24/11/2009

Marcela Teixeira Barbosa disserta sobre O Esplendor de Portugal

A sobreposição dos espaços em O Esplendor de Portugal



Espaço é sinônimo de simultaneidade, e é por meio desta que se atinge a totalidade da obra.
(Luis Alberto Brandão, Espaços literários e suas expansões, 2007, p.210)

Acompanhados pela ironia de António Lobo Antunes, deparamo-nos, a cada releitura de O Esplendor de Portugal, com a possibilidade de olhar novamente para o período de decadência colonial português e em especial para A Guerra Civil angolana de 1975 a 2002. O romance, de estrutura psicológica e composto por quatro focos narrativos, conta a história da família de Isilda (uma das personagens e dos narradores) que, em meio a tantos problemas, como o alcoolismo, o adultério, a doença e o falecimento de entes queridos, se vê, devido à guerra, obrigada a se separar, tendo os três irmãos, filhos de Isilda, que fugir para Ajuda, em Portugal, e a mãe que permanecer na fazenda de Malanje junto aos seus empregados.
 
Bastante caracterizada pela sua fragmentação, a obra contemporânea nos permite também discutir a nova concepção do homem moderno sobre a realidade, que não é mais concebida na forma romance somente a partir do tempo cronológico, em que passado, presente e futuro se dão linearmente sem se misturarem. Ao contrário disso, O Esplendor de Portugal denota a apreensão da realidade como aquela que é criada e recriada pelo homem, a partir de sua consciência; e com ele, concomitantemente às suas acções no meio: “espaço e tempo, formas relativas da nossa consciência, mas sempre manipuladas como se fossem absolutas, são, por assim dizer, denunciadas como relativas e subjetivas” (ROSENFELD, 1976, p. 81).
 
Dessa forma, quando se fala em sobreposição de espaços neste trabalho, procura-se apontar para o deslocamento repentino dos narradores-personagens entre um espaço e outro, independentemente se esse deslocamento é realizado entre o chamado espaço abstrato, recuperado no passado pelas lembranças daqueles e, de certa maneira, recriado pela memória de cada um, e o espaço concreto, no qual o personagem se encontra no tempo presente.

É de nosso interesse reconhecer, portanto, algumas das características estruturais desse romance de cunho memorialístico e psicológico que possibilitam a mudança ou o permeio dos narradores-personagens por esses diferentes espaços encontrados na obra. Uma dessas características é a forma como se dá o deslocamento do espaço, que não depende de uma aparente ordem exterior e macroscópica, em que tudo se sucede linearmente; ao contrário disso, está diretamente relacionado à ordem interior, ou seja, à memória dos personagens, mostrando, através de recursos da linguagem - como a interrupção de orações e a repetição de frases ou de alguns trechos do enredo - que “Em cada instante, a nossa consciência é uma totalidade que engloba, como atualidade presente, o passado e, além disso, o futuro, como um horizonte de expectativas” (ROSENFELD, 1976, p. 82):
 
a Lena gorda e de cabelo pintado acabou de secar os pratos, empilhou-os no armário, tirou as luvas e saiu para a sala onde estava o pinheiro de Natal (...)
-Já não vês os teus irmãos há 15 anos
fiquei sozinho na cozinha a ouvir o zumbido do frigorífico e a olhar os morros da Almada, a olhar a fazenda do postigo do jipe a medida que nos afastávamos
(O.E.P, p. 12)


Notamos, no trecho acima, que o narrador-personagem descreve a cena de seu tempo presente – Lena arrumando a cozinha após o almoço – ao mesmo tempo em que ressoa na sua mente a fala da esposa, dita anteriormente durante o almoço, “- Já não vês seus irmãos há quinze anos”. No momento seguinte, o movimento de sobrepor o espaço passado sobre o espaço presente é bastante explícito, pois sem nenhum aviso do narrador, o personagem Carlos, que se encontrava na cozinha de sua casa, está nas orações seguintes dentro de um jipe em Angola. Tal movimento é um traço importante para mostrar que os personagens, assim como nós, seres humanos, não pertencem apenas a um único espaço, o concreto do presente, mas a todos os outros nos quais estiveram no passado, principalmente aqueles onde passaram a infância e a juventude.
 
Sabemos que o ato de leitura se dá de maneira linear e sequencial, ou seja, “os signos dispõem-se uns depois dos outros numa sucessão temporal ou espacial” (FIORIN, 2006, p. 65), por isso para alcançar o efeito de simultaneidade, o de que há diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, claramente demonstrado no trecho selecionado e alcançado durante todo o romance, é preciso causar uma aparente desorganização estrutural, “uma continuidade que aparece no seio da descontinuidade" , visto que se segue a ordem da consciência, do fluxo psíquico, alterando, portanto, a ordem comum em enredos tradicionais, que se baseavam na lei de causa e efeito: “com seu encadeamento lógico de motivos e situações com seu início, meio e fim” (ROSENFELD, 1976, p. 84). Sendo assim, podemos fazer uma analogia entre o que afirmou Joseph Frank a respeito da poesia moderna e a estrutura de fluxo de pensamento e a fusão dos tempos e espaços desenvolvidas em O Esplendor de Portugal: “A relação do sentido é completada somente pela percepção simultânea, no espaço, de grupos de palavras que não possuem nenhuma relação compreensível entre si quando lidos consecutivamente no tempo” .
 
Assim, como pudemos perceber no exemplo, em O Esplendor de Portugal, as orações e o enredo, que é extremamente recortado, não obedecem a uma ordem lógica pré-estabelecida, e, por isso, exige a leitura atenta, visto que nem os narradores se mantêm os mesmos, revezando-se dois, um a cada capítulo (Carlos e Isilda na Primeira Parte; Rui e Isilda na Segunda e Clarisse e Isilda na Terceira), o que oferece ao leitor diferentes visões sobre um mesmo espaço compartilhado por todos eles no passado. Logo, podemos afirmar que a sobreposição dos espaços é realizada pelo menos de duas maneiras: através do deslocamento psíquico dos personagens entre o espaço de Portugal, no presente, para o de Angola, no passado; e através das narrações desenvolvidas por cada um, que ao mesmo tempo em que se sobrepõem, pois cada um irá expor seu ponto de vista, se complementam, visto que abordam situações subjetivamente, dando ao romance o caráter de mosaico, “de uma série de elementos descontínuos” (BRANDÃO, 2007, p. 210) que se encontram na totalidade do romance e formam o todo compreensível.
 
