30 de janeiro de 2010

José Alexandre Ramos: Os Cus de Judas - a primeira angústia, 2º capítulo


É generalizada a ideia de que Os Cus de Judas (de 1979, publicado uns meses depois deMemória de Elefante) é um livro sobre a guerra colonial em Angola. Está correcto se considerarmos que é o principal assunto trazido à catarse feita na trilogia dos três primeiros livros publicados (que eu designo pessoalmente como os três capítulos da primeira angústia de António Lobo Antunes), mas não é apenas e tão só sobre a guerra. Trata-se do capítulo seguinte de Memória de Elefante em jeito de prequela, uma vez o leitor vai aprofundar o conhecimento sobre factos da vida da personagem (que podemos considerar a mesma) que no livro anterior são ainda ligeiramente abordados: a sua experiência e terrores da guerra, o deslocamento de ter saído de um país (Angola em conflito) que não era o seu e regressado a uma pátria (concretamente a Lisboa e aos seus habitantes) que já não reconhece e, consequentemente, a sua solidão. Aliás, ambos os livros, por abordarem temas tão intrínsecos à personagem que têm em comum, poderiam ser um só livro.

Porém, ao contrário do que aconteceu em Memória de Elefante, cujo discurso surge quase todo na terceira pessoa, Os Cus de Judas é um longo monólogo de uma só personagem/narrador, ligeiramente modulado pelas reacções do seu interlocutor mudo – uma mulher que encontra num bar e com quem vai passar a noite. Menos rendilhado de metáforas, é ainda um texto muito mais maduro que o do livro anterior, em que o discurso na primeira pessoa permite partilhar com o leitor de forma muito mais directa toda a efusão de sentimentos que sai do depoimento da personagem: a procura de afecto, a frustração de um amor perdido, o desespero e os fantasmas da memória, a dificuldade em readaptar-se no seu próprio país, e a esperança de um alento que ansiosamente procura, para recomeçar a vida perdida entre os três anos passados na guerra e alguns após o seu regresso.

Para além da tragédia pessoal da personagem que monologa com uma mulher, é um dos primeiros gritos de atenção para aquilo que parecia ter passado despercebido no seio da sociedade portuguesa: que homens partiram para uma guerra que não reconheciam como sua, que regressaram com mazelas, a culpa, a vergonha e os remorsos dos seus actos em nome de um conceito de pátria duvidoso. Tudo parecia esquecido ou todos queriam esquecer essa nódoa. Assim, Os Cus de Judas acaba por ser também uma crítica social e política não só a quem urdiu e alimentou o conflito mas também aos novos donos do poder e a uma sociedade indiferente a tudo isso, de um tempo perturbado com o fim dessa guerra e os distúrbios de uma revolução recente.

Sem outras palavras que possa ou saiba acrescentar para dizer mais sobre este livro, vou citar um longo trecho do penúltimo capítulo (tem 23, ordenados de A a Z) que destaco por considerar resumir a sua essência:

«Pode apagar a luz: já não preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de ter receio do escuro, uma claridade ambarina reveste os objectos da serenidade cúmplice das manhãs de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com o seu sol infantil, os materiais necessários para construir algo de inefavelmente agradável que eu não lograria jamais elucidar. A Isabel que substituía aos meus sonhos paralisados o seu pragmatismo docemente implacável, consertavas as fissuras da minha existência com o rápido arame de duas ou três decisões de que a simplicidade me assombrava, e depois, de súbito menina, se deitava sobre mim, me segurava a cara com as mãos, e me pedia Deixa-me beijar-te, numa vozinha minúscula cuja súplica me transtornava. Acho que a perdi como perco tudo, que a sacudi de mim com o meu humor variável, as minhas cóleras inesperadas, as minhas exigências absurdas, esta angustiada sede de ternura que repele o afecto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de uma hostilidade sem razão. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeada de ralos e figueiras, do céu morno da noite tingido pelo halo longínquo do mar, da cal das paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada paixão das minhas carícias que pareciam deter-se, irresolutas, a centímetros do rosto dela, e se dissolviam por fim num afago indefinido. Penso na Isabel, e uma espécie de maré, tensa de amor, indomada e vigorosa, sobe-me das pernas para o sexo, endurece-me os testículos em crispações de desejo, alarga-se-me no ventre como se abrisse grandes asas calmas nas minhas vísceras em batalha. Percorremos de novo os antiquários poeirentos de Sintra à procura de móveis de talha, entramos no aquário azul da boîte onde pela primeira vez toquei, maravilhado, a sua boca, inventamos um fantástico futuro de filhos morenos numa profusão de berços, e sinto-me feliz, justificado e feliz, ao abraçar o seu corpo na vazante dos lençóis, de que as pregas formam como que ondas a caminho da praia branca da almofada, onde as nossas cabeças, a tua escura, a minha, clara, se juntam numa fusão que contém em si os germens estranhos de um milagre.
Pode apagar a luz: talvez não fique tão sozinho como isso neste quarto enorme, talvez que a Isabel ou você voltem um dia destes a visitar-me, eu ouça a voz ao telefone, a voz miudamente precisa pelos furos de baquelite do telefone, o olá dela e o seu olá a entrarem-me na orelha na oleosidade agradável e morna dos pingos de tirar a cera da minha infância, a vá buscar no emprego, esperando dentro do carro numa impaciência de cigarros, a corrigir o nó da gravata, em bicos de nádegas, no espelho, ela ou você se instale no meu lado no automóvel às escuras, me sorria, se debruce para colocar o cassete da Maria Bethânia no gravador, e me passe ao redor da nuca os firmes cotovelos da ternura. Deixa-me beijar-te. Deixe-me beijá-la enquanto se veste, enquanto aperta o soutien nas costas em gestos cegos e canhotos que lhe tornam as omoplatas salientes como as asas de um frango, enquanto procura os anéis de prata na mesinha de cabeceira com uma ruga de atenção infantil, vertical, na testa, enquanto luta com a escova contra a resistência ondulada do cabelo, o cabelo excessivo que a minha calvície inveja, num ciúme feroz a que não consigo fugir. Todas as manhãs penso quando começarei a fazer a risca na orelha, puxando trabalhosamente uma madeixa esfiada pelo cocuruto nu, e principio a ler sem ironia os anúncios de postiços do jornal, acompanhados pelas fotografias de hirsutos carecas satisfeitos, sorrindo risos peludos de gorilas. Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais, e parece-me às vezes assemelhar-me a uma esquisita caricatura de mim próprio, que as rugas deformam de um arremedo de trejeitos. Deixa-me beijar-te: que criatura vai querer beijar a paródia triste do que fui, o estômago que cresce, as pernas que se afilam, o saco vazio dos testículos cobertos de longas crinas cor de couro? Reflectindo melhor, não apague a luz: quem sabe se esta manhã oculta dentro de si uma noite mais opaca do que todas as noites que até agora atravessei, a que vive no fundo das garrafas de uísque, das camas desfeitas e dos objectos de ausência, uma noite com um cubo de gelo à superfície, três dedos de líquido amarelo por baixo, e um silêncio insuportável no interior vazio, uma noite em que me perco, a tropeçar de parede a parede, tonto de álcool, falando comigo o discurso da solidão grandiosa dos bêbados, para quem o mundo é um reflexo de gigantes contra os quais, inutilmente, se encrespam.
Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como se as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas. De novo escutarei a fermentação da geladeira, a ronronar o seu sono de mamute, os pingos que se escapam do rebordo das torneiras como as lágrimas dos velhos, pesadas de conjuntivite ferrugenta. Hesitarei na camisa, na gravata, no terno, e acabarei por bater a porta da rua como se abandonasse atrás de mim um jazigo intacto onde a morte floresce nas jarras de vidro facetado e nos caules podres dos crisântemos. Bater a porta da rua, percebe, como bati a porta de África de regresso a Lisboa, a porta repugnante da guerra, as putas de Luanda e os fazendeiros do café em torno dos baldes de champanhe, reluzentes como as caixas forradas de lantejoulas dos ilusionistas, fumando cigarros americanos de contrabando na penumbra de um tango. A porta de África, Isabel: um médico homossexual, cujas pestanas se enrolam em nós como os tentáculos de um polvo, acolitado por um cabo trocista, de patilhas, ao qual se deve unir de pensão em pensão num suspirozinho exausto de ventosa, examina-nos o mijo, a merda, o sangue, para que não infectemos o País do nosso pânico da morte, da lembrança do rapaz louro coberto por um pano no meu quarto, dos eucaliptos de Ninda e do enfermeiro sentado na picada de intestinos nas mãos, a olhar para nós num espanto triste de bicho. Trazemos o sangue limpo, Isabel: as análises não acusam os negros a abrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo inspector na Chiquita, nem a perna do Ferreira no balde dos pensos, nem os ossos do tipo de Mangando no telhado de zinco. Trazemos o sangue tão limpo como o dos generais nos gabinetes com ar condicionado de Luanda, deslocando pontos coloridos no mapa de Angola, tão limpo como o dos cavalheiros que enriqueciam traficando helicópteros e armas em Lisboa, a guerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamente odeio, a guerra são pontos coloridos no mapa de Angola e as populações humilhadas, transidas de fome no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidade dos calendários imóveis.
Às vezes, sabe como é, acordo a meio da noite, sentado nos lençóis, inteiramente desperto, e parece-me ouvir, vindo do banheiro, ou do corredor, ou da sala, ou do beliche das miúdas, o apelo pálido dos defuntos nos caixões de chumbo, como a medalha identificativa que trazemos ao pescoço pousada na língua à maneira de uma hóstia de metal. Parece-me ouvir o rumor das folhas das mangueiras de Marimba e o seu imenso perfil contra o céu enevoado do cacimbo, parece-me ouvir o riso súbito e orgulhosamente livre dos Luchazes, que estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga. Acordo no meio da noite, e saber que tenho o mijo, a merda e o sangue limpos, não me tranquiliza nem me alegra: estou sentado com o tenente na missão abandonada, o tempo parou em todos os relógios, no do seu pulso, no despertador, na telefonia, no que a Isabel deve usar agora e não conheço, no que existe, desconexo e palpitante, na cabeça dos mortos, o pólen das acácias envolve-nos de leve de um ouro sem peso e sem ruído, a tarde arrasta-se no capim numa moleza animal, levanto-me para urinar contra o que resta de um muro e tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar a Lisboa sem alarmar ninguém, sem pegar os meus mortos a ninguém, a lembrança dos meus camaradas mortos a ninguém, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes, nos bares, nos cinemas, nos hotéis, nos supermercados, nos hospitais, e toda a gente verificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se não podem abrir os ossos do crânio e ver o furriel a raspar as botas com um pedaço de pau e a repetir Caralho caralho caralho caralho caralho, acocorado nos degraus da administração.» *

