30 de abril de 2011

Nuno Martins: opinião sobre Tratado das Paixões da Alma


Imaginemos que Portugal, numa época não especificada, mas que aparenta ser nos princípios dos anos 90 do século passado, é assolado por um grupo terrorista de esquerda, de inspiração maoísta, que faz atentados, assaltos, etc., tal como um I.R.A. ou uma E.T.A.

Imaginemos que é criada uma brigada especial da polícia chefiada por um juiz de instrução e que é apanhado um terrorista que por acaso é um amigo de infância desse mesmo juiz que chefia as investigações.
 
António Lobo Antunes, com este mote traz-nos mais outro livro fabuloso, cheio de ironia e que com o seu estilo inconfundível de escrita explora o lado mesquinho das pessoas.
 
Apesar de estar dividido em seis partes, este livro pode-se dividir em duas grandes partes principais, a primeira parte aborda e explora a relação entre o juiz, que como atrás disse é escolhido pelo próprio governo para chefiar as investigações e o interrogatório do "homem" (seu amigo de infância), um elemento de uma célula do grupo terrorista que assola Portugal e que foi capturado pela polícia, sendo que a segunda parte se foca nas pequenas estórias dos intervenientes da acção, tais como os restantes elementos do grupo terrorista e outras personagens periféricas e também nas acções levadas a cabo pela polícia para a captura do grupo terrorista.

A estória da amizade entre o juiz e o homem é complicada, são amigos de infância, mas o juiz é filho de pais pobres e humildes sendo o pai um alcoólico e que vem da província para Lisboa para trabalharem como caseiros na quinta de Benfica que pertence aos avós do Homem.

O Homem, cuja mãe morreu num acidente de automóvel e o pai que ficou com graves deficiências mentais devido ao mesmo acidente, vive com os avós e é um autentico "menino de bem".

Ambos quando crianças partilharam de brincadeiras, partidas, aventuras, sendo que muitas vezes (ou quase sempre) o juiz é "usado" pelo homem e fica sempre com as culpas quando as coisas correm mal e são apanhados a fazerem "asneiras". Entretanto vão crescendo, o juiz torna-se num aluno aplicado, vai para a universidade e consegue ser juiz e o homem, sempre preguiçoso, sem ambição, não segue os estudos e vai trabalhar para a companhia de seguros do avô mas num nível inferior e com a idade vão-se separando e perdendo a amizade um pelo outro.

Até que o homem, que foi aliciado por um colega de trabalho que pertence aos terroristas e o recruta, cai numa armadilha e é capturado pela polícia. O juiz, escolhido por causa da sua ligação com ele em criança, inicia os interrogatórios, e é aí que se vê (lê) a mestria da escrita de Lobo Antunes, que intercala passado com presente de uma forma natural e fluida sem nunca baralhar o leitor.

A seguir aos interrogatórios, o Homem é solto mas a trabalhar para a polícia de forma a ajudar na captura dos restantes elementos do grupo terrorista e a partir daqui Lobo Antunes pega nas pequenas estórias dessas diversas personagens e com muita ironia e até com alguma comédia traça um retrato de Portugal da época, os seus vícios, as suas "vigarices" e "esquemas", os abusos de poder, a política, a falsidade e a traição.

Fala também da decadência, do Portugal do antes 25 de Abril 1974, o Portugal das grandes famílias, quase ainda feudal que se transforma com uma rapidez impressionante num Portugal de acelerado urbanismo descontrolado e valores e ideais totalmente diferentes dos anteriores.

Dos diversos livros de Lobo Antunes que já li, este foi sem dúvida o mais simples de ler e o mais divertido e irónico; gostei bastante e até o aconselho a quem nunca leu Lobo Antunes e se queira iniciar na sua leitura.


Nuno Martins
28.04.2011

Nuno Martins: Opinião sobre Os Cus de Judas


Recentemente li mais um livro de um dos maiores escritores Portugueses vivos.
 
O livro em questão é "Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes, apontado por muitos como o nosso próximo "Nobel da Literatura".
 
Este livro, o segundo na sua já vasta carreira, publicado em 1979, é uma espécie de relato profundo, duro e intimista sobre a sua experiência durante os 27 meses que serviu como Alferes/Tenente miliciano médico na guerra colonial, mais propriamente em Angola.
 
O livro funciona como uma espécie de diálogo entre ele a uma outra personagem feminina, que se inicia num bar de noite e continua noite dentro até de manhã na casa dele.
 
Dividido em 23 capítulos, identificados com as letras do alfabeto, cruza o presente (da época em que foi escrito o livro), com o passado, através da descrição da guerra.
 