Encontramos no texto a fusão entre o espaço concreto (do presente) e o espaço abstrato (do passado ou do futuro), que segundo Luis Alberto Brandão, em seu artigo Espaços literários e suas expansões, podem ser “partes autônomas, concretamente delimitadas, mas que podem estabelecer relações entre si”, ao mesmo tempo em que são também “a interação entre todas as partes, aquilo que lhes concede unidade, a qual só pode se dar em um espaço total, absoluto e abstrato, que é o espaço da obra” (BRANDÃO, 2007, p.210). Exemplo disso está em um dos fragmentos finais do romance, em que, por se encontrar em um angustiante espaço concreto, devastado pela guerra, Isilda imagina-se em uma reunião familiar na noite de Natal: ela cria um espaço abstrato onde realiza o seu grande desejo de estar junto à família. Vemos, então, o espaço da guerra e o outro da ceia de Natal se formarem como partes autônomas, a concreta e a abstrata, e mesmo assim manterem relações entre si, ao mesmo tempo em que se unem formando o espaço absoluto:

as paredes da sala, os bibelôs, os quadros a ecoarem segundo o ritmo das árvores e a cadência das ondas como o algodão durante o jantar quando o Fernando trouxer a canja, o peru, o bolo-rei, os sonhos, as fatias douradas, o espumante, o meu marido acender as velas do pinheiro, O Damião a amontoar os presentes contra a jarra (...) os tractores à porta do armazém, os pavios da senzala confundidos com as escamas do rio e as arestas da pedra onde as mulheres lavavam roupa de manhã, dizer ao Fernando que sirva a canja e o peru enquanto não me mandam subir ara a camioneta com os restantes dos condenados (O.E.P, p. 373).

Outra importante característica estrutural da obra é a polifonia, que funciona como recurso para mostrar que nem o espaço, ao qual o homem está ligado, nem o próprio homem, possuem traços tão nítidos e acabados que possibilitem somente uma única visão ou um único entendimento a respeito deles, bastando somente um novo olhar para que formas consideradas prontas e imutáveis sejam desmontadas para depois serem remontadas diferentemente, sob outro foco. Enquanto Isilda faz digressões ao passado, ora porque não reconhece mais a sua casa depois da partida dos filhos para Portugal, ora porque não reconhece a cidade de Luanda, devido à Guerra que a transformou em “cidade dos defuntos”, os seus filhos se vêem presos ao espaço de Angola não somente pelo sentimento de nostalgia do que era e do que poderia ter sido, como se pode pensar, mas porque além de terem deixado inúmeras situações familiares mal resolvidas, percebem-se no presente em um espaço no qual não se sentem aceitos. Resta-lhes fugir para um espaço seguro no passado, ou idealizar o futuro. Carlos, por exemplo, para se livrar da solidão, idealiza a chegada de seus irmãos à ceia de Natal que preparou em sua casa, chegando ficar horas numa contagem obsessiva enquanto os espera:

eu a contar até cem, até quinhentos, até mil certo que viriam porque mandei um telegrama (...) o Rui daqui a nada no apartamento comigo a oferecer-me um porta-retratos ou um cinzeiro ou um livro, normalíssimo, de sapatos engraxados(...) a Clarisse que daqui a nada me vai saltar ao pescoço agradecida do perfume,(...) a Lena, a Clarisse e o Rui e eu quinze anos depois como se estivéssemos em África (O.E.P, pgs. 20, 38, 43 e 47).

Notamos, então, mais uma relevante função do elemento espaço e de suas sobreposições: a de apontar personagens incompletas e ambíguas, que buscam recordações e reflexões sobre outros tempos e espaços para, se não preencher, pelo menos tentar entender o vazio interior que lhes incomoda, oriundo talvez da falta de afetividade familiar e da ausência de um lugar próprio no mundo, muito bem expresso pelo pai de Isilda, que já previa a expulsão dos portugueses das terras africanas:

expulsos através dos angolanos pelos americanos, os russos, os franceses, os ingleses que não nos aceitam aqui para chegarmos a Lisboa onde não nos aceitam também, carambolando-nos de secretaria em secretaria e ministério em ministério por uma pensão do Estado, despachando-nos como fardos de quarto de aluguer em quarto de aluguer nos subúrbios da cidade (O.E.P, p. 244 e 245).

Seria, entretanto, um grande equívoco considerar que a função do espaço consiste principalmente em melhor caracterizar os personagens, ou seja, ressaltar e enfatizar as suas personalidades. Primeiro, porque, como já discutimos aqui, as personagens desse romance não são delimitadas, maniqueístas e imutáveis. Percebemos, por exemplo, mudanças comportamentais e psicológicas que se dão de forma gradativa em Isilda conforme ela avança no seu percurso pelo território angolano, de Malanje à Luanda. Os “caminhos” percorridos pelos três irmãos, que os levaram a se encontrarem na maneira como os conhecemos, isolados uns dos outros e ao mesmo tempo tão próximos, também são aos poucos revelados, visto que a narrativa é fragmentada e a narração dos mesmos se passa cronologicamente em apenas um dia, no Natal de 1995. Tal esclarecimento, segundo George Lukács, é indispensável, principalmente quando está diretamente relacionado ao enredo, como acontece em O Esplendor de Portugal:

Muitos escritores sentem a necessidade de tornar conhecida a vida íntima dos seus personagens: e isso, sem dúvida, já constitui um avanço. (...) esta vida íntima só pode, também, se tornar significativa, quando ligada ao entrecho de um romance, como premissa, etapa ou consequência de uma ação individual. Em si mesma, a descrição estática da vida íntima é tão natureza morta como a descrição das coisas. (LUKÁCS, 1968, p. 96).

Segundo, porque o espaço é, obviamente, essencial para o bom desenvolvimento do enredo historiográfico. Assim, há momentos na narrativa em que o espaço surge como denúncia da destruição acarretada pela guerra, e da crueldade humana, sendo descrito de forma bem nítida, para que fique bastante demarcada a diferença entre os dois espaços referentes ao mesmo lugar, como por exemplo, a cidade de Luanda:

Luanda era a cidade dos defuntos, ocupada da marginal aos musseques pelo cheiro e os vapores dos defuntos que afugentavam os vivos, mesmo os catangueses de colares de orelhas que se alimentavam de texugos, mesmo os cubanos que juravam alimentar-se de placentas de grávidas, mesmo os mendigos da baía que se alimentavam de si próprios com uma boca virada para dentro a mastigar a mastigar, como Luanda era a cidade dos defuntos (O.E.P, pgs. 316 e 317). Não pode ser Luanda porque não encontro a Samba Pequena, a Samba Grande, a Corimba, o barco do Mussulo. (p. 344)

A denúncia é igualmente bem realizada através da ironia presente na descrição da fazenda, por exemplo, ocupada pelos trabalhadores africanos, que se encontram em estado deplorável de saúde, higiene e, enfim, de direitos humanos básicos:

não se cansavam de morrer de ambiana mal chegavam em camionetas de gado, fingindo-se moídos da viagem para não trabalhar, desatavam logo com vómitos e febre, o administrador teimava que agonizavam de propósito, introduzia um cubo de gelo no ânus do soba para servir de exemplo mas na quarta-feira já o soba estava morto e enterrado e os súbditos, fidelíssimos, apressavam-se a copiá-lo(O.E.P, p. 17).

