17 de outubro de 2010

«Tenho a certeza de que serei lido para sempre»


Expresso - Revista Única
Entrevista de Ana Soromenho e José Mário Silva
16 de Outubro de 2010



«Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias»


Esquivo. Arrogante. Gentil. Inseguro. Terno. Brutal. Conversa com António Lobo Antunes, o escritor que continua a dizer que não gosta de entrevistas.
António Lobo Antunes recebe-nos em casa: estantes cheias até ao teto. Quadros de Júlio Pomar, fotografias da família e amigos. Foi aqui que escreveu o livro publicado por estes dias ("Sôbolos Rios que Vão", Dom Quixote) e o próximo, já em fase de revisão. É a primeira vez que escreve onde mora. «Ao contrário das minhas casas anteriores, esta não está sempre a mandar-me embora», explica enquanto nos conduz à sala ampla e luminosa, as árvores a agigantarem-se nas janelas. O escritor que afirma ter muita dificuldade em falar da matéria dos livros, porque «está no limite do indizível», não vive sem eles. Junto aos sofás, a estante dos preferidos: Tolstói, Cervantes, Joyce, Shakespeare, Conrad.... Uma sala inteira é reservada aos exemplares das muitas traduções dos seus livros feitas pelo mundo fora. Quando conversamos com Lobo Antunes, ficamos sem conseguir perceber se ele sabe onde termina a sua ficção e começa a sua realidade.
Disse-nos que não queria dar esta entrevista... E, para nós, também se torna delicado...Delicado porquê?

Preferimos entrevistar quem tenha prazer na conversa. Tanto no seu caso como no nosso, é trabalho.
É o vosso trabalho, não o meu.

Se não fosse pelo seu trabalho, não estávamos aqui.
O meu trabalho é escrever livros, não é falar sobre eles.

Mas fala.
Não, não falo.

Acaba sempre por falar. Dá muitas entrevistas.
Vamos ver... As entrevistas são terríveis. Trata-se de um exercício de vaidade. Construímos uma pessoa a partir de uma ideia ou construímos a ideia a partir da pessoa? Muitas vezes, já se leva uma ideia da pessoa e queremos, instintivamente, que ela corresponda.

Diz que não gosta nada disto, mas colabora sempre. No fundo, aprecia este jogo.
Acho que sou ingénuo. Penso: "Desta vez, vão-me entender." Talvez porque espere um entrevistador ideal. No meu caso, a corrente passa ou não passa. Quando não passa, é impossível. Não quero dar nenhuma ideia ao leitor acerca do livro. Tem de se vender sozinho. Quando o publico, é porque estou contente com ele. O importante é que chegue ao bom leitor.

O que é um bom leitor?
É um leitor que fala para o livro.

Esse diálogo é silencioso.
Não é silencioso, está cheio de gritos.

Mas são gritos interiores, entre o leitor e o livro. Como é que o escritor recebe esse eco?
Há muitos que me escrevem. E não só leitores. O Christian Bourgois [editor francês da obra de Lobo Antunes], com quem não falava de livros, escreveu-me uma carta, antes de morrer, em que diz: "Tu és meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto." Nunca me tinha dito isto. Era um homem que parecia seco, mas por baixo dessa frieza aparente havia um calor humano extraordinário. Portou-se com uma grande coragem durante o cancro, sabendo que ia morrer. Eu disse à mulher, a Dominique, que é quem dirige agora a editora: "O teu marido portou-se com imensa coragem." Ela respondeu-me: "Não é coragem, é elegância."

Essa luta coincidiu no tempo com a sua própria luta contra o cancro.
Foi um pouco antes. O problema é que ele morreu e eu não. Sabe, quando estava a fazer tratamentos, pensava muito: "Hoje vou viver ou morrer?" As outras pessoas comportavam-se com uma dignidade imensa.

Fala nisso como se houvesse em si uma culpabilidade.
E havia. Sentia-me culpado.

Mas porquê?
Porque as pessoas eram melhores do que eu. Mais dignas, mais corajosas. A única coisa que eu sentia era um vazio.

Acha que não teve essa coragem?
Perguntei aos meus amigos. Dizem que sim.

Numa situação dessas, o que é ter dignidade?
Na sala de espera da radioterapia, havia revistas nas mesas que ninguém lia, televisões para as quais ninguém olhava, raparigas de 18 anos com cabeleiras postiças. E eu sentia-me rodeado de príncipes. Eles eram, eu não. Um senhor de idade vinha de uma terra qualquer do Alentejo e a ambulância trazia-o para Santa Maria. Vestia fato completo. Um fato cheio de manchas, com o colarinho abotoado, mas sem gravata. Já tinha a magreza dos estados terminais, uma cor horrível, e, quando o chamavam, avançava como se fosse um rei. Nunca vi gravata tão bonita como aquela. Essa majestade, eu não tinha.

De que modo essa proximidade com a morte o transformou?
Há uma série de coisas que deixam de ser importantes.

Quais?
Olhe, há outras que passam a ser importantes. Estar sol, estar aqui sentado, estar vivo. Agora faço revisões de seis em seis meses e para o ano consideram-me curado.

Entretanto, continua a fumar cigarros...
Claro que continuo.

Foi sorte?
Não. Foi um cirurgião extraordinário. Antes da cirurgia, explicou-me que a TAC não tinha metástases mas que não sabia o que ia encontrar. Eu estava à espera da anestesia e de repente senti que me estavam a pegar na mão. Era ele. Esteve de mão dada comigo até eu adormecer. É difícil imaginar como isto é importante.

Teve medo?
O que vem depois é uma indiferença, um vazio. O pós-operatório foi muito longo. De início, não tinha sequer força para carregar na campainha para chamar a enfermeira. Eu era uma coisa que estava ali.

Como é que se volta à vida normal?
Muito devagar. Eu estava a meio de um livro, "O Arquipélago da Insónia". Quis recomeçar, mas escrevia meia hora e ficava exausto.
Consegue-se regressar ao mesmo livro?
Estava cheio de medo. Se não escrevo durante quatro ou cinco dias, perco a mão. E ali foram meses. Não sei, um livro é tão independente de nós... Tem uma vida própria.

O livro ajudou-o a sair do vazio?Não. Aí eu já estava mais seguro de que não ia morrer. O cirurgião dizia que tinha de retomar as minhas rotinas, e eu não conseguia. Ficava sentado o dia todo a olhar para a parede.

Assustou-o a possibilidade de não voltar a escrever?
Não pensava nisso. Agora, sou outra vez incapaz de imaginar a vida sem escrever. Na altura, era-me indiferente.

O que era voltar às rotinas? Dá a ideia de ser uma pessoa extremamente metódica.
Tenho de ser, não é? Este é um ofício de paciência. Começa das dez à uma, continua das duas até às oito, e depois das nove às onze. Ao sábado, a partir das cinco, não escrevo. No domingo, recomeço.

Toda a sua vida se organiza em volta desse horário intenso?
Sim, desde que deixei de ser médico.

Essa outra profissão aparece sempre em segundo plano., mas também foi determinante.
Gostei de ser médico.

De que é que gostava?
De várias coisas. Ser imediatamente útil, ver as pessoas melhorar. Aprendi imenso com os pacientes. Foi lá que ouvi a melhor lição de teoria da literatura. Já contei isto. Um dia, uma pessoa a quem chamavam esquizofrénico disse-me; "O mundo começou a ser feito por detrás." É uma frase extraordinária. Ou aquela outra, de uma mulher com imensas dores que, ao perguntarem-lhe como se aguentava, dizia: "É tudo a poder de lágrimas e ais." A beleza desta frase! Como isto resume bem o sofrimento! E, depois, o encontro com as pessoas. Sempre vivi espantado com a riqueza das pessoas. Mas fui para Psiquiatria quase por acaso. O meu pai era um neuropatologista e ficou muito chocado com a minha escolha. Achava que a Psiquiatria é uma espécie de conto de fadas científico. Dizia que tanto faz o diagnóstico, o tratamento é sempre igual.

Também não via com bons olhos a sua opção pela literatura.
Nunca falámos sobre os meus livros.

Mas sabia a opinião que ele tinha sobre si enquanto escritor.
Não. Só soube a sua opinião depois de ele morrer.

Como soube?
Deixou-me escrito.

Deixou-lhe cartas?
Uma carta.

Podemos perguntar-lhe o que dizia?
Com 13 anos anunciei-lhe que era escritor e que queria ir para Letras. Ao contrário da minha família, que pensava que eu ia acabar na miséria, a vender pensos rápidos, eu tinha a certeza que não. Estava seguro do meu génio. Era uma coisa que não oferecia qualquer discussão. Isto com 8, 9 anos. Tinha a certeza de que ia trazer coisas novas e também que só escrevia merda. Com 18 anos, o Almeida Faria, que era da minha idade, publicou o "Rumor Branco" e depois "A Paixão", e eu pensei: "Bolas, são todos melhores do que eu." Demorei muito tempo a encontrar uma voz.

A sua voz.
Não sei se é a minha. Mas demorei muito tempo a encontrar uma maneira de dizer as coisas. Com os primeiros livros, sentia: "Ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto." Devia ter começado a publicar só a partir de "O Esplendor de Portugal": a partir daí, os livros tornam-se mais parecidos com o que para mim deve ser um romance.

Talvez não conseguisse chegar lá se não tivesse escrito os primeiros livros.
Talvez. É verdade que a partir do "Conhecimento do Inferno" começo a tentar introduzir uma maneira de dizer as coisas diferente.

Na tal carta, o seu pai falava-lhe dos livros?
Falava em geral.

O que ficou a saber que não soubesse?
Nunca mostrei a ninguém.

Surpreendeu-o?
Não. Correspondia ao que eu achava de mim mesmo.

Portanto, ele acabou por reconhecê-lo.
É muito curioso, os nossos mortos continuam a mudar dentro de nós. Continuam a dialogar e a inquirir-nos. Depois, finalmente, há uma altura em que ficamos em paz, se conseguirmos. A maioria dos filhos forma-se contra o pai. Eu formei-me de costas para ele. Mas houve uma coisa muito importante que ele me transmitiu: o pudor. Nunca o vi elogiar um filho. Lembro-me que uma vez tive um Muito Bom, e os pais dos meus amigos, quando eles tinham boas notas, davam-lhes dinheiro. O meu disse: "Só te dou dinheiro quando tiveres um Bestial."

Era muito exigente.
Era muito normativo, mas naquela época era impossível não ser. Não tinha o menor sentido de humor, não  tinha a menor imaginação, não era criativo. E acho que o sonho secreto dele era ser escritor, ou pintor, ou uma coisa assim.

Percebeu isso mais tarde?
Não, já tinha percebido antes. Quando tinha 8 anos, ele sentava-se na borda da cama a ler-nos Flaubert e outros clássicos, a ler poesia.

Se foi ele que o introduziu nesse universo, porque é que se recusava a aceitá-lo como escritor?
Não me contrariou. Quando decidi que queria fazer Letras, disse-me apenas qualquer coisa como: "Acho que era melhor tirares um curso técnico, porque disciplina-te o pensamento."

E inscreveu-o em Medicina.
Sim.

Então estava a combater a sua vocação de escritor.
Não. Fui injusto ao dizer isso. Não me contrariou. Quando era miúdo, eu escrevia às escondidas, com um livro de estudo à frente, para trocar quando alguém me via. Ainda hoje escrevo com um livro aberto à minha frente. Há uma parte de mim que acha que esta não é uma actividade séria.

Será por isso que nunca falaram sobre os seus livros?
Nunca houve conversas pessoais entre nós. É uma coisa que me agrada. Com os meus irmãos também não tenho conversas dessas. Não se fala sobre a relação com Deus, que é uma coisa muito íntima, nem de relações afetivas. E de política muito pouco. Posso imaginar o que é que os meus irmãos pensam, mas não sei em quem é que votam, nem lhes pergunto.

Falam de quê?
De que falamos? De Medicina, de... Na minha família não se fala muito.

O seus pais não diziam que era especial?
Especial não, diferente. E era apavorante.

Diferente como?
Eu não sabia. Não sabia o que estava na cabeça deles. A minha mãe conta que eu com 2 anos me deitava no chão e ficava a olhar para o teto e que ela ficava muito assustada com isso.

Acha que foi um exemplo para os seus irmãos?
Nem por isso. Eu era um cobarde. Tinha medo de tudo. Em adolescente, só dei exemplos de cobardia física. Durante as revoltas estudantis, não ia por medo das cargas da polícia. Depois, houve África. E aí fiz coisas parvas. Sentava-me no guarda-lamas do rebenta-minas. Queria ganhar o meu respeito. Percebi que não se pode ter medo de ter medo. Um dos meus orgulhos é o amor que os meus soldados me têm.

