21/11/2009

José Alexandre Ramos: Memória de Elefante "a primeira angústia"


A primeira vez que li Memória de Elefante, ainda desconhecendo factos da vida do seu autor, estava longe de perceber que este livro era uma biografia. Revisitado muitos anos depois, e com o que fui aprendendo sobre António Lobo Antunes, sinto-me à vontade para apontar sem qualquer sombra de dúvida este livro como um testemunho autobiográfico de um autor que embora não se estreava na arte de escrever, era estreante entre os autores portugueses publicados no final da década de 70. Os conhecedores da história desta estreia já sabem que o autor foi de férias e quando regressou ficou surpreso pois havia muita agitação à volta do livro, estava a ser um sucesso de vendas.

Não é difícil entender esse sucesso se o enquadrarmos na época (1979). O livro surgiu contra muitos cânones, empregando um discurso pouco usual para o romance instituído, embora já tivessem havido excepções à regra uma década antes com Nuno Bragança ou José Cardoso Pires. E como o próprio Lobo Antunes já disse em entrevistas, todos esperavam as grandes obras literárias que antes não se escreviam por causa da censura, e afinal nada de novo surgira após a instauração da democracia. É natural que, numa época ainda muito confusa de um país acabado de se livrar dos grilhões de uma ditadura de meio século, o barroco metafórico de Memória de Elefante, com bastantes críticas sociais feitas com ironia e caricatura, incluindo o uso de vocabulário tido como obsceno, tivesse despertado a curiosidade de muitos leitores.

Como já referi, trata-se de um livro bastante biográfico - um facto por todos reconhecido, incluindo o próprio autor - onde se torna difícil separar a ficção do realmente vivido (ou confessado em entrevistas pelo escritor). Conta um dia na vida de um psiquiatra desde que começa uma jornada de trabalho até à alvorada do dia seguinte, um homem angustiado por uma variada ordem de factores: a mal explicada separação da sua mulher e duas filhas, a frustração profissional no exercício da psiquiatria no mesmo hospital onde trabalhara o seu pai, a solidão e o desespero, o jogo como fuga à realidade, os fantasmas do passado (guerra e infância), a procura de uma voz para a sua escrita. Ou, em poucas palavras, a terrível procura de si mesmo. Nessa circunstância, o livro vai criando uma tensão à volta das indagações interiores do psiquiatra que se esgota nos dois capítulos finais.

Não é na história que conta que está o valor do livro (facto que só será mais evidente uma década depois), apesar do notório interesse do escritor que era então Lobo Antunes de retratar com uma história condensada em um só dia toda a sua experiência. Está antes nas sementes do seu engenho que se tornará cada vez mais claro depois da catarse feita com este livro e mais dois (Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno):Memória de Elefante usa o discurso na terceira pessoa, mas há fugas para o relato na primeira pessoa, que será a marca do estilo do autor. São essas ainda tímidas fugas para o discurso do eu que ajudam a criar a tensão no livro, em que sentimos que o narrador se mistura com a personagem narrada, ocupando-lhe o lugar, para compreendermos que afinal não é história de um dia da vida de um psiquiatra que se pretende falar, mas o que o próprio tem a dizer de si mesmo, acentuando a falta que lhe faz a presença da mulher de quem se separou, das filhas que só vê aos fins-de-semana, a sua indiferença para com os valores padrão da sociedade e dos colegas do hospital, a sua indisponibilidade psicológica para atender os doentes, a ironia com que observa o comportamento dos outros, e a busca dos afectos ainda que termine o dia numa sala de jogo onde se deixa assediar por uma mulher com o dobro da sua idade, com as mesmas carências e com quem acaba por passar a noite.

Referi ao início o barroco metafórico de que é composto o livro. Existem tantas referências culturais e artísticas quantas as abordagens ao pitoresco quotidiano, recorrendo a um verdadeiro rendilhado metafórico que tanto pode impressionar o leitor menos experiente como enfastiar quem já conheça o melhor da obra de António Lobo Antunes. Na realidade, voltar a ler Memória de Elefante depois de ler as obras mais recentes, é como regredir, onde verificamos a veracidade das declarações do próprio escritor: que é preciso limpar bem o livro de toda a ganga, de toda a sujidade. Ora, não entendendo porém este rendilhado metafórico como lhe chamo como algo negativo do livro (pois sem isso o livro nem sequer poderia existir), já não posso qualificá-lo como uma das melhores produções deste escritor, por haver recurso, direi escusado, a tanta comparação e variada metáfora. Enquadrado no contexto da sua obra, percebe-se que é um dos primeiros livros do escritor António Lobo Antunes muito verde onde se encontram, ligeiramente escondidas, as garantias que o autor amadurecerá.

É a primeira das angústias, falando num todo: a catarse do escritor, os primeiros passos para encontrar a mão e a voz que lhe ditará o estilo sui generis que toda a vida vai obcecadamente procurar, a intenção de contar não histórias mas o interior psicológico e afectivo das pessoas, buscando as palavras para o indizível (segundo a sua noção de que os sentimentos são anteriores às palavras), apanhar a vida toda entre as capas de um livro. Memória de Elefante é, de facto, o início disso tudo.
 

por José Alexandre Ramos
21.11.2009

11/11/2009

Entrevista a Judite de Sousa a propósito de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?





A qualidade dos vídeos não é a melhor, mas dá perfeitamente para entender a entrevista. Este post substitui a antiga entrada no site em "entrevistas" com esta da RTP1 emitida em 22.10.2009.

