08/08/2011
07/08/2011
06/08/2011
Filme adaptando A Morte de Carlos Gardel
Filme de abertura da 3ª edição do Festival Douro Film Harvest (5 e 11 de Setembro 2011), com pré-apresentação ao público no ciclo sobre António Lobo Antunes, no Teatro S. Luiz, a 17 Setembro 2011
Nos cinemas a 22 de Setembro 2011.
Género: Drama
A Morte de Carlos Gardel, um filme de Solveig Nordlund, adaptado do romance de António Lobo Antunes
Solveig Nordlund ("A Filha", "Aparelho Voador a Baixa Altitude") gosta de fazer filmes que nos surpreendam intelectual e formalmente. Com a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de António Lobo Antunes, a realizadora sueca radicada em Portugal teve uma oportunidade única de empreender "mais uma prodigiosa aventura".
Sinopse:
Um jovem (Carlos Malvarez) toxicodependente está a morrer num hospital. Junto a ele, à medida que vão vivendo a evolução da sua agonia, cada um dos seus familiares mais próximos evoca uma teia de recordações, de memórias obsessivas e de vivências actuais. Todos eles são portadores de sonhos e desalentos da vida. O pai do jovem (Rui Morisson), apaixonado pelo tango e pela figura de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, percorre simbolicamente um rosário de situações dolorosas. Delirante, confunde-o com um cantor parecido (Ruy de Carvalho).
Com Rui Morisson, Carlos Malvarez, Teresa Gafeira, Celia Williams, Ruy de Carvalho, Joana de Verona, Elmano Sancho, Miguel Mestre, Ida Holten Worsoe, Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga, Albano Jerónimo e Maria João Pinho
Dirigido por Solveig Nordlund
Escrito por António Lobo Antunes
Produzido por FADO FILMES
Sites:
http://carlosgardelfilme.blogspot.com/
http://www.facebook.com/amortedecarlosgardel
(texto citado do Youtube)
Nos cinemas a 22 de Setembro 2011.
Género: Drama
A Morte de Carlos Gardel, um filme de Solveig Nordlund, adaptado do romance de António Lobo Antunes
Solveig Nordlund ("A Filha", "Aparelho Voador a Baixa Altitude") gosta de fazer filmes que nos surpreendam intelectual e formalmente. Com a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de António Lobo Antunes, a realizadora sueca radicada em Portugal teve uma oportunidade única de empreender "mais uma prodigiosa aventura".
Sinopse:
Um jovem (Carlos Malvarez) toxicodependente está a morrer num hospital. Junto a ele, à medida que vão vivendo a evolução da sua agonia, cada um dos seus familiares mais próximos evoca uma teia de recordações, de memórias obsessivas e de vivências actuais. Todos eles são portadores de sonhos e desalentos da vida. O pai do jovem (Rui Morisson), apaixonado pelo tango e pela figura de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, percorre simbolicamente um rosário de situações dolorosas. Delirante, confunde-o com um cantor parecido (Ruy de Carvalho).
Com Rui Morisson, Carlos Malvarez, Teresa Gafeira, Celia Williams, Ruy de Carvalho, Joana de Verona, Elmano Sancho, Miguel Mestre, Ida Holten Worsoe, Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga, Albano Jerónimo e Maria João Pinho
Dirigido por Solveig Nordlund
Escrito por António Lobo Antunes
Produzido por FADO FILMES
Sites:
http://carlosgardelfilme.blogspot.com/
http://www.facebook.com/amortedecarlosgardel
(texto citado do Youtube)
30/07/2011
Celeste Pereira: opinião sobre Auto dos Danados
Mais um livro de ALA que ainda não havia lido. E mais uma leitura interessante e estimulante como já me habituaram as leituras dos muitos outros livros que li do autor.
Este passa-se no ano de 1975. Ano conturbado em termos sociais e políticos, ainda no rescaldo do 25 de Abril.
Fala-nos de uma família decadente, de antigos latifundiários, algures no Alentejo. Família onde reinam o desamor, a ganância, o rancor, a raiva, a cobiça entre os seus elementos. Uma família completamente disfuncional (não é novidade nos livros de ALA) em que os elementos que a constituem se encontram ligados por sentimentos sórdidos que os empurram uns contra os outros mas que, ao mesmo tempo, os impelem uns para os outros prendendo-os numa teia dificilmente compreensível. Pelo menos dificilmente explicável.
Embora a história vá sendo narrada em diferentes tempos e por diferentes personagens dando, de cada uma, o seu ponto de vista de uma mesma realidade, esta passa-se, como já disse, no ano de 1975 durante a agonia e morte do chefe do clã, Diogo.