Mas recentemente envolveu-se numa polémica com os militares...
Esse assunto está enterrado. Nunca me preocupei com isso. É uma palermice. O que a mim me mete medo é escrever. Cada livro é o primeiro livro. Uma pessoa está ali diante daquilo, e agora?

Sente sempre essa angústia ao começar um novo livro?
Estou tão ocupado a resolver os problemas técnicos que o texto me coloca que isso não acontece. Ao princípio fazia planos, esquemas, agora já não faço. O livro vai sempre para outros lados. Este que vai sair agora, por exemplo, não o imaginava assim.

O livro foge-lhe?
Não sei se ele foge. É como os filhos. Os filhos não são nossos, mas também não são de mais ninguém, não é? E depois o epíteto de romance... Aquilo não são romances. Eu quero é chegar ao mais profundo da verdade das coisas. Como nas peças de Tchekov, onde nada se passa e as personagens dizem frases como "tenho frio", "amanhã vai chover", "a cerejeira não sei quê"... E como ele consegue dar todas as gamas da alegria e do sofrimento. É espantoso. E, se formos ver os manuscritos, não há uma linha que não esteja rasurada. O problema é diminuir a distância entre a intensidade com que sinto as coisas e o que fica no papel.

Há momentos em que sente que escreveu exatamente aquilo que queria escrever?
São aqueles em que sentimos "é isto". Os bons momentos parece que nos são oferecidos, que não nos pertencem. Nunca releio os meus livros. É um paradoxo, porque escrevemos os livros que gostávamos de ler e depois não os lemos. E, se leio, começo logo com vontade de corrigir aquela porcaria toda.

Leu os trabalhos académicos, e já são muitos, que se têm feito sobre a sua obra?
Começo e depois não leio mais. Tenho medo que aquilo mate qualquer coisa. Mesmo quando fiz análise, nunca falei do que escrevia.

Foi importante fazer psicanálise? Ensinou-lhe alguma coisa sobre si?
Não sei. Foi há muitos anos. Não sei se foi aquilo, se foi o tempo. Há um episódio na vida de Alexandre Magno em que ele tinha de tomar uma decisão acerca de uma batalha e, contra seu hábito, estava muito indeciso. Então falaram-lhe de uma mulher que adivinhava o futuro. e ele mandou chamá-la. Ela disse: "Isto é muito fácil. Acendes uma grande fogueira, e as palavras aparecem no fumo. Só não podes pensar no olho esquerdo de um crocodilo." Ele mandou embora a mulher e não acendeu nenhum fogo. É evidente que a proibição iria gerar a transgressão. Escrever é isto: não pensar no olho esquerdo do crocodilo.

Mas com o novo romance está satisfeito.
Consegui dizer aquilo que queria dizer. Mas foi tão cortado que acabou por ficar pequeno. Quase um quinto da versão original.

Duzentas páginas é um bom tamanho.
É pequenino. Como leitor, gosto de livros grandes. Começo a gostar de um livro precisamente ao fim de duzentas páginas.

Este livro, que narra a história de alguém internado num hospital oncológico, volta a ser bastante autobiográfico.
Não há nada de autobiográfico. Devo ter ido à nascente do Mondego uma vez, e aquilo que vivi não foi assim.

Mas não foi esta a forma que encontrou  de trabalhar literariamente a experiência da doença e da proximidade da morte?
Foi completamente diferente. Eu estava vazio e aquela voz que fala está cheia de coisas lá dentro.

Parece que a aldeia da infância, de repente, entra pelo hospital dentro...
Vila!

Sim, desculpe, a vila... É inspirada em Nelas, não?
Claro. Há um homem, que é o Virgílio, que encantava a minha infância por andar numa carroça com um burro. Não me deixava pegar nas rédeas.

Afinal, é autobiográfico.
Essa parte é verdade, chamava-se mesmo Virgílio. A senhora que toca harpa também existia, fazia-me muita confusão.

E há um jogo com a identidade. O protagonista chama-se António, tratam-no por Sr. Antunes...
Faço isso em todos os livros, já reparou? Fiquei mesmo contente com este. Também tinha ficado com o anterior ["Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?"], mas depois percebi que tinha usado o pedófilo e que me tinha servido da muleta técnica para uma série de coisas, está a ver? E só me apercebi quando estava a corrigir. Neste livro, quis fazer sem corda nem picareta. Acho, e cada vez mais, que só devemos começar a escrever quando temos a certeza de não sermos capazes de o fazer. Como no livro dos "crocodilos": o que é que um homem sabe das mulheres? Procurar desafios impossíveis.

Há 12 anos que se fala do suposto trauma que terá sido para si o Prémio Nobel atribuído a José Saramago...
Trauma, eu?! A coisa mais curiosa que me aconteceu com o Nobel foi há uns 15 anos. Estava na Holanda, com o editor, num hotel, e havia a certeza absoluta de que eu ia ganhar o Prémio Nobel. Descemos, estavam as televisões todas. Anunciaram quem tinha ganho, já não me lembro quem foi, e desapareceu tudo num instante. Uma coisa espantosa.

Secretamente, não espera que amanhã alguém lhe telefone de Estocolmo? [esta entrevista foi feita na véspera do anúncio do Nobel, atribuído a Mario Vargas Llosa]
É impossível este ano. Nem pensar. E, depois, sabe quem é que ganhou há três anos?

Doris Lessing.
Foi mesmo?

Foi.
Nos últimos anos têm premiado escritores de que eu não gosto. E muitos daqueles de que mais gosto não ganharam. Aliás, seria melhor para mim ficar do lado dos que não ganharam, como o Tolstói ou o Borges. Não sou admirador do Borges, mas ele é bom. Tem tudo para ser mau e é bom. Já o García Márquez, de quem sou amigo, se formos ler agora os "Cem Anos de Solidão", aquilo envelheceu tanto! "O Amor nos Tempos de Cólera" não. É um livro magnífico. Mas acho que o Vargas Llosa tem muito mais talento.

E esse merecia sem dúvida ganhar o Prémio Nobel.
É um grande escritor até ao "Pantaleão e as Visitadoras", mas depois... Estamos muito longe do século XIX, em que havia 30 génios. Agora, se houver quatro bons escritores no mundo já é bom.

Quem são eles?
Cormac McCarthy, por exemplo. Do Vargas Llosa de "A Casa Verde", "A Cidade e os Cães", "Conversa na Catedral", que me parece uma obra-prima. Depois há aqueles livros eróticos, de que eu não gosto, tenta recuperar a mão com "A Festa do Chibo", mas já não consegue. O problema dele é que aceita todos os convites, mas é um homem extraordinário: muito bonito, muito culto, muito agradável. Já aí tem dois. Também gostava muito do William Gaddis.

Esse já não vai a tempo.
Não. Mas também duvido que lho dessem.

Preocupa-o a forma como vai ser lembrado daqui a 20 ou 50 anos?
Daqui a 20, ainda posso cá estar. Daqui a 50, não. Há poucas obras que sobrevivem aos seus autores. Olhe os nossos. Quem é que lê hoje o Zé [Cardoso Pires], de quem eu gosto tanto? Quem é que lê o Carlos de Oliveira? Ou o Namora, o Vergílio Ferreira, a Agustina, O Saramago, essa geração toda, quem é que os lê hoje?

Essa questão preocupa-o muito?
Preocupa-me pelo Zé. E quantos escritores franceses ficam do século XX? Dois: Céline e Proust.

Tem a esperança de ser uns dos que ficam?
Para ser honesto, acho que vou ficar.

Vai ou gostaria de vir a ficar?
Vou ficar. Estive a ler o texto de um crítico do "El País" que diz que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão. Ao mesmo tempo, que diferença é que isso faz? Que diferença faz ao Camões que nós gostemos dele? E ao Horácio? "Estou a construir um monumento mais duradouro do que o bronze", dizia. E estava certo.

Como pode ter essa certeza de que será lido para sempre?
Tenho, e a Ana também.

Eu não...
Então é pateta. Vou ficar, mas não me serve de nada. É como decidir que queremos ser cremados depois de morrer. Quando decidimos, estamos a ser eternos, mas continuamos a pensar enquanto vivos.

Os escritores constroem em vida a biografia que querem fixar para a posteridade.
Sim. Vão começando a construir o mito.

Já há alguns anos que o António vem fazendo isso, não é?
Eu? Acha que sim? Não tenho essa noção. Está a falar de fazer com que a minha obra perdure?

Não só a obra. A personagem também.
E o que digo tem algum interesse?

Posso ser sincera? Não se ofende?
Não me ofendo com a verdade.

Repete-se muito. Em todas as entrevistas há coisas que diz exatamente da mesma maneira. E é aí que se nota a construção da sua personagem.
Claro que me repito. Precisamente por ser uma cassete que já conheço bem.

Torna-se mais fácil dar entrevistas?
Não. Mas assim continuo a ser um desconhecido.

Então como nos pode dizer que procura a entrevista perfeita se nunca se entrega?
É impossível falar de livros. Pasmo com os académicos... Acha que repito sempre o mesmo?

Repete fórmulas.
Não fiquei nada aborrecido... Quanto às fórmulas, naturalmente que as tenho. Por baixo das máscaras, está a pessoa. Lembra-se do que o Nerval escrevia nos seus retratos? "Sou o outro." "Je suis l'autre." Assim, as pessoas deixam-me em paz. Mesmo com amigos que também escreviam... com o Zé nunca falei de livros, com o Eugénio de Andrade, com o Amoz Oz. Nunca falámos de livros [o escritor interrompe a conversa e diz ao fotógrafo: "Isso aí na parede são frases que escrevi. Gosto muito da do Oscar Wilde: "Homero ou outro grego com o mesmo nome"].

Também tem ali uma frase sua: "Se estivesse no meu lugar, o que faria?" Está no "Memória de Elefante", o seu primeiro livro. Quando a escreveu ainda não era o Lobo Antunes.
Descobri-a e já nem me lembrava de que a tinha escrito.

E o que faria se estivesse no seu lugar?
Referia-me a decisões que não tomamos por cobardia. Aqui há tempos a minha filha Joana telefonou-me a dizer: "Pai, acabei o namoro à homem!" Os homens nunca dizem: "Já não gosto." Dizem: "O problema não está em ti, está em mim. Preciso de pensar, preciso de espaço..." As mulheres são muito mais directas: "Deixei de gostar de ti." E pronto. Os homens nunca o dizem porque querem que a mulher fique de reserva.

Aguenta quando uma mulher lhe diz: "Deixei de gostar de ti"?
Que remédio...

Já ouviu essa frase?
Não.

E com tanto romance que teve...
Sou um querido! E quem disse que eu tive muitos romances? Isso faz parte da lenda!

Lá está, a lenda. Alimentada por si...
Não. Nunca falo de mulheres. Se leu as entrevistas, reparou nisso.

Numa longa conversa com a jornalista espanhola Maria Luísa Blanco, falou muito sobre a mãe das suas filhas, Maria José.
Se não fosse ela, nunca teria escrito. Tinha 18 anos e achava que eu fazia coisas bestiais. Eu achava que era uma merda. Vivíamos num quarto alugado, não havia dinheiro, e ela cozinhava no peitoril. Tínhamos uma mesa pequenina e, depois do jantar, ela levantava a mesa para eu escrever.

Ela acreditava.
Acreditava. E era uma miúda.

E separaram-se antes de publicar "Memória de Elefante".
Nunca mais me esqueço de ela dizer: "Não admito que outra mulher vá viver contigo e ter aquilo por que lutei tanto."

Isso pesa-lhe?
Não.

Percebo que o seu pudor não lhe permita falar disto.
São coisas que não se partilham... Muitas vezes visitei o cemitério, deixei lá cartas e o único soneto que escrevi. A senhora que toma conta das campas dizia-me: "Está aqui ao lado da menina o lugarzinho para si."

As suas filhas publicaram as cartas que trocaram durante a guerra.
Não li. Foram traduzidas em tantos sítios, um horror. A última coisa que a Maria José me disse antes de morrer foi: "Que horas são?" É muito frequente nas pessoas que estão a morrer: perguntar as horas. Respondi: "Um quarto para as seis." E ela disse: "Que hora mais improvável!" É tudo muito íntimo. Não gosto de falar nestas coisas. Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias. Não tem interesse nenhum. Só me interessa porque foi a minha vida. Tudo me comove... Uma pessoa anda com a ternura assim [faz um gesto de segurar no colo] e não sabe onde a pôr.