03/11/2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, a ver as luzes dos barcos. Não ficou bem, recomeça. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, sem ver as luzes dos barcos. Outra vez, corrigindo a partir de frente ao mar. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, mais a ouvir que olhando e não são as ondas que oiço, é o que mora no interior das ondas e as….”

Assim começa o último capítulo do último livro de António Lobo Antunes. E, aqui chegada, é já com alguma saudade que me vou despedindo de todo um suceder de afectos, ou da sua falta, através dos quais as personagens nos vão levando ora hesitantemente, ora sem dúvidas, fortemente, com raiva mesmo, até desvendarmos a história que o autor nos quer transmitir. Ou será aquela que queremos entender? Provavelmente um pouco de ambas…

Um pouco ao jeito do que li anteriormente (Meu nome é Legião), Também aqui as personagens se identificam pelos seus sentires, os seus desamores mais do que amores, as suas mínguas de carinho, as suas existências amarguradas, todas elas. Algumas quase que apagadas; existindo apenas porque tinham que existir, pelo seu propósito na família, mas não existido de facto, não se sentindo o seu ser.

Então, vamos paulatina e inexoravelmente, assistindo à decadência de uma família ribatejana, em que os cavalos e os toiros são (foram) a sua riqueza e o jogo, a droga, a pedofilia, a doença, a sua ruína.

Devo dizer que estava com uma curiosidade extrema e uma impaciência em relação à leitura deste romance do autor que não me lembro de ter tido com nenhum outro. Devido, sem dúvida, a algumas das afirmações feitas pelo autor nas entrevistas que deu; a algumas críticas que fui lendo entretanto e, sobretudo pelo misto de vontade e de receio que tinha em verificar se seria desta que o autor me iria desiludir…

Nem um pouco! Devo dizer que foi dos seus livros (dos que li, claro), se não o que mais apreciei, sem dúvida ficará no topo juntamente com o que li anteriormente, já referido.

O tipo de escrita que utiliza é, do meu ponto de vista, aquele a que já nos acostumou. A.L.A. consegue subverter a forma da linguagem convencional e torná-la, verdadeiramente, numa arte Maior. Só um trabalho intenso, persistente e acurado consegue um resultado final deste quilate. Um trabalho de mestre, sem dúvida, mas desprovido do hermetismo que o tornaria incompreensível.

Que me recorde (e admito que a memória me esteja a falhar) é o primeiro livro que leio do autor no qual ele próprio se dá voz como António Lobo Antunes, sem qualquer margem para dúvida. Também acontece de as personagens interagirem com ele sentindo-se compelidas a dizer (ou não dizer) algo a mando do autor. Interessante, também, esta interacção.

Um aspecto muito falado relativo à construção deste romance foi a utilização muitas vezes mesmo de sobretudo duas frases que, em jeito de estribilho, vão percorrendo todo o livro. Era também um dos aspectos que eu receava não gostar.

Contudo, tão bem me soube lê-las de todas as vezes que surgiram e que oportuno o seu aparecimento me pareceu sempre. Mais um aspecto de pendor poético a juntar a todos os outros que o autor nos oferece…

Para terminar, dado que não me compete a mim contar a história, apenas aqui quero deixar a impressão que o livro me causou, digo apenas:

Mais um livro que li com imenso agrado. Mais uma saudade que me ficou. Mais uma quantidade de momentos bem passados que eu recomendo.
 

Maria Celeste Pereira
02.11.2009

25/10/2009

Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes


Ípsilon, suplemento do jornal Público - entrevista de Alexandra Lucas Coelho
23.10.2009


Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes

A gente quer andar mais pela rua. Ouvi-lo com o merceeiro, a cabeleireira, o flautista da GNR, a dona do quiosque, mas ele dá-nos a volta. Conde de Redondo, Gomes Freire, Gonçalves Crespo, Conde de Redondo. Quando damos por isso estamos outra vez em casa. A casa é como a cabeça dele: livros, livros, livros.


1. A casa

Em que pensa um lisboeta quando lhe falam no Conde de Redondo? Em travestis. Na Judiciária. Numa daquelas ruas cheias de autocarros para cima e para baixo, com pensões de passagem e montras de bairro. Uma rua onde não se passeia, a não ser quem lá mora.
 
Agora mora lá António Lobo Antunes. Mudou-se há dois anos para uma casa que por fora é Conde de Redondo e por dentro podia ser Nova Iorque ou Zurique. Prédio recuperado por um arquitecto, átrio em pedra escura, ferro, madeira, luzes a acender conforme andamos. Um elevador silencioso e, quando a porta desliza, uma espécie de antecâmara do templo: António Lobo Antunes em alemão (a propósito de "Manual dos Inquisidores"), António Lobo Antunes em francês ("António Lobo Antunes et le livre total"), António Lobo Antunes tão novo (ele diria: "quando eu era bonito"), cada poster na sua moldura e por cima a assinatura manuscrita a preto na parede do patamar: António Lobo Antunes.
 
A porta de casa abre-se e aqui está ele - quase novo, quase magro, metade do que estava antes do cancro, aquele olho azul vagueante.
 
Cumprimenta, faz entrar, começa a mostrar tudo.
 
- Gosto desta casa porque é aberta para dentro.
 
O Conde de Redondo é mesmo lá fora, até se vê uma nesga do prédio em frente, encardido, cheio de marquises, e ouve-se, porque a janela está aberta. Mas a casa parece estar fora da cidade, suspensa. Um casulo muito amplo e alto, forrado a livros, todo branco, cinza e ocre, luz coada, linhas rectas sem um grão de pó - e nem uma conta da água, um casaco numa cadeira, um maço de SG Gigante, uma beata, nada.
 