Os episódios em relação à guerra são duros, vistos com a intensidade de quem neles participou, com uma linguagem própria, sem pudor e sem esconder nada, descrevendo a violência exterior da guerra, com os combates, mortes, feridos, sangue, etc., como a interior, própria de quem nela participava, com os seus conflitos morais ou ausência deles.
 
Os intervenientes são apresentados como pessoas normais que, sujeitas à situação particular da guerra, respondem às situações de diversas maneiras, mostrando a natureza humana debaixo de condições adversas...
 
Fica também demonstrado neste livro uma crítica muito grande ao regime, tanto nos acontecimentos relativos às intervenções de inspectores da PIDE no terreno, como às chefias militares e políticas em Lisboa.
 
Adorei este livro, não é de leitura fácil e tem passagens muito fortes, tal como os restantes livros de Lobo Antunes é para ser lido com muita calma, paciência e gosto.
 
Mostra uma fase difícil na história portuguesa contemporânea, que deixou feridas, físicas e psicológicas, a uma geração inteira de jovens que foram enviados para a guerra, sem saber muito bem porquê...
 
Recomendo este livro a todos.


por Nuno Martins
17.08.2008

Nuno Martins: opinião sobre Fado Alexandrino


Fado Alexandrino, é o 5º livro de António Lobo Antunes e é igualmente o maior.

Este livro, arranjando assim um ponto de comparação é uma espécie de "Ulisses" do James Joyce.

A acção propriamente dita decorre durante uma noite, madrugada e respectiva manhã em que num jantar de convívio de ex-combatentes da guerra colonial que tinham combatido em Moçambique, um grupo homens, o tenente - coronel (comandante do batalhão), um soldado, um alferes, um tenente e um capitão, vão contar toda a sua vida desde o dia da sua chegada da guerra até ao fim dessa manhã.

Sendo assim, o livro está dividido em três partes; antes da revolução, a revolução e depois da revolução e é nesse espaço temporal que a narrativa se vai desenrolando, com os personagens a contar todas as suas peripécias, contratempos, amores, desamores, casamentos, divórcios e tudo o mais que lhes aconteceu durante esses anos.

O livro para além de ser muito intenso (já se começa a notar o Lobo Antunes de escritos futuros), é também uma crítica profunda ao Portugal da década de 70 do século passado, com todos os seus defeitos, mesquinhices e brejeirices que nessa época (e na nossa igualmente) abundavam. É também uma crítica política pondo à mostra primeiro os excessos do regime anterior e da Pide e depois com a revolução, e a passagem de um regime acomodado e repressivo a um regime libertário e até mesmo um pouco "anarca", que foi o do Portugal pós 25 de Abril, o caos e os aproveitamentos políticos e vinganças pessoais que daí advieram.
 
O livro tem um final inesperado, que vai contribuir para um desenlace da história nada esperado.

Eu gostei deste livro, tem uma história bem construída, a vida dos personagens é complexa e por vezes cruza-se, sem eles próprios se aperceberem e é igualmente como atrás referi uma espécie de descrição de usos e costumes do Portugal da década de 70 do século XX.

Para quem nunca leu Lobo Antunes, não aconselho este livro para se iniciar, agora para quem já leu e quiser aventurar-se e tiver "paciência", devido ao tamanho do livro, aconselho-o vivamente.

 
Nuno Martins
05.11.2008

30 de março de 2011

Doutor Honoris Causa para António Lobo Antunes pela Universidade de Lisboa

O escritor António Lobo Antunes, hoje [22.03.2011] doutorado Honoris Causa pela Universidade de Lisboa, agradeceu o facto de esta juntar o seu a quatro nomes da sua família ligados à instituição, que comemora o centenário.


«O meu sangue está ligado há 100 anos a esta universidade – o meu bisavô, João Maria de Almeida Lima, foi professor nesta universidade e segundo reitor dela; o meu tio-avô Pedro de Almeida Lima foi aqui professor; o meu pai, João Lobo Antunes, também foi aqui professor; e o meu irmão João Lobo Antunes é professor nesta universidade – e agradeço ao magnífico reitor o facto de ter colocado, de alguma maneira, o meu nome junto destes quatro nomes», disse o escritor.

António Lobo Antunes falava hoje ao fim da tarde na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, na sessão comemorativa dos 100 anos da instituição, após o elogio que lhe foi feito pelo professor José Barata-Moura e de ter recebido das mãos do reitor, António Sampaio da Nóvoa, as insígnias de Doutor Honoris Causa: a medalha com as armas da universidade e o diploma com a sua chancela.