Essa é a matéria dos livros?
Por baixo dos livros estão estas coisas. Desde que nasci até agora: a meningite que me pôs em coma não sei quanto tempo, a tuberculose aos 3 anos, coisas boas, coisas más... a morte de pessoas de que eu gostava tanto, a do meu avô oficial de cavalaria - ainda hoje, às escondidas, dou beijinhos na fotografia dele - e que detestava que eu escrevesse, achava que era coisa de maricas... [pausa] Quando o meu pai morreu, os meus irmãos vieram beijar-me a mão. É estranho, não é?

Por ser o mais velho? Estava a receber o legado?
E agora sou eu que me sento à cabeceira. Nos jantares das quintas-feiras, primeiro servem a minha mãe, a seguir a mim. E só depois as minhas cunhadas.

O que sente por ocupar esse lugar?
O mundo fica completamente diferente visto daquela cadeira.

Uma questão muito complicada para muitos escritores é o envelhecer. Não só a aproximação da morte mas também o facto de o corpo deixar de funcionar... Já não conseguir fazer o que fazia.
A única preocupação é isto ter secado. Quando acabo o livro, não tenho outro na cabeça. Mas, quando me vejo no espelho da barba, estou com 20 anos. A minha mãe, que tem um cancro na pele, sonha com eternidades de um ano.

Numa das suas crónicas escreveu: "Os sexagenários vêm morrer na areia numa desilusão de cachalotes sem esperança."
Quando penso na minha idade, fico espantado. Passou tão depressa. Há uns tempos fui ao hospital, estavam lá umas enfermeiras reformadas, uma olhou para mim e disse: "Ah! Era lindo! Onde estão os seus olhos? Era lindo!" Foi horrível! [risos] Passamos de homem bonito para senhor interessante.

Disse várias vezes que só escreveria mais um ou dois livros para arredondar a obra e depois terminava.
Se eu pedir só um, talvez a morte se esqueça de mim durante um bocado. Não me imagino sem isto.

Nesse caso, porque é que anunciou publicamente que ia deixar de escrever?
Às vezes passa-me pela cabeça, mas depois ponho-me a pensar: "E vou fazer o quê?"

Portanto, vai escrever até ao fim.
Não sei fazer mais nada [o escritor interrompe novamente: "O António Pedro está a gostar das frases?", pergunta].

Por falar nisso, não chegou a responder à pergunta que há pouco lhe fizemos.
Aquela frase é ótima. É de um autor inglês, o Thesiger, que esteve na guerra de 14-18. E, mais tarde, quando lhe perguntaram sobre a experiência de combatente, respondeu: "Que barulho querido. E que gentinha."

É um colecionador de frases. Vale-se da célebre memória de elefante.
Para certas coisas. Toda a invenção é memória. O meu pai provava que as pessoas que tiveram um AVC e ficavam privadas da memória também ficavam privadas da imaginação. Quem nos arranja os materiais é a memória. As tais coisas de que a gente não fala e aparecem nos livros, de maneiras desviadas.

"O que faria se estivesse no meu lugar?" Esta frase atravessa a sua vida. E não nos respondeu.
Pois... Pus isso aí para me lembrar às vezes... [pausa longa] Para me lembrar às vezes.


O novo romance é "uma celebração da vida"

Não é a primeira vez que António Lobo Antunes recorre a versos alheios para dar título às suas obras. Aconteceu com "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" (2000), tradução livre de um verso de Dylan Thomas. Aconteceu com o romance "Que Farei Quando Tudo Arde?" (2001), em que recupera o verso final de um soneto de Sá de Miranda. E acontece de novo na obra mais recente, "Sôbolos Rios que Vão", uma narrativa de 199 páginas [...] que evoca as mais famosas redondilhas de Camões. "Na editora, criticaram-me imenso por causa do título", explica Lobo Antunes. "Aquele 'sôbolos' é muito arcaico, acharam-no pouco comercial. Mas o poema do Camões é espantoso." Lendo o romance, todo ele atravessado pela imagem do Mondego - quase invisível na nascente mas que vai engrossando o caudal (à semelhança da vida do protagonista, ela própria um rio em que as histórias dos familiares e conhecidos funcionam como afluentes) - , poderia pensar-se que Lobo Antunes partiu dos versos de Camões, que falam de Babilónia, Sião e da "mágoa" de quem recorda, em tempos de desgraça, o "bem passado". Mas não foi assim. "O livro já estava escrito, só não tinha título. Os rios que há lá dentro é que me fizeram depois pensar no Camões. À partida, não tinha nada que ver com o poema." Então como se explica que algumas das redondilhas pareçam autênticas sinopses do romance? "Pois é, isso acontece mesmo. Não sei. Foi um milagre do caraças." Embora o autor negue que o livro seja autobiográfico, salta à vista que "Sôbolos Rios que Vão" é talvez dos romances que mais se aproximam da sua própria experiência, pelo menos desde a trilogia inicial ("Memória de Elefante", "Os Cus de Judas", "Conhecimento do Inferno"). Só que, em vez da guerra em Angola, ou do trabalho como psiquiatra, o que nesta obra se retrata é a luta contra uma doença mortal, um cancro que devora o protagonista por dentro, levantando-lhe do corpo o "pássaro do seu medo" - situação similar à que o escritor viveu em 2007. Aliás, as datas que balizam o romance, que evolui, dia a dia, de 21 de março a 4 de abril, coincidem com as datas em que António Lobo Antunes esteve internado para remover cirurgicamente um cancro do intestino. Embora se chame António e o seu apelido seja Antunes, o protagonista, que delira o tempo todo, deitado numa cama de hospital, cruzando vozes e memórias de infância, não é o autor do romance. Mas duvidamos que o autor do romance conseguisse escrever assim, com esta tremenda exatidão, se não tivesse estado naquele limbo perto da morte. Um limbo concreto, de onde voltou para nos oferecer, nas suas palavras, "uma celebração da vida."   [J.M.S]

* a imagem das frases que ALA escreveu numa das paredes de casa é uma parte digitalizada directamente da foto que saiu na Revista, da autoria de António Pedro Ferreira, e que aparece aqui, a meio da entrevista, apenas para ilustrar aos leitores sobre essa passagem em que se fala dessas citações que o escritor escolheu.

por cortesia de Ana Soromenho
Expresso
16.10.2010

9 de outubro de 2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Fado Alexandrino


[...] Não me tinha apetecido ainda escrever nada sobre [este livro]. É que o impacto da sua leitura é tal que receio que tudo o que possa dizer a seu respeito venha a ser disparatado. Se não por outra razão, por supérfluo.

Mais um livro absolutamente cativante.

E não, não é pela originalidade do seu enredo. Na verdade ALA desenvolve um tema recorrente na maioria dos livros que li dele; as memórias da guerra e a forma como ela acabou por influenciar os percursos de vida de quem por lá passou.

Dito desta forma poderemos ser levados a pensar que, enfim, li mais do mesmo.

Nada disso! Embora, como já disse, o assunto não seja novo, a verdade é que é explorado sempre de forma diversa.

Neste caso, ao longo das 715 páginas que constituem o livro, vamos acompanhando os desabafos que quatro (cinco? Tenho dúvidas em relação ao capitão, personagem apenas ouvinte) personagens, antigos combatentes em Moçambique de patentes diversas (do soldado ao general), num jantar de batalhão que teve lugar dez anos depois de terminada a guerra colonial, já completamente ébrios de vinho e de mágoa, vão desdobrando.

Bem, na realidade, quem tem que desdobrar e recompor o puzzle que é a escrita deste livro somos nós, os leitores. Confesso que foi dos que me criou maiores dificuldades em relação ao encaixe de todas as peças.

É que, embora esteja escrito numa linguagem de matriz eminentemente objectiva, as constantes interrupções e/ou descontinuidades discursivas entre os diversos narradores tornam-no um rendilhado difícil de compor. As diferentes vozes misturam-se, completam-se, galgando tempos e espaços sem que se desviem daquilo que, no meu ponto de vista, é o objectivo principal; dar-nos uma perspectiva, através do percurso de vida das personagens nesse período de 10 anos, de um Portugal antes, durante e num pós/ próximo do 25 de Abril de 1974.

Tudo decorre no espaço temporal de uma noite e uma manhã. Contudo, nesse espaço de tempo desfilam perante o leitor algumas vidas com as suas voltas, as suas lutas, os seus desencontros, as suas traições… e até, curiosamente, as suas interligações. Todas se tocaram a dado momento sem que de tal se apercebessem.

No decurso de cada uma delas e de todas ALA vai abordando, sempre de forma muito cáustica, muito dura, muito grotesca (provavelmente muito real na sua ficção) instituições militares e políticas, diversos sectores da sociedade, organizações partidárias, a polícia política, as prisões, a guerra…

É uma escrita talvez algo agónica pois, as vidas que se vão desenrolando perante nós, estão irremediavelmente presas à derrota, ao desânimo, ao fracasso, ao medo. Consequência das duras vivências da Guerra Colonial? Dos tempos conturbados e algo confusos do pós 25 de Abril? Do regresso a um status sócio/politico/económico algo semelhante ao anterior variando apenas os que dele se aproveitavam?

A linguagem usada é crua, dura, sem pudores, absolutamente adequada ao que nos quer transmitir. Porém, a narrativa está eivada de metáforas belíssimas, tornando o livro uma peça literária que só alguém com a mestria do autor poderia escrever.

E finalizo com o fim! É que este livro tem, na minha opinião um final inesperado. Para mim, pelo menos foi-o. E que final!

Não será um livro para dar início à leitura do autor. Mas é, seguramente, um fabuloso exemplar da sua obra.


Maria Celeste Pereira
21.09.2010

17 de setembro de 2010

Maria Alzira Seixo: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


Os Rios de Lobo Antunes

Apeteceu-me escrever directamente para os leitores de Lobo Antunes. Faço-o na net (o que raro me acontece) pois tinha decidido deixar de escrever sobre a obra de ALA com a frequência com que o fiz ultimamente, devido a projectos concretos que agora já estão realizados. E isso porque considero que não é benéfico para a obra de um escritor que o mesmo crítico ou estudioso escreva sempre sobre essa obra, tornando-se numa espécie de «dono» ou «mentor», que acaba por «cristalizar» uma forma de o ler. Não é benéfico para a obra, que deve ser objecto de leituras plurais, nem é benéfico para o crítico, que por vezes se torna leitor de um escritor só, solipsisticamente. Mas não tem sido o meu caso. Porque quem estuda e avalia tem de ter uma visão alargada das Letras. Só lerá bem Lobo Antunes (ou qualquer outro escritor), e com o prazer que a obra dele proporciona, quem conheça também outros escritores, e possa assim perceber a originalidade de cada um, procedendo, em conhecimento fundado, à escolha que o seu gosto pessoal ditar.

E escrevo sobre os Rios porque, afinal, o gosto que me deu o livro venceu as minhas determinações pessoais. E queria aqui dizer aos leitores de ALA que este romance é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje! Estou a falar de Sôbolos Rios Que Vão, título que retoma o magnífico primeiro verso das mais célebres redondilhas de Camões, também conhecidas por «Babel e Sião», que ganharemos todos em reler.

É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores, à expressão literária de um modo artístico insuperável. E eu não sou nada tendente a aceitar biografismos: a vida de uma pessoa é uma coisa, a obra que cria é outra coisa, mesmo que nela se baseie. Porque um texto criativo, artístico, ultrapassa sempre um dado factual, e o «facto» recua a segundo plano ante a felicidade da expressão literária com que o autor a comunica.

Estes Rios

Que rios são estes? São, literalmente, os que constituem o Mondego, desde o ponto mínimo quase indestrinçável da sua nascente, passando pelos débeis veios de água que o vão encorpando, e outros que a ele se juntam (contando também com os que dele divergem) até constituírem a corrente que segue para a foz. E são-no porque o narrador (que, neste caso, surge como personagem que protagoniza a história na terceira pessoa, um ele não identificado que rapidamente percebemos ter a ver com o autor) conta como o Pai o levou, em menino, a ver a nascente do Mondego, na Serra da Estrela, e como isso o impressionou. Este passo é recorrente no texto, e em várias crónicas (veja-se «Descrição da infância», em Livro de Crónicas), e adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratamentos. E a recordação da nascente do Mondego, que se torna em devaneio frequente no espírito do narrador, vem sempre afirmar a Vida ante a iminência da Morte que espreita e atemoriza.

