26 de abril de 2010

Escritores também têm que ser "showmen"


Folha de S. Paulo
Entrevista de Ana Paula Sousa
24 de Abril de 2010


António Lobo Antunes gosta de se dizer metade brasileiro, metade português. É que seu avô nasceu em Belém e eram brasileiros os primeiros livros que tocou. "Na casa do meu avô só havia livro brasileiro do século 19. Aloísio de Azevedo, José de Alencar... Aquilo me assustava imenso, mas eram o que eu lia porque é o que havia."

Mas levou muito tempo para que sua obra, ao cruzar o oceano, fosse percebida pelo mercado. Os 11 livros de Antunes publicados pela Alfaguara desde 2003 (outras editoras o haviam publicado, mas com menor exposição) venderam, ao todo, cerca de 70 mil exemplares, número idêntico ao do último título de Saramago, "Caim".

Os 24 títulos do autor de "Ensaio sobre a Cegueira" somam 1,4 milhões de exemplares. Mas, como ele diz, "arte não é desporto de competição". E grandeza literária nada tem a ver com ordem de grandeza numérica.

"O Arquipélago da Insónia" partiu de onde? Ele nasceu daquela ideia inicial da casa habitada por mortos e fotografias?Você não escreve com ideias, você escreve com palavras. Uma vez, o Degas fez um soneto e foi mostrá-lo ao Mallarmé. O Mallarmé disse que os sonetos eram uma merda. E o Degas disse: "Mas eu tinha ideias tão boas". E o outro respondeu: "Pois, mas você não escreve com ideias, você escreve com palavras. São as palavras que geram as palavras. Nos momentos bons, a mão torna-se feliz, torna-se autónoma e caminha sozinha. Parece que estão ditando as coisas para si. Por isso é impossível falar de um livro.

Ao ler o livro, eu me senti, em vários momentos, com o coração apertado, emocionada mesmo. Era essa a sensação que o senhor queria causar?
Ao escrever, você está tão ocupado em resolver os problemas que o livro impõe que não tem muito tempo para pensar na reacção que o leitor pode ter. Esse já é um livro antigo para mim, foi um livro difícil de escrever. Eu escrevo com muita dificuldade, muito lentamente e não sei muito bem o que os livros são, de onde eles vêm. Acho que os livros deviam ser publicados sem nome de autor. Quando leio um livro que gosto, a sensação que tenho é de que o livro foi escrito só para mim. Nem os empresto porque os outros exemplares dizem coisas diferentes, ou seja, começa a existir uma relação pessoal entre mim e o livro. Parece que o autor está me está dizendo coisas que eu conheço, mas não sei exprimir em palavras. Então, é um pouco como um sonho. É qualquer coisa de palpável e de imaterial, como a vida, no fundo.

Ao mesmo tempo em que fala de sonho, de emoção, o senhor escreve quase como se fosse um engenheiro, no sentido da técnica precisa, muito elaborada.
Quando você diz isso, está quase citando João Cabral [de Melo Neto], não é? O problema é que, a cada livro que você escreve, é como se fosse o primeiro. A experiência não serve de nada, a experiência é como os flutuadores dos hidroaviões, que não servem para nada quando você está no ar. Quando está no ar, você está completamente sozinho e então entende que não sabe de literatura. E há outro problema ainda: como transformar em palavras coisas que são anteriores às palavras, emoções, impulsos? Você, quando escreve, está tentando cumprir qualquer coisa impossível, que é transformar em coisas ditas coisas que não se podem dizer, que você apenas pode sentir. Esta é a sensação que tenho sempre. Eu só começo um livro quando tenho a certeza de não ser capaz de escrever.

Mas então surgem aquelas vozes todas... Nesse sentido, podemos considerá-lo um escritor inspirado em James Joyce?
Eu gosto de Joyce, mas me irrita porque é um pouco a proeza pela proeza, o truque técnico pelo truque técnico. Um livro tem que ser, sobretudo, eficaz. Mas, bem, já que você falou em Joyce, talvez seja importante lembrar o leitor brasileiro de que a melhor tradução que conheço do "Ulisses" é a do Antonio Houaiss, sem dúvida alguma. É uma obra maravilhosa. E eu tenho o direito de falar porque sou 50% brasileiro.

Seu avô nasceu aqui, né?
Sim, meu pai teve que escolher entre Brasil e Portugal. A mim me custa que os brasileiros não dêem importância aos escritores que têm. Quando estive aí, falei tanto de Paulo Mendes Campos, eu aprendi muito com a leitura dele.

Mas o senhor acha que há mesmo coisas assim importantes na literatura contemporânea brasileira?
Olha, não sei... Mas, no século 19 havia 30 génios escrevendo ao mesmo tempo. Só na Rússia, havia Tolstoi, Dostoievsky, Gogol, Turgeniev. Na Inglaterra, as irmãs Bronte, que são logo três, mais Dickens. Na América, Walt Whitman, Melville. Em França, toda aquela gente. Isso foi a idade de ouro do livro. Agora se você encontrar cinco bons escritores no mundo inteiro já não é nada mau. Você começa lendo e começa logo com vontade de corrigir.

O senhor acompanha a literatura contemporânea?
Gosto muito de Virgílio, de Ovídeo, Horácio. O que aqueles homens escreveram não tem uma prega, uma ruga, é de uma modernidade surpreendente. Mas, por exemplo, os grandes poetas da nossa língua, no século 20, são os brasileiros. Cabral, Drummond, Jorge da Lima, que acho que ninguém lê, o Mário Quintana dos últimos poemas. E mesmo Vinícius é muito melhor poeta do que as pessoas dizem. Há um que descobri há pouco tempo, chamado Manoel de Barros, de quem gostei muito.

Sua literatura é muito influenciada pela poesia, né?
Não sei, isso eu não sei dizer para você. Eu escrevo aquilo que eu posso, não aquilo que eu quero.

Mas é um grande leitor de Fernando Pessoa?
Não, não. Como é que um homem que nunca trepou pode ser bom escritor? A mim me aborrece. Não é um escritor que eu admire, como admiro Camões, por exemplo. Eu acho meio chato. Mas dizer isso é herético porque Pessoa foi um bocado santificado e o mundo está cheio de viúvos de Pessoa, mulheres e homens. Não é um escritor que me entusiasme muito. Quando João Cabral esteve aqui como cônsul do Porto ele causou um escândalo enorme ao dizer que preferia Cesário Verde a Pessoa. Entendo o que ele queria dizer com isso. Álvaro de Campos é Walt Whitman, o heterónimo me faz lembrar quadra popular de cravo de papel, Ricardo Reis é todo imitado de Horácio. Sabe qual é o poema da língua portuguesa que eu prefiro no século 20? "O Desaparecimento de Luísa Porto", de Drummond. Esse poema é um milagre. Ele tem a mão tão segura naquela poema. Talvez isso tenha que ver com o fato de eu ter crescido com o meu pai lendo poesia para nós. Nós éramos muitos irmãos e, quando estávamos doentes, meu pai vinha e lia poesia para nós. E os poetas que ele lia eram Bandeira, Drummond, por aí fora.

Ele só lia os brasileiros?
É que na casa do meu avô só havia livros brasileiros do século 19. Aloísio de Azevedo, José de Alencar... Eu me lembro de que aquilo me assustava imenso. Mas eram os únicos livros que eu lia porque é o que havia lá. Meu avô não lia nada, como bom oficial de Cavalaria. Quando ele soube, eu tinha 10 anos, que eu fazia versos, ele me perguntou se eu era bicha. Eu não sabia o que era bicha, mas a cara dele era tão severa que eu disse "não, não, não". Fui então informar-me o que era e fiquei ainda mais confuso. Não entendi bem aquele negócio.

Fugiu dos livros e virou psiquiatra.
Foi mesmo. Mas fui psiquiatra muito pouco tempo. Quando saiu o segundo livro, "Cus de Judas", o Márcio Souza, que eu nem conhecia, entregou-o a um agente americano, para ler. Eu recebi uma carta desse agente, que era agente de Jorge Amado, Ernesto Sabato, Cabrera Infante, dizendo que queria ser meu agente. Achei que estivesse brincando e não respondi. E então ele escreveu segunda carta e eu achei que era chique ter um agente em Nova York. Começou assim. Vieram as traduções, os prémios...

Mas o senhor gostava da psiquiatria?
Eu era o filho mais velho de um filho mais velho de um filho mais velho. Eram todos médicos e eu tinha que ser médico também. Como meu pai era um democrata, eu disse: "Quero ir para Letras, quero ser escritor". E ele: "Muito bem, meu filho. Estás matriculado para ir para medicina". Não se pode ser mais democrata, não é? Mas acho que ele fez bem porque senão eu teria acabado crítico literário. Eu tinha um coleguinha, no Liceu, que era muito mau na ginástica, era gordo, e eu dizia para ele: "Vais acabar crítico literário". E acabou. Mas a mim a psiquiatria assustava muito. Que direito tem um homem de considerar os outros normais ou anormais. E o que é ser normal? O poder médico sempre me assustou muito.

