19/05/2011

Rafael Menezes: opinião sobre As Naus


edição Alfaguara, Brasil

"Acontecera-lhe de tudo na vida, desde descobrir a Índia e limpar, com as próprias mãos, as diarreias e o vômitos do meu irmão moribundo Paulo da Gama, a ajudar a entupir de rolhas de estearina o caixão do pai de um infeliz qualquer que viajava para o reyno num porão de navio a seguir à revolução de de Lixboa, desde jogar a bisca com oficiais sem pulso no baralho, até, como agora morar de vivenda do bairro econômico da Madre de Deus, a Chelas, que o parlamento decidiu atribuir por unanimidade acompanhada de uma medalha e um diploma como paga pelos meus serviços à pátria, é onde o rei Manoel me vinha buscar aos domingos de manhã para passeios de automóvel(...)"

Pág.135

As Naus (1988) parte de uma premissa muito interessante para, com o perdão do trocadilho, naufragar em um oceano com muito som e fúria mas que não se move. Em Lixboa que se desdobra em todos os tempos e espaços, diversos personagens retornam de suas aventuras na África, de caráter colonial, pois o regime ditatorial foi derrubado (uma alusão ao regime de Salazar) e foi decidido dar liberdade "aos pretos". Apesar do tempo ser uma alusão ao final da década de 70 já com automóveis e revistas, os personagens regressados nada mais são do que os "heróis" da civilização portuguesa: Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Vasco da Gama, Diogo Cão, Manoel de Sousa Sepúlveda e um casal de idosos que cresceu em terras africanas e que perdeu tudo ainda com algumas participações especiais como Cervantes, Garcia Lorca, Buñuel, Francisco de Xavier entre outros.

Amigos, Lobo Antunes não dá ponto sem nó. Esses personagens não voltam para a glória com as quais ficaram conhecidos mas para a completa degradação moral e humana: Pedro Álvares é um alcoolátra, Manoel perde tudo e dorme na praia, Luís fica carregando o corpo do pai de uma lado a outro em Lixboa, Vasco da Gama vive com um baralho de suecas na mão. Ou seja, Todo Mundo se ferrou! Até os espanhóis tem falhas morais e estão na pior, não há espaço para esperança alguma, mas afinal estamos lendo um romance do escritor de Cus de Judas, não era para se esperar algo alegre e como crítico ferroz de Portugal contemporâneo Antunes está mais interessado na crítica do que na história em si. Tudo é um alegoria daquele velho sentimento português de atraso que remota dos tempos de Eça de Queirós e em muitos momentos é tudo uma grande piada com os mitos portugueses. Nesse ponto eu acho que ele perdeu a mão, pois o resultado é demasiadamente inconstante.

Lembro-me de discutir com um colega meu algumas vezes sobre Lobo Antunes e um outro escritor português cujo o nome não deve ser citado, e quase sempre ele me vem com a história de que Lobo Antunes detestava ler romancistas novos pois queria ficar corrigindo tudo e alterando a história. É um sentimento nobre e sendo crítico literário posso entender o que é isso, o fato é que imaginei que teria esse sentimento com um livro do próprio. Mas devemos fazer duas considerações antes de qualquer coisa. A primeira é que em termos do domínio das possibilidades da língua portuguesa, o escritor português é um mestre que pode ser comparado a Guimarães Rosa. Há períodos belíssimos de um poder imagético muito grande em qualquer livro dele, inclusive este. Segundo é que a proposta vale uma leitura atenta pois pe uma ideia realmente bem original. Contudo ter um escritor top com uma ideia fantástica na mão é tão perigoso quanto ter uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Não há garantias que o todo seja tão bom quantos as partes isoladas.

O maior problema de As Naus, a meu ver, é sua falta de ritmo. Em certos momentos ele se arrasta dentro daquilo que se propõem, por mais que prosa seja bem feita o que o escritor faz na maior parte do tempo é dar "passos em volta" de si, do mesmo tema e de temas já explorados em sua trilogia sobre as Guerras na África. Os personagens mudam de nome e de tragédia, mas parecem os mesmos. A narrativa tem o mesmo tom tanto no começo como no final, não há uma climax somente resoluções de histórias que começaram e nunca atingiram um potencial realmente interessante.

