiam e que a ele escapam); o sentido da auto-observação, com nada de narcisista e tudo de amargo desencanto perante a passagem do tempo que os espelhos, várias vezes aqui presentes, silenciosamente revelam. É destas matérias ainda algo informes [...] que emanam também figuras e episódios ficcionais que nos romances encontramos, como é evidente, muito reelaborados, assim se confirmando, como noutros momentos já disse, o carácter laboratorial destas prosas. Por muito que o escritor as desvalorize, a sua escrita romanesca deve-lhes muito.

5.
No Quarto Livro de Crónicas, ALA aprece-nos obcecado por esta interrogação: como se faz um livro? Ou então: será o livro que arduamente estou a escrever o último? Ambas as perguntas são subsumidas por uma outra, mais lata: quando termina o Grande Livro que incessantemente tenho estado a escrever?

As respostas (porventura respostas impossíveis) a estas questões justificam a formulação de um pensamento ético sobre a literatura que a espaços aqui encontramos, mas que sobretudo se acham em duas crónicas: «Onde o pobre escritor começa» e «Miguel Torga». Esta última tem a tonalidade de uma homenagem que é mais do que isso. No autor de Poemas Ibéricos, ALA não louva apenas a personalidade literária que a espaços admirou e admira, mas também alguém que teve a coragem de dizer Portugal; em Torga (que ALA nem chegou a conhecer pessoalmente), é sobretudo realçado "um sentido ético da Literatura, da Medicina e da Vida que me faz lembrar, em exigência, o que o meu pai nos inculcou" (p. 315). Assim mesmo.

E assim mesmo Lobo Antunes explana, em «Onde o escritor começa», primeiro que tudo o modo de fazer (a técnica) a que obedece o começo de um novo livro: os gestos, os materiais incipientes, os lentos avanços. Depois disso, o radical empenhamento numa missão: "sentido de missão", afirma; e completa: "acto sagrado" (p. 226). Acima de tudo, a ética da escrita que aqui fica exarada, mas que podemos perceber em muitos outros testemunhos do escritor, culmina num movimento de plenitude em que ALA todo se compromete, sem nada poupar nem perdoar, aos outros e antes de todos a si mesmo. Deste modo, os romances que escreve "são tudo. Pelo menos quero que sejam tudo. Não: exijo que sejam tudo. E não devem nada a ninguém: não existe uma só voz alheia na minha voz, não devo seja o que for seja a quem for hoje em dia" (p. 227).

Soberba do escritor? Arrogância intelectual? Num tempo em que, no mundo da literatura como noutros mundos, muito se contrabandeia e pouco se constrói, com honradez e com sentido de exigência, é fácil e é cómodo colar etiquetas em quem fala com tal desassombro. Mas repare-se: o ofício do escritor assim entendido não se esgota em si mesmo; este "escaravelho empurrando a sua bola" visa quem está para além dele e em volta dele: "Na direcção dos leitores, se calhar, na direcção de onde estamos todos, espero eu" (p. 227).

Assim se faz uma obra. Nos tempos sombrios que vamos vivendo, quando a literatura se arrisca a perder o lugar de referência simbólica que de há muito vem ocupando, o mínimo que se nos pede é que sejamos leitores à altura de um grande escritor, como é António Lobo Antunes. A uma tão rigorosa ética da escrita como a que ele subscreve tem que corresponder uma correlata e não menos escrupulosa ética da leitura.


por Carlos Reis
edição 1069 do Jornal de Letras
21.09.2011
[grafia revista para as normas antes do AO90]

01/10/2011

Tiago M. Franco: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


António Lobo Antunes é apontado há vários anos como possível vencedor do Prémio Nobel da Literatura. São já muitos os prémios literários por ele conquistados, em 2005 foi-lhe atribuído o Prémio Jerusalém, em 2007 o Prémio Camões, em 2008 o governo francês atribuiu-lhe o título de Comendador da Ordem das Artes e das Letras francesas. Sôbolos Rios que Vão é o seu mais recente trabalho.

A história começa a 21 de Março e termina a 4 de Abril de 2007, a data corresponde ao tempo em que Antunes esteve internado num hospital com um problema nos intestinos, e é no hospital que “Antonino” nos dá a conhecer o inevitável da vida: que todos nós um dia temos que chegar à foz de um rio (“e não é preciso contar-lhe, sabia, bastava a certeza de chegar à foz”) e tal como as águas do rio, até chegarmos à foz temos muito caminho a percorrer. Nessa caminhada a personagem recua até à infância, outras vezes até à idade de adulto e também relata o que está a acontecer no hospital, (“e que curioso haver sido outro e depois outro até ao homem de hoje (…), aos cinco um senhor a tocar piano e a rodar no banco (…) aos dezassete a empregada para ele – Você não é o seu pai (...) aos quarenta um enjoo de para quê, uma mulher ao seu lado e ele – Não me abandones”). No texto, a personagem avança e recua no tempo conforme o seu pensamento.

Com este trabalho, António Lobo Antunes, tem o poder de nos conseguir fazer reflectir sobre a vida, somos obrigados a relembrar o nosso passado, assim como pensar sobre o nosso futuro. Como os livros dos grandes escritores este é um livro difícil de esquecer.