É como se António Lobo Antunes se tivesse mudado para aqui ontem com a roupa que traz no corpo: ele, algumas imagens emolduradas e muitos milhares de livros.
 
- Isto estava na rua - diz, pondo a mão numa formidável mesa de carpinteiro, ainda com os armários de ferramentas e o torno de ferro, que faz as vezes de aparador entre a sala e a cozinha.
 
E a cozinha, virgem, imaculada, espera um chefe que a inaugure, com a mesa de jantar ao fundo e uma estante à cabeceira.
 
De resto, há livros ao longo de todas as paredes, livros de lombada partida, meticulosamente arrumados até à beirinha em estantes claras e sólidas, pouco profundas, sem espaço de sobra para aquelas coisas que as pessoas acumulam em frente aos livros.
 
- Quem lhe fez estas estantes?
- Foi um amigo - atalha. Portanto, era uma pergunta indiscreta, quase como perguntar-lhe por Deus.
 
Eis a biblioteca de um leitor compulsivo, maníaco. Enquanto os repórteres a vêem de perto, ele recua de mãos nos bolsos, mas aqui e ali avança para corrigir uma lombada.
 
- Não gosto de ver as coisas fora do sítio.
 
Que imaginavam? Caos e fumo? É que nem fumo, apesar de António Lobo Antunes ter sempre um cigarro aceso.
 
Mas quem já viu as folhas onde ele desenha as letras (ele gosta de dizer que desenha as letras), talvez reconheça esta disciplina de quem foi educado num mundo antigo (sem cotovelos em cima da mesa).
 
Está com 67 anos, o primogénito Lobo Antunes, e as vezes que fintou a morte, desde a tropa em Angola.
 
No livro que acaba de publicar, "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar", a morte é a matéria de toda uma família - uma filha que morre de cancro, um filho que tem "a doença, a doença, a doença", uma mãe que sempre foi gorda e de repente a roupa está-lhe larga, vai morrer às seis em ponto da tarde, como num poema de Lorca.
 
É um livro com toiros ao fundo (António Lobo Antunes escreve toiros, à antiga).
 
Toiros, azinheiras e uma quinta a alternarem com a casa de Lisboa, o baldio de Lisboa onde uma filha compra droga de injectar, o parque de Lisboa onde um filho compra sexo com meninos, mas tudo isto mesmo lá ao fundo, porque na verdade (como sabe quem o lê) o livro não se passa em lado algum a não ser na cabeça de quem o escreve.
 
E António Lobo Antunes vai aparecendo mais uma vez com o seu próprio nome, invocado, descomposto por pai, mãe e filhos enquanto "aquele que escreve o livro".
 
E mais uma vez este será "o último livro", "o testamento", neste caso dividido nas etapas da corrida de toiros, até que o autor declara "finis laus deo", fim, graças a deus.
 
E quando o leitor vê isto fica a saber que, claro, não é o fim, pois se aquele livro não acabou com António Lobo Antunes, António Lobo Antunes começará outro, mais uma vez.
E assim foi.
 
No começo de 2009, mal acabou de rever "Que Cavalos..." (título, diz ele, de uma canção rural do século XIX), pôs-se a escrever mais uma resma com letras desenhadas. [...] Está em fase de revisão.
 
Lá chegaremos, à resma e à poesia, ali uns degraus acima, numa espécie de pequena mezanine onde o autor agora trabalha.
 
Cá em baixo, junto à janela, a primeira estante tem toda uma prateleira de Odisseias e Ilíadas em várias traduções, depois uma prateleira de Bíblias, Corões e livros sobre religião, e antes de passarmos à terceira prateleira já Lobo Antunes se adianta pela sala.
 
- Quem é este? - desafia, agarrando uma edição francesa, com o polegar firmemente em cima do nome do autor. Só se vê o título: "Carnets". E a fotografia da capa mostra um homem jovem de chapéu e feições finas. A gente pensa em Ezra Pound mas já passou o tempo:
 
- Sua ignorante - diz o autor, movendo o polegar.
É Tchekov, muito novo, sem a cara redonda dos retratos posteriores.
 
A gente diz que está parecido com Ezra Pound, mas o autor acha que está parecido com Johnny Depp - o que vai dar ao mesmo porque Ezra Pound também é parecido com Johnny Depp (ou vice-versa). E entretanto o autor já foi buscar um álbum de fotografias de Tchekov para mostrar como era bonito em todas as fases.
 
Não é comum nos heterossexuais da sua geração, mas quando António Lobo Antunes fala de um homem bonito diz que ele é bonito, de Luandino Vieira a Le Clézio, e muitas vezes começa mesmo por aí.
 
Talvez por também isso não lhe ter faltado - ser bonito.
 
Mas sigamo-lo, porque ainda faltam as fotografias antes de sairmos para o Conde de Redondo, tal como lhe foi proposto.
 
- A estante dos favoritos é aquela - resume.
 
A saber: uma prateleira de Tolstois; outra de Joyces e Pounds; outra de Shakespeares e Dantes; outra com Gogol, Tchekov, Lewis Carroll, William Gaddis; outra com Conrad...
 
- Isto é uma primeira edição que fanei em Chicago.
 
... e Salinger; ou ainda: Rabelais, Cervantes, Eugene O'Neill, Stendhal, Doistoievski, Flaubert.
 