Diogo, o patriarca duro, prepotente, violento, mulherengo, licencioso, distante, está prostrado, agonizante, no leito de morte enquanto os seus sucessores de digladiam surdamente na mesma casa. A filha e o genro procuram afanosa e desrespeitosamente o testamento, numa tentativa de espoliar os outros membros dos respectivos direitos sucessórios. Tudo isto enquanto a festa da localidade prossegue com os foguetes, a música, as vendas de rua e…a morte do touro pela populaça. Este acontecimento, o auge da festa, altura em que todo o povo se encontra inebriado pelo sangue e pela crueldade gratuita, é também o fim do velho morgado.
Com uma escrita intensa sobretudo sob o ponto de vista de riqueza psicológica das personagens, ALA vai-nos conduzindo através dos sentires de todas as personagens, mas também dos seus mais recônditos podres, dando-nos os instrumentos para compormos o retrato desta família que, sem dúvida, será o retrato muito próximo de tantas famílias burguesas dessa época em que as mudanças sociais se davam com extrema rapidez e a burguesia se sentiu acossada e amedrontada pelo proletariado e campesinato em ascensão.
Não é um livro de leitura linear. Não o são os livros de Lobo Antunes. Não tem como característica, todos sabemos, facilitar a vida ao leitor. Contudo, apesar de não haver sequência temporal nem factual nas diegeses feitas pelos diferentes narradores (neste livro o autor demite-se do papel simultâneo de narrador), não é dos livros mais trabalhosos de ler.
Recomendo.
Celeste Pereira
26.06.2011
Ponto de Cruz
22/07/2011
Simão Fonseca: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma
Tratado das Paixões da Alma é o primeiro romance da trilogia apelidada de “ciclo de Lisboa”, composta por A Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel. Este ciclo comporta a infância e adolescência de António Lobo Antunes e a sua vida em Benfica, Lisboa, recheada de lembranças dos seus amigos e da relação que tinha com os seus familiares, acontecimentos que marcaram o autor e que o mesmo nunca mais esqueceu.
Homem, inicialmente assim apresentado, é um indivíduo que pertence a uma organização terrorista e que se encontra preso a prestar declarações perante o “cavalheiro” e pelo Juiz de Instrução, de seu nome Zé. Ao largo da estória, o Homem revela chamar-se Antunes, e mais tarde António Antunes, sendo que o Juiz de Instrução tem o nome de Zé. A primeira conclusão que se pode retirar, é obviamente que Tratado das Paixões da Almatem como personagem principal o próprio autor, intercalando os parágrafos com Zé e com outras personagens (algumas da rede terrorista: Sacerdote, Artista, Estudante, etc), ainda que durante a grande parte das páginas haja um parágrafo para o Juiz e outro para o Homem, respectivamente.
Se António (Lobo) Antunes é o Homem, Zé, o juiz, poderá ser o seu grande amigo já falecido José Cardoso Pires. Apesar de durante o livro todo não surja qualquer tipo de referência a “Cardoso” ou a “Pires”, não devemos excluir a possibilidade de que José Cardos Pires seja mesmo a personagem Zé, o Juiz: José Cardoso Pires aparece muitas vezes nas crónicas de Lobo Antunes como “Zé” e sempre tratado com um enorme carinho. A existência de uma rede terrorista e de Zé e António Antunes passarem o tempo na esquadra, serve apenas de pano de fundo para as lembranças de infância e adolescência que ambos partilharam em Benfica, sendo este sim, o verdadeiro tema do romance.
Zé e os seus pais são os caseiros duma quinta que pertence ao avô de Antunes, onde também vive António e os seus pais, e durante o período em que Zé e António conviveram, apercebemo-nos de que havia uma grande amizade entre os dois – melhores amigos do mundo -, onde não faltaram travessuras e situações verdadeiramente cómicas, escritas numa linguagem muito própria a que o autor já nos habituou: “- Repara no que o teu Avô me fez à boca, nota só o inchaço da gengiva, lamentou-se o meritíssimo a exibir o beiço ao Homem, dobrando-o, com os polegares, no sentido do queixo. Não me partiu um dente em bocadinhos por acaso, não me convides mais para fumar que o velho deixa-me em picado num segundo”
Tratado das Paixões da Alma, publicado em 1990, é um romance importante na vasta obra de António Lobo Antunes. A guerra colonial abordada de forma exaustiva nos seus prévios registos aparece aqui com pouca relevância, dando-nos espaço para conhecermos melhor o crescimento do jovem Lobo Antunes em Benfica e isso acaba por se tornar essencial na compreensão de um autor tão autobiográfico como este.
