20/08/2011

fragmentos de uma entrevista em Espanha (?) e uma canção

Não sei que entrevista foi, quando (parece que em finais de 2010 ou inícios de 2011) e para onde. Encontrei três peças. Na primeira, ALA fala sobre literatura:



* falado em espanhol, sem legendas

Na segunda, sobre política:



* falado em espanhol, sem legendas

Na seguinte, o entrevistador mostra um original de canções escritas para o Vitorino (que as compilou no álbum Eu que me comovo por tudo e por nada, de 1992), de que ALA responde serem "brincadeiras":



* falado em espanhol, sem legendas

16/08/2011

Liberto Cruz: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 97 de Maio de 1987 – pp. 118 e 119


Memória de Elefante, a primeira obra de António Lobo Antunes, data de 1979, e a última, Auto dos Danados, de 1985. Temos assim que, em sete anos, este escritor publicou seis livros, o que equivale a umas centenas largas de páginas densas, quase não deixando margem para possíveis anotações ou simples descanso estético.



Sem indicação do género literário (precaução ou modernidade?) mas informados pelo editor de que se trata de romances, estas ficções de António Lobo Antunes parecem ser do agrado geral, dadas as edições já postas em circulação e as traduções já feitas ou previstas em vários países. Tanto melhor: ganha o Autor, ganha o editor, ganha a literatura portuguesa em geral e ganha, evidentemente, o respectivo ou potencial leitor.

Este processo de composição dramática, a roçar muitas vezes pelo melodramático, feito a perversos e espertalhotes indivíduos, mais não é (o que revela grandes ambições literárias), mais não é, repito, do que a comédia humana de pequeno-burgueses endinheirados onde o machismo, a cultura de sovaco, a ganância e o desprezo pelos considerados inferiores na escala social conseguem dar largas à sua intolerância, pacovismo e presunção. Tudo isto servido por um estilo que se pretende vigoroso, onde às vezes a linguagem antilírica consiste só em substituir a tradicional flor por um palavrão - o que não passa, no fim de contas, duma outra forma de lirismo muito perto da etiqueta literária de caserna.

Posto isto, considero Auto dos Danados como a melhor obra, que conheço, de António Lobo Antunes. Menos espalhafatoso, mais sóbrio no estilo, menos fanfarrão na análise de coisas e de gentes, mais moderado na narração, evitando, quase, o episódio pelo episódio, e a caminho de se livrar de imagens rebuscadas ou insólitas, que nem já os curas conseguem entusiasmar, este texto é uma lufada susceptível de incomodar os contemporâneos de António Lobo Antunes que sejam oficiais do mesmo ofício.

É preciso dizê-lo sem rodeios: Lobo Antunes é um escritor e não um escrevente. E creio, sinceramente, que, quando ele conseguir dominar a impetuosidade com que escreve e a embriaguez com que se lança na construção de situações, e quando puder ser menos moralista e mais profundo na elaboração das taras de pai em filho ou de sogro em genro, com que se delicia e nos surpreende neste Auto recentemente publicado, a sua escrita alcançará uma outra dimensão. [...]

Caso António Lobo Antunes continue a aplicar os mesmos moldes e a seguir airosamente o mesmo modelo, teremos, com frequência, tipos em vez de personagens, caricatura em vez de pessoas e jeitos de actuar em vez de tomadas de posição. A anedota e a história são duas máscaras diferentes, e a primeira não se adapta facilmente ao rosto do escritor se este não souber incluí-la, a seu tempo, na história. Ora o narrador António Lobo Antunes usa e abusa da anedota, preferindo ao real a divagação e ao concreto do quotidiano a fuga onírica. Alinhando tudo e todos pela mesma bitola e dando a cada personagem do Auto a mesma forma de falar e de pensar, o narrador domina orgulhosamente a acção como se fosse o dono e o empregado. Não se contentando em ser o administrador da fazenda alheia, o Autor apodera-se da voz das personagens e avalia-as da mesma maneira.

Com uma capacidade extraordinária de alinhavar textos por nada e de fabricar pequenos enredos aptos a voos de grande fôlego, [...] António Lobo Antunes merecia ter menos êxito. E creio que o conseguirá um dia.