«É evidente que esta honra não me foi outorgada por ter sido um excelente aluno. Pelo contrário, era um aluno extremamente medíocre da Universidade de Lisboa», observou, fazendo rir a audiência.
Para o escritor, «se não fossem os esforços porfiados da família, nunca teria feito o curso de Medicina», porque a única coisa que lhe interessava era escrever: «Desde os sete, oito anos que tinha dentro de mim a convicção profunda e inabalável de que era um génio absoluto e de que ia mudar a literatura portuguesa – de que ia mudar a literatura ‘tout court’».

«E espantava-me muitas vezes, aos 13 anos, quando passava na rua, que as pessoas não vissem isso, não parassem para me olhar extasiadas… E não eram só elas que não viam: os professores do liceu também não viam, os da faculdade também não viram – era eu sozinho que via», comentou, enquanto a sala se enchia de gargalhadas.

«Não era romances que me interessava escrever. A minha ambição era mais simples: queria pôr a vida inteira entre as capas de um livro. E a cada livro acabado – eu não publicava nada, escrevia-os e deitava-os fora -, pensava ‘ainda não é isto, ainda não é isto’, como continuo a pensar agora que ‘ainda não é isto, tenho de ir mais longe, tenho de ir mais fundo, tenho de trabalhar mais’», disse.

Depois, falou do seu amigo José Cardoso Pires, escritor «cuja obra já quase não é lida», que todos os dias lhe telefonava às dez da manhã e um dia ligou mais tarde e lhe disse «É para te dar os parabéns, porque eu ganhei um prémio», um anúncio que Lobo Antunes interpretou assim: «Foi a declaração de amizade mais bonita que alguma vez recebi».

Da mesma forma, hoje, exactamente quatro anos após o diagnóstico de um tumor que o fez «negociar livros com a morte» – o que, afirma, continua a fazer, tendo a consciência de que a sua obra nunca estará completa -, o escritor agradeceu aos três médicos que o trataram.

«Parabéns, Henrique, por eu ainda estar aqui; parabéns, Leonor, por eu estar aqui; parabéns Luís, por eu estar aqui. É graças a vocês que posso continuar a escrever», concluiu.

Fonte: Sol

7 de março de 2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Conhecimento do Inferno


É curiosa a forma como uns anos de permeio e muitas leituras me fizeram ter uma perspectiva tão diferente do mesmo livro!

É verdade. Acabei de reler este livro há já uns dias. E, se da primeira vez tinha ficado com uma ideia de diferença em relação ao único que havia lido (Memória de Elefante) do mesmo autor agora, pelo contrário, achei-o muito parecido com os dois anteriores. Quando me refiro a parecido quero dizer na forma. Bom, na forma e, no conteúdo também pois, na verdade, julgo até que este poderia ser a “continuação” do primeiro…

Em ambos aparece a personagem principal colada a ALA; psiquiatra, frustrado na sua profissão mas também na sua vida pessoal, marcado pelas memórias de uma guerra que, embora não sendo a sua guerra, lhe deixou marcas indeléveis, assolado por recordações mais ou menos intimistas, mais ou menos determinantes.

Se a linha narrativa de um e de outro se separam, a razão desta, julgo eu, mantém-se a mesma em ambos; a necessidade da catarse.

Embora seja de opinião que já se comecem a notar as marcas que determinarão o caminho que os livros mais recentes de ALA virão a tomar, existe ainda uma certa linearidade na forma de contar.

Ora bem, não é linear. Mas a forma como fracciona o discurso não é ainda tão elaborada como virá a ser.

Também pelo facto de me parecer bastante autobiográfico tendo a aproximá-lo quer do “Cus de Judas” quer do já citado “Memória de Elefante”.

Se nos outros eram essencialmente as memórias da guerra, que imprimiu marcas indeléveis no autor, que prevaleciam neste, porém, é a sua experiência enquanto psiquiatra hospitalar que sobressai.

E vai fundo no contar dessas experiências. E veste a pele do doente psiquiátrico, a sua solidão a desolação do hospital em si. Explora as dúvidas e as amarguras do clínico.

Evidentes também as constantes alusões à sua família, a locais que foram seus locais, a uma vida que estou em crer terá sido também um pouco a sua.

Com um registo belíssimo, pejado de metáforas incríveis de pendor eminentemente poético, vai desfiando essa sua experiência negra ao longo de uma escrita na qual se vai notando um esforço no burilar da forma. A narrativa fica mais complexa e passamos a ter necessidade de acompanhar a vontade das personagens e não apenas o fio do enredo.

Como sempre deixou-me com água na boca.


Maria Celeste Pereira
20.10.2010

28 de fevereiro de 2011

«Escribir y traducir desde Portugal» - Instituto Cervantes


«El escritor portugués António Lobo Antunes inaugura, con su disertación "Escribir y traducir desde Portugal", el ciclo de conferencias "Escribir y traducir en el espacio ibérico", programado para 2011 dentro del proyecto Espacio de las Lenguas Ibéricas».

