25/06/2010

Urbano Tavares Rodrigues: Recensão de A Ordem Natural das Coisas para a Gulbenkian em Dezembro de 1992


É talvez o melhor romance de António Lobo Antunes. Muito bem estruturado, na linha faulkneriana de vários narradores internos, o que supõe um certo esforço por parte do leitor. A Ordem Natural das Coisas conta a história dos amores, das lutas, dos fracassos, das decadências dos membros de uma família rica, com casa apalaçada na Benfica de há mais de trinta anos. O título fala-nos das leis da Natureza que condenam à morte os seres humanos e votam ao insucesso as paixões de homens de cinquenta anos por meninas adolescentes. Não há um herói nem um fulcro de narrativa, que se tece das múltiplas histórias dos irmãos e irmãs (e do sobrinho bastardo) e ainda de outras personagens adjacentes, como o antigo mineiro semi-louco, na sua arteriosclerose adiantada, que por todo o lado abre furos com a picareta, em busca de ouro, ou do ex-agente da P.I.D.E reduzido a expedientes de miséria. É um romance truculento, como todos os de Lobo Antunes, associando uma grande carga afectiva ao grotesco, ao cáustico, ao imundo, na sua ânsia de comunicar a vida, no seu estendal de sofrimentos, físicos, morais, desejos, delírios e êxtases. Poucas obras, na Literatura Portuguesa, nos terão dado até hoje os quadros de Lisboa, de Alcântara, de Benfica, do Campo de Santana à Baixa, que este livro nos oferece, com tal abundância de visões, cheiros sons, movimentos da multidão. A prosa de Lobo Antunes ganhou neste romance a sua plenitude em poder de representação e em riqueza metafórica, em pujança lexical, com um maior equilíbrio na distribuição das imagens e na adjectivação. Tudo isto, é claro, sob o signo do excesso, que é consubstancial à sua arte de escritor. Nunca também o autor penetrou tão fundo na consciência e na subconsciência das personagens, nos escombros de cada pequeno inferno privado. Tenta mesmo novos registos de linguagem para exprimir alterações psíquicas ou o grau de cultura, melhor dito, da incultura, de certas figuras. Mas nesse domínio fica aquém do propósito, pois o estilo Lobo Antunes, com raras excepções, invade todo o macrotexto, sem atender, no geral às idiossincrasias e níveis etários das personagens. Mas, nesse aspecto, há que fazer uma espécie de pacto com o autor ou com o seu projecto de verosimilhança estética, pois a torrente Lobo Antunes, com o seu brilho ofuscante impõe-se a qualquer lógica realista. Finalizando, trata-se de um romance universal, que oferece alguma resistência à decifração imediata, mas conquista o leitor pela beleza formal desmedida e intensa. E que, como tal, muito se recomenda.


por Urbano Tavares Rodrigues
recensão para a Gulbenkian
22.12.1992

19/05/2010

Maria Celeste Pereira: Memória de Elefante - releitura


Terminada a leitura do livro “Os Cus de Judas” e ainda um pouco sedenta de ALA, dei de imediato início a uma nova “releitura”.

Desta vez foi “Memória de Elefante” , livro que havia adquirido junto com o anterior apenas pela beleza desta “Edição Comemorativa”.

É que eu também sou apreciadora dos próprios livros como objectos. É evidente que a prioridade vai para o conteúdo. Mas, quando a um bom conteúdo ainda se junta um invólucro atractivo, considero então ter uma jóia nas mãos. Não exagero. É precisamente isso que sinto.

Bom, reler Lobo Antunes sobretudo quando se trata das suas primeiras obras (a primeira, neste caso) julgo poder ser um risco.

Em primeiro lugar porque a impressão que me havia deixado pode ser completamente destruída ou não tivessem passado quase trinta anos por mim e muitos livros lidos. Depois porque julgo que um autor que se mantém activo durante tanto tempo tem, necessariamente, que evoluir (resta saber em que sentido). E, por fim, juntas as condições anteriores, essa leitura pode levar-nos a uma desilusão…

Afinal nada disso aconteceu comigo. A verdade é que não sou possuidora de uma memória tão elefantina assim e, uma boa parte das deambulações, das considerações, das reflexões, das lembranças a que o personagem foi sujeito naquele dia ou dia e meio, já se me tinham apagado da mente.

Lembrava-me sim do fio do enredo; um psiquiatra que, em pleno pico de uma crise existencial (se isso existe, um pico…), faz um périplo pelas suas lembranças, sofrimentos, momentos de vida desde a infância até às suas experiências na guerra que nos vão revelando o personagem.

