17 de janeiro de 2010

Milu: opinião sobre O Esplendor de Portugal


O Esplendor de Portugal é um romance da autoria de António Lobo Antunes que desenrola com admirável mestria o cenário, qual quadro impressionista, da colónia de Angola, no apogeu da colonização e no degradante período pós-colonial. Através das suas personagens, nomeadamente aquando do seu papel de narradores, somos levados a viajar no tempo e no espaço do que foram as suas vidas.

António Lobo Antunes usa de um estilo próprio que faz dele um género único, que se caracteriza por um tipo de escrita densa e enfática, muito propícia a adensar os dramas humanos que projecta nas personagens por si criadas, tornando-as deste modo e inequivocamente, em perfeitos candidatos a utentes de um consultório psiquiátrico. Sem dúvida que António Lobo Antunes alia as suas duas facetas profissionais. O profissional de medicina psiquiátrica caminha de mãos dadas com o profissional da escrita.

Este livro centra-se na história de uma família que se desmembra quando os filhos de Isilda, o Carlos, o Rui e a Clarisse fugidos à violência e aos horrores da guerra civil em Angola, demandam para Portugal e se refugiam no pequeno apartamento da Ajuda, em Lisboa, até que chegou um dia em que, Carlos, o irmão mestiço, dominado pela intolerância e pelo ressentimento dos traumas antigos, expulsa os irmãos de casa. Porém, no dia 24 de Dezembro de 1995, Carlos sente-se invadido por uma profunda nostalgia, que lhe traz à memória os seus dois irmãos, e sem mais nem para quê, dá por si a ansiar que estes o acompanhem na noite da consoada. Na demora e na incerteza da presença dos irmãos, embrenha-se num mundo de recordações do que foi sua existência em Angola.

Através dos sentimentos e traumas desta família, avó, pais e filhos, personagens que vão emergindo no decorrer da acção, que ora avança, ora recua no espaço temporal, vamos tomando conhecimento de quão horrível foi a guerra civil de Angola, que a deixou transformada numa colossal poça de sangue, tão devastada que “já nem Deus lhe podia valer”.

A carcomida avó, mãe de Isilda, é-nos retratada como alguém que nutre um profundo ódio aos pretos, que se estende ao Carlos, o seu neto, que não era neto, mas mestiço. Contudo, no seu leito de morte foi à preta Josélia a quem dedicou aquele que seria o seu derradeiro sopro de vida. Despeitada e amargurada pelos desgostos da vida, sofreu na pele a humilhação de ter sido rejeitada pelo marido, que fugia dela como o diabo foge da cruz, privando-a dos ansiados consolos conjugais, refugia-se dos frequentes embaraços no seu tão peculiar gesto de contar as gotas para a tensão, e fá-lo com tal meticulosidade, que todos os que este acto presenciam, dão por si a contá-las também.

A mãe, Isilda, que comprou o Carlos, fruto da traição do marido que se havia envolvido com uma preta e de cuja insídia se vingará entregando-se ao chefe da polícia, ali mesmo no escritório da sua casa, ao alcance da curiosidade dos filhos e perante as barbas do desditoso marido, que transformado num bandalho, se auto-destrói numa profunda dedicação aos gargalos e ao gorjeio do tilintar de copos. A filha, Clarisse, toda ela vaidade e só com olhos para os homens. Tão absorvida nos ensejos da sedução, que foi incapaz de perceber que o farrapo humano que era o seu pai, a amava imensamente, para quem Clarisse sempre foi a sua doce menina, ela que só tinha ouvidos não para os apelos paternos, mas para as buzinadelas que da rua a chamavam. O Rui, que para sua desgraça nasceu epiléptico, em contrapartida, o único da família que era feliz, talvez por ser doido. Ele e a sua espingarda de chumbinhos eram a dupla mais temida das redondezas, já que teimava em apontar a tudo quanto mexia.

O Esplendor de Portugal, que a mim me pareceu o esplendor da vergonha é, enfim, uma obra que alberga no seu coração, as cruas e nuas imagens do horror, do sofrimento, da solidão, do desencanto e da desesperança. Do pior que a vida tem.


por Milu
09.01.2010

9 de janeiro de 2010

Ismahêlson Luiz Andrade: A memória entre a guerra e o sublime

António Lobo Antunes é uma presença marcante no campo memorialístico da Literatura Portuguesa e Internacional, com a sua impactante obra literária, a saber, os seus romances e as suas crônicas. Por meio de uma narrativa com cenários compostos por narradores vinculados a recordações contundentes, lembranças aguçadas, densas e sublimes, o leitor é seduzido a acompanhar os seus narradores com as suas lembranças impregnadas de fantasmas, fragmentos discursivos, imagens traumáticas. Enfim, (re)construções, na memória, de um tempo passado e entrelaçadas num tempo presente.

A partir das características narrativas proporcionadas por Antunes, a proposta do nosso artigo é, considerando o percurso dos seus narradores, pela memória, realizar uma breve leitura de abordagem memorialística da sua obra, tendo em consideração seus romances e crônicas, designadamente “D`este viver aqui neste papel descripto – Cartas da guerra”. Trata-se de uma compilação das cartas escritas para a sua esposa, compiladas por suas filhas, e que compreendem o período de Janeiro de 1971 a Janeiro de 1973, quando o escritor esteve na guerra colonial em Angola. Um cenário, portanto, que percorre entre o espaço de guerra e o espaço de amor, revelando sentimentos distintos: a hostilidade e o amor, a solidão e a vida.

Para a nossa análise, tomaremos como referências principais algumas considerações de Paul Ricoeur, resultado de suas investigações sobre a memória e apresentadas em A memória, a história, o esquecimento.

Organizado por Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, D`este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra revela uma coletânea de textos do, posteriormente, escritor português António Lobo Antunes, e nos é apresentado sem qualquer percurso ou nuances de ficção. É ele, ali, personagem real, presente em suas palavras penetrantes, que funcionam como agulhas que costuram sentimentos que lhes são tão íntimos e sucessivos, os quais, são expostos num gesto que emendam duas faces antagônicas: o amor e a guerra. Tratam-se de cartas que podem ter sido escritas sem qualquer preocupação literária, onde as formas, o estilo, ou a mais exata utilização da palavra e frase não estavam propositalmente presentes nos artifícios do escritor, entretanto, é inegável que linhas, traços, perfis da sua escrita permeiam em cada carta, formando um fio condutor que interliga, de uma maneira ou de outra, toda a sua obra.

Muito se tem dito e muito se dirá, certamente, da obra de António Lobo Antunes, estudos e críticas garantidos pela sua ininterrupta evolução, quando cada novo lançamento é aguardado com a expectativa de um novo labirinto do ser a ser trilhado. Discursos que se encontram, que se assemelham, dados que se repetem em meio a dados consecutivamente novos, e nada é velho quando se trata da sua obra carregada dos referenciados labirintos, pois são caminhos que podem até ser repetidos, mas sempre apresentam novas perspectivas de leituras, um novo olhar, uma nova imersão na profundidade do ser. Instantes que se fragmentam e que se completam, entrelinhas que emitem discursos objetivos e plurais ao mesmo tempo. D`este viver aqui neste papel descripto é tudo isso, carta a carta, como o são os demais livros, livro a livro.