Mas a medicina também ajuda, não? Algumas pessoas precisam da ajuda de um psiquiatra.
Não sei. Você tem tempo para estar deprimida? Eu não tenho. O problema é que as pessoas vivem mal. E não é por ir ao psiquiatra que vivem melhor. Repara como, durante a semana, quando estão trabalhando, é tudo muito fácil para as pessoas. E os finais de semana são tenebrosos. Quando as pessoas têm que parar e olhar para elas, ficam assustadas. E a literatura pede esse olhar. A vida é muito quotidiana, como tem que ser, mas teria de ser também inesperada. Mas introduzir o inesperado no quotidiano é muito difícil. Repara como os homens são monótonos: gostam de ir sempre ao mesmo restaurante, de estar sempre com os mesmos amigos, enquanto as mulheres querem coisas novas. Deve ser horrível ter marido... Eles lêem o jornal e, ao fim de trepar, perguntam: "Foi bom? Foi bom?". Quando é bom, não precisa mesmo perguntar. Os homens são muito egoístas, eu acho. Não estou me excluindo, só juro que não pergunto se foi bom.

As pessoas leriam menos por medo de terem de ficar sozinhas?
Talvez, talvez. Mas é uma solidão ou uma comunhão quando tu estás lendo? Quando estou lendo, e gosto do livro, sinto-me tão acompanhado. Sinto que há um princípio de vasos comunicantes entre mim e o livro. E é uma alegria tão grande encontrar um livro bom...

Muda tudo o que estamos sentindo.
Muda. Às vezes, muda a nossa vida, e ajuda-nos a olhar. Você, quando escreve, só tem que mostrar, só tem que dar a ver, não tem que ensinar nada. E não é você que tem que ser inteligente, é o livro. Você lê Nabokov e está sempre vendo Nabokov dizendo para você: "Repara como eu faço isso, olha esta metáfora". Eu, enquanto leitor, não quero sentir o autor me mostrando habilidade nenhuma. Quero que ele me comova, que me dê um conhecimento de mim mesmo, quero viver a alegria de uma frase bem feita. Um livro tem que ser aquilo que eu estava procurando e não achava. Eu estou meio chato, não?

O senhor sabe que não.
Eu não sei nada, como é que eu sei? Estou falando ao telefone, não sei como é a minha voz.

Ah, mas o senhor fica à vontade ao falar com brasileiros porque sabe que foi um grande sucesso ao falar dos seus livros em Paraty.
É porque o jornalista, o Humberto Werneck, era muito bom. Eu estava há muitos anos sem ir ao Brasil porque tinha pensado: "Caramba, preciso deixar um país para o Saramago". Foi um gesto generoso. Vê como sou simpático? Ir a Paraty foi um esforço enorme, mas então eu decidi me divertir. E fiquei surpreendido. Era tanta gente, e eram tão entusiasmadas as pessoas, que tive de sair com seguranças. Não me deixavam sair dali. Achei aquilo um milagre. Estamos sempre dizendo que não há leitores, mas havia milhares de pessoas ali. E aquele encontro foi maravilhoso. Porque o Humberto foi maravilhoso. Uma entrevista depende do entrevistador porque é preciso saber ouvir. E poucos, hoje, têm disposição para ouvir.

Isso se vê até numa mesa de bar, quando as pessoas parecem estar sempre à espera de uma deixa para interromper o outro e dar a própria opinião.
Quando eu era psiquiatra, tinha a sensação de ser uma enorme orelha onde as pessoas iam despejar coisas. Isso também tem que ver com o fato de não termos quem nos ouça. As pessoas estão muito sozinhas. A nossa solidão é muito grande, ninguém ouve ninguém. Não temos tempo para ouvir o outro, pois perdemos a vida a ganhá-la. Chegamos a casa tão cansados que não temos tempo para os outros. Eu acho um milagre que, com internet, tanto tempo em transporte, marido, mulher, cão, gato, criança, as pessoas ainda leiam. Acho que são uns heróis. As solicitações são tão grandes. Eu, no Brasil, lia muito menos do que aqui. É melhor viver em Lisboa do que no Rio porque, no Rio, as mulheres são muito mais bonitas que aqui. Eu, em Berlim, escrevia bem. As pessoas e a cidade eram tão duras que eu tinha todo o tempo para escrever.

E os autores hoje são muito solicitados para coisas que os desviam da literatura, não? Há conferências, jantares, viagens...
Eu resolvo o assunto de maneira muito simples: aceito só quatro convites por ano. Se começa a sair o tempo todo, você não tem tempo para escrever. Tem que ser uma galinha que protege os seus ovos. A jantares não vou porque as pessoas ficam à espera de que eu diga coisas inteligentes. E esperar isso é como esperar que um acrobata ande na rua dando saltos mortais. Eu sou um homem comum, só que o meu trabalho é fazer livros. Uma vez, um homem encontrou aquela actriz, a Sara Bernhard, em Paris, e perguntou para ela: "A senhora é Sara Bernhard?". E ela: "Vou ser logo à noite". Eu só sou esse tal de Lobo Antunes quando estou escrevendo. E agora estou tentando começar um livro, cheio de medo, como de costume.

Você convive com escritores?
Muito pouco, porque alguns só querem falar de livros, é uma chatice. Com Jorge Amado, por exemplo, eu aprendi muito da vida, e não me lembro dele falar de livros comigo. E tinha uma qualidade muito rara: ele é um homem sem inveja. Você não acha que quando as pessoas têm talento elas são menos invejosas?
Acho que sim.
Quando eu estava na Suécia, eu conheci Ingmar Bergman. Todos diziam mal dele. Mas eu nunca o ouvi falar mal de ninguém. E isso eu não entendo. Não é por os outros serem maus que você é melhor. Arte não é desporto de competição. As obras de arte não se devoram entre elas. Quanto mais gente boa houver a fazer bons filmes ou livros, melhor.

Mas hoje aqui no Brasil falam muito bem do senhor, não?Agora sou um chuchu, o que é também uma situação incómoda. Quando começa a haver unanimidade, você se pergunta: o que fiz de errado?

O senhor se pergunta isso?
Me pergunto se todo sucesso não é um [fracasso] adiado. Há muitos artistas e muito poucas obras de arte. Em qualquer bar, em qualquer café há uma série de pintores que não pintam, escritores que não escrevem. É a era da performance.

Não é também por isso que tanta gente vai a Paraty ouvir e ver os escritores?
As pessoas não estão interessadas no que você diz, mas em saber como você é. É uma espécie de stand-up comedy. Se, por acaso, você tem o sentido da fórmula, resulta. Se tem dificuldade de expressão verbal, não resulta. É tudo uma floresta de enganos. Hoje, se você só escreve, você não é especialmente interessante. É preciso desmistificar os artistas, que são pessoas comuns, que só existem entre os outros homens e mulheres.

Mas é bom para o mercado editorial que os escritores virem estrelas, não?
As editoras, quase todas, preocupam-se mais com dinheiro que com livros. Me pagam tanto dinheiro para escrever... E eu escrevia mesmo se não me pagassem nada porque é só o que eu sei fazer na vida.. No fundo, quem publica os melhores livros são as pequenas editoras independentes, que não têm tantos compromissos económicos. Mas elas têm uma sobrevivência muito difícil porque tudo nas livrarias é pago. Os grandes grupos querem publicar os livros de hoje. E quando o hoje se torna ontem esses livros morreram... O que quer dizer esse silêncio?

Desculpe. É que me ocorreu uma coisa. O senhor escreve à mão?
Claro, eu gosto de desenhar as letras. Eu nem sequer sei abrir computador, não tenho celular. Sou mesmo burro. Tenho papel e uma mão. É como bordar. Gosto do gesto de escrever, gosto do cheiro do papel... Tá vendo como essa conversa foi uma desilusão para você?

Foi ótima. Devem mandar para o senhor depois.
Mas eu, normalmente, essas coisas vêm e eu nunca olho, coloco na gaveta.

Ah, leia esta.
Está bem. Eu vou ler para me zangar. E antes que você se canse de mim, vamos desligar.


versão on-line de Folha de S. Paulo
24.04.2010

Vozes nas noites de Lobo Antunes


O Estado de S. Paulo
Entrevista em Estadão.com
24 de Abril de 2010


Referência da literatura portuguesa atual, o ficcionista de O Arquipélago da Insónia, que sai agora no País, fala deste e de seu novo livro. E admite: tem cada vez mais medo de escrever.