07.02.2011

*falado em espanhol

(70 minutos aproximadamente)

Uma vez mais obrigado a Sandra Amante.

19 de fevereiro de 2011

«Cartas da Guerra» adaptado ao cinema por Ivo M. Ferreira

Citando o site Ponto Final:


Existe uma iconografia do que foi o conflito no Vietname, uma guerra feita ao tempo em que ainda não passava na TV. Foi o cinema que recriou as imagens, criou o imaginário colectivo. Em Portugal, não há disso – a guerra colonial portuguesa continua presente, 50 anos depois, mas o lado iconográfico não está lá. Para Edgar Medina, co-argumentista de “Cartas da Guerra”, o filme de Ivo M. Ferreira que será rodado no próximo ano, o desafio da adaptação da obra de Lobo Antunes ao cinema também passa pela criação desta imagem que falta a quem é português. E não foi à guerra.
Edgar Medina colabora frequentes vezes com Ivo M. Ferreira e a ideia de construir um argumento com base nos aerogramas enviados de Angola por Lobo Antunes à sua jovem mulher foi, desde logo, recebida com entusiasmo. “Além de gostar muito da obra de Lobo Antunes conhecia já as cartas e a hipótese de estar a lidar com um momento importante da história contemporânea portuguesa é algo que considerei bastante interessante”, conta o co-argumentista, a trabalhar agora em Macau. O interesse foi crescendo à medida que a investigação se foi fazendo e se descobriram outros lados da guerra.
Medina atribui à ditadura – e depois à necessidade de se viver em paz que o 25 de Abril trouxe – o facto de a sociedade portuguesa nunca ter lidado de “forma adequada com os problemas e os fantasmas da guerra colonial, apesar de continuar muito presente no dia-a-dia de muitos portugueses, de muitas famílias, e de ser um assunto que tem de ser abordado”.
O trabalho para o filme “Cartas da Guerra” levou à descoberta de algo que não chega ao grande público, mas que existe: os muitos livros que antigos combatentes têm publicado nos últimos anos, as tertúlias mensais de escritores do Ultramar, uma realidade à qual Medina e Ferreira foram “beber muita informação”.
Porque é de Lobo Antunes que se trata neste projecto, que seduziu o Instituto do Cinema e do Audiovisual de Portugal, mas também toda uma geração, o labor não foi simples: “Por uma questão ética, por se tratar de um trabalho com uma certa importância histórica, um trabalho biográfico”.
A “muita investigação” ajudou, porque “as coisas tornaram-se relativamente claras” e “todo o percurso de Lobo Antunes, nomeadamente o primeiro ano da comissão de serviço é, do ponto de vista dramático, muito cinematográfico”. Edgar Medina desenvolve: “A progressão do jovem médico que é afastado da sua mulher e a sua descida ao Inferno em África, a progressão de quartel para quartel que vai fazendo em Angola, foi uma certa surpresa verificar que tudo aquilo era profundamente adequado às regras dramáticas e como era uma realidade muito cinematográfica”.
Quanto à metodologia para a construção do argumento, houve um “trabalho paralelo que extravasou as cartas, um trabalho de investigação histórica, que passou pelo batalhão de Lobo Antunes e pelo arquivo militar”. Medina destaca ainda algo que considera muito importante: a obra que António Lobo Antunes fez enquanto escritor de ficção – nas suas crónicas, nos seus romances – em torno da guerra colonial.
Embora “Cartas da Guerra” seja um filme sobre uma história que pertence à dimensão colectiva, “há visões muito díspares de antigos combatentes do que foi a guerra colonial”, constata. “Achei sempre muito importante que a história que contamos de Lobo Antunes fosse uma história que estivesse impregnada da sua visão.” E esta visão é a de uma geração “a quem foi cometida uma imensa infâmia, que aos 17, 18, 19 anos foi mandada para a guerra, separada da família e sujeita a uma verdadeira barbárie”. Em “Cartas da Guerra” é disto que se fala. E do imenso amor que Lobo Antunes levou de Lisboa para Angola, fixado e vivido em pedaços de papel.


18.02.2011

16 de dezembro de 2010

Ana Paula Arnaut disserta sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios Que Vão de António Lobo Antunes:
quando as semelhanças não podem ser coincidências *

Há trinta anos atrás, num artigo intitulado “Sôbolos rios que vão: uma estética arquitectónica”, Maria Vitalina Leal de Matos confessa ter sido “levada a constatar e a admitir que o poema, a muitos títulos assombroso, pode facilmente decepcionar o leitor, desprovido como é das qualidades estéticas com que o lirismo camoniano mais frequentemente deslumbra” .