Cartas da guerra foram escritas durante o período da Guerra Colonial Portuguesa, para a então esposa do remetente, quando, aos 28 anos, ele foi convocado para combater, no Leste de Angola, na fase final daquele marco da história de Portugal. Assim, casado em Agosto de 1970, partiu em 6 de Janeiro de 1971 rumo à guerra na África. São cartas que tiveram três momentos de interrupções, marcados por três períodos bem próximos e curtos e por acontecimentos determinantes. O primeiro se deu nas suas férias em Lisboa, durante 35 dias em Setembro de 1971; o seguinte, entre Abril e Julho de 1972, com a chegada da família a Marimba, até que a sua esposa adoece com hepatite e é hospitalizada em Luanda; e o último período se dá entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, com o regresso da família a Marimba. Dados que nos são apresentados no Prefácio do livro, datado em Lisboa, Março de 2005, pelas filhas do escritor, organizadoras do livro e que realizam a publicação pela “vontade expressa” (Antunes, 2005, p.10) da destinatária das cartas.


>> continuar a ler aqui (formato pdf)

5 de janeiro de 2010

Maria Celeste Pereira: Uma leitura íntima de Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Terminei, finalmente, a leitura do livro de António Lobo Antunes “Ontem não te vi em Babilónia”.

Foi, seguramente, um dos livros que mais tempo me levou a ler, mas também um daqueles que mais profundamente me marcou.

Quando, logo no primeiro parágrafo desta resenha, utilizo a palavra “finalmente”, não quero com isto significar um “até que enfim”.

Não, não foi nada de penoso nem tampouco me custou lê-lo.

É exactamente o oposto. É o finalmente de quem lhe custa deixar o livro mas tem de o fazer; de quem lê e relê diversas vezes muitas das partes do romance (?), as mais das vezes por puro deleite. Outras, porém, porque precisei mesmo de o fazer. Precisei de entender bem as palavras das personagens que, numa noite de insónia (é todo o tempo que dura este livro, da meia noite às cinco da manhã e com um fim previamente anunciado), se vão desnudando dizendo muito do que querem ocultar e ocultando outro tanto do que querem dizer.

O registo destas palavras é sempre pesado, sofrido, frágil, visceral, humano…
O próprio autor intervém , por vezes, obrigando-as a expor-se ou então obrigando-as a refugiarem-se no silêncio.

O silêncio, o que não se diz, o que apenas se vislumbra, o que se diz e se nega, o que nos deixa dúvidas, é, incontestavelmente, uma parte crucial desta ficção.

Esta intervenção directa do autor, esta manipulação das personagens não tem intenção de criar uma história (daí o ponto de interrogação que utilizei acima a seguir à palavra romance. Será mesmo um romance no sentido tradicional do termo?).

Isso, na minha leitura, não lhe interessa. Interessa sim a experiência da palavra, o seu manusear, o jogo de a colocar e de a retirar de seguida para, surpreendentemente, a recolocar mais além, ali mesmo, onde fazia falta (ou irá ainda escamoteá-la?).

E com estes jogos magistrais que lhe são tão aparentemente simples cria pedaços de texto literário verdadeiramente fabulosos e únicos os quais leio e releio e volto a ler sempre com o mesmo prazer.

Talvez este livro me tenha puxado para a sua leitura numa má ocasião. A minha própria vida, neste momento, encontra-se pejada de aspectos negativos que se sucedem sem me dar tempo a criar novo alento. Estou emocionalmente fragilizada. Por isso considero que, lê-lo agora, foi também um acto que revelou uma razoável dose de coragem pois muitas vezes me deixou melancólica, triste e deprimida uma vez que assimilava alguns dos sentires das personagens.

Dava por mim em profundas meditações pretendendo (como se fosse o autor) arrogar-me direitos de intervenção naquelas vidas, naquelas ausências, naqueles sofreres. ..

Contudo, é também verdade, que essas reflexões, essa análise de sentimentos que se escondem, que se revelam, que não existem, que se desconhece se existem, que se deixam vislumbrar, foram, por si só, uma enorme ajuda.

Há, seguramente, nas palavras de A. L. A. um efeito indelével sobre o leitor.

Atinge-o por vezes de forma provocadora, hostil até, mas sempre honesta.

Enfim, não me vou alongar mais nesta minha opinião. Nada mais tenho para dizer. Tudo o que dissesse agora seriam variações mais ou menos bem conseguidas de
tudo o que já referi.

Talvez apenas uma breve alusão ao “testemunho” de uma das personagens que faz referência a um contexto político passado, porém, bem presente nas memórias de muitos, terrivelmente feio e vergonhoso; as acções da PIDE sobre os prisioneiros. Neste caso em Peniche.

Agora é a sério. Termino mesmo.

Um conselho: leiam-no e saboreiem-no.
 

por Maria Celeste Pereira
05.01.2010

20 de dezembro de 2009

Manuel Cardoso: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…

Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.

E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…

Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.

Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca esperança porque o tempo não é o que será, o tempo ri, não sorri, apenas desdenha, pérfido, implacável, aborrecido mas trocista do destino da gente…

O tempo que gasta o amor que nunca existiu (que disparate amor, talvez respeito, talvez obediência como a dos bichos), amor palavra vã, ausente, sem sentido… a não ser Maria Adelaide, sim, Maria Adelaide (“com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz… não me atrevo a sugerir que felizes”)… mulher, amor, sonho algum, talvez ilusão de vida que não foi, vida apenas pensada, sonhada sem esperança. Ou talvez amor a mãe e o avô, a mãe e pai, a mãe e o padre, o avô e a avó, o avô e a cozinheira: talvez amor ou vingança ou ódio, tanto faz…

E Maria Adelaide: o amor que não conhece voz, não existiu sendo real, distante, tão distante dos pulsos das empregadas que o avô agarrava – chega aqui – amor não, qual amor, antes carne viva entre mortes e lágrimas…

E a mãe a chorar, Maria Adelaide sem voz, o pai idiota, a filha do feitor a chorar, a avó como um pires que treme na chávena… talvez tudo isto uma insónia de Deus – como pode o neto estar em paz e afinal que é ele, quem somos? Sombras de Deus?

Um pouco mais que uma mão cheia de personagens que são ilhas desertas, formando arquipélagos onde as ilhas se mudam como as estrelas, ilhas que trocam de lugar, porque tanto faz, uma no lugar da outra e a vida é igual a desgraça igual a terra igual, talvez o nome diferente, (que diferença faz?) a morte igual, a morte que é de cada um e é de todos, morremos à vez, como na dança das cadeiras, aqui as cadeiras da solidão.

E a espera. A espera que é a insónia. Talvez ânsia de paz na alma da gente (ou fantasmas? Os fantasmas têm nome?).

Uma mão cheia de fantasmas dançando ao som do silêncio ensurdecedor da tristeza.

