30/04/2011

Nuno Martins: opinião sobre Fado Alexandrino


Fado Alexandrino, é o 5º livro de António Lobo Antunes e é igualmente o maior.

Este livro, arranjando assim um ponto de comparação é uma espécie de "Ulisses" do James Joyce.

A acção propriamente dita decorre durante uma noite, madrugada e respectiva manhã em que num jantar de convívio de ex-combatentes da guerra colonial que tinham combatido em Moçambique, um grupo homens, o tenente - coronel (comandante do batalhão), um soldado, um alferes, um tenente e um capitão, vão contar toda a sua vida desde o dia da sua chegada da guerra até ao fim dessa manhã.

Sendo assim, o livro está dividido em três partes; antes da revolução, a revolução e depois da revolução e é nesse espaço temporal que a narrativa se vai desenrolando, com os personagens a contar todas as suas peripécias, contratempos, amores, desamores, casamentos, divórcios e tudo o mais que lhes aconteceu durante esses anos.

O livro para além de ser muito intenso (já se começa a notar o Lobo Antunes de escritos futuros), é também uma crítica profunda ao Portugal da década de 70 do século passado, com todos os seus defeitos, mesquinhices e brejeirices que nessa época (e na nossa igualmente) abundavam. É também uma crítica política pondo à mostra primeiro os excessos do regime anterior e da Pide e depois com a revolução, e a passagem de um regime acomodado e repressivo a um regime libertário e até mesmo um pouco "anarca", que foi o do Portugal pós 25 de Abril, o caos e os aproveitamentos políticos e vinganças pessoais que daí advieram.
 
O livro tem um final inesperado, que vai contribuir para um desenlace da história nada esperado.

Eu gostei deste livro, tem uma história bem construída, a vida dos personagens é complexa e por vezes cruza-se, sem eles próprios se aperceberem e é igualmente como atrás referi uma espécie de descrição de usos e costumes do Portugal da década de 70 do século XX.

Para quem nunca leu Lobo Antunes, não aconselho este livro para se iniciar, agora para quem já leu e quiser aventurar-se e tiver "paciência", devido ao tamanho do livro, aconselho-o vivamente.

 
Nuno Martins
05.11.2008

30/03/2011

Doutor Honoris Causa para António Lobo Antunes pela Universidade de Lisboa

O escritor António Lobo Antunes, hoje [22.03.2011] doutorado Honoris Causa pela Universidade de Lisboa, agradeceu o facto de esta juntar o seu a quatro nomes da sua família ligados à instituição, que comemora o centenário.


«O meu sangue está ligado há 100 anos a esta universidade – o meu bisavô, João Maria de Almeida Lima, foi professor nesta universidade e segundo reitor dela; o meu tio-avô Pedro de Almeida Lima foi aqui professor; o meu pai, João Lobo Antunes, também foi aqui professor; e o meu irmão João Lobo Antunes é professor nesta universidade – e agradeço ao magnífico reitor o facto de ter colocado, de alguma maneira, o meu nome junto destes quatro nomes», disse o escritor.

António Lobo Antunes falava hoje ao fim da tarde na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, na sessão comemorativa dos 100 anos da instituição, após o elogio que lhe foi feito pelo professor José Barata-Moura e de ter recebido das mãos do reitor, António Sampaio da Nóvoa, as insígnias de Doutor Honoris Causa: a medalha com as armas da universidade e o diploma com a sua chancela.

«É evidente que esta honra não me foi outorgada por ter sido um excelente aluno. Pelo contrário, era um aluno extremamente medíocre da Universidade de Lisboa», observou, fazendo rir a audiência.
Para o escritor, «se não fossem os esforços porfiados da família, nunca teria feito o curso de Medicina», porque a única coisa que lhe interessava era escrever: «Desde os sete, oito anos que tinha dentro de mim a convicção profunda e inabalável de que era um génio absoluto e de que ia mudar a literatura portuguesa – de que ia mudar a literatura ‘tout court’».

«E espantava-me muitas vezes, aos 13 anos, quando passava na rua, que as pessoas não vissem isso, não parassem para me olhar extasiadas… E não eram só elas que não viam: os professores do liceu também não viam, os da faculdade também não viram – era eu sozinho que via», comentou, enquanto a sala se enchia de gargalhadas.

«Não era romances que me interessava escrever. A minha ambição era mais simples: queria pôr a vida inteira entre as capas de um livro. E a cada livro acabado – eu não publicava nada, escrevia-os e deitava-os fora -, pensava ‘ainda não é isto, ainda não é isto’, como continuo a pensar agora que ‘ainda não é isto, tenho de ir mais longe, tenho de ir mais fundo, tenho de trabalhar mais’», disse.

