13 de setembro de 2011

Já à venda: A Arte do Romance, 1º volume da Colecção António Lobo Antunes - Ensaio


citado do site Mediabooks (LeYa): «Inclui estudos dos especialistas reunidos em Junho de 2009 no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa para estudarem a arte do romance na obra deste escritor». - pode ser encomendado aqui.

Trata-se do primeiro volume da colecção António Lobo Antunes - Ensaio. Conjunto de textos de estudiosos vários: José Gil, Paula Morão, Ana Paula Arnaut, Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral, Inès Cazalas e Catherine Vaz Warrot. Volume organizado por Felipe Cammaert.

A biblioteca António Lobo Antunes - Ensaio, publicada pela Texto Editores, trata-se de uma colecção de volumes dedicados a textos/ensaios sobre a obra de António Lobo Antunes "ou de índole comparatista que incluam, em proporções consideradas significativas, uma reflexão original e valiosa sobre a literatura deste autor português". Esta colecção é dirigida pela Professora Maria Alzira Seixo, da Universidade de Lisboa, sendo "entendida como Vertente B da «Biblioteca António Lobo Antunes», que publica os clássicos preferidos deste escritor". A responsabilidade editorial está a cargo de Maria Piedade Ferreira, que é a actual editora de António Lobo Antunes na Dom Quixote.

De seguida, apresentamos um excerto da Introdução por Felipe Cammaert, e os artigos/autores que constituem este volume:

«Introdução. António Lobo Antunes e a Arte do Romance


Por ocasião dos trinta anos da publicação do romance Memória de Elefante (1979), o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organizou, a 30 de Junho de 2009, a Jornada António Lobo Antunes: a Arte do Romance. Nessa ocasião, um conjunto de oito investigadores, portugueses e internacionais, aceitou produzir reflexão sobre a obra romanesca de Lobo Antunes, num evento que contou, na sessão de encerramento, com a presença do autor, em diálogo ao vivo com Eduardo Lourenço.

Este livro, que tem a honra que inaugurar a colecção António Lobo Antunes-Ensaio, dirigida pela Professora Doutora Maria Alzira Seixo, reúne uma selecção das comunicações apresentadas pelos participantes desse evento, em versões revistas para a publicação, conforme o estipulado no regulamento da colecção. É nosso desejo que o presente volume, resultado de um evento cujo objectivo era celebrar a obra do autor português após três décadas de produção literária, marque o início de um novo período no que diz respeito à crítica antuniana.»

Artigos e autores:


Eu, às vezes - As labirínticas complexidades da alma
Paula Morão, Centro de Estudos Comparatistas – Universidade de Lisboa

O romanesco na obra de António Lobo Antunes: herança, desconstrução, reinvenção
Inês Cazalas, Universidade de Paris VII

A escrita insatisfeita e inquieta(nte) de António Lobo Antunes
Ana Paula Arnaut, Centro de Literatura Portuguesa, Universidade de Coimbra

De uma versão a outra, ou como se constrói o romance
Agripina Carriço   Vieira, Centro de Formação de Professores “Os Templários” de Tomar

António Lobo Antunes: da escrita romanesca à enunciação musical – o texto como tecido sonoro e gráfico
Catarina Vaz Warrot, Universidade de Paris VIII – Universidade Nova de Lisboa

A concepção do romance em Dicionário da Obra de António Lobo Antunes
Eunice Cabral, Universidade de Évora

Fechamento e linhas de fuga em Lobo Antunes
José Gil, Universidade Nova de Lisboa

7 de setembro de 2011

José Alexandre Ramos: Primeira angústia – capítulo final: o inferno depois do inferno


De forma a encerrar a catarse de tudo quanto fazia sombra ao jovem escritor António Lobo Antunes, faltava-lhe escrever sobre a profissão que exerceu: médico psiquiatra de um hospital de saúde mental que então (1980, ano em que foi publicado este livro) ainda se designava por manicómio.