E um livro sem beleza.

De beleza só a escrita. Nem a estória porque as vidas não têm estórias, apenas talvez espera e insónia.
 

por Manuel Cardoso
enviado por e-mail
20.12.2009

14 de dezembro de 2009

Germán Gullón: opinião sobre Mi Nombre Es Legión


Autor de livros onde não cabem nem a utopia nem a esperança de um futuro melhor, António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) regressa com este romance aos subúrbios miseráveis de Lisboa. Ali, os habitantes vivem fora da fronteira que separa o bem do mal, segundo a linhas marcadas pelo direito. Os romances do português fazem raras concessões ao leitor, já que o escritor apenas se preocupa em encher os espaços vazios da narrativa, que salta de uma personagem para outra, de um tema para o seguinte. Se o público não está disposto a centrar-se no texto, tentando preencher os vazios, deixará o livro de lado. Lobo Antunes nunca oferece uma simples leitura, trata-se de literatura em estado puro.

É sempre mencionada a profissão de psiquiatra de Lobo Antunes pela utilidade em explicar o seu peculiar modo de narrar. De facto, os seus textos parecem confissões de divã. Aqui trata-se de uma história contada a várias vozes, a partir de diversas perspectivas, um polícia, Gusmão, uma prostituta branca, uma mestiça, e um delinquente, que tomam a palavra cada um à sua vez. O texto começa quando o polícia escreve um relatório da sua última missão. "Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00." (pág. 11). Uma folha depois começa o polícia a incluir observações menos profissionais. Acrescenta o facto de que apenas um dos oitos delinquente é branco. Os restantes eram "semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado" (pág. 12), e, a seguir, procede colocando em questão a política nacional de imigração. Um par de páginas depois dá um salto maior, às suas lembranças, e acaba misturando os detalhes objectivos do relatório, as malfeitorias que cometem os miúdos, com memórias da vida pessoal, iniciando com um episódio onde estão o seu padrasto e a mãe.

O resto do romance supõe uma descida a esse inferno de desejos impuros que bem podiam denominar-se Legião, viagem narrativa que nos deixa com a triste convicção de que acaba por ser impossível alcançar o ideal humano que deveria reger a sociedade. Sobra tudo quando a história fala do progresso do homem. Talvez as páginas mais impressionantes do romance sejam as que se dedicam a contar a vida e o destino de uma mulher mestiça (págs. 159-207). Desfilam pelo texto a vaidade da juventude, a injustiça do destino, ou as falsas promessas da sedução.

Porém, o melhor do texto acaba nesse fluir de uma consciência que compõe a história narrada, onde os feitos do argumento não surgem ordenados mas justapostos. Forma que provoca um dramatismo mais profundo que a narrativa linear. O romance oferece a emoção do grito de Munch ou do conto "O homem morto" de Horacio Quiroga. Por exemplo, no episódio onde cai morto o irmão (pags. 206-207) misturam-se com o ruído de um balde que cai na rua, a visão do irmão em criança correndo atrás dos escaravelhos, o ruído metálico da caçadeira de canos serrados a chocar com o pavimento quando cai abatido pelos polícias, e muito mais. Lobo Antunes regista, como gosta de fazer, o momento na sua plenitude sensorial através da palavra.

 
Germán Gullón
citado de El Cultural
05.06.2009
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

12 de dezembro de 2009

Carla Ribeiro: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


São irmãos e a mãe está às portas da morte. Esta é a história deles, do passado e do presente, das memórias, das emoções, dos amores e dos ódios. Pequenas e grandes coisas, rasgos de emotividade e crueldade, silêncios e palavras. E, neste livro, cada um deles tem voz, desde o que pretende roubar tudo aos irmãos, à que tem um rosto estranho e, por isso, não tem ninguém.

Este foi o meu primeiro encontro com a escrita de António Lobo Antunes e devo confessar que também uma das opiniões mais difíceis de transmitir em palavras. A escrita do autor tem um estilo muito próprio, como se divagasse pelos sentimentos e memórias das personagens, transcrevendo-as à medida que surgem, por vezes aleatoriamente. O lado positivo deste aspecto é a visão clara e quase palpável do que se passa na mente das personagens. O negativo é que a história fica, a maior parte das vezes, perdida entre as divagações e reflexões, tornando este livro numa obra difícil de acompanhar.

Sabendo de antemão que a escrita deste autor é do género que desperta ódios e paixões, foi-me, contudo, difícil estabelecer uma opinião clara. Se, por um lado, a forma como a narrativa se desenrola, de forma fragmentária e envolvida pelas múltiplas camadas dos pensamentos dos protagonistas, torna difícil compreender em pleno o livro e acaba por se tornar, por vezes, um exercício de esforço, existem, ao longo do texto, vários momentos e metáforas de impacto, deixando a vaga sensação de que estamos perante uma imagem que perturba na sua soberba construção.

O que dizer, pois, deste livro? Num balanço final, foi uma leitura que apreciei, de que tirei momentos muito bons e que me deixou com suficiente curiosidade para ler outras obras do autor. Não o recomendaria, contudo, a todos os leitores, já que o seu estilo particular é, como parece ser a opinião geral, tão capaz de conquistar como de afastar de si o leitor.


Carla Ribeiro
12.12.2009

6 de dezembro de 2009

Paulo Neto: Para um começo da leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Para um começo da leitura de
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Boa pergunta, embora a posteriori saibamos ser verso de toadilha de infância.

O título do último livro de António Lobo Antunes.
Os cavalos, a sombra e o mar.
Uma família ribatejana.
A mãe que aguarda a morte à hora marcada, um pai finado, marialva também dado ao jogo e os filhos: 3 raparigas e outros tantos rapazes.
Todos com sua cruz.
Ana é toxicodependente.
Rita que um cancro matou.
Beatriz que os homens deixam para trás.
João é pederasta.
Francisco consome-se em ódio.
O bastardo que é invisível.

Mas… o que me ocorreu de imediato foi a isotopia da morte.
Não inúsita, em LA.
Pelo contrário, desde sempre de atalaia.
E o desde sempre remete para há 30 anos, aquando da saída de “Memória de Elefante” e “Os cus de Judas”.
Mas aqui, a morte mistura-se com a “Fiesta”.
E esta lembra E. Hemingway, aquele que não exorcizou a morte, embora a tentasse desalmadamente.
E onde está a “fiesta”?
Na organização do romance.
Senão vejamos:

Um curto capítulo introdutório:

- antes da corrida.

Quatro capítulos em sequência:

- tércio de capote.
- tércio de varas.
- tércio de bandarilhas.
- a faena.

Todos eles se dividindo em quatro subcapítulos, assim como o antepenúltimo:

- a sorte suprema.

Fecha como abre, com um curto capítulo de conclusão:

- depois da corrida.

Assim, entre um antes e um depois, desenrola-se a lide espanhola.