As duas histórias que tinham me atráido mais foram as de Manoel e do casal de idosos, contudo elas são interrompidas sem se desenvolver ainda assim. Junte-se a isso a um romance de capítulo quebrados e fica realmente complicado a transição de capítulos, principalmente no começo em que somos jogados de um lado para o outro nas 60 primeiras páginas sendo apresentados a todos os personagens de uma vez. Depois temos uma segunda parte em que se desenvolve algumas histórias e nesse ponto eu comecei a gostar do livro mas isso vai até a 120 e aí começa a se fechar todas as histórias de maneira previsível até o final na 180. Quadradinho... E aí está o ponto de minha crítica. Esta história não tem a mesma força de Os Cus ou Meu Nome é Legião, pois não transcende a uma romance que tem uma função militante de crítica aos ideias portugueses e em certos pontos é até bem engraçado:

"porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lambe uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba"
pág. 133

É um exercício estilístico. Uma chacota. Um romance militante e que é tudo isso na prática, mas esquece de ser primeiramente um romance. Não sai do lugar. Naufraga. É interessante contudo é de se espera mais de um escritor tão interessante quanto Lobo Antunes e nesse ponto foi uma decepção

Engraçado é que durante a leitura, por mais que eu vá irritar alguns fãs do mestre, não me escapou da cabeça um outro livro de temática similar, de um conterrâneo de Lobo Antunes, infelizmente já falecido e que cumpre a função de metáfora-crítica-chacota de uma maneira mais genial na figura de Ricardo Reis. Talvez As Naus funcionasse melhor com um ou dois personagens. Don't know. Só sei que seu nome não será pronunciado aqui mas que foi mais inventivo e genial no plano das metáforas fantasiosas.

 
por Rafael Menezes
19.04.2011

30/04/2011

Nuno Martins: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma


Imaginemos que Portugal, numa época não especificada, mas que aparenta ser nos princípios dos anos 90 do século passado, é assolado por um grupo terrorista de esquerda, de inspiração maoísta, que faz atentados, assaltos, etc., tal como um I.R.A. ou uma E.T.A.

Imaginemos que é criada uma brigada especial da polícia chefiada por um juiz de instrução e que é apanhado um terrorista que por acaso é um amigo de infância desse mesmo juiz que chefia as investigações.
 
António Lobo Antunes, com este mote traz-nos mais outro livro fabuloso, cheio de ironia e que com o seu estilo inconfundível de escrita explora o lado mesquinho das pessoas.
 
Apesar de estar dividido em seis partes, este livro pode-se dividir em duas grandes partes principais, a primeira parte aborda e explora a relação entre o juiz, que como atrás disse é escolhido pelo próprio governo para chefiar as investigações e o interrogatório do "homem" (seu amigo de infância), um elemento de uma célula do grupo terrorista que assola Portugal e que foi capturado pela polícia, sendo que a segunda parte se foca nas pequenas estórias dos intervenientes da acção, tais como os restantes elementos do grupo terrorista e outras personagens periféricas e também nas acções levadas a cabo pela polícia para a captura do grupo terrorista.

A estória da amizade entre o juiz e o homem é complicada, são amigos de infância, mas o juiz é filho de pais pobres e humildes sendo o pai um alcoólico e que vem da província para Lisboa para trabalharem como caseiros na quinta de Benfica que pertence aos avós do Homem.

O Homem, cuja mãe morreu num acidente de automóvel e o pai que ficou com graves deficiências mentais devido ao mesmo acidente, vive com os avós e é um autentico "menino de bem".