Torna-se redundante dizer, que, de acordo com algumas das características e das funções espaciais aqui denotadas, António Lobo Antunes alcançou profundidade em sua obra, pois, além de muitos outros fatores, não se prendeu a elementos superficiais no romance, como descrições exaustivas sobre o espaço exterior, da mesma maneira como não menosprezou esse espaço concreto, dando-lhe destaque, quando necessário para o bom desenvolvimento do enredo; assim como não se perdeu em digressões sem sentido ou que seriam dispensáveis a leitura da obra:

o grande escritor deve observar a vida com uma compreensão que não se limite à descrição da superfície exterior dela e nem se limite à colocação em relevo, feita abstratamente, dos fenômenos sociais: cumpre-lhe captar a relação íntima entre necessidade social e os acontecimentos da superfície, construindo um entrecho que seja a síntese poética dessa relação, a sua expressão concentrada (LUKÁCS, 1968, p. 95).

Podemos então dizer que o conhecimento do espaço do romance O Esplendor de Portugalocorre ora através das lembranças do espaço pertencente à memória dos narradores-personagens de tempos passados em Angola, mostrando o quanto eles se encontram enraizados à terra africana, ora através da “volta” dos mesmos ao contexto atual, em Ajuda, seja por um ruído de carro que passa pela rua e alerta Carlos, que aguarda os irmãos ansiosamente, seja pelo desenho animado que passa na televisão e atrai a atenção de Rui ou pelo despertar de Clarisse, que dorme à janela. Aos poucos, o leitor conhece a sala da fazenda de Malanje, a sala do apartamento de Carlos, a clínica em que Rui se encontra internado e a sala da casa de Clarisse, por exemplo. O espaço não é descrito linearmente, pois não estaria de acordo com a estrutura fragmentada do romance; ele surge junto às ações dos personagens que nele atuam, mais narrado do que descrito. Não devemos esquecer de apontar para o caráter essencial de todos os objetos que preenchem o espaço e, por isso, não aparecem gratuitamente na narrativa. Sabemos que há estante com gavetas na sala, porque é nelas que Amadeu esconde as suas garrafas de bebidas alcoólicas, e é na bebida que ele se esconde da vida; tomamos conhecimento do grande relógio da fazenda de Malanje, porque é ele que mantém, como acreditava Carlos na sua infância, viva e segura a sua família, assim como vemos as máscaras decorativas na sala de Lena, porque essas falam a Clarisse. Logo, torna-se relevante dizer que os elementos espaciais representam sempre algo que diz respeito à história dos personagens. É na segurança da casa que os filhos de Isilda buscam se encontrar, voltando-se para a sua história, porque “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador (...) a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem” (BACHELARD, p.23). É por isso que Isilda cria em sua mente, como uma fuga da realidade dura da guerra, uma “casa” em harmonia, pois essa é a maneira por ela encontrada para se proteger da realidade concreta. Enfatizamos, para concluir, a importância da sobreposição desses objetos, espaços, e por que não, narradores-personagens, na estrutura narrativa da obra, que contribuem para o chamado efeito de simultaneidade, permitindo uma apreensão mais complexa e ambígua sobre a realidade e sobre o ser que a ela pertence, tornando o romance um todo fragmentado, que possibilita diversas janelas de interpretação relacionadas à montagem desses fragmentos pelo leitor.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Rio de Janeiro: Eldorado, 19??.
BRANDÃO, Luis Alberto. Espaço literário e suas expansões. Separata de: Aletria: v. 15, p., 207-220, jan./jun, 2007.
DIMAS, Antônio. Espaço e romance.São Paulo: Ática, 1985
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991
LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.
LUKÁCS, George. Narrar e descrever_ in: Ensaios sobre literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
LUKÁCS, George. A teoria do romance: Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Trad. de José Marcos Mariani de Macedo___ São Paulo: Editora 34, 2000.
ROSENFELD, Anatol. Texto e contexto. Rio de Janeiro: Perspectiva, 1976.


por Marcela Teixeira Barbosa
em  MartigoS
13.12.2008

21/11/2009

José Alexandre Ramos: Memória de Elefante "a primeira angústia"


A primeira vez que li Memória de Elefante, ainda desconhecendo factos da vida do seu autor, estava longe de perceber que este livro era uma biografia. Revisitado muitos anos depois, e com o que fui aprendendo sobre António Lobo Antunes, sinto-me à vontade para apontar sem qualquer sombra de dúvida este livro como um testemunho autobiográfico de um autor que embora não se estreava na arte de escrever, era estreante entre os autores portugueses publicados no final da década de 70. Os conhecedores da história desta estreia já sabem que o autor foi de férias e quando regressou ficou surpreso pois havia muita agitação à volta do livro, estava a ser um sucesso de vendas.

Não é difícil entender esse sucesso se o enquadrarmos na época (1979). O livro surgiu contra muitos cânones, empregando um discurso pouco usual para o romance instituído, embora já tivessem havido excepções à regra uma década antes com Nuno Bragança ou José Cardoso Pires. E como o próprio Lobo Antunes já disse em entrevistas, todos esperavam as grandes obras literárias que antes não se escreviam por causa da censura, e afinal nada de novo surgira após a instauração da democracia. É natural que, numa época ainda muito confusa de um país acabado de se livrar dos grilhões de uma ditadura de meio século, o barroco metafórico de Memória de Elefante, com bastantes críticas sociais feitas com ironia e caricatura, incluindo o uso de vocabulário tido como obsceno, tivesse despertado a curiosidade de muitos leitores.

Como já referi, trata-se de um livro bastante biográfico - um facto por todos reconhecido, incluindo o próprio autor - onde se torna difícil separar a ficção do realmente vivido (ou confessado em entrevistas pelo escritor). Conta um dia na vida de um psiquiatra desde que começa uma jornada de trabalho até à alvorada do dia seguinte, um homem angustiado por uma variada ordem de factores: a mal explicada separação da sua mulher e duas filhas, a frustração profissional no exercício da psiquiatria no mesmo hospital onde trabalhara o seu pai, a solidão e o desespero, o jogo como fuga à realidade, os fantasmas do passado (guerra e infância), a procura de uma voz para a sua escrita. Ou, em poucas palavras, a terrível procura de si mesmo. Nessa circunstância, o livro vai criando uma tensão à volta das indagações interiores do psiquiatra que se esgota nos dois capítulos finais.