Não sendo embora nossa intenção fazer um pormenorizado estudo comparativo entre as redondilhas de Camões1 e o novo romance de António Lobo Antunes, não podemos deixar de verificar as inúmeras semelhanças entre os dois textos. Desde logo, a apropriação integral, para título do livro, do primeiro verso do célebre poema camoniano. É verdade, diga-se a propósito, que a identificação titular poderia não constituir um facto significativo, pois já nos habituámos a que o pórtico da obra nem sempre revele o que vai dentro das suas páginas, escondendo mais do que revelando, confundindo mais do que esclarecendo, frustrando expectativas de leitura mais do confirmando as inicialmente criadas. Não é exactamente este o caso, como veremos de seguida.


* este artigo foi apresentado no Colóquio Pensar a Literatura no século XXI - Faculdade de Filosofia / Universidade Católica Portuguesa, Braga (30 de Setembro e 1 de Outubro de 2010), e agora publicado no nosso espaço por cortesia de Ana Paula Arnaut

por Ana Paula Arnaut
Universidade de Coimbra
Setembro de 2010

15 de dezembro de 2010

Filipa Melo: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O senhor da cama onze

O protagonista do novo romance procura o aconchego nas imagens míticas da infância, o Lobo Antunes aproxima-se do lirismo autoconfessional.

«Deixaram-no atrás duma janela sem paisagem, num tempo velado, oco.» O sujeito é José Cardoso Pires, vítima de acidente vascular cerebral e descrevendo-o em De profundis, Valsa Lenta (1997). Mas o sujeito podia ser António Lobo Antunes, vítima de cancro («um ouriço», com os espinhos emboscados nas vísceras na tensão das raposas»), experimentando a queda e o renascimento e, agora, descrevendo-o em Sôbolos Rios Que Vão. «Antoninho» ou «o senhor Antunes da cama onze» está preso na enfermaria de um hospital lisboeta, também ele suportando o peso do tempo, «velado, oco». Então, «cada gesto que não fazia gritava, cada movimento da cabeça na almofada gritava, cada centímetro de pele gritava, que difícil esconder este medo». O refúgio são as memórias da infância (Sião ou o Paraíso Perdido), quando «quase tudo tranquilo» e o pai lhe mostrou a nascente do Mondego, «um fiozito entre penedos quase no alto da serra». Ao longo de 200 páginas, o protagonista apresenta-se em suspensão entre a nascente e a foz da sua biografia, apelando ao passado para, ao seu lado, lutar contra a presença ameaçadora da Morte.

Sôbolos Rios Que Vão é o melhor título de livro de Lobo Antunes. A evocação extrapola o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Camões, e suporta a totalidade da narrativa, dividida em 15 capítulos/dias (de «21 de Março de 2007» a «4 de Abril de 2007», o tempo do internamento), narrados pelo protagonista na terceira pessoa. Com este romance, é a própria epopeia ficcional do escritor que desemboca na lírica autoconfessional, encerrando-se em círculo fechado com Memória de Elefante, a estreia em 1979. E pode ser o protagonista/autor a dizer-nos: «Sôbolos rios que vão por / Babilónia, me achei, / Onde sentado chorei / as lembranças de Sião.»

Reconhecemos quem fala enquanto «assist[e] ao tempo», entre o cuidado dos enfermeiros e dos médicos e os espectros que vêm: os comboios do Libério, a carroça do Virgílio, a D. Irene na harpa, o avô a dar-lhe comida à boca, a estrangeira loira, o pai e a empregada na despensa, a avó a acender uma ampola no escuro, Maria Otília e a mãe, as três figuras protectoras. Já em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? era manifesta a presença do autor no texto. Em Sôbolos Rios Que Vão, a longa polifonia de monólogos lobo-antunianos (como «os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam a unir» ou «um cortejo de botas») unifica-se numa única voz narrativa, a origem clara de todas as visões prismáticas. É o protagonista quem sobrepõe o tempo e território da infância aos da doença. Procura nas imagens míticas da criança a ordem e o aconchego que fogem dele agora adulto. Expõe camadas desorganizadas de memórias, as suas contradições reveladoras, e pergunta: «És o Antoninho, não és?» No final, «exeunt omnes» (todos saem) e o protagonista/autor regressa finalmente a si (curado), «o senhor Antunes sobre os rios a caminho da foz».


por Filipa Melo
Revista LER nº 96
Novembro 2010

27 de novembro de 2010

Norberto do Vale Cardoso: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O Livro dos Viventes, António Lobo Antunes e Sôbolos Rios Que Vão

No colóquio A Escrita e O Mundo Em António Lobo Antunes, Carlos Reis havia referido que a obra de António Lobo Antunes é uma “casa de onde se vê o rio”, frase que, de certo modo, parece prenunciar o título do mais recente livro do autor: Sôbolos Rios Que Vão. Baseado num poema de Luís de Camões, este romance demonstra que a obra de Lobo Antunes não se cinge a ser uma casa de onde se vê o rio. A verdade é que a obra antuniana, como o rio - e como a vida -, flui e reflui num continuum, eterno projecto do autor fazer da sua uma obra “redonda” (crónica “As Mãos são as folhas dos gestos”), porque para António Lobo Antunes a vida é a obra e a obra será como um rio.