O curso do rio é ainda uma forma de comunicar um percurso ficcional de vida, sujeito ao tempo e à sua (des)organização pela memória. Nele sobressaem a tutela do Pai, junto à origem, e a visão protectora da Mãe, nas incidências do seu deslizar (tanto como andamento quanto como… escorregadela, falha, derivação imprópria, fuga medrosa e outras formas de escape ou de falta cometida), essa Mãe que está junto dele, no final do romance, para caucionar o renascimento que a cura da doença constitui, tal como estava, no início da carreira do escritor, em Memória de Elefante, parindo-o com risco da própria vida.

Outros rios se juntam, porém, e são sobretudo os afluentes, o que me faz recordar o título de um livro de poesia de um velho amigo de ALA, que particularmente aqui se adequaria: Os Afluentes do Silêncio (vejam, em Segundo Livro de Crónicas, o texto «No Porto, com Egito Gonçalves»). E afluentes são as personagens comparsas, que interferem com a existência da personagem central, assim como as histórias adventícias que vêm interromper ou reforçar o seu sofrimento da doença, em encontros e em  conjugações, em discrepâncias ou fortalecimentos. Todas convergem, porém, para a importância central da Mãe e do Pai, a capacidade de observação e a experiência deste, que discerne e ensina a origem e o curso acidentado do rio, por um lado, e, por outro lado, a carga matricial da figura da progenitora, fonte de vida, Senhora dos Aflitos, e não «mater dolorosa», como em geral o é na Literatura. A sua presença no final da narrativa, que lhe confere um peso significativo assinalável, como que sublinha toda a actuação protectora no interior hospitalar (médicos, enfermeiros, aparelhos, a vista do céu que tem pela janela para a qual frequentemente olha), nela desembocando a eliminação dos obstáculos, que é como quem diz, a saída do hospital (curado), a saída da doença, a solução positiva, o milagre de continuar existindo.

Não há saídas (na acepção de «soluções», de «escapes» para uma situação difícil), em geral, na obra de António Lobo Antunes, escrevi eu um dia a propósito de Memória de Elefante; e o trabalho posterior tem-me confirmado essa verificação. Mas há saída, sim, neste livro (que se constitui aliás em permanência das águas, em retenção do fluir, mesmo que em veios débeis; ou na sua reconstituição pela memória – que não em caminhada para a foz do rio!), um livro em que no final se anota, em citação latina, que «todos saem» –  tópico de conclusão de uma cena, no teatro, e também no teatro que um texto pode ser –  querendo com isso dizer que «saem de cena», sim, mas que,  «saindo, continuam a existir», isto é, o livro acaba mas a vida (que a narrativa pôs em questão, ameaçada) afinal prossegue, sai-se do hospital e fica-se vivo, e não há morte, há continuidade (pressuposta) e duração.

Sôbolos Rios Que Vão é, deste modo, um livro libertador (como que o Senhor Caminhando Sobre as Águas, na figuração bíblica) e que liberta também o leitor! Há nele uma dimensãosoteriológica, e utilizo este «palavrão» para que entendam melhor, pois é assim que na Bíblia se caracteriza a salvação exercida por Jesus sobre os homens, e portanto não é um acto de salvação qualquer, é uma redenção –  o que, por analogia, se poderia ampliar à salvação exercida pela Palavra Poética, pela Criação Literária, sobre os cancros de toda a ordem que corroem a humanidade.

E liberta também o leitor por características práticas: é um livro pequeno (também comoMemória de Elefante), e quem é que se lembra de ter podido ler um livro de ALA, nos últimos tempos, que não fosse enorme?!; é um livro acessível (não nos embaraçamos tanto na confusão de personagens e de histórias mescladas como antes); é um livro que, tendo um tema sinistro (a ameaça da morte por cancro), se escreve de modo excepcionalmente claro, quase luminoso, e é, enfim, um livro maravilhosamente bem escrito, e eu, que abomino a linguagem crítica «impressionista», diria mesmo, neste caso, que parece escrito como a água que corre.
         
Quase que me apetece dizer ao leitor, como nas propagandas tipo «banha da cobra», que, se considerar que eu estou a enganá-lo na «mercadoria», fico pronta a reembolsá-lo do tempo de leitura que utilizou…!

Sim. Porque estes rios, camonianos, antunianos, são no fundo o grande rio que não pára, não se extingue, o rio do pensamento e da arte, da matéria das Humanidades que permite a pulsação desalienada no quotidiano, e por isso o título contém esses «rios que vão», cuja água corre sempre, como a escrita de grandes autores


por Profª. Maria Alzira Seixo
em exclusivo para o nosso site
17.09.2010

5 de setembro de 2010

Do leitor Luís Bento: «Fashion Heroine»

Porque António Lobo Antunes despertou o meu interesse pela escrita tornando-se uma fonte de inspiração, eis um texto que lhe é dedicado.

Fashion Heroine 
Às vezes escorregava em ,prestações suaves, pela memória desfiada a preto e branco desde os acordes do hino nacional a encerrar a emissão televisiva com estrondo, até aos bancos da escola onde se grafava ainda, teimosamente, Goa, Damão e Diu como territórios ultramarinos, no mapa-múndi de pontas enroladas a querer baldar-se para o chão junto de um circunspecto e inútil corta-fitas num retrato com pose de presidente, faixa, medalha e comenda com os dizeres em bold cínico: SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA ALMIRANTE AMÉRICO TOMÁS. Era da alvura das batas torturadas pela lixívia e pelo OMO branco mais branco não há, que divisava a figurinha minúscula e atarracada, em redondo carica, da Dona Irmelinda nascida nas entrelinhas dos sessenta, já de casaquinho de malha assertoado pelo botão do meio de madrepérola reluzente que se vendia na retrosaria, em caixas de inocência rosácea, acantonadas nas prateleiras por trás do costado curvo do senhor Arnaldo, de óculos presos na ponta do nariz esmiuçando e remexendo até à eternidade , carrinhos de linha da coats and clark entrecortados por um chiça! envergonhado quando se espetava nas agulhas número três dolorosamente desarrumadas. 
Esbaforida, pela rua General Taborda acima com a alcofa atafulhada de peixe, grelos e nabiças vinda da praça onde era mais barato e fresquinho, sem réstia de brilho, pigmento, laca ou perfume há muito perdidos nos vestígios arqueológicos dissecados por peritos do Neolítico. Apenas o vermelho afogueado lhe acariciava a face na pressa com que roubava tempo ao macadame para evitar o fedor a atraso em direcção à tabacaria onde, vício supremo do luxo de pobre, comprava a Crónica Feminina e se deixava levar pela fantasia da fotonovela ou pelo conforto dos anúncios dos vestidos, das malas e casacos de inverno que ela bem precisava de um, numa alienação inocente e consentida apenas interrompida pelas letras do carro que, paulatinamente apresentadas pelo cobrador, grunhiam nos dentes amarelos do tabaco que o marido ainda andava a pagar. 
Se do céu caíra uma estrela, na passserele, lânguida e sensual, rica de decotes e ousadias, passeava-se um anjo livre, poderoso e reluzente onde o diabo até podia vestir Prada, Armani ou pele corada em pecado, mas acima de tudo, a vida se trajava de texturas quentes e garridas numa miscelânea de cor, romântica e despojada de preconceitos. Fora aí que o conhecera. Meio palmo de cara bem tratada e escanhoada com o beneplácito de Apolo em dia de tiro aos dardos. Chegara à conclusão, contudo, que Darwin só germinara e evoluíra no universo feminino e se pusera a fancos ao primeiro sinal de alerta da coutada do macho ibérico. Tolo! Era um tonto! De sorriso idiota de conquistador em saldos confundindo Louboutin com a lobotomia que o assistente do doutor Egas Moniz fizera à cabeça, numa operação delicada, da sua tia Emília.

Esfumaçava, perdidamente, todo nu seguro da sua virilidade canhestra pensando que lhe tomara o corpo e não se dando conta, sequer, que ela apenas lho emprestara para que ele se perdesse no cárcere das suas coxas. Ela esboçava um sorriso malicioso e interior. Ele soltava baforadas confiantes de Torquemada de queluz ocidental, olhando, de soslaio, ar de asno inquisidor. E ela voltava, sorrateiramente, à D. Irmelinda e aos seus brincos , batons, pó de arroz e outros acessórios reluzentes que, só por milagre ou distracção do Senhor, deixariam as páginas de papel.

Ela bem gostaria de andar na moda, mas só a cunhada, que era uma desbragada que fintara as desgraças da vida e lhe trouxera um conjunto de batons da África do Sul onde elas andavam de mini saia, bebiam como os homens e até já fumavam e tudo, lhe concedia carta de alforria , ainda que por breves instantes, para a terra do sonho. E foi num desses dias em que, por distracção , se atrevera a experimentar a prenda da cunhada diante do espelho gasto e roído de ferrugem, que não dera pela chegada do marido. Contrariado por não haver almoço na mesa e estarrecido pelas cores dos trapos, ficou furibundo quando vislumbrou a imagem fálica do batom esgaçando por entre os dedos, pronto a tomar de assalto os seus lábios ressequidos. Alçou o braço direito e deu-lhe uma palmada com força estilhaçando o batom em pedaços no chão da casa de banho. E então sem pensar, decidira que era altura de romper com o medo que a agrilhoava numa tacanhez e subserviência fora de moda. Ainda ele se preparava para alçar o braço de novo quando levou, violentamente, com um jarrão de loiça de sacavém que custara uns bons cinco kilos de escudos, na cabeça… 
Baixou-se para apanhar um coto de batom e , não reprimindo um sorriso, inflou o peito de ar , inclinou-se sobre o espelho e começou, calmamente, a pintar os lábios, percebendo, então, que a diferença entre subserviência e emancipação distava apenas doze pontos bem cosidos na testa do marido pela destreza e perícia do enfermeiro de serviço no posto clínico e que, estar no tom da moda era ousar viver numa liberdade conceptual e estética em que a vida… era o tom… 
Luís Bento


Luís Bento
e-mail de 05.09.2010

26 de agosto de 2010

Pedro Tavares: opinião sobre Memória de Elefante

Não vale a pena esconder que não comprei este livro apenas pela minha "curiosidade" em conhecer a obra de Lobo Antunes. Comprei o livro acima de tudo pela edição. Ler António Lobo Antunes era um interesse que foi alimentado com essa aquisição, não antes disso.


Escrito em 1979, "Memória de Elefante", juntamente com "Os Cus de Judas" (escrito no mesmo ano) figuraram juntos numa edição limitada numerada e autografada pelo autor (num conjunto de 500 packs). Curiosidade: o meu número é o 42. As capas são bastante bonitas, a qualidade do papel é impecável, só restava saber o que escondiam as suas páginas.

Há umas poucas noites espequei-me à frente das minhas estantes, cheias de livros por ler. Peguei, num acto cego, neste livro. Não escondo que adorei o que me foi apresentado.

Este livro não se trata de um enredo em busca de uma solução, mas sim de um homem em busca de um sentido. O psiquiatra (irónico sem dúvida o seu emprego) é um homem profundamente deprimido, recém-separado da mulher e das duas filhas, vivendo numa Lisboa pós-fascista e com a Guerra do Ultramar bem presente na sua memória. Tudo isso faz dele não só uma pessoa extremamente observadora como alguém capaz de se afogar a si próprio num monte de dúvidas existenciais ao questionar a realidade, a lucidez, o sentido dos seus actos.

Se formos a contar os dias que passam no livro, uma semana é demasiado. É um livro pequeno, que se passa em pouco tempo, que se debruça totalmente nas divagações do psiquiatra, no pouco que o seu quotidiano tem para oferecer e no muito que ele próprio é capaz de captar. Porque é isso mesmo a "memória de elefante": alguém que consegue lembrar-se de tudo, adquirir facilmente informações à sua volta e guardá-las. Isso pode ser uma mais valia para muitos, mas para este psiquiatra é a causa da sua desgraça.

Fiquei absolutamente admirado com a obra. Não esperava encontrar o que encontrei, nem de perto nem de longe.

