10/11/2010

Rui Catalão: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

Fantasia de morte
Ou de como um romance de ossos partidos pode ser composto da melhor poesia

As peças acumulam-se e é uma tentação encaixar a nova peça do puzzle nas já existentes (este é o 22.º romance de António Lobo Antunes). Outras tentações interpretativas provocadas pelo novo livro do escritor (Lisboa, 1942): o título camoniano, que cita o primeiro verso de "Babel e Sião" (esse mesmo em que tudo é "bem comparado, Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado"); e a autoreferencialidade (a personagem principal é um "Sr. Antunes", que em criança tratavam por "Antoninho" e que no ano de 2007 foi operado a um cancro no intestino).

Deixemos de lado a literatura comparada e as ligações autobiográficas e concentremo-nos nas menos de 200 páginas de "Sôbolos Rios que Vão". No que ao título diz respeito, há alusões suficientes no interior do texto. Como esta: "Dei por mim sobre os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam a unir, dei por mim que faleci há tantos anos ou não eu, tudo aquilo que era e não existe mais, a flutuar sobre a água para longe de vocês." Ou esta: "O cabelo da Maria Lucinda a confundir-se com o seu e ele deslizando sobre os rios a fazer parte das ondas." Ou ainda esta: "Três quilos e duzentas que embrulhavam em linho e ele a ir sobre os rios no sentido da foz".

Neste livro, que arranca no primeiro dia de Primavera, metáfora e enredo são um só: o fio de vida que vai da nascente à foz. É a fantasia de morte de alguém que perde a identidade antes de ter chegado a perceber que identidade era essa; é a visão em arco de um velho com cancro no intestino a estudar as linhas da vida "nos ecrãs" e a fazer "zapping" com a memória. "Sôbolos Rios que Vão" salta do passado para o presente e depois outra vez para o passado, em círculos fechados, com as suas repetições, recapitulações e rememorações (o pai que pergunta "Sabes?", mas que não toca no filho; o ouriço que se desprende de um castanheiro para se instalar nas tripas em forma de cancro; o tio que não se julga homem que chegue para viver nem tem coragem para se matar; a criança que pede "pão, pão" à janela de crianças ricas que sonham com a fome dela; "o pingo no sapato" que vem a revelar-se um médico; o rabo do gato escutado pela avó na escuridão; etc). Dor e memória, doença e recordações negam a possibilidade de inexistência que uma voz no romance parece sugerir. O problema é quando a dor se escapa, e o paciente a busca para se reconhecer, ou é perseguido por ela, para ser identificado: "Dado que nenhuma intimidade entre eles, avaliavam-se, rondavam-se, não se cumprimentavam". Tudo existe, até o que é inútil, como o nome de alguém esquecido: "A tralha que arrastamos Santo Cristo, o que faço com o Amadeu das Neves Pacheco, expulso-o ou permito que se mantenha submerso juntamente com outros nomes e outros sucessos antigos."

Com a sua já familiar técnica de falsas concordâncias, duas orações que aludem a tempos e temas diferentes a criarem uma terceira unidade de sentido, o sr. Antunes maneja a todo o gás a máquina de emaranhar paisagens da sua escrita (cenários principais: uma cama de hospital, no presente; e as imediações do Mondego e das minas de volfrâmio, durante e depois da Segunda Guerra Mundial). Primeiro exemplo: "Uma maca a deslizar perto dele e mais ninguém senão o afinador [de harpas] emendando uma última cavilha no seu peito"; segundo exemplo: "Eu no centro da cama onde os enfermeiros me puseram à espera que me toques e tu na pontinha do colchão esperando que eu não te toque e não toquei a fim de não ser expulso por um cotovelo maçado"; terceiro exemplo: "a minha avó nas bancadas dos ourives e eu satisfeito por o passado continuar a existir salvando-me da ravina à beira do colchão".

O Sr. Antunes prodigaliza neste livro uma arte que domina com maestria: escrever nas entrelinhas. Desporto favorito de muitos leitores que fizeram a transição da ditadura para a democracia, é um jogo que teve cultores por altura das canções de protesto e que ainda sobrevive nas canções brejeiras. Reparem como o Sr. Antunes disfarça uma cena de sexo oral (entre a viúva de um major e o pai de Antoninho) através do acto de comer um salmonete fresco: "Mais perfeita que a avó a dividir o salmonete ao meio e a juntar a pele e a cabeça que o impressionavam num prato mais pequeno - Podes comer agora enquanto o avô perseguia as espinhas com a língua, todo ele à procura entre a gengiva e a bochecha, encontrava a aresta, perdia-a, voltava a encontrá-la, empurrava-a com precaução ao longo de um funil de lábios, apanhava-a com dois dedos, esfregava-os um no outro para se libertar dela, secava-os no guardanapo e recomeçava a pesquisa".