Devo dizer que me deu um prazer grande a sua leitura dado que, como já referi, havia esquecido os belíssimos momentos de prosa, por vezes simples e com linguagem do quotidiano (grosseira até), outras vezes num registo quase poético, com que o autor nos brinda. É precisamente o tipo de prosa, mais do que o enredo que, no meu ponto de vista, valoriza o livro.

Livro que julgo de pendor francamente auto-biográfico, tal como julgo também ser “Os Cus de Judas”, leva-nos pela mão ao âmago do personagem. É certo que ainda não da forma extraordinária que virá a fazê-lo nos seus livros mais recentes, muito mais burilada, mas dando já mostras inequívocas de um estilo muito próprio que virá a caracterizá-lo.

Enfim, de algum modo e passe o atrevimento da afirmação, senti-me espectadora atenta do despontar, se bem que em força já, de um génio da escrita.
 

por Maria Celeste Pereira
19.05.2010

07/05/2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Os Cus de Judas


Há dias, na sequência da leitura d[e] comentários deixados n[um blog] que falava de uma das [] habituais crónicas na Visão [de Lobo Antunes], fiquei com uma vontade imensa de ler algo do autor. Tive saudades do espinhoso rendado com que define as suas personagens, dos seus momentos de imensa ternura, das suas solitárias reflexões, das suas saudades, das suas alegrias, das suas vidas…

Assim, logo que terminei a leitura que tinha em mãos (gosto de ler ALA sem ruído) decidi reler “Os cus de Judas” que havia lido há uns bons vinte anos e que tinha aqui, bem na minha frente, pois comprei a sua belíssima reedição.

Que posso dizer?

Claro que não foi uma surpresa.
 
Porém, se por um lado, uma vez que já o havia lido, nem o tema nem a sua personagem foram uma verdadeira novidade para mim, já a compreensão que tive dele foi algo surpreendente.

O livro fala-nos da experiência de um homem que faz a guerra em África, neste caso específico em Angola. Fala-nos dos horrores que protagonizou, de outros a que assistiu, da dor, da saudade, da revolta, da ausência de humanidade que se instalava bem como dos teimosos flashes da tomada de consciência da inutilidade de tudo aquilo, do sentimento de injustiça, da carência de amor que se pretende minimizar em relações furtivas e roubadas, em masturbações solitárias com sabor a amargo, das lembranças...

Fala-nos, enfim de uma guerra que é, no fundo, todas as guerras em todos os sítios em todos os tempos.

É o tipo de livro que me cria uma imensa ansiedade pois quero acabá-lo rapidamente e, por outro lado, uma enorme saudade mesmo ainda antes de ler a sua última página.

Esta leitura teve o condão de me fazer perceber muitas coisas de uma forma muito mais profunda. De ver para além do que é evidente, de intuir, de me envolver…

Agora, altura em que já se entrepôs a distância do tempo, vejo todos estas lembranças, estes relatos, de uma forma muito mais profunda. Consigo entender muito melhor a complexidade de algo que até poderá parecer linear.

É que da primeira vez que li o livro tudo era muito presente ainda, muito falado, muito explorado o que me terá levado a uma leitura (como muitas outras) mais superficial tal era a urgência do saber. A idade, por outro lado, talvez não me permitisse ainda a capacidade de compreensão e de reflexão muito para além da evidência…

Como comecei, termino.

Que posso dizer de um livro que apenas acabei e já pegaria novamente nele para ler?

Fabuloso.

Já agora um pequeno reparo. Esta edição comemorativa está lindíssima. O livro, enquanto objecto que se manuseia, que se aprecia, que se pega, que se olha, que se cheira é, pelo seu bom gosto, um verdadeiro convite à leitura.


por Maria Celeste Pereira
06.05.2010

05/05/2010

O Estado de S. Paulo: artigo sobre Conhecimento do Inferno


Um tipo de romance todo seu

Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exatos para a compulsiva seqüência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e noturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado Conhecimento do Inferno, um de seus primeiros livros, e Eu Hei-de Amar uma Pedra, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a idéia exata de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, dois deles já editados pela Objetiva, alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afeto, seja ele entre parentes, seja no matrimônio.

O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura.

Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário A Ordem Natural das Coisas, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a Tratado das Paixões da Alma. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busc a da eficácia.

A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajetória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acúmulo inflacionado de imagens e adjetivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas Exortação aos Crocodilos e Manual dos Inquisidores conseguem mais com estratégias indiretas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didático. Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajetória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores.

Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto d e seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela ótica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranqüila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.
 

artigo de O Estado de S. Paulo
citado do site Notícias Traça
autor desconhecido, não datado

26/04/2010

Escritores também têm que ser "showmen"


Folha de S. Paulo
Entrevista de Ana Paula Sousa
24 de Abril de 2010


António Lobo Antunes gosta de se dizer metade brasileiro, metade português. É que seu avô nasceu em Belém e eram brasileiros os primeiros livros que tocou. "Na casa do meu avô só havia livro brasileiro do século 19. Aloísio de Azevedo, José de Alencar... Aquilo me assustava imenso, mas eram o que eu lia porque é o que havia."

Mas levou muito tempo para que sua obra, ao cruzar o oceano, fosse percebida pelo mercado. Os 11 livros de Antunes publicados pela Alfaguara desde 2003 (outras editoras o haviam publicado, mas com menor exposição) venderam, ao todo, cerca de 70 mil exemplares, número idêntico ao do último título de Saramago, "Caim".

Os 24 títulos do autor de "Ensaio sobre a Cegueira" somam 1,4 milhões de exemplares. Mas, como ele diz, "arte não é desporto de competição". E grandeza literária nada tem a ver com ordem de grandeza numérica.

"O Arquipélago da Insónia" partiu de onde? Ele nasceu daquela ideia inicial da casa habitada por mortos e fotografias?Você não escreve com ideias, você escreve com palavras. Uma vez, o Degas fez um soneto e foi mostrá-lo ao Mallarmé. O Mallarmé disse que os sonetos eram uma merda. E o Degas disse: "Mas eu tinha ideias tão boas". E o outro respondeu: "Pois, mas você não escreve com ideias, você escreve com palavras. São as palavras que geram as palavras. Nos momentos bons, a mão torna-se feliz, torna-se autónoma e caminha sozinha. Parece que estão ditando as coisas para si. Por isso é impossível falar de um livro.

Ao ler o livro, eu me senti, em vários momentos, com o coração apertado, emocionada mesmo. Era essa a sensação que o senhor queria causar?
Ao escrever, você está tão ocupado em resolver os problemas que o livro impõe que não tem muito tempo para pensar na reacção que o leitor pode ter. Esse já é um livro antigo para mim, foi um livro difícil de escrever. Eu escrevo com muita dificuldade, muito lentamente e não sei muito bem o que os livros são, de onde eles vêm. Acho que os livros deviam ser publicados sem nome de autor. Quando leio um livro que gosto, a sensação que tenho é de que o livro foi escrito só para mim. Nem os empresto porque os outros exemplares dizem coisas diferentes, ou seja, começa a existir uma relação pessoal entre mim e o livro. Parece que o autor está me está dizendo coisas que eu conheço, mas não sei exprimir em palavras. Então, é um pouco como um sonho. É qualquer coisa de palpável e de imaterial, como a vida, no fundo.

Ao mesmo tempo em que fala de sonho, de emoção, o senhor escreve quase como se fosse um engenheiro, no sentido da técnica precisa, muito elaborada.
Quando você diz isso, está quase citando João Cabral [de Melo Neto], não é? O problema é que, a cada livro que você escreve, é como se fosse o primeiro. A experiência não serve de nada, a experiência é como os flutuadores dos hidroaviões, que não servem para nada quando você está no ar. Quando está no ar, você está completamente sozinho e então entende que não sabe de literatura. E há outro problema ainda: como transformar em palavras coisas que são anteriores às palavras, emoções, impulsos? Você, quando escreve, está tentando cumprir qualquer coisa impossível, que é transformar em coisas ditas coisas que não se podem dizer, que você apenas pode sentir. Esta é a sensação que tenho sempre. Eu só começo um livro quando tenho a certeza de não ser capaz de escrever.

Mas então surgem aquelas vozes todas... Nesse sentido, podemos considerá-lo um escritor inspirado em James Joyce?
Eu gosto de Joyce, mas me irrita porque é um pouco a proeza pela proeza, o truque técnico pelo truque técnico. Um livro tem que ser, sobretudo, eficaz. Mas, bem, já que você falou em Joyce, talvez seja importante lembrar o leitor brasileiro de que a melhor tradução que conheço do "Ulisses" é a do Antonio Houaiss, sem dúvida alguma. É uma obra maravilhosa. E eu tenho o direito de falar porque sou 50% brasileiro.

Seu avô nasceu aqui, né?
Sim, meu pai teve que escolher entre Brasil e Portugal. A mim me custa que os brasileiros não dêem importância aos escritores que têm. Quando estive aí, falei tanto de Paulo Mendes Campos, eu aprendi muito com a leitura dele.