Termino dizendo que considero este livro como a primeira obra-prima de António Lobo Antunes, onde se nota com evidência o amadurecimento da sua técnica e um grande passo no avanço do seu inconfundível estilo.

Os Cus de Judas, Dom Quixote, 25ª edição, 2004, pp 186-189

José Alexandre Ramos
30.01.2010

Filipa Melo: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Arena de fantasmas

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, vigésimo primeiro título de ficção para 30 anos de produção literária publicada de António Lobo Antunes. Prepare-se: são 375 páginas, sete partes e 22 capítulos para uma lide de morte entre o escritor e um curro de nove personagens, uma longa polifonia de monólogos. A estrutura perfeita para uma corrida que inclui tércio de capote, de varas e bandarilhas, faena e sorte suprema (títulos do que chamamos partes). No final, encerrada a corrida, as vísceras do touro (afinal, o autor ou as personagens?) no centro da arena, o seu fim anunciado. E uma pergunta: como envelhece um escritor que deu a hipótese da vida à escrita como quem vende a alma ao Diabo? Um autor que não aceita calar as vozes que o acompanham desde sempre, vozes, afinal, só (d)ele. Insiste em que as continuemos a escutar, nós, os leitores fiéis (os outros muito dificilmente resistirão ao atrito do caminho), extenuados por suspensões, elipses e ataxias sintáticas, monólogos entrecortados e discordantes, inserções parentéticas e descontinuidades tipográficas, nós, os leitores fiéis, como um cônjuge num matrimónio assimétrico e desgastado por reminiscências e redundâncias, a desesperar pela surpresa da pontuação numa narrativa linear, de algo que ainda justifique o esforço e a atenção desmedidas. Uma personagem diz: «se me calar acabo». E outra, nas últimas linhas do romance: «e mal as vozes se calarem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso.» O dia do romance é um chuvoso domingo de Páscoa, final do jejum, e não haverá outro, como na Ressurreição.
 
Situe-se: Há uma quinta no Ribatejo, com gado, azinheiras e cavalos e um empregado que é filho bastardo do patrão e de quem ninguém na Família pode dizer o nome («Nasci assim sou sozinho»; podia dizer como o escritor um dia, «sinto uma enorme orfandade porque a minha origem não me interessa e as pessoas de que gosto pertencem a outra classe que me olha com desconfiança»). Há a casa de Lisboa e, nela, prevê-se que às seis da tarde, morrerá a Senhora Maria José Marques (tem 66 anos, quase 67, como o autor enquanto termina o livro), aos cuidados da criada velha, Mercília («um passo de lagosta e avental e bengalas», «o nariz dos Marques», a pobre esperança de ternura para todos). Enquanto se aguarda a morte da Mãe, falam todas as personagens do livro, incluindo as já encerradas nos álbuns de retratos (o Pai, jogou a fortuna na roleta do Casino; a filha Rita, «sorria para a lua», morreu de cancro), mas sobretudo os filhos vivos: Beatriz (a única colocada pelo pai na garupa do cavalo, envergonhou a família, «num estacionamento frente ao mar contando as ondas e as luzes dos barcos»), Francisco (nasceu «para ser cruel», «roeu os ossos da família», quer a carne que resta), Ana («tão feia», «a filha que se droga», «o que sobra de nós quando não existimos») e João («queria ser menina é verdade», resta-lhe «o parque à noite e os rapazes à espera», «escolhendo o mais novo, o mais pequeno, o mais parecido comigo», e «a doença a doença a doença» - a Sida, não o cancro, que corrói tantos no livro).
 
