19/02/2011

«Cartas da Guerra» adaptado ao cinema por Ivo M. Ferreira

Citando o site Ponto Final:


Existe uma iconografia do que foi o conflito no Vietname, uma guerra feita ao tempo em que ainda não passava na TV. Foi o cinema que recriou as imagens, criou o imaginário colectivo. Em Portugal, não há disso – a guerra colonial portuguesa continua presente, 50 anos depois, mas o lado iconográfico não está lá. Para Edgar Medina, co-argumentista de “Cartas da Guerra”, o filme de Ivo M. Ferreira que será rodado no próximo ano, o desafio da adaptação da obra de Lobo Antunes ao cinema também passa pela criação desta imagem que falta a quem é português. E não foi à guerra.
Edgar Medina colabora frequentes vezes com Ivo M. Ferreira e a ideia de construir um argumento com base nos aerogramas enviados de Angola por Lobo Antunes à sua jovem mulher foi, desde logo, recebida com entusiasmo. “Além de gostar muito da obra de Lobo Antunes conhecia já as cartas e a hipótese de estar a lidar com um momento importante da história contemporânea portuguesa é algo que considerei bastante interessante”, conta o co-argumentista, a trabalhar agora em Macau. O interesse foi crescendo à medida que a investigação se foi fazendo e se descobriram outros lados da guerra.
Medina atribui à ditadura – e depois à necessidade de se viver em paz que o 25 de Abril trouxe – o facto de a sociedade portuguesa nunca ter lidado de “forma adequada com os problemas e os fantasmas da guerra colonial, apesar de continuar muito presente no dia-a-dia de muitos portugueses, de muitas famílias, e de ser um assunto que tem de ser abordado”.
O trabalho para o filme “Cartas da Guerra” levou à descoberta de algo que não chega ao grande público, mas que existe: os muitos livros que antigos combatentes têm publicado nos últimos anos, as tertúlias mensais de escritores do Ultramar, uma realidade à qual Medina e Ferreira foram “beber muita informação”.
Porque é de Lobo Antunes que se trata neste projecto, que seduziu o Instituto do Cinema e do Audiovisual de Portugal, mas também toda uma geração, o labor não foi simples: “Por uma questão ética, por se tratar de um trabalho com uma certa importância histórica, um trabalho biográfico”.
A “muita investigação” ajudou, porque “as coisas tornaram-se relativamente claras” e “todo o percurso de Lobo Antunes, nomeadamente o primeiro ano da comissão de serviço é, do ponto de vista dramático, muito cinematográfico”. Edgar Medina desenvolve: “A progressão do jovem médico que é afastado da sua mulher e a sua descida ao Inferno em África, a progressão de quartel para quartel que vai fazendo em Angola, foi uma certa surpresa verificar que tudo aquilo era profundamente adequado às regras dramáticas e como era uma realidade muito cinematográfica”.
Quanto à metodologia para a construção do argumento, houve um “trabalho paralelo que extravasou as cartas, um trabalho de investigação histórica, que passou pelo batalhão de Lobo Antunes e pelo arquivo militar”. Medina destaca ainda algo que considera muito importante: a obra que António Lobo Antunes fez enquanto escritor de ficção – nas suas crónicas, nos seus romances – em torno da guerra colonial.
Embora “Cartas da Guerra” seja um filme sobre uma história que pertence à dimensão colectiva, “há visões muito díspares de antigos combatentes do que foi a guerra colonial”, constata. “Achei sempre muito importante que a história que contamos de Lobo Antunes fosse uma história que estivesse impregnada da sua visão.” E esta visão é a de uma geração “a quem foi cometida uma imensa infâmia, que aos 17, 18, 19 anos foi mandada para a guerra, separada da família e sujeita a uma verdadeira barbárie”. Em “Cartas da Guerra” é disto que se fala. E do imenso amor que Lobo Antunes levou de Lisboa para Angola, fixado e vivido em pedaços de papel.


18.02.2011

16/12/2010

Ana Paula Arnaut disserta sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios Que Vão de António Lobo Antunes:
quando as semelhanças não podem ser coincidências *

Há trinta anos atrás, num artigo intitulado “Sôbolos rios que vão: uma estética arquitectónica”, Maria Vitalina Leal de Matos confessa ter sido “levada a constatar e a admitir que o poema, a muitos títulos assombroso, pode facilmente decepcionar o leitor, desprovido como é das qualidades estéticas com que o lirismo camoniano mais frequentemente deslumbra” .