Não é na história que conta que está o valor do livro (facto que só será mais evidente uma década depois), apesar do notório interesse do escritor que era então Lobo Antunes de retratar com uma história condensada em um só dia toda a sua experiência. Está antes nas sementes do seu engenho que se tornará cada vez mais claro depois da catarse feita com este livro e mais dois (Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno):Memória de Elefante usa o discurso na terceira pessoa, mas há fugas para o relato na primeira pessoa, que será a marca do estilo do autor. São essas ainda tímidas fugas para o discurso do eu que ajudam a criar a tensão no livro, em que sentimos que o narrador se mistura com a personagem narrada, ocupando-lhe o lugar, para compreendermos que afinal não é história de um dia da vida de um psiquiatra que se pretende falar, mas o que o próprio tem a dizer de si mesmo, acentuando a falta que lhe faz a presença da mulher de quem se separou, das filhas que só vê aos fins-de-semana, a sua indiferença para com os valores padrão da sociedade e dos colegas do hospital, a sua indisponibilidade psicológica para atender os doentes, a ironia com que observa o comportamento dos outros, e a busca dos afectos ainda que termine o dia numa sala de jogo onde se deixa assediar por uma mulher com o dobro da sua idade, com as mesmas carências e com quem acaba por passar a noite.

Referi ao início o barroco metafórico de que é composto o livro. Existem tantas referências culturais e artísticas quantas as abordagens ao pitoresco quotidiano, recorrendo a um verdadeiro rendilhado metafórico que tanto pode impressionar o leitor menos experiente como enfastiar quem já conheça o melhor da obra de António Lobo Antunes. Na realidade, voltar a ler Memória de Elefante depois de ler as obras mais recentes, é como regredir, onde verificamos a veracidade das declarações do próprio escritor: que é preciso limpar bem o livro de toda a ganga, de toda a sujidade. Ora, não entendendo porém este rendilhado metafórico como lhe chamo como algo negativo do livro (pois sem isso o livro nem sequer poderia existir), já não posso qualificá-lo como uma das melhores produções deste escritor, por haver recurso, direi escusado, a tanta comparação e variada metáfora. Enquadrado no contexto da sua obra, percebe-se que é um dos primeiros livros do escritor António Lobo Antunes muito verde onde se encontram, ligeiramente escondidas, as garantias que o autor amadurecerá.

É a primeira das angústias, falando num todo: a catarse do escritor, os primeiros passos para encontrar a mão e a voz que lhe ditará o estilo sui generis que toda a vida vai obcecadamente procurar, a intenção de contar não histórias mas o interior psicológico e afectivo das pessoas, buscando as palavras para o indizível (segundo a sua noção de que os sentimentos são anteriores às palavras), apanhar a vida toda entre as capas de um livro. Memória de Elefante é, de facto, o início disso tudo.
 

por José Alexandre Ramos
21.11.2009

11/11/2009

Entrevista a Judite de Sousa a propósito de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?





A qualidade dos vídeos não é a melhor, mas dá perfeitamente para entender a entrevista. Este post substitui a antiga entrada no site em "entrevistas" com esta da RTP1 emitida em 22.10.2009.

03/11/2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, a ver as luzes dos barcos. Não ficou bem, recomeça. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, sem ver as luzes dos barcos. Outra vez, corrigindo a partir de frente ao mar. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, mais a ouvir que olhando e não são as ondas que oiço, é o que mora no interior das ondas e as….”

Assim começa o último capítulo do último livro de António Lobo Antunes. E, aqui chegada, é já com alguma saudade que me vou despedindo de todo um suceder de afectos, ou da sua falta, através dos quais as personagens nos vão levando ora hesitantemente, ora sem dúvidas, fortemente, com raiva mesmo, até desvendarmos a história que o autor nos quer transmitir. Ou será aquela que queremos entender? Provavelmente um pouco de ambas…

Um pouco ao jeito do que li anteriormente (Meu nome é Legião), Também aqui as personagens se identificam pelos seus sentires, os seus desamores mais do que amores, as suas mínguas de carinho, as suas existências amarguradas, todas elas. Algumas quase que apagadas; existindo apenas porque tinham que existir, pelo seu propósito na família, mas não existido de facto, não se sentindo o seu ser.

Então, vamos paulatina e inexoravelmente, assistindo à decadência de uma família ribatejana, em que os cavalos e os toiros são (foram) a sua riqueza e o jogo, a droga, a pedofilia, a doença, a sua ruína.

Devo dizer que estava com uma curiosidade extrema e uma impaciência em relação à leitura deste romance do autor que não me lembro de ter tido com nenhum outro. Devido, sem dúvida, a algumas das afirmações feitas pelo autor nas entrevistas que deu; a algumas críticas que fui lendo entretanto e, sobretudo pelo misto de vontade e de receio que tinha em verificar se seria desta que o autor me iria desiludir…

Nem um pouco! Devo dizer que foi dos seus livros (dos que li, claro), se não o que mais apreciei, sem dúvida ficará no topo juntamente com o que li anteriormente, já referido.

O tipo de escrita que utiliza é, do meu ponto de vista, aquele a que já nos acostumou. A.L.A. consegue subverter a forma da linguagem convencional e torná-la, verdadeiramente, numa arte Maior. Só um trabalho intenso, persistente e acurado consegue um resultado final deste quilate. Um trabalho de mestre, sem dúvida, mas desprovido do hermetismo que o tornaria incompreensível.

Que me recorde (e admito que a memória me esteja a falhar) é o primeiro livro que leio do autor no qual ele próprio se dá voz como António Lobo Antunes, sem qualquer margem para dúvida. Também acontece de as personagens interagirem com ele sentindo-se compelidas a dizer (ou não dizer) algo a mando do autor. Interessante, também, esta interacção.

Um aspecto muito falado relativo à construção deste romance foi a utilização muitas vezes mesmo de sobretudo duas frases que, em jeito de estribilho, vão percorrendo todo o livro. Era também um dos aspectos que eu receava não gostar.

Contudo, tão bem me soube lê-las de todas as vezes que surgiram e que oportuno o seu aparecimento me pareceu sempre. Mais um aspecto de pendor poético a juntar a todos os outros que o autor nos oferece…

Para terminar, dado que não me compete a mim contar a história, apenas aqui quero deixar a impressão que o livro me causou, digo apenas:

Mais um livro que li com imenso agrado. Mais uma saudade que me ficou. Mais uma quantidade de momentos bem passados que eu recomendo.
 

Maria Celeste Pereira
02.11.2009

25/10/2009

Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes


Ípsilon, suplemento do jornal Público - entrevista de Alexandra Lucas Coelho
23.10.2009


Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes

A gente quer andar mais pela rua. Ouvi-lo com o merceeiro, a cabeleireira, o flautista da GNR, a dona do quiosque, mas ele dá-nos a volta. Conde de Redondo, Gomes Freire, Gonçalves Crespo, Conde de Redondo. Quando damos por isso estamos outra vez em casa. A casa é como a cabeça dele: livros, livros, livros.