Liberto Cruz
Colóquio Letras 97
Fundação Calouste Gulbenkian
Maio de 1987

14/08/2011

José Alexandre Ramos: Milonga niilista (A Morte de Carlos Gardel)


Quando António Lobo Antunes escrevia o seu 10º romance, já havia vincado o seu estilo inconfundível, da desconstrução do discurso (embora ainda faltassem alguns anos e livros para chegar a um discurso mais fragmentado), feito na primeira pessoa do singular, em narrativas paralelas ou sobrepostas das personagens que falam sobre as suas experiências e sentimentos num – por vezes árduo – exercício da memória. A Morte de Carlos Gardel fecha o chamado “ciclo de Lisboa” começado em Tratado das Paixões da Alma, seguido de A Ordem Natural das Coisas.
 
Divide-se em cinco grandes capítulos, correspondendo a cinco temas do cantor de tango argentino Carlos Gardel, cuja escolha não é acidental nem aleatória: “Por una cabeza”, “Milonga sentimental”, “Lejana tierra mía”, “El día que me quieras” e “Melodía de arrabal”. Sendo o tango um estilo de grande intensidade dramática, de base triste, sentimental, mas ao mesmo tempo agressivo e sensual, repercutido na sua dança, de que a submissão da mulher ao seu par masculino é consequência, representa muito bem o que nos diz o livro
 
(diz e não conta, que é marca literária de António Lobo Antunes, embora se possa sempre tirar uma história comum a todos as personagens da qual só nos damos conta ou podemos urdi-la após terminar a leitura do livro).
 
Estes cinco capítulos subdividem-se nos vários relatos das personagens: um núcleo de familiares de Nuno, jovem toxicodependente que está em coma num hospital e acaba por morrer. Embora esta seja a personagem central, cuja situação dá o mote, logo no início do livro, para os relatos do pai (Álvaro), da tia (Graça) e da mãe (Cláudia), personagens do referido núcleo, não podemos afirmar que exista no livro uma personagem principal e as secundárias, da mesma forma que não existe um fio narrativo (pelo menos formal e intencional), mas antes personagem e motivos centrais, tronco comum para as várias intervenções em que o núcleo deixa fluir o seu discurso. Portanto, nenhuma das personagens é dispensável, em qualquer dos seus relatos, ou o livro já não seria o mesmo. E mesmo que quiséssemos achar uma personagem mais evidenciada, nem seria Nuno, pois não é das que mais discursa; a personagem que mais intervém quer a nível narrativo quer na sequência dada à acção é Álvaro, o pai ausente nos afectos, o fã de Gardel, o marido inconstante de Cláudia e mais tarde de Raquel, e irmão de Graça.
 
Ao bom estilo antuniano, cada personagem vem à boca de cena para um monólogo onde evocam memórias da infância, ou outros episódios e factos do passado mais recente das suas vivências, cruzando com a experiência vivida no tempo actual do livro. Os capítulos e subcapítulos sucedem-se a um ritmo que vai aumentando a sua cadência à medida que a tensão entre as personagens se torna mais densa e se precipita para o fim. Assim, vamos conhecendo a inadaptação de Álvaro como pai e marido, que sucessivamente é incapaz de gerir uma relação familiar, primeiro com Cláudia com quem tem o filho Nuno, e depois com Raquel; dos conflitos de interesse em torno da personagem Nuno – desde a desordem emocional da relação com Álvaro a quem não reconhece como figura paternal, até aos conflitos com as relações amorosas da mãe, e a nova companheira do pai, estranhos com quem em criança é obrigado a conviver e que o vai marcar, embora aparente indiferença e desprezo durante a adolescência que é quando se vicia na heroína. Também a cumplicidade passiva de Graça, irmã de Álvaro e tia de Nuno, que no livro sabemos que vive com um mulher (Cristiana), mas nutre um sentimento algo incestuoso pelo irmão, e por consequente o iliba da culpa do desarranjo emocional do filho e sua preponderarão para se alienar da vida social e consumo de drogas, vindo a atribuir essa culpa a Cláudia, mãe de Nuno. Afinal, como no tango, as mulheres são aqui submissas e resignadas ora por compaixão a Álvaro, ora porque a insignificância das suas vidas não lhes permite grandes exigências para com os parceiros que escolhem (ora Álvaro, ora outros homens como os que a mãe de Nuno convive). E toda esta conflitualidade, exasperação, altruísmo e egoísmo misturados, e resignação a vários níveis, são retratados com bastante ironia e sarcasmo, em pequenos episódios roçando o grotesco, e com um pendor niilista como se a vida, por ser assim, não valesse a pena ser vivida. Assistimos ao fim de tudo não com a morte de Nuno, mas com o abandono das personagens que se vão despedindo da narrativa sem que demos conta e com a suposta loucura de Álvaro (nunca assumida quer pelos personagens quer pelo autor – terá que ser o leitor a decidir) que, transtornado com a morte do filho (e ao fim ao cabo com todo o seu percurso emocional arruinado), julga conhecer Carlos Gardel sobrevivente num imitador – Albino Seixas, a personagem final do livro, um velho artista de cabaret que luta para manter a subsistência e a da sua mulher entrevada, após muitos anos como dançarinos de tango. De realçar que as personagens – de uma baixa classe média – vivem todas nos subúrbios de Lisboa, que no livro e através dos relatos são apresentados como lugares feios e desinteressantes – um factor mais a sublinhar a resignação.
 