Não sendo embora nossa intenção fazer um pormenorizado estudo comparativo entre as redondilhas de Camões1 e o novo romance de António Lobo Antunes, não podemos deixar de verificar as inúmeras semelhanças entre os dois textos. Desde logo, a apropriação integral, para título do livro, do primeiro verso do célebre poema camoniano. É verdade, diga-se a propósito, que a identificação titular poderia não constituir um facto significativo, pois já nos habituámos a que o pórtico da obra nem sempre revele o que vai dentro das suas páginas, escondendo mais do que revelando, confundindo mais do que esclarecendo, frustrando expectativas de leitura mais do confirmando as inicialmente criadas. Não é exactamente este o caso, como veremos de seguida.


* este artigo foi apresentado no Colóquio Pensar a Literatura no século XXI - Faculdade de Filosofia / Universidade Católica Portuguesa, Braga (30 de Setembro e 1 de Outubro de 2010), e agora publicado no nosso espaço por cortesia de Ana Paula Arnaut

por Ana Paula Arnaut
Universidade de Coimbra
Setembro de 2010

15/12/2010

Filipa Melo: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O senhor da cama onze

O protagonista do novo romance procura o aconchego nas imagens míticas da infância, o Lobo Antunes aproxima-se do lirismo autoconfessional.

«Deixaram-no atrás duma janela sem paisagem, num tempo velado, oco.» O sujeito é José Cardoso Pires, vítima de acidente vascular cerebral e descrevendo-o em De profundis, Valsa Lenta (1997). Mas o sujeito podia ser António Lobo Antunes, vítima de cancro («um ouriço», com os espinhos emboscados nas vísceras na tensão das raposas»), experimentando a queda e o renascimento e, agora, descrevendo-o em Sôbolos Rios Que Vão. «Antoninho» ou «o senhor Antunes da cama onze» está preso na enfermaria de um hospital lisboeta, também ele suportando o peso do tempo, «velado, oco». Então, «cada gesto que não fazia gritava, cada movimento da cabeça na almofada gritava, cada centímetro de pele gritava, que difícil esconder este medo». O refúgio são as memórias da infância (Sião ou o Paraíso Perdido), quando «quase tudo tranquilo» e o pai lhe mostrou a nascente do Mondego, «um fiozito entre penedos quase no alto da serra». Ao longo de 200 páginas, o protagonista apresenta-se em suspensão entre a nascente e a foz da sua biografia, apelando ao passado para, ao seu lado, lutar contra a presença ameaçadora da Morte.

Sôbolos Rios Que Vão é o melhor título de livro de Lobo Antunes. A evocação extrapola o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Camões, e suporta a totalidade da narrativa, dividida em 15 capítulos/dias (de «21 de Março de 2007» a «4 de Abril de 2007», o tempo do internamento), narrados pelo protagonista na terceira pessoa. Com este romance, é a própria epopeia ficcional do escritor que desemboca na lírica autoconfessional, encerrando-se em círculo fechado com Memória de Elefante, a estreia em 1979. E pode ser o protagonista/autor a dizer-nos: «Sôbolos rios que vão por / Babilónia, me achei, / Onde sentado chorei / as lembranças de Sião.»

Reconhecemos quem fala enquanto «assist[e] ao tempo», entre o cuidado dos enfermeiros e dos médicos e os espectros que vêm: os comboios do Libério, a carroça do Virgílio, a D. Irene na harpa, o avô a dar-lhe comida à boca, a estrangeira loira, o pai e a empregada na despensa, a avó a acender uma ampola no escuro, Maria Otília e a mãe, as três figuras protectoras. Já em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? era manifesta a presença do autor no texto. Em Sôbolos Rios Que Vão, a longa polifonia de monólogos lobo-antunianos (como «os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam a unir» ou «um cortejo de botas») unifica-se numa única voz narrativa, a origem clara de todas as visões prismáticas. É o protagonista quem sobrepõe o tempo e território da infância aos da doença. Procura nas imagens míticas da criança a ordem e o aconchego que fogem dele agora adulto. Expõe camadas desorganizadas de memórias, as suas contradições reveladoras, e pergunta: «És o Antoninho, não és?» No final, «exeunt omnes» (todos saem) e o protagonista/autor regressa finalmente a si (curado), «o senhor Antunes sobre os rios a caminho da foz».


por Filipa Melo
Revista LER nº 96
Novembro 2010

27/11/2010

Norberto do Vale Cardoso: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O Livro dos Viventes, António Lobo Antunes e Sôbolos Rios Que Vão

No colóquio A Escrita e O Mundo Em António Lobo Antunes, Carlos Reis havia referido que a obra de António Lobo Antunes é uma “casa de onde se vê o rio”, frase que, de certo modo, parece prenunciar o título do mais recente livro do autor: Sôbolos Rios Que Vão. Baseado num poema de Luís de Camões, este romance demonstra que a obra de Lobo Antunes não se cinge a ser uma casa de onde se vê o rio. A verdade é que a obra antuniana, como o rio - e como a vida -, flui e reflui num continuum, eterno projecto do autor fazer da sua uma obra “redonda” (crónica “As Mãos são as folhas dos gestos”), porque para António Lobo Antunes a vida é a obra e a obra será como um rio.