"Sôbolos Rios que Vão" é escrito num português que pesca à linha um vocabulário delicioso (em locuções populares como "mete-se-lhes uma cisma no raciocínio e não a largam mais atazanando os vivos"), assim como frases que fizeram uma época ("bochecha de menino me deu vida", diz o balão que ao encher revela a frase "Armazéns Victória Tudo Para A Mulher Moderna"). Mas a narrativa, a caracterização de personagens, a própria ideia de personagem, e já agora a ideia de narrativa, fazem fraca figura no livro do Sr. Antunes. Dele podemos dizer o que Nabokov dizia de Flaubert, que escreve um romance como devia escrever-se poesia, com a diferença de que o seu "Sôbolos Rios" é um romance de ossos partidos.

A maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas. O livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos, que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens.

Este não é bem um livro "sobre" a velhice nem sobre os prenúncios ou sintomas de morte; encarna antes a velhice e a morte numa sucessão de desmoronamentos, com a memória no papel do paramédico munido de um desfibrilador. As amigas senis da mãe do Sr. Antunes, Júlia, Alda e Clotilde (três nomes lindos, mas que já não se usam) dizem frase como "Vejo um niquinho", ou "Estive casada com quem?", e perdem-se na "angústia de buscar soleiras no cérebro sem as achar". Quanto a Maria Otília (outro nome fora de moda), que "perseguia cabelos brancos no espelho afastando madeixas" enquanto prometia a si mesma "Nunca serei velha", essa paixão do Sr. Antunes que ameaçava deixá-lo sozinho na cama se ele não parasse de tocar-lhe, impedindo-a de dormir, faz agora um tratamento com "as ampolas de beber da úlcera" e "o que cura a úlcera não é engolir aquilo, é cortar as duas pontas no lugar marcado a azul com uma serrinha que se descobre entre os vincos das instruções ou escondida na embalagem, eis a pequena recompensa da idade, abrir ampolas e assistir a uma mancha amarela num dedo de água mexido não com a colher, com o cabo da faca".

Se temos de aceitar que nas imagens está o olhar do autor, também não é menos verdade que na estrutura do texto nos deparamos com a sua visão do mundo. Para além do espaço-tempo polarizado pela infância a brotar de sensações confusas e da velhice repleta de memórias dispersas, pode dizer-se que o Sr. Antunes entrega qualquer outra possibilidade de ordem aos caprichos da visão poética. Quando esta se desorienta, só restam confusão ou afectações de estilo de um escritor mimalho. Felizmente, o Sr. Antunes ainda se lembra dos mimos mais antigos: "Ele ao colo da mãe de bochecha entre as rendas, ora à superfície ora protegido por um casulo no qual se lhe fosse consentido moraria eternamente". O Sr. Antunes oferece-nos neste livro muito belo e muito desequilibrado uma experiência do êxtase em que pavor e descoberta se confundem. Morte e vida e velhice e sofrimento podem ser muitas coisas, não são é desoladas, nem tão pouco vazias.


por Rui Catalão
Outubro de 2010

06/11/2010

José Mário Silva: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


Deste sonho imaginado

Para título do seu 22.º romance, António Lobo Antunes (ALA) escolheu o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Luís Vaz de Camões, poema extraordinário que fala dos «enganos» que o tempo faz às «esperanças» e do triste fim que aguarda quem «se fia da ventura». Além de anunciar desde logo a principal metáfora do livro, Sôbolos Rios que Vão revela-se um título particularmente feliz porque a proximidade temática entre a prosa de ALA e as 37 estrofes camonianas permite que algumas funcionem como sinopses perfeitas do romance. É o caso, por exemplo, da segunda redondilha:

«Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.
»

Fechado num quarto de hospital, o protagonista tem «a morte a cercá-lo sob um céu de catástrofe». O cancro nos intestinos assume para ele a forma de um «ouriço de castanheiro» a dilatar-se dentro das tripas e não há galho onde o «pássaro do seu medo» consiga poisar. Durante duas semanas, ele atravessará cirurgias, recobros e monitorizações clínicas como se já não estivesse no «abismo da enfermaria» mas num outro espaço, uma espécie de limbo no «centro do que não sabemos», talvez o «sonho imaginado» de que fala Camões, povoado de memórias e das tais «cousas ausentes» que se tornam presentes «como se nunca passaram».

