23/08/2011
21/08/2011
Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel
Decidi ler agora (Fevereiro deste ano) este livro de Lobo Antunes, um dos muitos que ainda não li, pelo facto de ter sabido, há já uns tempos atrás, estava o argumento ainda em fase de preparação, que a realizadora sueca Solveig Nordlund iria realizar um filme não só homónimo do livro como tendo por base a sua história.
Ora, sem dúvida, tal conhecimento espicaçou-me a curiosidade em relação ao livro. E agora, confesso, tenho a curiosidade ainda mais encarniçada para ver o resultado final. Neste caso, do filme.
E então o livro:
É mais um livro com a marca inconfundível de António Lobo Antunes. Um livro em que a narrativa se encontra fraccionada, surgindo sem sequência temporal ou espacial, intercalando tempos, espaços, acontecimentos (reais ou do mundo imaginário), e personagens.
Encontra-se dividido em cinco partes sendo que cada uma delas tem por título um tango de Carlos Gardel. Começa com “por una cabeza”, vai seguindo com a “milonga sentimental”, passa para a “lejana terra mia”, até “el dia que me quieras” para terminar com a belíssima “melodia de arrabal”.
Devo dizer que fui ouvir estes tangos (um prazer, gosto de tango, confesso) procurando ver se havia alguma ligação entre as suas letras e o que ocorria naquelas, também cinco, falas. E, realmente, penso que posso com facilidade estabelecer algumas ligações entre os sentidos dos textos. Ou então será mera vontade minha de o fazer. Deixo ao critério, ou à imaginação de cada leitor encontrar, ou não, essa intertextualidade, essa coincidência de sentidos.
Cada uma dessas partes está dividida em, chamemos-lhe capítulos, em que é dada voz a uma personagem. Uma estrutura também já habitual em alguns dos livros de ALA.
E é ao seguirmos essas vozes de cada um que se vai desenrolando perante nós uma história que é, no fundo, o somatório de muitas e, todas elas, gestas tristes onde a desesperança, o isolamento, a insegurança, o desamor, um passado de desilusões são denominadores comuns a todas as personagens.
Nuno, o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia, encontra-se internado em estado terminal (acabando por morrer). À sua volta vamos encontrando os familiares e relativos que vão soltando as suas existências, os seus pensamentos, as suas fantasias traçando-nos, com elas, um quadro tremendamente deprimente em que a iminente morte do Nuno acaba por se ir diluindo no dramatismo acabrunhante de todas aquelas vidas.
Temos a Cláudia, mãe do Nuno, abandonada por Álvaro que lhe diz que não gosta dela, que nunca gostou, e que, depois de outras, acaba por manter uma relação com um indivíduo da idade do filho.
Graça, tia de Nuno, irmã de Álvaro, com uma relação homossexual assumida com Cristiana, que apenas suporta, pois, na verdade, por quem sempre esteve apaixonada foi pelo irmão.
Cristiana, insegura e exigente. Tremendamente infeliz.
Raquel, a actual esposa de Álvaro, socialmente muito diferente deste, a qual ele não aguenta e não se coíbe de o demonstrar…
E Nuno que, de facto, nunca esteve verdadeiramente ligado a ninguém.
Álvaro é apaixonado pela música de Carlos Gardel que ouve repetidamente. Esta obsessão vai piorar e entrar num caminho sem retorno no dia em que encontra o Sr. Seixas, um velho que, com a sua mulher (agora imobilizada por uma trombose), se apresentava em bares de categoria cada vez mais duvidosa, imitando a imagem e o cantar de Carlos Gardel e dançando os seus tangos. E seguindo-o, lidando com ele como se do verdadeiro Gardel se tratasse, negando a morte deste, Álvaro procura prolongar o mito. Quiçá o único ao qual se sente ainda ligado, o único fio de ilusão que ainda lhe resta.
Mas, na verdade, nem isso ele consegue…
Como sempre a escrita de ALA encanta-me pela perfeição que nela se acha. Todas as palavras estão ali mesmo, onde deviam estar.
E a poesia que dela emana!!!!