E chegando a Espanha, chegamos a Frederico Garcia Lorca.
E a um dos meus títulos preferidos, da morte do “matador”:
  

Llanto por Ignacio Sanchez Mejia


Que se divide assim:

  1. La cogida y la muerte.
  2. La sangre derramada.
  3. Cuerpo presente.
  4. Alma ausente.

Estes quatro momentos fundem-se no verso:

“Estamos com un cuerpo presente que se esfuma…”

Ainda assim, no momento 1, lemos:

“lo demás era muerte y solo muerte”

No momento 2, lemos:

“la luna de par en par.
Caballo de nubes quietas…”

No momento 3, lemos:

“Yo quiero ver aqui los hombres de voz dura.
Los que que doman caballos y dominam los rios…”

No momento 4, lemos:

“No te conoce el toro ni la figura,
Ni caballos ni hormigas de tua casa.”

E, perante tanta recorrência, da morte, dos cavalos, dos rios, e da (tua) casa, temos enunciado o microcosmos da diegese deste romance de LA.
Ou então, neste imenso mosaico de Kristeva, onde todos os textos se interpelam, a intertextualidade coincidiu com rigor.

Este seria o primeiro passo, passo pioneiro no enfoque, para ler esta obra.
Sempre, um ponto de partida.
Ou mais um ponto de partida, de entre as infindáveis visões dos plurais leitores.
Aqui vo-lo deixo.
Nesta teia há sempre, pelo menos, duas pontas.
Enrolai esta no indicador direito e ide à cata de mais pontas…


Paulo Neto
enviado por e-mail
06.12.2009

5 de dezembro de 2009

Daniel Benevides: opinião sobre O Meu Nome É Legião


Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura

edição Alfaguara, Brasil
Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.

Não se pense porém que o escritor, sempre lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações. Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia -- para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".

Tudo isso fica mais ou menos evidente em "O Meu Nome é Legião", livro de 2007, agora lançado no Brasil (juntamente com "Explicação dos Pássaros", de 1981). Mais ou menos porque o papel do leitor é um tanto difícil, exige dedicação e tenacidade.

Ainda que Antunes considere seus livros fáceis, fato é que sua escrita tem a densidade e o emaranhamento de uma selva profunda, com poucas clareiras. Mas também é verdade que, ao se aventurar pelas frases incomuns de seus romances, o leitor chega ao final recompensado por uma experiência literária única, estimulante.

"O Meu Nome é Legião" é uma verdadeira polifonia de vozes, tempos e registros diferentes. Começa na forma de um relatório policial sobre os crimes cometidos por uma gangue de garotos da periferia de Lisboa: "um branco, um preto e seis mestiços (...) de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos". Há muita violência e a forte sugestão de ódio racial, o que remete ao período colonial. Aos poucos, o policial em final de carreira que anota os fatos deixa-se levar por memórias e pensamentos aparentemente aleatórios.

A narração então se esparrama por vias de curvas quase impossíveis e cruzamentos bruscos. A impressão é que o livro ganha vida autônoma, toma as rédeas para si. A pontuação se rebela, os parágrafos são cortados no meio por estranhos parênteses, as falas surgem inesperadamente, confundindo-se com os fluxos de consciência, nem sempre com o habitual travessão. Imagens variadas passam pelos olhos à medida em que as vozes e testemunhos se alternam e/ou se sobrepõem.

Ora sabemos o que pensa a mãe de um dos criminosos, o chamado Miúdo, ora a irmã de outro, o Hiena; ora deparamos com o depoimento íntimo de uma prostituta branca, amante do Gordo, o mais silencioso da gangue, ora mergulhamos nas impressões de um avô desencantado.

Nesse meio tempo, a polícia vai fechando o cerco e matando alguns dos delinqüentes com requintes de crueldade.

Perto do final, "ouvimos" a versão dos miúdos, de como foram mal amados, maltratados, excluídos na infância. O livro que tratava das desigualdades -- raciais, sociais, geográficas --, da violência urbana extremada e, em última instância, do Mal que nos invade como demônios, fala agora de Amor, amor pela humanidade, compaixão. É assim que o próprio escritor vê seu romance, que considera um de seus melhores.

O título, resumo simbólico do enredo, surgiu para Antunes só no final da escrita. Vem de um episódio no Evangelho de São Lucas. Jesus se encontra com um homem nu e desfigurado, possuído por espíritos malignos, e pergunta por seu nome. "O meu nome é legião", responde o infortunado, "porque somos muitos".


Daniel Benevides
27.07.2009

3 de dezembro de 2009

Márcia Valadares disserta sobre O Esplendor de Portugal


Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.


Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance,Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.

Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.

No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma bastante complexa e com notável habilidade.

Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente se viram frente ao violento processo de independência da colônia, desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um mestiço.

Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte, singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.

Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”

O trecho que reproduziremos a seguir é um dos melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do disfemismo:

Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras...


Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto, contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior, acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de forma raramente encontrada na literatura ocidental.



Márcia Valadares
(Mestre em teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil)
em  TXT
[não datado]

28 de novembro de 2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Havia já lido este livro há já alguns anos (talvez oito) quando, num Natal, foi oferecido à minha filha. Confesso que, na altura, tive alguma dificuldade em me aplicar o suficiente na leitura para o apreciar de forma conveniente. Tinha o tempo muitíssimo ocupado, com actividades diversificadas, o que não me deixava grande margem para uma leitura atenta e seguida como é exigência de um livro como este.

Assim, após terminado um livro de um dos irmãos, o mais novo (Nuno Lobo Antunes), completamente diferente no seu estilo, achei que estaria preparada, neste momento em que disponho do tempo da maneira que me apraz, para o reler com a expectativa de melhor apreciar quaisquer subtilezas de estilo, e não só, que me tivessem escapado na primeira leitura.

Pois bem, mais uma vez me levou muito mais tempo do que é normal para ler um livro de dimensão semelhante.

Mais uma vez me vi atrapalhada para acompanhar as personagens sem me perder nos meandros das suas vidas e, sobretudo, sem fazer confusões que tornariam o argumento ininteligível.

Mais uma vez, embora reconheça a imensa mestria necessária para organizar prosa nestes moldes, dava por mim a perguntar-me (sobretudo quando tinha necessidade de voltar uma ou duas páginas atrás para ver o que me tinha escapado para que o resto fizesse algum sentido) se haveria necessidade desta excessiva fragmentação narrativa que pode, e não é difícil que aconteça, desmotivar o leitor menos tenaz.

Será que para se escrever bem é necessário escrever difícil? E reparem, eu até aprecio Lobo Antunes…

Neste livro a narrativa cabe inteiramente a quatro mulheres que partilham segredos comuns por se encontrarem ligadas a um determinado conjunto de homens.

Estes, um grupo de “saudosistas” do anterior regime, oriundos, aparentemente, de diversos meios: burguês, clero e antigos elementos da PIDE, desenvolvem, clandestinamente, perseguições e atentados contra os “comunistas”.

É apenas através do que elas vão desenrolando das suas próprias vidas, desde a infância até à actualidade, que nós vamos decifrando o enredo do livro.