O doloroso canto de uma mulher torturada povoa o pensamento do escritor português António Lobo Antunes desde a semana passada, quando começou os rascunhos que podem resultar em seu novo livro, que tem o título provisório de Comissão das Lágrimas. "É a voz de Elvira, conhecida como Virinha, que foi presa em Angola em 1977, quando o país, recém-independente de Portugal, enfrentava problemas internos", comenta ele.

Comandante do batalhão feminino do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, grupo guerrilheiro que assumiu o poder), Elvira foi uma das 80 mil pessoas mortas sob suspeita de confrontar o governo de Agostinho Neto, "cifra superior à dos assassinados durante todo o período ditatorial de Augusto Pinochet no Chile", acrescenta Lobo Antunes falando ao Estado, por telefone, de seu escritório em Lisboa.

O canto de Elvira se fez ouvir nas palavras do ficcionista quando o tema da conversa sinalizava outra voz - a de um autista, personagem central de O Arquipélago da Insónia, romance de 2008 de Lobo Antunes que está sendo publicado agora no Brasil (Alfaguara; 560 págs.). E tomou conta dos primeiros minutos da entrevista. Acompanhe.

Como Elvira, a Virinha, que comandou o batalhão feminino do MPLA, foi torturada e morta?
Seus pulsos foram amarrados com arame e os tornozelos atados nas costas. Levantada a uma altura de dois metros, ela era repentinamente solta, seu corpo tombando no chão. Mas, mesmo torturada, Elvira não parou de cantar, só quando morreu.

E foi essa Comissão das Lágrimas, uma espécie de tribunal que não julgava, apenas determinava a forma da pena, que decidiu o futuro de Elvira?
Sim. É um nome espantoso, carregado de poesia para determinar algo tão cruel. Isso me faz lembrar o povo da Romênia que, antes da queda do comunismo em 1989, perguntava se haveria vida antes da morte.

Como médico psiquiatra, você conheceu Angola durante a guerra colonial, entre 1971 e 1973. Foi durante o período anterior à independência, portanto, você precisou fazer muitas pesquisas?
Não fiz quase nenhuma, caso contrário seria esmagado pela documentação. Nesse caso, o melhor seria fazer um livro-reportagem. Prefiro confiar em minha sensibilidade. Mas nem sei ainda se terei um livro, pois vivo agora o momento mais terrível, aquele das falsas partidas: um caminho aponta, mas não é esse. Surge outro, também não é. Portanto, é um trabalho para, no mínimo, dois anos, que pode resultar em nada.

São tais inspirações que dão a largada em suas obras. Sobre O Arquipélago da Insónia, por exemplo, lançado agora pela Alfaguara, você conta que primeiro ouviu a voz do autista, um dos personagens principais.
Eu devo ter dito isso mesmo... É curioso mas me recordo mais dos problemas que enfrentei que propriamente da narrativa. Naquela época, em 2008, descobri que estava com câncer no intestino. Foi terrível, não sabia se ia viver ou morrer. Foi difícil retomar dois meses depois sem escrever, pois não tinha forças. Voltei lentamente, escrevendo uma hora e ficando cansado. Ao mesmo tempo, ganhei o Prêmio Camões, o Juan Rulfo; minha vida se tornou um inferno. Finalmente, quando estava terminando o livro, descobri que havia me curado.

O discurso do autista permite que você exercite a linguagem fragmentada para narrar a história de três gerações de uma família rural portuguesa, desde sua ascensão até a sua queda total. Como funciona o trabalho de burilar a palavra?
Eu sei que ninguém escreve como eu. Mas isso não me traz alegria alguma. Escrevo com dificuldade, mas me sinto à vontade com o assunto. Fico espantado quando algum leitor confessa ter certa dificuldade no entendimento - a escrita sempre foi muito clara para mim.

Em sua opinião, o que explicaria essa dificuldade do leitor?
Não sei, talvez a maioria espere por uma intriga bem definida, o que não acontece em meus livros. Não se pode piscar ao leitor, tentar seduzi-lo, pois aí se compreende que existe essa intenção. O livro deveria ser publicado sem o nome do autor, aí acabariam os problemas de inveja. Deveria, sim, levar o nome do leitor, porque o livro também é a nossa circunstância. Veja, a única obra que me fez chorar foi Love Story, que é uma porcaria. Mas eu estava isolado na África, minha mulher grávida em Lisboa. Assim, quando lemos, estamos a projetar nossos fantasmas, sofrimentos, medos. O que vai ficar é a obra e não seu autor.

Depois de O Arquipélago da Insónia, você publicou Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? e há cinco meses finalizou Sôbolos Rios Que Vão, que deve ser lançado em Portugal em outubro. Escrever não parece ser tão sacrificante para você.
Tenho cada vez mais medo de escrever, de decepcionar as pessoas que confiam em mim. Não tenho direito de desiludi-las. É um recomeçar em cada livro. O leitor não pode perceber isso, tem de acreditar que é muito fácil escrever. Mas espontaneidade dá muito trabalho. Outro dia, observei fotocópias de manuscritos de Chekhov, Tolstoi e não havia uma linha que não estivesse rasurada. Mas, ao leitor, parece que foi como água surgindo de uma fonte.

A novidade, portanto, tem de surgir a cada novo abrir de página?
Para mim, sim. Não gosto de repetir fórmulas. Só começo um novo livro quando estou seguro de que não conseguirei escrevê-lo. É um desafio, não posso me deixar vencer pelas palavras.

E, nesse caminho, a trama é secundária?
A intriga não me interessa, só serve para apanhar o leitor. O livro é simbólico, quero expressar os sentimentos mais profundos, aqueles, por definição, intraduzíveis em palavras. Para mim, essa é a única forma de se escrever um livro. A história não tem importância nenhuma, serve apenas como um anzol para fisgar o leitor. Veja O Velho e o Mar, de Hemingway: um homem vai pescar e volta à praia sem nada. Ou Madame Bovary: mulher que se aborrece com o marido arruma um amante e termina se matando. O problema é como vestir isso para dar algo novo ao leitor.


citado de Estadão.com
versão on-line de O Estado de S. Paulo
24.04.2010

5 de abril de 2010

Taize Odelli: opinião sobre Os Cus de Judas

Frases longas, parágrafos sem fim e nenhuma ordem cronológica de apresentação dos fatos. Essa é a característica inconfundível de António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa. E não há forma melhor de conferir sua genialidade narrativa como em uma de suas primeiras publicações, Os Cus de Judas.

Formado em medicina, com especialização em psiquiatria, Lobo Antunes atuou como médico na guerra de independência da Angola. E foi essa experiência que marcou profundamente seus três primeiros romances, entre eles Os Cus de Judas. Falo isso para ilustrar o enredo da obra, pois essa vivência da guerra é que gerou uma das grandes obras da língua portuguesa.

Publicado no Brasil pela Alfaguara, Os Cus de Judas conta os dias de um médico do exército português na guerra angolana, alternando o relato das tragédias do país com lembranças da juventude do narrador. Uma leitura densa, carregada de emoção e reflexões sobre a guerra e a própria vida. O protagonista/narrador passa anos em Angola, um “cu de Judas” sem lei, onde todos parecem animais, onde a morte pode aparecer a qualquer momento.

Com referências a livros, músicas e filmes, o protagonista ilustra suas vivências, procurando passar ao leitor da melhor forma possível os seus sentimentos em relação a cada momento de sua vida. A angústia de estar longe da mulher grávida de sua primeira filha, a saudade da família, que de certa forma o empurrou para a guerra, os horrores dos seus pacientes mutilados. E a constatação de que a única coisa realmente útil que podia fazer por eles era trazer a morte. Pois quem gostaria de se manter vivo para ver mais das atrocidades, da miséria dos cus de Judas para onde eram enviados?

António Lobo Antunes fala de como a guerra se crava na pessoa, tornando-a difícil de esquecer, de arrancar da pele. Os dias de serviço em Angola afetam diretamente a personagem, lhe tira um pedaço da vontade de se manter vivo. Na volta para casa, ele se sente tão perdido que apenas a guerra lhe parece familiar, aconchegante. Contudo, um conforto longe de ser apreciado. O protagonista se sente tão desesperado a essa vivência desumana que se segura em qualquer coisa, por mais insignificante que ela seja, para se manter em pé. Principalmente quando percebe que parte da negligência do país vem de seus próprios companheiros.

A guerra não tem sentido, nem propósito, além de matar e destroçar. Como sair bem de um conflito que não leva a nada, depois de ver milhares de pessoas perecerem por conta dele? São pensamentos assim que não saem da mente do narrador, que muda sua ideologia e abrem nele feridas que nunca vão se cicatrizar. O que resta a ele é aprender a conviver com ela, com as lembranças dela, para se manter são.