A composição deste romance, em que as narrativas têm altos e baixos picos de intensidade, assemelha-se à de uma composição musical
 
(como viria a ser notado dali para a frente na obra de Lobo Antunes),
 
ou não tivesse sido construído sob a base de cinco temas de Carlos Gardel, este ainda uma personagem abstracta do livro mas sempre presente, que silencia todos os relatos quando Álvaro, presumivelmente já recuperado do seu estado delirante, reconhece finalmente o cantor argentino como morto.
 
Escrever sobre qualquer que seja o livro de António Lobo Antunes é, para mim, ingrato e difícil, acabo sempre por não achar as palavras certas. Porém, a terminar, devo dizer que foi um prazer reencontrado reler A Morte de Carlos Gardel, pela mestria com que foi escrito e por, como sempre, estar a falar de nós e para nós próprios – isto já é António Lobo Antunes, reconhecidamente. Particularmente, e por uma questão de gosto pessoal, este livro é um dos que mais aprecio deste mestre da literatura.
 

José Alexandre Ramos
14.08.2011

mupie do filme de Solveig Nordlund a estrear em Setembro


(do blogue do filme)

10/08/2011

Marco Caetano: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Tinha vontade de voltar a ler Lobo Antunes. Tinha vontade de ler frases do tipo "... gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente...". Tinha vontade de me tornar a perder nos vários cenários que as suas obras proporcionam.

António Lobo Antunes não é um autor consensual. Mas afinal, é mesmo assim com todos os artistas, não é? Eu sou seu admirador de forma incondicional. Conseguiria ouvi-lo falar horas sem parar.

Poder-se-á dizer que os seus livros não são de leitura fácil, mas na minha opinião isso deve-se unicamente à riqueza do conteúdo da sua escrita. Arriscaria dizer que a par de Agustina Bessa-Luís, estamos no topo da pirâmide dos escritores portugueses da actualidade.

Sôbolos rios que vão é a sua última obra cujo o lançamento ocorreu a 29 de Outubro de 2010 na Estação Elevatória dos Barbadinhos, pertença do Museu da Água da EPAL. Tive o prazer de assistir ao vivo a este lançamento e devo dizer que a vontade de ler este livro surgiu logo aí. O título, proveniente de um poema de Camões, é soberbo, o que aliás parece estar a tornar-se um hábito nos livros do autor. Sem dúvida uma forma superior de baptizar esta obra.

Estamos perante um texto muito autobiográfico. Há alguns anos atrás, Lobo Antunes esteve hospitalizado devido ao aparecimento de um cancro. É essa experiência que, do seu ponto de vista privilegiado de doente, se propõe a apresentar ao longo dos dias em que esteve hospitalizado.

O recurso a memórias antigas para passar o tempo, para esquecer o presente, para justificar as dores ou os sentimentos, está presente do início ao fim. Tudo acontece para se abstrair do que está em seu redor como se fossem espasmos que findam quando a dor regressa. A facilidade com que muda de interlocutores, de cenários ou de espaços temporais, permite ao leitor divagar no percurso da obra (dos rios?).

As metáforas utilizadas e a riqueza dos seus pensamentos são apaixonantes. Penso que nem que leia a obra mais duas ou três vezes, não conseguirei apreender tudo o que o autor tem para mostrar, tal é a densidade da escrita.

Comparar a sensação de se ter um cancro nos intestinos com a sensação de ter um ouriço de castanheiro dentro de nós é bem revelador do poder da sua escrita. O doente que não é doente, é o senhor Antunes, não, é o Antoninho! O avô que é a única pessoa que se preocupa com a dor provocada pelo ouriço. Mas como, se afinal o avô morreu há 40 anos? O pai que apenas procura a bola de ténis que se escondeu atrás dos arbustos como o ouriço que esconde em si. O médico, ou antes o pingo no sapato, quando afinal os rios continuam a caminhar... E nós, sôbolos rios que vão.


Marco Caetano
09.01.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...