1. A casa

Em que pensa um lisboeta quando lhe falam no Conde de Redondo? Em travestis. Na Judiciária. Numa daquelas ruas cheias de autocarros para cima e para baixo, com pensões de passagem e montras de bairro. Uma rua onde não se passeia, a não ser quem lá mora.
 
Agora mora lá António Lobo Antunes. Mudou-se há dois anos para uma casa que por fora é Conde de Redondo e por dentro podia ser Nova Iorque ou Zurique. Prédio recuperado por um arquitecto, átrio em pedra escura, ferro, madeira, luzes a acender conforme andamos. Um elevador silencioso e, quando a porta desliza, uma espécie de antecâmara do templo: António Lobo Antunes em alemão (a propósito de "Manual dos Inquisidores"), António Lobo Antunes em francês ("António Lobo Antunes et le livre total"), António Lobo Antunes tão novo (ele diria: "quando eu era bonito"), cada poster na sua moldura e por cima a assinatura manuscrita a preto na parede do patamar: António Lobo Antunes.
 
A porta de casa abre-se e aqui está ele - quase novo, quase magro, metade do que estava antes do cancro, aquele olho azul vagueante.
 
Cumprimenta, faz entrar, começa a mostrar tudo.
 
- Gosto desta casa porque é aberta para dentro.
 
O Conde de Redondo é mesmo lá fora, até se vê uma nesga do prédio em frente, encardido, cheio de marquises, e ouve-se, porque a janela está aberta. Mas a casa parece estar fora da cidade, suspensa. Um casulo muito amplo e alto, forrado a livros, todo branco, cinza e ocre, luz coada, linhas rectas sem um grão de pó - e nem uma conta da água, um casaco numa cadeira, um maço de SG Gigante, uma beata, nada.
 
É como se António Lobo Antunes se tivesse mudado para aqui ontem com a roupa que traz no corpo: ele, algumas imagens emolduradas e muitos milhares de livros.
 
- Isto estava na rua - diz, pondo a mão numa formidável mesa de carpinteiro, ainda com os armários de ferramentas e o torno de ferro, que faz as vezes de aparador entre a sala e a cozinha.
 
E a cozinha, virgem, imaculada, espera um chefe que a inaugure, com a mesa de jantar ao fundo e uma estante à cabeceira.
 
De resto, há livros ao longo de todas as paredes, livros de lombada partida, meticulosamente arrumados até à beirinha em estantes claras e sólidas, pouco profundas, sem espaço de sobra para aquelas coisas que as pessoas acumulam em frente aos livros.
 
- Quem lhe fez estas estantes?
- Foi um amigo - atalha. Portanto, era uma pergunta indiscreta, quase como perguntar-lhe por Deus.
 
Eis a biblioteca de um leitor compulsivo, maníaco. Enquanto os repórteres a vêem de perto, ele recua de mãos nos bolsos, mas aqui e ali avança para corrigir uma lombada.
 
- Não gosto de ver as coisas fora do sítio.
 
Que imaginavam? Caos e fumo? É que nem fumo, apesar de António Lobo Antunes ter sempre um cigarro aceso.
 
Mas quem já viu as folhas onde ele desenha as letras (ele gosta de dizer que desenha as letras), talvez reconheça esta disciplina de quem foi educado num mundo antigo (sem cotovelos em cima da mesa).
 
Está com 67 anos, o primogénito Lobo Antunes, e as vezes que fintou a morte, desde a tropa em Angola.
 
No livro que acaba de publicar, "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar", a morte é a matéria de toda uma família - uma filha que morre de cancro, um filho que tem "a doença, a doença, a doença", uma mãe que sempre foi gorda e de repente a roupa está-lhe larga, vai morrer às seis em ponto da tarde, como num poema de Lorca.
 
É um livro com toiros ao fundo (António Lobo Antunes escreve toiros, à antiga).
 
Toiros, azinheiras e uma quinta a alternarem com a casa de Lisboa, o baldio de Lisboa onde uma filha compra droga de injectar, o parque de Lisboa onde um filho compra sexo com meninos, mas tudo isto mesmo lá ao fundo, porque na verdade (como sabe quem o lê) o livro não se passa em lado algum a não ser na cabeça de quem o escreve.
 
E António Lobo Antunes vai aparecendo mais uma vez com o seu próprio nome, invocado, descomposto por pai, mãe e filhos enquanto "aquele que escreve o livro".
 
E mais uma vez este será "o último livro", "o testamento", neste caso dividido nas etapas da corrida de toiros, até que o autor declara "finis laus deo", fim, graças a deus.
 
E quando o leitor vê isto fica a saber que, claro, não é o fim, pois se aquele livro não acabou com António Lobo Antunes, António Lobo Antunes começará outro, mais uma vez.
E assim foi.
 
No começo de 2009, mal acabou de rever "Que Cavalos..." (título, diz ele, de uma canção rural do século XIX), pôs-se a escrever mais uma resma com letras desenhadas. [...] Está em fase de revisão.
 
Lá chegaremos, à resma e à poesia, ali uns degraus acima, numa espécie de pequena mezanine onde o autor agora trabalha.
 
Cá em baixo, junto à janela, a primeira estante tem toda uma prateleira de Odisseias e Ilíadas em várias traduções, depois uma prateleira de Bíblias, Corões e livros sobre religião, e antes de passarmos à terceira prateleira já Lobo Antunes se adianta pela sala.
 
- Quem é este? - desafia, agarrando uma edição francesa, com o polegar firmemente em cima do nome do autor. Só se vê o título: "Carnets". E a fotografia da capa mostra um homem jovem de chapéu e feições finas. A gente pensa em Ezra Pound mas já passou o tempo:
 
- Sua ignorante - diz o autor, movendo o polegar.
É Tchekov, muito novo, sem a cara redonda dos retratos posteriores.
 
A gente diz que está parecido com Ezra Pound, mas o autor acha que está parecido com Johnny Depp - o que vai dar ao mesmo porque Ezra Pound também é parecido com Johnny Depp (ou vice-versa). E entretanto o autor já foi buscar um álbum de fotografias de Tchekov para mostrar como era bonito em todas as fases.
 
Não é comum nos heterossexuais da sua geração, mas quando António Lobo Antunes fala de um homem bonito diz que ele é bonito, de Luandino Vieira a Le Clézio, e muitas vezes começa mesmo por aí.
 
Talvez por também isso não lhe ter faltado - ser bonito.
 
Mas sigamo-lo, porque ainda faltam as fotografias antes de sairmos para o Conde de Redondo, tal como lhe foi proposto.
 
- A estante dos favoritos é aquela - resume.
 
A saber: uma prateleira de Tolstois; outra de Joyces e Pounds; outra de Shakespeares e Dantes; outra com Gogol, Tchekov, Lewis Carroll, William Gaddis; outra com Conrad...
 