Como bem o entrevê Maria Alzira Seixo, em Sôbolos Rios, a importância atribuída à visita à nascente do Mondego “adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratamentos.” A montante está a infância, naturalmente, em que o doente conhecera a nascente do Mondego com o pai, personagem fulcral, pois é este que o leva a esse lugar genesíaco (não se trata apenas da nascente do rio, mas também da sua formação enquanto um “ser vivente” e enquanto escritor). O caminho de regresso à nascente é, por isso mesmo, um caminho inverso ao que faz o rio (ou mesmo a vida), como se o senhor Antunes principiasse novamente o seu percurso de vida. Este regresso memorial à nascente do rio Mondego e à vila/ serra trata-se, pois, de um processo curativo, em que se imiscuem o hotel e o hospital. E ainda que nenhum deles possa ser uma representação estanque do passado ou do presente, pelo facto de ser operado no hospital, lugar onde o corpo está atido à realidade física e fugaz da matéria de que somos feitos, a memória e a imaginação transportam a personagem para um lugar da infância, o hotel dos ingleses, onde acaba por ser operado, como se, permita-se-nos a redundância, operasse uma fuga ou cura do espírito.



por Norberto do Vale Cardoso
enviado por e-mail
26.11.2010

20/11/2010

Justo Navarro: sobre El Archipiélago del Insomnio

Música de obsessão



Perguntaram ao poeta Gabriel Ferrater se não lhe parecia terrível a realidade, e Ferrater, que sabia do assunto, respondeu imediatamente: "E a irrealidade é o quê?". António Lobo Antunes escreveu O Arquipélago da Insónia para se entender com a irrealidade, esse assunto terrível, tão solidário com a insónia, com a vigília e os seus sonhos. Inventou um narrador que, insignificante, ergue um mundo, uma quinta, uma casa, quartos, móveis. De fotografias antigas retira uma mãe, um pai, os pais dos pais, um irmão, as criadas, os caseiros de uma quinta, e as figuras dos retratos começam a falar e a mover-se, espíritos nervosos de carne.

Alguém conta uma história, e avisa que é apenas um conto, nem sequer o seu, e logo sabemos que é outra mão que vai escrevendo. Lobo Antunes conta a história de uma casa e de uma família, promíscua, quase incestuosa, patriarcal, de amos e servos, uma casa onde ninguém olha para ninguém. Quem se aproxima do outro, fá-lo por medo. Nesta casa de desolação a morte entra e sai como mais um parente, quase com bom humor. Lobo Antunes foi ao centro de quase todos os romances:  família, uma casa, a terra, algo que disputam uns com os outros num espaço fechado, ainda que seja apenas o afecto, ou o favor sexual. Existem dois filhos, um amado e o outro não, um aceite e o outro idiota. O avô, o patriarca, é puro poder, e partilha a mulher do filho único. Vem de uma história que parece ter sido imaginada por Faulkner: chegou à aldeia um homem com o seu ajudante e "uma mulher de que se serviam os dois". Mal vivem num casebre e  convertem-no numa quinta riquíssima.

As mulheres matam-se com veneno. Os homens assassinam com espingarda, fuzil, enxada, navalha. Ardem celeiros enquanto os camponeses revoltosos degolam animais e derrubam depósitos de água e máquinas segadoras. Mas tudo parece uma visão, imagem interior, filme de palavras febris. Podíamos estar nos anos vinte do século passado, em Portugal, se não fosse por algum anacronismo que potencia a sensação de ilusão, de uma certa insegurança física. Os tucanos cruzam o céu, impossíveis, como se a quinta fantástica fosse no Brasil, por exemplo, num outro mundo. Aqui não há tucanos, diz ao narrador uma voz sensata. "Não existimos, o que digo não existiu", esclarece o narrador. O imaginário é maior que o real, porque no imaginário cabe a realidade.

E então Lobo Antunes abre um segundo nível: agora estamos na realidade do narrador, num hospital, muros, fechaduras, injecções, visitas de familiares. Chamam autista ao narrador os enfermeiros, ainda que outros poderiam considerá-lo esquizofrénico, pela sua memória fabulosa ou falsa. "Que disparate, tucanos", diz a mãe real. De que quinta nos fala? A única quinta é a consciência petrificada do suposto narrador, grande e ramificada como uma casa. É esta a árvore de palavras que cultiva António Lobo Antunes, esta angústia de frases harmónicas, fluidas, mais monólogo que diálogo: "Proíbo-lhes que me tirem o que me pertence, o que construi para defender-me de vocês", a quinta, diz o narrador, entre suas plantações sangrentas.