Quando olha pela janela, este homem, a quem por vezes chamam Sr. Antunes e outras Antoninho (alimentando a tensão autobiográfica do livro, escrito por alguém que esteve internado nas mesmas datas, 21 de Março a 4 de Abril de 2007, pelas mesmas razões), este corpo em suspenso só consegue ver o seu passado: a infância na vila perdida por entre as serras, com os comboios a passar, a casa da família, o poço dos suicidas, o pilar de granito em volta do qual fazia oitos com a bicicleta, o hotel dos ingleses do volfrâmio, e uma série de defuntos que talvez prossigam «numa existência paralela a esta», como o avô eternamente a ler o seu jornal, a dona Irene que tocava harpa, o pai que lhe mostrou a nascente do Mondego, etc.

Tudo isto lhe chega em «revoadas de imagens», com histórias atropelando-se umas às outras, vindas de épocas muito afastadas para o turbilhão de um «tempo contínuo» em que se fundem «o passado remoto, o presente alheio, o futuro inexistente». Unindo esta amálgama por vezes confusa, uma metáfora: a do rio Mondego, «fiozito entre penedos» quando nasce mas que depois engrossa e se alimenta de outros rios a caminho do mar, tal como o protagonista acaba sendo o leito onde confluem as desordenadas águas das vidas alheias, dando sentido à sua.

Tecnicamente, a escrita de Lobo Antunes é irrepreensível. A cada dia corresponde um capítulo. A cada capítulo, uma única frase. E ninguém domina como Lobo Antunes o ritmo, a fluidez e a respiração da frase, ninguém faz dela uma unidade narrativa tão bem articulada e tão eficaz. O problema é que o trabalho com a linguagem deixa por vezes contaminar-se pela natureza do que descreve. E quando o protagonista se afunda no seu delírio, entre «formas que iam, vinham e tornavam a ir, se sobrepunham e afastavam, rodavam lentamente ou elevavam-se e caíam depressa, pareciam definir-se e em lugar de se definirem dissolviam-se», é a própria escrita que se dissolve e deixa o leitor às escuras, avançando às apalpadelas, tão maravilhado quanto perdido.

À semelhança do que acontece ao corpo preso às máquinas, Sôbolos Rios que Vãodesmorona-se enquanto o lemos. É uma experiência dura, difícil, mas magnífica. E estranhamente recompensadora, talvez porque entre as ruínas desta aproximação à morte, contra todas as expectativas, pulsa a vida.


Avaliação: 8,5/10
texto publicado no suplemento Actual do Expresso

José Mário Silva
01.11.2010

02/11/2010

Joaquim Gonçalves: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Ou não havia comboios ou não paravam ali” (pág. 170)

Os comboios, poucos, passam numa estação deserta. É raro o que pára até que, por falta de passageiros, deixam de o fazer e passam rápidos deixando o funcionário da estação triste, cabisbaixo, bandeirola sem serventia debaixo do braço. Como a vida que se vai esvaindo mas a assistir à pujança de outras ainda em trânsito, em velocidade de cruzeiro. Até que cheguem à meta.


Ler um livro é ler a vida. Vidas – outras vidas. Vividas, inventadas, ou vividas e transformadas em história. Em histórias. Com verdades e mentiras. Com mentirinhas que a imaginação transforma em verdades no seu contexto. Com verdades que desejamos mentiras. E o contrário.

Para chegar a esse ponto é preciso que alguém o escreva. Escrever um livro digno de ser lido por outrem é um processo alquímico ao alcance de apenas alguns. Não direi que iluminados mas, sim, com arte para trabalhar as palavras e juntá-las em ideias. E daqui se criou a profissão de escritor que, para sobreviver, tem de escrever muito. Umas vezes melhor, outras, menos bem.

Do muito que o obreiro escreva nem tudo terá a mesma qualidade. Até porque esse é um conceito com alguma carga de subjectividade balizada pelo gosto e disposição de quem lê. E também pelo saber. Mas também desse que escreve.

Não é fácil conjugar o espírito de quem escreveu, a disposição com que o fez, com o do leitor. O encontro entre o leitor e o escritor, por via do livro, é um momento único. Uma explosão.

Avaliar um escritor profícuo por uma ou outra – ou outras – obra menos bem conseguida será pretensiosismo ou imodéstia. Ou não. Será, sobretudo, injusto. Ler um autor é ler toda a sua obra. O que é certamente diferente de ler um ou outro livro. Mas só daquela forma se pode tecer uma crítica justa.

Por outro lado, e para o leitor que lê apenas por divertimento puro, despreocupado com a forma mas exigente com o enredo, é normal que caia a crítica dura quando o livro não tem aquilo a que se chama um enredo.

Acabar de ler um livro e não o largar. Ficar a olhar para ele. Passar com a palma da mão pelas capas num gesto carinhoso disfarçado de limpar o pó que não há. Volteá-lo nas mãos. Depois, pousá-lo na mesa como feito de cristal.