Desta vez, Portugal é uma referência breve: «isto é um país de cachorros, tudo ladra senhores». O tempo é o das memórias de cada personagem (afinal, o do autor?), tempo perdido, o da infância, da «gaveta dos mortos», do relógio (o escritor a revelar, numa crónica de 2003: «Na mesa de escrever o relógio do meu bisavô [doente de cancro, suicidou-se com um tiro na cabeça]. É uma ferradura vertical […] No topo da ferradura uma cabeça de cavalo»). O tema mais explícito serve de epicentro da obra desde o primeiro romance (Memória de Elefante, 1979): a relação entre os pais e os filhos (já se verá, será também a relação entre o autor e as suas personagens, como a entre Deus, o Filho e os homens?). O livro, esclareceu o escritor em crónica de 2008, nasceu do título, «que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar», verso de uma modinha de Natal do século XIX, de camponeses analfabetos que nunca viram o mar. Procure-se nele a explicação dos pássaros para o voo ambiciosíssimo deste romance.
 
A surpresa vem da presença manifesta do autor no texto, referido e interpelado pelas personagens como «António Lobo Antunes» ou «o que escreve». A criação, «o livro» como faena de confissões e memórias, é obra a que o autor força as personagens («se tento parar numa esperança de resposta o que faz o livro esporeia») até à revolta final (continuam a falar as personagens: «sou uma pessoa, não uma invenção nem uma marioneta, vocês que lerem isto respeitem-me», «chegando ao final deste capítulo evaporo-me», «que maçada de relato me impingiram»). E uma delas diz: «Continua vivo que teima». Confunde-se a voz autoral com a de cada personagem («este é um romance de espectros, quem o escreve por mim», «as vozes do meu medo»). E há momentos de striptease do processo de escrita: «como me aborrece o que escrevo», «como me perturba o que escrevo», «se o António Lobo Antunes batesse isto no computador carregava em teclas ao acaso, não importa quais, até ao fim da página (…) com vontade de encostar por seu turno a cara a mim [Mercília], tapar os ouvidos, não continuar o livro», «não me apetece escrever o que falta», «(lá estou com conversas a passear na página)», «se reescrevesse o episódio […] mudava a prosa toda», «(comprovem se já mencionei a quinta, mal acabo uma página roubam-na)».
 
Expliquem-se os cavalos, as sombras e o mar, simbólicos. Os cavalos conotados com Eros, o desejo e a pulsão erótica, reprimida, castrada na existência de todas as personagens. Cavalos a correr com o freio nos dentes e sobre o mar, o símbolo da consciência profunda de si mesmo, a infância de tudo, exposta, escancarada por todos no «livro». E «que livro é este senhores onde perguntas sem fim»? O filho e irmão bastardo, enquanto todos aguardam uma morte, entra por fim na casa paterna. O romance é, como todos os outros do autor, alimentado pela sua memória do eu, um longo monólogo interior transferido para as personagens que ele não cala nunca, maior o medo de um dia não as manipular. Ao contrário de Pessoa, que projecta outros para fora de si, com biografia e existência próprias às quais se submete, os outros de Lobo Antunes são todos introspectivos, introversos, são reflexos-sombras que morrem sem ele. Não é o país que se autopsia na página; é ele, autocomplacente, mas suicida, o escritor-médico que envelhece escrevendo, autopsiando-se em vida, ne varietur, com revisão filológica.
 
A última linha de O Esplendor de Portugal (1997) repete-se, reafirma-se em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?: «Finis Laus Deo» (chegamos ao fim, um louvor a Deus). E podia ser, finis coronat opus (o fim coroa a obra), se como o poeta, Lobo Antunes deixasse todos no seu «regresso a mim» (Pessoa). Mas este homem, o escritor, escreve contra as sombras (o silêncio), contra a morte. Assim: «podia terminar neste parágrafo e não termino, prossigo, mesmo que tentem impedir-me prossigo, não morro, quanto mais me desejarem a morte eu mais vivo onde não sabem quem sou nem se importam comigo, um senhor na mercearia em que mal se repara e se perde em seguida sem fazer sombra em parte alguma / — Que senhor é aquele que não faz sombra em parte alguma?»


Filipa Melo
28.01.2010
(crítica publicada na revista Ler de Outubro 2009)

Alfredo Monte: Miasmas familiares em Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

“começo a pensar se é que se pode chamar-se pensar a um ressentimento antigo…” (António Lobo Antunes, Eu hei-de amar uma pedra)

Além de ser uma obra-prima, Eu hei-de amar uma pedra (o trecho acima pode ser encontrado na pág. 316 da edição brasileira, pela Alfaguara) tem um título que é emblemático da visão de mundo que sustenta a obra de Lobo Antunes. Só não gosto, nesse romance, de um detalhe, que não chega a atrapalhar, mas que me parece “sobrar” na tessitura geral. Na pág. 127, lemos: “ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore”.

Creio que ele usa esse recurso a uma “janela” metalinguística de forma mais feliz e consequente no seu mais recente romance, QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR? (ninguém pode ser pego de supetão para dizer esse título, vai se embaralhar todo). Os narradores debatem com “o que faz este livro”, com a chamada instância autoral com o próprio Lobo Antunes, cuja participação também é problemática, pois, além de ser interpelado pelas suas criaturas, afigura-se-nos que ele está numa corrida contra o tempo. Ele já afirmou que após os 70 anos (e, nascido em 1942, portanto está quase lá) ninguém produz nada que preste. Então pode-se ler o seguinte nas págs. 108-109 do novo livro:

“o que pensará minha mãe nesta altura, aposto que não há há espaço nela para pensar (…) e no entanto suponho que gorjeios, risinhos, uma palavra feita pedido de esmola ao telefone
Por quê?
porque o mundo não se incomoda com a gente senhora (…)
Por quê?
numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que sobeja quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é seu testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu último livro, o que amarele por aí quando não existires…”

Como se sabe, nesta última década, talvez premido pelo “prazo” que decretou com suas declarações sempre um tanto dogmáticas, ele se lançou a uma tarefa ciclópica, quase assustadora (parece até que ele é um pactário, um Adrian Leverkühn), de lançar um após o outro uma série de livros “totais”, de uma amplidão que não deixa margem a dúvidas sobre quem é o maior nome da ficção em língua portuguesa dos nossos dias. Assim tivemos depois de Eu hei-de amar uma pedra (2004): Ontem não te vi em Babilónia (2006), Meu nome é Legião (2007) e O arquipélago da insónia (2008).