Ponto de partida para percebermos o quanto a personagem que discursa (o psiquiatra, o ex-militar, o escritor) repudia o modo como eram tratados os doentes de uma instituição daquele tipo, àquela época. Percebemos que o título nada tem de casual, uma vez que a personagem, depois de falar sobre o terror da guerra e sobre as suas ambiguidades pessoais em Memória de Elefante e Os Cus de Judas (livros que apelido de  e 2º capítulos da primeira angústia do escritor), vem dar-nos conta de uma verdadeira descida ao inferno que é trabalhar numa instituição cujos responsáveis (estado e recursos humanos) ainda faziam tratamentos antiquados, e tratavam os doentes como seres inferiores, patente na forma como os médicos, enfermeiros e demais pessoal se dirigem aos doentes na segunda pessoa do singular.

A acção do livro centra-se numa viagem de regresso de férias, entre o Algarve e Lisboa, em que a personagem já conhecida dos capítulos anteriores e acima referidos, torna a discorrer sobre as suas angústias, medos, sofrimento e frustrações, no seu retorno ao trabalho como psiquiatra do Hospital Miguel Bombarda. Nestes relatos (são doze longos capítulos) vai evocando episódios com os doentes e médicos da instituição: aqueles apáticos e submissos, estes distantes e opressores.

De facto, chega-se a sentir que o purgatório é ali mesmo: os doentes são as almas atormentadas pelas suas aflições e os médicos, enfermeiros e auxiliares os demónios que lhes infligem de castigos, lhes incitam ao mal, e condicionam as suas acções. Ou, de um ponto de vista social (que podemos admitir que esteja aqui a ser metaforizado), os psiquiatras são os senhores poderosos, distantes, o restante pessoal capatazes e/ou colaboracionistas, e os doentes a malha servil, submissa e resignada. Disto parece querer descartar-se a personagem que, julgámos numa primeira interpretação, não alinhar com os outros médicos, mas, talvez por força das circunstâncias ou ainda por simplesmente não querer incomodar-se, acaba por ter comportamento semelhante. Porém, ainda assim, revê-se (em sonhos recorrentes) como se fosse ele próprio um dos doentes, sentindo na pele a forma desumana, carecida de afecto e compreensão, como os utentes são tratados. Intercala (e mistura) estes episódios com outros da sua vida pessoal (relações familiares principalmente) e de um outro inferno já conhecido: o da guerra, e mesmo que tivesse passado nessa circunstância os maiores terrores da sua vida, vendo matar e morrer, considera que o verdadeiro conhecimento do inferno se faz numa instituição como o manicómio onde trabalha, deixando a dúvida sobre quem serão os verdadeiros loucos ou maníacos: os doentes ou os médicos?

Do ponto de vista estrutural e de estilo, é notória a sede de busca de uma voz própria, de um discurso alternativo no romance, como já havia deixado evidente nos dois livros anteriores. Mas este Conhecimento do Inferno é também, na minha opinião de leigo, uma espécie de purgatório para o escritor: primeiro sentimos que é um livro que vem depois dos dois primeiros, o narrador fala na terceira pessoa do singular, ainda existem frases muito barrocas, mas a partir de cerca de metade do texto, o discurso vai mudando, ora lenta ora bruscamente, para a primeira pessoa do singular, e começam, pela primeira vez no estilo de Lobo Antunes, a fragmentação e a justaposição das personagens – aqui há um senão, a personagem que discursa ainda é sempre a mesma – o narrador – , mas as vozes escondidas das personagens, digamos, “passivas” do livro começam a libertar-se, em pequenos trechos de diálogo. E por isso, fica como uma amálgama daquilo que conhecemos do engenho do escritor: um caldo onde está ainda por definir tudo o que podemos testemunhar nos trabalhos posteriores de António Lobo Antunes. Considerações estas façam talvez mais sentido para quem relê o romance depois de já ter conhecido uma boa parte dos seus livros. Para um principiante na obra, este livro não é aconselhável como estreia, só se for lido no seguimento de Memória de Elefante e Os Cus de Judas.