António Lobo Antunes tem uma escrita extremamente densa. Não é para todos. Já ouvi muitos queixarem-se não da densidade do texto, mas de como o autor se aproveita disso para se gabar da "capacidade de escrever". Não digo que, como pessoa, não aconteça isso, mas o que encontrei foi um tipo de escrita bastante denso mas com todo o sentido. Ultimamente aparecem autores portugueses que "copiam" a escrita de Lobo Antunes, contudo facilmente caem na armadilha de se contradizerem constantemente, ou utilizarem vocabulário e expressões que, no fim de contas, não têm qualquer sentido nem ligação com o que estamos a ler. Não foi isso que encontrei em "Memória de Elefante". Encontrei, sim, um tipo de escrita bastante difícil de seguir, que talvez faça a maioria dos leitores perder-se ou cansar-se antes do parágrafo acabar, mas que a mim me cativou absolutamente. Por muito difícil que o vocabulário fosse, nenhuma expressão me pareceu fora do contexto, tudo teve um sentido de estar escrito, e a maneira como o texto corre, com bastantes apartes entre vírgulas, bastantes apartes próprios de uma personagem observadora, nunca me fizeram perder o fio à meada. Aliás, apenas contribuíram para me "encher" completamente as medidas, encontrando aqui uma escrita digna de explorar não só uma personagem mas obras inteiras. Para mim, um leitor que gosta de ir analisando o livro e as situações descritas, que gosta de ler uma frase e tentar perceber o que o escritor quer dizer com aquilo, esta foi a escrita mais compensadora que poderia encontrar.

Para o tipo de tema que é discutido neste livro, esse existencialismo todo, um vórtice de observações que arrastam o pobre psiquiatra, apenas uma escrita assim alguma vez conseguiria concretizá-lo.

"Memória de Elefante" é, também, curioso pelo seu carácter autobiográfico. E António Lobo Antunes deixa transparecer isso através da maneira como o narrador vai mudando, originalmente na terceira pessoa mas muitas vezes desviando-se para a primeira pessoa, entrando na mente do psiquiatra como se fossem um só. Cativante essas passagens. É uma técnica pelos vistos frequente nos seus livros, que pessoalmente gostei de encontrar aqui.

Finalmente, o que acima de tudo me deixou totalmente ligado ao espírito melancólico, dramático, do livro: Lisboa. Eu próprio sou um observador, um divagante, tal como o psiquiatra, e delicio-me a percorrer as ruas de Lisboa, quer pelas praças e avenidas como pelas pequenas ruas que entram directamente no coração da cidade. E Lisboa não é uma cidade alegre: é uma cidade nostálgica, quase melancólica, muito boémia. Eu encontrei essa Lisboa nesse livro! Nunca vi alguém transmitir tão bem o espírito de uma cidade como António Lobo Antunes aqui fez. E a Lisboa que ele observa é uma que eu encontro, com a qual eu sonho, na qual me identifico. Isso deixou-me irremediavelmente cativado.

Não posso aconselhar "Memória de Elefante" a toda a gente devido ao seu estilo de escrita. Embora seja bastante lido, não deixa de ser demasiado denso, e facilmente nos perdemos. Para além disso, é um livro muito melancólico, nada alegre, e para muitos isso pode ser ainda menos animador. É difícil de recomendar. Por outro lado... Há poucos assim. A partir de agora, vou ler as obras de António Lobo Antunes, pois quero mais desta escrita, quero mais deste sentimento.


Pedro Tavares
O Cantinho do Bookaholic
18.08.2010

21 de agosto de 2010

Bernardo Scartezini: sobre O Arquipélago da Insónia


A casa da noite eterna

O passado grandioso de uma decadente família assombra o casarão que abriga O arquipélago da insónia

O estado de extrema vigília, a insônia, parece induzir no infeliz uma lógica ilógica vizinha à dos sonhos. Os livros de António Lobo Antunes parecem serem criados nesse lusco-fusco, nessa fronteira obscura entre o sonho e a vigília. Não apenas este recente O arquipélago da insónia, que já traz no próprio título o mal que lhe aflige, mas também outros tantos, desde os primeiros, desde os romances iniciais — como Conhecimento do inferno (1980) — ainda assombrados pelos fantasmas da guerra civil angolana presenciada pelo autor como médico psiquiatra em campanha.

Os fantasmas que pairam ao redor e alimentam O arquipélago da insónia são entes de outra natureza. Elementos ficcionais, explica Lobo Antunes, nascidos do exercício a que ele se propôs: escrever uma trilogia sobre o interior rural de Portugal. Este volume, original de 2008, se passa entre as paredes de um antigo casarão de uma família do Alentejo. A ele se seguiu, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de 2009, cuja ação ocorre no Ribatejo. Esse já tinha recebido edição nacional pela Alfaguara — que se põe a lançar também O arquipélago da insónia.

O 20º romance do português Lobo Antunes, 67 anos, acompanha o lento esfacelar de uma antes rica & prestigiosa família proprietária de terras. Partimos da figura patriarcal e arcaica do avô. Cercado por escravos e capangas, ele é coronelão daqueles que manda prender, manda matar. Do avô chegaremos à terceira geração da família, aqui representada por um neto autista. (Um abraço para o William Faulkner de O som e a fúria, 1929.) Entre avô e neto, encontra-se essa figura opaca e rancorosa do pai, que perdeu para o irmão a mulher que amava. E... Basicamente eis o enredo principal — deste romance — e de outros tantos, poderíamos acrescentar.

Mas o leitor de Lobo Antunes já entendeu que, se a história guarda todas as implicações da prosa, por outro lado, é justamente o terreno da linguagem a arena onde Lobo Antunes se esfalfa a cada linha. Sabotador de significados anteriores e de lugares-comuns próprios à prática romanesca, o autor embaralha suas palavras e, a partir delas, embaralha os tempos narrativos (o presente e, ao menos, mais dois tempos pretéritos, um para o avô e outro para o pai) e embaralha a voz narrativa (sabota seus personagens em plena atividade, em plenos diálogos, reescrevendo frases de outros contextos, como a ecoar antigas palavras no fundo da cachola).

Esse permanente trabalhar de Lobo Antunes com parênteses e frases fora de contexto invadindo diálogos da narrativa parece funcionar como o inconsciente de seus personagens — cenas e sentimentos que parecem esquecidos, mas que, em fato, guiaram o afundar da família. Essa família que, no tempo presente, nem está mais ali na casa da fazenda — todos mortos, desaparecidos ou fugidos — mas que está sim, de outras maneiras, está nos retratos ainda pendurados nas paredes antigas, está na lembrança dos objetos, dos espaços, dos corredores e alcovas do antigo lar — como os fantasmas que assombram Fronteira (1935), de Cornélio Penna, ou A crônica da casa assassinada (1973), de Lúcio Cardoso. (Ou, agora em outro tom, Lavoura arcaica, 1975, de Raduan Nassar.)

É justamente esse presente-incerto e esse pretérito-presente que emprestam a O arquipélago da insónia seu caráter de sonho fugidio — ou, Lobo Antunes deve preferir — seu ar de delirante vigília. Aqui e acolá, ao longo do livro, ele vai jogando com essas ideias, até chegar a uma frase de efeito que parece jogar luz sobre o que se passou, mas convenientemente sem nada esclarecer em demasia: “Daqui a nada é manhã/ e não será manhã nunca”.

Mas a quem interessa?
 
Como se disse, tais procedimentos de linguagem não são propriamente novidades na obra de Lobo Antunes. O caráter engenhoso de sua prosa rendeu-lhe, além-mar, tanto uma fama de “gongórico” quanto uma condição relativamente rara, em todos os idiomas, de autor reconhecidamente experimental, porém bom de vendas. Ainda recente no Brasil, sua obra vem sendo editada com assiduidade e Lobo Antunes, após um momento pop em Paraty-2009, parece estar na ordem do dia para os editores brasileiros.

“Eu tinha deixado o Brasil para Saramago”, ria-se Lobo Antunes naquela visita, que ele não é camarada que deixasse chance de provocar o colega, o único Nobel da Língua Portuguesa. Até porque, ao contrário do que costuma ser dito de José Saramago (1922-2010), Lobo Antunes em momento algum tirou o pé de suas aventuras estilísticas e de suas narrativas fantasiosas para abraçar um público maior e mais camarada. Não.

Tanto que Lobo Antunes ainda hoje provoca desconcerto em Portugal. O excelente site lusitano que leva o nome “António Lobo Antunes”, mas não é um sítio oficial (http://www.ala.nletras.com/), disponibiliza, além de bibliografia minuciosa e rico acervo de ensaios, algumas entrevistas do autor para a televisão portuguesa. Quando do lançamento de O arquipélago da insónia, Lobo Antunes é perguntado por um entrevistador nitidamente encantado e perturbado: a quem o senhor acha que este livro se dirige? “A todos os portugueses”, ele responde, com ar prosaico, sorrisinho provocador. É nítida a trajetória da família decadente de seu livro como espelho do fim do secular Império Português ultramarino e tal. Mas o entrevistador insiste mais um pouco e o escritor, enfim, cede que o livro é para todas as pessoas, portuguesas ou não. Mesmo assim não parece convencer o interlocutor

A pergunta que o coleguinha português pareceu querer fazer, mas calou, seria ainda mais direta: Lobo Antunes, quem hoje em dia vai ler um livro criptografado deste tanto?... Ou ampliando: Para que serve um livro como este, oras? De que serve a arte, não é mesmo?

António Lobo Antunes, além de um romance desafiador e de um dos estilos mais cortantes e peculiares da língua portuguesa contemporânea, de quebra te abre a cabeça, prezado e incauto leitor, para uma série de questões a respeito de arte & literatura. Adorável.

Trecho

Na esperança que o gosto de terra diminuísse e não diminuía, aumentava, não apenas a língua, os braços e as pernas do milho antigo e terra seca também e nisto o pai com a tesoura no pescoço, a mãe na janela de vidros coloridos do padre e meu avô não indignado, não triste, num ângulo da horta a brincar com pauzitos sem dar fé dos pauzitos, tentou dizer

- Pai e não conseguiu dizer

- Pai nunca conseguiu dizer

- Pai tal como o pai não falava com ele, ajudava-o no pomar sem palavras, fazia o que lhe apontavam, para quê dizer

- Pai se estava sozinho numa casa vazia, olhou a empregada a quem agarrara o pulso

- Chega cá e reconheceu a irmã mais nova da que lhe servia o jantar, uma garota que ajudava as colegas com a lenha e os pratos, quase do seu tamanho quando o pai faleceu, agarrou-lhe de novo o pulso não consentindo que fugisse a compor a roupa no peito, subiu-lhe o avental, encostou-a à tulha, lembrou-se do homem a quem não conseguiu dizer

- Pai e em vez de tomar a menina num assalto rápido de canário

- Quieta foi descendo ao longo do tronco dela até os joelhos e achatou-se contra eles na esperança que o sabor de milho antigo e terra seca lhe desaparecesse da língua.


por Bernardo Scartezini
31.07.2010

1 de agosto de 2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Ordem Natural das Coisas


Terminei a leitura deste livro há, seguramente, uma semana. Entendi necessário um tempo de reflexão sobre o mesmo antes de escrever a minha opinião.

Gostei muitíssimo do livro. Foi, talvez, dos de mais difícil compreensão mas também dos que mais me impressionou até agora.

Considero-me bastante ignorante no que diz respeito à obra de ALA sobretudo pelo muito que ainda me falta ler. Contudo, mesmo considerando os erros de opinião que possa cometer pela falha apontada (a qual estou a tentar colmatar lendo os livros que não li e relendo outros que já li há demasiado tempo, procurando fazê-lo numa lógica de cronologia de publicação), pareceu-me sentir neste livro um ponto de viragem. Pareceu-me mais aproximado das publicações mais recentes e, consequentemente, um pouco mais distante da quase linearidade dos primeiros.

Mesmo a mim me parece estranho, paradoxal até, chegar ao fim da leitura de um livro, completamente agarrada e com pena de ter terminado sem, contudo, ter a certeza absoluta de o ter compreendido inteiramente; de ter construído a história que o autor me desenhou…

Se alguém me contasse que tal lhe havia sucedido, provavelmente o meu conselho seria: - não percas tempo com isso. Parte para outra…

Pois, mas a verdade é que sucedeu comigo exactamente o contrário. A vontade de não me desligar daquela forma de escrita, do imenso volume que cada personagem ocupa valendo por si, pela sua riqueza, pela forma como o autor lhe desenha e redesenha (quase sempre) os passados atormentados, sórdidos até, como, no presente, lhes esmiúça o consciente e o subconsciente…

A força da escrita de ALA é para mim um desafio tal que me deixa quase impossibilitada não só de largar como de apreciar a calidez de outras (boas) formas de escrita. A maneira peculiar como organiza o seu discurso passando da mais bela ternura, da poesia, da análise profunda da mente humana, à mais prosaica linguagem do quotidiano, raiando a rudeza, o decadente, o grotesco e, sobretudo, o cáustico é, para mim, arrebatador.