Mimi, Celina, Fátima e Simone, todas elas revelando marcas profundas ao nível da sua estrutura psíquica, devidas a vários factores, todos traumáticos (uma é surda, outra é obrigada a casar muito nova com um homem muito mais velho, outra é sobrinha do bispo, um dos conspiradores e, finalmente a outra sofre de obesidade mórbida tendo encontrado no seu companheiro, o motorista, o seu reduto) vão-nos encaminhando quer de forma inquieta e até brusca, quer de forma surpreendentemente afectuosa, inacreditavelmente terna, através dos acontecimentos que dão corpo ao livro. Embora, a meu ver, o corpo do livro é, na verdade, o próprio imaginário das personagens femininas que o compõem.

Para finalizar. É inegável a mestria literária do autor que faz recurso de técnicas expositivas terrivelmente difíceis. É, sem dúvida, um excelente exemplo de um tipo de literatura contemporânea portuguesa que tem angariado alguns e bons seguidores bem mais recentes.

Contudo, é com algum pudor que o digo: penso que me foi tão difícil ler o livro hoje como já tinha sido há sete ou oito anos atrás.

É muito bom se entretanto conseguirmos não desmotivar e ir lendo até encontrar aquele fiozinho que já não nos deixa largá-lo.

Quando aí chegamos, se chegamos, é fantástico.


Maria Celeste Pereira
02.01.2009

24 de novembro de 2009

Marcela Teixeira Barbosa disserta sobre O Esplendor de Portugal

A sobreposição dos espaços em O Esplendor de Portugal



Espaço é sinônimo de simultaneidade, e é por meio desta que se atinge a totalidade da obra.
(Luis Alberto Brandão, Espaços literários e suas expansões, 2007, p.210)

Acompanhados pela ironia de António Lobo Antunes, deparamo-nos, a cada releitura de O Esplendor de Portugal, com a possibilidade de olhar novamente para o período de decadência colonial português e em especial para A Guerra Civil angolana de 1975 a 2002. O romance, de estrutura psicológica e composto por quatro focos narrativos, conta a história da família de Isilda (uma das personagens e dos narradores) que, em meio a tantos problemas, como o alcoolismo, o adultério, a doença e o falecimento de entes queridos, se vê, devido à guerra, obrigada a se separar, tendo os três irmãos, filhos de Isilda, que fugir para Ajuda, em Portugal, e a mãe que permanecer na fazenda de Malanje junto aos seus empregados.
 
Bastante caracterizada pela sua fragmentação, a obra contemporânea nos permite também discutir a nova concepção do homem moderno sobre a realidade, que não é mais concebida na forma romance somente a partir do tempo cronológico, em que passado, presente e futuro se dão linearmente sem se misturarem. Ao contrário disso, O Esplendor de Portugal denota a apreensão da realidade como aquela que é criada e recriada pelo homem, a partir de sua consciência; e com ele, concomitantemente às suas acções no meio: “espaço e tempo, formas relativas da nossa consciência, mas sempre manipuladas como se fossem absolutas, são, por assim dizer, denunciadas como relativas e subjetivas” (ROSENFELD, 1976, p. 81).
 
Dessa forma, quando se fala em sobreposição de espaços neste trabalho, procura-se apontar para o deslocamento repentino dos narradores-personagens entre um espaço e outro, independentemente se esse deslocamento é realizado entre o chamado espaço abstrato, recuperado no passado pelas lembranças daqueles e, de certa maneira, recriado pela memória de cada um, e o espaço concreto, no qual o personagem se encontra no tempo presente.

É de nosso interesse reconhecer, portanto, algumas das características estruturais desse romance de cunho memorialístico e psicológico que possibilitam a mudança ou o permeio dos narradores-personagens por esses diferentes espaços encontrados na obra. Uma dessas características é a forma como se dá o deslocamento do espaço, que não depende de uma aparente ordem exterior e macroscópica, em que tudo se sucede linearmente; ao contrário disso, está diretamente relacionado à ordem interior, ou seja, à memória dos personagens, mostrando, através de recursos da linguagem - como a interrupção de orações e a repetição de frases ou de alguns trechos do enredo - que “Em cada instante, a nossa consciência é uma totalidade que engloba, como atualidade presente, o passado e, além disso, o futuro, como um horizonte de expectativas” (ROSENFELD, 1976, p. 82):
 
a Lena gorda e de cabelo pintado acabou de secar os pratos, empilhou-os no armário, tirou as luvas e saiu para a sala onde estava o pinheiro de Natal (...)
-Já não vês os teus irmãos há 15 anos
fiquei sozinho na cozinha a ouvir o zumbido do frigorífico e a olhar os morros da Almada, a olhar a fazenda do postigo do jipe a medida que nos afastávamos
(O.E.P, p. 12)


Notamos, no trecho acima, que o narrador-personagem descreve a cena de seu tempo presente – Lena arrumando a cozinha após o almoço – ao mesmo tempo em que ressoa na sua mente a fala da esposa, dita anteriormente durante o almoço, “- Já não vês seus irmãos há quinze anos”. No momento seguinte, o movimento de sobrepor o espaço passado sobre o espaço presente é bastante explícito, pois sem nenhum aviso do narrador, o personagem Carlos, que se encontrava na cozinha de sua casa, está nas orações seguintes dentro de um jipe em Angola. Tal movimento é um traço importante para mostrar que os personagens, assim como nós, seres humanos, não pertencem apenas a um único espaço, o concreto do presente, mas a todos os outros nos quais estiveram no passado, principalmente aqueles onde passaram a infância e a juventude.
 
Sabemos que o ato de leitura se dá de maneira linear e sequencial, ou seja, “os signos dispõem-se uns depois dos outros numa sucessão temporal ou espacial” (FIORIN, 2006, p. 65), por isso para alcançar o efeito de simultaneidade, o de que há diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, claramente demonstrado no trecho selecionado e alcançado durante todo o romance, é preciso causar uma aparente desorganização estrutural, “uma continuidade que aparece no seio da descontinuidade" , visto que se segue a ordem da consciência, do fluxo psíquico, alterando, portanto, a ordem comum em enredos tradicionais, que se baseavam na lei de causa e efeito: “com seu encadeamento lógico de motivos e situações com seu início, meio e fim” (ROSENFELD, 1976, p. 84). Sendo assim, podemos fazer uma analogia entre o que afirmou Joseph Frank a respeito da poesia moderna e a estrutura de fluxo de pensamento e a fusão dos tempos e espaços desenvolvidas em O Esplendor de Portugal: “A relação do sentido é completada somente pela percepção simultânea, no espaço, de grupos de palavras que não possuem nenhuma relação compreensível entre si quando lidos consecutivamente no tempo” .
 
