22/07/2011

Simão Fonseca: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma


Tratado das Paixões da Alma é o primeiro romance da trilogia apelidada de “ciclo de Lisboa”, composta por A Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel. Este ciclo comporta a infância e adolescência de António Lobo Antunes e a sua vida em Benfica, Lisboa, recheada de lembranças dos seus amigos e da relação que tinha com os seus familiares, acontecimentos que marcaram o autor e que o mesmo nunca mais esqueceu.

Homem, inicialmente assim apresentado, é um indivíduo que pertence a uma organização terrorista e que se encontra preso a prestar declarações perante o “cavalheiro” e pelo Juiz de Instrução, de seu nome Zé. Ao largo da estória, o Homem revela chamar-se Antunes, e mais tarde António Antunes, sendo que o Juiz de Instrução tem o nome de Zé. A primeira conclusão que se pode retirar, é obviamente que Tratado das Paixões da Almatem como personagem principal o próprio autor, intercalando os parágrafos com Zé e com outras personagens (algumas da rede terrorista: Sacerdote, Artista, Estudante, etc), ainda que durante a grande parte das páginas haja um parágrafo para o Juiz e outro para o Homem, respectivamente.

Se António (Lobo) Antunes é o Homem, Zé, o juiz, poderá ser o seu grande amigo já falecido José Cardoso Pires. Apesar de durante o livro todo não surja qualquer tipo de referência a “Cardoso” ou a “Pires”, não devemos excluir a possibilidade de que José Cardos Pires seja mesmo a personagem Zé, o Juiz: José Cardoso Pires aparece muitas vezes nas crónicas de Lobo Antunes como “Zé” e sempre tratado com um enorme carinho. A existência de uma rede terrorista e de Zé e António Antunes passarem o tempo na esquadra, serve apenas de pano de fundo para as lembranças de infância e adolescência que ambos partilharam em Benfica, sendo este sim, o verdadeiro tema do romance.

Zé e os seus pais são os caseiros duma quinta que pertence ao avô de Antunes, onde também vive António e os seus pais, e durante o período em que Zé e António conviveram, apercebemo-nos de que havia uma grande amizade entre os dois – melhores amigos do mundo -, onde não faltaram travessuras e situações verdadeiramente cómicas, escritas numa linguagem muito própria a que o autor já nos habituou: “- Repara no que o teu Avô me fez à boca, nota só o inchaço da gengiva, lamentou-se o meritíssimo a exibir o beiço ao Homem, dobrando-o, com os polegares, no sentido do queixo. Não me partiu um dente em bocadinhos por acaso, não me convides mais para fumar que o velho deixa-me em picado num segundo”

Tratado das Paixões da Alma, publicado em 1990, é um romance importante na vasta obra de António Lobo Antunes. A guerra colonial abordada de forma exaustiva nos seus prévios registos aparece aqui com pouca relevância, dando-nos espaço para conhecermos melhor o crescimento do jovem Lobo Antunes em Benfica e isso acaba por se tornar essencial na compreensão de um autor tão autobiográfico como este.


Simão Fonseca
12.02.2011

22/06/2011

Simão Fonseca: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios que Vão é um poema de Luís Vaz de Camões e o último romance de António Lobo Antunes. Se na anterior obra, intitulada Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, António Lobo Antunes tentou criar uma obra “perfeita” (nas palavras do autor) ou “O livro”, este novo romance não entra por esse caminho e oferece ao leitor uma viagem autobiográfica.