Este não é um livro para qualquer um. É um livro apenas para leitores privilegiados.
Falo de António Lobo Antunes e do seu último livro – reparem que não lhe chamo romance – “Sôbolos rios que vão”.

Entre 21 de Março e 4 de Abril de 2007, cerca de duas semanas, um homem que foi operado a um cancro, sob os efeitos da anestesia e de sedativos, intercala lapsos de memórias de infância, num discurso quase poético, com o momento que está a viver, o pragmatismo da doença identificado por frases curtas principalmente do pessoal médico, o ambiente que o rodeia, frases soltas largadas por visitantes de outros doentes.

Não tendo propriamente um enredo, o livro tem um pulsar sempre presente e crescente. Com menos fragmentação do que em obras anteriores Lobo Antunes cativa o leitor como um mestre de sensibilidade. “Sôbolos rios que vão”, título retirado de um verso de Camões é, ele também, um grande poema, com “grande” a utilizar todos os sentidos da palavra.

Este não é um livro para qualquer um. É um livro apenas para leitores privilegiados. E eu sou um dos que tiveram o privilégio de o ler.


por Joaquim Gonçalves
31.10.2010

01/11/2010

31/10/2010

Da apresentação de Sôbolos Rios Que Vão



Visão: Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes


Visão
Entrevista de Ricardo Araújo Pereira
28 de Outubro de 2010




Sabíamos da admiração mútua. E ainda no lembramos de quando Ricardo Araújo Pereira era estagiário no Jornal de Letras. No momento em que Sôbolos Rios Que Vão chega às livrarias, a Visão desafiou o humorista a entrevistar o escritor. António Lobo Antunes abriu-lhe as portas da sua casa, e baixou todas as defesas.


O sr. António Antunes vive num sítio que não existe. Ora está no Hospital de Santa Maria, onde lhe chamam sr. Antunes, em março de 2007, ora está em Nelas, no tempo em que o tratam por Antoninho. Corrijo: não está ora num lugar, ora noutro. Está nos dois ao mesmo tempo, no tal sítio que não existe. Está num hospital que cheira a campo e a compota; e está na margem de um Mondego à beira do qual há árvores das quais saem tubos de soro. E não é só o sítio que não existe: o sr. António Antunes, na verdade, também não («Não vês que nenhum de nós existe?», lembra, insistentemente, a governanta do senhor vigário): é um menino que os médicos operam a um cancro e um velho que enche balões que têm escrito «Armazéns Victória Tudo Para a Mulher Moderna», que sonha com uma estrangeira loira que viu num hotel, que luta com a ortografia da palavra bochecha por causa de um ditado («Título: O Balão. Noutra linha: Bochecha de menino me deu vida»).


Sôbolos Rios Que Vão é, como diz Lobo Antunes de si mesmo, um elo de uma corrente. Está encadeado com um poema de Camões que, por sua vez, estava enlaçado à Bíblia. Mas é escrito noutra língua. No idioma de Lobo Antunes, Sião diz-se infância, exílio diz-se cama de hospital, e Tigre e Eufrates confluem para levarem ambos o nome de Mondego. A harpa passou das mãos dos que a tocavam junto dos rios da Babilónia para as de uma certa dona Irene, que também perde a alegria de tocá-la.
Não interessa muito saber até que ponto o sr. António Antunes é António Lobo Antunes, uma vez que, para todos os efeitos, o sr. António Antunes somos também o leitor e eu. Estamos todos no Hospital de Santa Maria (local a que, fora dos livros, chamamos mundo) entre 21 de março e 4 de abril de 2007 (período a que aqui costumamos chamar vida).
António Lobo Antunes, a quem Mario Vargas Llosa telefonou, na semana passada, a pedir desculpa por ter ganho o Nobel em vez dele, refere-se muitas vezes aos seus livros como «as minhas redacções». Em criança, escrevia com um livro aberto à sua frente, para enganar um adulto que o surpreendesse quando devia estar a estudar. Hoje, continua a escrever com um livro aberto diante de si, como se a escrita fosse ainda uma espécie de transgressão infantil. Aos livros de António Lobo Antunes, é bochecha de menino que lhes dá vida.
Esta entrevista foi feita em casa do escritor. Como sempre que se encontram dois benfiquistas decentes (passe o pleonasmo), começou por se falar do Benfica. Recordou-se a equipa bicampeã da Europa, e os seus jogadores foram sempre designados pelo nome completo, como deve ser. Dedicou-se um quarto de hora ao pé esquerdo de Fernando Chalana, que, no entanto, merecia mais. A subtileza de Nené e a inteligência de Pablo Aimar foram medidas contra a subtileza e a inteligência de outros (sim, outros) poetas, e ganharam a contenda. Só depois se falou de temas não tão importantes, como a vida, a morte, a literatura. Com desculpas aos leitores, é essa parte menos interessante da conversa que aqui se reproduz.
Quando, ainda criança, o sr. António Antunes assiste a um cortejo fúnebre e se aproxima da ideia da morte pela primeira vez, a prima põe-lhe a mão na testa e diz: «Quando cresceres compreendes» (página 31). Mas ela está a mentir, não está? Nós nunca compreendemos.
Nunca compreendemos. Há uma história engraçada do Walt Whitman. Ele estava num velório e havia uma criança ao pé dele. Agarrou na miúda, mostrou-lhe o caixão e perguntou: «Tu não percebes? Eu também não.» É uma incompreensão perante a morte... Eu nunca tinha visto morte. Vi esse enterro de criança, em Nelas, e não voltei a vê-la: eu era o filho mais velho de dois filhos mais velhos, os meus avós tinham 40 anos. Só voltei a vê-la quando entrei na faculdade de Medicina, no teatro anatómico, tinha acabado de fazer 17 anos. E pensei: não sou capaz de ver, não sou capaz de olhar. É uma total incompreensão para mim.
 