E agora mais um tour-de-force. A Alfaguara tem optado por manter a grafia de Portugal nas suas edições de Lobo Antunes, como outras editoras que estão fazendo o mesmo com seus lançamentos de autores lusitanos, entretanto não será essa a maior dificuldade do leitor que não está acostumado à sua linguagem peculiar, seus parágrafos que começam com letra minúscula (como se acompanhássemos um fluxo que não começa nem acaba) e se interrompem, os inúmeros parênteses que se abrem, as frases-refrões que surgem e ressurgem na boca dos mais diversos narradores, os fatos que parecem muito concretos e realistas e depois se tornam irreais e fantasmáticos… Na minha opinião, a obra dele é tanto um projeto modernista, no sentido de buscar a totalidade (como fizeram Joyce, Proust, Mann, Faulkner, Guimarães Rosa, Hermann Broch), quanto um projeto pós-modernista, no sentido de sombrear essa totalidade com seus escombros (o projeto modernista de Musil, que ficou inacabado, gigantesco fragmento, os autores pós-Beckett, que não acreditam mais em enredo, em personagens, no próprio real…

Ainda assim, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, por incrível que pareça, é mais fácil de ler que os anteriores (em O arquipélago da insónia, o efeito emaranhado era acentuado pela perspectiva de um autista), com uma tessitura de fatos menos intrincada: acompanhamos os últimos momentos de vida da matriarca da decadente família Marques, e os depoimentos dos parentes mais próximos (e uma empregada fiel, ainda que desprezada, Mercília), especialmente dos filhos Francisco, Beatriz, Ana e João (há uma irmã que morreu, Rita, e um outro sobre o qual ninguém fala): Francisco está roubando dos outros herdeiros os restos que conseguiu salvar da bancarrota; Beatriz é que nos dá a imagem de potência e plenitude que justifica o título (e que é retomada e/ou posta em dúvida pelos demais); Ana é viciada; e João é a vergonha da família, devido ao homossexualismo (na verdade, ele seria mais um pedófilo, caçando menininhos num parque) e ao fato de ter AIDS.

Por mais histórias do gênero que já tenham sido escritas, poucas terão a visceralidade e radicalidade dessa investigação dos miasmas familiares que compõem nossa individualidade, essa “estranha idéia” que “viaja pela nossa carne”, como Drummond (autor muito importante para Lobo Antunes) tão bem colocou.

A leitura às vezes é exasperante, sobretudo porque, assim como Faulkner, nos vemos aprisionados numa visão de mundo em que o tempo como sucessão é anulado: o passado e o presente estão ali juntos, num círculo vicioso de impotência e paralisia. Não sou eu que o digo, é o próprio autor, veja-se outro trecho de Eu hei-de amar uma pedra, talvez sua obra maior: “pensando em como estas coisas se pegam a um homem, teimam, ficam tal como o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente”. Mas mesmo quem recusar essa visão fatalística não poderá negar: Lobo Antunes é um narrador incomparável.


Alfredo Monte
26.01.2010

29 de janeiro de 2010

António Bettencourt: sobre Que Cavalos São Estes Que Fazem Sombra No Mar?


«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»

A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da carência que dela decorre.

Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos.

As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formam uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de António Lobo Antunes um carácter de palavra essencial.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade, nos interpela e nos fascina a cada momento, mas que obriga a que o leitor reconstrua dentro de si toda a teia lógica do romance, num esforço plenamente recompensado pela genialidade da arte de António Lobo Antunes que, a um tempo, intensamente nos perturba, mas fortemente seduz.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia,

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”


António Bettencourt
29.01.2010

23 de janeiro de 2010

Mary Ellen Farias dos Santos: sobre O Esplendor de Portugal


O real, o imaginário e as lembranças

edição brasileira Rocco

A estética da capa de O Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa. No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto é, o texto do escritor português António Lobo Antunes.

Neste, o 13º romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.

Com um "Q" de Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.

O pai, por azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: o primogênito Carlos, bastardo e mestiço, Clarisse, uma mulher completamente mundana e Rui, epiléptico que sempre está internado em um hospício.

Tudo (aparentemente) começa em 24 de dezembro de 1995, da seguinte maneira: "Quando disse que tinha convidado os meus irmãos para passarem a noite de Natal conosco / (estávamos a almoçar na cozinha e viam-se os guindastes e os barcos a seguir aos últimos telhados da Ajuda) / a Lena encheu-me o prato de fumaça, desapareceu na fumaça e enquanto desaparecia a voz embaciou os vidros antes de se sumir também / - Já não vês os teus irmãos há quinze anos".

Um leitura bastante diferente das que muito (para não se dizer, sempre) se vê por aí. Não há como negar o quanto é difícil ler este livro de uma "tacada" só, mas é ainda mais fácil dizer que apesar da dificuldade, o texto e seu contexto são fatores primordiais que seguram e chamam o leitor para dentro da obra, criando rapidamente um vínculo entre leitor e obra. É simplesmente fantástico mergulhar neste universo de lembranças e versões de uma mesma história. Por tanto seja rápido, aproveite e arrisque-se nesta boa leitura!


por Mary Ellen Farias dos Santos
[não datado]

17 de janeiro de 2010

Milu: opinião sobre O Esplendor de Portugal


O Esplendor de Portugal é um romance da autoria de António Lobo Antunes que desenrola com admirável mestria o cenário, qual quadro impressionista, da colónia de Angola, no apogeu da colonização e no degradante período pós-colonial. Através das suas personagens, nomeadamente aquando do seu papel de narradores, somos levados a viajar no tempo e no espaço do que foram as suas vidas.

António Lobo Antunes usa de um estilo próprio que faz dele um género único, que se caracteriza por um tipo de escrita densa e enfática, muito propícia a adensar os dramas humanos que projecta nas personagens por si criadas, tornando-as deste modo e inequivocamente, em perfeitos candidatos a utentes de um consultório psiquiátrico. Sem dúvida que António Lobo Antunes alia as suas duas facetas profissionais. O profissional de medicina psiquiátrica caminha de mãos dadas com o profissional da escrita.

Este livro centra-se na história de uma família que se desmembra quando os filhos de Isilda, o Carlos, o Rui e a Clarisse fugidos à violência e aos horrores da guerra civil em Angola, demandam para Portugal e se refugiam no pequeno apartamento da Ajuda, em Lisboa, até que chegou um dia em que, Carlos, o irmão mestiço, dominado pela intolerância e pelo ressentimento dos traumas antigos, expulsa os irmãos de casa. Porém, no dia 24 de Dezembro de 1995, Carlos sente-se invadido por uma profunda nostalgia, que lhe traz à memória os seus dois irmãos, e sem mais nem para quê, dá por si a ansiar que estes o acompanhem na noite da consoada. Na demora e na incerteza da presença dos irmãos, embrenha-se num mundo de recordações do que foi sua existência em Angola.