A temática gira à volta da grave doença que atingiu o autor entre o final de Março e o início de Abril de 2007 e de tudo aquilo que ele sentiu, chorou, sonhou e reviveu enquanto esteve hospitalizado. Sem margem para grandes dúvidas, este mergulho no rio que lá foi é a obra mais intimista, íntima e humilde escrita até à data; nos anteriores romances, o recurso a aspectos pessoais e sociais que Lobo Antunes experienciou era bem patente: o amor pelo avô, a casa em Nelas, as tias salazaristas, o pai que o obrigou a ir estudar Medicina, a adolescência vivida em Benfica, Lisboa, o horror da guerra colonial onde ele foi forçosamente enviado como médico, a riqueza da sua família, o anti-fascismo e outros temas abordados são transportados para um patamar mais intimista – como referido atrás – numa espécie de confissão do silêncio, da humilhação, da saudade e do valor dado à vida. Lobo Antunes está consigo da primeira à última página: desabafa a doença nos intestinos (os “ouriços”, como ele se refere à doença) na primeira e na terceira pessoa, insistentes diálogos directos, mistura de narrativas e personagens – a que ele já nos habituou –, sentimento de náusea e tristeza contrastados com os húmidos olhos que “Antoninho” e “Antunes” choram no seu ombro.

Os livros de António Lobo Antunes não são destinados a todos os leitores – ou pelo menos, nem todos vão gostar ou compreendê-los – e este em especial deve ser lido apenas por aqueles que já conhecem as suas obras e que sabem um pouco da sua vida. Partilho com o leitor a felicidade e a desolação do meu fortuito encontro, após a cirurgia, com um lobo solitário e da forma como vê-lo com a audição parcialmente diminuída e o cansaço evidente nos seus movimentos e olhos me deixou com um amargo sorriso. Mas isso não interessa para nada: leia este diário.


por Simão Fonseca
11.01.2011

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Exortação aos Crocodilos é um livro que não chega a ser uma viagem lisérgica, longe disso, mas é contada de tal forma que beira o inconsciente, no qual pequenos sentimentos, emoções, estados de espírito, loucuras humanas, ausência de amor e incertezas estão presentes nessas vozes, vindas da memória mais profunda de um mundo sufocante.

“O corpo era uma sombra do meu corpo movendo-se sem peso nos chinelos porque o corpo verdadeiro permanecia nesta cama ou em Coimbra há muitos anos, perto dos Salgueiros altos, a eu crescida observando a eu pequena ou a eu pequena observando a eu crescida, não sei...”

Nos primeiros capítulos o leitor anda num terreno minado por bombas e estilhaços. É preciso seguir adiante, ir montando um quebra cabeça compostos de imagens de infância, sabores, objetos de estimação, humilhações cotidianas, procurando reconhecer a voz dos personagens, o tempo de suas falas, o espaço a que se referem, o que acontecimentos relatam.

A narrativa é enigmática, são histórias vividas por homens sob o prisma feminino. São quatro mulheres que escrevem na primeira pessoa: Mimi, Fátima, Celina e Simone. Cada uma delas tem um passado e percurso próprio. O livro começa com as rememorações de Mimi que conta fatos vividos por seus homens, sua avó – uma galega que tinha tranças compridas penteada com aguardente – exerce uma forte influência sobre as demais. Essa avó galega, que possuía o segredo da fórmula da coca-cola, uma fórmula caseira em que misturava água gasosa, açúcar e café.

Mimi é uma surda que ouve o som das coisas, mas é incapaz de ouvir as pessoas. Ela encarna a pobreza da experiência enquanto processo de comunicação.

Fátima é afilhada do Bispo conspirador. Eram amantes. O seu destino estava traçada pelo pai. Celina representa a figura atormentada por ter sido casada ainda jovem com um homem mais velho, porém, rico. Vinga-se ao traí-lo com o seu sócio, que era nada mais, nada menos que o esposo da Mimi.