Mas o senhor acha que há mesmo coisas assim importantes na literatura contemporânea brasileira?
Olha, não sei... Mas, no século 19 havia 30 génios escrevendo ao mesmo tempo. Só na Rússia, havia Tolstoi, Dostoievsky, Gogol, Turgeniev. Na Inglaterra, as irmãs Bronte, que são logo três, mais Dickens. Na América, Walt Whitman, Melville. Em França, toda aquela gente. Isso foi a idade de ouro do livro. Agora se você encontrar cinco bons escritores no mundo inteiro já não é nada mau. Você começa lendo e começa logo com vontade de corrigir.

O senhor acompanha a literatura contemporânea?
Gosto muito de Virgílio, de Ovídeo, Horácio. O que aqueles homens escreveram não tem uma prega, uma ruga, é de uma modernidade surpreendente. Mas, por exemplo, os grandes poetas da nossa língua, no século 20, são os brasileiros. Cabral, Drummond, Jorge da Lima, que acho que ninguém lê, o Mário Quintana dos últimos poemas. E mesmo Vinícius é muito melhor poeta do que as pessoas dizem. Há um que descobri há pouco tempo, chamado Manoel de Barros, de quem gostei muito.

Sua literatura é muito influenciada pela poesia, né?
Não sei, isso eu não sei dizer para você. Eu escrevo aquilo que eu posso, não aquilo que eu quero.

Mas é um grande leitor de Fernando Pessoa?
Não, não. Como é que um homem que nunca trepou pode ser bom escritor? A mim me aborrece. Não é um escritor que eu admire, como admiro Camões, por exemplo. Eu acho meio chato. Mas dizer isso é herético porque Pessoa foi um bocado santificado e o mundo está cheio de viúvos de Pessoa, mulheres e homens. Não é um escritor que me entusiasme muito. Quando João Cabral esteve aqui como cônsul do Porto ele causou um escândalo enorme ao dizer que preferia Cesário Verde a Pessoa. Entendo o que ele queria dizer com isso. Álvaro de Campos é Walt Whitman, o heterónimo me faz lembrar quadra popular de cravo de papel, Ricardo Reis é todo imitado de Horácio. Sabe qual é o poema da língua portuguesa que eu prefiro no século 20? "O Desaparecimento de Luísa Porto", de Drummond. Esse poema é um milagre. Ele tem a mão tão segura naquela poema. Talvez isso tenha que ver com o fato de eu ter crescido com o meu pai lendo poesia para nós. Nós éramos muitos irmãos e, quando estávamos doentes, meu pai vinha e lia poesia para nós. E os poetas que ele lia eram Bandeira, Drummond, por aí fora.

Ele só lia os brasileiros?
É que na casa do meu avô só havia livros brasileiros do século 19. Aloísio de Azevedo, José de Alencar... Eu me lembro de que aquilo me assustava imenso. Mas eram os únicos livros que eu lia porque é o que havia lá. Meu avô não lia nada, como bom oficial de Cavalaria. Quando ele soube, eu tinha 10 anos, que eu fazia versos, ele me perguntou se eu era bicha. Eu não sabia o que era bicha, mas a cara dele era tão severa que eu disse "não, não, não". Fui então informar-me o que era e fiquei ainda mais confuso. Não entendi bem aquele negócio.

Fugiu dos livros e virou psiquiatra.
Foi mesmo. Mas fui psiquiatra muito pouco tempo. Quando saiu o segundo livro, "Cus de Judas", o Márcio Souza, que eu nem conhecia, entregou-o a um agente americano, para ler. Eu recebi uma carta desse agente, que era agente de Jorge Amado, Ernesto Sabato, Cabrera Infante, dizendo que queria ser meu agente. Achei que estivesse brincando e não respondi. E então ele escreveu segunda carta e eu achei que era chique ter um agente em Nova York. Começou assim. Vieram as traduções, os prémios...

Mas o senhor gostava da psiquiatria?
Eu era o filho mais velho de um filho mais velho de um filho mais velho. Eram todos médicos e eu tinha que ser médico também. Como meu pai era um democrata, eu disse: "Quero ir para Letras, quero ser escritor". E ele: "Muito bem, meu filho. Estás matriculado para ir para medicina". Não se pode ser mais democrata, não é? Mas acho que ele fez bem porque senão eu teria acabado crítico literário. Eu tinha um coleguinha, no Liceu, que era muito mau na ginástica, era gordo, e eu dizia para ele: "Vais acabar crítico literário". E acabou. Mas a mim a psiquiatria assustava muito. Que direito tem um homem de considerar os outros normais ou anormais. E o que é ser normal? O poder médico sempre me assustou muito.