Maria Celeste Pereira
21.08.2011
L Monline: opinião sobre As Naus
As naus é considerado uns dos livros mais originais do premiado autor português. Mais uma obra que subverte as formas narrativas tradicionais, sobrepõe tempos e figuras históricas para narrar o retorno dos heróis e navegadores portugueses a Lisboa (na obra, denominada Lixboa), nos anos 1970, todos homens desiludidos com o fim da malfadada colonização africana.
Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama - esses e outros nomes, inclusive estrangeiros, como Miguel de Cervantes - retornam a Portugal como pessoas comuns, com seus vícios e fraquezas, numa espécie de epopeia às avessas. Lobo Antunes reconta suas vidas na África, diferentes em todos os sentidos das versões consagradas, e os coloca, ao longo da narrativa, como jogadores de cartas, beberrões, aproveitadores.
O autor explica que depois de escrever Fado Alexandrino - onde um grupo de ex-militares relembra sua vida e a Portugal de antes, durante e após a Revolução dos Cravos - a temática de sua literatura ficou um pouco menos autobiográfica, como é o caso de As naus: "Talvez os primeiros livros que as pessoas escrevem sejam sempre autobiográficos, ajustes de contas com o que a gente tem para trás, para depois poder começar realmente a escrever. A partir do Fado Alexandrino a agulha mudou, comecei a tentar falar de outras coisas".
As desventuras trágicas, por vezes burlescas, que ilustram a narrativa de As naus, tem para o autor "qualquer coisa de oníricas - mas não tem nada a ver com o realismo mágico, do qual eu não gosto. Este foi o livro que me levou mais tempo para escrever; três anos. Nas primeiras versões era só uma história sobre os retornados, com nomes normais; só na terceira ou quarta versão é que me apareceu a ideia de aproveitar os navegadores e pô-los nos dias de hoje, para tentar dar uma multiplicidade de sentidos. Andei muito tempo à procura desta história".
Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama - esses e outros nomes, inclusive estrangeiros, como Miguel de Cervantes - retornam a Portugal como pessoas comuns, com seus vícios e fraquezas, numa espécie de epopeia às avessas. Lobo Antunes reconta suas vidas na África, diferentes em todos os sentidos das versões consagradas, e os coloca, ao longo da narrativa, como jogadores de cartas, beberrões, aproveitadores.
O autor explica que depois de escrever Fado Alexandrino - onde um grupo de ex-militares relembra sua vida e a Portugal de antes, durante e após a Revolução dos Cravos - a temática de sua literatura ficou um pouco menos autobiográfica, como é o caso de As naus: "Talvez os primeiros livros que as pessoas escrevem sejam sempre autobiográficos, ajustes de contas com o que a gente tem para trás, para depois poder começar realmente a escrever. A partir do Fado Alexandrino a agulha mudou, comecei a tentar falar de outras coisas".
As desventuras trágicas, por vezes burlescas, que ilustram a narrativa de As naus, tem para o autor "qualquer coisa de oníricas - mas não tem nada a ver com o realismo mágico, do qual eu não gosto. Este foi o livro que me levou mais tempo para escrever; três anos. Nas primeiras versões era só uma história sobre os retornados, com nomes normais; só na terceira ou quarta versão é que me apareceu a ideia de aproveitar os navegadores e pô-los nos dias de hoje, para tentar dar uma multiplicidade de sentidos. Andei muito tempo à procura desta história".
L Monline
citado daqui
26.01.2011
André Curi: opinião sobre Explicação dos Pássaros
Impossível, não há categoria para isso. Por mais que remoamos as gavetas, as transformemos em triângulos, quadrados e em (para quê servem?) losangos, não há categorias para António Lobo Antunes – o mais amorfo escritor que já li.
Primeiramente [...], não há história em Explicação dos Pássaros, ou pelo menos não há relevância alguma nela. Vamos lá: Quando perguntam as histórias de um livro, se referem a uma linha cronológica com uma sequência lógica dos fatos. Mas eu respondo com outra pergunta Que linha? Que fatos? Por acaso a avalanche constante em nossas cabeças segue a tal linha? O que você está pensando agora, e agora? E agora? O que temos em mãos não são páginas com milhares de palavras arranjadas, mas um espelho refletindo a nós mesmos, seres em constante ebulição racional. Um homem que se mata no final. E daí mesmo. A maestria em conduzir o pensamento humano é a profundidade alcançada pelo escritor português, dane-se a história.