Assim, como pudemos perceber no exemplo, em O Esplendor de Portugal, as orações e o enredo, que é extremamente recortado, não obedecem a uma ordem lógica pré-estabelecida, e, por isso, exige a leitura atenta, visto que nem os narradores se mantêm os mesmos, revezando-se dois, um a cada capítulo (Carlos e Isilda na Primeira Parte; Rui e Isilda na Segunda e Clarisse e Isilda na Terceira), o que oferece ao leitor diferentes visões sobre um mesmo espaço compartilhado por todos eles no passado. Logo, podemos afirmar que a sobreposição dos espaços é realizada pelo menos de duas maneiras: através do deslocamento psíquico dos personagens entre o espaço de Portugal, no presente, para o de Angola, no passado; e através das narrações desenvolvidas por cada um, que ao mesmo tempo em que se sobrepõem, pois cada um irá expor seu ponto de vista, se complementam, visto que abordam situações subjetivamente, dando ao romance o caráter de mosaico, “de uma série de elementos descontínuos” (BRANDÃO, 2007, p. 210) que se encontram na totalidade do romance e formam o todo compreensível.
 
Encontramos no texto a fusão entre o espaço concreto (do presente) e o espaço abstrato (do passado ou do futuro), que segundo Luis Alberto Brandão, em seu artigo Espaços literários e suas expansões, podem ser “partes autônomas, concretamente delimitadas, mas que podem estabelecer relações entre si”, ao mesmo tempo em que são também “a interação entre todas as partes, aquilo que lhes concede unidade, a qual só pode se dar em um espaço total, absoluto e abstrato, que é o espaço da obra” (BRANDÃO, 2007, p.210). Exemplo disso está em um dos fragmentos finais do romance, em que, por se encontrar em um angustiante espaço concreto, devastado pela guerra, Isilda imagina-se em uma reunião familiar na noite de Natal: ela cria um espaço abstrato onde realiza o seu grande desejo de estar junto à família. Vemos, então, o espaço da guerra e o outro da ceia de Natal se formarem como partes autônomas, a concreta e a abstrata, e mesmo assim manterem relações entre si, ao mesmo tempo em que se unem formando o espaço absoluto:

as paredes da sala, os bibelôs, os quadros a ecoarem segundo o ritmo das árvores e a cadência das ondas como o algodão durante o jantar quando o Fernando trouxer a canja, o peru, o bolo-rei, os sonhos, as fatias douradas, o espumante, o meu marido acender as velas do pinheiro, O Damião a amontoar os presentes contra a jarra (...) os tractores à porta do armazém, os pavios da senzala confundidos com as escamas do rio e as arestas da pedra onde as mulheres lavavam roupa de manhã, dizer ao Fernando que sirva a canja e o peru enquanto não me mandam subir ara a camioneta com os restantes dos condenados (O.E.P, p. 373).

Outra importante característica estrutural da obra é a polifonia, que funciona como recurso para mostrar que nem o espaço, ao qual o homem está ligado, nem o próprio homem, possuem traços tão nítidos e acabados que possibilitem somente uma única visão ou um único entendimento a respeito deles, bastando somente um novo olhar para que formas consideradas prontas e imutáveis sejam desmontadas para depois serem remontadas diferentemente, sob outro foco. Enquanto Isilda faz digressões ao passado, ora porque não reconhece mais a sua casa depois da partida dos filhos para Portugal, ora porque não reconhece a cidade de Luanda, devido à Guerra que a transformou em “cidade dos defuntos”, os seus filhos se vêem presos ao espaço de Angola não somente pelo sentimento de nostalgia do que era e do que poderia ter sido, como se pode pensar, mas porque além de terem deixado inúmeras situações familiares mal resolvidas, percebem-se no presente em um espaço no qual não se sentem aceitos. Resta-lhes fugir para um espaço seguro no passado, ou idealizar o futuro. Carlos, por exemplo, para se livrar da solidão, idealiza a chegada de seus irmãos à ceia de Natal que preparou em sua casa, chegando ficar horas numa contagem obsessiva enquanto os espera:

eu a contar até cem, até quinhentos, até mil certo que viriam porque mandei um telegrama (...) o Rui daqui a nada no apartamento comigo a oferecer-me um porta-retratos ou um cinzeiro ou um livro, normalíssimo, de sapatos engraxados(...) a Clarisse que daqui a nada me vai saltar ao pescoço agradecida do perfume,(...) a Lena, a Clarisse e o Rui e eu quinze anos depois como se estivéssemos em África (O.E.P, pgs. 20, 38, 43 e 47).

Notamos, então, mais uma relevante função do elemento espaço e de suas sobreposições: a de apontar personagens incompletas e ambíguas, que buscam recordações e reflexões sobre outros tempos e espaços para, se não preencher, pelo menos tentar entender o vazio interior que lhes incomoda, oriundo talvez da falta de afetividade familiar e da ausência de um lugar próprio no mundo, muito bem expresso pelo pai de Isilda, que já previa a expulsão dos portugueses das terras africanas:

expulsos através dos angolanos pelos americanos, os russos, os franceses, os ingleses que não nos aceitam aqui para chegarmos a Lisboa onde não nos aceitam também, carambolando-nos de secretaria em secretaria e ministério em ministério por uma pensão do Estado, despachando-nos como fardos de quarto de aluguer em quarto de aluguer nos subúrbios da cidade (O.E.P, p. 244 e 245).

Seria, entretanto, um grande equívoco considerar que a função do espaço consiste principalmente em melhor caracterizar os personagens, ou seja, ressaltar e enfatizar as suas personalidades. Primeiro, porque, como já discutimos aqui, as personagens desse romance não são delimitadas, maniqueístas e imutáveis. Percebemos, por exemplo, mudanças comportamentais e psicológicas que se dão de forma gradativa em Isilda conforme ela avança no seu percurso pelo território angolano, de Malanje à Luanda. Os “caminhos” percorridos pelos três irmãos, que os levaram a se encontrarem na maneira como os conhecemos, isolados uns dos outros e ao mesmo tempo tão próximos, também são aos poucos revelados, visto que a narrativa é fragmentada e a narração dos mesmos se passa cronologicamente em apenas um dia, no Natal de 1995. Tal esclarecimento, segundo George Lukács, é indispensável, principalmente quando está diretamente relacionado ao enredo, como acontece em O Esplendor de Portugal:

Muitos escritores sentem a necessidade de tornar conhecida a vida íntima dos seus personagens: e isso, sem dúvida, já constitui um avanço. (...) esta vida íntima só pode, também, se tornar significativa, quando ligada ao entrecho de um romance, como premissa, etapa ou consequência de uma ação individual. Em si mesma, a descrição estática da vida íntima é tão natureza morta como a descrição das coisas. (LUKÁCS, 1968, p. 96).