- Não são todos os que gosto, faltam alguns. As Bröntés, a George Eliot estão no corredor...
 
Contorna os sofás.
 
- Isto é do Ikea - gesto largo. - Mas também tenho Philippe Starck.
 
Sobe os degraus para a mezanine e aponta uma pequena mesa quadrada com quatro cadeiras.
 
- Não parece mas é confortável, sente-se lá.
 
A gente senta-se. Muito confortável, com a vantagem - qual Philippe Starck - de termos à mão mil páginas de letras redondas, infantis. Papel, caneta, um cinzeiro-espelho de tão limpo. E na parede mesmo à direita, só poesia.
 
António Lobo Antunes espeta o dedo num Auden.
 
- Este tipo é um grande poeta. Deste também gosto muito [William Carlos Williams]. Esta é uma primeira edição [Lorca, obras completas]. Tem isto? Vale mesmo a pena [Blake, obras completas]. Até aqui tenho poetas de segunda como o Neruda.
 
Da mezanine vai-se para os quartos, passando pela estante dos ingleses: Jane Austen, Virginia Woolf, muitos Graham Greene muito lidos. Em frente, há ensaios; dobrando a esquina, policiais - edições de bolso amolgadas.
 
- Isto é só uma escolha - acentua ele, explicando que muitos caixotes não chegaram a vir.
 
Depois, o primeiro quarto tem centenas de livros e um único autor: António Lobo Antunes.
 
- São as traduções - Uma parede inteira de línguas e alfabetos, de todos os tamanhos e géneros. Há capas feitas sobretudo com letras, e capas como a da edição americana de "Que Farei Quando Tudo Arde", com uma boca de "pin up" entreaberta (uma das favoritas do autor, até está em poster na sala).
 
E finalmente António Lobo Antunes entra no seu próprio quarto "en suite", onde também há estantes altas e baixas. As baixas mantém-se vazias, à espera. Nas altas acham-se os autores portugueses, desde as crónicas medievais.
 
A cama está desfeita.
 
- Peço desculpa.
 
Mas é a prova da existência do homem. E em frente à cama, a grande luz de Marilyn, a rir de perfil.
 
- Uma publicidade para a Chanel - fanada algures, conta ele.
 
Linda.
 
2. A rua
 
E saímos, sim, saímos - como diria Cesariny.
 
No elevador, António Lobo Antunes fala no estado ideal para escrever (entre sono e acordar, ou quando se está cansado), e a gente lembra-se de ele já ter falado disto.
 
Mas o problema com quem deu milhares de entrevistas, e acaba agora de ver sair um livro com mais algumas ("Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes", de João Céu e Silva), é que já a gente já não sabe quando algo é novo. Provavelmente, nem ele.
 
Pára no átrio para abrir o correio. Há uma revista estrangeira.
 
- Quer? - oferece o autor. - Para saber se deito fora.
 
Quando a porta da rua se abre, é como levar um estalo. Cá está a cidade, autocarros a deslocarem massas de ar. Mas dobrando a esquina, uma aldeia.
 
- Gosto deste bairro, porque são merceariazinhas, padariazinhas, lojinhas, parece que estou em Benfica outra vez. Costumo sair para comer aqui à volta, e depois voltar a casa é um sentimento de paz. Eu trabalhava na Gonçalves Crespo, havia um letreiro aqui a dizer-se "Vende-se" e vim ver com a Tereza.
 
Tereza Coelho, sua editora na Dom Quixote. Morreu em Janeiro.
 
- Faz-me muita falta, a Tereza. Era uma óptima leitora. A divisa dela era a dos marines americanos: "Se fosse fácil não era para nós." E tinha a felicidade de ter um marido [Rui Cardoso Martins] que é um homem único. Tenho a maior admiração pelo Rui. É um homem que eu beijo.
 
Viramos para a Gomes Freire.
 
Raparigas indianas no quiosque onde António Lobo Antunes compra sempre, e hoje também.
 
- Olá, bom dia, doutor - diz a vendedora.
 
Ele sorri-lhe, de mãos no mar, nem uma palavra, ela volta costas e sai um pacote de 10 maços de SG Gigante.
 
- A gente já se entende sem falar.
 
Jornais e revistas, népias.
 
Voltamos à direita e ele aponta uns azulejos por cima de uma porta.
 
- Olhe, este painel encantava-me. Ainda pensei vir aqui fanar isto à noite, e depois descobri que havia muitos iguais.
 
É um Camões retratado em 1907, com a evocação: "E vós, tágides minhas..." Agora, do outro lado da rua tem um Club Welness.
 
Entretanto Lobo Antunes está a falar mal de Musil.
 
- Não gosto. Tal como há livros maus de que gosto, há livros bons de que não gosto. Musil, Thomas Mann...
 
Thomas Mann também?
 
- Tirando a "Montanha Mágica" e passagens do "Doutor Fausto", chateia-me de morte.
 
Para onde estamos a ir?
 
- O carteiro deixa-me correio numa merceariazinha.
 
A casa nova tem só dois anos, mas a ligação a este bairro é antiga. António Lobo Antunes costumava escrever na garagem-atelier de um parente, ali adiante, e é à mercearia ao lado que agora vai ver do correio, e tratando o merceeiro pelo nome:
 
- A sua senhora não está? Então dê-lhe os bons dias por mim. Quando é que vai à doutora? Olhe que eu na quarta-feira venho cá buscar os iogurtes.
 
Para o pequeno-almoço, a única refeição que toma em casa.
 
E, chave na mão, abre a garagem-atelier, a esta hora deserta.
 