Simone é uma jovem gorda, complexada, acredita ter encontrado a saída existencial de sua vida carregada de humilhações, namorando o motorista de Mimi:
“Se meu namorado se enganar nos fios e a garagem for inteirinha pelo ar, por mim, palavra de honra, é-me indiferente.Estou cansada de dormir em colchão atrás dos automóveis acordar com dores de cabeça derivado aos vapores de gasolina(...) (...) viver rodeada de pneus motores e embreagem, em vez de quadros e móveis, do general e os outros entrarem sem incomodarem comigo, pedirem licença, me darem os bons dias sequer...”
O que essas mulheres têm em comum é que todas são casadas com pessoas desagradáveis, que abusam de serem violentos, torturadores de comunistas, envolvidos em atentados de direita, movidos por uma nostalgia do regime salazarista.

Exortação aos crocodilos não é um livro que nos leva ao maniqueísmo, ninguém é inocente nesta história toda, o general e o bispo mandam matar; militares e diplomatas articulam contrabandos de armas e operacionalizam fábricas de bombas; e as mulheres assistem a tudo com um silêncio cúmplice. No decorrer do romance, as vozes se cruzam, os tempos se misturam, as histórias se confundem. A morte invade as recordações como se misturasse numa espécie de aniquilamento final.

Nos monólogos interiores das quatro personagens é mostrado um instantâneo do inferno de cada consciência individual.

Exortação aos Crocodilos mistura polifonia, fratura, delírio, caos. Exortação aos Crocodilos é um “pit stop” no inferno da lembrança.


por Luiz Guilherme de Beaurepaire
17.01.2011

Simão Fonseca: opinião sobre Conhecimento do Inferno


Conhecimento do Inferno é a terceira obra do extenso catálogo de António Lobo Antunes a ser publicada e é também o livro que encerra uma trilogia iniciada com Memória de Elefante, seguida de Os Cus de Judas, terminada com este romance no curto espaço de um ano: 1979-1980.

A história acaba por se tornar estória e vice-versa, na medida em que – como é marca habitual do escritor – a narrativa se intercala com recordações e experiências vividas em Angola e no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, com diálogos com a pequena Joana (a segunda filha de António Lobo Antunes, nascida em 1973, ano em que o autor regressa a Portugal) e personagens e acontecimentos fictícios. Aqui o narrador é ao mesmo tempo personagem principal e também o autor da obra: António Lobo Antunes é o nome da personagem principal, apresentando-se tanto na primeira, como na terceira pessoa.

António Lobo Antunes embarca numa viagem solitária de automóvel desde o Algarve até Lisboa, no espaço de um dia, recordando através de bastantes analepses os momentos duros que passou na Guerra Colonial de Angola como tenente médico do exército português e todas as atrocidades típicas de uma guerra sangrenta a que assistiu, desde amputações, partos e outros vários tipos de cirurgias que lhe deixaram claras marcas até hoje. A forma como a psiquiatria em Portugal e particularmente no Hospital Miguel Bombarda funcionava na época em que regressa de África, onde iniciou a carreira de psiquiatra, é o segundo ponto de foco da obra. As pobres condições de trabalho e o tratamento desumano que os pacientes internados e tratados no hospital viviam - para além de situações caricatas como a de um noivo que, para fugir ao casamento, se tenta internar – são alvo de jocosas críticas por parte do narrador/personagem/autor em cenas que, por vezes, atingem o surrealismo.

Este livro causou enorme polémica, na medida em que o autor recebeu ameaças por parte do hospital em questão e de muitos psiquiatras que se sentiram incomodados com a realidade descrita em Conhecimento do Inferno, tornando esta obra ainda mais apelativa e essencial. Quem já leu Memória de Elefante e Os Cus de Judas, vai compreendê-la melhor, embora não constituam requisito obrigatório para descer um pouco ao inferno da alma e solidão que António Lobo Antunes nos propõe.


Simão Fonseca
01.02.2011

18/06/2011

Kel: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse

«Este quarto livro de crónicas de António Lobo Antunes é uma selecção de 79 crónicas publicadas na revista Visão. Nestes pequenos textos, António Lobo Antunes evoca lugares, personagens, retratos do quotidiano e memórias de infância.

Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Começa assim a quarta crónica deste livro e é um bom exemplo da intensidade dramática de alguns textos que sendo muito mais acessíveis ao público do que os seus romances não descuram uma forte componente literária. E com uma narrativa que nos surpreende sempre pela genialidade como junta as palavras para formar cada frase, António Lobo Antunes leva-nos da tristeza à alegria e arranca-nos sorrisos pela forma como se ri de si próprio e das pequenas fraquezas de cada um de nós e que "apanha" e retrata como ninguém».

Opinião

Nunca tinha lido nada deste grande escritor, mas com este livro fiquei rendida à sua escrita. Todo o prestígio que possui não é em vão, ou exagerado.

Eu sabia que este escritor tem uma escrita muito pesada e que é necessário um certo "amadurecimento" literário para conseguir digerir bem a leitura. Além disso, como escreve sobre as suas lembranças da guerra, e outros temas dramáticos, a leitura é por vezes depressiva. Por estes motivos achei melhor entrar no seu mundo primeiro pelas crónicas. E realmente não são como as suas restantes obras. É uma leitura bem descontraída, mas que consegue prender o leitor com todas as frases e palavras. Isso acontece devido à sua natureza ilustrativa – a pessoa lê e consegue "ver" aquilo que está descrito, fazendo com que o leitor fique agarrado ao livro, não conseguindo "desligar" da leitura.

Um livro fantástico, adorei!

É constituído por crónicas de 3 ou 4 páginas, que o leitor devora. Tem um humor muito próprio, e uma linha condutora muito sua. Houve algumas crónicas que me marcaram mais, tais como "Jaime", "O que são as mulheres", "Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa" e "Já escrevi isso amanhã".

Uma pequena referência à encadernação – é magnífica! Parece daquele papel de convites de casamento, mais grossa que o normal, e com brilho. As folhas usadas são também diferentes do normal, sendo de um papel mais cuidado. Uma encadernação "de luxo".

Com certeza irei ler outros livros dele.


por Kel
07.06.2011

19/05/2011

Rafael Menezes: opinião sobre As Naus


edição Alfaguara, Brasil

"Acontecera-lhe de tudo na vida, desde descobrir a Índia e limpar, com as próprias mãos, as diarreias e o vômitos do meu irmão moribundo Paulo da Gama, a ajudar a entupir de rolhas de estearina o caixão do pai de um infeliz qualquer que viajava para o reyno num porão de navio a seguir à revolução de de Lixboa, desde jogar a bisca com oficiais sem pulso no baralho, até, como agora morar de vivenda do bairro econômico da Madre de Deus, a Chelas, que o parlamento decidiu atribuir por unanimidade acompanhada de uma medalha e um diploma como paga pelos meus serviços à pátria, é onde o rei Manoel me vinha buscar aos domingos de manhã para passeios de automóvel(...)"

Pág.135

As Naus (1988) parte de uma premissa muito interessante para, com o perdão do trocadilho, naufragar em um oceano com muito som e fúria mas que não se move. Em Lixboa que se desdobra em todos os tempos e espaços, diversos personagens retornam de suas aventuras na África, de caráter colonial, pois o regime ditatorial foi derrubado (uma alusão ao regime de Salazar) e foi decidido dar liberdade "aos pretos". Apesar do tempo ser uma alusão ao final da década de 70 já com automóveis e revistas, os personagens regressados nada mais são do que os "heróis" da civilização portuguesa: Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Vasco da Gama, Diogo Cão, Manoel de Sousa Sepúlveda e um casal de idosos que cresceu em terras africanas e que perdeu tudo ainda com algumas participações especiais como Cervantes, Garcia Lorca, Buñuel, Francisco de Xavier entre outros.