Depois, há o desafio de encontrar o fio condutor da história (existe?) e de tentar montar o puzzle com as peças que o autor nos deixa. Também, neste caso, difícil, reconheço. É que a sua narrativa é pejada de cortes, interrupções, saltos no tempo e no espaço que a tornam um entrecruzado de vidas difícil de desenredar e de acomodar.

Neste caso, apenas nas páginas finais do livro julgo ter conseguido organizar minimamente as tais peças do intrincado puzzle e montá-lo da forma que, julgo eu, o autor me indicava. Confesso, todavia, que há pormenores em relação aos quais não tenho bem a certeza… *

Porém, aquilo que para alguns poderá ser desencorajador para mim é, de facto, estimulante como desafio. E é de tal forma estimulante que, tão depressa terminei a leitura deste, dei de imediato início à leitura de “O Manual dos Inquisidores” tal era o receio de não me ajeitar a outro registo.

É assim Lobo Antunes…

* Depois de terminada a escrita desta “opinião” tive curiosidade e fui ler outras opiniões, recensões e críticas que surgiram nos meios de comunicação acerca deste livro e, curiosamente (mas não surpreendentemente), apercebi-me de leituras diferentes para o mesmo livro. Apenas a título de exemplo; se para uns “o livro conta a história de duas famílias assoladas pelos passados de várias gerações”, para outros é a história “de uma família rica, residente na Lisboa dos anos sessenta, numa casa apalaçada na zona de Benfica…” Uma família? Duas famílias? E isso interessa muito?


por Maria Celeste Pereira
01.08.2010

7 de julho de 2010

i online: António Lobo Antunes "surpreendido" e "contente" com homenagem em 2011 em Paris

O escritor António Lobo Antunes afirmou-se “surpreendido” e "contente" com a homenagem de que será alvo durante o primeiro semestre do próximo ano no MC93, um complexo cultural no norte de Paris.
“Isto tudo é muito surpreendente, e claro que me dá prazer. Já não salto nem pulo com as coisas. É um programa majestoso. A única coisa que me interessa é escrever e criar um mundo”, afirmou.
O escritor revelou à Lusa que começou a 02 de Março a escrever um novo romance - “a única coisa que sei fazer”.
Lobo Antunes falava durante a conferência de imprensa que hoje decorreu em Lisboa para a apresentação da iniciativa, cujo programa oficial que integra 50 espectáculos será divulgado em Outubro.
Hoje ficou a saber-se que durante o primeiro semestre de 2011, nas três salas do MC93 acontecerão leituras, conferências, ateliers, instalações e espectáculos que contarão com a participação de encenadores e atores consagrados como Georges Lavaudant, Toni Servillo ou os portugueses Maria de Medeiros e Luís Miguel Cintra.
Os 50 espectáculos e outros eventos previstos “debruçar-se-ão sobre as 11 mil páginas de Lobo Antunes traduzidas em francês”, disse o diretor do MC93, Patrick Sommier.
A editora francesa de Lobo Antunes, Dominique Bourgois, explicou que a ideia “juntou muitos outros nomes franceses, portugueses, e de outros países europeus, muitas vezes espontaneamente”.
Lobo Antunes referiu “a excepcionalidade” de todos os participantes e contou que “muitos deles comunicavam entre si enviando por SMS frases” de romances seus.
Patrick Sommier afirmou que “os leitores de Lobo Antunes constituem uma espécie de sociedade secreta”.
Sommier afirmou que esta “iniciativa inédita” se enquadra na ideia de que “o teatro necessita da literatura”, tendo sido realizadas outras idênticas, não de tão grande envergadura, e com escritores já desaparecidos.
A editora portuguesa do escritor, Maria da Piedade Ferreira, das Publicações D. Quixote, salientou que esta é a primeira homenagem a um escritor vivo, e referiu que "são constante e cada vez mais os convites para participações" do escritor em diversos eventos.
"Há um cada vez maior interesse em conhecer Lobo Antunes", rematou. “Não a um escritor em língua portuguesa, mas a qualquer escritor vivo”, sublinhou.
Falando à Lusa, Lobo Antunes salientou "a magnitude do evento", afirmando que Portugal "devia apostar mais na cultura, que é o que nos identifica".
Visivelmente satisfeito pela iniciativa, Lobo Antunes não deixou de reafirmar à Lusa que o seu interesse maior continua a ser a escrita.
"Cada vez mais relativizo prémios e honrarias, o que me interessa é escrever e criar um mundo. Não tiro disto vaidade nem orgulho”, afirmou.
Lobo Antunes conta deslocar-se na próxima primavera a Paris para o lançamento da tradução francesa de “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar” pelas Éditions Christian Bourgois, pela qual tem publicados 24 títulos.
A ida a Paris é uma das quatro saídas do país que o escritor tem programadas.
À Lusa o escritor referiu “o orgulho que a comunidade portuguesa sente com este tipo de iniciativas” e que teve hipótese de testemunhar quando foi um dos homenageados no Festival de Salzburgo, em 2005.
A iniciativa no MC93 em Bobigny (norte de Paris) tem o seu começo previsto a 17 de janeiro próximo.

citado de i on line
06.07.2010

25 de junho de 2010

Urbano Tavares Rodrigues: Recensão de A Ordem Natural das Coisas para a Gulbenkian em Dezembro de 1992


É talvez o melhor romance de António Lobo Antunes. Muito bem estruturado, na linha faulkneriana de vários narradores internos, o que supõe um certo esforço por parte do leitor. A Ordem Natural das Coisas conta a história dos amores, das lutas, dos fracassos, das decadências dos membros de uma família rica, com casa apalaçada na Benfica de há mais de trinta anos. O título fala-nos das leis da Natureza que condenam à morte os seres humanos e votam ao insucesso as paixões de homens de cinquenta anos por meninas adolescentes. Não há um herói nem um fulcro de narrativa, que se tece das múltiplas histórias dos irmãos e irmãs (e do sobrinho bastardo) e ainda de outras personagens adjacentes, como o antigo mineiro semi-louco, na sua arteriosclerose adiantada, que por todo o lado abre furos com a picareta, em busca de ouro, ou do ex-agente da P.I.D.E reduzido a expedientes de miséria. É um romance truculento, como todos os de Lobo Antunes, associando uma grande carga afectiva ao grotesco, ao cáustico, ao imundo, na sua ânsia de comunicar a vida, no seu estendal de sofrimentos, físicos, morais, desejos, delírios e êxtases. Poucas obras, na Literatura Portuguesa, nos terão dado até hoje os quadros de Lisboa, de Alcântara, de Benfica, do Campo de Santana à Baixa, que este livro nos oferece, com tal abundância de visões, cheiros sons, movimentos da multidão. A prosa de Lobo Antunes ganhou neste romance a sua plenitude em poder de representação e em riqueza metafórica, em pujança lexical, com um maior equilíbrio na distribuição das imagens e na adjectivação. Tudo isto, é claro, sob o signo do excesso, que é consubstancial à sua arte de escritor. Nunca também o autor penetrou tão fundo na consciência e na subconsciência das personagens, nos escombros de cada pequeno inferno privado. Tenta mesmo novos registos de linguagem para exprimir alterações psíquicas ou o grau de cultura, melhor dito, da incultura, de certas figuras. Mas nesse domínio fica aquém do propósito, pois o estilo Lobo Antunes, com raras excepções, invade todo o macrotexto, sem atender, no geral às idiossincrasias e níveis etários das personagens. Mas, nesse aspecto, há que fazer uma espécie de pacto com o autor ou com o seu projecto de verosimilhança estética, pois a torrente Lobo Antunes, com o seu brilho ofuscante impõe-se a qualquer lógica realista. Finalizando, trata-se de um romance universal, que oferece alguma resistência à decifração imediata, mas conquista o leitor pela beleza formal desmedida e intensa. E que, como tal, muito se recomenda.


por Urbano Tavares Rodrigues
recensão para a Gulbenkian
22.12.1992

19 de maio de 2010

Maria Celeste Pereira: Memória de Elefante - releitura


Terminada a leitura do livro “Os Cus de Judas” e ainda um pouco sedenta de ALA, dei de imediato início a uma nova “releitura”.

Desta vez foi “Memória de Elefante” , livro que havia adquirido junto com o anterior apenas pela beleza desta “Edição Comemorativa”.

É que eu também sou apreciadora dos próprios livros como objectos. É evidente que a prioridade vai para o conteúdo. Mas, quando a um bom conteúdo ainda se junta um invólucro atractivo, considero então ter uma jóia nas mãos. Não exagero. É precisamente isso que sinto.

Bom, reler Lobo Antunes sobretudo quando se trata das suas primeiras obras (a primeira, neste caso) julgo poder ser um risco.

Em primeiro lugar porque a impressão que me havia deixado pode ser completamente destruída ou não tivessem passado quase trinta anos por mim e muitos livros lidos. Depois porque julgo que um autor que se mantém activo durante tanto tempo tem, necessariamente, que evoluir (resta saber em que sentido). E, por fim, juntas as condições anteriores, essa leitura pode levar-nos a uma desilusão…

Afinal nada disso aconteceu comigo. A verdade é que não sou possuidora de uma memória tão elefantina assim e, uma boa parte das deambulações, das considerações, das reflexões, das lembranças a que o personagem foi sujeito naquele dia ou dia e meio, já se me tinham apagado da mente.

Lembrava-me sim do fio do enredo; um psiquiatra que, em pleno pico de uma crise existencial (se isso existe, um pico…), faz um périplo pelas suas lembranças, sofrimentos, momentos de vida desde a infância até às suas experiências na guerra que nos vão revelando o personagem.

Devo dizer que me deu um prazer grande a sua leitura dado que, como já referi, havia esquecido os belíssimos momentos de prosa, por vezes simples e com linguagem do quotidiano (grosseira até), outras vezes num registo quase poético, com que o autor nos brinda. É precisamente o tipo de prosa, mais do que o enredo que, no meu ponto de vista, valoriza o livro.

Livro que julgo de pendor francamente auto-biográfico, tal como julgo também ser “Os Cus de Judas”, leva-nos pela mão ao âmago do personagem. É certo que ainda não da forma extraordinária que virá a fazê-lo nos seus livros mais recentes, muito mais burilada, mas dando já mostras inequívocas de um estilo muito próprio que virá a caracterizá-lo.

Enfim, de algum modo e passe o atrevimento da afirmação, senti-me espectadora atenta do despontar, se bem que em força já, de um génio da escrita.
 

por Maria Celeste Pereira
19.05.2010

7 de maio de 2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Os Cus de Judas


Há dias, na sequência da leitura d[e] comentários deixados n[um blog] que falava de uma das [] habituais crónicas na Visão [de Lobo Antunes], fiquei com uma vontade imensa de ler algo do autor. Tive saudades do espinhoso rendado com que define as suas personagens, dos seus momentos de imensa ternura, das suas solitárias reflexões, das suas saudades, das suas alegrias, das suas vidas…

Assim, logo que terminei a leitura que tinha em mãos (gosto de ler ALA sem ruído) decidi reler “Os cus de Judas” que havia lido há uns bons vinte anos e que tinha aqui, bem na minha frente, pois comprei a sua belíssima reedição.

Que posso dizer?

Claro que não foi uma surpresa.
 
Porém, se por um lado, uma vez que já o havia lido, nem o tema nem a sua personagem foram uma verdadeira novidade para mim, já a compreensão que tive dele foi algo surpreendente.

O livro fala-nos da experiência de um homem que faz a guerra em África, neste caso específico em Angola. Fala-nos dos horrores que protagonizou, de outros a que assistiu, da dor, da saudade, da revolta, da ausência de humanidade que se instalava bem como dos teimosos flashes da tomada de consciência da inutilidade de tudo aquilo, do sentimento de injustiça, da carência de amor que se pretende minimizar em relações furtivas e roubadas, em masturbações solitárias com sabor a amargo, das lembranças...

Fala-nos, enfim de uma guerra que é, no fundo, todas as guerras em todos os sítios em todos os tempos.

É o tipo de livro que me cria uma imensa ansiedade pois quero acabá-lo rapidamente e, por outro lado, uma enorme saudade mesmo ainda antes de ler a sua última página.

Esta leitura teve o condão de me fazer perceber muitas coisas de uma forma muito mais profunda. De ver para além do que é evidente, de intuir, de me envolver…

Agora, altura em que já se entrepôs a distância do tempo, vejo todos estas lembranças, estes relatos, de uma forma muito mais profunda. Consigo entender muito melhor a complexidade de algo que até poderá parecer linear.