Depois, falou do seu amigo José Cardoso Pires, escritor «cuja obra já quase não é lida», que todos os dias lhe telefonava às dez da manhã e um dia ligou mais tarde e lhe disse «É para te dar os parabéns, porque eu ganhei um prémio», um anúncio que Lobo Antunes interpretou assim: «Foi a declaração de amizade mais bonita que alguma vez recebi».

Da mesma forma, hoje, exactamente quatro anos após o diagnóstico de um tumor que o fez «negociar livros com a morte» – o que, afirma, continua a fazer, tendo a consciência de que a sua obra nunca estará completa -, o escritor agradeceu aos três médicos que o trataram.

«Parabéns, Henrique, por eu ainda estar aqui; parabéns, Leonor, por eu estar aqui; parabéns Luís, por eu estar aqui. É graças a vocês que posso continuar a escrever», concluiu.

Fonte: Sol

07/03/2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Conhecimento do Inferno


É curiosa a forma como uns anos de permeio e muitas leituras me fizeram ter uma perspectiva tão diferente do mesmo livro!

É verdade. Acabei de reler este livro há já uns dias. E, se da primeira vez tinha ficado com uma ideia de diferença em relação ao único que havia lido (Memória de Elefante) do mesmo autor agora, pelo contrário, achei-o muito parecido com os dois anteriores. Quando me refiro a parecido quero dizer na forma. Bom, na forma e, no conteúdo também pois, na verdade, julgo até que este poderia ser a “continuação” do primeiro…

Em ambos aparece a personagem principal colada a ALA; psiquiatra, frustrado na sua profissão mas também na sua vida pessoal, marcado pelas memórias de uma guerra que, embora não sendo a sua guerra, lhe deixou marcas indeléveis, assolado por recordações mais ou menos intimistas, mais ou menos determinantes.

Se a linha narrativa de um e de outro se separam, a razão desta, julgo eu, mantém-se a mesma em ambos; a necessidade da catarse.

Embora seja de opinião que já se comecem a notar as marcas que determinarão o caminho que os livros mais recentes de ALA virão a tomar, existe ainda uma certa linearidade na forma de contar.

Ora bem, não é linear. Mas a forma como fracciona o discurso não é ainda tão elaborada como virá a ser.

Também pelo facto de me parecer bastante autobiográfico tendo a aproximá-lo quer do “Cus de Judas” quer do já citado “Memória de Elefante”.

Se nos outros eram essencialmente as memórias da guerra, que imprimiu marcas indeléveis no autor, que prevaleciam neste, porém, é a sua experiência enquanto psiquiatra hospitalar que sobressai.

E vai fundo no contar dessas experiências. E veste a pele do doente psiquiátrico, a sua solidão a desolação do hospital em si. Explora as dúvidas e as amarguras do clínico.

Evidentes também as constantes alusões à sua família, a locais que foram seus locais, a uma vida que estou em crer terá sido também um pouco a sua.

Com um registo belíssimo, pejado de metáforas incríveis de pendor eminentemente poético, vai desfiando essa sua experiência negra ao longo de uma escrita na qual se vai notando um esforço no burilar da forma. A narrativa fica mais complexa e passamos a ter necessidade de acompanhar a vontade das personagens e não apenas o fio do enredo.

Como sempre deixou-me com água na boca.


Maria Celeste Pereira
20.10.2010

28/02/2011

«Escribir y traducir desde Portugal» - Instituto Cervantes


«El escritor portugués António Lobo Antunes inaugura, con su disertación "Escribir y traducir desde Portugal", el ciclo de conferencias "Escribir y traducir en el espacio ibérico", programado para 2011 dentro del proyecto Espacio de las Lenguas Ibéricas».

07.02.2011

*falado em espanhol

(70 minutos aproximadamente)

Uma vez mais obrigado a Sandra Amante.

19/02/2011

«Cartas da Guerra» adaptado ao cinema por Ivo M. Ferreira

Citando o site Ponto Final:


Existe uma iconografia do que foi o conflito no Vietname, uma guerra feita ao tempo em que ainda não passava na TV. Foi o cinema que recriou as imagens, criou o imaginário colectivo. Em Portugal, não há disso – a guerra colonial portuguesa continua presente, 50 anos depois, mas o lado iconográfico não está lá. Para Edgar Medina, co-argumentista de “Cartas da Guerra”, o filme de Ivo M. Ferreira que será rodado no próximo ano, o desafio da adaptação da obra de Lobo Antunes ao cinema também passa pela criação desta imagem que falta a quem é português. E não foi à guerra.
Edgar Medina colabora frequentes vezes com Ivo M. Ferreira e a ideia de construir um argumento com base nos aerogramas enviados de Angola por Lobo Antunes à sua jovem mulher foi, desde logo, recebida com entusiasmo. “Além de gostar muito da obra de Lobo Antunes conhecia já as cartas e a hipótese de estar a lidar com um momento importante da história contemporânea portuguesa é algo que considerei bastante interessante”, conta o co-argumentista, a trabalhar agora em Macau. O interesse foi crescendo à medida que a investigação se foi fazendo e se descobriram outros lados da guerra.
Medina atribui à ditadura – e depois à necessidade de se viver em paz que o 25 de Abril trouxe – o facto de a sociedade portuguesa nunca ter lidado de “forma adequada com os problemas e os fantasmas da guerra colonial, apesar de continuar muito presente no dia-a-dia de muitos portugueses, de muitas famílias, e de ser um assunto que tem de ser abordado”.
O trabalho para o filme “Cartas da Guerra” levou à descoberta de algo que não chega ao grande público, mas que existe: os muitos livros que antigos combatentes têm publicado nos últimos anos, as tertúlias mensais de escritores do Ultramar, uma realidade à qual Medina e Ferreira foram “beber muita informação”.
Porque é de Lobo Antunes que se trata neste projecto, que seduziu o Instituto do Cinema e do Audiovisual de Portugal, mas também toda uma geração, o labor não foi simples: “Por uma questão ética, por se tratar de um trabalho com uma certa importância histórica, um trabalho biográfico”.
A “muita investigação” ajudou, porque “as coisas tornaram-se relativamente claras” e “todo o percurso de Lobo Antunes, nomeadamente o primeiro ano da comissão de serviço é, do ponto de vista dramático, muito cinematográfico”. Edgar Medina desenvolve: “A progressão do jovem médico que é afastado da sua mulher e a sua descida ao Inferno em África, a progressão de quartel para quartel que vai fazendo em Angola, foi uma certa surpresa verificar que tudo aquilo era profundamente adequado às regras dramáticas e como era uma realidade muito cinematográfica”.
Quanto à metodologia para a construção do argumento, houve um “trabalho paralelo que extravasou as cartas, um trabalho de investigação histórica, que passou pelo batalhão de Lobo Antunes e pelo arquivo militar”. Medina destaca ainda algo que considera muito importante: a obra que António Lobo Antunes fez enquanto escritor de ficção – nas suas crónicas, nos seus romances – em torno da guerra colonial.
Embora “Cartas da Guerra” seja um filme sobre uma história que pertence à dimensão colectiva, “há visões muito díspares de antigos combatentes do que foi a guerra colonial”, constata. “Achei sempre muito importante que a história que contamos de Lobo Antunes fosse uma história que estivesse impregnada da sua visão.” E esta visão é a de uma geração “a quem foi cometida uma imensa infâmia, que aos 17, 18, 19 anos foi mandada para a guerra, separada da família e sujeita a uma verdadeira barbárie”. Em “Cartas da Guerra” é disto que se fala. E do imenso amor que Lobo Antunes levou de Lisboa para Angola, fixado e vivido em pedaços de papel.


18.02.2011

16/12/2010

Ana Paula Arnaut disserta sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios Que Vão de António Lobo Antunes:
quando as semelhanças não podem ser coincidências *

Há trinta anos atrás, num artigo intitulado “Sôbolos rios que vão: uma estética arquitectónica”, Maria Vitalina Leal de Matos confessa ter sido “levada a constatar e a admitir que o poema, a muitos títulos assombroso, pode facilmente decepcionar o leitor, desprovido como é das qualidades estéticas com que o lirismo camoniano mais frequentemente deslumbra” .

Não sendo embora nossa intenção fazer um pormenorizado estudo comparativo entre as redondilhas de Camões1 e o novo romance de António Lobo Antunes, não podemos deixar de verificar as inúmeras semelhanças entre os dois textos. Desde logo, a apropriação integral, para título do livro, do primeiro verso do célebre poema camoniano. É verdade, diga-se a propósito, que a identificação titular poderia não constituir um facto significativo, pois já nos habituámos a que o pórtico da obra nem sempre revele o que vai dentro das suas páginas, escondendo mais do que revelando, confundindo mais do que esclarecendo, frustrando expectativas de leitura mais do confirmando as inicialmente criadas. Não é exactamente este o caso, como veremos de seguida.


* este artigo foi apresentado no Colóquio Pensar a Literatura no século XXI - Faculdade de Filosofia / Universidade Católica Portuguesa, Braga (30 de Setembro e 1 de Outubro de 2010), e agora publicado no nosso espaço por cortesia de Ana Paula Arnaut

por Ana Paula Arnaut
Universidade de Coimbra
Setembro de 2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...