Boa leitura…


por Tiago M. Franco
18.02.2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Os Cus de Judas


Encurralado entre o arame farpado das lágrimas e o muro frio da raiva, Lobo Antunes, mergulhado no terror das memórias ainda incandescentes de África, leva-nos em visita guiada ao horror, ao medo, à solidão e à revolta da guerra que é passado mas sobrevive, estrebuchando mas nunca morrendo, em todas as suas obras.

Olhares macabros, memórias de terror, tristeza de quem viveu algo que ainda resiste na alma, este é um retrato angustiado e revoltado. O narrador, nunca nomeado, podia ser Lobo Antunes. Médico como ele, sofreu a dor dos outros, camaradas na desgraça, vítimas de um regime assassino. Passadas as dores do corpo, permanecem as da alma, as mais duras de viver.

São estas memórias da grande noite de Angola que o narrador desfia perante uma mulher, também ela, só. Numa esplanada, depois num apartamento solitário e cinzento, sonhando com um sexo sem riso que provavelmente tentaria redimir-lhe o passado. Ilusões de futuro, para quem o passado é uma espécie de morte lenta, por consumar.

E a guerra depois da guerra que é a solidão. E o homem que a guerra não fez homem, afinal, apenas uma alma revolta no deserto, sem sonhos nem esperança, apenas uma memória negra de morte ou vermelha de sangue. Um homem só, pássaro ferido que um dia quis voar. Agoniza. À sua frente um futuro que nada lhe oferece. Atrás de si um passado que o persegue e absorve. Devora. Devagar… sadicamente devagar, como na agonia do soldado que morre com as tripas na mão. A espaços emerge a violência; a violência da guerra colocada nas letras carregadas, numa caneta que rasga o papel como as metralhadoras rasgavam as carnes inocentes dos soldados, esventrados por causa de uma mentira chamada Pátria.

Também o amor toma parte neste festim de horrores; as saudades e a mágoa do amor perdido de Sofia, um amor roubado pela PIDE. Um amor que se mistura com o prazer triste da sua interlocutora; um prazer magoado porque é impossível fugir da memória.

Solidão, poesia, violência, amor e morte. É assim nos Cus de Judas, ou seja, nos confins de Angola ou nas profundezas da alma de ALA.

Avaliação pessoal: 9.5/10


por Manuel Cardoso
25.05.2011

30/09/2011

a publicar a (30 de Setembro? não) 3 de Outubro, se correr bem...

a publicar a 30 de Setembro 3 de Outubro*:




“Um doloroso canto de uma mulher torturada” foi o ponto de partida para Comissão das Lágrimas, o novo livro de António Lobo Antunes. A mulher torturada foi Elvira (conhecida por Virinha), comandante do batalhão feminino do MPLA, presa, torturada e morta na sequência dos terríveis acontecimentos de Maio de 1977 em Angola. Mas este é apenas um episódio num livro denso e sombrio sobre Angola depois da independência. António Lobo Antunes não quis fazer um livro documental ou uma reportagem “verídica” sobre o que se passou em Angola, antes usou a sua sensibilidade e o espantoso poder evocativo da sua escrita para falar sobre a culpa, a vingança, a inocência perdida.

* apesar de terem primeiro notificado que o livro estaria à venda hoje, dia 30 de Setembro, afinal só dia 3 ou 4 de Outubro é que as livrarias o terão disponível.

Memória de Elefante a preço mais acessível...

... através da colecção de bolso da LeYa, BIS. Segundo o Diário Digital de 28 de Setembro, «Memória de Elefante, de António Lobo Antunes, é o 100.º título da BIS, colecção de livros de pequeno formato da Leya. A editora revela que, "quem o adquirir terá, como oferta, A Mensagem, de Fernando Pessoa"».


29/09/2011

As Coisas da Vida: livro de 60 crónicas de ALA publicadas no Brasil

citado do site http://www.estadao.com.br:

Tradição brasileira

Com as crónicas de 'As Coisas da Vida', António Lobo Antunes confessa paixão pelo género consagrado no País

Tudo começou como um exercício estilístico - em troca de um ínfimo soldo, o escritor António Lobo Antunes, um dos mais festejados da actualidade, começou a escrever crónicas dominicais para a imprensa portuguesa. "Depois de um tempo, quando já não estava mais disposto a continuar, pedi um valor bem mais alto, acreditando interromper a colaboração", contou ele ao Estado, em entrevista por telefone desde Lisboa. "Para minha surpresa, eles aceitaram e tive de manter a rotina."

Nada surpreendente, no final das contas, esse interesse dos editores. Conhecido por levar ao extremo a subversão da estrutura narrativa - cada capítulo de seus romances se compõe de frases que vão criando melodias e ritmos insuspeitos que conduzem a uma leitura vertiginosa -, Lobo Antunes, em suas crónicas, volta-se para a intimidade, navegando entre saudosas lembranças familiares e observações de seu quotidiano. É quase como outra faceta do mesmo escritor, menos experimental mas igualmente contagiante.