Qual quinta?, pergunta a mãe, e o narrador sente-se usurpado: constrói a casa às escondidas, uma origem mítica (como uma pátria), contra a imundície presente, para não ser, como todos os seus, um deserdado num andar humilde de Lisboa, com o avô aposentado, o pobre pai com cirrose, a mãe triste. A introversão extrema é uma forma de extroversão, um modo de fugir, mas não basta esta saída ao romancista. Leva-nos a um terceiro nível, mais fundo, e da épica miserável de Faulkner passamos para a miséria épica de Beckett. Aqui estão os dois irmãos da primeira parte. O cenário é Lisboa: alguém que escreve histórias acolhe em sua casa o seu irmão, e começa a escrever o que deve existir na cabeça do irmão autista, hermético, único habitante do seu estado mental. É como se quisesse dar-lhe companhia, uma família de seres interiores. Realidade e irrealidade são vasos comunicantes, e há peças que sobrevivem nos dois planos, prova de que a imaginação também é real: o mesmo brinco que, na quinta fantástica, a mãe perdeu num encontro adúltero, e agora é roubado no andar sinistro, para ser empenhado; e a rapariga morta a quem cortaram as tranças, Maria Adelaide, é agora a mulher do irmão são; e os irmãos continuam observando-se, como num espelho. As obsessões têm a sua lógica e a sua música: repetições, multiplicação de vozes, ecos, palavras insistentes como fantasmas ou remorsos. Lobo Antunes, que também é psiquiatra, descobriu na alucinação uma forma piedosa, quase afável, de se agarrar à realidade e narrar o impossível.


por Justo Navarro
13.11.2010
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

19/11/2010

Fernando Martins: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


"Sôbolos rios que vão"... (desaguar num atoleiro?)

“Sôbolos rios que vão” é o primeiro verso das célebres redondilhas em que Camões faz o balanço da sua vida passada e projecta o futuro através da superação mística das contingências humanas. Sôbolos rios que vão é também o título do vigésimo segundo e mais recente romance de António Lobo Antunes.

Deste romance, diz a professora Maria Alzira Seixo, entre outros encómios, que “é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje. É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores [Camões e Lobo Antunes] à expressão literária de um modo artístico insuperável” (Jornal de Letras n.º 1044, 6-19/10/2010). Já Rui Catalão, aparentemente menos indefectível admirador de ALA do que a professora Alzira Seixo, tempera a sua análise crítica falando-nos de “um livro muito belo e muito desequilibrado”, livro este em que “a maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas”. E acrescenta: “o livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens” (Ípsilon, 15/10/2010).

Nutro grande respeito e admiração pela professora Alzira Seixo, de quem fui aluno, mas não consigo partilhar a sua simpatia por este romance de Lobo Antunes, que me faz lembrar o filme “Branca de Neve” de João César Monteiro, filme que, aliás, não vi, nem – julgo – poderia ter visto, uma vez que, depois de uma curta cena inicial em que se vê o realizador a colocar um pano sobre a objectiva da máquina de filmar, a tela escurece e nada mais se vê até ao fim, apenas se ouvindo vozes. Em Sôbolos Rios ouvem-se vozes, sobretudo a do protagonista, mas, quanto à possibilidade de visualizar, o que se passa é que as imagens são de tal modo fragmentadas e incoerentes que acabam por instituir o caos.

É certo que a narrativa contemporânea nos habituou às mais diversas infracções e desvios: as categorias que a enformam – tempo, espaço, acção, personagem – sofrem tratos de polé que poriam em pé os cabelos dos clássicos, ainda que alguns procedimentos agora banais não sejam novidade (basta lembrarmo-nos de Os Lusíadas, p. ex., com o seu começo in media res). Mas uma coisa são as analepses e prolepses, os encaixes e alternâncias, a sobrevalorização do stream of consciousness em detrimento da acção, a despromoção da personagem; outra é a desconstrução artificial do discurso e a sua redução a uma amálgama de segmentos disformes.

Admite-se um discurso incoerente, se é uma corrente de consciência torturada que se pretende reproduzir (ou criar) literariamente (o que acontece efectivamente com o protagonista de Sôbolos Rios), mas esse discurso há-de constituir um segmento relativamente curto dentro da estrutura do romance. Enformar toda a narrativa com o molde da torrente caótica de uma consciência doente (através da elipse frequentíssima de verbos e da justaposição de acções independentes ocorridas em tempos e espaços diferentes) é destrui-la. E já não falo da pontuação, pouco menos do que arbitrária, que faz da de José Saramago (tão vilipendiada!) algo de quase convencional...

Enfim, dir-se-ia que António Lobo Antunes se empenhou em concretizar o preceito de que quanto pior melhor. Mas o facto é que quanto pior pior.


por Fernando Martins
09.11.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...