Escrever sobre a morte é um modo de tentar compreender?
Nunca ninguém morre nos meus livros, passam é a viver de maneira diferente. O meu pai, depois de morrer, continuou a mudar, a existir dentro de mim. E continuámos a falar. Até que chega uma altura em que estamos em paz e o nosso diálogo é de tal maneira perfeito que nem sequer necessitamos de palavras. E depois sentimos que estamos a viver também por eles. Eu estou a viver pelas pessoas de quem gostei e que, para mim, continuam vivas. Mas, ao mesmo tempo, quando escrevemos, estamos tão ocupados a resolver os problemas técnicos que não sabemos muito bem para onde estamos a ir. Claro que não é escrita automática, mas... Estamos a querer dizer a vida toda. E, no fundo, talvez seja a única maneira que nós temos de vencer a morte. Não sei. Há uma coisa muito mais importante do que o talento: é a bondade.  E como, para mim, o defeito mais grave é a ingratidão, a única coisa que eu sempre achei que tinha era a capacidade de escrever coisas em que pudesse dar às pessoas de quem gostava aquilo que não era capaz de lhes dar. Por pudor, por vergonha, por cobardia, talvez, por estupidez. Está a ver? Tomem lá, isto sou eu. Tomem. É para vocês. É um presente que eu fiz. Quando um dos meus irmãos era pequenino, o meu pai fez anos e o presente que o miúdo lhe deu foi uma torrada embrulhada num guardanapo de papel. Nunca vi o meu pai tão comovido. Uma vez, uma das minhas filhas, quando era pequenina, deu-me 25 tostões, nos meus anos. Foi o melhor presente que me deram. Estou a dizer isto e estou a comover-me porque [pausa] nunca me deram tanto dinheiro.
 
Há um momento no livro em que o sr. António Antunes diz: «Não faz sentido eu morrer» (pág. 53). Na crónica que publicou  aqui, na Visão, depois de ter sido operado, António Lobo Antunes escreveu: «Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortalidade, o meu pasmo.» Tanto o autor como a personagem são tomados pelo mesmo espanto. A morte é a circunstância mais corriqueira da existência, mas surpreende-nos a todos.
O que senti nessa altura foi: «Estão a brincar comigo, não sou eu. Um cancro? Não.» Mas quando comecei a pensar em escrever o livro decidi fazer uma coisa que nunca fiz: usar uma falsa terceira pessoa. E jogar com os tempos. Porque a carga emocional era tão forte que tinha de me servir de uma série de artifícios técnicos para me ser menos penoso escrever. Para não me comover tanto, para não me emocionar tanto, para não sofrer tanto.
 