Ambos quando crianças partilharam de brincadeiras, partidas, aventuras, sendo que muitas vezes (ou quase sempre) o juiz é "usado" pelo homem e fica sempre com as culpas quando as coisas correm mal e são apanhados a fazerem "asneiras". Entretanto vão crescendo, o juiz torna-se num aluno aplicado, vai para a universidade e consegue ser juiz e o homem, sempre preguiçoso, sem ambição, não segue os estudos e vai trabalhar para a companhia de seguros do avô mas num nível inferior e com a idade vão-se separando e perdendo a amizade um pelo outro.

Até que o homem, que foi aliciado por um colega de trabalho que pertence aos terroristas e o recruta, cai numa armadilha e é capturado pela polícia. O juiz, escolhido por causa da sua ligação com ele em criança, inicia os interrogatórios, e é aí que se vê (lê) a mestria da escrita de Lobo Antunes, que intercala passado com presente de uma forma natural e fluida sem nunca baralhar o leitor.

A seguir aos interrogatórios, o Homem é solto mas a trabalhar para a polícia de forma a ajudar na captura dos restantes elementos do grupo terrorista e a partir daqui Lobo Antunes pega nas pequenas estórias dessas diversas personagens e com muita ironia e até com alguma comédia traça um retrato de Portugal da época, os seus vícios, as suas "vigarices" e "esquemas", os abusos de poder, a política, a falsidade e a traição.

Fala também da decadência, do Portugal do antes 25 de Abril 1974, o Portugal das grandes famílias, quase ainda feudal que se transforma com uma rapidez impressionante num Portugal de acelerado urbanismo descontrolado e valores e ideais totalmente diferentes dos anteriores.

Dos diversos livros de Lobo Antunes que já li, este foi sem dúvida o mais simples de ler e o mais divertido e irónico; gostei bastante e até o aconselho a quem nunca leu Lobo Antunes e se queira iniciar na sua leitura.


Nuno Martins
28.04.2011

Nuno Martins: Opinião sobre Os Cus de Judas


Recentemente li mais um livro de um dos maiores escritores Portugueses vivos.
 
O livro em questão é "Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes, apontado por muitos como o nosso próximo "Nobel da Literatura".
 
Este livro, o segundo na sua já vasta carreira, publicado em 1979, é uma espécie de relato profundo, duro e intimista sobre a sua experiência durante os 27 meses que serviu como Alferes/Tenente miliciano médico na guerra colonial, mais propriamente em Angola.
 
O livro funciona como uma espécie de diálogo entre ele a uma outra personagem feminina, que se inicia num bar de noite e continua noite dentro até de manhã na casa dele.
 
Dividido em 23 capítulos, identificados com as letras do alfabeto, cruza o presente (da época em que foi escrito o livro), com o passado, através da descrição da guerra.
 
Os episódios em relação à guerra são duros, vistos com a intensidade de quem neles participou, com uma linguagem própria, sem pudor e sem esconder nada, descrevendo a violência exterior da guerra, com os combates, mortes, feridos, sangue, etc., como a interior, própria de quem nela participava, com os seus conflitos morais ou ausência deles.
 
Os intervenientes são apresentados como pessoas normais que, sujeitas à situação particular da guerra, respondem às situações de diversas maneiras, mostrando a natureza humana debaixo de condições adversas...
 
Fica também demonstrado neste livro uma crítica muito grande ao regime, tanto nos acontecimentos relativos às intervenções de inspectores da PIDE no terreno, como às chefias militares e políticas em Lisboa.
 
Adorei este livro, não é de leitura fácil e tem passagens muito fortes, tal como os restantes livros de Lobo Antunes é para ser lido com muita calma, paciência e gosto.
 
Mostra uma fase difícil na história portuguesa contemporânea, que deixou feridas, físicas e psicológicas, a uma geração inteira de jovens que foram enviados para a guerra, sem saber muito bem porquê...
 
Recomendo este livro a todos.


por Nuno Martins
17.08.2008

Nuno Martins: opinião sobre Fado Alexandrino


Fado Alexandrino, é o 5º livro de António Lobo Antunes e é igualmente o maior.