Apesar de tudo, e que o livro seja o inferno depois do inferno, tem passagens belíssimas, depuradas mesmo, e os últimos capítulos deixam no leitor uma sensação agradável de ter lido um bom livro apesar da confusão inicial.


José Alexandre Ramos
07.09.2011

6 de setembro de 2011

Entrevista a TV3 (Catalunha) em Fevereiro


«"L'hora del lector" dedica aquesta setmana íntegrament la seva hora de durada a una entrevista en profunditat amb l'escriptor portuguès António Lobo Antunes. Màxim exponent actual de la literatura portuguesa, és autor entre d'altres de "La memoria de los elefantes", "Ayer no te vi en Babilonia", "Fado alejandrino" i "El orden natural de las cosas"»

* entrevista conduzida em espanhol

(52 minutos aproximadamente)

Obrigado a Sandra Amante pela notificação desta entrevista. Em post anterior coloquei alguns excertos, esta é a entrevista completa.

4 de setembro de 2011

ALA não AO90

Apanhado no facebook:

«Tenho muito orgulho em escrever nesta língua e não percebo o acordo ortográfico, que é uma estupidez. Eu vou continuar a escrever da mesma maneira. (…) O acordo deve-se a razões económicas e políticas e não vejo necessidade em fazê-lo».


(não sei de que contexto a citação acima foi retirada, mas sei que ALA repudia o AO90, como seria já de esperar...)

21 de agosto de 2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Decidi ler agora (Fevereiro deste ano) este livro de Lobo Antunes, um dos muitos que ainda não li, pelo facto de ter sabido, há já uns tempos atrás, estava o argumento ainda em fase de preparação, que a realizadora sueca Solveig Nordlund iria realizar um filme não só homónimo do livro como tendo por base a sua história.


Ora, sem dúvida, tal conhecimento espicaçou-me a curiosidade em relação ao livro. E agora, confesso, tenho a curiosidade ainda mais encarniçada para ver o resultado final. Neste caso, do filme.

E então o livro:

É mais um livro com a marca inconfundível de António Lobo Antunes. Um livro em que a narrativa se encontra fraccionada, surgindo sem sequência temporal ou espacial, intercalando tempos, espaços, acontecimentos (reais ou do mundo imaginário), e personagens.

Encontra-se dividido em cinco partes sendo que cada uma delas tem por título um tango de Carlos Gardel. Começa com “por una cabeza”, vai seguindo com a “milonga sentimental”, passa para a “lejana terra mia”, até “el dia que me quieras” para terminar com a belíssima “melodia de arrabal”.

Devo dizer que fui ouvir estes tangos (um prazer, gosto de tango, confesso) procurando ver se havia alguma ligação entre as suas letras e o que ocorria naquelas, também cinco, falas. E, realmente, penso que posso com facilidade estabelecer algumas ligações entre os sentidos dos textos. Ou então será mera vontade minha de o fazer. Deixo ao critério, ou à imaginação de cada leitor encontrar, ou não, essa intertextualidade, essa coincidência de sentidos.

Cada uma dessas partes está dividida em, chamemos-lhe capítulos, em que é dada voz a uma personagem. Uma estrutura também já habitual em alguns dos livros de ALA.

E é ao seguirmos essas vozes de cada um que se vai desenrolando perante nós uma história que é, no fundo, o somatório de muitas e, todas elas, gestas tristes onde a desesperança, o isolamento, a insegurança, o desamor, um passado de desilusões são denominadores comuns a todas as personagens.

Nuno, o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia, encontra-se internado em estado terminal (acabando por morrer). À sua volta vamos encontrando os familiares e relativos que vão soltando as suas existências, os seus pensamentos, as suas fantasias traçando-nos, com elas, um quadro tremendamente deprimente em que a iminente morte do Nuno acaba por se ir diluindo no dramatismo acabrunhante de todas aquelas vidas.

Temos a Cláudia, mãe do Nuno, abandonada por Álvaro que lhe diz que não gosta dela, que nunca gostou, e que, depois de outras, acaba por manter uma relação com um indivíduo da idade do filho.