Segundo, porque o espaço é, obviamente, essencial para o bom desenvolvimento do enredo historiográfico. Assim, há momentos na narrativa em que o espaço surge como denúncia da destruição acarretada pela guerra, e da crueldade humana, sendo descrito de forma bem nítida, para que fique bastante demarcada a diferença entre os dois espaços referentes ao mesmo lugar, como por exemplo, a cidade de Luanda:

Luanda era a cidade dos defuntos, ocupada da marginal aos musseques pelo cheiro e os vapores dos defuntos que afugentavam os vivos, mesmo os catangueses de colares de orelhas que se alimentavam de texugos, mesmo os cubanos que juravam alimentar-se de placentas de grávidas, mesmo os mendigos da baía que se alimentavam de si próprios com uma boca virada para dentro a mastigar a mastigar, como Luanda era a cidade dos defuntos (O.E.P, pgs. 316 e 317). Não pode ser Luanda porque não encontro a Samba Pequena, a Samba Grande, a Corimba, o barco do Mussulo. (p. 344)

A denúncia é igualmente bem realizada através da ironia presente na descrição da fazenda, por exemplo, ocupada pelos trabalhadores africanos, que se encontram em estado deplorável de saúde, higiene e, enfim, de direitos humanos básicos:

não se cansavam de morrer de ambiana mal chegavam em camionetas de gado, fingindo-se moídos da viagem para não trabalhar, desatavam logo com vómitos e febre, o administrador teimava que agonizavam de propósito, introduzia um cubo de gelo no ânus do soba para servir de exemplo mas na quarta-feira já o soba estava morto e enterrado e os súbditos, fidelíssimos, apressavam-se a copiá-lo(O.E.P, p. 17).

Torna-se redundante dizer, que, de acordo com algumas das características e das funções espaciais aqui denotadas, António Lobo Antunes alcançou profundidade em sua obra, pois, além de muitos outros fatores, não se prendeu a elementos superficiais no romance, como descrições exaustivas sobre o espaço exterior, da mesma maneira como não menosprezou esse espaço concreto, dando-lhe destaque, quando necessário para o bom desenvolvimento do enredo; assim como não se perdeu em digressões sem sentido ou que seriam dispensáveis a leitura da obra:

o grande escritor deve observar a vida com uma compreensão que não se limite à descrição da superfície exterior dela e nem se limite à colocação em relevo, feita abstratamente, dos fenômenos sociais: cumpre-lhe captar a relação íntima entre necessidade social e os acontecimentos da superfície, construindo um entrecho que seja a síntese poética dessa relação, a sua expressão concentrada (LUKÁCS, 1968, p. 95).

Podemos então dizer que o conhecimento do espaço do romance O Esplendor de Portugalocorre ora através das lembranças do espaço pertencente à memória dos narradores-personagens de tempos passados em Angola, mostrando o quanto eles se encontram enraizados à terra africana, ora através da “volta” dos mesmos ao contexto atual, em Ajuda, seja por um ruído de carro que passa pela rua e alerta Carlos, que aguarda os irmãos ansiosamente, seja pelo desenho animado que passa na televisão e atrai a atenção de Rui ou pelo despertar de Clarisse, que dorme à janela. Aos poucos, o leitor conhece a sala da fazenda de Malanje, a sala do apartamento de Carlos, a clínica em que Rui se encontra internado e a sala da casa de Clarisse, por exemplo. O espaço não é descrito linearmente, pois não estaria de acordo com a estrutura fragmentada do romance; ele surge junto às ações dos personagens que nele atuam, mais narrado do que descrito. Não devemos esquecer de apontar para o caráter essencial de todos os objetos que preenchem o espaço e, por isso, não aparecem gratuitamente na narrativa. Sabemos que há estante com gavetas na sala, porque é nelas que Amadeu esconde as suas garrafas de bebidas alcoólicas, e é na bebida que ele se esconde da vida; tomamos conhecimento do grande relógio da fazenda de Malanje, porque é ele que mantém, como acreditava Carlos na sua infância, viva e segura a sua família, assim como vemos as máscaras decorativas na sala de Lena, porque essas falam a Clarisse. Logo, torna-se relevante dizer que os elementos espaciais representam sempre algo que diz respeito à história dos personagens. É na segurança da casa que os filhos de Isilda buscam se encontrar, voltando-se para a sua história, porque “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador (...) a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem” (BACHELARD, p.23). É por isso que Isilda cria em sua mente, como uma fuga da realidade dura da guerra, uma “casa” em harmonia, pois essa é a maneira por ela encontrada para se proteger da realidade concreta. Enfatizamos, para concluir, a importância da sobreposição desses objetos, espaços, e por que não, narradores-personagens, na estrutura narrativa da obra, que contribuem para o chamado efeito de simultaneidade, permitindo uma apreensão mais complexa e ambígua sobre a realidade e sobre o ser que a ela pertence, tornando o romance um todo fragmentado, que possibilita diversas janelas de interpretação relacionadas à montagem desses fragmentos pelo leitor.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Rio de Janeiro: Eldorado, 19??.
BRANDÃO, Luis Alberto. Espaço literário e suas expansões. Separata de: Aletria: v. 15, p., 207-220, jan./jun, 2007.
DIMAS, Antônio. Espaço e romance.São Paulo: Ática, 1985
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991
LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.
LUKÁCS, George. Narrar e descrever_ in: Ensaios sobre literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
LUKÁCS, George. A teoria do romance: Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Trad. de José Marcos Mariani de Macedo___ São Paulo: Editora 34, 2000.
ROSENFELD, Anatol. Texto e contexto. Rio de Janeiro: Perspectiva, 1976.


por Marcela Teixeira Barbosa
em  MartigoS
13.12.2008

21 de novembro de 2009

José Alexandre Ramos: Memória de Elefante "a primeira angústia"


A primeira vez que li Memória de Elefante, ainda desconhecendo factos da vida do seu autor, estava longe de perceber que este livro era uma biografia. Revisitado muitos anos depois, e com o que fui aprendendo sobre António Lobo Antunes, sinto-me à vontade para apontar sem qualquer sombra de dúvida este livro como um testemunho autobiográfico de um autor que embora não se estreava na arte de escrever, era estreante entre os autores portugueses publicados no final da década de 70. Os conhecedores da história desta estreia já sabem que o autor foi de férias e quando regressou ficou surpreso pois havia muita agitação à volta do livro, estava a ser um sucesso de vendas.

Não é difícil entender esse sucesso se o enquadrarmos na época (1979). O livro surgiu contra muitos cânones, empregando um discurso pouco usual para o romance instituído, embora já tivessem havido excepções à regra uma década antes com Nuno Bragança ou José Cardoso Pires. E como o próprio Lobo Antunes já disse em entrevistas, todos esperavam as grandes obras literárias que antes não se escreviam por causa da censura, e afinal nada de novo surgira após a instauração da democracia. É natural que, numa época ainda muito confusa de um país acabado de se livrar dos grilhões de uma ditadura de meio século, o barroco metafórico de Memória de Elefante, com bastantes críticas sociais feitas com ironia e caricatura, incluindo o uso de vocabulário tido como obsceno, tivesse despertado a curiosidade de muitos leitores.

Como já referi, trata-se de um livro bastante biográfico - um facto por todos reconhecido, incluindo o próprio autor - onde se torna difícil separar a ficção do realmente vivido (ou confessado em entrevistas pelo escritor). Conta um dia na vida de um psiquiatra desde que começa uma jornada de trabalho até à alvorada do dia seguinte, um homem angustiado por uma variada ordem de factores: a mal explicada separação da sua mulher e duas filhas, a frustração profissional no exercício da psiquiatria no mesmo hospital onde trabalhara o seu pai, a solidão e o desespero, o jogo como fuga à realidade, os fantasmas do passado (guerra e infância), a procura de uma voz para a sua escrita. Ou, em poucas palavras, a terrível procura de si mesmo. Nessa circunstância, o livro vai criando uma tensão à volta das indagações interiores do psiquiatra que se esgota nos dois capítulos finais.