Este livro, arranjando assim um ponto de comparação é uma espécie de "Ulisses" do James Joyce.

A acção propriamente dita decorre durante uma noite, madrugada e respectiva manhã em que num jantar de convívio de ex-combatentes da guerra colonial que tinham combatido em Moçambique, um grupo homens, o tenente - coronel (comandante do batalhão), um soldado, um alferes, um tenente e um capitão, vão contar toda a sua vida desde o dia da sua chegada da guerra até ao fim dessa manhã.

Sendo assim, o livro está dividido em três partes; antes da revolução, a revolução e depois da revolução e é nesse espaço temporal que a narrativa se vai desenrolando, com os personagens a contar todas as suas peripécias, contratempos, amores, desamores, casamentos, divórcios e tudo o mais que lhes aconteceu durante esses anos.

O livro para além de ser muito intenso (já se começa a notar o Lobo Antunes de escritos futuros), é também uma crítica profunda ao Portugal da década de 70 do século passado, com todos os seus defeitos, mesquinhices e brejeirices que nessa época (e na nossa igualmente) abundavam. É também uma crítica política pondo à mostra primeiro os excessos do regime anterior e da Pide e depois com a revolução, e a passagem de um regime acomodado e repressivo a um regime libertário e até mesmo um pouco "anarca", que foi o do Portugal pós 25 de Abril, o caos e os aproveitamentos políticos e vinganças pessoais que daí advieram.
 
O livro tem um final inesperado, que vai contribuir para um desenlace da história nada esperado.

Eu gostei deste livro, tem uma história bem construída, a vida dos personagens é complexa e por vezes cruza-se, sem eles próprios se aperceberem e é igualmente como atrás referi uma espécie de descrição de usos e costumes do Portugal da década de 70 do século XX.

Para quem nunca leu Lobo Antunes, não aconselho este livro para se iniciar, agora para quem já leu e quiser aventurar-se e tiver "paciência", devido ao tamanho do livro, aconselho-o vivamente.

 
Nuno Martins
05.11.2008

30/03/2011

Doutor Honoris Causa para António Lobo Antunes pela Universidade de Lisboa

O escritor António Lobo Antunes, hoje [22.03.2011] doutorado Honoris Causa pela Universidade de Lisboa, agradeceu o facto de esta juntar o seu a quatro nomes da sua família ligados à instituição, que comemora o centenário.


«O meu sangue está ligado há 100 anos a esta universidade – o meu bisavô, João Maria de Almeida Lima, foi professor nesta universidade e segundo reitor dela; o meu tio-avô Pedro de Almeida Lima foi aqui professor; o meu pai, João Lobo Antunes, também foi aqui professor; e o meu irmão João Lobo Antunes é professor nesta universidade – e agradeço ao magnífico reitor o facto de ter colocado, de alguma maneira, o meu nome junto destes quatro nomes», disse o escritor.

António Lobo Antunes falava hoje ao fim da tarde na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, na sessão comemorativa dos 100 anos da instituição, após o elogio que lhe foi feito pelo professor José Barata-Moura e de ter recebido das mãos do reitor, António Sampaio da Nóvoa, as insígnias de Doutor Honoris Causa: a medalha com as armas da universidade e o diploma com a sua chancela.

«É evidente que esta honra não me foi outorgada por ter sido um excelente aluno. Pelo contrário, era um aluno extremamente medíocre da Universidade de Lisboa», observou, fazendo rir a audiência.
Para o escritor, «se não fossem os esforços porfiados da família, nunca teria feito o curso de Medicina», porque a única coisa que lhe interessava era escrever: «Desde os sete, oito anos que tinha dentro de mim a convicção profunda e inabalável de que era um génio absoluto e de que ia mudar a literatura portuguesa – de que ia mudar a literatura ‘tout court’».