- Isto é uma primeira edição que fanei em Chicago.
 
... e Salinger; ou ainda: Rabelais, Cervantes, Eugene O'Neill, Stendhal, Doistoievski, Flaubert.
 
- Não são todos os que gosto, faltam alguns. As Bröntés, a George Eliot estão no corredor...
 
Contorna os sofás.
 
- Isto é do Ikea - gesto largo. - Mas também tenho Philippe Starck.
 
Sobe os degraus para a mezanine e aponta uma pequena mesa quadrada com quatro cadeiras.
 
- Não parece mas é confortável, sente-se lá.
 
A gente senta-se. Muito confortável, com a vantagem - qual Philippe Starck - de termos à mão mil páginas de letras redondas, infantis. Papel, caneta, um cinzeiro-espelho de tão limpo. E na parede mesmo à direita, só poesia.
 
António Lobo Antunes espeta o dedo num Auden.
 
- Este tipo é um grande poeta. Deste também gosto muito [William Carlos Williams]. Esta é uma primeira edição [Lorca, obras completas]. Tem isto? Vale mesmo a pena [Blake, obras completas]. Até aqui tenho poetas de segunda como o Neruda.
 
Da mezanine vai-se para os quartos, passando pela estante dos ingleses: Jane Austen, Virginia Woolf, muitos Graham Greene muito lidos. Em frente, há ensaios; dobrando a esquina, policiais - edições de bolso amolgadas.
 
- Isto é só uma escolha - acentua ele, explicando que muitos caixotes não chegaram a vir.
 
Depois, o primeiro quarto tem centenas de livros e um único autor: António Lobo Antunes.
 
- São as traduções - Uma parede inteira de línguas e alfabetos, de todos os tamanhos e géneros. Há capas feitas sobretudo com letras, e capas como a da edição americana de "Que Farei Quando Tudo Arde", com uma boca de "pin up" entreaberta (uma das favoritas do autor, até está em poster na sala).
 
E finalmente António Lobo Antunes entra no seu próprio quarto "en suite", onde também há estantes altas e baixas. As baixas mantém-se vazias, à espera. Nas altas acham-se os autores portugueses, desde as crónicas medievais.
 
A cama está desfeita.
 
- Peço desculpa.
 
Mas é a prova da existência do homem. E em frente à cama, a grande luz de Marilyn, a rir de perfil.
 
- Uma publicidade para a Chanel - fanada algures, conta ele.
 
Linda.
 
2. A rua
 
E saímos, sim, saímos - como diria Cesariny.
 
No elevador, António Lobo Antunes fala no estado ideal para escrever (entre sono e acordar, ou quando se está cansado), e a gente lembra-se de ele já ter falado disto.
 
Mas o problema com quem deu milhares de entrevistas, e acaba agora de ver sair um livro com mais algumas ("Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes", de João Céu e Silva), é que já a gente já não sabe quando algo é novo. Provavelmente, nem ele.
 
Pára no átrio para abrir o correio. Há uma revista estrangeira.
 
- Quer? - oferece o autor. - Para saber se deito fora.
 
Quando a porta da rua se abre, é como levar um estalo. Cá está a cidade, autocarros a deslocarem massas de ar. Mas dobrando a esquina, uma aldeia.
 
- Gosto deste bairro, porque são merceariazinhas, padariazinhas, lojinhas, parece que estou em Benfica outra vez. Costumo sair para comer aqui à volta, e depois voltar a casa é um sentimento de paz. Eu trabalhava na Gonçalves Crespo, havia um letreiro aqui a dizer-se "Vende-se" e vim ver com a Tereza.
 
Tereza Coelho, sua editora na Dom Quixote. Morreu em Janeiro.
 
- Faz-me muita falta, a Tereza. Era uma óptima leitora. A divisa dela era a dos marines americanos: "Se fosse fácil não era para nós." E tinha a felicidade de ter um marido [Rui Cardoso Martins] que é um homem único. Tenho a maior admiração pelo Rui. É um homem que eu beijo.
 
Viramos para a Gomes Freire.
 
Raparigas indianas no quiosque onde António Lobo Antunes compra sempre, e hoje também.
 
- Olá, bom dia, doutor - diz a vendedora.
 
Ele sorri-lhe, de mãos no mar, nem uma palavra, ela volta costas e sai um pacote de 10 maços de SG Gigante.
 
- A gente já se entende sem falar.
 
Jornais e revistas, népias.
 
Voltamos à direita e ele aponta uns azulejos por cima de uma porta.
 
- Olhe, este painel encantava-me. Ainda pensei vir aqui fanar isto à noite, e depois descobri que havia muitos iguais.
 
É um Camões retratado em 1907, com a evocação: "E vós, tágides minhas..." Agora, do outro lado da rua tem um Club Welness.
 
Entretanto Lobo Antunes está a falar mal de Musil.
 
- Não gosto. Tal como há livros maus de que gosto, há livros bons de que não gosto. Musil, Thomas Mann...
 
Thomas Mann também?
 
- Tirando a "Montanha Mágica" e passagens do "Doutor Fausto", chateia-me de morte.
 
Para onde estamos a ir?
 
- O carteiro deixa-me correio numa merceariazinha.
 
A casa nova tem só dois anos, mas a ligação a este bairro é antiga. António Lobo Antunes costumava escrever na garagem-atelier de um parente, ali adiante, e é à mercearia ao lado que agora vai ver do correio, e tratando o merceeiro pelo nome:
 
- A sua senhora não está? Então dê-lhe os bons dias por mim. Quando é que vai à doutora? Olhe que eu na quarta-feira venho cá buscar os iogurtes.
 
Para o pequeno-almoço, a única refeição que toma em casa.
 
E, chave na mão, abre a garagem-atelier, a esta hora deserta.
 
- Venho aqui uma vez por semana - explica, a apanhar envelopes do chão.
 
Cada bairro é um xadrez, com os seus reis, e é disso que António Lobo Antunes agora fala, da malandragem. A gente sabe como ele gostava de ter sido o Cisco Kid, e já viu o que ele leu de policiais.
 
Entretanto, o sol, aquece as nossas costas, quase meio-dia, e é sobre folhas caídas que caminhamos, aquele leve crepitar na calçada. Claro que este sol, estas folhas, estas árvores já entraram em algum livro de António Lobo Antunes, porque os livros dele são debulhadoras.
 
Mas se lhe perguntamos:
 
- Nunca toma notas?
 
Ele responde:
 
- Não. Porque não escrevo sobre nada.
 
E não podemos dizer que é mentira. Não escreve sobre nada porque escreve sobre tudo. Não toma notas porque tem aquela memória monstruosa. Agora, por exemplo, está a citar Guilherme de Aquitânia quando aparece uma jovem loura a saudá-lo.
 
- Olá, está bom?
 