Não é na história que conta que está o valor do livro (facto que só será mais evidente uma década depois), apesar do notório interesse do escritor que era então Lobo Antunes de retratar com uma história condensada em um só dia toda a sua experiência. Está antes nas sementes do seu engenho que se tornará cada vez mais claro depois da catarse feita com este livro e mais dois (Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno):Memória de Elefante usa o discurso na terceira pessoa, mas há fugas para o relato na primeira pessoa, que será a marca do estilo do autor. São essas ainda tímidas fugas para o discurso do eu que ajudam a criar a tensão no livro, em que sentimos que o narrador se mistura com a personagem narrada, ocupando-lhe o lugar, para compreendermos que afinal não é história de um dia da vida de um psiquiatra que se pretende falar, mas o que o próprio tem a dizer de si mesmo, acentuando a falta que lhe faz a presença da mulher de quem se separou, das filhas que só vê aos fins-de-semana, a sua indiferença para com os valores padrão da sociedade e dos colegas do hospital, a sua indisponibilidade psicológica para atender os doentes, a ironia com que observa o comportamento dos outros, e a busca dos afectos ainda que termine o dia numa sala de jogo onde se deixa assediar por uma mulher com o dobro da sua idade, com as mesmas carências e com quem acaba por passar a noite.

Referi ao início o barroco metafórico de que é composto o livro. Existem tantas referências culturais e artísticas quantas as abordagens ao pitoresco quotidiano, recorrendo a um verdadeiro rendilhado metafórico que tanto pode impressionar o leitor menos experiente como enfastiar quem já conheça o melhor da obra de António Lobo Antunes. Na realidade, voltar a ler Memória de Elefante depois de ler as obras mais recentes, é como regredir, onde verificamos a veracidade das declarações do próprio escritor: que é preciso limpar bem o livro de toda a ganga, de toda a sujidade. Ora, não entendendo porém este rendilhado metafórico como lhe chamo como algo negativo do livro (pois sem isso o livro nem sequer poderia existir), já não posso qualificá-lo como uma das melhores produções deste escritor, por haver recurso, direi escusado, a tanta comparação e variada metáfora. Enquadrado no contexto da sua obra, percebe-se que é um dos primeiros livros do escritor António Lobo Antunes muito verde onde se encontram, ligeiramente escondidas, as garantias que o autor amadurecerá.

É a primeira das angústias, falando num todo: a catarse do escritor, os primeiros passos para encontrar a mão e a voz que lhe ditará o estilo sui generis que toda a vida vai obcecadamente procurar, a intenção de contar não histórias mas o interior psicológico e afectivo das pessoas, buscando as palavras para o indizível (segundo a sua noção de que os sentimentos são anteriores às palavras), apanhar a vida toda entre as capas de um livro. Memória de Elefante é, de facto, o início disso tudo.
 

por José Alexandre Ramos
21.11.2009

11 de novembro de 2009

Entrevista a Judite de Sousa a propósito de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?





A qualidade dos vídeos não é a melhor, mas dá perfeitamente para entender a entrevista. Este post substitui a antiga entrada no site em "entrevistas" com esta da RTP1 emitida em 22.10.2009.

3 de novembro de 2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, a ver as luzes dos barcos. Não ficou bem, recomeça. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, sem ver as luzes dos barcos. Outra vez, corrigindo a partir de frente ao mar. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, mais a ouvir que olhando e não são as ondas que oiço, é o que mora no interior das ondas e as….”

Assim começa o último capítulo do último livro de António Lobo Antunes. E, aqui chegada, é já com alguma saudade que me vou despedindo de todo um suceder de afectos, ou da sua falta, através dos quais as personagens nos vão levando ora hesitantemente, ora sem dúvidas, fortemente, com raiva mesmo, até desvendarmos a história que o autor nos quer transmitir. Ou será aquela que queremos entender? Provavelmente um pouco de ambas…

Um pouco ao jeito do que li anteriormente (Meu nome é Legião), Também aqui as personagens se identificam pelos seus sentires, os seus desamores mais do que amores, as suas mínguas de carinho, as suas existências amarguradas, todas elas. Algumas quase que apagadas; existindo apenas porque tinham que existir, pelo seu propósito na família, mas não existido de facto, não se sentindo o seu ser.

Então, vamos paulatina e inexoravelmente, assistindo à decadência de uma família ribatejana, em que os cavalos e os toiros são (foram) a sua riqueza e o jogo, a droga, a pedofilia, a doença, a sua ruína.

Devo dizer que estava com uma curiosidade extrema e uma impaciência em relação à leitura deste romance do autor que não me lembro de ter tido com nenhum outro. Devido, sem dúvida, a algumas das afirmações feitas pelo autor nas entrevistas que deu; a algumas críticas que fui lendo entretanto e, sobretudo pelo misto de vontade e de receio que tinha em verificar se seria desta que o autor me iria desiludir…

Nem um pouco! Devo dizer que foi dos seus livros (dos que li, claro), se não o que mais apreciei, sem dúvida ficará no topo juntamente com o que li anteriormente, já referido.

O tipo de escrita que utiliza é, do meu ponto de vista, aquele a que já nos acostumou. A.L.A. consegue subverter a forma da linguagem convencional e torná-la, verdadeiramente, numa arte Maior. Só um trabalho intenso, persistente e acurado consegue um resultado final deste quilate. Um trabalho de mestre, sem dúvida, mas desprovido do hermetismo que o tornaria incompreensível.

Que me recorde (e admito que a memória me esteja a falhar) é o primeiro livro que leio do autor no qual ele próprio se dá voz como António Lobo Antunes, sem qualquer margem para dúvida. Também acontece de as personagens interagirem com ele sentindo-se compelidas a dizer (ou não dizer) algo a mando do autor. Interessante, também, esta interacção.

Um aspecto muito falado relativo à construção deste romance foi a utilização muitas vezes mesmo de sobretudo duas frases que, em jeito de estribilho, vão percorrendo todo o livro. Era também um dos aspectos que eu receava não gostar.

Contudo, tão bem me soube lê-las de todas as vezes que surgiram e que oportuno o seu aparecimento me pareceu sempre. Mais um aspecto de pendor poético a juntar a todos os outros que o autor nos oferece…

Para terminar, dado que não me compete a mim contar a história, apenas aqui quero deixar a impressão que o livro me causou, digo apenas:

Mais um livro que li com imenso agrado. Mais uma saudade que me ficou. Mais uma quantidade de momentos bem passados que eu recomendo.
 

Maria Celeste Pereira
02.11.2009

31 de outubro de 2009

SIC Notícias, entrevistas de Mário Crespo - 3. Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


SIC Notícias - Jornal das 9
emissão do dia 29 Outubro 2009

do lançamento de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?




duração total: 25 minutos aproximadamente

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...