Mas a medicina também ajuda, não? Algumas pessoas precisam da ajuda de um psiquiatra.
Não sei. Você tem tempo para estar deprimida? Eu não tenho. O problema é que as pessoas vivem mal. E não é por ir ao psiquiatra que vivem melhor. Repara como, durante a semana, quando estão trabalhando, é tudo muito fácil para as pessoas. E os finais de semana são tenebrosos. Quando as pessoas têm que parar e olhar para elas, ficam assustadas. E a literatura pede esse olhar. A vida é muito quotidiana, como tem que ser, mas teria de ser também inesperada. Mas introduzir o inesperado no quotidiano é muito difícil. Repara como os homens são monótonos: gostam de ir sempre ao mesmo restaurante, de estar sempre com os mesmos amigos, enquanto as mulheres querem coisas novas. Deve ser horrível ter marido... Eles lêem o jornal e, ao fim de trepar, perguntam: "Foi bom? Foi bom?". Quando é bom, não precisa mesmo perguntar. Os homens são muito egoístas, eu acho. Não estou me excluindo, só juro que não pergunto se foi bom.

As pessoas leriam menos por medo de terem de ficar sozinhas?
Talvez, talvez. Mas é uma solidão ou uma comunhão quando tu estás lendo? Quando estou lendo, e gosto do livro, sinto-me tão acompanhado. Sinto que há um princípio de vasos comunicantes entre mim e o livro. E é uma alegria tão grande encontrar um livro bom...

Muda tudo o que estamos sentindo.
Muda. Às vezes, muda a nossa vida, e ajuda-nos a olhar. Você, quando escreve, só tem que mostrar, só tem que dar a ver, não tem que ensinar nada. E não é você que tem que ser inteligente, é o livro. Você lê Nabokov e está sempre vendo Nabokov dizendo para você: "Repara como eu faço isso, olha esta metáfora". Eu, enquanto leitor, não quero sentir o autor me mostrando habilidade nenhuma. Quero que ele me comova, que me dê um conhecimento de mim mesmo, quero viver a alegria de uma frase bem feita. Um livro tem que ser aquilo que eu estava procurando e não achava. Eu estou meio chato, não?

O senhor sabe que não.
Eu não sei nada, como é que eu sei? Estou falando ao telefone, não sei como é a minha voz.

Ah, mas o senhor fica à vontade ao falar com brasileiros porque sabe que foi um grande sucesso ao falar dos seus livros em Paraty.
É porque o jornalista, o Humberto Werneck, era muito bom. Eu estava há muitos anos sem ir ao Brasil porque tinha pensado: "Caramba, preciso deixar um país para o Saramago". Foi um gesto generoso. Vê como sou simpático? Ir a Paraty foi um esforço enorme, mas então eu decidi me divertir. E fiquei surpreendido. Era tanta gente, e eram tão entusiasmadas as pessoas, que tive de sair com seguranças. Não me deixavam sair dali. Achei aquilo um milagre. Estamos sempre dizendo que não há leitores, mas havia milhares de pessoas ali. E aquele encontro foi maravilhoso. Porque o Humberto foi maravilhoso. Uma entrevista depende do entrevistador porque é preciso saber ouvir. E poucos, hoje, têm disposição para ouvir.

Isso se vê até numa mesa de bar, quando as pessoas parecem estar sempre à espera de uma deixa para interromper o outro e dar a própria opinião.
Quando eu era psiquiatra, tinha a sensação de ser uma enorme orelha onde as pessoas iam despejar coisas. Isso também tem que ver com o fato de não termos quem nos ouça. As pessoas estão muito sozinhas. A nossa solidão é muito grande, ninguém ouve ninguém. Não temos tempo para ouvir o outro, pois perdemos a vida a ganhá-la. Chegamos a casa tão cansados que não temos tempo para os outros. Eu acho um milagre que, com internet, tanto tempo em transporte, marido, mulher, cão, gato, criança, as pessoas ainda leiam. Acho que são uns heróis. As solicitações são tão grandes. Eu, no Brasil, lia muito menos do que aqui. É melhor viver em Lisboa do que no Rio porque, no Rio, as mulheres são muito mais bonitas que aqui. Eu, em Berlim, escrevia bem. As pessoas e a cidade eram tão duras que eu tinha todo o tempo para escrever.