Amigos, Lobo Antunes não dá ponto sem nó. Esses personagens não voltam para a glória com as quais ficaram conhecidos mas para a completa degradação moral e humana: Pedro Álvares é um alcoolátra, Manoel perde tudo e dorme na praia, Luís fica carregando o corpo do pai de uma lado a outro em Lixboa, Vasco da Gama vive com um baralho de suecas na mão. Ou seja, Todo Mundo se ferrou! Até os espanhóis tem falhas morais e estão na pior, não há espaço para esperança alguma, mas afinal estamos lendo um romance do escritor de Cus de Judas, não era para se esperar algo alegre e como crítico ferroz de Portugal contemporâneo Antunes está mais interessado na crítica do que na história em si. Tudo é um alegoria daquele velho sentimento português de atraso que remota dos tempos de Eça de Queirós e em muitos momentos é tudo uma grande piada com os mitos portugueses. Nesse ponto eu acho que ele perdeu a mão, pois o resultado é demasiadamente inconstante.

Lembro-me de discutir com um colega meu algumas vezes sobre Lobo Antunes e um outro escritor português cujo o nome não deve ser citado, e quase sempre ele me vem com a história de que Lobo Antunes detestava ler romancistas novos pois queria ficar corrigindo tudo e alterando a história. É um sentimento nobre e sendo crítico literário posso entender o que é isso, o fato é que imaginei que teria esse sentimento com um livro do próprio. Mas devemos fazer duas considerações antes de qualquer coisa. A primeira é que em termos do domínio das possibilidades da língua portuguesa, o escritor português é um mestre que pode ser comparado a Guimarães Rosa. Há períodos belíssimos de um poder imagético muito grande em qualquer livro dele, inclusive este. Segundo é que a proposta vale uma leitura atenta pois pe uma ideia realmente bem original. Contudo ter um escritor top com uma ideia fantástica na mão é tão perigoso quanto ter uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Não há garantias que o todo seja tão bom quantos as partes isoladas.

O maior problema de As Naus, a meu ver, é sua falta de ritmo. Em certos momentos ele se arrasta dentro daquilo que se propõem, por mais que prosa seja bem feita o que o escritor faz na maior parte do tempo é dar "passos em volta" de si, do mesmo tema e de temas já explorados em sua trilogia sobre as Guerras na África. Os personagens mudam de nome e de tragédia, mas parecem os mesmos. A narrativa tem o mesmo tom tanto no começo como no final, não há uma climax somente resoluções de histórias que começaram e nunca atingiram um potencial realmente interessante.

As duas histórias que tinham me atráido mais foram as de Manoel e do casal de idosos, contudo elas são interrompidas sem se desenvolver ainda assim. Junte-se a isso a um romance de capítulo quebrados e fica realmente complicado a transição de capítulos, principalmente no começo em que somos jogados de um lado para o outro nas 60 primeiras páginas sendo apresentados a todos os personagens de uma vez. Depois temos uma segunda parte em que se desenvolve algumas histórias e nesse ponto eu comecei a gostar do livro mas isso vai até a 120 e aí começa a se fechar todas as histórias de maneira previsível até o final na 180. Quadradinho... E aí está o ponto de minha crítica. Esta história não tem a mesma força de Os Cus ou Meu Nome é Legião, pois não transcende a uma romance que tem uma função militante de crítica aos ideias portugueses e em certos pontos é até bem engraçado:

"porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lambe uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba"
pág. 133

É um exercício estilístico. Uma chacota. Um romance militante e que é tudo isso na prática, mas esquece de ser primeiramente um romance. Não sai do lugar. Naufraga. É interessante contudo é de se espera mais de um escritor tão interessante quanto Lobo Antunes e nesse ponto foi uma decepção

Engraçado é que durante a leitura, por mais que eu vá irritar alguns fãs do mestre, não me escapou da cabeça um outro livro de temática similar, de um conterrâneo de Lobo Antunes, infelizmente já falecido e que cumpre a função de metáfora-crítica-chacota de uma maneira mais genial na figura de Ricardo Reis. Talvez As Naus funcionasse melhor com um ou dois personagens. Don't know. Só sei que seu nome não será pronunciado aqui mas que foi mais inventivo e genial no plano das metáforas fantasiosas.

 
por Rafael Menezes
19.04.2011

30/04/2011

Nuno Martins: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma


Imaginemos que Portugal, numa época não especificada, mas que aparenta ser nos princípios dos anos 90 do século passado, é assolado por um grupo terrorista de esquerda, de inspiração maoísta, que faz atentados, assaltos, etc., tal como um I.R.A. ou uma E.T.A.