Através dos sentimentos e traumas desta família, avó, pais e filhos, personagens que vão emergindo no decorrer da acção, que ora avança, ora recua no espaço temporal, vamos tomando conhecimento de quão horrível foi a guerra civil de Angola, que a deixou transformada numa colossal poça de sangue, tão devastada que “já nem Deus lhe podia valer”.

A carcomida avó, mãe de Isilda, é-nos retratada como alguém que nutre um profundo ódio aos pretos, que se estende ao Carlos, o seu neto, que não era neto, mas mestiço. Contudo, no seu leito de morte foi à preta Josélia a quem dedicou aquele que seria o seu derradeiro sopro de vida. Despeitada e amargurada pelos desgostos da vida, sofreu na pele a humilhação de ter sido rejeitada pelo marido, que fugia dela como o diabo foge da cruz, privando-a dos ansiados consolos conjugais, refugia-se dos frequentes embaraços no seu tão peculiar gesto de contar as gotas para a tensão, e fá-lo com tal meticulosidade, que todos os que este acto presenciam, dão por si a contá-las também.

A mãe, Isilda, que comprou o Carlos, fruto da traição do marido que se havia envolvido com uma preta e de cuja insídia se vingará entregando-se ao chefe da polícia, ali mesmo no escritório da sua casa, ao alcance da curiosidade dos filhos e perante as barbas do desditoso marido, que transformado num bandalho, se auto-destrói numa profunda dedicação aos gargalos e ao gorjeio do tilintar de copos. A filha, Clarisse, toda ela vaidade e só com olhos para os homens. Tão absorvida nos ensejos da sedução, que foi incapaz de perceber que o farrapo humano que era o seu pai, a amava imensamente, para quem Clarisse sempre foi a sua doce menina, ela que só tinha ouvidos não para os apelos paternos, mas para as buzinadelas que da rua a chamavam. O Rui, que para sua desgraça nasceu epiléptico, em contrapartida, o único da família que era feliz, talvez por ser doido. Ele e a sua espingarda de chumbinhos eram a dupla mais temida das redondezas, já que teimava em apontar a tudo quanto mexia.

O Esplendor de Portugal, que a mim me pareceu o esplendor da vergonha é, enfim, uma obra que alberga no seu coração, as cruas e nuas imagens do horror, do sofrimento, da solidão, do desencanto e da desesperança. Do pior que a vida tem.


por Milu
09.01.2010

9 de janeiro de 2010

Ismahêlson Luiz Andrade: A memória entre a guerra e o sublime

António Lobo Antunes é uma presença marcante no campo memorialístico da Literatura Portuguesa e Internacional, com a sua impactante obra literária, a saber, os seus romances e as suas crônicas. Por meio de uma narrativa com cenários compostos por narradores vinculados a recordações contundentes, lembranças aguçadas, densas e sublimes, o leitor é seduzido a acompanhar os seus narradores com as suas lembranças impregnadas de fantasmas, fragmentos discursivos, imagens traumáticas. Enfim, (re)construções, na memória, de um tempo passado e entrelaçadas num tempo presente.

A partir das características narrativas proporcionadas por Antunes, a proposta do nosso artigo é, considerando o percurso dos seus narradores, pela memória, realizar uma breve leitura de abordagem memorialística da sua obra, tendo em consideração seus romances e crônicas, designadamente “D`este viver aqui neste papel descripto – Cartas da guerra”. Trata-se de uma compilação das cartas escritas para a sua esposa, compiladas por suas filhas, e que compreendem o período de Janeiro de 1971 a Janeiro de 1973, quando o escritor esteve na guerra colonial em Angola. Um cenário, portanto, que percorre entre o espaço de guerra e o espaço de amor, revelando sentimentos distintos: a hostilidade e o amor, a solidão e a vida.

Para a nossa análise, tomaremos como referências principais algumas considerações de Paul Ricoeur, resultado de suas investigações sobre a memória e apresentadas em A memória, a história, o esquecimento.

Organizado por Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, D`este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra revela uma coletânea de textos do, posteriormente, escritor português António Lobo Antunes, e nos é apresentado sem qualquer percurso ou nuances de ficção. É ele, ali, personagem real, presente em suas palavras penetrantes, que funcionam como agulhas que costuram sentimentos que lhes são tão íntimos e sucessivos, os quais, são expostos num gesto que emendam duas faces antagônicas: o amor e a guerra. Tratam-se de cartas que podem ter sido escritas sem qualquer preocupação literária, onde as formas, o estilo, ou a mais exata utilização da palavra e frase não estavam propositalmente presentes nos artifícios do escritor, entretanto, é inegável que linhas, traços, perfis da sua escrita permeiam em cada carta, formando um fio condutor que interliga, de uma maneira ou de outra, toda a sua obra.

Muito se tem dito e muito se dirá, certamente, da obra de António Lobo Antunes, estudos e críticas garantidos pela sua ininterrupta evolução, quando cada novo lançamento é aguardado com a expectativa de um novo labirinto do ser a ser trilhado. Discursos que se encontram, que se assemelham, dados que se repetem em meio a dados consecutivamente novos, e nada é velho quando se trata da sua obra carregada dos referenciados labirintos, pois são caminhos que podem até ser repetidos, mas sempre apresentam novas perspectivas de leituras, um novo olhar, uma nova imersão na profundidade do ser. Instantes que se fragmentam e que se completam, entrelinhas que emitem discursos objetivos e plurais ao mesmo tempo. D`este viver aqui neste papel descripto é tudo isso, carta a carta, como o são os demais livros, livro a livro.

Cartas da guerra foram escritas durante o período da Guerra Colonial Portuguesa, para a então esposa do remetente, quando, aos 28 anos, ele foi convocado para combater, no Leste de Angola, na fase final daquele marco da história de Portugal. Assim, casado em Agosto de 1970, partiu em 6 de Janeiro de 1971 rumo à guerra na África. São cartas que tiveram três momentos de interrupções, marcados por três períodos bem próximos e curtos e por acontecimentos determinantes. O primeiro se deu nas suas férias em Lisboa, durante 35 dias em Setembro de 1971; o seguinte, entre Abril e Julho de 1972, com a chegada da família a Marimba, até que a sua esposa adoece com hepatite e é hospitalizada em Luanda; e o último período se dá entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, com o regresso da família a Marimba. Dados que nos são apresentados no Prefácio do livro, datado em Lisboa, Março de 2005, pelas filhas do escritor, organizadoras do livro e que realizam a publicação pela “vontade expressa” (Antunes, 2005, p.10) da destinatária das cartas.


>> continuar a ler aqui (formato pdf)

5 de janeiro de 2010

Maria Celeste Pereira: Uma leitura íntima de Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Terminei, finalmente, a leitura do livro de António Lobo Antunes “Ontem não te vi em Babilónia”.

Foi, seguramente, um dos livros que mais tempo me levou a ler, mas também um daqueles que mais profundamente me marcou.