Lobo Antunes construiu uma narrativa de uma intensidade tão real que torna impossível de largar o livro, por mais complicado que ele pareça ser. Logo o leitor se habitua ao seu estilo, e entra nos horrores do combate que ele vivenciou. Terminando a leitura com uma melancolia profunda por, como o protagonista, não poder fazer nada para diminuir o sofrimento daqueles que na guerra vivem. Uma leitura recomendada, de uma crítica relevante sobre atos irracionais que não trazem benefício algum.


por Taize Odelli
citado de Ambrosia
21.03.2010

4 de abril de 2010

Daniel Osiecki: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

O tempo e a dissolução do ser

Desde o surgimento de Ulisses (1922), de James Joyce, vários escritores pelo mundo deixaram de se preocupar com a história que está sendo contada e passaram a se preocupar com a forma que a narrativa se desenvolve. Alguns desses nomes são Virginia Woolf, Hemingway, Raul Brandão, Vergílio Ferreira, etc. Em muitas obras destes autores há a preocupação clara em como contar os fatos, e não simplesmente contar esses fatos de forma linear, estanque, com início, meio e fim.

Na moderna literatura portuguesa o principal nome talvez seja António Lobo Antunes, que não goza da mesma fama de seu conterrâneo José Saramago, mas não deve absolutamente nada em termos de qualidade. Lobo Antunes aprimorou muito sua escrita desde seu primeiro romance, Memória de Elefante (1979) até seu mais recente trabalho publicado, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009).

Segundo o próprio autor em entrevista a Mário Crespo [...], Lobo Antunes afirma não ser mais o mesmo escritor do início de sua carreira. Basta ler seus livros publicados a partir da metade dos anos 90, como O Manual dos Inquisidores (1996), O Esplendor de Portugal(1997), Exortação aos Crocodilos (1999) para notar a grande diferença entre essas obras mais recentes e as primeiras, publicadas a partir do início dos anos 80.

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? segue as mesmas características das suas obras mais recentes, como a ausência de vírgulas, pontos de interrogação, como se a narrativa simulasse o próprio pensamento, o fluxo de consciência. O romance polifônico de Lobo Antunes narra a trajetória da família Marques, família abastada que conforme o tempo vai passando vai perdendo seus bens materiais e seus laços íntimos.

O romance é narrado por cada um dos irmãos, Francisco, homem amargurado que deseja tirar todos os bens que restam da família quando a matriarca morrer; Beatriz, mulher também amargurada, com um filho e dois casamentos fracassados; João, homossexual que se encontra à noite com garotos de programa; Ana, jovem que se envolveu com drogas e Rita, morta muito cedo por decorrência de um câncer. A mãe, em seu leito de morte também narra seus devaneios, delírios, lembranças e também o que acontece no presente. O pai também narra suas peripécias com o jogo, que foi um dos motivos principais da falência financeira da família, e também há o relato de Mercília, a empregada que descobre-se no final que também fazia parte da família, é uma bastarda que a vida inteira foi criada como empregada para manter as aparências.

Este longo e complexo relato de múltiplas vozes trata basicamente da dissolução financeira e moral de uma família portuguesa, mas poderia ser ambientada em qualquer lugar do mundo. É uma situação universal que por meio de lembranças e devaneios a quinta da família ou sua casa em Lisboa formam um microcosmo da sociedade moderna.

Durante todas as narrativas do romance há uma pergunta que faz uma espécie de costura entre as vozes da família, que é o próprio título, que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? Essa pergunta é um eco de um tempo distante que aparentemente parece um delírio, um sonho, e é esse tom onírico que é mantido até [a]o final do romance.

O significado do título, a uma primeira leitura, remete à infância de Beatriz, ao tempo perdido, mas conforme as narrativas vão se sucedendo os outros membros vão repetindo essa pergunta também com esse significado, de encontrar algo que não existe mais, pois os cavalos do título são os cavalos que a família tinha na quinta (fazenda), que agora é um lugar sem vida e decadente, com alguns empregados que ainda sobrevivem ao tempo, e o mar significa a imensidão, o ir e vir sem fim que é refletido na própria narrativa fragmentada, simbolizando a vida. Portanto, a chave para a compreensão do título em momento algum é entregue ao leitor, ele tem que buscar seu significado em cada voz, em cada capítulo, em cada lembrança desses personagens obscuros.

Como já dito anteriormente, as vozes que aparecem nas narrativas são dos membros da família e também da velha empregada da família, Mercília. Mas no penúltimo capítulo aparece mais um narrador, que não é nomeado, mas desde muito cedo aparece na narrativa dos outros, trata-se do irmão bastardo de Francisco, Beatriz, Ana, João e Rita, que o pai teve com uma criada da quinta, chamada Benedita. Esse último narrador aparece com a intenção de dar a palavra final, de entregar toda a hipocrisia e imoralidade da família escondida durante tantos anos, e é o que ele faz. Mesmo sem querer, sem se interessar por algum bem material, ele vem como se fosse um messias e dá o tiro de misericórdia e assim, desta maneira, direta e arrebatadora, entrega mais um segredo sujo, mais um tabu da família.

Com esse final, a família deixa de existir, tomada por sombras. E o capítulo derradeiro, o que encerra o romance, que é narrado por Beatriz, fecha de uma vez por todas um ciclo de exploração, corrupção, carência moral e diversas mazelas sociais representadas pela família Marques. É com esse tom de amargura, dissolução e solidão que Lobo Antunes compõe uma de suas obras mais relevantes de sua carreira.


Daniel Osiecki
Távola Redonda
03.04.2010

31 de março de 2010

R.B. NorTør: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?...

...Ou uma viagem às memórias de uma família. Ou uma viagem às memórias dos elementos de uma família. Ou uma viagem às memórias de cada um nós, no dia em que o nosso mundo se desfaz, uma viagem às profundezas da memória individual, não só de cada um, como de cada família, realizada através dos desabafos e das recordações de uma família de proprietários do Ribatejo.

É uma família atormentada pelas suas memórias, aquela que António Lobo Antunes nos traz nesta obra. Um pai morto e uma mãe a morrer, a empregada/ama bastarda e os filhos desavindos e desviados, quais alegorias dos males modernos que fervilham dentro de nós e nos fecham ao mundo dos outros. Somos levados por Lobo Antunes aos seus pensamentos enquanto esperam pela morte da mãe (não que a mãe não partilhe também as suas angústias do leito da morte) todos deambulando pelo solar dos Marques, percorrendo os seus locais e as suas janelas que engrossam, locais onde as suas memórias se ligam com o presente e nos desfilam as suas virtudes defeituosas e os seus traumas.

Em tempos sombrios, nos quais se vive sob o signo da (o)pressão e a palavra liberdade serve de máscara para limitação, a obra de Lobo Antunes não é um farol, mas não é mais uma pesada âncora para nos deprimir. Fazendo uso da sua experiência médica, somos conduzidos a uma consulta, o relato é isso mesmo, um relato, não um texto de reflexão, mas donde se pode retirar muita matéria para tal. Assume-se o texto como um elaborado apelo a que lidemos com os nosso fantasmas, um encorajamento a que deixemos para trás o peso morto de memórias dolorosas, que encaremos os defeitos de frente em vez de os ignorar e esconder em nome de uma qualquer aparência deturpada e de um status obscuro.

A escrita é a do estilo elaborado e muito próprio do autor, revelando-se de alguma dificuldade para quem espera uma narração toda ela linear e monótona. A necessidade constante de passar para o papel uma linha de raciocínio, com todas as que se cruzam nele, qual neurónio com as suas ramificações, faz com que a escrita se enriqueça, com frases de vinte páginas, como o individuo que sozinho no quarto, reflecte sobre si. O complexar dos raciocínios não aumenta no entanto a complexidade da escrita e após alguma habituação o leitor entrará facilmente no ritmo de leitura, apesar de eu recomendar que os primeiros capítulos sejam lidos de uma assentada.


por R.B. NorTør
em O Bug Cultural
31.03.2010

19 de março de 2010

Alfredo Monte: opinião sobre Auto dos Danados


Lirismo e realismo ao modo Lobo Antunes

edição brasileira Best Seller, anos noventa
MOTE

Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer sentido.

Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e pobre.

Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se levar (via experimentação linguística ou via introspecção extrema) para um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a realidade”.


O CASO LOBO ANTUNES

O português António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno (1980), fornece um belo exemplo do dito acima. Seu texto é um magma de lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção, um grande talento sem dúvida:

A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.

–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira. -Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de matar do que o bicho das vinhas.

E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos, idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador, acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços
”. (1)

Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (FluxofloemaQadósTu não te moves de ti).


CASA PORTUGUESA HORROR SHOW

Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica, esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo (no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.

Em Auto dos Danados, cujos acontecimentos principais transcorrem por volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência, pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de Roberto Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…

Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca agoniza, somos informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a Portugal para ajustar contas com o tio-amante.

Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com certeza.