- Venho aqui uma vez por semana - explica, a apanhar envelopes do chão.
 
Cada bairro é um xadrez, com os seus reis, e é disso que António Lobo Antunes agora fala, da malandragem. A gente sabe como ele gostava de ter sido o Cisco Kid, e já viu o que ele leu de policiais.
 
Entretanto, o sol, aquece as nossas costas, quase meio-dia, e é sobre folhas caídas que caminhamos, aquele leve crepitar na calçada. Claro que este sol, estas folhas, estas árvores já entraram em algum livro de António Lobo Antunes, porque os livros dele são debulhadoras.
 
Mas se lhe perguntamos:
 
- Nunca toma notas?
 
Ele responde:
 
- Não. Porque não escrevo sobre nada.
 
E não podemos dizer que é mentira. Não escreve sobre nada porque escreve sobre tudo. Não toma notas porque tem aquela memória monstruosa. Agora, por exemplo, está a citar Guilherme de Aquitânia quando aparece uma jovem loura a saudá-lo.
 
- Olá, está bom?
 
Ele apresenta:
 
- É a dona daquele cabeleireiro ali.
 
Cortou-lhe o cabelo no outro dia. Agora só daqui a dois meses.
 
- Nem quero outra pessoa já.
 
O charme.
 
Quanto a populares, as coisas estão a correr-lhe bem. Dizemos-lhe mais ou menos isso e ele:
 
- Deste algeroz para cima sou famoso.
 
E assim medido o horizonte ficamos com uma daquelas pensões de passagem à vista.
 
- Aquilo é a taxímetro. Há várias.
 
Travestis?
 
- Os travestis são mais para lá - aponta para baixo.
 
E volta aos populares:
 
- É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.
 
Claro que depois, além do algeroz, há milhares de pessoas hipnotizadas, por exemplo, a festa Literária de Paraty, Brasil.
 
- Diziam "Fica, fica, fica". Tive de sair de lá com segurança e polícia.
 
A propósito, como é que depois foram parar aos jornais as rosas que levou à brasileira Raquel Cristina dos Santos, quando ela aterrou no aeroporto de Lisboa, alegadamente para se casarem, - as rosas e ele próprio, a recebê-la?
 
- Saiu uma notícia no "Globo", na véspera.
 
E adiante, adiante. Não quer falar mais disso.
 
Nem de propósito, um cavalheiro faz agora o jeito de o cumprimentar a meio da calçada.
 
- Bom dia, sôtor - palmadinha no braço.
- Este senhor toca flauta, é artista - explica António Lobo Antunes.
- Já fui - retorque o cavalheiro, modesto.
- Estava esta senhora a perguntar se as pessoas no bairro sabem quem eu sou. O que é que faço?
- Escreve.
- Ah, achava que não sabia.
 
Palmadinha no braço.
 
O cavalheiro prossegue em sentido contrário.
 
- Era flautista da banda da Guarda Republicana - remata o autor.
 
E depois conta que torceu o nariz a jantar com Kundera, ainda há dias, porque ia ser uma chatice.
 
Também torce o nariz a que lhe falem de personagens, a propósito deste último livro (de qualquer um).
 
- São símbolos de verdades mais profundas, não são pessoas. O que interessa são as palavras. Se eu quisesse contar histórias, contava.
 
É por isso, diz, que a crítica portuguesa o aborrece.
 
- Ainda é muito cedo. Não é nada disto que eu queria, a maneira como as pessoas falam dos livros.
 
A gente, por exemplo, fala-lhe na família deste último livro e ele vai às urtigas.
 
- Famílias! Todos os livros são famílias. Olhe o Tchekov. Não se passa nada mas ele consegue dar as emoções todas. É uma viagem ao interior de nós mesmos. O que são "As Meninas" do Velázquez? As pessoas pensam que são as infantas. Nada disso. Um bom leitor é aquele que pergunta: onde está o livro? O livro só começa quando a gente acaba o livro.
 
E de repente, parando a olhar o passeio, diante da Clínica de Todos os Santos, conta a história de um tio que esteve ali internado.
 
- Era um homem de uma elegância. Eu vinha visitá-lo e o pijama dele estava mais engomado que a minha roupa. E nunca era grosseiro, reles.
 
Estamos a chegar à rua do Conde de Redondo, um sol quase de Verão, já Outubro passou de meio.
 
A propósito, era em França que António Lobo Antunes estava quando o Nobel foi anunciado. Conhecia Herta Müller?
 
- Não, e os franceses também não.
 
Mas um dos prémios que ganhou e gostou de ganhar foi o Prémio Jerusalém, que só é dado de dois em dois anos, e tem vencedores como Borges. Ganhar implica ir lá, Lobo Antunes foi. E então?
 
- Nunca andei sozinho. Não consegui ir ao bairro árabe. De cada vez que eu ia a algum lado, era logo um problema de segurança.
 
Não quer falar mais disto. Em geral, não quer falar do mundo. Começamos a falar-lhe do mundo e quando damos por ele está a falar de livros.
 
Ok.
 
Este livro termina com graças a Deus, e numa das suas últimas crónicas diz que é Deus que lhe guia a mão.
 
- Acho que sim. É uma relação muito íntima.
 
Responde com uma história:
 
- Já perto do fim do meu pai, que era patologista e nunca falou de Deus, perguntei-lhe se acreditava em Deus, o que é uma pergunta muito íntima. E ele respondeu: "O nada não existe na biologia."
 
Isto, ainda vamos nós na Gonçalves Crespo.
 