Como bem o entrevê Maria Alzira Seixo, em Sôbolos Rios, a importância atribuída à visita à nascente do Mondego “adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratamentos.” A montante está a infância, naturalmente, em que o doente conhecera a nascente do Mondego com o pai, personagem fulcral, pois é este que o leva a esse lugar genesíaco (não se trata apenas da nascente do rio, mas também da sua formação enquanto um “ser vivente” e enquanto escritor). O caminho de regresso à nascente é, por isso mesmo, um caminho inverso ao que faz o rio (ou mesmo a vida), como se o senhor Antunes principiasse novamente o seu percurso de vida. Este regresso memorial à nascente do rio Mondego e à vila/ serra trata-se, pois, de um processo curativo, em que se imiscuem o hotel e o hospital. E ainda que nenhum deles possa ser uma representação estanque do passado ou do presente, pelo facto de ser operado no hospital, lugar onde o corpo está atido à realidade física e fugaz da matéria de que somos feitos, a memória e a imaginação transportam a personagem para um lugar da infância, o hotel dos ingleses, onde acaba por ser operado, como se, permita-se-nos a redundância, operasse uma fuga ou cura do espírito.



por Norberto do Vale Cardoso
enviado por e-mail
26.11.2010

20 de novembro de 2010

Justo Navarro: sobre El Archipiélago del Insomnio

Música de obsessão



Perguntaram ao poeta Gabriel Ferrater se não lhe parecia terrível a realidade, e Ferrater, que sabia do assunto, respondeu imediatamente: "E a irrealidade é o quê?". António Lobo Antunes escreveu O Arquipélago da Insónia para se entender com a irrealidade, esse assunto terrível, tão solidário com a insónia, com a vigília e os seus sonhos. Inventou um narrador que, insignificante, ergue um mundo, uma quinta, uma casa, quartos, móveis. De fotografias antigas retira uma mãe, um pai, os pais dos pais, um irmão, as criadas, os caseiros de uma quinta, e as figuras dos retratos começam a falar e a mover-se, espíritos nervosos de carne.

Alguém conta uma história, e avisa que é apenas um conto, nem sequer o seu, e logo sabemos que é outra mão que vai escrevendo. Lobo Antunes conta a história de uma casa e de uma família, promíscua, quase incestuosa, patriarcal, de amos e servos, uma casa onde ninguém olha para ninguém. Quem se aproxima do outro, fá-lo por medo. Nesta casa de desolação a morte entra e sai como mais um parente, quase com bom humor. Lobo Antunes foi ao centro de quase todos os romances:  família, uma casa, a terra, algo que disputam uns com os outros num espaço fechado, ainda que seja apenas o afecto, ou o favor sexual. Existem dois filhos, um amado e o outro não, um aceite e o outro idiota. O avô, o patriarca, é puro poder, e partilha a mulher do filho único. Vem de uma história que parece ter sido imaginada por Faulkner: chegou à aldeia um homem com o seu ajudante e "uma mulher de que se serviam os dois". Mal vivem num casebre e  convertem-no numa quinta riquíssima.

As mulheres matam-se com veneno. Os homens assassinam com espingarda, fuzil, enxada, navalha. Ardem celeiros enquanto os camponeses revoltosos degolam animais e derrubam depósitos de água e máquinas segadoras. Mas tudo parece uma visão, imagem interior, filme de palavras febris. Podíamos estar nos anos vinte do século passado, em Portugal, se não fosse por algum anacronismo que potencia a sensação de ilusão, de uma certa insegurança física. Os tucanos cruzam o céu, impossíveis, como se a quinta fantástica fosse no Brasil, por exemplo, num outro mundo. Aqui não há tucanos, diz ao narrador uma voz sensata. "Não existimos, o que digo não existiu", esclarece o narrador. O imaginário é maior que o real, porque no imaginário cabe a realidade.