(1) a citação de CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas Publicações Dom Quixote, 1983

por Alfredo Monte
01.11.1994

14 de março de 2010

Encontro com leitores em Coimbra



com Ana Paula Arnaut

«É um dos escritores portugueses mais aclamados no país e no estrangeiro e é, para muitos, um justo candidato ao Nobel da Literatura. António Lobo Antunes esteve na livraria Almedina Estádio Cidade de Coimbra para partilhar com os leitores a intimidade que se esconde nos e para além dos seus livros.»

Booktrailer: O Arquipélago da Insónia



O segundo de dois booktrailers que a Dom Quixote fez de livros de ALA. Porque deixaram de o fazer?

13 de março de 2010

11 de março de 2010

Maria Celeste Pereira: comentário sobre a leitura de Sôbolos Rios Que Vão


1. dia 06 de Março

Li este livro há já uns meses largos. Mais precisamente, acabei de o ler no dia 21 de Outubro. A verdade é que tenho a data muito presente por tê-lo lido enquanto convalescia de uma inconsequente intervenção cirúrgica à qual fui submetida no dia 19. Claro que o li muito rapidamente. Na verdade não estava propriamente em condições de me ocupar com muitas outras coisas mas, ainda que não fosse esse o caso, teria sido um livro de leitura rápida pela sua envolvência.

E agora poder-se-á perguntar: se já o li há tanto tempo porque razão só agora aqui estou a deixar a minha opinião?

Pois isso deve-se à conjugação de dois factores.

Em primeiro lugar iniciei a leitura do livro no dia exacto em que apareceu nas bancas. Estava a passar um curto fim-de-semana em Cascais e vi-o na Bulhosa no dia 18 de Outubro. Calhou muito bem pois estava mesmo a acabar de reler o “Conhecimento do Inferno”. Era acabar um e começar logo o outro, boa!

Um grande erro. Nunca o havia feito e não aconselho ninguém a fazê-lo. É necessário algum tempo para digerir um livro de Lobo Antunes. Então depois, quando temos tudo bem claro na nossa cabeça, ou pelo menos o mais claro possível, aí sim poder-nos-emos abalançar para outro do mesmo autor. O melhor mesmo é ir lendo outros autores de premeio, ainda que não seja essa a vontade e depois, então, quando tudo estiver bem arrumado, pegar no próximo.

Como já disse, não o fiz. Acabei um e comecei de imediato o outro o que acabou por prejudicar bastante o partido que tirei da leitura do mais recente.
A expectativa que havia criado em torno dele era também enorme. Estava à espera de algo muito muito bom que francamente se distanciasse de tudo quanto até aqui havia lido de ALA, embora de ALA…

O que encontrei foi um livro abertamente autobiográfico (o que havia acabado de ler também o era embora focando outros momentos da vida do autor), em que tudo se passa num espaço temporal relativamente curto (no anterior também, mais curto, é certo) e o mesmo tipo de escrita fragmentada que havia encontrado, por exemplo no “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”, ou no “Arquipélago da Insónia”, ou em “O meu nome é legião” sem que, à partida, me parecesse trazer nada de novo a não ser o facto de ser mais fragmentada ainda.

Fiquei portanto um pouco desiludida. Não posso dizer que não tenha gostado, é certo. Mas também não posso dizer que me tenha impressionado da forma que esperava que o fizesse. Assim, fiquei sem vontade de deixar aqui, como é meu hábito, a minha impressão pois, para dizer a verdade, nem sabia muito bem que impressão me havia, de facto, deixado.

Deixei correr o tempo e bastantes livros pelo meio até que decidi repetir a leitura do citado livro.

Será então alvo do meu próximo “comentário”.

***
2. dia 10 de Março


E pronto, lá voltei a ler o livro que me tinha deixado uma impressão pouco definida. E, na verdade, eu gosto pouco de indefinições.

Tal como previa, a percepção que tive agora dele foi completamente diferente daquela que adveio da primeira leitura. Obviamente pelo facto de ser uma segunda leitura e, portanto, conhecedora já das linhas mestras da narrativa, pude-me debruçar com mais tempo e vontade sobre as imensas subtilezas que este livro contém.

Como já nos habituou, apresenta-nos uma escrita fragmentada. Nada em nenhum momento desta narrativa é linear. Vai arquitectando planos diversos, competindo ao leitor organizá-los, encaixá-los e criar uma narrativa coesa.

Depois desta segunda leitura, a opinião com que fiquei foi que terá sido este o livro em que esta fragmentação, este entrecortar do discurso se encontra no seu ponto mais perfeito. Mais fácil? Não. Mas mais perfeito.

As diversas referências de espaços e tempos diferentes surgem aqui desde o início, desde que o Sr. Antunes entra no hospital, ao mesmo tempo que o Antoninho se encolhe de medo da D. Lucrécia na sua cadeira de rodas, na vila? na enfermaria do hospital?

E, enquanto ele, Sr. Antunes se encontra no hospital e é sujeito a uma complicada intervenção cirúrgica, as suas memórias vão fluindo como um rio, recordando os seus avós (Antoninho), os seus pais, o Virgílio, a carroça, o burro, o ditado “o menino me deu vida…” a vida na vila, o ouriço que se dilatava e continuava consigo emboscado nas vísceras, o pássaro do seu medo que continuava em círculos, a sua nudez que o humilha, a sua impotência perante a doença, a veia que não tem (Sr. Antunes), e vão prosseguindo num entrelaçar contínuo de personagens, locais e tempos por todo o livro até ao final.

Este, simbólico, no meu ponto de vista, uma vez que uma das últimas alusões à sua infância é o seu próprio nascimento. O seu renascimento, quem sabe…

Contudo, voltando um pouquinho atrás na minha opinião, não é a coesão da narrativa o mais importante neste livro (assim como em outros de ALA) mas sim a beleza da sua escrita. É realmente uma escrita que revela uma qualidade, uma mestria no jogo das palavras que nos subjuga. Alia a isso um pendor incrivelmente poético. Há frases no livro que são, só por si, um poema: …”e ele sem descer com os rios, as folhinhas desciam, os ovos de gafanhoto desciam, um ramo de salgueiro descia girando, nós não descíamos pai,”…

É, e julgo não haver dúvidas para ninguém, um livro inteiramente autobiográfico. Quer no que se refere ao episódio da doença quer aos outros da sua infância, e não só. Aliás, até os nomes o sugerem. Já outros o foram e nem por isso ficaram diminuídos na sua qualidade.

Enfim, alguém me disse há uns tempos quando conversávamos acerca do livro que o considerava “o livro perfeito”. Eu cá não sei muito bem o que é um livro perfeito, nunca encontrei nenhum. Encontrei livros que me marcaram profundamente pelas mais diversas razões mas (exigentinha!), estou sempre à espera de outros que me marquem ainda mais.

Portanto, perfeito… não sei, acho que não.

Bom, a ler, sem a menor dúvida. E, já agora, esqueçam a expectativa, só estorva…


por Maria Celeste Pereira
06/10.03.2011

28 de fevereiro de 2010

Vinicius Jatobá: a propósito do lançamento em simultâneo no Brasil (Junho 2009) dos livros Explicação dos Pássaros e O Meu Nome É Legião.


Certa vez, em uma entrevista, Nabokov achou curiosa a consideração negativa de uma crítica francesa de que todos seus livros eram semelhantes. O que poderia ser taxativo de falta de versatilidade de sua paleta cromática se revelou óbvio para Nabokov. Com humor, respondeu: "A originalidade só tem a si própria para copiar".

Essa provocação, divertidíssima, é falsa em princípio, uma vez que a originalidade é uma impressão superestimada - livros nascem de livros. No entanto, trocando originalidade por obsessão, chega-se mais próximo do motor matricial do grande escritor e da sua evidente "pobreza" - ele se debruça sempre sobre o mesmo sentimento, e sua paleta não possui mais que três ou quatro cores. Verticaliza um mesmo estado de espírito, e dele retira, ainda que sua bibliografia seja vasta, o "mesmo" livro até que a morte o separe do papel.

Esse é o caso de António Lobo Antunes. O lançamento simultâneo de Explicação dos Pássaros e O Meu Nome é Legião, separados em suas datas originais de publicação por mais de duas décadas, são o termômetro ideal para diagnosticar esse sintoma: o tema de Antunes é sempre o de uma personagem doente tentando articular narrativamente um mundo desfeito pela violência. A doença pode ser concreta ou espiritual, tanto quanto o agente demolidor.

O que interessa a Lobo Antunes é esse fosso aberto entre a personagem deslocada de sua normalidade por algum acontecimento drástico e o mundo que se transforma radicalmente quando visto desse outro lugar traumatizado. Percorrer distâncias; limar a inadequação; encontrar o rosto perdido no espelho; tornar em momentos, espaços cerrados. A massa verbal de Lobo Antunes se erige sobre gestos simples expandidos em seus sentidos pela doença e violência.