É que da primeira vez que li o livro tudo era muito presente ainda, muito falado, muito explorado o que me terá levado a uma leitura (como muitas outras) mais superficial tal era a urgência do saber. A idade, por outro lado, talvez não me permitisse ainda a capacidade de compreensão e de reflexão muito para além da evidência…

Como comecei, termino.

Que posso dizer de um livro que apenas acabei e já pegaria novamente nele para ler?

Fabuloso.

Já agora um pequeno reparo. Esta edição comemorativa está lindíssima. O livro, enquanto objecto que se manuseia, que se aprecia, que se pega, que se olha, que se cheira é, pelo seu bom gosto, um verdadeiro convite à leitura.


por Maria Celeste Pereira
06.05.2010

5 de maio de 2010

O Estado de S. Paulo: artigo sobre Conhecimento do Inferno


Um tipo de romance todo seu

Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exatos para a compulsiva seqüência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e noturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado Conhecimento do Inferno, um de seus primeiros livros, e Eu Hei-de Amar uma Pedra, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a idéia exata de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, dois deles já editados pela Objetiva, alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afeto, seja ele entre parentes, seja no matrimônio.

O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura.

Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário A Ordem Natural das Coisas, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a Tratado das Paixões da Alma. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busc a da eficácia.

A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajetória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acúmulo inflacionado de imagens e adjetivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas Exortação aos Crocodilos e Manual dos Inquisidores conseguem mais com estratégias indiretas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didático. Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajetória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores.

Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto d e seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela ótica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranqüila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.
 

artigo de O Estado de S. Paulo
citado do site Notícias Traça
autor desconhecido, não datado

26 de abril de 2010

Escritores também têm que ser "showmen"


Folha de S. Paulo
Entrevista de Ana Paula Sousa
24 de Abril de 2010


António Lobo Antunes gosta de se dizer metade brasileiro, metade português. É que seu avô nasceu em Belém e eram brasileiros os primeiros livros que tocou. "Na casa do meu avô só havia livro brasileiro do século 19. Aloísio de Azevedo, José de Alencar... Aquilo me assustava imenso, mas eram o que eu lia porque é o que havia."

Mas levou muito tempo para que sua obra, ao cruzar o oceano, fosse percebida pelo mercado. Os 11 livros de Antunes publicados pela Alfaguara desde 2003 (outras editoras o haviam publicado, mas com menor exposição) venderam, ao todo, cerca de 70 mil exemplares, número idêntico ao do último título de Saramago, "Caim".

Os 24 títulos do autor de "Ensaio sobre a Cegueira" somam 1,4 milhões de exemplares. Mas, como ele diz, "arte não é desporto de competição". E grandeza literária nada tem a ver com ordem de grandeza numérica.

"O Arquipélago da Insónia" partiu de onde? Ele nasceu daquela ideia inicial da casa habitada por mortos e fotografias?Você não escreve com ideias, você escreve com palavras. Uma vez, o Degas fez um soneto e foi mostrá-lo ao Mallarmé. O Mallarmé disse que os sonetos eram uma merda. E o Degas disse: "Mas eu tinha ideias tão boas". E o outro respondeu: "Pois, mas você não escreve com ideias, você escreve com palavras. São as palavras que geram as palavras. Nos momentos bons, a mão torna-se feliz, torna-se autónoma e caminha sozinha. Parece que estão ditando as coisas para si. Por isso é impossível falar de um livro.

Ao ler o livro, eu me senti, em vários momentos, com o coração apertado, emocionada mesmo. Era essa a sensação que o senhor queria causar?
Ao escrever, você está tão ocupado em resolver os problemas que o livro impõe que não tem muito tempo para pensar na reacção que o leitor pode ter. Esse já é um livro antigo para mim, foi um livro difícil de escrever. Eu escrevo com muita dificuldade, muito lentamente e não sei muito bem o que os livros são, de onde eles vêm. Acho que os livros deviam ser publicados sem nome de autor. Quando leio um livro que gosto, a sensação que tenho é de que o livro foi escrito só para mim. Nem os empresto porque os outros exemplares dizem coisas diferentes, ou seja, começa a existir uma relação pessoal entre mim e o livro. Parece que o autor está me está dizendo coisas que eu conheço, mas não sei exprimir em palavras. Então, é um pouco como um sonho. É qualquer coisa de palpável e de imaterial, como a vida, no fundo.

Ao mesmo tempo em que fala de sonho, de emoção, o senhor escreve quase como se fosse um engenheiro, no sentido da técnica precisa, muito elaborada.
Quando você diz isso, está quase citando João Cabral [de Melo Neto], não é? O problema é que, a cada livro que você escreve, é como se fosse o primeiro. A experiência não serve de nada, a experiência é como os flutuadores dos hidroaviões, que não servem para nada quando você está no ar. Quando está no ar, você está completamente sozinho e então entende que não sabe de literatura. E há outro problema ainda: como transformar em palavras coisas que são anteriores às palavras, emoções, impulsos? Você, quando escreve, está tentando cumprir qualquer coisa impossível, que é transformar em coisas ditas coisas que não se podem dizer, que você apenas pode sentir. Esta é a sensação que tenho sempre. Eu só começo um livro quando tenho a certeza de não ser capaz de escrever.

Mas então surgem aquelas vozes todas... Nesse sentido, podemos considerá-lo um escritor inspirado em James Joyce?
Eu gosto de Joyce, mas me irrita porque é um pouco a proeza pela proeza, o truque técnico pelo truque técnico. Um livro tem que ser, sobretudo, eficaz. Mas, bem, já que você falou em Joyce, talvez seja importante lembrar o leitor brasileiro de que a melhor tradução que conheço do "Ulisses" é a do Antonio Houaiss, sem dúvida alguma. É uma obra maravilhosa. E eu tenho o direito de falar porque sou 50% brasileiro.

Seu avô nasceu aqui, né?
Sim, meu pai teve que escolher entre Brasil e Portugal. A mim me custa que os brasileiros não dêem importância aos escritores que têm. Quando estive aí, falei tanto de Paulo Mendes Campos, eu aprendi muito com a leitura dele.

Mas o senhor acha que há mesmo coisas assim importantes na literatura contemporânea brasileira?
Olha, não sei... Mas, no século 19 havia 30 génios escrevendo ao mesmo tempo. Só na Rússia, havia Tolstoi, Dostoievsky, Gogol, Turgeniev. Na Inglaterra, as irmãs Bronte, que são logo três, mais Dickens. Na América, Walt Whitman, Melville. Em França, toda aquela gente. Isso foi a idade de ouro do livro. Agora se você encontrar cinco bons escritores no mundo inteiro já não é nada mau. Você começa lendo e começa logo com vontade de corrigir.

O senhor acompanha a literatura contemporânea?
Gosto muito de Virgílio, de Ovídeo, Horácio. O que aqueles homens escreveram não tem uma prega, uma ruga, é de uma modernidade surpreendente. Mas, por exemplo, os grandes poetas da nossa língua, no século 20, são os brasileiros. Cabral, Drummond, Jorge da Lima, que acho que ninguém lê, o Mário Quintana dos últimos poemas. E mesmo Vinícius é muito melhor poeta do que as pessoas dizem. Há um que descobri há pouco tempo, chamado Manoel de Barros, de quem gostei muito.

Sua literatura é muito influenciada pela poesia, né?
Não sei, isso eu não sei dizer para você. Eu escrevo aquilo que eu posso, não aquilo que eu quero.

Mas é um grande leitor de Fernando Pessoa?
Não, não. Como é que um homem que nunca trepou pode ser bom escritor? A mim me aborrece. Não é um escritor que eu admire, como admiro Camões, por exemplo. Eu acho meio chato. Mas dizer isso é herético porque Pessoa foi um bocado santificado e o mundo está cheio de viúvos de Pessoa, mulheres e homens. Não é um escritor que me entusiasme muito. Quando João Cabral esteve aqui como cônsul do Porto ele causou um escândalo enorme ao dizer que preferia Cesário Verde a Pessoa. Entendo o que ele queria dizer com isso. Álvaro de Campos é Walt Whitman, o heterónimo me faz lembrar quadra popular de cravo de papel, Ricardo Reis é todo imitado de Horácio. Sabe qual é o poema da língua portuguesa que eu prefiro no século 20? "O Desaparecimento de Luísa Porto", de Drummond. Esse poema é um milagre. Ele tem a mão tão segura naquela poema. Talvez isso tenha que ver com o fato de eu ter crescido com o meu pai lendo poesia para nós. Nós éramos muitos irmãos e, quando estávamos doentes, meu pai vinha e lia poesia para nós. E os poetas que ele lia eram Bandeira, Drummond, por aí fora.

Ele só lia os brasileiros?
É que na casa do meu avô só havia livros brasileiros do século 19. Aloísio de Azevedo, José de Alencar... Eu me lembro de que aquilo me assustava imenso. Mas eram os únicos livros que eu lia porque é o que havia lá. Meu avô não lia nada, como bom oficial de Cavalaria. Quando ele soube, eu tinha 10 anos, que eu fazia versos, ele me perguntou se eu era bicha. Eu não sabia o que era bicha, mas a cara dele era tão severa que eu disse "não, não, não". Fui então informar-me o que era e fiquei ainda mais confuso. Não entendi bem aquele negócio.

Fugiu dos livros e virou psiquiatra.
Foi mesmo. Mas fui psiquiatra muito pouco tempo. Quando saiu o segundo livro, "Cus de Judas", o Márcio Souza, que eu nem conhecia, entregou-o a um agente americano, para ler. Eu recebi uma carta desse agente, que era agente de Jorge Amado, Ernesto Sabato, Cabrera Infante, dizendo que queria ser meu agente. Achei que estivesse brincando e não respondi. E então ele escreveu segunda carta e eu achei que era chique ter um agente em Nova York. Começou assim. Vieram as traduções, os prémios...

Mas o senhor gostava da psiquiatria?
Eu era o filho mais velho de um filho mais velho de um filho mais velho. Eram todos médicos e eu tinha que ser médico também. Como meu pai era um democrata, eu disse: "Quero ir para Letras, quero ser escritor". E ele: "Muito bem, meu filho. Estás matriculado para ir para medicina". Não se pode ser mais democrata, não é? Mas acho que ele fez bem porque senão eu teria acabado crítico literário. Eu tinha um coleguinha, no Liceu, que era muito mau na ginástica, era gordo, e eu dizia para ele: "Vais acabar crítico literário". E acabou. Mas a mim a psiquiatria assustava muito. Que direito tem um homem de considerar os outros normais ou anormais. E o que é ser normal? O poder médico sempre me assustou muito.

Mas a medicina também ajuda, não? Algumas pessoas precisam da ajuda de um psiquiatra.
Não sei. Você tem tempo para estar deprimida? Eu não tenho. O problema é que as pessoas vivem mal. E não é por ir ao psiquiatra que vivem melhor. Repara como, durante a semana, quando estão trabalhando, é tudo muito fácil para as pessoas. E os finais de semana são tenebrosos. Quando as pessoas têm que parar e olhar para elas, ficam assustadas. E a literatura pede esse olhar. A vida é muito quotidiana, como tem que ser, mas teria de ser também inesperada. Mas introduzir o inesperado no quotidiano é muito difícil. Repara como os homens são monótonos: gostam de ir sempre ao mesmo restaurante, de estar sempre com os mesmos amigos, enquanto as mulheres querem coisas novas. Deve ser horrível ter marido... Eles lêem o jornal e, ao fim de trepar, perguntam: "Foi bom? Foi bom?". Quando é bom, não precisa mesmo perguntar. Os homens são muito egoístas, eu acho. Não estou me excluindo, só juro que não pergunto se foi bom.

As pessoas leriam menos por medo de terem de ficar sozinhas?
Talvez, talvez. Mas é uma solidão ou uma comunhão quando tu estás lendo? Quando estou lendo, e gosto do livro, sinto-me tão acompanhado. Sinto que há um princípio de vasos comunicantes entre mim e o livro. E é uma alegria tão grande encontrar um livro bom...

Muda tudo o que estamos sentindo.
Muda. Às vezes, muda a nossa vida, e ajuda-nos a olhar. Você, quando escreve, só tem que mostrar, só tem que dar a ver, não tem que ensinar nada. E não é você que tem que ser inteligente, é o livro. Você lê Nabokov e está sempre vendo Nabokov dizendo para você: "Repara como eu faço isso, olha esta metáfora". Eu, enquanto leitor, não quero sentir o autor me mostrando habilidade nenhuma. Quero que ele me comova, que me dê um conhecimento de mim mesmo, quero viver a alegria de uma frase bem feita. Um livro tem que ser aquilo que eu estava procurando e não achava. Eu estou meio chato, não?