E os autores hoje são muito solicitados para coisas que os desviam da literatura, não? Há conferências, jantares, viagens...
Eu resolvo o assunto de maneira muito simples: aceito só quatro convites por ano. Se começa a sair o tempo todo, você não tem tempo para escrever. Tem que ser uma galinha que protege os seus ovos. A jantares não vou porque as pessoas ficam à espera de que eu diga coisas inteligentes. E esperar isso é como esperar que um acrobata ande na rua dando saltos mortais. Eu sou um homem comum, só que o meu trabalho é fazer livros. Uma vez, um homem encontrou aquela actriz, a Sara Bernhard, em Paris, e perguntou para ela: "A senhora é Sara Bernhard?". E ela: "Vou ser logo à noite". Eu só sou esse tal de Lobo Antunes quando estou escrevendo. E agora estou tentando começar um livro, cheio de medo, como de costume.

Você convive com escritores?
Muito pouco, porque alguns só querem falar de livros, é uma chatice. Com Jorge Amado, por exemplo, eu aprendi muito da vida, e não me lembro dele falar de livros comigo. E tinha uma qualidade muito rara: ele é um homem sem inveja. Você não acha que quando as pessoas têm talento elas são menos invejosas?
Acho que sim.
Quando eu estava na Suécia, eu conheci Ingmar Bergman. Todos diziam mal dele. Mas eu nunca o ouvi falar mal de ninguém. E isso eu não entendo. Não é por os outros serem maus que você é melhor. Arte não é desporto de competição. As obras de arte não se devoram entre elas. Quanto mais gente boa houver a fazer bons filmes ou livros, melhor.

Mas hoje aqui no Brasil falam muito bem do senhor, não?Agora sou um chuchu, o que é também uma situação incómoda. Quando começa a haver unanimidade, você se pergunta: o que fiz de errado?

O senhor se pergunta isso?
Me pergunto se todo sucesso não é um [fracasso] adiado. Há muitos artistas e muito poucas obras de arte. Em qualquer bar, em qualquer café há uma série de pintores que não pintam, escritores que não escrevem. É a era da performance.

Não é também por isso que tanta gente vai a Paraty ouvir e ver os escritores?
As pessoas não estão interessadas no que você diz, mas em saber como você é. É uma espécie de stand-up comedy. Se, por acaso, você tem o sentido da fórmula, resulta. Se tem dificuldade de expressão verbal, não resulta. É tudo uma floresta de enganos. Hoje, se você só escreve, você não é especialmente interessante. É preciso desmistificar os artistas, que são pessoas comuns, que só existem entre os outros homens e mulheres.

Mas é bom para o mercado editorial que os escritores virem estrelas, não?
As editoras, quase todas, preocupam-se mais com dinheiro que com livros. Me pagam tanto dinheiro para escrever... E eu escrevia mesmo se não me pagassem nada porque é só o que eu sei fazer na vida.. No fundo, quem publica os melhores livros são as pequenas editoras independentes, que não têm tantos compromissos económicos. Mas elas têm uma sobrevivência muito difícil porque tudo nas livrarias é pago. Os grandes grupos querem publicar os livros de hoje. E quando o hoje se torna ontem esses livros morreram... O que quer dizer esse silêncio?

Desculpe. É que me ocorreu uma coisa. O senhor escreve à mão?
Claro, eu gosto de desenhar as letras. Eu nem sequer sei abrir computador, não tenho celular. Sou mesmo burro. Tenho papel e uma mão. É como bordar. Gosto do gesto de escrever, gosto do cheiro do papel... Tá vendo como essa conversa foi uma desilusão para você?

Foi ótima. Devem mandar para o senhor depois.
Mas eu, normalmente, essas coisas vêm e eu nunca olho, coloco na gaveta.

Ah, leia esta.
Está bem. Eu vou ler para me zangar. E antes que você se canse de mim, vamos desligar.


versão on-line de Folha de S. Paulo
24.04.2010

Vozes nas noites de Lobo Antunes


O Estado de S. Paulo
Entrevista em Estadão.com
24 de Abril de 2010


Referência da literatura portuguesa atual, o ficcionista de O Arquipélago da Insónia, que sai agora no País, fala deste e de seu novo livro. E admite: tem cada vez mais medo de escrever.

O doloroso canto de uma mulher torturada povoa o pensamento do escritor português António Lobo Antunes desde a semana passada, quando começou os rascunhos que podem resultar em seu novo livro, que tem o título provisório de Comissão das Lágrimas. "É a voz de Elvira, conhecida como Virinha, que foi presa em Angola em 1977, quando o país, recém-independente de Portugal, enfrentava problemas internos", comenta ele.