Homem, inicialmente assim apresentado, é um indivíduo que pertence a uma organização terrorista e que se encontra preso a prestar declarações perante o “cavalheiro” e pelo Juiz de Instrução, de seu nome Zé. Ao largo da estória, o Homem revela chamar-se Antunes, e mais tarde António Antunes, sendo que o Juiz de Instrução tem o nome de Zé. A primeira conclusão que se pode retirar, é obviamente que Tratado das Paixões da Almatem como personagem principal o próprio autor, intercalando os parágrafos com Zé e com outras personagens (algumas da rede terrorista: Sacerdote, Artista, Estudante, etc), ainda que durante a grande parte das páginas haja um parágrafo para o Juiz e outro para o Homem, respectivamente.
Se António (Lobo) Antunes é o Homem, Zé, o juiz, poderá ser o seu grande amigo já falecido José Cardoso Pires. Apesar de durante o livro todo não surja qualquer tipo de referência a “Cardoso” ou a “Pires”, não devemos excluir a possibilidade de que José Cardos Pires seja mesmo a personagem Zé, o Juiz: José Cardoso Pires aparece muitas vezes nas crónicas de Lobo Antunes como “Zé” e sempre tratado com um enorme carinho. A existência de uma rede terrorista e de Zé e António Antunes passarem o tempo na esquadra, serve apenas de pano de fundo para as lembranças de infância e adolescência que ambos partilharam em Benfica, sendo este sim, o verdadeiro tema do romance.
Zé e os seus pais são os caseiros duma quinta que pertence ao avô de Antunes, onde também vive António e os seus pais, e durante o período em que Zé e António conviveram, apercebemo-nos de que havia uma grande amizade entre os dois – melhores amigos do mundo -, onde não faltaram travessuras e situações verdadeiramente cómicas, escritas numa linguagem muito própria a que o autor já nos habituou: “- Repara no que o teu Avô me fez à boca, nota só o inchaço da gengiva, lamentou-se o meritíssimo a exibir o beiço ao Homem, dobrando-o, com os polegares, no sentido do queixo. Não me partiu um dente em bocadinhos por acaso, não me convides mais para fumar que o velho deixa-me em picado num segundo”
Tratado das Paixões da Alma, publicado em 1990, é um romance importante na vasta obra de António Lobo Antunes. A guerra colonial abordada de forma exaustiva nos seus prévios registos aparece aqui com pouca relevância, dando-nos espaço para conhecermos melhor o crescimento do jovem Lobo Antunes em Benfica e isso acaba por se tornar essencial na compreensão de um autor tão autobiográfico como este.
Simão Fonseca
12.02.2011
22/06/2011
Simão Fonseca: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão
Sôbolos Rios que Vão é um poema de Luís Vaz de Camões e o último romance de António Lobo Antunes. Se na anterior obra, intitulada Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, António Lobo Antunes tentou criar uma obra “perfeita” (nas palavras do autor) ou “O livro”, este novo romance não entra por esse caminho e oferece ao leitor uma viagem autobiográfica.
A temática gira à volta da grave doença que atingiu o autor entre o final de Março e o início de Abril de 2007 e de tudo aquilo que ele sentiu, chorou, sonhou e reviveu enquanto esteve hospitalizado. Sem margem para grandes dúvidas, este mergulho no rio que lá foi é a obra mais intimista, íntima e humilde escrita até à data; nos anteriores romances, o recurso a aspectos pessoais e sociais que Lobo Antunes experienciou era bem patente: o amor pelo avô, a casa em Nelas, as tias salazaristas, o pai que o obrigou a ir estudar Medicina, a adolescência vivida em Benfica, Lisboa, o horror da guerra colonial onde ele foi forçosamente enviado como médico, a riqueza da sua família, o anti-fascismo e outros temas abordados são transportados para um patamar mais intimista – como referido atrás – numa espécie de confissão do silêncio, da humilhação, da saudade e do valor dado à vida. Lobo Antunes está consigo da primeira à última página: desabafa a doença nos intestinos (os “ouriços”, como ele se refere à doença) na primeira e na terceira pessoa, insistentes diálogos directos, mistura de narrativas e personagens – a que ele já nos habituou –, sentimento de náusea e tristeza contrastados com os húmidos olhos que “Antoninho” e “Antunes” choram no seu ombro.
Os livros de António Lobo Antunes não são destinados a todos os leitores – ou pelo menos, nem todos vão gostar ou compreendê-los – e este em especial deve ser lido apenas por aqueles que já conhecem as suas obras e que sabem um pouco da sua vida. Partilho com o leitor a felicidade e a desolação do meu fortuito encontro, após a cirurgia, com um lobo solitário e da forma como vê-lo com a audição parcialmente diminuída e o cansaço evidente nos seus movimentos e olhos me deixou com um amargo sorriso. Mas isso não interessa para nada: leia este diário.