- Está a ver? Um poeta tão pequeno para uma rua tão grande.
 
E depois de uma pausa:
 
- Tão pequeno, é injusto.
 
Uma mulher põe moedas no parquímetro, outras falam debaixo de uma árvore:
 
- ... tu.
- Tu...
- ... tu...
 
Podia ser um livro de António Lobo Antunes. Ele desenhava logo as letras que faltam.
 
A gente a pensar nisto e ele entretanto a pensar no que pensa - nos livros que escreve.
 
- Não sei de onde é que aquilo vem. Sei que está bem por uma espécie de exaltação interior que às vezes chega às lágrimas.
 
Invoca Beethoven:
 
- A Terceira Sinfonia... pam pam papapa. A melhor crítica que teve foi dizerem: isto não é música, é ruído.
- " pá, pára lá! - grita uma mulher de saia justa ao telemóvel.
 
Caricas Sagres espalmadas na calçada, desce um rapaz com um barril de Super Bock. Cheira a fritos. A croquetes fritos.
 
Lobo Antunes fala do pianista Alfred Brendel e dos seus favoritos.
 
- Não são pianistas sinistros como o Glenn Gould.
 
O Glenn Gould é sinistro?
 
E assim, sem darmos por isso, já António Lobo Antunes está a subir a caminho de casa, e com uma boa razão além dos livros. A filha Joana está quase a ter um bebé. Vai ser outra vez avô.
 
- É esquisito, não é? Ainda agora nasci.
 
3. A cabeça

A porta da rua fecha-se e silêncio. Parado no átrio, António Lobo Antunes reflecte sobre aquele assunto, o Nobel.
 
- Toda a gente sabe quem deve ganhar o prémio da Literatura e o prémio da Paz...
 
Não lhe vamos perguntar pelo Obama. Não lhe vamos perguntar.
 
- ... mas nunca deram o prémio ao Gandhi! Não deram ao Tolstoi!
 
Tenta repetir como um russo:
 
- Tâââlstói.
 
E depois:
 
- Dasssetaiévski.
 
Pausa.
 
- Ando a aprender russo sozinho.
 
Subimos no elevador e cá está a bela casa, a pairar.
 
- Depois, à noite, os livros bons não dormem. Ficam a olhar para nós. Olhe, "Os Irmãos Karamazov" ficam a olhar para si toda a noite. Os livros maus é que dormem. Por isso é que não tenho muita literatura portuguesa contemporânea.
 
Cartão amarelo. Livre. Livre para os que não jogam em casa.
 
Mas ele segue para penalti, atira-se ao resto do mundo:
 
- Diga-me cinco grandes escritores. Não encontra.
 
É preciso chateá-lo:
 
- Em Portugal?
 
Pára fulminado.
 
- Em Portugal?! Está a brincar comigo.
 
Senta-se num dos sofás Ikea, mas de caminho acerta um dos livrinhos que tem em cima da mesa de apoio, porque estava um milímetro mais para a esquerda.
 
É uma colecção de novelas eróticas espanholas "retro".
 
O anfitrião puxa de um SG. De volta a casa, deixou de ter pressa. Quer conversar. E é isto:
 
- Se o Steiner não tem razão ao atacar o Gaddis, e eu acho que não tem, se calhar também está enganado a meu respeito, quando diz que sou o melhor escritor do mundo.
 
Pausa. O olhar vagueia.
 
- Olhe, o seu amigo Pound está ali.
 
Cinco anos. Cisco Kid.
 
E de volta aos pensadores:
 
- Sabe de onde vêm os intelectuais? Do caso Dreyfus.
 
O famoso judeu preso por espionagem que dividiu a Europa em debates apaixonados no início do século XX. Um dos seus mais célebres defensores foi Émile Zola, em "J'Accuse". Dreyfus é um símbolo do ponto a que chegou o anti-semitismo nessa época.
 
- Um grupo de mil pessoas que assinaram por Dreyfus definiram-se cmo intelectuais por oposição a quem trabalhava com as mãos. Depois a palavra foi-se desvirtuando.
 
Por causa de Dreyfus, a gente puxa Proust (o caso atravessa "Em Busca do Tempo Perdido"), mas Lobo Antunes puxa para outro lado e vamos dar à poesia.
 
- Leio mais poesia agora. Aprende-se mais.
 
Portugueses?
 
- Não necessariamente. Mas acho que se alguma coisa temos de bom, pessoas vivas e a escrever, é a poesia.
 
Tem-lo dito, e repetido.
 
Poetas?
 
- Vasco Graça Moura. António Franco Alexandre. Manuel António Pina. José Tolentino Mendonça.
 
E apaga o cigarro dentro do maço. Eis como os cinzeiros desta casa se mantêm.
 
E mulheres poetas?
 
Pensa.
 
- Rosalía de Castro. Emily Brontë.
 
Portuguesas?
 
Pensa.
 
- Temos o António Nobre, apesar de tudo - sorri à Cisco Kid. - O "Só" é um grande livro.
 
Desata a recitar:
 
- " minha terra cheia de sol, ó campanários.
 
A propósito ou não, este "Sôbolos Rios" tem o quê em fundo, que cenário?
 
- Uma vila que não é nomeada e um hospital de Lisboa. Mas isso não é cenário, é plateia.

Lá está ela com o cenário. É como perguntarem: de que é que trata o teu livro? Resposta de D. Francisco Manuel de Melo: trata do que vai escrito nele.
 
Mais um SG, e muda para Hermann Broch.
 