Publicado em 1981, Explicação dos Pássaros é um rompimento com a trilogia sobre a guerra colonial em Angola com que se sagrou no mapa literário português. Não há mais as lembranças fantasmais dos cadáveres, a geografia sensual de Luanda crivada de violência, a incapacidade do ex-combatente em retornar ao mundo cotidiano anterior. Explicação avança sobre as agruras da vida conjugal. Rui, o narrador, amarga uma recente separação dolorosa e tenta reconstruir sua vida ao lado de uma nova mulher com quem se casou por um desejo de preencher sua solidão.


Ao contrário da imensa maioria dos romances de Antunes, essa é uma narrativa de personagens em movimento: Rui monologa enquanto avança com seu carro por cidades costeiras de Portugal. Está sensibilizado com a doença da mãe e evoca sua infância e sua vida enquanto reúne forças para pedir divórcio da esposa que não ama. O livro é um grande ritual de adeuses, e o desconforto crescente de Rui aponta apenas para um final possível. E trágico.

Como em outros livros de Antunes, a trama é pífia. As coisas não acontecem; o que acontece é o pensamento das personagens. Possuem uma fluência delirante, e há uma inegável vocação poética em Antunes. Em certos momentos, no entanto, as imagens aberrantes não ajudam muito a visualizar a narrativa. É como se a profusão de metáforas nublasse o enredo.

Ainda seriam necessários alguns romances para Antunes encontrar uma forma narrativa que adéqüe sua sensibilidade poética a uma plasticidade necessária para sua íntegra legibilidade. Antes de A Ordem Natural das Coisas (1992), muitos de seus romances flertavam com o hermetismo. É de se perguntar: de quê adianta um universo ficcional denso se o leitor não encontra nele um espaço mínimo para contemplá-lo?


O Meu Nome é Legião, nesse sentido, é um animal diferente. Destilado e preciso, proporciona uma intensa experiência de leitura. É o Capitães de Areia do século XXI. Como o grande romance de Jorge Amado, mergulha no mundo da marginalidade de um grupo de delinqüentes juvenis. As dessemelhanças surgem no enfoque. Amado faz quadros gerais, e suas personagens são maiores que o mundo: redondas, inteiras. Lobo Antunes é todo fragmento: retalhos de vozes, lapsos de imagens, frases interrompidas. E seus miúdos não são heróis. Como uma praga, eles espraiam terror e violência enquanto deambulam pelas ruas de Lisboa.

Organizando a narrativa está a voz de Gusmão, policial marcado por um terrível sentimento de solidão, doente de tédio, e que é designado para investigar os delitos. O romance abre com o relatório de Gusmão, e ao longo de sua massa verbal o retoma, como se ele fosse o motivo sobre o qual a litania de vozes, cada uma marcadamente distinta, irá se amalgamar uma e outra vez.

Legião é um romance invulgar: Antunes demonstra as deformações que os fossos sociais infligem no pensamento desses seres excluídos. Longe está a utopia de Amado, sua fé nos homens. Se Capitães é a elegia aos jovens que não tiveram condições sociais de se tornarem adultos nobres, Legião é uma ópera punk e violenta. Delírio de vozes; violência gratuita; masoquismo e humilhação; racismo e xenofobia; lei e punição. O problema não tem solução visível e a legião apenas cresce a cada dia. E tanto o leitor como Rui, cúmplices nesse mergulho, experimentam um mundo sem controle do qual não arrancam soluções.


Vinicius Jatobá
artigo citado de Terra Magazine
02.07.2009

9 de fevereiro de 2010

Matilde Ferreira Neves: Comentário a O Esplendor de Portugal


«(...) porque não entendemos Angola mesmo tendo nascido em Angola, não a terra, a variedade de cheiros, a alternância de cacimbo e de chuva, de submissão e fúria, de preguiça e violência, Angola, este presente sem passado e sem futuro em que o passado e o futuro se incluem desprovidos de qualquer relação com as horas, os dias, os anos, a medida aleatória dos calendários, quando o único calendário é a chegada e a partida dos gansos selvagens e a permanência das águias crucificadas nas nuvens». -E é nesta incompreensão martirizante e permanente que se encontra mergulhado O Esplendor de Portugal, última obra de António Lobo Antunes, cujo conteúdo nos lembra a inglória dos nossos «egrégios avós» no que toca ao colonialismo português, nódoa que de alguma forma denigre a história da nação e contrasta com a abertura do livro que é a transcrição do hino nacional.

A acção desenrola-se entre a Ajuda, a Damaia e o Estoril, tendo como cenário de fundo, Angola, terra africana que é comum aos protagonistas da história: Isilda, o seu marido e os seus três filhos, Carlos o mais velho, bastardo e mestiço; Rui, epiléptico; e por fim, Clarisse, sedutora e prostituída. Todos marcados por uma estranha solidão que os isola uns dos outros, os deixa carentes e revoltados, todos com uma cicatriz que ainda não sarou: Angola.

A 24 de Dezembro de 1994, começa e termina esta história, cujos saltos temporais são feitos em jeito de recordações daquilo que foi o Império português em África, descrito com palavras de violência, sangue, que nos abrem caminho para uma realidade já em si violenta, sangrenta e chocante. -«O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos e estes os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar».

O que nos surge no horizonte deste livro é uma África desfeita por uma guerra sem sentido, uma África abandonada a si mesma, em que tal como é sugerido na obra, já nem Deus pode valer.

No último capítulo o fim inevitável chega numa calmaria assassina, quando Isilda é executada pelas tropas do Governo, em Luanda, denominada no livro como «terra dos defuntos». Execução que finca a irracionalidade e a impossibilidade de viver ou sobreviver (?) em terras da morte. É o fim mais que bem vindo («Finis Laus Deo») de um caminho, que não se extingue realmente porque a memória existe e dói nas páginas deste romance. No fundo, trata-se de exorcizar através da escrita e talvez mesmo através da leitura.


por Matilde Ferreira Neves
citado daqui
[não datado]

7 de fevereiro de 2010

Taize Odelli: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Um homem relativamente jovem está em crise. Pretende se separar da segunda esposa, sua mãe está internada com poucos dias de vida, e o resto de sua família o despreza. Ele escolheu caminhos opostos aos da família, e nada do que era esperado dele se concretizou. Em Explicação dos Pássaros Rui S. compartilha seus últimos dias de vida, carregados de lembranças e previsões para seu futuro. O quarto romance do português António Lobo Antunes, em nova edição pelo selo Alfaguara, da Objetiva, narra de forma densa uma história onde o destino não pode ser alterado.

Narrador e personagem se confundem. Em longas frases, a palavra passa de um para outro constantemente, onde os pensamentos de Rui são o material principal da narrativa. Os parágrafos são igualmente longos, e não há linha que separe o que é passado, presente ou futuro. O leitor deve constatar isso sozinho, auxiliado apenas por poucas palavras que possam situá-lo. É uma leitura truncada, difícil para aqueles acostumados com aspas, travessões e referências. Entretanto, o livro não foge à regra da maioria: com o tempo se acostuma, e logo a leitura flui normalmente.

Além da questão estética da narrativa, a gramática também atrapalhou no início. Aqueles que não são familiarizados com expressões e termos portugueses podem se perder facilmente entre as linhas. Ler na frente do computador pode se mostrar eficiente nessa hora. Mas é um desafio que vale a pena.

Rui S. vê a própria vida como um circo, cujo espetáculo é feito pelas pessoas à sua volta, e ele, protagonista, a atração final. Através dessa imagem criada pela personagem é possível entender a real frustração pela qual passa. Ele cria falas para os outros, afirmando o quão fracassado ele é, constatação do próprio Rui. Suas emoções transgridem a linha do tempo, e o que lhe passa atualmente nos é representado através de suas lembranças. Esse estilo dá à narrativa um ritmo frenético de mudança de tempo.

Explicação dos Pássaros é um livro que exige muito do leitor. Ele é um desafio, que ao final deixa uma sensação de triunfo enquanto Rui S. definha. Obra prima de António Lobo Antunes, que merece toda a atenção que ela necessita.


Taize Odelli
em diHITT
22.12.2009

30 de janeiro de 2010

José Alexandre Ramos: Os Cus de Judas - a primeira angústia, 2º capítulo


É generalizada a ideia de que Os Cus de Judas (de 1979, publicado uns meses depois deMemória de Elefante) é um livro sobre a guerra colonial em Angola. Está correcto se considerarmos que é o principal assunto trazido à catarse feita na trilogia dos três primeiros livros publicados (que eu designo pessoalmente como os três capítulos da primeira angústia de António Lobo Antunes), mas não é apenas e tão só sobre a guerra. Trata-se do capítulo seguinte de Memória de Elefante em jeito de prequela, uma vez o leitor vai aprofundar o conhecimento sobre factos da vida da personagem (que podemos considerar a mesma) que no livro anterior são ainda ligeiramente abordados: a sua experiência e terrores da guerra, o deslocamento de ter saído de um país (Angola em conflito) que não era o seu e regressado a uma pátria (concretamente a Lisboa e aos seus habitantes) que já não reconhece e, consequentemente, a sua solidão. Aliás, ambos os livros, por abordarem temas tão intrínsecos à personagem que têm em comum, poderiam ser um só livro.