Quando, logo no primeiro parágrafo desta resenha, utilizo a palavra “finalmente”, não quero com isto significar um “até que enfim”.

Não, não foi nada de penoso nem tampouco me custou lê-lo.

É exactamente o oposto. É o finalmente de quem lhe custa deixar o livro mas tem de o fazer; de quem lê e relê diversas vezes muitas das partes do romance (?), as mais das vezes por puro deleite. Outras, porém, porque precisei mesmo de o fazer. Precisei de entender bem as palavras das personagens que, numa noite de insónia (é todo o tempo que dura este livro, da meia noite às cinco da manhã e com um fim previamente anunciado), se vão desnudando dizendo muito do que querem ocultar e ocultando outro tanto do que querem dizer.

O registo destas palavras é sempre pesado, sofrido, frágil, visceral, humano…
O próprio autor intervém , por vezes, obrigando-as a expor-se ou então obrigando-as a refugiarem-se no silêncio.

O silêncio, o que não se diz, o que apenas se vislumbra, o que se diz e se nega, o que nos deixa dúvidas, é, incontestavelmente, uma parte crucial desta ficção.

Esta intervenção directa do autor, esta manipulação das personagens não tem intenção de criar uma história (daí o ponto de interrogação que utilizei acima a seguir à palavra romance. Será mesmo um romance no sentido tradicional do termo?).

Isso, na minha leitura, não lhe interessa. Interessa sim a experiência da palavra, o seu manusear, o jogo de a colocar e de a retirar de seguida para, surpreendentemente, a recolocar mais além, ali mesmo, onde fazia falta (ou irá ainda escamoteá-la?).

E com estes jogos magistrais que lhe são tão aparentemente simples cria pedaços de texto literário verdadeiramente fabulosos e únicos os quais leio e releio e volto a ler sempre com o mesmo prazer.

Talvez este livro me tenha puxado para a sua leitura numa má ocasião. A minha própria vida, neste momento, encontra-se pejada de aspectos negativos que se sucedem sem me dar tempo a criar novo alento. Estou emocionalmente fragilizada. Por isso considero que, lê-lo agora, foi também um acto que revelou uma razoável dose de coragem pois muitas vezes me deixou melancólica, triste e deprimida uma vez que assimilava alguns dos sentires das personagens.

Dava por mim em profundas meditações pretendendo (como se fosse o autor) arrogar-me direitos de intervenção naquelas vidas, naquelas ausências, naqueles sofreres. ..

Contudo, é também verdade, que essas reflexões, essa análise de sentimentos que se escondem, que se revelam, que não existem, que se desconhece se existem, que se deixam vislumbrar, foram, por si só, uma enorme ajuda.

Há, seguramente, nas palavras de A. L. A. um efeito indelével sobre o leitor.

Atinge-o por vezes de forma provocadora, hostil até, mas sempre honesta.

Enfim, não me vou alongar mais nesta minha opinião. Nada mais tenho para dizer. Tudo o que dissesse agora seriam variações mais ou menos bem conseguidas de
tudo o que já referi.

Talvez apenas uma breve alusão ao “testemunho” de uma das personagens que faz referência a um contexto político passado, porém, bem presente nas memórias de muitos, terrivelmente feio e vergonhoso; as acções da PIDE sobre os prisioneiros. Neste caso em Peniche.

Agora é a sério. Termino mesmo.

Um conselho: leiam-no e saboreiem-no.
 

por Maria Celeste Pereira
05.01.2010

20 de dezembro de 2009

Manuel Cardoso: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…

Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.

E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…

Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.

Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca esperança porque o tempo não é o que será, o tempo ri, não sorri, apenas desdenha, pérfido, implacável, aborrecido mas trocista do destino da gente…

O tempo que gasta o amor que nunca existiu (que disparate amor, talvez respeito, talvez obediência como a dos bichos), amor palavra vã, ausente, sem sentido… a não ser Maria Adelaide, sim, Maria Adelaide (“com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz… não me atrevo a sugerir que felizes”)… mulher, amor, sonho algum, talvez ilusão de vida que não foi, vida apenas pensada, sonhada sem esperança. Ou talvez amor a mãe e o avô, a mãe e pai, a mãe e o padre, o avô e a avó, o avô e a cozinheira: talvez amor ou vingança ou ódio, tanto faz…

E Maria Adelaide: o amor que não conhece voz, não existiu sendo real, distante, tão distante dos pulsos das empregadas que o avô agarrava – chega aqui – amor não, qual amor, antes carne viva entre mortes e lágrimas…

E a mãe a chorar, Maria Adelaide sem voz, o pai idiota, a filha do feitor a chorar, a avó como um pires que treme na chávena… talvez tudo isto uma insónia de Deus – como pode o neto estar em paz e afinal que é ele, quem somos? Sombras de Deus?

Um pouco mais que uma mão cheia de personagens que são ilhas desertas, formando arquipélagos onde as ilhas se mudam como as estrelas, ilhas que trocam de lugar, porque tanto faz, uma no lugar da outra e a vida é igual a desgraça igual a terra igual, talvez o nome diferente, (que diferença faz?) a morte igual, a morte que é de cada um e é de todos, morremos à vez, como na dança das cadeiras, aqui as cadeiras da solidão.

E a espera. A espera que é a insónia. Talvez ânsia de paz na alma da gente (ou fantasmas? Os fantasmas têm nome?).

Uma mão cheia de fantasmas dançando ao som do silêncio ensurdecedor da tristeza.

E um livro sem beleza.

De beleza só a escrita. Nem a estória porque as vidas não têm estórias, apenas talvez espera e insónia.
 

por Manuel Cardoso
enviado por e-mail
20.12.2009

14 de dezembro de 2009

Germán Gullón: opinião sobre Mi Nombre Es Legión


Autor de livros onde não cabem nem a utopia nem a esperança de um futuro melhor, António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) regressa com este romance aos subúrbios miseráveis de Lisboa. Ali, os habitantes vivem fora da fronteira que separa o bem do mal, segundo a linhas marcadas pelo direito. Os romances do português fazem raras concessões ao leitor, já que o escritor apenas se preocupa em encher os espaços vazios da narrativa, que salta de uma personagem para outra, de um tema para o seguinte. Se o público não está disposto a centrar-se no texto, tentando preencher os vazios, deixará o livro de lado. Lobo Antunes nunca oferece uma simples leitura, trata-se de literatura em estado puro.

É sempre mencionada a profissão de psiquiatra de Lobo Antunes pela utilidade em explicar o seu peculiar modo de narrar. De facto, os seus textos parecem confissões de divã. Aqui trata-se de uma história contada a várias vozes, a partir de diversas perspectivas, um polícia, Gusmão, uma prostituta branca, uma mestiça, e um delinquente, que tomam a palavra cada um à sua vez. O texto começa quando o polícia escreve um relatório da sua última missão. "Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00." (pág. 11). Uma folha depois começa o polícia a incluir observações menos profissionais. Acrescenta o facto de que apenas um dos oitos delinquente é branco. Os restantes eram "semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado" (pág. 12), e, a seguir, procede colocando em questão a política nacional de imigração. Um par de páginas depois dá um salto maior, às suas lembranças, e acaba misturando os detalhes objectivos do relatório, as malfeitorias que cometem os miúdos, com memórias da vida pessoal, iniciando com um episódio onde estão o seu padrasto e a mãe.