O senhor sabe que não.
Eu não sei nada, como é que eu sei? Estou falando ao telefone, não sei como é a minha voz.

Ah, mas o senhor fica à vontade ao falar com brasileiros porque sabe que foi um grande sucesso ao falar dos seus livros em Paraty.
É porque o jornalista, o Humberto Werneck, era muito bom. Eu estava há muitos anos sem ir ao Brasil porque tinha pensado: "Caramba, preciso deixar um país para o Saramago". Foi um gesto generoso. Vê como sou simpático? Ir a Paraty foi um esforço enorme, mas então eu decidi me divertir. E fiquei surpreendido. Era tanta gente, e eram tão entusiasmadas as pessoas, que tive de sair com seguranças. Não me deixavam sair dali. Achei aquilo um milagre. Estamos sempre dizendo que não há leitores, mas havia milhares de pessoas ali. E aquele encontro foi maravilhoso. Porque o Humberto foi maravilhoso. Uma entrevista depende do entrevistador porque é preciso saber ouvir. E poucos, hoje, têm disposição para ouvir.

Isso se vê até numa mesa de bar, quando as pessoas parecem estar sempre à espera de uma deixa para interromper o outro e dar a própria opinião.
Quando eu era psiquiatra, tinha a sensação de ser uma enorme orelha onde as pessoas iam despejar coisas. Isso também tem que ver com o fato de não termos quem nos ouça. As pessoas estão muito sozinhas. A nossa solidão é muito grande, ninguém ouve ninguém. Não temos tempo para ouvir o outro, pois perdemos a vida a ganhá-la. Chegamos a casa tão cansados que não temos tempo para os outros. Eu acho um milagre que, com internet, tanto tempo em transporte, marido, mulher, cão, gato, criança, as pessoas ainda leiam. Acho que são uns heróis. As solicitações são tão grandes. Eu, no Brasil, lia muito menos do que aqui. É melhor viver em Lisboa do que no Rio porque, no Rio, as mulheres são muito mais bonitas que aqui. Eu, em Berlim, escrevia bem. As pessoas e a cidade eram tão duras que eu tinha todo o tempo para escrever.

E os autores hoje são muito solicitados para coisas que os desviam da literatura, não? Há conferências, jantares, viagens...
Eu resolvo o assunto de maneira muito simples: aceito só quatro convites por ano. Se começa a sair o tempo todo, você não tem tempo para escrever. Tem que ser uma galinha que protege os seus ovos. A jantares não vou porque as pessoas ficam à espera de que eu diga coisas inteligentes. E esperar isso é como esperar que um acrobata ande na rua dando saltos mortais. Eu sou um homem comum, só que o meu trabalho é fazer livros. Uma vez, um homem encontrou aquela actriz, a Sara Bernhard, em Paris, e perguntou para ela: "A senhora é Sara Bernhard?". E ela: "Vou ser logo à noite". Eu só sou esse tal de Lobo Antunes quando estou escrevendo. E agora estou tentando começar um livro, cheio de medo, como de costume.

Você convive com escritores?
Muito pouco, porque alguns só querem falar de livros, é uma chatice. Com Jorge Amado, por exemplo, eu aprendi muito da vida, e não me lembro dele falar de livros comigo. E tinha uma qualidade muito rara: ele é um homem sem inveja. Você não acha que quando as pessoas têm talento elas são menos invejosas?
Acho que sim.
Quando eu estava na Suécia, eu conheci Ingmar Bergman. Todos diziam mal dele. Mas eu nunca o ouvi falar mal de ninguém. E isso eu não entendo. Não é por os outros serem maus que você é melhor. Arte não é desporto de competição. As obras de arte não se devoram entre elas. Quanto mais gente boa houver a fazer bons filmes ou livros, melhor.

Mas hoje aqui no Brasil falam muito bem do senhor, não?Agora sou um chuchu, o que é também uma situação incómoda. Quando começa a haver unanimidade, você se pergunta: o que fiz de errado?

O senhor se pergunta isso?
Me pergunto se todo sucesso não é um [fracasso] adiado. Há muitos artistas e muito poucas obras de arte. Em qualquer bar, em qualquer café há uma série de pintores que não pintam, escritores que não escrevem. É a era da performance.

Não é também por isso que tanta gente vai a Paraty ouvir e ver os escritores?
As pessoas não estão interessadas no que você diz, mas em saber como você é. É uma espécie de stand-up comedy. Se, por acaso, você tem o sentido da fórmula, resulta. Se tem dificuldade de expressão verbal, não resulta. É tudo uma floresta de enganos. Hoje, se você só escreve, você não é especialmente interessante. É preciso desmistificar os artistas, que são pessoas comuns, que só existem entre os outros homens e mulheres.

Mas é bom para o mercado editorial que os escritores virem estrelas, não?
As editoras, quase todas, preocupam-se mais com dinheiro que com livros. Me pagam tanto dinheiro para escrever... E eu escrevia mesmo se não me pagassem nada porque é só o que eu sei fazer na vida.. No fundo, quem publica os melhores livros são as pequenas editoras independentes, que não têm tantos compromissos económicos. Mas elas têm uma sobrevivência muito difícil porque tudo nas livrarias é pago. Os grandes grupos querem publicar os livros de hoje. E quando o hoje se torna ontem esses livros morreram... O que quer dizer esse silêncio?

Desculpe. É que me ocorreu uma coisa. O senhor escreve à mão?
Claro, eu gosto de desenhar as letras. Eu nem sequer sei abrir computador, não tenho celular. Sou mesmo burro. Tenho papel e uma mão. É como bordar. Gosto do gesto de escrever, gosto do cheiro do papel... Tá vendo como essa conversa foi uma desilusão para você?

Foi ótima. Devem mandar para o senhor depois.
Mas eu, normalmente, essas coisas vêm e eu nunca olho, coloco na gaveta.

Ah, leia esta.
Está bem. Eu vou ler para me zangar. E antes que você se canse de mim, vamos desligar.


versão on-line de Folha de S. Paulo
24.04.2010

Vozes nas noites de Lobo Antunes


O Estado de S. Paulo
Entrevista em Estadão.com
24 de Abril de 2010


Referência da literatura portuguesa atual, o ficcionista de O Arquipélago da Insónia, que sai agora no País, fala deste e de seu novo livro. E admite: tem cada vez mais medo de escrever.

O doloroso canto de uma mulher torturada povoa o pensamento do escritor português António Lobo Antunes desde a semana passada, quando começou os rascunhos que podem resultar em seu novo livro, que tem o título provisório de Comissão das Lágrimas. "É a voz de Elvira, conhecida como Virinha, que foi presa em Angola em 1977, quando o país, recém-independente de Portugal, enfrentava problemas internos", comenta ele.

Comandante do batalhão feminino do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, grupo guerrilheiro que assumiu o poder), Elvira foi uma das 80 mil pessoas mortas sob suspeita de confrontar o governo de Agostinho Neto, "cifra superior à dos assassinados durante todo o período ditatorial de Augusto Pinochet no Chile", acrescenta Lobo Antunes falando ao Estado, por telefone, de seu escritório em Lisboa.

O canto de Elvira se fez ouvir nas palavras do ficcionista quando o tema da conversa sinalizava outra voz - a de um autista, personagem central de O Arquipélago da Insónia, romance de 2008 de Lobo Antunes que está sendo publicado agora no Brasil (Alfaguara; 560 págs.). E tomou conta dos primeiros minutos da entrevista. Acompanhe.

Como Elvira, a Virinha, que comandou o batalhão feminino do MPLA, foi torturada e morta?
Seus pulsos foram amarrados com arame e os tornozelos atados nas costas. Levantada a uma altura de dois metros, ela era repentinamente solta, seu corpo tombando no chão. Mas, mesmo torturada, Elvira não parou de cantar, só quando morreu.

E foi essa Comissão das Lágrimas, uma espécie de tribunal que não julgava, apenas determinava a forma da pena, que decidiu o futuro de Elvira?
Sim. É um nome espantoso, carregado de poesia para determinar algo tão cruel. Isso me faz lembrar o povo da Romênia que, antes da queda do comunismo em 1989, perguntava se haveria vida antes da morte.

Como médico psiquiatra, você conheceu Angola durante a guerra colonial, entre 1971 e 1973. Foi durante o período anterior à independência, portanto, você precisou fazer muitas pesquisas?
Não fiz quase nenhuma, caso contrário seria esmagado pela documentação. Nesse caso, o melhor seria fazer um livro-reportagem. Prefiro confiar em minha sensibilidade. Mas nem sei ainda se terei um livro, pois vivo agora o momento mais terrível, aquele das falsas partidas: um caminho aponta, mas não é esse. Surge outro, também não é. Portanto, é um trabalho para, no mínimo, dois anos, que pode resultar em nada.

São tais inspirações que dão a largada em suas obras. Sobre O Arquipélago da Insónia, por exemplo, lançado agora pela Alfaguara, você conta que primeiro ouviu a voz do autista, um dos personagens principais.
Eu devo ter dito isso mesmo... É curioso mas me recordo mais dos problemas que enfrentei que propriamente da narrativa. Naquela época, em 2008, descobri que estava com câncer no intestino. Foi terrível, não sabia se ia viver ou morrer. Foi difícil retomar dois meses depois sem escrever, pois não tinha forças. Voltei lentamente, escrevendo uma hora e ficando cansado. Ao mesmo tempo, ganhei o Prêmio Camões, o Juan Rulfo; minha vida se tornou um inferno. Finalmente, quando estava terminando o livro, descobri que havia me curado.

O discurso do autista permite que você exercite a linguagem fragmentada para narrar a história de três gerações de uma família rural portuguesa, desde sua ascensão até a sua queda total. Como funciona o trabalho de burilar a palavra?
Eu sei que ninguém escreve como eu. Mas isso não me traz alegria alguma. Escrevo com dificuldade, mas me sinto à vontade com o assunto. Fico espantado quando algum leitor confessa ter certa dificuldade no entendimento - a escrita sempre foi muito clara para mim.

Em sua opinião, o que explicaria essa dificuldade do leitor?
Não sei, talvez a maioria espere por uma intriga bem definida, o que não acontece em meus livros. Não se pode piscar ao leitor, tentar seduzi-lo, pois aí se compreende que existe essa intenção. O livro deveria ser publicado sem o nome do autor, aí acabariam os problemas de inveja. Deveria, sim, levar o nome do leitor, porque o livro também é a nossa circunstância. Veja, a única obra que me fez chorar foi Love Story, que é uma porcaria. Mas eu estava isolado na África, minha mulher grávida em Lisboa. Assim, quando lemos, estamos a projetar nossos fantasmas, sofrimentos, medos. O que vai ficar é a obra e não seu autor.

Depois de O Arquipélago da Insónia, você publicou Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? e há cinco meses finalizou Sôbolos Rios Que Vão, que deve ser lançado em Portugal em outubro. Escrever não parece ser tão sacrificante para você.
Tenho cada vez mais medo de escrever, de decepcionar as pessoas que confiam em mim. Não tenho direito de desiludi-las. É um recomeçar em cada livro. O leitor não pode perceber isso, tem de acreditar que é muito fácil escrever. Mas espontaneidade dá muito trabalho. Outro dia, observei fotocópias de manuscritos de Chekhov, Tolstoi e não havia uma linha que não estivesse rasurada. Mas, ao leitor, parece que foi como água surgindo de uma fonte.

A novidade, portanto, tem de surgir a cada novo abrir de página?
Para mim, sim. Não gosto de repetir fórmulas. Só começo um novo livro quando estou seguro de que não conseguirei escrevê-lo. É um desafio, não posso me deixar vencer pelas palavras.

E, nesse caminho, a trama é secundária?
A intriga não me interessa, só serve para apanhar o leitor. O livro é simbólico, quero expressar os sentimentos mais profundos, aqueles, por definição, intraduzíveis em palavras. Para mim, essa é a única forma de se escrever um livro. A história não tem importância nenhuma, serve apenas como um anzol para fisgar o leitor. Veja O Velho e o Mar, de Hemingway: um homem vai pescar e volta à praia sem nada. Ou Madame Bovary: mulher que se aborrece com o marido arruma um amante e termina se matando. O problema é como vestir isso para dar algo novo ao leitor.


citado de Estadão.com
versão on-line de O Estado de S. Paulo
24.04.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...