- "A Morte de Vergílio" é espantoso. Aquela chegada dos barcos...
 
De caminho, diz que não gosta de Cervantes.
 
- Mas um dia abri ao acaso e encontrei isto: não podemos fazer nada contra a vontade do céu, sobretudo se está a chover. Passei logo a gostar. O Quixote tem imensos truques, como quando o próprio Cervantes aparece como personagem.
 
Neste ponto, o sol bate nas janelas em frente, reflectindo a rua, e a gente tenta mais uma vez puxá-lo para fora, falar do mundo. Mas ele não ouve, continua a falar.
 
- ... dizia-se que o Vergílio escrevia como as ursas a parir. O parto é difícil e elas levam que tempos a lamber o bebé. O escritor deve trabalhar 10 horas por dia, dizia Horácio, duas para escrever, oito para corrigir.
 
Quando um autocarro trava lá fora, António Lobo Antunes está a falar de Ovídio.
 
- ...custa-me a leveza com que se aborda estas coisas. Um livro tem de ser lido de joelhos. O Proust, por exemplo. O homem leva uma vida inteira a fazer aquilo, depois um caramelo lê e debita sobre aquilo.
 
Podia viver isolado no campo, ou precisa da cidade, deste bairro, de sair à rua, de ver o merceeiro e a cabeleireira?
 
- Não preciso. Dei a voltinha por causa de si. Não é com essas pessoas que escrevo.
 
Ao mesmo tempo também não quer estar com "os que escrevem".
 
- Apetece-me lá. Já não estão cá o Zé [Cardoso Pires], o Eugénio. Sobra o Eduardo [Lourenço]. O Eduardo escreveu sobre mim talvez das coisas mais inteligentes em português. Tenho ali uma fotografia dos dois em que parecemos um casal de namorados.
 
E o que é que anda a ler?
 
- Tenho na mesa de cabeceira a biografia do García Marquéz. Aí está um escritor que gosto de ler mas detestaria ter escrito aqueles livros - tal como o Simenon, o Greene.
 
E García Marquéz dá passagem a isto:
 
- Não há uma cena de sexo num livro meu.
 
O que é verdade, e volta a ser verdade neste último livro. António Lobo Antunes consegue pôr um pedófilo a falar e em tudo aquilo há sempre um pudor profundo.
 
- Não é por uma questão de pudor. É que não é necessário.
 
Já a morte, é atrás dela que andam sempre as palavras.
 
- O que se sente com o cancro é um vazio imenso. Dizem que estou curado. Olhe, aí aprendi muita coisa sobre a vida. E que a maior parte das pessoas são melhores do que eu.
 
Fala na dignidade das pessoas com quem se cruzou na quimioterapia.
 
- Talvez a grande função da arte seja dignificar o homem, e talvez seja o triunfo sobre o sofrimento, a dor, a morte. Em face disto... Agora estou a ficar comovido e é uma gaita...
 
Pára. Olha em volta.
 
- ... não me venha falar de personagens. E como todos nós sofremos tanto, e como nós estamos tão sozinhos. No fundo o que é a fama? Uma soma de equívocos à volta de um nome. Quem é o António Lobo Antunes? Uma soma de equívocos. E depois deixa de ser um nome, uma pessoa, para ser uma marca registada.
 
Acerta os livros da colecção de novelas eróticas, que na verdade não se tinham mexido. Acende mais um SG.
 
- Tive tudo. Deram-me tudo. Nasci numa família boa, com imensa beleza física. Nasci inteligente. Quantos prémios ganhei importantes? Mais de 20, fora os que recusei. Ainda agora, disseram-me que tinha ganho o grande Prémio do Canadá e por momentos pensei que era um piloto de Fórmula 1.


23.10.2009

24/10/2009

Helena Vasconcelos: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Estocada final

Seria irónica (in)justiça poética que o ruído criado em torno da personalidade do autor distraia o leitor do ritmo ardente das palavras e da tragédia que estas convocam.

Uma terra quente de toiros e mantilhas, pó e moscas, perdizes e abelhas, com cavalos entre roseiras e azinheiras, um espaço aberto e solar, propício a desmandos e paixões, mas no qual se encravam casas sombrias de longos corredores, portas fechadas e salas a abarrotar de móveis e objectos que se impõem na escuridão, lugares onde se encerram pessoas, as quais, por sua vez, vivem enclausuradas em si próprias, vítimas voluntárias ou involuntárias da velhice, das febres, da demência, da doença, da mentira, de vícios, de traições e de segredos. Nesta cosmogonia caótica, as mulheres, os filhos(as), a criadagem, os animais, todos os mundos - o animal, o vegetal e o mineral - pertencem ao pai e senhor, um facto perfeitamente entendido pelos empregados que "não se enganavam nos garraios, recitavam de cor as famílias, as descendências, os laços... (pág.16). Aqui, neste "Que Cavalos são Aqueles que Fazem Sombra no Mar ?", como no resto da obra de Lobo Antunes, cada um ocupa o seu lugar e tem direito a um quinhão do território geográfico, moral e afectivo onde se desenrolam as comédias e os dramas que o autor redesenha indefinidamente numa espiral vertiginosa cada vez mais intricada. Mas desengane-se o leitor que procura apenas "mais um Lobo Antunes", uma vez que este romance, passado entre Lisboa e o Ribatejo, embora retome as histórias familiares e os lugares habituais do escritor, tem, contudo, a particularidade de se centrar num único tema, que é a Morte, criteriosa, insistente e cruel que se atarda na sua aproximação, nos seus sinais, na sua chegada e nas suas devastadoras consequências, e domina imperiosamente as personagens que se debatem em vão contra as longas doenças, a penosa velhice, a catastrófica perda de faculdades e o esvair das forças. Não é por acaso que a narrativa é marcada por capítulos que remetem para os momentos da tourada - "antes da corrida", "os tércios de capote, de varas e de bandarilhas", "a faena", "a sorte suprema" e "depois da corrida" - com a sua estocada final, violenta e misericordiosa. O terror do toiro antes da lide, esse medo animal e antiquíssimo, surge como leitmotiv. Tal como os estados crepusculares que antecedem o fim - da vida, do dia, do amor -, enfatizados por imagens recorrentes como "a tristeza da casa às três da tarde", "a sombra que os cavalos fazem no mar", a escuridão dos arbustos no Parque Eduardo VII, o porco pestes a ser rasgado de cima abaixo, o cão a ser atropelado e um rol de cenas em que a violência, a humilhação e o exercício do poder sobre os mais fracos (dos homens sobre as mulheres, das mulheres sobre os homens, das mulheres sobre as mulheres, dos homens sobre os homens, das mães e pais sobre os filhos, dos filhos sobre os pais e irmãos, dos seres humanos sobre os animais) completam ciclos de força, fecundidade e morte, simbolizados pelo sentido ritual da tourada.