O resto do romance supõe uma descida a esse inferno de desejos impuros que bem podiam denominar-se Legião, viagem narrativa que nos deixa com a triste convicção de que acaba por ser impossível alcançar o ideal humano que deveria reger a sociedade. Sobra tudo quando a história fala do progresso do homem. Talvez as páginas mais impressionantes do romance sejam as que se dedicam a contar a vida e o destino de uma mulher mestiça (págs. 159-207). Desfilam pelo texto a vaidade da juventude, a injustiça do destino, ou as falsas promessas da sedução.

Porém, o melhor do texto acaba nesse fluir de uma consciência que compõe a história narrada, onde os feitos do argumento não surgem ordenados mas justapostos. Forma que provoca um dramatismo mais profundo que a narrativa linear. O romance oferece a emoção do grito de Munch ou do conto "O homem morto" de Horacio Quiroga. Por exemplo, no episódio onde cai morto o irmão (pags. 206-207) misturam-se com o ruído de um balde que cai na rua, a visão do irmão em criança correndo atrás dos escaravelhos, o ruído metálico da caçadeira de canos serrados a chocar com o pavimento quando cai abatido pelos polícias, e muito mais. Lobo Antunes regista, como gosta de fazer, o momento na sua plenitude sensorial através da palavra.

 
Germán Gullón
citado de El Cultural
05.06.2009
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

12 de dezembro de 2009

Carla Ribeiro: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


São irmãos e a mãe está às portas da morte. Esta é a história deles, do passado e do presente, das memórias, das emoções, dos amores e dos ódios. Pequenas e grandes coisas, rasgos de emotividade e crueldade, silêncios e palavras. E, neste livro, cada um deles tem voz, desde o que pretende roubar tudo aos irmãos, à que tem um rosto estranho e, por isso, não tem ninguém.

Este foi o meu primeiro encontro com a escrita de António Lobo Antunes e devo confessar que também uma das opiniões mais difíceis de transmitir em palavras. A escrita do autor tem um estilo muito próprio, como se divagasse pelos sentimentos e memórias das personagens, transcrevendo-as à medida que surgem, por vezes aleatoriamente. O lado positivo deste aspecto é a visão clara e quase palpável do que se passa na mente das personagens. O negativo é que a história fica, a maior parte das vezes, perdida entre as divagações e reflexões, tornando este livro numa obra difícil de acompanhar.

Sabendo de antemão que a escrita deste autor é do género que desperta ódios e paixões, foi-me, contudo, difícil estabelecer uma opinião clara. Se, por um lado, a forma como a narrativa se desenrola, de forma fragmentária e envolvida pelas múltiplas camadas dos pensamentos dos protagonistas, torna difícil compreender em pleno o livro e acaba por se tornar, por vezes, um exercício de esforço, existem, ao longo do texto, vários momentos e metáforas de impacto, deixando a vaga sensação de que estamos perante uma imagem que perturba na sua soberba construção.

O que dizer, pois, deste livro? Num balanço final, foi uma leitura que apreciei, de que tirei momentos muito bons e que me deixou com suficiente curiosidade para ler outras obras do autor. Não o recomendaria, contudo, a todos os leitores, já que o seu estilo particular é, como parece ser a opinião geral, tão capaz de conquistar como de afastar de si o leitor.


Carla Ribeiro
12.12.2009

6 de dezembro de 2009

Paulo Neto: Para um começo da leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Para um começo da leitura de
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Boa pergunta, embora a posteriori saibamos ser verso de toadilha de infância.

O título do último livro de António Lobo Antunes.
Os cavalos, a sombra e o mar.
Uma família ribatejana.
A mãe que aguarda a morte à hora marcada, um pai finado, marialva também dado ao jogo e os filhos: 3 raparigas e outros tantos rapazes.
Todos com sua cruz.
Ana é toxicodependente.
Rita que um cancro matou.
Beatriz que os homens deixam para trás.
João é pederasta.
Francisco consome-se em ódio.
O bastardo que é invisível.

Mas… o que me ocorreu de imediato foi a isotopia da morte.
Não inúsita, em LA.
Pelo contrário, desde sempre de atalaia.
E o desde sempre remete para há 30 anos, aquando da saída de “Memória de Elefante” e “Os cus de Judas”.
Mas aqui, a morte mistura-se com a “Fiesta”.
E esta lembra E. Hemingway, aquele que não exorcizou a morte, embora a tentasse desalmadamente.
E onde está a “fiesta”?
Na organização do romance.
Senão vejamos:

Um curto capítulo introdutório:

- antes da corrida.

Quatro capítulos em sequência:

- tércio de capote.
- tércio de varas.
- tércio de bandarilhas.
- a faena.

Todos eles se dividindo em quatro subcapítulos, assim como o antepenúltimo:

- a sorte suprema.

Fecha como abre, com um curto capítulo de conclusão:

- depois da corrida.

Assim, entre um antes e um depois, desenrola-se a lide espanhola.

E chegando a Espanha, chegamos a Frederico Garcia Lorca.
E a um dos meus títulos preferidos, da morte do “matador”:
  

Llanto por Ignacio Sanchez Mejia


Que se divide assim:

  1. La cogida y la muerte.
  2. La sangre derramada.
  3. Cuerpo presente.
  4. Alma ausente.

Estes quatro momentos fundem-se no verso:

“Estamos com un cuerpo presente que se esfuma…”

Ainda assim, no momento 1, lemos:

“lo demás era muerte y solo muerte”

No momento 2, lemos:

“la luna de par en par.
Caballo de nubes quietas…”

No momento 3, lemos:

“Yo quiero ver aqui los hombres de voz dura.
Los que que doman caballos y dominam los rios…”

No momento 4, lemos:

“No te conoce el toro ni la figura,
Ni caballos ni hormigas de tua casa.”

E, perante tanta recorrência, da morte, dos cavalos, dos rios, e da (tua) casa, temos enunciado o microcosmos da diegese deste romance de LA.
Ou então, neste imenso mosaico de Kristeva, onde todos os textos se interpelam, a intertextualidade coincidiu com rigor.

Este seria o primeiro passo, passo pioneiro no enfoque, para ler esta obra.
Sempre, um ponto de partida.
Ou mais um ponto de partida, de entre as infindáveis visões dos plurais leitores.
Aqui vo-lo deixo.
Nesta teia há sempre, pelo menos, duas pontas.
Enrolai esta no indicador direito e ide à cata de mais pontas…


Paulo Neto
enviado por e-mail
06.12.2009

5 de dezembro de 2009

Daniel Benevides: opinião sobre O Meu Nome É Legião


Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura

edição Alfaguara, Brasil
Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.