Imaginemos que é criada uma brigada especial da polícia chefiada por um juiz de instrução e que é apanhado um terrorista que por acaso é um amigo de infância desse mesmo juiz que chefia as investigações.
 
António Lobo Antunes, com este mote traz-nos mais outro livro fabuloso, cheio de ironia e que com o seu estilo inconfundível de escrita explora o lado mesquinho das pessoas.
 
Apesar de estar dividido em seis partes, este livro pode-se dividir em duas grandes partes principais, a primeira parte aborda e explora a relação entre o juiz, que como atrás disse é escolhido pelo próprio governo para chefiar as investigações e o interrogatório do "homem" (seu amigo de infância), um elemento de uma célula do grupo terrorista que assola Portugal e que foi capturado pela polícia, sendo que a segunda parte se foca nas pequenas estórias dos intervenientes da acção, tais como os restantes elementos do grupo terrorista e outras personagens periféricas e também nas acções levadas a cabo pela polícia para a captura do grupo terrorista.

A estória da amizade entre o juiz e o homem é complicada, são amigos de infância, mas o juiz é filho de pais pobres e humildes sendo o pai um alcoólico e que vem da província para Lisboa para trabalharem como caseiros na quinta de Benfica que pertence aos avós do Homem.

O Homem, cuja mãe morreu num acidente de automóvel e o pai que ficou com graves deficiências mentais devido ao mesmo acidente, vive com os avós e é um autentico "menino de bem".

Ambos quando crianças partilharam de brincadeiras, partidas, aventuras, sendo que muitas vezes (ou quase sempre) o juiz é "usado" pelo homem e fica sempre com as culpas quando as coisas correm mal e são apanhados a fazerem "asneiras". Entretanto vão crescendo, o juiz torna-se num aluno aplicado, vai para a universidade e consegue ser juiz e o homem, sempre preguiçoso, sem ambição, não segue os estudos e vai trabalhar para a companhia de seguros do avô mas num nível inferior e com a idade vão-se separando e perdendo a amizade um pelo outro.

Até que o homem, que foi aliciado por um colega de trabalho que pertence aos terroristas e o recruta, cai numa armadilha e é capturado pela polícia. O juiz, escolhido por causa da sua ligação com ele em criança, inicia os interrogatórios, e é aí que se vê (lê) a mestria da escrita de Lobo Antunes, que intercala passado com presente de uma forma natural e fluida sem nunca baralhar o leitor.

A seguir aos interrogatórios, o Homem é solto mas a trabalhar para a polícia de forma a ajudar na captura dos restantes elementos do grupo terrorista e a partir daqui Lobo Antunes pega nas pequenas estórias dessas diversas personagens e com muita ironia e até com alguma comédia traça um retrato de Portugal da época, os seus vícios, as suas "vigarices" e "esquemas", os abusos de poder, a política, a falsidade e a traição.

Fala também da decadência, do Portugal do antes 25 de Abril 1974, o Portugal das grandes famílias, quase ainda feudal que se transforma com uma rapidez impressionante num Portugal de acelerado urbanismo descontrolado e valores e ideais totalmente diferentes dos anteriores.

Dos diversos livros de Lobo Antunes que já li, este foi sem dúvida o mais simples de ler e o mais divertido e irónico; gostei bastante e até o aconselho a quem nunca leu Lobo Antunes e se queira iniciar na sua leitura.


Nuno Martins
28.04.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...