Graça, tia de Nuno, irmã de Álvaro, com uma relação homossexual assumida com Cristiana, que apenas suporta, pois, na verdade, por quem sempre esteve apaixonada foi pelo irmão.

Cristiana, insegura e exigente. Tremendamente infeliz.

Raquel, a actual esposa de Álvaro, socialmente muito diferente deste, a qual ele não aguenta e não se coíbe de o demonstrar…

E Nuno que, de facto, nunca esteve verdadeiramente ligado a ninguém.

Álvaro é apaixonado pela música de Carlos Gardel que ouve repetidamente. Esta obsessão vai piorar e entrar num caminho sem retorno no dia em que encontra o Sr. Seixas, um velho que, com a sua mulher (agora imobilizada por uma trombose), se apresentava em bares de categoria cada vez mais duvidosa, imitando a imagem e o cantar de Carlos Gardel e dançando os seus tangos. E seguindo-o, lidando com ele como se do verdadeiro Gardel se tratasse, negando a morte deste, Álvaro procura prolongar o mito. Quiçá o único ao qual se sente ainda ligado, o único fio de ilusão que ainda lhe resta.

Mas, na verdade, nem isso ele consegue…

Como sempre a escrita de ALA encanta-me pela perfeição que nela se acha. Todas as palavras estão ali mesmo, onde deviam estar.

E a poesia que dela emana!!!!


Maria Celeste Pereira
21.08.2011

L Monline: opinião sobre As Naus


As naus é considerado uns dos livros mais originais do premiado autor português. Mais uma obra que subverte as formas narrativas tradicionais, sobrepõe tempos e figuras históricas para narrar o retorno dos heróis e navegadores portugueses a Lisboa (na obra, denominada Lixboa), nos anos 1970, todos homens desiludidos com o fim da malfadada colonização africana.

Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama - esses e outros nomes, inclusive estrangeiros, como Miguel de Cervantes - retornam a Portugal como pessoas comuns, com seus vícios e fraquezas, numa espécie de epopeia às avessas. Lobo Antunes reconta suas vidas na África, diferentes em todos os sentidos das versões consagradas, e os coloca, ao longo da narrativa, como jogadores de cartas, beberrões, aproveitadores.

O autor explica que depois de escrever Fado Alexandrino - onde um grupo de ex-militares relembra sua vida e a Portugal de antes, durante e após a Revolução dos Cravos - a temática de sua literatura ficou um pouco menos autobiográfica, como é o caso de As naus: "Talvez os primeiros livros que as pessoas escrevem sejam sempre autobiográficos, ajustes de contas com o que a gente tem para trás, para depois poder começar realmente a escrever. A partir do Fado Alexandrino a agulha mudou, comecei a tentar falar de outras coisas".

As desventuras trágicas, por vezes burlescas, que ilustram a narrativa de As naus, tem para o autor "qualquer coisa de oníricas - mas não tem nada a ver com o realismo mágico, do qual eu não gosto. Este foi o livro que me levou mais tempo para escrever; três anos. Nas primeiras versões era só uma história sobre os retornados, com nomes normais; só na terceira ou quarta versão é que me apareceu a ideia de aproveitar os navegadores e pô-los nos dias de hoje, para tentar dar uma multiplicidade de sentidos. Andei muito tempo à procura desta história".

 
L Monline
citado daqui
26.01.2011

André Curi: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Impossível, não há categoria para isso. Por mais que remoamos as gavetas, as transformemos em triângulos, quadrados e em (para quê servem?) losangos, não há categorias para António Lobo Antunes – o mais amorfo escritor que já li.

Primeiramente [...], não há história em Explicação dos Pássaros, ou pelo menos não há relevância alguma nela. Vamos lá: Quando perguntam as histórias de um livro, se referem a uma linha cronológica com uma sequência lógica dos fatos. Mas eu respondo com outra pergunta Que linha? Que fatos? Por acaso a avalanche constante em nossas cabeças segue a tal linha? O que você está pensando agora, e agora? E agora? O que temos em mãos não são páginas com milhares de palavras arranjadas, mas um espelho refletindo a nós mesmos, seres em constante ebulição racional. Um homem que se mata no final. E daí mesmo. A maestria em conduzir o pensamento humano é a profundidade alcançada pelo escritor português, dane-se a história.