Não se pense porém que o escritor, sempre lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações. Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia -- para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".

Tudo isso fica mais ou menos evidente em "O Meu Nome é Legião", livro de 2007, agora lançado no Brasil (juntamente com "Explicação dos Pássaros", de 1981). Mais ou menos porque o papel do leitor é um tanto difícil, exige dedicação e tenacidade.

Ainda que Antunes considere seus livros fáceis, fato é que sua escrita tem a densidade e o emaranhamento de uma selva profunda, com poucas clareiras. Mas também é verdade que, ao se aventurar pelas frases incomuns de seus romances, o leitor chega ao final recompensado por uma experiência literária única, estimulante.

"O Meu Nome é Legião" é uma verdadeira polifonia de vozes, tempos e registros diferentes. Começa na forma de um relatório policial sobre os crimes cometidos por uma gangue de garotos da periferia de Lisboa: "um branco, um preto e seis mestiços (...) de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos". Há muita violência e a forte sugestão de ódio racial, o que remete ao período colonial. Aos poucos, o policial em final de carreira que anota os fatos deixa-se levar por memórias e pensamentos aparentemente aleatórios.

A narração então se esparrama por vias de curvas quase impossíveis e cruzamentos bruscos. A impressão é que o livro ganha vida autônoma, toma as rédeas para si. A pontuação se rebela, os parágrafos são cortados no meio por estranhos parênteses, as falas surgem inesperadamente, confundindo-se com os fluxos de consciência, nem sempre com o habitual travessão. Imagens variadas passam pelos olhos à medida em que as vozes e testemunhos se alternam e/ou se sobrepõem.

Ora sabemos o que pensa a mãe de um dos criminosos, o chamado Miúdo, ora a irmã de outro, o Hiena; ora deparamos com o depoimento íntimo de uma prostituta branca, amante do Gordo, o mais silencioso da gangue, ora mergulhamos nas impressões de um avô desencantado.

Nesse meio tempo, a polícia vai fechando o cerco e matando alguns dos delinqüentes com requintes de crueldade.

Perto do final, "ouvimos" a versão dos miúdos, de como foram mal amados, maltratados, excluídos na infância. O livro que tratava das desigualdades -- raciais, sociais, geográficas --, da violência urbana extremada e, em última instância, do Mal que nos invade como demônios, fala agora de Amor, amor pela humanidade, compaixão. É assim que o próprio escritor vê seu romance, que considera um de seus melhores.

O título, resumo simbólico do enredo, surgiu para Antunes só no final da escrita. Vem de um episódio no Evangelho de São Lucas. Jesus se encontra com um homem nu e desfigurado, possuído por espíritos malignos, e pergunta por seu nome. "O meu nome é legião", responde o infortunado, "porque somos muitos".


Daniel Benevides
27.07.2009

3 de dezembro de 2009

Márcia Valadares disserta sobre O Esplendor de Portugal


Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.


Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance,Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.

Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.

No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma bastante complexa e com notável habilidade.

Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente se viram frente ao violento processo de independência da colônia, desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um mestiço.

Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte, singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.

Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”

O trecho que reproduziremos a seguir é um dos melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do disfemismo:

Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras...


Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto, contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior, acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de forma raramente encontrada na literatura ocidental.



Márcia Valadares
(Mestre em teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil)
em  TXT
[não datado]

28 de novembro de 2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Havia já lido este livro há já alguns anos (talvez oito) quando, num Natal, foi oferecido à minha filha. Confesso que, na altura, tive alguma dificuldade em me aplicar o suficiente na leitura para o apreciar de forma conveniente. Tinha o tempo muitíssimo ocupado, com actividades diversificadas, o que não me deixava grande margem para uma leitura atenta e seguida como é exigência de um livro como este.

Assim, após terminado um livro de um dos irmãos, o mais novo (Nuno Lobo Antunes), completamente diferente no seu estilo, achei que estaria preparada, neste momento em que disponho do tempo da maneira que me apraz, para o reler com a expectativa de melhor apreciar quaisquer subtilezas de estilo, e não só, que me tivessem escapado na primeira leitura.

Pois bem, mais uma vez me levou muito mais tempo do que é normal para ler um livro de dimensão semelhante.

Mais uma vez me vi atrapalhada para acompanhar as personagens sem me perder nos meandros das suas vidas e, sobretudo, sem fazer confusões que tornariam o argumento ininteligível.

Mais uma vez, embora reconheça a imensa mestria necessária para organizar prosa nestes moldes, dava por mim a perguntar-me (sobretudo quando tinha necessidade de voltar uma ou duas páginas atrás para ver o que me tinha escapado para que o resto fizesse algum sentido) se haveria necessidade desta excessiva fragmentação narrativa que pode, e não é difícil que aconteça, desmotivar o leitor menos tenaz.

Será que para se escrever bem é necessário escrever difícil? E reparem, eu até aprecio Lobo Antunes…

Neste livro a narrativa cabe inteiramente a quatro mulheres que partilham segredos comuns por se encontrarem ligadas a um determinado conjunto de homens.

Estes, um grupo de “saudosistas” do anterior regime, oriundos, aparentemente, de diversos meios: burguês, clero e antigos elementos da PIDE, desenvolvem, clandestinamente, perseguições e atentados contra os “comunistas”.

É apenas através do que elas vão desenrolando das suas próprias vidas, desde a infância até à actualidade, que nós vamos decifrando o enredo do livro.

Mimi, Celina, Fátima e Simone, todas elas revelando marcas profundas ao nível da sua estrutura psíquica, devidas a vários factores, todos traumáticos (uma é surda, outra é obrigada a casar muito nova com um homem muito mais velho, outra é sobrinha do bispo, um dos conspiradores e, finalmente a outra sofre de obesidade mórbida tendo encontrado no seu companheiro, o motorista, o seu reduto) vão-nos encaminhando quer de forma inquieta e até brusca, quer de forma surpreendentemente afectuosa, inacreditavelmente terna, através dos acontecimentos que dão corpo ao livro. Embora, a meu ver, o corpo do livro é, na verdade, o próprio imaginário das personagens femininas que o compõem.

Para finalizar. É inegável a mestria literária do autor que faz recurso de técnicas expositivas terrivelmente difíceis. É, sem dúvida, um excelente exemplo de um tipo de literatura contemporânea portuguesa que tem angariado alguns e bons seguidores bem mais recentes.

Contudo, é com algum pudor que o digo: penso que me foi tão difícil ler o livro hoje como já tinha sido há sete ou oito anos atrás.

É muito bom se entretanto conseguirmos não desmotivar e ir lendo até encontrar aquele fiozinho que já não nos deixa largá-lo.

Quando aí chegamos, se chegamos, é fantástico.


Maria Celeste Pereira
02.01.2009

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