A temática gira à volta da grave doença que atingiu o autor entre o final de Março e o início de Abril de 2007 e de tudo aquilo que ele sentiu, chorou, sonhou e reviveu enquanto esteve hospitalizado. Sem margem para grandes dúvidas, este mergulho no rio que lá foi é a obra mais intimista, íntima e humilde escrita até à data; nos anteriores romances, o recurso a aspectos pessoais e sociais que Lobo Antunes experienciou era bem patente: o amor pelo avô, a casa em Nelas, as tias salazaristas, o pai que o obrigou a ir estudar Medicina, a adolescência vivida em Benfica, Lisboa, o horror da guerra colonial onde ele foi forçosamente enviado como médico, a riqueza da sua família, o anti-fascismo e outros temas abordados são transportados para um patamar mais intimista – como referido atrás – numa espécie de confissão do silêncio, da humilhação, da saudade e do valor dado à vida. Lobo Antunes está consigo da primeira à última página: desabafa a doença nos intestinos (os “ouriços”, como ele se refere à doença) na primeira e na terceira pessoa, insistentes diálogos directos, mistura de narrativas e personagens – a que ele já nos habituou –, sentimento de náusea e tristeza contrastados com os húmidos olhos que “Antoninho” e “Antunes” choram no seu ombro.
Os livros de António Lobo Antunes não são destinados a todos os leitores – ou pelo menos, nem todos vão gostar ou compreendê-los – e este em especial deve ser lido apenas por aqueles que já conhecem as suas obras e que sabem um pouco da sua vida. Partilho com o leitor a felicidade e a desolação do meu fortuito encontro, após a cirurgia, com um lobo solitário e da forma como vê-lo com a audição parcialmente diminuída e o cansaço evidente nos seus movimentos e olhos me deixou com um amargo sorriso. Mas isso não interessa para nada: leia este diário.
por Simão Fonseca
11.01.2011
Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos
Exortação aos Crocodilos é um livro que não chega a ser uma viagem lisérgica, longe disso, mas é contada de tal forma que beira o inconsciente, no qual pequenos sentimentos, emoções, estados de espírito, loucuras humanas, ausência de amor e incertezas estão presentes nessas vozes, vindas da memória mais profunda de um mundo sufocante.
“O corpo era uma sombra do meu corpo movendo-se sem peso nos chinelos porque o corpo verdadeiro permanecia nesta cama ou em Coimbra há muitos anos, perto dos Salgueiros altos, a eu crescida observando a eu pequena ou a eu pequena observando a eu crescida, não sei...”
Nos primeiros capítulos o leitor anda num terreno minado por bombas e estilhaços. É preciso seguir adiante, ir montando um quebra cabeça compostos de imagens de infância, sabores, objetos de estimação, humilhações cotidianas, procurando reconhecer a voz dos personagens, o tempo de suas falas, o espaço a que se referem, o que acontecimentos relatam.
A narrativa é enigmática, são histórias vividas por homens sob o prisma feminino. São quatro mulheres que escrevem na primeira pessoa: Mimi, Fátima, Celina e Simone. Cada uma delas tem um passado e percurso próprio. O livro começa com as rememorações de Mimi que conta fatos vividos por seus homens, sua avó – uma galega que tinha tranças compridas penteada com aguardente – exerce uma forte influência sobre as demais. Essa avó galega, que possuía o segredo da fórmula da coca-cola, uma fórmula caseira em que misturava água gasosa, açúcar e café.
Mimi é uma surda que ouve o som das coisas, mas é incapaz de ouvir as pessoas. Ela encarna a pobreza da experiência enquanto processo de comunicação.
Fátima é afilhada do Bispo conspirador. Eram amantes. O seu destino estava traçada pelo pai. Celina representa a figura atormentada por ter sido casada ainda jovem com um homem mais velho, porém, rico. Vinga-se ao traí-lo com o seu sócio, que era nada mais, nada menos que o esposo da Mimi.
Simone é uma jovem gorda, complexada, acredita ter encontrado a saída existencial de sua vida carregada de humilhações, namorando o motorista de Mimi:
“Se meu namorado se enganar nos fios e a garagem for inteirinha pelo ar, por mim, palavra de honra, é-me indiferente.Estou cansada de dormir em colchão atrás dos automóveis acordar com dores de cabeça derivado aos vapores de gasolina(...) (...) viver rodeada de pneus motores e embreagem, em vez de quadros e móveis, do general e os outros entrarem sem incomodarem comigo, pedirem licença, me darem os bons dias sequer...”