Ele apresenta:
 
- É a dona daquele cabeleireiro ali.
 
Cortou-lhe o cabelo no outro dia. Agora só daqui a dois meses.
 
- Nem quero outra pessoa já.
 
O charme.
 
Quanto a populares, as coisas estão a correr-lhe bem. Dizemos-lhe mais ou menos isso e ele:
 
- Deste algeroz para cima sou famoso.
 
E assim medido o horizonte ficamos com uma daquelas pensões de passagem à vista.
 
- Aquilo é a taxímetro. Há várias.
 
Travestis?
 
- Os travestis são mais para lá - aponta para baixo.
 
E volta aos populares:
 
- É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.
 
Claro que depois, além do algeroz, há milhares de pessoas hipnotizadas, por exemplo, a festa Literária de Paraty, Brasil.
 
- Diziam "Fica, fica, fica". Tive de sair de lá com segurança e polícia.
 
A propósito, como é que depois foram parar aos jornais as rosas que levou à brasileira Raquel Cristina dos Santos, quando ela aterrou no aeroporto de Lisboa, alegadamente para se casarem, - as rosas e ele próprio, a recebê-la?
 
- Saiu uma notícia no "Globo", na véspera.
 
E adiante, adiante. Não quer falar mais disso.
 
Nem de propósito, um cavalheiro faz agora o jeito de o cumprimentar a meio da calçada.
 
- Bom dia, sôtor - palmadinha no braço.
- Este senhor toca flauta, é artista - explica António Lobo Antunes.
- Já fui - retorque o cavalheiro, modesto.
- Estava esta senhora a perguntar se as pessoas no bairro sabem quem eu sou. O que é que faço?
- Escreve.
- Ah, achava que não sabia.
 
Palmadinha no braço.
 
O cavalheiro prossegue em sentido contrário.
 
- Era flautista da banda da Guarda Republicana - remata o autor.
 
E depois conta que torceu o nariz a jantar com Kundera, ainda há dias, porque ia ser uma chatice.
 
Também torce o nariz a que lhe falem de personagens, a propósito deste último livro (de qualquer um).
 
- São símbolos de verdades mais profundas, não são pessoas. O que interessa são as palavras. Se eu quisesse contar histórias, contava.
 
É por isso, diz, que a crítica portuguesa o aborrece.
 
- Ainda é muito cedo. Não é nada disto que eu queria, a maneira como as pessoas falam dos livros.
 
A gente, por exemplo, fala-lhe na família deste último livro e ele vai às urtigas.
 
- Famílias! Todos os livros são famílias. Olhe o Tchekov. Não se passa nada mas ele consegue dar as emoções todas. É uma viagem ao interior de nós mesmos. O que são "As Meninas" do Velázquez? As pessoas pensam que são as infantas. Nada disso. Um bom leitor é aquele que pergunta: onde está o livro? O livro só começa quando a gente acaba o livro.
 
E de repente, parando a olhar o passeio, diante da Clínica de Todos os Santos, conta a história de um tio que esteve ali internado.
 
- Era um homem de uma elegância. Eu vinha visitá-lo e o pijama dele estava mais engomado que a minha roupa. E nunca era grosseiro, reles.
 
Estamos a chegar à rua do Conde de Redondo, um sol quase de Verão, já Outubro passou de meio.
 
A propósito, era em França que António Lobo Antunes estava quando o Nobel foi anunciado. Conhecia Herta Müller?
 
- Não, e os franceses também não.
 
Mas um dos prémios que ganhou e gostou de ganhar foi o Prémio Jerusalém, que só é dado de dois em dois anos, e tem vencedores como Borges. Ganhar implica ir lá, Lobo Antunes foi. E então?
 
- Nunca andei sozinho. Não consegui ir ao bairro árabe. De cada vez que eu ia a algum lado, era logo um problema de segurança.
 
Não quer falar mais disto. Em geral, não quer falar do mundo. Começamos a falar-lhe do mundo e quando damos por ele está a falar de livros.
 
Ok.
 
Este livro termina com graças a Deus, e numa das suas últimas crónicas diz que é Deus que lhe guia a mão.
 
- Acho que sim. É uma relação muito íntima.
 
Responde com uma história:
 
- Já perto do fim do meu pai, que era patologista e nunca falou de Deus, perguntei-lhe se acreditava em Deus, o que é uma pergunta muito íntima. E ele respondeu: "O nada não existe na biologia."
 
Isto, ainda vamos nós na Gonçalves Crespo.
 
- Está a ver? Um poeta tão pequeno para uma rua tão grande.
 
E depois de uma pausa:
 
- Tão pequeno, é injusto.
 
Uma mulher põe moedas no parquímetro, outras falam debaixo de uma árvore:
 
- ... tu.
- Tu...
- ... tu...
 
Podia ser um livro de António Lobo Antunes. Ele desenhava logo as letras que faltam.
 
A gente a pensar nisto e ele entretanto a pensar no que pensa - nos livros que escreve.
 
- Não sei de onde é que aquilo vem. Sei que está bem por uma espécie de exaltação interior que às vezes chega às lágrimas.
 
Invoca Beethoven:
 
- A Terceira Sinfonia... pam pam papapa. A melhor crítica que teve foi dizerem: isto não é música, é ruído.
- " pá, pára lá! - grita uma mulher de saia justa ao telemóvel.
 
Caricas Sagres espalmadas na calçada, desce um rapaz com um barril de Super Bock. Cheira a fritos. A croquetes fritos.
 
Lobo Antunes fala do pianista Alfred Brendel e dos seus favoritos.
 
- Não são pianistas sinistros como o Glenn Gould.
 
O Glenn Gould é sinistro?
 
E assim, sem darmos por isso, já António Lobo Antunes está a subir a caminho de casa, e com uma boa razão além dos livros. A filha Joana está quase a ter um bebé. Vai ser outra vez avô.
 
- É esquisito, não é? Ainda agora nasci.
 
3. A cabeça

A porta da rua fecha-se e silêncio. Parado no átrio, António Lobo Antunes reflecte sobre aquele assunto, o Nobel.
 
- Toda a gente sabe quem deve ganhar o prémio da Literatura e o prémio da Paz...
 
Não lhe vamos perguntar pelo Obama. Não lhe vamos perguntar.
 
- ... mas nunca deram o prémio ao Gandhi! Não deram ao Tolstoi!
 
Tenta repetir como um russo:
 
- Tâââlstói.
 
E depois:
 
- Dasssetaiévski.
 
Pausa.
 
- Ando a aprender russo sozinho.
 
Subimos no elevador e cá está a bela casa, a pairar.
 
- Depois, à noite, os livros bons não dormem. Ficam a olhar para nós. Olhe, "Os Irmãos Karamazov" ficam a olhar para si toda a noite. Os livros maus é que dormem. Por isso é que não tenho muita literatura portuguesa contemporânea.
 