É este o universo de uma família, feita de pedaços desconexos, que se entrega ao amor e ao ódio em igual proporção: o pai, um marialva amante de mulheres, jogo e corridas que "desarruma o passado"; a mãe, terrível Héstia, fria, sem amor, sem medo e sem remorso; os filhos, Beatriz, abandonada por dois maridos, que toma conta da mãe, Francisco, o mal amado e desprezado, de índole gananciosa e violenta que se sente imbuído de um espírito justiceiro em relação aos irmãos, os quais, segundo ele, delapidaram os bens paternos, Ana que gasta o dinheiro em drogas e João que prefere despendê-lo em rapazinhos. E há Marcília, a figura da eterna criada, sem irmãos nem (aparentemente) família que priva estreitamente com todos e é dona de todos os segredos, como uma pitonisa tão cruel quanto piedosa, tão humilde quanto altiva, tão serva quanto senhora. Aqui, como na vida, o mundo é feito de desordem e de abalos, e todas estas vozes, que falam incessantemente com uma intensidade maníaca, parecem acossadas por uma tal urgência de contar que é difícil não as "colar" ao próprio autor. Tal como no conto tradicional em que uma menina calça os proibidos sapatos vermelhos e é impelida a dançar até à morte, também Lobo Antunes parece sofrer dessa compulsão, desse desejo extenuante - no seu caso, o objecto mágico é a caneta - que o obriga a escrever palavras atrás de palavras, qual oráculo em tempo de catástrofe.
 
Funcionando como um todo auto-significante, este romance pode ser abordado da mesma forma como se "lê" um tríptico de Bosh ou uma cena de Brueghel, uma vez que Lobo Antunes constrói uma teia intrincada e cerrada feita de pensamentos, palavras e olhares (perspectivas) de um grupo de pessoas situadas num espaço que se alarga e contrai, num movimento entre o passado e o presente, entre o imaginado e o real. A construção da narrativa deve muito a Virgínia Woolf em "As Ondas", com as diversas vozes solitárias e desesperadas a funcionarem em polifonia, à medida que revelam factos e exploram os conceitos da individualidade, do "eu" e da comunidade, formando, no entanto, a "gestalt" de uma consciência colectiva escondida e silenciosa.
 
É ainda em Woolf, e em especial no conto "Uma Casa Assombrada", que é possível detectar os antepassados destas personagens fantasmagóricas, que passam de quarto em quarto empurradas pelo vento, as mãos vazias, perante espelhos que não lhes devolvem qualquer imagem. Lobo Antunes vai ainda buscar a Tchekov a obsessão pelos detalhes e pela descrição de objectos - os lustres, os boiões de compota, os números da roleta, o verniz das unhas, etc., etc., - bem como a tendência para alternar acontecimentos triviais com grandes temas - em mudanças bruscas de ritmo e de humor - no intuito de criar a sua própria e muito particular "comédia humana".
 
A convivência de Lobo Antunes com a morte confere-lhe uma autoridade hierática que ele exerce construindo um "panteão" feito de palavras impregnadas por um sopro divino e com um tom profético a que não deve ser alheia uma leitura atenta dos livros do Antigo Testamento, em especial o Eclesiastes. O facto da edição ser ne varietur, por ordem expressa do escritor, confere-lhe esse carácter de "texto sagrado", não passível de ser tocado ou alterado. Seria uma irónica (in)justiça poética que o ruído criado em torno da personalidade de Lobo Antunes - para o qual o autor contribui com bastante afã - abafe o verdadeiro sentido deste livro e distraia o leitor do magnífico ritmo ardente das palavras e da tragédia que estas convocam. É verdade que Lobo Antunes parece estar preso no seu labirinto sem ver a utilidade do fio de Ariane, embrenhando-se cada vez mais numa busca que desdenha a hipótese de uma saída. Aqui, o desabafo final "Finis Laus Deo" parece querer traduzir um grande alívio, o descarregar de um pesado fardo. Resta saber para onde se dirigirá Lobo Antunes "quando tudo arde" depois de destruir todas as pontes atrás de si.


por Helena Vasconcelos
suplemento Ípsilon
(Público)
21.10.2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...