Interpor um filtro de técnica entre o coração e página.
Exactamente. Embora, para escrever, tenhamos de ter o coração aberto mas, ao mesmo tempo, todo o conhecimento. Quando eu acabei o curso, havia um professor de cirurgia que era muito bom. Dizia o que tinha a dizer e depois: «Agora esqueçam tudo e vão lá para dentro.» Porque o conhecimento técnico acaba por ser internalizado. E nós, quando estamos a escrever, estamos a aprender a escrever, também, porque qualquer livro bom é um livro sobre como escrever. Qualquer bom escritor está a ensinar-nos a lê-lo. Por exemplo, eu aprendi a ler o Conrad com o Conrad. Ao princípio, não percebia nada, parecia-me uma confusão. O Gogol. Aprendi a lê-los com eles. O Dylan Thomas, que, à primeira vista, parece uma catadupa de imagens sem sentido. E não é. É muito mais que isso, somos nós todos. E então, a minha gratidão para com os artistas é imensa. A melhor crítica de pintura que eu conheço foi feita quando o Théophile Gautier foi ao Prado ver As Meninas. O gajo olhou e disse: «Mais où est le tableau?» Onde é que está o quadro? É quando o livro deixa de ser livro para se tornar nós - nós, leitores. Acontece-me tanto. Às vezes a gente descobre um bom escritor. Descobri, há relativamente pouco tempo, o Cormac MacCarthy. Muito bom. O Kosztolányi, o húngaro. Muito bom. Eles escreveram só para mim. Os outros exemplares trazem coisas diferentes. Eu não gosto de emprestar livros, porque o meu exemplar é que é. Como acho que O Monte dos Vendavais foi escrito só para mim. Ela está a falar comigo, ela conhece-me. Ela conhece-me.
 
Há outro livro de um escritor português - aliás, seu amigo -, José Cardoso Pires, também escrito a partir de uma situação em que o autor se confronta com a morte, que se chama De Profundis, Valsa Lenta. «De profundis» são as primeiras palavras do salmo 130. «Sôbolos rios que vão» são as primeiras palavras de um poema de Camões que é uma glosa do salmo 137. É uma coincidência que dois ateus, quando colocados perante a morte, invoquem a Bíblia?
Eu acho que não há ateus. Não há, não acredito que haja. Há um provérbio húngaro muito antigo que diz: «Não há ateus na cova no lobo.» E há outro que eu acho do caraças, que é: «Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e fez chichi no mar.» É magnífico, não é? Talvez seja isso que nós fazemos. Fazemos chichi no mar mas, porra, acrescentámos. Isso dá-nos algum consolo. Mas são duas situações muito diferentes. O Zé podia ser meu pai, quase, e, no entanto, era o melhor amigo que eu tinha. Era um homem excecional. Telefonava todos os dias. Era um homem duro, cheio de arestas. Uma vez mostrou-me uma coisa do Redol, que era uma pessoa que ele admirava muito. Eu lia os livros do Redol e não gostava nada. E um dia percebi. Ele mostrou-me uma carta que o Redol, que estava a morrer em Santa Maria quando eu era estagiário, lhe escreveu. Uma carta em papel timbrado de um hotel. O timbre era uma coisa muito pomposa. E o Redol despede-se. Zé, nunca mais te vou ver, fui muito teu amigo, e tal...P.S.: Já viste papel de carta com mais mania? O Zé disse: «Foi a única vez que eu chorei como uma criança.» E o Zé, quando chega a altura do De Profundis, escreveu aquele livro pequeno porque já não era capaz de o escrever grande. Foi muito diferente disto, porque eu estava cheio de força quando estava a escrever o livro, embora me tenha custado muito. Eu li, há dias, uma entrevista do escritor [José] Rodrigues dos Santos, julgo que na Visão, em que ele dizia que, se o escritor não tem prazer em escrever, o leitor não tem prazer em ler. Qualquer coisa desse género. Meu Deus... O Zé dizia: «É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha alegria.» Lembro-me sempre daquele primeiro verso do Endymion, do Keats: «Uma coisa bela é uma alegria para sempre.» O que eu devo aos livros, e à pintura, e à música... O que eu devo ao André Brun...
 
Ao André Brun?
O André Brun foi comandante do meu avô, na guerra, era oficial do exército. O meu avô dizia que era um homem de uma coragem extraordinária. E depois ficaram amigos. Ele morreu relativamente cedo, e o meu avô contava, comovido, que, na última vez que o visitou, perguntou-lhe: «Então, André, como vais?» E ele respondeu: «Olha, se calhar vou de casaca.» E tinha lá os livros todos do André Brun. O que aquele homem trouxe aos meus 10 anos foi imenso. E era um humorista. Tem um livro passado nas trincheiras onde consegue fazer humor com situações muito complicadas, de vida ou de morte. O que eu devo às Selecções do Reader's Digest que havia em casa dos meus avós. Perguntam a um escritor: quem foram os autores influentes para si? Homero, ou este, ou aquele, ou aqueloutro. É mentira, isto.
 