Cartão amarelo. Livre. Livre para os que não jogam em casa.
 
Mas ele segue para penalti, atira-se ao resto do mundo:
 
- Diga-me cinco grandes escritores. Não encontra.
 
É preciso chateá-lo:
 
- Em Portugal?
 
Pára fulminado.
 
- Em Portugal?! Está a brincar comigo.
 
Senta-se num dos sofás Ikea, mas de caminho acerta um dos livrinhos que tem em cima da mesa de apoio, porque estava um milímetro mais para a esquerda.
 
É uma colecção de novelas eróticas espanholas "retro".
 
O anfitrião puxa de um SG. De volta a casa, deixou de ter pressa. Quer conversar. E é isto:
 
- Se o Steiner não tem razão ao atacar o Gaddis, e eu acho que não tem, se calhar também está enganado a meu respeito, quando diz que sou o melhor escritor do mundo.
 
Pausa. O olhar vagueia.
 
- Olhe, o seu amigo Pound está ali.
 
Cinco anos. Cisco Kid.
 
E de volta aos pensadores:
 
- Sabe de onde vêm os intelectuais? Do caso Dreyfus.
 
O famoso judeu preso por espionagem que dividiu a Europa em debates apaixonados no início do século XX. Um dos seus mais célebres defensores foi Émile Zola, em "J'Accuse". Dreyfus é um símbolo do ponto a que chegou o anti-semitismo nessa época.
 
- Um grupo de mil pessoas que assinaram por Dreyfus definiram-se cmo intelectuais por oposição a quem trabalhava com as mãos. Depois a palavra foi-se desvirtuando.
 
Por causa de Dreyfus, a gente puxa Proust (o caso atravessa "Em Busca do Tempo Perdido"), mas Lobo Antunes puxa para outro lado e vamos dar à poesia.
 
- Leio mais poesia agora. Aprende-se mais.
 
Portugueses?
 
- Não necessariamente. Mas acho que se alguma coisa temos de bom, pessoas vivas e a escrever, é a poesia.
 
Tem-lo dito, e repetido.
 
Poetas?
 
- Vasco Graça Moura. António Franco Alexandre. Manuel António Pina. José Tolentino Mendonça.
 
E apaga o cigarro dentro do maço. Eis como os cinzeiros desta casa se mantêm.
 
E mulheres poetas?
 
Pensa.
 
- Rosalía de Castro. Emily Brontë.
 
Portuguesas?
 
Pensa.
 
- Temos o António Nobre, apesar de tudo - sorri à Cisco Kid. - O "Só" é um grande livro.
 
Desata a recitar:
 
- " minha terra cheia de sol, ó campanários.
 
A propósito ou não, este "Sôbolos Rios" tem o quê em fundo, que cenário?
 
- Uma vila que não é nomeada e um hospital de Lisboa. Mas isso não é cenário, é plateia.

Lá está ela com o cenário. É como perguntarem: de que é que trata o teu livro? Resposta de D. Francisco Manuel de Melo: trata do que vai escrito nele.
 
Mais um SG, e muda para Hermann Broch.
 
- "A Morte de Vergílio" é espantoso. Aquela chegada dos barcos...
 
De caminho, diz que não gosta de Cervantes.
 
- Mas um dia abri ao acaso e encontrei isto: não podemos fazer nada contra a vontade do céu, sobretudo se está a chover. Passei logo a gostar. O Quixote tem imensos truques, como quando o próprio Cervantes aparece como personagem.
 
Neste ponto, o sol bate nas janelas em frente, reflectindo a rua, e a gente tenta mais uma vez puxá-lo para fora, falar do mundo. Mas ele não ouve, continua a falar.
 
- ... dizia-se que o Vergílio escrevia como as ursas a parir. O parto é difícil e elas levam que tempos a lamber o bebé. O escritor deve trabalhar 10 horas por dia, dizia Horácio, duas para escrever, oito para corrigir.
 
Quando um autocarro trava lá fora, António Lobo Antunes está a falar de Ovídio.
 
- ...custa-me a leveza com que se aborda estas coisas. Um livro tem de ser lido de joelhos. O Proust, por exemplo. O homem leva uma vida inteira a fazer aquilo, depois um caramelo lê e debita sobre aquilo.
 
Podia viver isolado no campo, ou precisa da cidade, deste bairro, de sair à rua, de ver o merceeiro e a cabeleireira?
 
- Não preciso. Dei a voltinha por causa de si. Não é com essas pessoas que escrevo.
 
Ao mesmo tempo também não quer estar com "os que escrevem".
 
- Apetece-me lá. Já não estão cá o Zé [Cardoso Pires], o Eugénio. Sobra o Eduardo [Lourenço]. O Eduardo escreveu sobre mim talvez das coisas mais inteligentes em português. Tenho ali uma fotografia dos dois em que parecemos um casal de namorados.
 
E o que é que anda a ler?
 
- Tenho na mesa de cabeceira a biografia do García Marquéz. Aí está um escritor que gosto de ler mas detestaria ter escrito aqueles livros - tal como o Simenon, o Greene.
 
E García Marquéz dá passagem a isto:
 
- Não há uma cena de sexo num livro meu.
 
O que é verdade, e volta a ser verdade neste último livro. António Lobo Antunes consegue pôr um pedófilo a falar e em tudo aquilo há sempre um pudor profundo.
 
- Não é por uma questão de pudor. É que não é necessário.
 
Já a morte, é atrás dela que andam sempre as palavras.
 
- O que se sente com o cancro é um vazio imenso. Dizem que estou curado. Olhe, aí aprendi muita coisa sobre a vida. E que a maior parte das pessoas são melhores do que eu.
 
Fala na dignidade das pessoas com quem se cruzou na quimioterapia.
 
- Talvez a grande função da arte seja dignificar o homem, e talvez seja o triunfo sobre o sofrimento, a dor, a morte. Em face disto... Agora estou a ficar comovido e é uma gaita...
 
Pára. Olha em volta.
 
- ... não me venha falar de personagens. E como todos nós sofremos tanto, e como nós estamos tão sozinhos. No fundo o que é a fama? Uma soma de equívocos à volta de um nome. Quem é o António Lobo Antunes? Uma soma de equívocos. E depois deixa de ser um nome, uma pessoa, para ser uma marca registada.
 
Acerta os livros da colecção de novelas eróticas, que na verdade não se tinham mexido. Acende mais um SG.
 
- Tive tudo. Deram-me tudo. Nasci numa família boa, com imensa beleza física. Nasci inteligente. Quantos prémios ganhei importantes? Mais de 20, fora os que recusei. Ainda agora, disseram-me que tinha ganho o grande Prémio do Canadá e por momentos pensei que era um piloto de Fórmula 1.


23.10.2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...