Comandante do batalhão feminino do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, grupo guerrilheiro que assumiu o poder), Elvira foi uma das 80 mil pessoas mortas sob suspeita de confrontar o governo de Agostinho Neto, "cifra superior à dos assassinados durante todo o período ditatorial de Augusto Pinochet no Chile", acrescenta Lobo Antunes falando ao Estado, por telefone, de seu escritório em Lisboa.

O canto de Elvira se fez ouvir nas palavras do ficcionista quando o tema da conversa sinalizava outra voz - a de um autista, personagem central de O Arquipélago da Insónia, romance de 2008 de Lobo Antunes que está sendo publicado agora no Brasil (Alfaguara; 560 págs.). E tomou conta dos primeiros minutos da entrevista. Acompanhe.

Como Elvira, a Virinha, que comandou o batalhão feminino do MPLA, foi torturada e morta?
Seus pulsos foram amarrados com arame e os tornozelos atados nas costas. Levantada a uma altura de dois metros, ela era repentinamente solta, seu corpo tombando no chão. Mas, mesmo torturada, Elvira não parou de cantar, só quando morreu.

E foi essa Comissão das Lágrimas, uma espécie de tribunal que não julgava, apenas determinava a forma da pena, que decidiu o futuro de Elvira?
Sim. É um nome espantoso, carregado de poesia para determinar algo tão cruel. Isso me faz lembrar o povo da Romênia que, antes da queda do comunismo em 1989, perguntava se haveria vida antes da morte.

Como médico psiquiatra, você conheceu Angola durante a guerra colonial, entre 1971 e 1973. Foi durante o período anterior à independência, portanto, você precisou fazer muitas pesquisas?
Não fiz quase nenhuma, caso contrário seria esmagado pela documentação. Nesse caso, o melhor seria fazer um livro-reportagem. Prefiro confiar em minha sensibilidade. Mas nem sei ainda se terei um livro, pois vivo agora o momento mais terrível, aquele das falsas partidas: um caminho aponta, mas não é esse. Surge outro, também não é. Portanto, é um trabalho para, no mínimo, dois anos, que pode resultar em nada.

São tais inspirações que dão a largada em suas obras. Sobre O Arquipélago da Insónia, por exemplo, lançado agora pela Alfaguara, você conta que primeiro ouviu a voz do autista, um dos personagens principais.
Eu devo ter dito isso mesmo... É curioso mas me recordo mais dos problemas que enfrentei que propriamente da narrativa. Naquela época, em 2008, descobri que estava com câncer no intestino. Foi terrível, não sabia se ia viver ou morrer. Foi difícil retomar dois meses depois sem escrever, pois não tinha forças. Voltei lentamente, escrevendo uma hora e ficando cansado. Ao mesmo tempo, ganhei o Prêmio Camões, o Juan Rulfo; minha vida se tornou um inferno. Finalmente, quando estava terminando o livro, descobri que havia me curado.

O discurso do autista permite que você exercite a linguagem fragmentada para narrar a história de três gerações de uma família rural portuguesa, desde sua ascensão até a sua queda total. Como funciona o trabalho de burilar a palavra?
Eu sei que ninguém escreve como eu. Mas isso não me traz alegria alguma. Escrevo com dificuldade, mas me sinto à vontade com o assunto. Fico espantado quando algum leitor confessa ter certa dificuldade no entendimento - a escrita sempre foi muito clara para mim.

Em sua opinião, o que explicaria essa dificuldade do leitor?
Não sei, talvez a maioria espere por uma intriga bem definida, o que não acontece em meus livros. Não se pode piscar ao leitor, tentar seduzi-lo, pois aí se compreende que existe essa intenção. O livro deveria ser publicado sem o nome do autor, aí acabariam os problemas de inveja. Deveria, sim, levar o nome do leitor, porque o livro também é a nossa circunstância. Veja, a única obra que me fez chorar foi Love Story, que é uma porcaria. Mas eu estava isolado na África, minha mulher grávida em Lisboa. Assim, quando lemos, estamos a projetar nossos fantasmas, sofrimentos, medos. O que vai ficar é a obra e não seu autor.

Depois de O Arquipélago da Insónia, você publicou Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? e há cinco meses finalizou Sôbolos Rios Que Vão, que deve ser lançado em Portugal em outubro. Escrever não parece ser tão sacrificante para você.
Tenho cada vez mais medo de escrever, de decepcionar as pessoas que confiam em mim. Não tenho direito de desiludi-las. É um recomeçar em cada livro. O leitor não pode perceber isso, tem de acreditar que é muito fácil escrever. Mas espontaneidade dá muito trabalho. Outro dia, observei fotocópias de manuscritos de Chekhov, Tolstoi e não havia uma linha que não estivesse rasurada. Mas, ao leitor, parece que foi como água surgindo de uma fonte.