Quem são os seus?
A mim, o que me deu vontade de escrever foram o Almanaque Bertrand, o Pato Donald, O Mandrake... Foi por causa disso que eu comecei a escrever. Estava sozinho, escrevia, e depois é um milagre, para uma criança, que as palavras, postas à frente umas das outras, façam sentido. Até que descobrimos que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal. E aí, pelos 20 anos, descobre-se que, entre escrever bem e uma obra-prima, há uma diferença ainda maior, e que só vale a pena escrever para ser o melhor. Para dizer aquilo que nunca foi dito. Como é que eu hei-de explicar? Eu sinto-me um elo de uma corrente que começou muito antes e acabará muito depois. E quem é que escreve? Quando escrevemos, quem é que escreve? Quem é que, através da nossa mão, se exprime? Quem? Não sei. A gente só tem perguntas, e quando encontra respostas elas transformam-se em novas perguntas. Então, nunca faremos o livro que queremos, porque pode-se sempre ir mais longe. E, se conseguirmos trazer uma coisa que achamos nova, percebemos que essa coisa é uma porta que dá para outra coisa ainda, e outra, e outra, e outra...
 
Quem é que o António lê hoje?
Nós temos poetas contemporâneos de grande qualidade. O Vasco Graça Moura é um grande poeta. Um, que descobri há relativamente pouco tempo: Manuel António Pina. É muito bom. António Franco Alexandre. É muito bom. E estou a esquecer-me de nomes. Pedro Tamen. Infelizmente nas traduções de poesia, essa qualidade não passa. Mas eu gosto tanto de ser português, pá. Gosto de Portugal. No aeroporto, conheço logo a bicha do avião que vem para Portugal: são os mais feios, mais pequenos, mais escuros. Mas gosto. Gosto do nosso mau gosto. Gosto. Há um lado meu que adora essas coisas: cães de faiança, molduras de talha. Gosto. Quadros de palhacinhos a chorarem, de gatinhos a saírem de botas. Gosto. Um livro sem mau gosto é mau.
 
Em De Profundis, José Cardoso Pires fica sem memória; em Sôbolos Rios Que Vão, a memória é tudo o que resta ao sr. António Antunes. É mais cruel perder a memória ou conservá-la, sabendo que, como diz o poema de Camões que dá título ao seu livro, «todo o bem passado...»
Ah, sim, «...não é gosto, mas é mágoa». [Pausa.] Não sei responder. Era uma mistura de emoções. [Pausa.] Sabe, na semana passada, disseram-me da editora que uma senhora que tem um cancro em fase terminal gostava que eu lhe assinasse os livros. Ou, o ano passado... recebi um telefonema de França. «Está? Chamo-me Jean Daniel.» Jean Daniel era um ídolo da minha juventude. Diretor do Nouvel Observateur. Foi através da crítica literária do Nouvel Observateur que vim a saber do boom sul-americano, que estava a acontecer nessa altura. Portanto, era um homem a quem eu devia muito. E o senhor telefona-me e diz: «Eu tenho 89 anos e gostava de o conhecer antes de morrer.» Isto é tudo tão comovente, não é? Tenho tido muita sorte. E depois são os amigos desconhecidos. No outro dia, estava à procura de uma rua até que entrei num cafezinho pequeno para perguntar. Dois homens levantaram-se e levaram-me lá. O que isto vale... Diga lá se uma pessoa merece isto... Não merece. Tinham lido os livros, é extraordinário.
 
No segundo capítulo, o da operação, o jogo com os tempos de que falava há pouco é mais intenso. Há uma espécie de «chuva oblíqua» entre Nelas e o hospital em que, ainda mais do que no poema do Pessoa, é evidente que o tempo passado e o tempo presente se misturam e criam um outro tempo, um terceiro tempo que é a fusão dos dois.
Foi muito difícil escrever esse capítulo, não sabia como havia de fazê-lo. [Pausa.]Concordo consigo, os tempos misturam-se e há um outro tempo.
 
Quem está naquela cama, em Santa Maria, é o sr. António Antunes ou o Antoninho? Quem morre, quando se morre? O velho que vemos no hospital ou uma criança que já não existe mas que continua a ocupar o espaço da memória, a lembrar-se dos balões dos «Armazéns Victória Tudo Para a Mulher Moderna», de uma estrangeira loira que havia num hotel - ou de um trenó que tem escritoRosebud?
Ah! Não tinha reparado nisso.
 
Sabe qual é o seu balão, a sua estrangeira loira, o seu trenó?
Não sei... [pausa]. Não tinha pensado nisso. Sabe, o Orson Welles disse uma coisa que foi importante para mim: «Há duas coisas que nunca filmo: pessoas a fazerem amor e pessoas a rezarem.» Não há uma descrição de sexo num livro meu. [Pausa.] Esse filme[Citizen Kane] é um milagre. Um milagre. A gente fica com aquela inveja saudável. E, ao mesmo tempo, com orgulho. Um grande artista devolve-nos uma imensa dignidade. Eu vejo sempre o concerto de ano novo, com música do Strauss, e comovo-me até às lágrimas. É uma tal vitória sobre a morte, a música do Strauss... É preciso acreditar nas pessoas. As pessoas são tão mais ricas do que elas mesmo pensam. Nós parecemos viúvas pobres: vivemos em duas assoalhadas com serventia de cozinha. E procuramos a porta em paredes que sabemos que não têm porta, e temos medo de abrir as janelas. E, depois, há assim uns cabrões, como o Strauss, que fazem isto por nós.
 