Isso traz consequências. Sem dúvida é um livro contra a disciplina: não force a leitura. No segundo parágrafo, logo previ que o ritmo de 50 páginas ao dia se tornaria impraticável. Em alguma partes, 3 páginas ao dia pode ser considerado sucesso. Quando nos damos conta, tamanho esforço, estamos até transpirando (não é brincadeira). Somos impelidos a parar, mais do que isso: queremos jogar o livro pela janela ou comê-lo a mordidas caninas, mas não conseguimos. Percebe a angústia? Queremos ler mas não conseguimos, queremos parar mas também não conseguimos. E é assim que, aos trancos e barrancos, vamos passeando entre os pensamentos aos trancos e barrancos de Rui. Louco, né?

Agora, se esperam estar na hora do veredicto Gostou ou não?, continuarão chupando o dedo, eu ainda não sei que notar dar. Mas, adianto, não é um dos meus favoritos. E, encerro, talvez seja. Afinal, o que em nós é lógico?


André Curi
21.01.2011

20 de agosto de 2011

fragmentos de uma entrevista em Espanha (?) e uma canção

Não sei que entrevista foi, quando (parece que em finais de 2010 ou inícios de 2011) e para onde. Encontrei três peças. Na primeira, ALA fala sobre literatura:



* falado em espanhol, sem legendas

Na segunda, sobre política:



* falado em espanhol, sem legendas

Na seguinte, o entrevistador mostra um original de canções escritas para o Vitorino (que as compilou no álbum Eu que me comovo por tudo e por nada, de 1992), de que ALA responde serem "brincadeiras":



* falado em espanhol, sem legendas

16 de agosto de 2011

Liberto Cruz: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 97 de Maio de 1987 – pp. 118 e 119


Memória de Elefante, a primeira obra de António Lobo Antunes, data de 1979, e a última, Auto dos Danados, de 1985. Temos assim que, em sete anos, este escritor publicou seis livros, o que equivale a umas centenas largas de páginas densas, quase não deixando margem para possíveis anotações ou simples descanso estético.



Sem indicação do género literário (precaução ou modernidade?) mas informados pelo editor de que se trata de romances, estas ficções de António Lobo Antunes parecem ser do agrado geral, dadas as edições já postas em circulação e as traduções já feitas ou previstas em vários países. Tanto melhor: ganha o Autor, ganha o editor, ganha a literatura portuguesa em geral e ganha, evidentemente, o respectivo ou potencial leitor.

Este processo de composição dramática, a roçar muitas vezes pelo melodramático, feito a perversos e espertalhotes indivíduos, mais não é (o que revela grandes ambições literárias), mais não é, repito, do que a comédia humana de pequeno-burgueses endinheirados onde o machismo, a cultura de sovaco, a ganância e o desprezo pelos considerados inferiores na escala social conseguem dar largas à sua intolerância, pacovismo e presunção. Tudo isto servido por um estilo que se pretende vigoroso, onde às vezes a linguagem antilírica consiste só em substituir a tradicional flor por um palavrão - o que não passa, no fim de contas, duma outra forma de lirismo muito perto da etiqueta literária de caserna.

Posto isto, considero Auto dos Danados como a melhor obra, que conheço, de António Lobo Antunes. Menos espalhafatoso, mais sóbrio no estilo, menos fanfarrão na análise de coisas e de gentes, mais moderado na narração, evitando, quase, o episódio pelo episódio, e a caminho de se livrar de imagens rebuscadas ou insólitas, que nem já os curas conseguem entusiasmar, este texto é uma lufada susceptível de incomodar os contemporâneos de António Lobo Antunes que sejam oficiais do mesmo ofício.