Isso traz consequências. Sem dúvida é um livro contra a disciplina: não force a leitura. No segundo parágrafo, logo previ que o ritmo de 50 páginas ao dia se tornaria impraticável. Em alguma partes, 3 páginas ao dia pode ser considerado sucesso. Quando nos damos conta, tamanho esforço, estamos até transpirando (não é brincadeira). Somos impelidos a parar, mais do que isso: queremos jogar o livro pela janela ou comê-lo a mordidas caninas, mas não conseguimos. Percebe a angústia? Queremos ler mas não conseguimos, queremos parar mas também não conseguimos. E é assim que, aos trancos e barrancos, vamos passeando entre os pensamentos aos trancos e barrancos de Rui. Louco, né?
Agora, se esperam estar na hora do veredicto Gostou ou não?, continuarão chupando o dedo, eu ainda não sei que notar dar. Mas, adianto, não é um dos meus favoritos. E, encerro, talvez seja. Afinal, o que em nós é lógico?
Primeiramente [...], não há história em Explicação dos Pássaros, ou pelo menos não há relevância alguma nela. Vamos lá: Quando perguntam as histórias de um livro, se referem a uma linha cronológica com uma sequência lógica dos fatos. Mas eu respondo com outra pergunta Que linha? Que fatos? Por acaso a avalanche constante em nossas cabeças segue a tal linha? O que você está pensando agora, e agora? E agora? O que temos em mãos não são páginas com milhares de palavras arranjadas, mas um espelho refletindo a nós mesmos, seres em constante ebulição racional. Um homem que se mata no final. E daí mesmo. A maestria em conduzir o pensamento humano é a profundidade alcançada pelo escritor português, dane-se a história.
Isso traz consequências. Sem dúvida é um livro contra a disciplina: não force a leitura. No segundo parágrafo, logo previ que o ritmo de 50 páginas ao dia se tornaria impraticável. Em alguma partes, 3 páginas ao dia pode ser considerado sucesso. Quando nos damos conta, tamanho esforço, estamos até transpirando (não é brincadeira). Somos impelidos a parar, mais do que isso: queremos jogar o livro pela janela ou comê-lo a mordidas caninas, mas não conseguimos. Percebe a angústia? Queremos ler mas não conseguimos, queremos parar mas também não conseguimos. E é assim que, aos trancos e barrancos, vamos passeando entre os pensamentos aos trancos e barrancos de Rui. Louco, né?
Agora, se esperam estar na hora do veredicto Gostou ou não?, continuarão chupando o dedo, eu ainda não sei que notar dar. Mas, adianto, não é um dos meus favoritos. E, encerro, talvez seja. Afinal, o que em nós é lógico?
André Curi
em Cada Página
21.01.2011
20/08/2011
fragmentos de uma entrevista em Espanha (?) e uma canção
Não sei que entrevista foi, quando (parece que em finais de 2010 ou inícios de 2011) e para onde. Encontrei três peças. Na primeira, ALA fala sobre literatura:
* falado em espanhol, sem legendas
Na segunda, sobre política:
* falado em espanhol, sem legendas
Na seguinte, o entrevistador mostra um original de canções escritas para o Vitorino (que as compilou no álbum Eu que me comovo por tudo e por nada, de 1992), de que ALA responde serem "brincadeiras":
* falado em espanhol, sem legendas
* falado em espanhol, sem legendas
Na segunda, sobre política:
* falado em espanhol, sem legendas
Na seguinte, o entrevistador mostra um original de canções escritas para o Vitorino (que as compilou no álbum Eu que me comovo por tudo e por nada, de 1992), de que ALA responde serem "brincadeiras":
* falado em espanhol, sem legendas
17/08/2011
Página 2 (RTVE): Entrevista a propósito O Meu Nome É Legião, traduzido para espanhol
* falado em espanhol, sem legendas
No final, António Lobo Antunes lê, em português, um pequeno trecho do livro (raro!).
MediaPart: a propósito da tradução francesa de Ontem Não Te Vi Em Babilónia
* falado em francês, sem legendas.
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