Há um livro da Susan Sontag (A Doença e as Suas Metáforas) em que ela diz que a antiga ideia romântica que tínhamos da tuberculose, segundo a qual a doença era provocada pelo caráter do doente, subsiste hoje, mas agora em relação ao cancro. Que a vítima é, ao menos em parte, culpada. Sentiu isso?
Isso é tão verdade que eu tinha vergonha. Por exemplo, eu podia pagar menos IRS se invocasse o cancro, e fui incapaz de o fazer. Tinha vergonha. Era uma inferioridade minha. Só pensava: que diferente que isto é da guerra. Porque, na guerra, há uma coisa que está fora de mim e eu posso dar-lhe um tiro. Aqui, não posso fazer nada. Lembro-me de, quando estava a fazer radioterapia, dizer: «Morre, morre, filho da puta.» Insultava o cancro. [Risos.]
 
É como diz no livro? «Pode ter-se um cancro e estar alegre, ora essa» (pág. 19). Se calhar, nem há outra maneira.
Eu, infelizmente, não sou uma pessoa feliz nem alegre. Tenho dois ou três amigos que são, e tenho uma inveja imensa deles. Primeiro, porque pertenço à classe dos eternos culpabilizados. Culpado de tudo. E, depois, às vezes, penso: porque é que a gente sofre tanto? E sofrer por nadas.

Logo no início do livro, diz-se: «que terrível e cómica, a morte» (pág. 14). O facto de ser cómica faz com que seja ainda terrível ou torna-a menor aos nossos olhos e por isso mais fácil de enfrentar?
Ó Ricardo, não sei, ainda não morri. Mas a gente não pode levar a morte a sério. Há que aceitar a morte como a impostora que é. Uma vez perguntaram ao Hemingway o que é que ele achava da morte, e ele disse: «Outra puta.» E venceu-a. Ele dizia: um homem pode ser destruído, mas não pode ser vencido. [Pausa.] Tinha razão, não tinha?
 

pequenos excertos da entrevista podem ser vistos num vídeo disponível no site da Visão.

Visão
28.10.2010

30/10/2010

Da leitora Lígia Trindade: «um escritor sensível»

António Lobo Antunes, um escritor sensível que escreve para gente sensível capaz de ler o que não está lá

Julgo na minha modesta opinião que para entender devidamente as obras de António Lobo Antunes, é preciso saber lê-las nas entrelinhas. A sua narrativa é representada através de um bailado de palavras que actuam numa coreografia poética e musical, onde a linguagem por vezes mística e enigmática assume uma aparente incoerência. Para desvendar o mistério dessa linguagem, é preciso ser-se dotado de uma sensibilidade próxima da sensibilidade do autor. Por detrás de cada frase, co-existe uma densidade de emoções e sentimentos que emergem de monólogos interiores profundos, ruminantes por vezes, mas essenciais. Desta forma creio que o conteúdo da “história” perde importância (não deixando de ser relevante) para a forma peculiar, sibilina e magistral como é contada; não importa tanto como começa, nem como acaba, mas como se desenvolve num momento que é intemporal feito de fragmentos dispersos, que surgem para fomentar uma estranheza propositada para dar sentimento e lógica às relações humanas por vezes degradantes.

O leitor precisa ter alguma capacidade de reflexão e sensibilidade para conseguir embrenhar-se nas palavras que estão escritas (que são visíveis) e nas que não estão lá. Só assim é possível chegar à verdadeira leitura, à leitura que o autor oferece para que a decifremos e desvendemos, não tanto com o cérebro, mas com o coração e com a alma.

Há quem se preocupe em encontrar de forma excessiva e por vezes obsessiva, aspectos biográficos do autor nas suas obras, como se isso fosse o mais importante ou como se isso fosse assim tão evidente. Um escritor não consegue evitar que a ficção se misture com a realidade e muitas vezes não consegue perceber onde acaba uma e começa a outra. Cabe ao leitor abstrair-se dessa tentação de interpretar o que não deve ser interpretado, ou corre o risco de não sentir o romance como ele deve ser sentido; é preciso vivê-lo com todas as vísceras e encontrar o sentido daquilo que o autor pretende transmitir e que é tanta coisa…


Lígia Trindade
e-mail de 30.10.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...