Porém, ao contrário do que aconteceu em Memória de Elefante, cujo discurso surge quase todo na terceira pessoa, Os Cus de Judas é um longo monólogo de uma só personagem/narrador, ligeiramente modulado pelas reacções do seu interlocutor mudo – uma mulher que encontra num bar e com quem vai passar a noite. Menos rendilhado de metáforas, é ainda um texto muito mais maduro que o do livro anterior, em que o discurso na primeira pessoa permite partilhar com o leitor de forma muito mais directa toda a efusão de sentimentos que sai do depoimento da personagem: a procura de afecto, a frustração de um amor perdido, o desespero e os fantasmas da memória, a dificuldade em readaptar-se no seu próprio país, e a esperança de um alento que ansiosamente procura, para recomeçar a vida perdida entre os três anos passados na guerra e alguns após o seu regresso.

Para além da tragédia pessoal da personagem que monologa com uma mulher, é um dos primeiros gritos de atenção para aquilo que parecia ter passado despercebido no seio da sociedade portuguesa: que homens partiram para uma guerra que não reconheciam como sua, que regressaram com mazelas, a culpa, a vergonha e os remorsos dos seus actos em nome de um conceito de pátria duvidoso. Tudo parecia esquecido ou todos queriam esquecer essa nódoa. Assim, Os Cus de Judas acaba por ser também uma crítica social e política não só a quem urdiu e alimentou o conflito mas também aos novos donos do poder e a uma sociedade indiferente a tudo isso, de um tempo perturbado com o fim dessa guerra e os distúrbios de uma revolução recente.

Sem outras palavras que possa ou saiba acrescentar para dizer mais sobre este livro, vou citar um longo trecho do penúltimo capítulo (tem 23, ordenados de A a Z) que destaco por considerar resumir a sua essência:

«Pode apagar a luz: já não preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de ter receio do escuro, uma claridade ambarina reveste os objectos da serenidade cúmplice das manhãs de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com o seu sol infantil, os materiais necessários para construir algo de inefavelmente agradável que eu não lograria jamais elucidar. A Isabel que substituía aos meus sonhos paralisados o seu pragmatismo docemente implacável, consertavas as fissuras da minha existência com o rápido arame de duas ou três decisões de que a simplicidade me assombrava, e depois, de súbito menina, se deitava sobre mim, me segurava a cara com as mãos, e me pedia Deixa-me beijar-te, numa vozinha minúscula cuja súplica me transtornava. Acho que a perdi como perco tudo, que a sacudi de mim com o meu humor variável, as minhas cóleras inesperadas, as minhas exigências absurdas, esta angustiada sede de ternura que repele o afecto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de uma hostilidade sem razão. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeada de ralos e figueiras, do céu morno da noite tingido pelo halo longínquo do mar, da cal das paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada paixão das minhas carícias que pareciam deter-se, irresolutas, a centímetros do rosto dela, e se dissolviam por fim num afago indefinido. Penso na Isabel, e uma espécie de maré, tensa de amor, indomada e vigorosa, sobe-me das pernas para o sexo, endurece-me os testículos em crispações de desejo, alarga-se-me no ventre como se abrisse grandes asas calmas nas minhas vísceras em batalha. Percorremos de novo os antiquários poeirentos de Sintra à procura de móveis de talha, entramos no aquário azul da boîte onde pela primeira vez toquei, maravilhado, a sua boca, inventamos um fantástico futuro de filhos morenos numa profusão de berços, e sinto-me feliz, justificado e feliz, ao abraçar o seu corpo na vazante dos lençóis, de que as pregas formam como que ondas a caminho da praia branca da almofada, onde as nossas cabeças, a tua escura, a minha, clara, se juntam numa fusão que contém em si os germens estranhos de um milagre.
Pode apagar a luz: talvez não fique tão sozinho como isso neste quarto enorme, talvez que a Isabel ou você voltem um dia destes a visitar-me, eu ouça a voz ao telefone, a voz miudamente precisa pelos furos de baquelite do telefone, o olá dela e o seu olá a entrarem-me na orelha na oleosidade agradável e morna dos pingos de tirar a cera da minha infância, a vá buscar no emprego, esperando dentro do carro numa impaciência de cigarros, a corrigir o nó da gravata, em bicos de nádegas, no espelho, ela ou você se instale no meu lado no automóvel às escuras, me sorria, se debruce para colocar o cassete da Maria Bethânia no gravador, e me passe ao redor da nuca os firmes cotovelos da ternura. Deixa-me beijar-te. Deixe-me beijá-la enquanto se veste, enquanto aperta o soutien nas costas em gestos cegos e canhotos que lhe tornam as omoplatas salientes como as asas de um frango, enquanto procura os anéis de prata na mesinha de cabeceira com uma ruga de atenção infantil, vertical, na testa, enquanto luta com a escova contra a resistência ondulada do cabelo, o cabelo excessivo que a minha calvície inveja, num ciúme feroz a que não consigo fugir. Todas as manhãs penso quando começarei a fazer a risca na orelha, puxando trabalhosamente uma madeixa esfiada pelo cocuruto nu, e principio a ler sem ironia os anúncios de postiços do jornal, acompanhados pelas fotografias de hirsutos carecas satisfeitos, sorrindo risos peludos de gorilas. Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais, e parece-me às vezes assemelhar-me a uma esquisita caricatura de mim próprio, que as rugas deformam de um arremedo de trejeitos. Deixa-me beijar-te: que criatura vai querer beijar a paródia triste do que fui, o estômago que cresce, as pernas que se afilam, o saco vazio dos testículos cobertos de longas crinas cor de couro? Reflectindo melhor, não apague a luz: quem sabe se esta manhã oculta dentro de si uma noite mais opaca do que todas as noites que até agora atravessei, a que vive no fundo das garrafas de uísque, das camas desfeitas e dos objectos de ausência, uma noite com um cubo de gelo à superfície, três dedos de líquido amarelo por baixo, e um silêncio insuportável no interior vazio, uma noite em que me perco, a tropeçar de parede a parede, tonto de álcool, falando comigo o discurso da solidão grandiosa dos bêbados, para quem o mundo é um reflexo de gigantes contra os quais, inutilmente, se encrespam.
Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como se as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas. De novo escutarei a fermentação da geladeira, a ronronar o seu sono de mamute, os pingos que se escapam do rebordo das torneiras como as lágrimas dos velhos, pesadas de conjuntivite ferrugenta. Hesitarei na camisa, na gravata, no terno, e acabarei por bater a porta da rua como se abandonasse atrás de mim um jazigo intacto onde a morte floresce nas jarras de vidro facetado e nos caules podres dos crisântemos. Bater a porta da rua, percebe, como bati a porta de África de regresso a Lisboa, a porta repugnante da guerra, as putas de Luanda e os fazendeiros do café em torno dos baldes de champanhe, reluzentes como as caixas forradas de lantejoulas dos ilusionistas, fumando cigarros americanos de contrabando na penumbra de um tango. A porta de África, Isabel: um médico homossexual, cujas pestanas se enrolam em nós como os tentáculos de um polvo, acolitado por um cabo trocista, de patilhas, ao qual se deve unir de pensão em pensão num suspirozinho exausto de ventosa, examina-nos o mijo, a merda, o sangue, para que não infectemos o País do nosso pânico da morte, da lembrança do rapaz louro coberto por um pano no meu quarto, dos eucaliptos de Ninda e do enfermeiro sentado na picada de intestinos nas mãos, a olhar para nós num espanto triste de bicho. Trazemos o sangue limpo, Isabel: as análises não acusam os negros a abrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo inspector na Chiquita, nem a perna do Ferreira no balde dos pensos, nem os ossos do tipo de Mangando no telhado de zinco. Trazemos o sangue tão limpo como o dos generais nos gabinetes com ar condicionado de Luanda, deslocando pontos coloridos no mapa de Angola, tão limpo como o dos cavalheiros que enriqueciam traficando helicópteros e armas em Lisboa, a guerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamente odeio, a guerra são pontos coloridos no mapa de Angola e as populações humilhadas, transidas de fome no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidade dos calendários imóveis.
Às vezes, sabe como é, acordo a meio da noite, sentado nos lençóis, inteiramente desperto, e parece-me ouvir, vindo do banheiro, ou do corredor, ou da sala, ou do beliche das miúdas, o apelo pálido dos defuntos nos caixões de chumbo, como a medalha identificativa que trazemos ao pescoço pousada na língua à maneira de uma hóstia de metal. Parece-me ouvir o rumor das folhas das mangueiras de Marimba e o seu imenso perfil contra o céu enevoado do cacimbo, parece-me ouvir o riso súbito e orgulhosamente livre dos Luchazes, que estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga. Acordo no meio da noite, e saber que tenho o mijo, a merda e o sangue limpos, não me tranquiliza nem me alegra: estou sentado com o tenente na missão abandonada, o tempo parou em todos os relógios, no do seu pulso, no despertador, na telefonia, no que a Isabel deve usar agora e não conheço, no que existe, desconexo e palpitante, na cabeça dos mortos, o pólen das acácias envolve-nos de leve de um ouro sem peso e sem ruído, a tarde arrasta-se no capim numa moleza animal, levanto-me para urinar contra o que resta de um muro e tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar a Lisboa sem alarmar ninguém, sem pegar os meus mortos a ninguém, a lembrança dos meus camaradas mortos a ninguém, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes, nos bares, nos cinemas, nos hotéis, nos supermercados, nos hospitais, e toda a gente verificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se não podem abrir os ossos do crânio e ver o furriel a raspar as botas com um pedaço de pau e a repetir Caralho caralho caralho caralho caralho, acocorado nos degraus da administração.» *

Termino dizendo que considero este livro como a primeira obra-prima de António Lobo Antunes, onde se nota com evidência o amadurecimento da sua técnica e um grande passo no avanço do seu inconfundível estilo.