A novidade, portanto, tem de surgir a cada novo abrir de página?
Para mim, sim. Não gosto de repetir fórmulas. Só começo um novo livro quando estou seguro de que não conseguirei escrevê-lo. É um desafio, não posso me deixar vencer pelas palavras.

E, nesse caminho, a trama é secundária?
A intriga não me interessa, só serve para apanhar o leitor. O livro é simbólico, quero expressar os sentimentos mais profundos, aqueles, por definição, intraduzíveis em palavras. Para mim, essa é a única forma de se escrever um livro. A história não tem importância nenhuma, serve apenas como um anzol para fisgar o leitor. Veja O Velho e o Mar, de Hemingway: um homem vai pescar e volta à praia sem nada. Ou Madame Bovary: mulher que se aborrece com o marido arruma um amante e termina se matando. O problema é como vestir isso para dar algo novo ao leitor.


citado de Estadão.com
versão on-line de O Estado de S. Paulo
24.04.2010

05/04/2010

Taize Odelli: opinião sobre Os Cus de Judas

Frases longas, parágrafos sem fim e nenhuma ordem cronológica de apresentação dos fatos. Essa é a característica inconfundível de António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa. E não há forma melhor de conferir sua genialidade narrativa como em uma de suas primeiras publicações, Os Cus de Judas.

Formado em medicina, com especialização em psiquiatria, Lobo Antunes atuou como médico na guerra de independência da Angola. E foi essa experiência que marcou profundamente seus três primeiros romances, entre eles Os Cus de Judas. Falo isso para ilustrar o enredo da obra, pois essa vivência da guerra é que gerou uma das grandes obras da língua portuguesa.

Publicado no Brasil pela Alfaguara, Os Cus de Judas conta os dias de um médico do exército português na guerra angolana, alternando o relato das tragédias do país com lembranças da juventude do narrador. Uma leitura densa, carregada de emoção e reflexões sobre a guerra e a própria vida. O protagonista/narrador passa anos em Angola, um “cu de Judas” sem lei, onde todos parecem animais, onde a morte pode aparecer a qualquer momento.

Com referências a livros, músicas e filmes, o protagonista ilustra suas vivências, procurando passar ao leitor da melhor forma possível os seus sentimentos em relação a cada momento de sua vida. A angústia de estar longe da mulher grávida de sua primeira filha, a saudade da família, que de certa forma o empurrou para a guerra, os horrores dos seus pacientes mutilados. E a constatação de que a única coisa realmente útil que podia fazer por eles era trazer a morte. Pois quem gostaria de se manter vivo para ver mais das atrocidades, da miséria dos cus de Judas para onde eram enviados?

António Lobo Antunes fala de como a guerra se crava na pessoa, tornando-a difícil de esquecer, de arrancar da pele. Os dias de serviço em Angola afetam diretamente a personagem, lhe tira um pedaço da vontade de se manter vivo. Na volta para casa, ele se sente tão perdido que apenas a guerra lhe parece familiar, aconchegante. Contudo, um conforto longe de ser apreciado. O protagonista se sente tão desesperado a essa vivência desumana que se segura em qualquer coisa, por mais insignificante que ela seja, para se manter em pé. Principalmente quando percebe que parte da negligência do país vem de seus próprios companheiros.

A guerra não tem sentido, nem propósito, além de matar e destroçar. Como sair bem de um conflito que não leva a nada, depois de ver milhares de pessoas perecerem por conta dele? São pensamentos assim que não saem da mente do narrador, que muda sua ideologia e abrem nele feridas que nunca vão se cicatrizar. O que resta a ele é aprender a conviver com ela, com as lembranças dela, para se manter são.

Lobo Antunes construiu uma narrativa de uma intensidade tão real que torna impossível de largar o livro, por mais complicado que ele pareça ser. Logo o leitor se habitua ao seu estilo, e entra nos horrores do combate que ele vivenciou. Terminando a leitura com uma melancolia profunda por, como o protagonista, não poder fazer nada para diminuir o sofrimento daqueles que na guerra vivem. Uma leitura recomendada, de uma crítica relevante sobre atos irracionais que não trazem benefício algum.


por Taize Odelli
citado de Ambrosia
21.03.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...