Basta conferir as 60 crónicas que compõem As Coisas da Vida, recentemente lançado pela Alfaguara, selo da editora Objetiva. Ali estão textos seleccionados de dois volumes que já circulam em Portugal, Livro de Crónicas e Segundo Livro de Crónicas, que, por sua vez, reúnem material publicado no jornal Público e na revista Visão. Uma adorável viagem em que Lobo Antunes navega entre experiências pessoais, quando trata do tempo em que trabalhou como médico na guerra em Angola, de amigos que cruzaram sua vida e, principalmente, dos momentos passados em Belém do Pará, onde morava o avô e um bando de tias.

Engana-se, porém, quem acredita que o escritor sente prazer nesse tipo de escrita. "É uma chatice, pois interrompe o ritmo do romance que escrevo no momento - para voltar, é complicado", afirma Lobo Antunes, que lança em outubro, em Portugal, Comissão das Lágrimas. "Quando não estou escrevendo um livro, não tem problema. Mas, se estou trabalhando em algo, sou obrigado a sair do ritmo do romance para o da crónica, que é bem diferente. Também não posso ser muito profundo, pois o género não permite."

Não se trata de descaso - íntimo conhecedor da crónica, Lobo Antunes resigna-se a louvar aquela que, em seu parecer, é a mais perfeita: a brasileira. "Se há algum país que tem de se orgulhar de seus cronistas, é o Brasil. E não falo apenas de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino - há um escritor que considero importante salientar seu trabalho: Paulo Mendes Campos."

Da mesma forma que se rende à técnica seca e precisa do verso de João Cabral de Melo Neto, o escritor português maravilha-se com os textos do colega mineiro, que morreu em 1991. "Suas crónicas sobre literatura são maravilhosas: Paulo Mendes Campos fez considerações fundamentais sobre Virginia Woolf, além de ter escrito a melhor análise que já li sobre o Coração das Trevas, de Conrad. Outro dia, li em voz alta esse texto e percebi que é uma lição de teoria literária”, observa. “Também as crónicas de futebol são empolgantes mesmo para quem não conhece nada do esporte. E não vi, em língua portuguesa, melhor tradução dos poemas de Dylan Thomas que a feita por ele. Não o conheci, mas o considero um artista injustamente esquecido. Era um homem com um conhecimento ético da profissão.”

Esse detalhe é essencial no exercício do ofício, segundo Lobo Antunes. Para ele, a crónica é uma intervenção cívica e cita Carlos Drummond como exemplo. "Apesar de não gostar tanto de sua prosa como amo a poesia, há sempre um sentido ético em seus textos. Sempre aprendo muito quando releio o Drummond cronista."

Apesar de bom leitor, Lobo Antunes confessa-se um novato na escrita de crónicas. Ele conta que nunca tinha escrito uma até surgir o convite da imprensa lisboeta. O assunto era o que mais lhe preocupava. "Quando comecei, pensava em temas comuns pois seria dirigido ao leitor de fim de semana. Depois, pensei em usá-las como um contraponto dos livros, algo como anotações feitas às margens dos escritos. É prazeroso o trabalho, mas a crónica condiciona o número de palavras e não pode ser profunda."

Na conversa com o Estado, Lobo Antunes quis saber se a selecção publicada pela Alfaguara trazia textos relativos ao Brasil. Sossegou ao descobrir que constam algumas, especialmente a que traz lembranças do avô que morava em Belém, ao lado de tias muito velhas, que moravam “no fundo de corredores compridíssimos entre brilho de pratas, latas de biscoitos e objectos sem sombra de que as pessoas idosas se rodeiam".

"Escrevi várias crónicas sobre meu avô que nasceu em Belém", conta. "O Lobos saíram de Portugal antes dos Antunes. Foi durante a inquisição e, depois de perambular pela Europa, eles chegaram ao Brasil. Quem me contou isso foi um senhor, em Jerusalém, que sabia detalhes dessa diáspora portuguesa. E também a saga dos Lobos até chegar ao Brasil. Os Antunes eram do meu tetravô, que foi ao Brasil e conheceu minha tetravó Lobo, que já estava lá. Creio que o ramo dos Lobos da minha família está há 300 anos no Brasil."

Mais que da política e da vida real, Lobo Antunes trata, na verdade, da vida interior. Há obsessões que se repetem em seus romances, uma delas é a inexorável decadência física que leva à morte. O mesmo acontece em suas crónicas, nas quais as palavras geram umas as outras. Sem plano nenhum. "Eu me sinto à mesa e a mão funciona quase que mecanicamente. Faço uma primeira versão, corrijo as patetices, pleonasmos e parvoíces como ‘colocar o chapéu na cabeça’ - vai colocar onde, no pé?"

O resultado, como se espera de uma boa crónica, são textos aparentemente simples, em que passagens triviais da vida ganham dimensão universal.

O Estado
26.09.2011

Nota: o texto foi alterado para a grafia pt-pt antes do AO90. Para qualquer citação de textos vindo do pt-br optaremos, a partir de hoje, esta forma.

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...