É preciso dizê-lo sem rodeios: Lobo Antunes é um escritor e não um escrevente. E creio, sinceramente, que, quando ele conseguir dominar a impetuosidade com que escreve e a embriaguez com que se lança na construção de situações, e quando puder ser menos moralista e mais profundo na elaboração das taras de pai em filho ou de sogro em genro, com que se delicia e nos surpreende neste Auto recentemente publicado, a sua escrita alcançará uma outra dimensão. [...]

Caso António Lobo Antunes continue a aplicar os mesmos moldes e a seguir airosamente o mesmo modelo, teremos, com frequência, tipos em vez de personagens, caricatura em vez de pessoas e jeitos de actuar em vez de tomadas de posição. A anedota e a história são duas máscaras diferentes, e a primeira não se adapta facilmente ao rosto do escritor se este não souber incluí-la, a seu tempo, na história. Ora o narrador António Lobo Antunes usa e abusa da anedota, preferindo ao real a divagação e ao concreto do quotidiano a fuga onírica. Alinhando tudo e todos pela mesma bitola e dando a cada personagem do Auto a mesma forma de falar e de pensar, o narrador domina orgulhosamente a acção como se fosse o dono e o empregado. Não se contentando em ser o administrador da fazenda alheia, o Autor apodera-se da voz das personagens e avalia-as da mesma maneira.

Com uma capacidade extraordinária de alinhavar textos por nada e de fabricar pequenos enredos aptos a voos de grande fôlego, [...] António Lobo Antunes merecia ter menos êxito. E creio que o conseguirá um dia.


Liberto Cruz
Colóquio Letras 97
Fundação Calouste Gulbenkian
Maio de 1987

14 de agosto de 2011

José Alexandre Ramos: Milonga niilista (A Morte de Carlos Gardel)


Quando António Lobo Antunes escrevia o seu 10º romance, já havia vincado o seu estilo inconfundível, da desconstrução do discurso (embora ainda faltassem alguns anos e livros para chegar a um discurso mais fragmentado), feito na primeira pessoa do singular, em narrativas paralelas ou sobrepostas das personagens que falam sobre as suas experiências e sentimentos num – por vezes árduo – exercício da memória. A Morte de Carlos Gardel fecha o chamado “ciclo de Lisboa” começado em Tratado das Paixões da Alma, seguido de A Ordem Natural das Coisas.
 
Divide-se em cinco grandes capítulos, correspondendo a cinco temas do cantor de tango argentino Carlos Gardel, cuja escolha não é acidental nem aleatória: “Por una cabeza”, “Milonga sentimental”, “Lejana tierra mía”, “El día que me quieras” e “Melodía de arrabal”. Sendo o tango um estilo de grande intensidade dramática, de base triste, sentimental, mas ao mesmo tempo agressivo e sensual, repercutido na sua dança, de que a submissão da mulher ao seu par masculino é consequência, representa muito bem o que nos diz o livro
 
(diz e não conta, que é marca literária de António Lobo Antunes, embora se possa sempre tirar uma história comum a todos as personagens da qual só nos damos conta ou podemos urdi-la após terminar a leitura do livro).
 
Estes cinco capítulos subdividem-se nos vários relatos das personagens: um núcleo de familiares de Nuno, jovem toxicodependente que está em coma num hospital e acaba por morrer. Embora esta seja a personagem central, cuja situação dá o mote, logo no início do livro, para os relatos do pai (Álvaro), da tia (Graça) e da mãe (Cláudia), personagens do referido núcleo, não podemos afirmar que exista no livro uma personagem principal e as secundárias, da mesma forma que não existe um fio narrativo (pelo menos formal e intencional), mas antes personagem e motivos centrais, tronco comum para as várias intervenções em que o núcleo deixa fluir o seu discurso. Portanto, nenhuma das personagens é dispensável, em qualquer dos seus relatos, ou o livro já não seria o mesmo. E mesmo que quiséssemos achar uma personagem mais evidenciada, nem seria Nuno, pois não é das que mais discursa; a personagem que mais intervém quer a nível narrativo quer na sequência dada à acção é Álvaro, o pai ausente nos afectos, o fã de Gardel, o marido inconstante de Cláudia e mais tarde de Raquel, e irmão de Graça.
 