Os Cus de Judas, Dom Quixote, 25ª edição, 2004, pp 186-189

José Alexandre Ramos
30.01.2010

Filipa Melo: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Arena de fantasmas

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, vigésimo primeiro título de ficção para 30 anos de produção literária publicada de António Lobo Antunes. Prepare-se: são 375 páginas, sete partes e 22 capítulos para uma lide de morte entre o escritor e um curro de nove personagens, uma longa polifonia de monólogos. A estrutura perfeita para uma corrida que inclui tércio de capote, de varas e bandarilhas, faena e sorte suprema (títulos do que chamamos partes). No final, encerrada a corrida, as vísceras do touro (afinal, o autor ou as personagens?) no centro da arena, o seu fim anunciado. E uma pergunta: como envelhece um escritor que deu a hipótese da vida à escrita como quem vende a alma ao Diabo? Um autor que não aceita calar as vozes que o acompanham desde sempre, vozes, afinal, só (d)ele. Insiste em que as continuemos a escutar, nós, os leitores fiéis (os outros muito dificilmente resistirão ao atrito do caminho), extenuados por suspensões, elipses e ataxias sintáticas, monólogos entrecortados e discordantes, inserções parentéticas e descontinuidades tipográficas, nós, os leitores fiéis, como um cônjuge num matrimónio assimétrico e desgastado por reminiscências e redundâncias, a desesperar pela surpresa da pontuação numa narrativa linear, de algo que ainda justifique o esforço e a atenção desmedidas. Uma personagem diz: «se me calar acabo». E outra, nas últimas linhas do romance: «e mal as vozes se calarem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso.» O dia do romance é um chuvoso domingo de Páscoa, final do jejum, e não haverá outro, como na Ressurreição.
 
Situe-se: Há uma quinta no Ribatejo, com gado, azinheiras e cavalos e um empregado que é filho bastardo do patrão e de quem ninguém na Família pode dizer o nome («Nasci assim sou sozinho»; podia dizer como o escritor um dia, «sinto uma enorme orfandade porque a minha origem não me interessa e as pessoas de que gosto pertencem a outra classe que me olha com desconfiança»). Há a casa de Lisboa e, nela, prevê-se que às seis da tarde, morrerá a Senhora Maria José Marques (tem 66 anos, quase 67, como o autor enquanto termina o livro), aos cuidados da criada velha, Mercília («um passo de lagosta e avental e bengalas», «o nariz dos Marques», a pobre esperança de ternura para todos). Enquanto se aguarda a morte da Mãe, falam todas as personagens do livro, incluindo as já encerradas nos álbuns de retratos (o Pai, jogou a fortuna na roleta do Casino; a filha Rita, «sorria para a lua», morreu de cancro), mas sobretudo os filhos vivos: Beatriz (a única colocada pelo pai na garupa do cavalo, envergonhou a família, «num estacionamento frente ao mar contando as ondas e as luzes dos barcos»), Francisco (nasceu «para ser cruel», «roeu os ossos da família», quer a carne que resta), Ana («tão feia», «a filha que se droga», «o que sobra de nós quando não existimos») e João («queria ser menina é verdade», resta-lhe «o parque à noite e os rapazes à espera», «escolhendo o mais novo, o mais pequeno, o mais parecido comigo», e «a doença a doença a doença» - a Sida, não o cancro, que corrói tantos no livro).
 
Desta vez, Portugal é uma referência breve: «isto é um país de cachorros, tudo ladra senhores». O tempo é o das memórias de cada personagem (afinal, o do autor?), tempo perdido, o da infância, da «gaveta dos mortos», do relógio (o escritor a revelar, numa crónica de 2003: «Na mesa de escrever o relógio do meu bisavô [doente de cancro, suicidou-se com um tiro na cabeça]. É uma ferradura vertical […] No topo da ferradura uma cabeça de cavalo»). O tema mais explícito serve de epicentro da obra desde o primeiro romance (Memória de Elefante, 1979): a relação entre os pais e os filhos (já se verá, será também a relação entre o autor e as suas personagens, como a entre Deus, o Filho e os homens?). O livro, esclareceu o escritor em crónica de 2008, nasceu do título, «que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar», verso de uma modinha de Natal do século XIX, de camponeses analfabetos que nunca viram o mar. Procure-se nele a explicação dos pássaros para o voo ambiciosíssimo deste romance.
 
A surpresa vem da presença manifesta do autor no texto, referido e interpelado pelas personagens como «António Lobo Antunes» ou «o que escreve». A criação, «o livro» como faena de confissões e memórias, é obra a que o autor força as personagens («se tento parar numa esperança de resposta o que faz o livro esporeia») até à revolta final (continuam a falar as personagens: «sou uma pessoa, não uma invenção nem uma marioneta, vocês que lerem isto respeitem-me», «chegando ao final deste capítulo evaporo-me», «que maçada de relato me impingiram»). E uma delas diz: «Continua vivo que teima». Confunde-se a voz autoral com a de cada personagem («este é um romance de espectros, quem o escreve por mim», «as vozes do meu medo»). E há momentos de striptease do processo de escrita: «como me aborrece o que escrevo», «como me perturba o que escrevo», «se o António Lobo Antunes batesse isto no computador carregava em teclas ao acaso, não importa quais, até ao fim da página (…) com vontade de encostar por seu turno a cara a mim [Mercília], tapar os ouvidos, não continuar o livro», «não me apetece escrever o que falta», «(lá estou com conversas a passear na página)», «se reescrevesse o episódio […] mudava a prosa toda», «(comprovem se já mencionei a quinta, mal acabo uma página roubam-na)».
 
Expliquem-se os cavalos, as sombras e o mar, simbólicos. Os cavalos conotados com Eros, o desejo e a pulsão erótica, reprimida, castrada na existência de todas as personagens. Cavalos a correr com o freio nos dentes e sobre o mar, o símbolo da consciência profunda de si mesmo, a infância de tudo, exposta, escancarada por todos no «livro». E «que livro é este senhores onde perguntas sem fim»? O filho e irmão bastardo, enquanto todos aguardam uma morte, entra por fim na casa paterna. O romance é, como todos os outros do autor, alimentado pela sua memória do eu, um longo monólogo interior transferido para as personagens que ele não cala nunca, maior o medo de um dia não as manipular. Ao contrário de Pessoa, que projecta outros para fora de si, com biografia e existência próprias às quais se submete, os outros de Lobo Antunes são todos introspectivos, introversos, são reflexos-sombras que morrem sem ele. Não é o país que se autopsia na página; é ele, autocomplacente, mas suicida, o escritor-médico que envelhece escrevendo, autopsiando-se em vida, ne varietur, com revisão filológica.
 
A última linha de O Esplendor de Portugal (1997) repete-se, reafirma-se em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?: «Finis Laus Deo» (chegamos ao fim, um louvor a Deus). E podia ser, finis coronat opus (o fim coroa a obra), se como o poeta, Lobo Antunes deixasse todos no seu «regresso a mim» (Pessoa). Mas este homem, o escritor, escreve contra as sombras (o silêncio), contra a morte. Assim: «podia terminar neste parágrafo e não termino, prossigo, mesmo que tentem impedir-me prossigo, não morro, quanto mais me desejarem a morte eu mais vivo onde não sabem quem sou nem se importam comigo, um senhor na mercearia em que mal se repara e se perde em seguida sem fazer sombra em parte alguma / — Que senhor é aquele que não faz sombra em parte alguma?»


Filipa Melo
28.01.2010
(crítica publicada na revista Ler de Outubro 2009)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...