E então Lobo Antunes abre um segundo nível: agora estamos na realidade do narrador, num hospital, muros, fechaduras, injecções, visitas de familiares. Chamam autista ao narrador os enfermeiros, ainda que outros poderiam considerá-lo esquizofrénico, pela sua memória fabulosa ou falsa. "Que disparate, tucanos", diz a mãe real. De que quinta nos fala? A única quinta é a consciência petrificada do suposto narrador, grande e ramificada como uma casa. É esta a árvore de palavras que cultiva António Lobo Antunes, esta angústia de frases harmónicas, fluidas, mais monólogo que diálogo: "Proíbo-lhes que me tirem o que me pertence, o que construi para defender-me de vocês", a quinta, diz o narrador, entre suas plantações sangrentas.

Qual quinta?, pergunta a mãe, e o narrador sente-se usurpado: constrói a casa às escondidas, uma origem mítica (como uma pátria), contra a imundície presente, para não ser, como todos os seus, um deserdado num andar humilde de Lisboa, com o avô aposentado, o pobre pai com cirrose, a mãe triste. A introversão extrema é uma forma de extroversão, um modo de fugir, mas não basta esta saída ao romancista. Leva-nos a um terceiro nível, mais fundo, e da épica miserável de Faulkner passamos para a miséria épica de Beckett. Aqui estão os dois irmãos da primeira parte. O cenário é Lisboa: alguém que escreve histórias acolhe em sua casa o seu irmão, e começa a escrever o que deve existir na cabeça do irmão autista, hermético, único habitante do seu estado mental. É como se quisesse dar-lhe companhia, uma família de seres interiores. Realidade e irrealidade são vasos comunicantes, e há peças que sobrevivem nos dois planos, prova de que a imaginação também é real: o mesmo brinco que, na quinta fantástica, a mãe perdeu num encontro adúltero, e agora é roubado no andar sinistro, para ser empenhado; e a rapariga morta a quem cortaram as tranças, Maria Adelaide, é agora a mulher do irmão são; e os irmãos continuam observando-se, como num espelho. As obsessões têm a sua lógica e a sua música: repetições, multiplicação de vozes, ecos, palavras insistentes como fantasmas ou remorsos. Lobo Antunes, que também é psiquiatra, descobriu na alucinação uma forma piedosa, quase afável, de se agarrar à realidade e narrar o impossível.


por Justo Navarro
13.11.2010
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

19 de novembro de 2010

Fernando Martins: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


"Sôbolos rios que vão"... (desaguar num atoleiro?)

“Sôbolos rios que vão” é o primeiro verso das célebres redondilhas em que Camões faz o balanço da sua vida passada e projecta o futuro através da superação mística das contingências humanas. Sôbolos rios que vão é também o título do vigésimo segundo e mais recente romance de António Lobo Antunes.

Deste romance, diz a professora Maria Alzira Seixo, entre outros encómios, que “é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje. É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores [Camões e Lobo Antunes] à expressão literária de um modo artístico insuperável” (Jornal de Letras n.º 1044, 6-19/10/2010). Já Rui Catalão, aparentemente menos indefectível admirador de ALA do que a professora Alzira Seixo, tempera a sua análise crítica falando-nos de “um livro muito belo e muito desequilibrado”, livro este em que “a maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas”. E acrescenta: “o livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens” (Ípsilon, 15/10/2010).

Nutro grande respeito e admiração pela professora Alzira Seixo, de quem fui aluno, mas não consigo partilhar a sua simpatia por este romance de Lobo Antunes, que me faz lembrar o filme “Branca de Neve” de João César Monteiro, filme que, aliás, não vi, nem – julgo – poderia ter visto, uma vez que, depois de uma curta cena inicial em que se vê o realizador a colocar um pano sobre a objectiva da máquina de filmar, a tela escurece e nada mais se vê até ao fim, apenas se ouvindo vozes. Em Sôbolos Rios ouvem-se vozes, sobretudo a do protagonista, mas, quanto à possibilidade de visualizar, o que se passa é que as imagens são de tal modo fragmentadas e incoerentes que acabam por instituir o caos.

É certo que a narrativa contemporânea nos habituou às mais diversas infracções e desvios: as categorias que a enformam – tempo, espaço, acção, personagem – sofrem tratos de polé que poriam em pé os cabelos dos clássicos, ainda que alguns procedimentos agora banais não sejam novidade (basta lembrarmo-nos de Os Lusíadas, p. ex., com o seu começo in media res). Mas uma coisa são as analepses e prolepses, os encaixes e alternâncias, a sobrevalorização do stream of consciousness em detrimento da acção, a despromoção da personagem; outra é a desconstrução artificial do discurso e a sua redução a uma amálgama de segmentos disformes.