«E espantava-me muitas vezes, aos 13 anos, quando passava na rua, que as pessoas não vissem isso, não parassem para me olhar extasiadas… E não eram só elas que não viam: os professores do liceu também não viam, os da faculdade também não viram – era eu sozinho que via», comentou, enquanto a sala se enchia de gargalhadas.

«Não era romances que me interessava escrever. A minha ambição era mais simples: queria pôr a vida inteira entre as capas de um livro. E a cada livro acabado – eu não publicava nada, escrevia-os e deitava-os fora -, pensava ‘ainda não é isto, ainda não é isto’, como continuo a pensar agora que ‘ainda não é isto, tenho de ir mais longe, tenho de ir mais fundo, tenho de trabalhar mais’», disse.

Depois, falou do seu amigo José Cardoso Pires, escritor «cuja obra já quase não é lida», que todos os dias lhe telefonava às dez da manhã e um dia ligou mais tarde e lhe disse «É para te dar os parabéns, porque eu ganhei um prémio», um anúncio que Lobo Antunes interpretou assim: «Foi a declaração de amizade mais bonita que alguma vez recebi».

Da mesma forma, hoje, exactamente quatro anos após o diagnóstico de um tumor que o fez «negociar livros com a morte» – o que, afirma, continua a fazer, tendo a consciência de que a sua obra nunca estará completa -, o escritor agradeceu aos três médicos que o trataram.

«Parabéns, Henrique, por eu ainda estar aqui; parabéns, Leonor, por eu estar aqui; parabéns Luís, por eu estar aqui. É graças a vocês que posso continuar a escrever», concluiu.

Fonte: Sol

07/03/2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Conhecimento do Inferno


É curiosa a forma como uns anos de permeio e muitas leituras me fizeram ter uma perspectiva tão diferente do mesmo livro!

É verdade. Acabei de reler este livro há já uns dias. E, se da primeira vez tinha ficado com uma ideia de diferença em relação ao único que havia lido (Memória de Elefante) do mesmo autor agora, pelo contrário, achei-o muito parecido com os dois anteriores. Quando me refiro a parecido quero dizer na forma. Bom, na forma e, no conteúdo também pois, na verdade, julgo até que este poderia ser a “continuação” do primeiro…

Em ambos aparece a personagem principal colada a ALA; psiquiatra, frustrado na sua profissão mas também na sua vida pessoal, marcado pelas memórias de uma guerra que, embora não sendo a sua guerra, lhe deixou marcas indeléveis, assolado por recordações mais ou menos intimistas, mais ou menos determinantes.

Se a linha narrativa de um e de outro se separam, a razão desta, julgo eu, mantém-se a mesma em ambos; a necessidade da catarse.

Embora seja de opinião que já se comecem a notar as marcas que determinarão o caminho que os livros mais recentes de ALA virão a tomar, existe ainda uma certa linearidade na forma de contar.

Ora bem, não é linear. Mas a forma como fracciona o discurso não é ainda tão elaborada como virá a ser.

Também pelo facto de me parecer bastante autobiográfico tendo a aproximá-lo quer do “Cus de Judas” quer do já citado “Memória de Elefante”.

Se nos outros eram essencialmente as memórias da guerra, que imprimiu marcas indeléveis no autor, que prevaleciam neste, porém, é a sua experiência enquanto psiquiatra hospitalar que sobressai.

E vai fundo no contar dessas experiências. E veste a pele do doente psiquiátrico, a sua solidão a desolação do hospital em si. Explora as dúvidas e as amarguras do clínico.

Evidentes também as constantes alusões à sua família, a locais que foram seus locais, a uma vida que estou em crer terá sido também um pouco a sua.

Com um registo belíssimo, pejado de metáforas incríveis de pendor eminentemente poético, vai desfiando essa sua experiência negra ao longo de uma escrita na qual se vai notando um esforço no burilar da forma. A narrativa fica mais complexa e passamos a ter necessidade de acompanhar a vontade das personagens e não apenas o fio do enredo.

Como sempre deixou-me com água na boca.


Maria Celeste Pereira
20.10.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...