O que essas mulheres têm em comum é que todas são casadas com pessoas desagradáveis, que abusam de serem violentos, torturadores de comunistas, envolvidos em atentados de direita, movidos por uma nostalgia do regime salazarista.
Exortação aos crocodilos não é um livro que nos leva ao maniqueísmo, ninguém é inocente nesta história toda, o general e o bispo mandam matar; militares e diplomatas articulam contrabandos de armas e operacionalizam fábricas de bombas; e as mulheres assistem a tudo com um silêncio cúmplice. No decorrer do romance, as vozes se cruzam, os tempos se misturam, as histórias se confundem. A morte invade as recordações como se misturasse numa espécie de aniquilamento final.
Nos monólogos interiores das quatro personagens é mostrado um instantâneo do inferno de cada consciência individual.
Exortação aos Crocodilos mistura polifonia, fratura, delírio, caos. Exortação aos Crocodilos é um “pit stop” no inferno da lembrança.
“O corpo era uma sombra do meu corpo movendo-se sem peso nos chinelos porque o corpo verdadeiro permanecia nesta cama ou em Coimbra há muitos anos, perto dos Salgueiros altos, a eu crescida observando a eu pequena ou a eu pequena observando a eu crescida, não sei...”
Nos primeiros capítulos o leitor anda num terreno minado por bombas e estilhaços. É preciso seguir adiante, ir montando um quebra cabeça compostos de imagens de infância, sabores, objetos de estimação, humilhações cotidianas, procurando reconhecer a voz dos personagens, o tempo de suas falas, o espaço a que se referem, o que acontecimentos relatam.
A narrativa é enigmática, são histórias vividas por homens sob o prisma feminino. São quatro mulheres que escrevem na primeira pessoa: Mimi, Fátima, Celina e Simone. Cada uma delas tem um passado e percurso próprio. O livro começa com as rememorações de Mimi que conta fatos vividos por seus homens, sua avó – uma galega que tinha tranças compridas penteada com aguardente – exerce uma forte influência sobre as demais. Essa avó galega, que possuía o segredo da fórmula da coca-cola, uma fórmula caseira em que misturava água gasosa, açúcar e café.
Mimi é uma surda que ouve o som das coisas, mas é incapaz de ouvir as pessoas. Ela encarna a pobreza da experiência enquanto processo de comunicação.
Fátima é afilhada do Bispo conspirador. Eram amantes. O seu destino estava traçada pelo pai. Celina representa a figura atormentada por ter sido casada ainda jovem com um homem mais velho, porém, rico. Vinga-se ao traí-lo com o seu sócio, que era nada mais, nada menos que o esposo da Mimi.
Simone é uma jovem gorda, complexada, acredita ter encontrado a saída existencial de sua vida carregada de humilhações, namorando o motorista de Mimi:
“Se meu namorado se enganar nos fios e a garagem for inteirinha pelo ar, por mim, palavra de honra, é-me indiferente.Estou cansada de dormir em colchão atrás dos automóveis acordar com dores de cabeça derivado aos vapores de gasolina(...) (...) viver rodeada de pneus motores e embreagem, em vez de quadros e móveis, do general e os outros entrarem sem incomodarem comigo, pedirem licença, me darem os bons dias sequer...”
O que essas mulheres têm em comum é que todas são casadas com pessoas desagradáveis, que abusam de serem violentos, torturadores de comunistas, envolvidos em atentados de direita, movidos por uma nostalgia do regime salazarista.
Exortação aos crocodilos não é um livro que nos leva ao maniqueísmo, ninguém é inocente nesta história toda, o general e o bispo mandam matar; militares e diplomatas articulam contrabandos de armas e operacionalizam fábricas de bombas; e as mulheres assistem a tudo com um silêncio cúmplice. No decorrer do romance, as vozes se cruzam, os tempos se misturam, as histórias se confundem. A morte invade as recordações como se misturasse numa espécie de aniquilamento final.
Nos monólogos interiores das quatro personagens é mostrado um instantâneo do inferno de cada consciência individual.
Exortação aos Crocodilos mistura polifonia, fratura, delírio, caos. Exortação aos Crocodilos é um “pit stop” no inferno da lembrança.
por Luiz Guilherme de Beaurepaire
17.01.2011
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca
Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...
-
Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...
-
Visão edição 1188 10 a 16.12.2015 Entrevista de Ana Margarida de Carvalho «Todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido...
-
Os 26 livros até 2015, sem os volumes das crónicas (capas das 1ªs edições) O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais...