Admite-se um discurso incoerente, se é uma corrente de consciência torturada que se pretende reproduzir (ou criar) literariamente (o que acontece efectivamente com o protagonista de Sôbolos Rios), mas esse discurso há-de constituir um segmento relativamente curto dentro da estrutura do romance. Enformar toda a narrativa com o molde da torrente caótica de uma consciência doente (através da elipse frequentíssima de verbos e da justaposição de acções independentes ocorridas em tempos e espaços diferentes) é destrui-la. E já não falo da pontuação, pouco menos do que arbitrária, que faz da de José Saramago (tão vilipendiada!) algo de quase convencional...

Enfim, dir-se-ia que António Lobo Antunes se empenhou em concretizar o preceito de que quanto pior melhor. Mas o facto é que quanto pior pior.


por Fernando Martins
09.11.2010

14 de novembro de 2010

Catarina Homem Marques: sobre Sôbolos Rios Que Vão

António Lobo Antunes 25 - Morte 0

“Estou a negociar livros com a morte.” Uma e outra vez, em cada novo lançamento, a frase é repetida por António Lobo Antunes. Com mais intensidade desde 2007, por ter sido o ano em que um cancro nos intestinos tornou todos os negócios com a morte mais urgentes. Sôbolos Rios que Vão é mais uma negociação que pendeu para o lado do escritor. Ele com mais um, num total de 25 romances já publicados, a morte a perder com um zero no marcador. Mas nunca como neste livro o “estou a negociar livros com a morte” fez tanto sentido.

Sôbolos Rios que Vão é, em si mesmo, um espaçado e calmo negócio com a morte. Um homem que passa 15 dias no hospital, perdido entre um corpo que morre e uma mente que procura mais a vida passada do que uma perspectiva concreta de vida. “O que se quer escrever é aquilo que se perdeu”, disse o autor no lançamento. Ele que parece dizer-nos a cada página o que de biográfico tem este narrador. É António Lobo Antunes que o vai chamando:

– Antoninho.
– António.
– Senhor Antunes.

Também ele perante um cancro nos intestinos. Também ele deitado numa cama de hospital em 2007. Também ele, sempre, a negociar com a morte como negoceia com as memórias e as fotografias caladas nas molduras.

Os banhos que lhe dão no hospital despertam a mesma vergonha de exposição que sentia numa bacia da cozinha onde a mãe o lavava. Quem lhe tira o sangue, com dificuldade a encontrar a veia, não é um enfermeiro mas sim a Dona Irene, que lhe tocava harpa ao serão. Os lençóis do hospital deviam ter ursinhos com gorro e cachecol. “A minha mãe curava tudo com uma aspirina” e, por isso, para quê aquela operação? Se caiu e se se levantou logo depois, porque não lhe diz o médico que daqui a uma semana já pode voltar a fazer oitos com a bicicleta?

“...e não posso reparar no filme dado que me esfregam as nádegas, não um homem, uma enfermeira a humilhar-me – falta pouco enxugando-me as intimidades numa eficiência rápida, não intimidades aliás, trapos que tombam numa moleza atroz, estou a gostar imenso do filme garanto...”

Os dias no hospital – entre o medo, a inconsciência e a lucidez – misturam-se com a infância, com a mulher de quem já se divorciou, com aqueles que já são os seus mortos. A narração nem chega a ser uma narração: é mais um fio de pensamento, que se perde entre diferentes estados.

E há sempre uma janela, porque as janelas dos hospitais, que existem para aliviar, assustam toda a gente. Dali, o narrador, quem sabe o autor também, vê comboios vazios mas não vê dálias e uma lagartixa escondida no muro, como era suposto ver através de uma janela da infância.

A doença vai espreitando apenas, discreta mas inamovível: “Temos de tratar uma inflamaçãozita no rim” ou “o coração desacertou-se”. É só isso que se ouve no fundo do poço de divagações onde habita o narrador e onde o cancro é um ouriço, o médico o dono do hotel dos ingleses e o coração uma bomba de água.

António Lobo Antunes tem um amor assumido por um livro que juntou a uma colecção de livros de bolso coordenada por si: A Morte de Ivan Ilitch. Um pormenor, curioso apenas porque Sôbolos Rios que Vão partilha dos ecos de morte desse livro de Tolstoi. Ecos de morte que se colam aos nossos ouvidos, que nos magoam por exporem tanto aquela inevitabilidade que tentamos sempre ignorar mas que, de tão bonitos, nos deixam mais cheios de vida.

“A puta da Bovary vai viver e eu vou morrer.” Quem o disse foi Flaubert, e Lobo Antunes evocou-o no lançamento: Ficam as personagens, morrem os seus autores. A não ser quando ficam todos misturados: o Antoninho, o António, o Senhor Antunes.


Catarina Homem Marques
09.11.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...