Ao bom estilo antuniano, cada personagem vem à boca de cena para um monólogo onde evocam memórias da infância, ou outros episódios e factos do passado mais recente das suas vivências, cruzando com a experiência vivida no tempo actual do livro. Os capítulos e subcapítulos sucedem-se a um ritmo que vai aumentando a sua cadência à medida que a tensão entre as personagens se torna mais densa e se precipita para o fim. Assim, vamos conhecendo a inadaptação de Álvaro como pai e marido, que sucessivamente é incapaz de gerir uma relação familiar, primeiro com Cláudia com quem tem o filho Nuno, e depois com Raquel; dos conflitos de interesse em torno da personagem Nuno – desde a desordem emocional da relação com Álvaro a quem não reconhece como figura paternal, até aos conflitos com as relações amorosas da mãe, e a nova companheira do pai, estranhos com quem em criança é obrigado a conviver e que o vai marcar, embora aparente indiferença e desprezo durante a adolescência que é quando se vicia na heroína. Também a cumplicidade passiva de Graça, irmã de Álvaro e tia de Nuno, que no livro sabemos que vive com um mulher (Cristiana), mas nutre um sentimento algo incestuoso pelo irmão, e por consequente o iliba da culpa do desarranjo emocional do filho e sua preponderarão para se alienar da vida social e consumo de drogas, vindo a atribuir essa culpa a Cláudia, mãe de Nuno. Afinal, como no tango, as mulheres são aqui submissas e resignadas ora por compaixão a Álvaro, ora porque a insignificância das suas vidas não lhes permite grandes exigências para com os parceiros que escolhem (ora Álvaro, ora outros homens como os que a mãe de Nuno convive). E toda esta conflitualidade, exasperação, altruísmo e egoísmo misturados, e resignação a vários níveis, são retratados com bastante ironia e sarcasmo, em pequenos episódios roçando o grotesco, e com um pendor niilista como se a vida, por ser assim, não valesse a pena ser vivida. Assistimos ao fim de tudo não com a morte de Nuno, mas com o abandono das personagens que se vão despedindo da narrativa sem que demos conta e com a suposta loucura de Álvaro (nunca assumida quer pelos personagens quer pelo autor – terá que ser o leitor a decidir) que, transtornado com a morte do filho (e ao fim ao cabo com todo o seu percurso emocional arruinado), julga conhecer Carlos Gardel sobrevivente num imitador – Albino Seixas, a personagem final do livro, um velho artista de cabaret que luta para manter a subsistência e a da sua mulher entrevada, após muitos anos como dançarinos de tango. De realçar que as personagens – de uma baixa classe média – vivem todas nos subúrbios de Lisboa, que no livro e através dos relatos são apresentados como lugares feios e desinteressantes – um factor mais a sublinhar a resignação.
 
A composição deste romance, em que as narrativas têm altos e baixos picos de intensidade, assemelha-se à de uma composição musical
 
(como viria a ser notado dali para a frente na obra de Lobo Antunes),
 
ou não tivesse sido construído sob a base de cinco temas de Carlos Gardel, este ainda uma personagem abstracta do livro mas sempre presente, que silencia todos os relatos quando Álvaro, presumivelmente já recuperado do seu estado delirante, reconhece finalmente o cantor argentino como morto.
 
Escrever sobre qualquer que seja o livro de António Lobo Antunes é, para mim, ingrato e difícil, acabo sempre por não achar as palavras certas. Porém, a terminar, devo dizer que foi um prazer reencontrado reler A Morte de Carlos Gardel, pela mestria com que foi escrito e por, como sempre, estar a falar de nós e para nós próprios – isto já é António Lobo Antunes, reconhecidamente. Particularmente, e por uma questão de gosto pessoal, este livro é um dos que mais aprecio deste mestre da literatura.
 

José Alexandre Ramos
14.08.2011

mupie do filme de Solveig Nordlund a estrear em Setembro


(do blogue do filme)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...